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Império Romano (Germânico)

por Nuno Castelo-Branco, em 10.03.17

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 O Manuel Freire dizia que …não há machado que corte, a raíz ao pensamento"

Pois não, não há e passando isto aos alemães, nossos amigos, aliados e sponsors, cujo país se tornou por vontade própria num merecido mega-saco de boxe, as notícias são veiculadas de uma forma muito imaginativa e quiçá, divertida. Os alemães, nossos amigos, aliados e sponsors pensam, logo existem. 

Por exemplo, ontem aconteceu "aquilo" em Dusseldórfia e como foi então identificado o meliante? Para além do tradicional problema mental que o coloca mais ou menos (felizmente muitíssimo menos!, ufa...) ao nível de Béria, Himmler, Iezhov e outros malandretes da história, disse-se que provinha de um território "da antiga Jugoslávia", entidade agora tão geográfica como América, Ásia, África, Oceânia ou Europa e que terá há muito desaparecido dos mapas políticos. 

Claro…mas, caros aliados e sponsors alemães, assim não dá, não pode ser e como facilmente detectámos a insinuação logo à primeira, parece-nos que têm de ter ainda mais imaginação! Em suma, sejam mais ousados e inventivos.

Nós, portugueses estamos treinadíssimos para este tipo de coisas e no tempo dos nossos pais e avós ou bisavós - ena, ena, já lá vão algumas gerações -, quando nas revistas do Parque Mayer alguém cantarolava qualquer coisa a respeito de Santo António, toda a gente percebia a quem se referia. Era o que se chamava "ler as entrelinhas" e desta forma os portugueses tornaram-se peritos no decifrar de enigmas, as tais indirectas por vezes demasiadamente óbvias. Burricos eram então os distraídos do lápis azul, artefacto que não pode nem deve ser confundido com lápis lazúli. Se não vos agrada este conselho dos vossos amigos aliados e sponsorizados portugueses, sempre podem pedir auxílio indicativo aos russos, ainda mais peritos em contornar esse tipo de dificuldades. Sob 30 graus negativos e na bicha para a garrafinha de leite, sempre arranjavam uma piada muito indirecta que logo pela manhã era contada no metropolitano moscovita, um monumento de engenho e arte.  

Para a próxima, os nossos amigos, aliados e sponsors alemães talvez consigam ainda ser ainda mais politicamente correctos e fazerem um comunicado com este teor:

- "um atacante proveniente de um antigo território do Império Romano, fez isto e mais aquilo. Era um louco comprovado" 

Sempre fica mais abrangente e todos compreenderão. 

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publicado às 16:52

Merkel redux

por John Wolf, em 20.11.16

 

 

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Eu sei que os políticos cá da terra estão entretidos com outras coisas. É como se estivessem noutro planeta. Temos a novela Caixa Geral de Depósitos. Temos a greve dos professores. Temos a nota de cinco euros para somar à pensão dos velhinhos reformados. Temos a esplêndida ilusão de recuperação económica. Temos a  justiça social no seu pleno espelhada no Orçamento de Estado. Temos o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português a conceder o benefício de dúvida à Geringonça, parecido com o benefício da dúvida que Obama está a dispensar a Trump. Temos Marcelo a evitar chafurdar a mão da Rainha de Inglaterra com laivos de Boliqueime. Temos cuspo que afinal é fumo electrónico. Enfim, não falta grande coisa na ementa portuguesa. São tantas as especialidades para o freguês degustar que o tempo passa a voar, e o Natal está à porta. Gostava de saber como encaram os portugueses alguns assuntos mais mundanos. Por exemplo, a recandidatura da inimiga número 1 de Portugal - Angela Merkel -, à liderança da Alemanha (entenda-se Europa). Pois. Seria importante dispensarem uns minutos para pensarem as vossas vidas. O que desejam no sapatinho? Que Merkel "desapareça daqui sr. guarda"?! ou que permaneça como voz activa numa Europa com novas tendências de moda? A pergunta é dirigida em particular aos seus detractores - à Esquerda. Preferem contar com águas de Colónia ou optam por uma revolução sistémica como aquela que decorre nos Estados Unidos? Não vejo em parte alguma da paisagem nacional de reflexões políticas a formulação da equação. A pergunta subserviente tem sido a norma: o que vai exigir a União Europeia a Portugal, e não passam disto. Mas a questão inversa existencial deveria ser colocada: que Europa deseja Portugal? São consternações desta natureza que devem ocupar as mentes programáticas de Portugal. Em vez disso entretêm-se com a remununeração escandalosa de um tal de Sr. Domingues que dizem ser o melhor administrador de caixas à face da terra.

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publicado às 13:26

Meningite bacteriana

por Nuno Castelo-Branco, em 25.07.16

 

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 ...é o que a Alemanha parece ter. O que fazem as autoridades? Recorrem ao Paracetamol, fazendo de conta não conhecer o mal e deliberadamente enganando a população.

 

Como dizia a canção do Abrunhosa, não dá, não dá

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publicado às 08:45

Terrorismus Continuum

por John Wolf, em 22.07.16

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Os governos democraticamente eleitos do mundo ocidental tardam em enfrentar a dura realidade dos factos. O terrorismo já não equivale a incidentes esporádicos que se dissipam num calendário alargado de ocorrências e datas. Os ataques perpetrados em Paris, em Bruxelas, em Londres ou Munique fazem parte da mesma linha de continuidade. As teorias organizacionais, construídas sobre a premissa da existência de células e hierarquias, já não servem para antecipar ou retrospectivamente dissecar os contornos dos ataques. A questão da genealogia ideológica também se secundariza perante a emergência securitária. Por mais que queiram evitar a solução musculada na Europa civilizada, os lideres de sociedades livres em breve terão de encarar o destacamento de forças militares permanentes nas ruas das cidades, a colocação de forças especiais em pontos nevrálgicos das urbes. Não mencionei uma vez sequer a dimensão dos refugiados, dos fundamentos religiosos ou dos conceitos subjacentes ao auto-proclamado Estado Islâmico. Refiro, sem valorações adicionais, o desafio de ordem e segurança que deve ser abraçado a todo o custo. O declínio da capacidade de projecção de poder dos adversários em terras distantes significa a disseminação de esforços fragmentados, mas altamente letais, no encalce próximo da tranquilidade europeia. O 11 de Setembro, intensamente sofisticado do ponto de vista conceptual e operacional, migrou para propostas de terrorismo de fabrico artesanal. Será com os meios disponíveis que os golpes serão desferidos. Os defensores das liberdades e garantias ainda não entenderam que em nome dos mais altos valores de liberdade, o combate implica o arrestar limitado de algumas prerrogativas consensualmente aceites enquanto intocáveis. A Europa está em guerra, mas tarda em admití-lo. Os terroristas de Bruxelas e Paris também elegem lideres. Chegamos a um ponto insustentável que transcende birras fratricidas entre a Esquerda e a Direita, pacifistas e belicistas. Chegou a hora de uma união de facto. A convergência política e efectiva para derrotar os atavismos internos. Chegou o momento da Europa.

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publicado às 22:12

Alemanha e o voto dos refugiados

por John Wolf, em 13.03.16

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Portugal queixa-se da sua Direita, mas a estirpe benigna da mesma deve ser louvada. Paulo Portas, definido pela Esquerda como perigoso e ultra-conservador, afinal foi um dos políticos mais moderados que a história democrática de Portugal conheceu. Mas passemos adiante. A Alemanha enfrenta perigos muito maiores, e, por arrasto, a Europa corre o risco de replicar certas tendências ideológicas. Pela primeira vez na história da Alemanha os refugiados vão "eleger" políticos, e não são uns "quaisquer". O AfD (Alternative für Deutschland), o partido mais jovem de extrema-direita, irá, nas eleições que se seguem, desferir um duro golpe no partido de Angela Merkel e nas demais forças do espectro político moderado daquele país. Putin, malentendido e subestimado, tem sido um formidável jogador europeu, um híper-realista capaz de confundir os seus adversários e lançar o caos na política de salão da União Europeia, ainda crente nas virtudes das suas instituições, mas coxa no capítulo da política externa comum (PESC) - podemos incluir os refugiados no conceito de guerra híbrida da Rússia. Se juntarmos a tudo isto umas pitadas de irreverência monetária de Mário Draghi e do Banco Central Europeu, estão reunidos os factores para uma tempestade perfeita. Os eurocratas têm sido lestos na interpretação dos genuínos desafios que se lhes apresentam. Portugal deve ter algum cuidado com aquilo que deseja. A sorte do país continental é ter apenas duas fronteiras - a do Oceano Atlântico e aquela de Espanha. Se Portugal fosse a Áustria, com as suas sete portas de entrada, não estaria a dançar o bailarico canhoto da Esquerda. Os portugueses devem agradecer a moderação e o civismo político de Paulo Portas que se encontra a milhas de distância dos monstros que estarão para nascer na vossa Europa civilizada. Não vale a pena referir o governo de António Costa e parceiros. Imaginem se o preço da gasolina fosse mais baixo nas ilhas Canárias?

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publicado às 10:54

O Kaiser e a questão social

por Nuno Castelo-Branco, em 03.02.16

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A multifacetada personagem do Kaiser, tem sido pasto de todo o tipo de considerações feitas a posteriori e decorrentes de uma estranha mescla de revanchismo ditado pelos vencedores de 1918 e pela absurda escalpelização e do avaliar de atitudes e pensamentos sem ter em consideração a sua época. Tal como há muito estamos habituados, existe uma inevitável tendência para olharmos para os homens de há um século, segundo os padrões do nosso tempo. O Kaiser surge então como um ente estranho e deslocado daquilo que hoje se considera como aceitável, talvez incomodamente escapando a estas considerações o seu papel na instituição do Estado Social na Alemanha. 

Tal como a obra social entre nós formalmente iniciada pela rainha D. Amélia - e logo abandonada pelas várias repúblicas que sucederam ao golpe de 1910 - que a seu tempo era abertamente ridicularizada, quando não hostilizada pela superestrutura do regime da Monarquia Constitucional e imaginados inimigos do PRP que naquela balbúrdia institucional gostosamente participavam, a provisória instauração dos serviços sociais - direitos do trabalho, creches, escolas, hospitais, seguros de doença, dispensários, institutos científicos, etc - bem depressa saiu da tradicional esfera das ordens religiosas liquidadas pelo liberalismo e passaria a teoricamente pertencer ao âmbito do Estado após um longo interregno de algumas gerações deixadas ao liberal laissez-faire. Em Portugal sofreu hiatos e nem por isso deixou de ser incipientemente realizada a partir dos anos sessenta. Na sua visita a Lisboa, para além das cerimónias e visitas a quartéis, Guilherme II terá interrogado D. Amélia acerca do que a rainha andava a realizar em várias frentes sociais, ficando agradado com o programa que a mulher do seu primo lhe apresentou. 
Na literatura oitocentista, nas mais conhecidas obras de Charles Dickens ou Dumas, entre muitos outros, encontramos facilmente os resultados desta absência de instituições, religiosas ou não, a que o advento do liberalismo conduziu uma população em crescimento demográfico e industrial.
O Kaiser percebeu que o Estado não podia apenas ser o ornamento que garantisse a inviolabilidade das fronteiras, deixando aos magnatas o esforço de enriquecimento de casta, mesmo que isso implicasse a produção dos meios que propiciariam a expansão territorial que inflamava patriotismos em países que à época eram cultural e etnicamente muito multifacetados, tal como o império austro-húngaro, a Rússia, a Alemanha e a própria França e o Reino Unido. Não. Procurando evitar a revolução de que a Comuna de Paris apenas fora um claro aviso, o imperador alemão pretendeu e impôs uma política que concedeu direitos aos sectores alienados pelo mundo dos negócios e do estreitíssimo âmbito dos jogos da política dita partidária. Foi deveras um precursor numa época pouco propícia a matizes entre o claro e o escuro, o maniqueísmo que ainda hoje surge diariamente nas discussões políticas. 

Para mais, Guilherme II, um deficiente físico, consistiu num alvo fácil, aproveitando-se o seu gosto pela pompa muito própria da Belle Époque e o seu jamais esfriado entusiasmo pela vitória de 1871. Os seus modos relativamente deslocados daquilo que "parecia bem", serviram como preciosas armas que o desacreditavam aos olhos de uma manipulável opinião pública que vendo desaparecer os seus filhos no conflito que abrasou a Europa, ansiosamente procuravam um responsável identificável com a principal nação que defrontavam. Sendo um soberano que não se limitava à representatividade nas funções que os Estados por regra atribuem aos nominais detentores das coroas, fez confluir sobre si uma culpa colectiva inventada por vencedores que dela se serviram para explorar um país subitamente caído na anarquia e indefeso pela obrigatoriedade da liquidação da sua força armada. Muito do que sucedeu nos vinte anos subsequentes ao Tratado de Versalhes, deveu-se a esse estéril exercício de uma vingança que um século antes e após mais de duas décadas de incessantes conflitos e devastação do continente, não fora aplicada à França. Hitler foi então um produto da conveniente cegueira e imediatismo político da dupla Clemenceau-Wilson. Se compararmos o Kaiser com os seus contemporâneos presidentes americanos, ficaremos admirados com os paralelismos em termos de poder de influência na condução da coisa pública.

Em 1918, aquela amálgama de nacionalismo agressivo que formalmente tutelava e a contenção da revolução através de uma obra social que a tornou desnecessária e que por isso mesmo concitou à majestade os ódios que genericamente aceitamos sem reservas de qualquer espécie - a revolução "que viria de baixo" -, condenou-o eternamente como um dos malditos do século XX. A meu ver e como há muito digo, uma condenação muito injusta. 

Ao contrário do que se propala, Guilherme II não era nem parvo, nem ignorante e muito menos ainda, o belicoso psicopata que conformou a imagem propalada e deixada ad eternum pelos vencedores. Um imprevidente excêntrico? Certamente. Talvez sejam estes dois factores os que mais concorrem para a sua lenda negra, aproveitando-se como cúspide do monumento, o desastre europeu na Grande Guerra.

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publicado às 16:46

Caos em Colónia

por João Quaresma, em 08.01.16

A revista Der Spiegel noticiou ontem o relatório da polícia federal alemã sobre os distúrbios e ataques de muçulmanos contra mulheres na noite da passagem de ano em Colónia, que qualifica a situação vivida como caótica e vergonhosa, tendo as forças policiais sido completamente ultrapassadas pela dimensão dos acontecimentos e pela atitude desobediente e desafiadora dos desordeiros, e ainda a impossibilidade de socorrer pessoas que pediam ajuda. Citando:

"According to the report, officers encountered many distraught, crying, frightened pedestrians, particularly women and girls. They reported "fights, thefts, sexual assaults against women, etc." Groups of male migrants were repeatedly named as perpetrators.

(...)

The report lists several examples of police officers' experiences:

  • Officers were hindered from pushing their way through to people calling for help by tight clusters of men.
  • A man is quoted as saying: "I'm a Syrian! You have to treat me kindly! Mrs. Merkel invited me."
  • Witnesses were threatened when they provided the names of perpetrators.
  • People reportedly demonstratively tore up residence permits in front of the police, grinned and said: "You can't touch me. I'll just go back tomorrow and get a new one." The report did not, however, confirm the authenticity of the documents.
  • Orders for people to leave the premises were ignored; taking repeat offenders into custody was not possible due to lack of resources.
  • After track closures due to overcrowding, people simply forced their way over adjacent platforms and train tracks back to the closed platform.
  • Physical fights broke out as trains were being boarded; it was "every man for himself."

O artigo completo: Cologne Assaults: Police Report Outlines 'Chaotic and Shameful' New Year's Eve

 

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publicado às 02:25

Sobre a Alemanha

por Samuel de Paiva Pires, em 31.08.15

Os alemães que acolhem de bom grado milhares de refugiados que atravessam o Mediterrâneo são os mesmos que punem com medidas de austeridade, de há anos a esta parte, os povos de países que fazem parte da União Europeia, fomentando Merkel e Schäuble a desconfiança generalizada em relação ao futuro do projecto europeu. Desculpem-me a intromissão, podem continuar a elogiar os alemães.

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publicado às 11:30

Passa a massa, Merkel!

por John Wolf, em 06.02.15

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Não é preciso ler a obra de Niall Ferguson - A Ascensão do Dinheiro -, para saber que os pressupostos do crédito estão a ser postos em causa no âmago da União Europeia (UE). Sem percorrer esse perigoso caminho das compensações históricas* que são devidas ou não, e que não pouparia nenhuma nação à face da terra, o que resultar do conflito que opõe a Grécia à Alemanha pode destravar por completo a já de si ténue relação entre dinheiro e Ética.  Se vingar a tése do perdão, certamente que uma extensa fila de faltosos procurarão tratamento idêntico - situação essa contraditoriamente inexequível. O crédito (como quem diz a crença que os outros depositam em nós) precede a existência física de dinheiro - o bom nome é a divisa maior, mas apenas se valida através da sua extensão material. Se esse fundamento deontológico que se encontra por detrás da construção monetária das nossas sociedades falhar, como podemos esperar que não mine todo um sistema de transacções? Como podemos aceitar que a excepção à regra se venha a tornar a norma? São considerações desta natureza que podem corromper um dos valores mais importantes do acervo existencial humano: a confiança. Não pretendo com esta linha de argumentação libertar os credores do seu sentido de responsabilidade no contexto de um projecto europeu alegadamente inclusivo e nivelador de diferenças. Culpados? Sóis todos vós europeus por terem concebido um modelo sistémico deficiente. Em nome de uma grande "entidade económica europeia concorrencial" os visionários foram ambiciosamente incompetentes. Avançaram a causa dos negócios, mas omitiram a federação do espírito das nações. Esqueceram-se dos pilares de justiça e segurança social, e prescindiram de uma efectiva Política Externa e de Segurança ComumA Grécia, assim como o conflito na Ucrânia, servem, de um modo cáustico, para expor as grandes lacunas da UE.  Se os lideres europeus tiverem a visão e a ousadia requeridas, a grande reforma poderia ser posta em marcha na construção de uma nova ordem na Europa. Mas não é disso que se trata. Quer a Alemanha quer a Grécia estão a defender os respectivos interesses nacionais. Merkel e Tsipras estão, efectivamente, empatados: querem salvar a sua pele e pouco mais. A tal união - essa não passa do papel, da massa.

 

*Compensações históricas possíveis:

EUA ao Iraque, à Nicarágua e ao Afeganistão.

Portugal a Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde

França à Argélia e à Líbia

Etc a etc, etc e etc

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publicado às 13:52

Novas realidades, as velhas certezas

por Nuno Castelo-Branco, em 27.01.15

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Contrariamente ao que muitos pretendiam, o caso ucraniano  parece ter passado para um plano muito secundário nas preocupações da imensa maioria dos europeus. Sem de forma alguma questionar-se a independência da Ucrânia, a situação tem evoluído para um estado de ponto morto sem grandes avanços ou recuos por parte de qualquer um dos contendores.  Esta é a situação que agora mais interessa ao Kremlin, para já assoberbado com problemas económicos e pressões das facções que se digladiam em torno de V. Putin.

No ocidente, poucos quiseram entender quais os limites que deveríamos impor à nossa Aliança no superior interesse da paz na Europa e na evidente necessidade de podermos contar com a colaboração russa noutras áreas geográficas que constituem a vizinhança próxima e ameaçadoramente instável, ou seja, todo o Magrebe, a zona do Suez e o Médio Oriente. De nada serviram as advertências passíveis de retirar de qualquer manual básico de história, fazendo-se pouco ou nenhum caso de eventos que para o bem e para o mal, continuam muito presentes na psique russa. A natural sugestão de uma finlandização da Ucrânia - ou seja, a progressiva adopção de uma economia e de um tipo de organização política do Estado - que a aproximasse da UE, em simultaneidade com uma certa neutralização que tranquilizaria Moscovo, foi loucamente ignorada no quadro dos principais decisores na Aliança Atlântica. Cometeram-se flagrantes erros, concederam-se demasiados incentivos ou informais garantias a responsáveis políticos como Sikorski - e inacreditável audiência à sua sempre enervada cônjuge em ambicionado tirocínio para a Secretaria de Estado -, num plano tal, que muitos apontaram de imediato um recôndito desejo de revisionismo de fronteiras. Tal será possível, mas apenas com o recurso ao desencadear de uma guerra muito diferente daquela que temos em Donetsk e Lugansk. É impossível encontrar qualquer consenso europeu para uma catástrofe desta dimensão.

A ninguém passa despercebida a evocação do período imediato a 1919, com tudo o que isso significa em termos de reordenamento territorial e demarcação de áreas de influência, quando não de reservada e ainda não ostensivamente declarada reivindicação de novas fronteiras. Parece ser avisado o recurso à tentativa de uma visão mais alargada deste problema artificialmente criado logo após a liquidação da aventura soviética, quando as fronteiras foram delineadas segundo o risco arbitrariamente imposto pelo caído regime de Lenine, Trotsky, Estaline, Kruschev e Brezhnev. Ficções que serviram para formalmente garantirem uma aparência de realidades nacionais nas Nações Unidas, foram herdadas por novos Estados internamente pouco coerentes e com situações económicas agravadas pela implosão daquilo que foi o frágil mercado interno soviético. O episódio da Crimeia, já consumado e sem retorno, é apenas o exemplo mais flagrante, podendo lobrigar-se outros na zona do Cáucaso ou nas imediações da fronteira romena. O cerne de toda a questão pode resumir-se ao alinhamento da vasta região que se chama Ucrânia - não se esquecendo a Moldávia - num dos potenciais blocos em presença, ou seja, a UE e apêndice NATO, ou o regresso à esfera de influência russa. Sabe-se que o Kremlin condescenderia com uma finlandização que até proporcionaria claras vantagens políticas e económicas, afastada que estaria a ameaça militar e a ofensa a patrióticos brios desde sempre cultivados pelos russos, seja qual for o regime vigente. 

 

Na Europa, há quem tenha entendido serem os EUA o essencial elo - tem sido esta a realidade - que pode manter a pressão sobre Moscovo, conhecendo-se também a cada vez maior relutância de algumas potencias continentais - França, Alemanha e agora, ainda num plano secundário, a Polónia - no enveredar de uma declarada política de confronto directo que de antemão significa graves prejuízos para os interesses económicos e de segurança geral. Ao longo dos últimos vinte anos, os americanos têm-se paulatinamente distanciado dos assuntos europeus, apenas intervindo na ilusória esperança de poderem manter a omnipresença saída de 1945, com o recurso a avanços pontuais na criação ou resolução de crises na Europa balcânica e de leste.  Apenas um exemplo? A crise jugoslava que se desenrolaria ao longo de anos e culminaria no Kosovo. Todos já percebemos serem outras as prioridades que a ascensão da China impõe, embora a zona de segurança próxima da Europa - Cáucaso e Médio Oriente - signifique algo mais que perímetros defensivos de índole meramente militar. A verdade é outra, verdade esta que não escapa a regra económica e o reordenamento do (des)equilíbriio de forças na região onde a Turquia e o Irão passaram a ser agentes activos e muito interessados. O reconhecimento disto? Após a catastrófica queda do regime do Xá Reza Pahlavi e o resvalar do Irão para a colecção de inimigos sagrados, temos a progressiva abertura da administração Obama a um relacionamento com Teerão, ao abjecto regime dos aiatolás, logo se seguindo outras aproximações entre as quais a de Portugal - um Estado naturalmente satélite de Washington - é apenas um, entre outros exemplos. 

A crise do Euro e das dívidas soberanas, fez estremecer a já aparentemente consolidada relação de forças na Europa, com o bastante perceptível volver das atenções alemãs para leste, para a sua tradicional zona de influência forçosamente a partilhar com a Rússia fornecedora de matérias primas e de um mercado continental que ultrapassa a Sibéria e chega ao Mar do Sul da China. Apesar do patético e inútil alarido tablóide contra Merkel - imaginemos então o que seria, se em vez de Merkel tivéssemos um dirigente da categoria de Schmidt, por exemplo -, os alemães vão tentando manter a construção europeia que herdaram do período anterior à queda do Muro. Por muito que isto desagrade aos garimpeiros da mina da culpabilidade real ou imaginada, esta é a verdade. Contudo, os apressados alargamentos que consumaram a agora periclitante União, não foram de molde a conceder mais consistência ao mercado e muito menos ainda, à moeda única outrora insistentemente exigida por uma França aterrada pela reunificação da Alemanha. Atrás dos alemães que agora praticamente desarmados, não podem ser acusados de belicismo, estão praticamente todos os países da Europa central, do norte e do leste, todos eles interessados na tranquilidade e satus quo das fronteiras, ciosos pelo cuidar da economia e não descurando o fornecimento de matérias-primas onde a energia tem a parte de leão. A perspectiva de bons negócios para o longo prazo, dita a progressiva alteração das políticas daqueles Estados pertencentes a uma UE aparentemente em rápido processo de disfunção, sendo cada vez mais evidentes os interesses divergentes entre o norte e o sul, assim como entre o leste e o oeste. 

 

O regime de Putin é avesso às conhecidas realidades  políticas e sociais para cá do Óder? É, mas agora, pela primeira vez desde há cem anos, nunca os russos compraram e consumiram tanto, viajaram, leram, livremente viram e fizeram tanto teatro e cinema sem "licença do Partido". Sobretudo, estes russos investiram de tal forma, que dissiparam muitos dos receios quanto a invasões protagonizadas por tanques ou Spetsnaz caídos do céu. Putin obteve assim alguma condescendência na zona do Danúbio e talvez, nas margens do Egeu onde decerto poderá envidar  esforços para um aumentar da sua influência em países onde a ortodoxia - no laicizado ocidente europeu, o factor religioso é escassamente considerado, um tremendo erro de cálculo dos decisores políticos - consiste num factor muito importante. Além de tudo isto, os europeus estão extremamente receosos daquilo que ocorre no norte de África e no Levante, conscientes do que hoje significam as importantes comunidades muçulmanas que sem qualquer dúvida, mantêm-se bastante silenciosas ou discretas quanto à condenação das barbaridades que quotidianamente nos chegam pelos noticiários. Se se trata de receio pela pressão moral e física de minorias activistas, ou de um resignado contentamento por aquilo que pode ser considerado como um certo revanchismo relativo ao bem patente naufrágio civilizacional do islão ao longo dos últimos seis séculos, isso não podemos garantir.

Putin apresenta-se a muitos como um aliado natural, tal como outrora o autocrata Nicolau II foi ansiosamente aguardado como o salvador militar - o mito do Rolo Compressor russo - da laica e republicana França de Poincaré, Clemenceau e Ribot. Sabe-se que o sucesso no Marne em boa parte se deveu à invasão da Prússia Oriental no verão de 1914, tal como o resultado de Verdun teve muito a ver com as operações russas na Galícia austríaca. Mais tarde, Estaline apresentar-se-ia a leste, como o mais plausível aliado das ultra-capitalistas potências anglo-saxónicas muito lestas no apagar das memórias sangrentas da implantação do regime soviético, das fomes induzidas e massacres conducentes ao Holodomor, das Grandes Purgas e do Pacto de 31 de Agosto de 1939. A lealdade ocidental para com a Polónia, não impediu o ocultar da conhecida verdade - desde 1943-44 - acerca de Katyn, um pequeno pormenor no vasto panorama oferecido pela gestão de interesses contraditórios entre as potências aliadas e o poderoso José Estaline.

 

Chegou ao fim, o já longo período de transição pós-Queda do Muro. 

 

Pelos vistos, nesta Europa do início do século XXI, mais que nunca ameaçada interna e externamente, os russos bem depressa passarão a ser encarados como incontornáveis - desejados ou não desejados - parceiros. Aqui está o primeiro dado, aquele que sendo tão evidente, relevante e para alguns desagradável, parece contudo invisível para quem pretende manter a equação impossível: manter a hegemonia na Europa, dela se retirando e estabelecendo-se noutras paragens. O caso da Base das Lajes é neste contexto, apenas mais um entre inúmeros exemplos.  

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publicado às 14:35

Catarina Martins zarpa com Tsipras

por John Wolf, em 13.01.15

Syriza

 

Catarina Martins irá zarpar para estar ao lado do camarada Tsipras durante as comemorações da provável vitória do partido Syriza. À falta de um guião original o Bloco de Esquerda (BE) vai coleccionar argumentos de reestruturação da dívida na capital Grega. Não sei se vale a pena a viagem. Em primeiro lugar o BE nem sequer está perto da sombra do poder. E em segundo lugar, a táctica de ameaça (ou sua inversão) não parece dar grande resultado. O tira-teimas entre a Grécia e a Alemanha é inexistente. Merkel já avisou que a União Europeia (UE) pode resistir ao impacto de uma saída da nação grega do Euro. Nem mais um sacrifício pelo Euro? A Grécia (assim como outros Estados-membro da UE) receberam dinheiros a fundo perdido, décadas e décadas a fio. A questão também deve ser colocada ao contrário porque os gregos receberam, e muito, dos contribuintes alemães, mas também dos belgas, dos franceses, dos portugueses, dos ingleses e dos espanhóis, para todos os efeitos materiais desta discussão de quem deve mais, e como quer pagar. Uma reestruturação da dívida não faz o problema desaparecer - passa apenas o mesmo para as gerações seguintes. E é esse o desafio que muitos enfrentam. O sacrifício duro do presente versus a repressão imposta no futuro. Temo que Tsipras, assim que se sentar na cadeira do poder, venha a subir o tom do seu discurso e venha a usar o argumento de ameaça de saída do Euro à luz da intransigência de Bruxelas, que não vai em reestruturações de dívida, ou coisa que o valha.

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publicado às 18:44

Os canhões do SMS Königsberg

por Nuno Castelo-Branco, em 04.08.14

 

Uma das 10 peças de 150mm retiradas do SMS Königsberg

 

 

O jornalista Manuel Carvalho é o autor de alguns textos muito interessantes sobre a participação portuguesa na I Guerra Mundial, dando especial atenção à frente de Moçambique. No texto ontem publicado, menciona um dos temíveis canhões do cruzador ligeiro SMS Königsberg que tantas preocupações causou aos militares portugueses e ingleses. 

"Para o que restava da Coluna de Masasi, porém, não havia escolha possível. Há oito dias que estava isolada, com a primeira linha de trincheiras alemãs a apenas 200 metros do posto avançado. Pelo lado do ligeiro declive que fica em frente ao forte, a fuga teria de romper essas linhas, uma missão irrealizável por uma tropa desmoralizada e faminta. Restava a descida da escarpa íngreme voltada para o sul, a primeira escada de um caminho que levaria até à selva e, com sorte, ao Rovuma. Os sitiantes, que faziam parte dos destacamentos Heinrichs, Sprockhooff e Rothe seriam uns 500, cerca de metade da força portuguesa, e tinham deixado os rijos combates no Norte contra os britânicos e sul-africanos para acabar com as veleidades portuguesas. Mas podiam ser abastecidos. E por volta do dia 27 soube-se que tinham instalado a cinco quilómetros o temível canhão do Konigsberg, um couraçado afundado em Julho de 1915 em Dar-es-Salam, após cinco horas de bombardeamento inglês, e entretanto arrastado pelo mato por milhares de carregadores indígenas, capaz de efectuar disparos até 13 km de distância."

 

Nota: o autor designa o SMS Königsberg como sendo um couraçado, mas a realidade era outra, pois este navio era um cruzador ligeiro  da armada imperial.

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publicado às 14:00

Esta manhã, em Liège

por Nuno Castelo-Branco, em 04.08.14

 

Foi a sensatez e sentido das proporções que para nossa desgraça, faltou aos Costas, Bernardinos e Camachos. Durante quatro anos  Afonso XIII tudo fez para manter a neutralidade espanhola, sendo por isso mesmo homenageado pelos seus compatriotas e pelos estrangeiros de ambos os campos em combate. O monarca desenvolveu um inestimável serviço junto dos prisioneiros de guerra, estabelecendo contactos, garantindo o correio, vigiando o tratamento ministrado pelos captores, distribuindo o precioso auxílio moral e  material. Quando após a sua deposição chegou a Paris e logo em seguida a Londres, foi recebido por multidões agradecidas pelo seu trabalho durante a tragédia que foi a Grande Guerra. 


No âmbito do centenário da eclosão da I Guerra Mundial, Filipe VI está hoje em Liège, não se entende bem a razão. Podemos considerar uma explicação para além deste insólito pro forma. Sendo um trineto do Kaiser Guilherme II, talvez a esse facto se deva a sua presença, juntando-se aos descendentes de Alberto I dos belgas e de Jorge V da Grã-Bretanha. Uma foto da família agora não desavinda. 

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publicado às 10:04

Antes da série 37 Days...

por Nuno Castelo-Branco, em 01.08.14

...a fantástica série  A Queda das Águias. No youtube. 

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publicado às 22:20

O erro da narrativa da desresponsabilização da Alemanha

por Samuel de Paiva Pires, em 17.07.14

É cansativo ver repetida, quase ad nauseam, a ideia de que a Alemanha não tem qualquer responsabilidade na crise que o Velho Continente vem atravessando. Desta feita, e motivando este meu post, li-a num texto do João Távora. Curiosamente, não me recordo de ter visto qualquer dos proponentes desta narrativa suportarem-na com argumentos, dados, factos históricos. A explicação é simples e talvez fique a dever-se ao facto de muitos confundirem as suas crenças e vontade de recriminar Portugal, os portugueses e os seus líderes políticos - que também têm responsabilidades, e muitas, na crise que atravessamos, mas não são exclusivas -  com a realidade: é que aquilo que defendem está errado. É, apenas e só, wishful thinking. Isto motivou-me, já há uns bons meses, a investigar as origens da crise do euro, o que resultou num ensaio que apresentarei nesta conferência.

 

Começando no estabelecimento da União Económica e Monetária - em que prevaleceu a visão do Bundesbank de um BCE inspirado no seu modelo, centrado quase exclusivamente na estabilidade de preços -, que não era e continua a não ser uma Zona Monetária Óptima, circunstância agravada pela inexistência de uma união orçamental que permitisse uma gestão macroeconómica conjunta, o que a torna propensa a choques assimétricos; passando por uma fragilidade estrutural essencial para a compreensão da crise, segundo Paul De Grauwe, que é a perda da capacidade de os países emitirem dívida numa moeda própria, emitindo-a numa moeda que não controlam, pelo que estão, assim, mais facilmente à mercê dos mercados financeiros e podem ser rapidamente precipitados por estes para um default; e chegando aos anos da crise do euro, em que o diagnóstico da crise da dívida soberana grega foi erradamente generalizado a outros países, conforme Jay Shambaugh sublinha, servindo como justificação para prescrever pacotes de austeridade e reformas estruturais que, per se, não são suficientes para superar os constrangimentos resultantes das fragilidades estruturais da UEM, conclui-se que estas fragilidades não só resultam da perspectiva alemã aquando das negociações que levaram ao seu estabelecimento, como aproveitam actualmente à Alemanha. Hans Kundnani assinala que a actual situação, com um euro fraco (segundo Andrew Moravcsik, a taxa de câmbio real da Alemanha, actualmente, está 40% abaixo do que estaria se o país ainda tivesse o marco alemão), é a ideal para a economia alemã baseada nas exportações e avisa que o narcisismo económico da Alemanha coloca toda a Zona Euro em causa. Assim, a Alemanha está actualmente numa posição muito confortável, com um euro fraco que favorece as suas exportações, tornando-a a economia mais competitiva da Zona Euro, e, em parte em resultado disto, encontra-se de forma indisputada na liderança política da UE, tendo a cooperação entre países soberanos sido relegada em favor de uma dominação de facto por parte de Berlim. Ulrich Beck resume de forma lapidar esta situação em A Europa Alemã: "Como a Alemanha é o país mais rico, agora é ela que manda no centro da Europa." A austeridade imposta erradamente aos países sob resgate financeiro permite à Alemanha manter este status quo em que, nas palavras de Moravcsik, ao "utilizar uma moeda subvalorizada para acumular excedentes comerciais, a Alemanha actua como a China da Europa."

 

Por tudo isto, caro João, o que é uma fatalidade para nós portugueses – e outros como nós –  é persistir no erro de acreditar na narrativa da desresponsabilização alemã, que não tem correspondência com a realidade. Fatalidade esta que se torna particularmente trágica atendendo a que muitos dos decisores políticos acreditam nesta narrativa, pelo que, ingenuamente ou não, acabam frequentemente a servir mais os interesses alemães do que os interesses das nações que os elegem.

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publicado às 18:20

Bitte schön

por Nuno Castelo-Branco, em 30.06.14

Se vivêssemos normalmente, este seria apenas um jogo tão relevante como uma jantarada com alguns amigos. Não é assim. Esperemos que esta noite os Fritz zelosamente façam aquilo que se tornou imperioso, eliminando certos delírios. É desejável um resultado muito folgado, arrogante e sem margem para dúvidas. 

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publicado às 07:21

O mundial não acaba aqui

por Samuel de Paiva Pires, em 16.06.14

Sim, a selecção nacional fez uma pobre exibição. Mas a Alemanha também não jogou nada por aí além - teve uma eficácia tremenda, claro. Sim, faltou velocidade, garra e eficácia a Portugal, e houve jogadores que em determinados momentos nem pareciam lá estar. Sim, Paulo Bento é um seleccionador teimoso e que errou ao não levar jogadores como Quaresma e Adrien ao Mundial.

 

Mas os meus amigos crédulos que não querem ouvir falar nos árbitros ou os que acham que não nos devemos queixar dos árbitros terão de me desculpar. É que o futebol tem regras que devem ser garantidas pelo árbitro, um ser humano e, logo, falível, susceptível a erros e manipulações. Portanto, colocar os árbitros num plano de soberania neutral é, no mínimo, uma valente ingenuidade. É, em analogia, o mesmo que achar que o Tribunal Constitucional é absolutamente imparcial e, de repente, perceber que, afinal, é um orgão político, não apenas jurídico - isto, claro, para quem acredita na carochinha, como se o Tribunal Constitucional pudesse não ser um orgão político, mas parece que temos umas quantas alminhas que ainda não tinham percebido isto.

 

Agora, coloquem-se no lugar dos jogadores da selecção nacional, por pior que tenha sido a exibição. Entram em campo depois de já terem assistido a vários jogos e arbitragens suspeitas, com penáltis altamente duvidosos a serem recorrentes, e sabendo que há notícias de que a Interpol estará a investigar jogos alegadamente combinados. O jogo começa equilibrado e aos 12 minutos o árbitro marca um penálti muito forçado contra Portugal, cujo critério, se fosse efectivamente imparcial, implicaria assinalar um penálti evidente sobre Éder na segunda parte. A desmoralização é, inevitavelmente, imediata. Pouco depois, Pepe comete um erro imperdoável, mas que em parte alguma do mundo seria motivo para o cartão vermelho que viu - e, novamente, não deixa de ser questionável tanto rigor por parte do árbitro para um dos lados em contenda, e tão pouco para o outro, com várias faltas por assinalar.

 

Ninguém diz que a selecção nacional não tem responsabilidades pelo que aconteceu. Mas há mais variáveis que contribuíram para o resultado final. E o árbitro foi uma variável determinante.

 

Posto isto, o mundial não acaba aqui. Há, para já, dois jogos para ganhar. Força, Portugal!

 

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publicado às 20:25

A reactivação da crise europeia

por Samuel de Paiva Pires, em 29.05.14

Viriato Soromenho-Marques, "Entre o abismo e o milagre":

 

"A expressão "terramoto" usada pelo primeiro-ministro francês Manuel Valls para classificar a vitória esmagadora da Frente Nacional de Marine le Pen em França não é uma metáfora. Apenas uma descrição realista. Atravessando o canal da Mancha em TGV, quem desembarcar na estação de Waterloo encontrará uma Grã-Bretanha onde o arqui-inimigo da União Europeia, Nigel Farage, líder do UKIP, encostou à rede os donos do sistema bipartidário que reina há muitas gerações na Velha Albion. Estas eleições europeias iniciaram uma reativação da crise europeia, com duas diferenças. Em primeiro lugar, a crise que até agora estava localizada essencialmente na periferia europeia (de Portugal até à Grécia) passou para o núcleo duro carolíngio do projeto europeu, para os países centrais da Declaração Schuman. Em segundo lugar, a crise que era capturada por um discurso dominantemente económico e financeiro vai agora traduzir-se numa linguagem política sobre o poder, os direitos, as instituições. Até que ponto é que o governo da chanceler Merkel percebe a mensagem que lhe está a ser enviada pelos novos e bizarros bárbaros do Ocidente? Será que ela perceberá que se persistir na atual "Europa alemã", baseada na austeridade, irá acelerar a destruição da própria ideia da unidade europeia, por muitos e dolorosos anos? Não basta dizer que importa criar emprego. É preciso rasgar o império do Tratado Orçamental, com o seu calendário de destruição económica e sofrimento social, sob pena de enlouquecer os europeus com o velho vírus da doença autoimune que, se não for combatido, acabará por incendiar a Europa."

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publicado às 23:13

Do diagnóstico errado à receita da austeridade excessiva

por Samuel de Paiva Pires, em 11.05.14

No primeiro semestre do doutoramento, no âmbito da cadeira de Temas Aprofundados de Economia Política Internacional, escrevi um ensaio sobre a crise do euro que, eventualmente, virá a público até ao fim deste ano. O argumento central é o de que o diagnóstico alemão da crise é errado e, logo, a receita da austeridade também. Afirmo ainda que é politicamente insustentável manter o status quo e que ou acabamos com a zona euro como a conhecemos (partindo-a em duas ou acabando com o euro) ou há que aprofundar a integração europeia, provavelmente por via do federalismo. Boa parte das considerações económicas fundamentam-se em Paul De Grauwe (vide este artigo e a obra Economics of Monetary Union, já na sua 10.ª edição, embora eu tenha recorrido à 9.ª, a mais recente à altura), e as considerações de ordem política resultam essencialmente das minhas observações.  Claro que os Maçães desta vida - o governo português - , discordarão. E, nos últimos meses, sempre que, recorrendo a argumentos que utilizei no ensaio, debati estas questões com economistas, alguns, talvez para disfarçar a falta de argumentos ou a incapacidade de duvidar das suas próprias perspectivas, não hesitaram em atacar-me apenas por não ter qualquer grau académico nessa magna ciência que é a economia. Dado que este ensaio foi avaliado em sede própria com 19 valores, por alguém doutorado em economia, nunca me preocupei muito com este tipo de críticas. Mas, nem de propósito, permitam-me dedicar-lhes uma entrevista a um economista formado na LSE, Philippe Legrain, que foi conselheiro de Durão Barroso. Pode ser que, sendo um economista a dizê-lo, consigam finalmente vislumbrar que há mais vida para lá da perspectiva alemã e que esta é profundamente errada e prejudicial não só a Portugal como à União Europeia. E, já agora, pode ser que também percebam a falácia da autoridade em que têm incorrido. 

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publicado às 11:47

Vítor Bento:

 

"O excedente global pressiona a apreciação do euro criando um ‘loop’ adverso sobre os países periféricos. Estes, para recuperarem a competitividade perdida na década anterior à crise, têm que baixar os custos internos. À medida que esse ajustamento se reflecte na melhoria da sua balança externa e porque os países excedentários não fazem o seu próprio ajustamento, tal melhoria fortalece o euro, acabando por lhes minar (cambialmente) a competitividade, forçando-os a ter que voltar a baixar os custos. Não é difícil perceber como este ‘loop' tem um efeito deflacionário e, portanto, contraccionista em toda a Zona Euro."

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publicado às 11:23






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