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Um Porto Sentido

por João Pinto Bastos, em 12.09.13

Há dias especiais. Hoje foi certamente um desses dias. A razão é, verdade seja dita, assaz prosaica. Por norma, a primeira coisa que faço quando saio de casa é efectuar uma rápida vistoria pela caixa de correio, de molde a verificar se há alguma novidade postal de monta. Normalmente, essas novidades quedam-se pelas contas da água e da electricidade, contas essas, que, como os leitores muito bem sabem, são um autêntico panegírico à roubalheira legal sancionada pelo Leviatã desrepublicanizado. Porém, hoje, fui agradavelmente surpreendido quando abri a minha caixa de correio. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar dois dvds com filmes de Aurélio Paz dos Reis. Inicialmente, julguei, e bem, vistas as circunstâncias, que houve engano. Não seria a primeira vez, nem, muito provavelmente, a última, que os nossos serviços postais cometeriam erros deste jaez. Contudo, após uma rápida análise dos dvds em causa, constatei que os mesmos tinham uma dedicatória anónima à minha pessoa. Perante este achamento, concluí que, de facto, os filmes em questão eram dirigidos a mim. Quem quer que tenha sido o autor de tamanha dádiva, aproveito, desde já, para endereçar-lhe os maiores e mais sentidos agradecimentos. Lamento, apenas, que o dito oferecimento fosse desafortunadamente anónimo. Dito isto, o que mais me agradou no referido presente foi o boníssimo facto de os filmes em questão abrangerem um cineasta que muito prezo. Para quem não sabe, Aurélio Paz dos Reis foi um dos grandes responsáveis pela implantação do cinema em Portugal, se não mesmo o maior responsável. Mais do que um pioneiro arrojado, Paz dos Reis foi um divulgador incansável da sétima arte em solo nacional. Num tempo em que a memória colectiva é constantemente ensaboada pelo olvido deliberado das referências nacionais de antanho, um presente desta magnitude teve o singelo condão de me recordar que há uma história soterrada pela insaciável espuma dos dias. A cidade do Porto é um bom exemplo desta deriva desmemoriada. Vejam, por exemplo, o desprestígio granjeado, nos últimos anos, pelos agentes culturais da cidade. Se olharem para a cena cultural da grande metrópole nortenha - com algumas excepções de vulto - verão que os Paz dos Reis de outrora são, hoje em dia, meros mequetrefes que vivem a expensas do subsídio público habilmente negociado com o poder político municipal. Não há "cultura" que sobreviva a tanto embuste. Entretanto, e como não há, qohéleteanamente falando, nada de novo debaixo do sol, vou aproveitar o ensejo fornecido pela alma caridosa que me ofereceu os santíssimos dvds, para rever, entre outros, o "Mercado do Porto" e o "Avenida da Liberdade". Boa noite, e boa sorte.

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publicado às 22:51





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