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Terrorismus Continuum

por John Wolf, em 22.07.16

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Os governos democraticamente eleitos do mundo ocidental tardam em enfrentar a dura realidade dos factos. O terrorismo já não equivale a incidentes esporádicos que se dissipam num calendário alargado de ocorrências e datas. Os ataques perpetrados em Paris, em Bruxelas, em Londres ou Munique fazem parte da mesma linha de continuidade. As teorias organizacionais, construídas sobre a premissa da existência de células e hierarquias, já não servem para antecipar ou retrospectivamente dissecar os contornos dos ataques. A questão da genealogia ideológica também se secundariza perante a emergência securitária. Por mais que queiram evitar a solução musculada na Europa civilizada, os lideres de sociedades livres em breve terão de encarar o destacamento de forças militares permanentes nas ruas das cidades, a colocação de forças especiais em pontos nevrálgicos das urbes. Não mencionei uma vez sequer a dimensão dos refugiados, dos fundamentos religiosos ou dos conceitos subjacentes ao auto-proclamado Estado Islâmico. Refiro, sem valorações adicionais, o desafio de ordem e segurança que deve ser abraçado a todo o custo. O declínio da capacidade de projecção de poder dos adversários em terras distantes significa a disseminação de esforços fragmentados, mas altamente letais, no encalce próximo da tranquilidade europeia. O 11 de Setembro, intensamente sofisticado do ponto de vista conceptual e operacional, migrou para propostas de terrorismo de fabrico artesanal. Será com os meios disponíveis que os golpes serão desferidos. Os defensores das liberdades e garantias ainda não entenderam que em nome dos mais altos valores de liberdade, o combate implica o arrestar limitado de algumas prerrogativas consensualmente aceites enquanto intocáveis. A Europa está em guerra, mas tarda em admití-lo. Os terroristas de Bruxelas e Paris também elegem lideres. Chegamos a um ponto insustentável que transcende birras fratricidas entre a Esquerda e a Direita, pacifistas e belicistas. Chegou a hora de uma união de facto. A convergência política e efectiva para derrotar os atavismos internos. Chegou o momento da Europa.

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publicado às 22:12

O mar morto do terrorismo

por John Wolf, em 20.05.16

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O desastre do avião da Egyptair, a confirmar-se como sendo um ataque terrorista, inscreve-se num quadro operacional e estratégico preciso. Se o inimigo pretende infligir o maior desgaste possível ao adversário, fá-lo-á de modo a dificultar a localização dos destroços e eventual recolha de corpos. O mar serve esse conceito de projecção de poder negativo. Na sua imensidão líquida registamos dimensões de natureza geomarítima e outras envolvendo diversos conflitos jurisdicionais. Os passageiros, de nacionalidade diversa, obrigam os respectivos Estados a colaborar na acção logística de busca, salvamento ou recolha de corpos. Este efeito aglutinador propõe a emergência de comunidades de interesses positivos. Serve para aliar governos de países em torno de uma mesma causa anti-terrorista. Ou seja, no longo prazo, erode os fundamentos da dispersão de actores, desejada pelo Estado Islâmico. Não será descabido reflectir sobre a intencionalidade da "escolha da zona de impacto". Estarão as células organizadas em torno de uma lógica de activação de engenhos de acordo com um mapa de desgaste? Os ataques do 11 de Setembro serviram para inaugurar novas abordagens e modelos a este respeito. A equação de origem, destino e posição relativa, deve ser relevada. O facto do voo da Egyptair ter origem em Paris tem uma importância acrescida. Planta na base um efeito psicológico acentuado, como se o Mediterrâneo fosse uma extensão da centralidade europeia, uma filial de Bataclan. São considerações que envolvem uma certo grau de elasticidade conceptual que devem ser tidas em conta. O terrorismo cavalga essa dinâmica pendular. Lockerbie, ataque continental e aparatoso, por ter sido testemunhado, inscreve-se num modelo distinto. No mar Mediterrâneo não houve observadores que pudessem confirmar o desenrolar conducente ao impacto. Confirmamos deste modo que a ausência de espectadores não constitui um detractor das intenções terroristas. Para já, e na ausência de elementos que confirmem que se trata de um ataque terrorista, devemos colocar em cima da mesa todos os vectores de análise de um fenómeno geopolítico residente. Por outras palavras, a determinação do ritmo de eventos terroristas permitirá um certo grau de calendarização. Vivemos, lamentavelmente, sob os auspícios da expectativa negativa. E isso é desejado pelo adversário.

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publicado às 18:49

Portugal brinca com fogo

por John Wolf, em 02.04.16

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Não revelo a fonte aliada de Portugal que me transmitiu o seguinte: os portugueses julgam que se encontram à margem das reais intenções do Estado Islâmico. À medida que os "hard targets" trancam as portas e apertam o seu grau de vigilância, os "soft targets" sobem na classificação de alvos apetecíveis. Portugal, de acordo com esse critério, preenche os requisitos da efectiva tangibilidade. Está à mão de semear. A mentalidade colectiva sempre reforçou a falsa premissa - isso é lá com eles. Mas existem mais pedras no sapato. As guerrinhas domésticas, que afligem os organismos e as estruturas, alegadamente com responsabilidades maiores na implementação de modelos securitários. As quezílias e dissabores que parecem ter sido instigados pelas mais recentes decisões governativas confirmam os nossos maiores receios. O inimigo é doméstico. A politiquice é uma espécie de fundamentalismo que afasta e extingue a competência daqueles que deveriam implementar modelos de gestão de ameaças e exercer as suas funções sem o ónus das filiações ideológicas ou partidárias. Exige-se ao actual primeiro-ministro que saiba estar à altura da realidade geopolítica, que entenda que não temos tempo para brincar com fogo.

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publicado às 11:46

Terrorismo: o novo pilar da União Europeia

por John Wolf, em 21.11.15

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A Europa, ou mais correctamente, a União Europeia (UE), enfrenta dilemas de vária ordem. A questão securitária passou a ocupar a primeira fila do teatro de operações políticas. Enquanto escrevo estas linhas, no coração da UE, militares belgas patrulham as ruas de Bruxelas na expectativa negativa de ataques terroristas semelhantes àqueles ocorridos em Paris há uma semana serem reeditados. A Política Externa e de Segurança Comum (PESC) fora concebida como um dos pilares de sustentação do projecto de construção europeu, mas ao longo das últimas décadas, não se desenvolveu uma efectiva estrutura de defesa pan-europeia. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) existia para a eventualidade de um ataque a um dos seus Estados-membros, e o Artº 5 definia claramente o âmbito da reciprocidade do mecanismo de defesa. Os europeus, encostados à aliança transatlântica, tornaram-se desleixados e inconsequentes, e foram incapazes de atingir a maturidade e a independência securitária que seria de esperar de um projecto político desta envergadura. Mas a União Europeia está a acordar repentinamente para uma realidade que exige grandes doses de pragmatismo. Uma doutrina de segurança da UE, deve, nessa medida, ser urgentemente definida e com um intenso sentido estrutural. O acordo de Schengen, nascido no ambiente festivo do livre movimento de pessoas, capitais, bens e serviços, conhece agora alguns efeitos suspensivos colocando em causa as suas boas intenções originais. Os militares e os blindados ligeiros que patrulham as ruas da capital belga não devem causar espanto. Teremos a breve trecho grande número de paisagens urbanas europeias decoradas com semelhante aparato militar. E a questão deve ser entendida como uma extensão natural dos mais recentes desenvolvimentos geopolíticos com epicentros mais ou menos longínquos e com intensidades variáveis. O debate em torno da missão dos militares em tempos de "paz" ganha agora ainda mais relevância. Será que as sociedades europeias estarão dispostas a conviver com o policiamento realizado por militares apetrechados com armas de calibre de guerra na baixa das suas cidades? Para o cidadão comum, poupado às vicissitudes da guerra, a mera presença de unidades militares na malha urbana pode causar  um sentido acrescido de insegurança, por esta lançar a suspeição da iminência de um evento violento, mas numa segunda fase, a sua aceitação será entendida como vantajosa, pela sua expressão declaradamente dissuasora de intentos desviantes e detonadores da ordem pública. A União Europeia está, deste modo, a projectar o seu poder com uma ligeira alteração do sentido conceptual inerente ao mesmo. A urgência, embora externa e geograficamente entendida, exprime-se numa dimensão endémica. A Europa está obrigada a apontar as armas aos seus próprios cidadãos. A destrinça clássica que permite identificar inimigos foi intensamente posta em causa e o modelo de gestão desta crise ainda se encontra longe de uma noção estável. Declarar guerra a um inimigo distante não produz os efeitos que os políticos desejariam obter nos seus domínios domésticos. Sabemos todos, lamentavelmente, que os adversários têm uma doutrina altamente eficaz e escandalosamente corrosiva. A Europa ainda não saiu do laboratório - ainda não tem um antídoto eficaz. A União Europeia é uma construção assimétrica, mas o perigo de contágio dos ataques terroristas terá um efeito nivelador das preocupações. O medo e a insegurança são emoções transversais a dictomias Norte-Sul, a clivagens de Direita ou Esquerda, a sistemas políticos com diferenças assinaláveis. O terrorismo, nessa medida, deve servir de catalisador da integração tantas vezes adiada por imperativos de ordem económica e financeira.

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publicado às 17:51

13 de Novembro 2015 - Beirute em Paris

por John Wolf, em 14.11.15

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Os mais recentes ataques terroristas de Paris marcaram para todo o sempre a minha data de nascimento. Sexta-feira 13 de Novembro de 2015 precedeu a sua má-fama, excedeu-se. Mal decorreram 24 horas sobre a noite de terror, buscamos um fio condutor de explicação minimamente racional, como se para dirimir os exageros da loucura perpetrada sobre homens e mulheres, meros espectadores de um jogo de soma-zero de inocentes e culpados. Tenho dúvidas que os ataques terroristas de ontem correspondam a um 11 de Setembro da Europa. Receio que, numa lógica de encadeamento e escalada, os eventos de ontem sejam apenas uma parte de um futuro geopolítico próximo intensamente fracturante. A União Europeia está cada vez mais próxima do seu momento Homeland Security Act. A crise dos refugiados que assola o continente europeu serve de catalisador para considerações que serão exógenas à própria natureza do desafio. Elencamos, com alguma facilidade, distintos módulos operativos de interpretação da realidade. Identificamos aqueles que são solidários com o drama dos refugiados, mas que renunciam à tese de que estes virão para se tornar missionários do Estado Islâmico. Rotulamos ainda aqueles que não fazem distinção entre uma coisa e outra - ou seja, cada refugiado é um potencial suicída pronto a semear o pânico de terror nas hostes da paz europeia. Temos ainda um grupo de inspiração woodstockiana que é adepto de uma estirpe imovível de peace and love - que acredita no abraço aos párias, na desintoxicação por via da integração fraterna. A ideologia que tem servido para muitos fretes de interpretação de conflitos bélicos, já não se adequa para corrigir comportamentos com esta intensidade. O Estado Islâmico não se funda em premissas nacionais nem se restringe a um domínio territorial no sentido clássico - ontem Beirute visitou Paris de um modo particularmente avassalador, tornando a capital francesa o local da cimeira que opõe o Ocidente ao Estado Islâmico. A França enfrenta alguns desafios de índole conceptual no que concerne ao seu modelo de sociedade. Francois Hollande rotulou os ataques terroristas de "acto de guerra", pelo que essa afirmação pressupõe, na centralidade europeia, a prossecução de medidas securitárias extremas. Um acto de guerra implica a confirmação de que já nos encontramos em situação de conflito continuado, numa guerra  com todas as despesas que decorrem desse facto. Nessa medida, e ampliando o âmbito dessa afirmação, significa que França irá ripostar longe e perto, e estará disposta a suportar ainda mais dor caso esta venha a ser infligida. A epicentralidade do conflito na Síria parece ter sido deslocalizada de um modo intencional pelos estrategas do Estado Islâmico. Os ataques terroristas de ontem já não obedecem necessariamente à lógica de  célula adormecida que se desperta a toque de comando de uma entidade longínqua, uma hierarquia afastada muitas vezes mantida em anonimato. Neste momento dispomos de elementos de análise que nos permitem especular que uma doutrina de Do It Yourself seja aquela que esteja a ser difundida pelo Estado Islâmico. Portugal, que não tem grande papel nas considerações de fundo da presente situação, tem a lamentar duas vítimas mortais resultantes dos ataques terroristas. Esperemos que esse facto não seja apropriado indevidamente pelas partes envovidas no processo político nacional conducente à formação de um governo estável. Já ouvimos, aquilo que teria sido dispensável, de indivíduos com alegadas responsabilidades no espectro político nacional - Ana Gomes já deu o seu contributo para a ideia da excepcionalidade governativa dos socialistas e o seu particular talento para gerir crises terroristas. Francois Hollande deve ser a figura que serve de inspiração, o socialista-modelo a partir do qual se pode obter o decalque perfeito de administração interna. Francamente, Portugal não precisava disto.

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publicado às 17:50






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