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Geringonça exibe filme de 2011

por John Wolf, em 04.01.17

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É impressão minha? Ou já vimos este filme antes? Começam a nascer por todo o lado os mesmos sintomas que conduziram ao dramático descalabro do glorioso mandato socratino. Basta ligar a caixa que mudou o mundo, e mesmo que apenas se colem aos canais do regime, já não passa em branco a azáfama e o caos do Serviço Nacional de Saúde - nada parece funcionar. Depois, um pouco em segundo plano, como se nada fosse, as taxas de juro da dívida que têm regressado ao olimpo da ruptura iminente, têm sido abafadas pela novela quixotesca que opõe Domingues ao governo da Caixa Geral de Depósitos. Mas como cereja em cima do bolo-podre de consternações, desprovido de má-lingua propagandista, lá aparece o raio dos números das pensões mais baixas, das gasolinas mais caras ou do IUC mais a doer. No entanto, estes ingredientes dizem respeito ao quintal cá de casa. Enquanto tiram teimas de geringonça, o Banco Central Europeu (BCE) prepara uma canelada que far-se-á sentir em Abril, mês dos cravas. O BCE iniciará então a redução do seu programa de compra de títulos de dívida de países em apuros da Zona Euro. Passará de 80 mil milhões de euros mensais para 60 mil milhões, pelo que Portugal sentirá efectivamente os efeitos da referida redução. Não sei que bode-expiatório têm programado para chocalhar as hostes, mas prevejo "medidas excepcionais" e "justificações governativas" para o reforço e ampliação do conceito de austeridade, que aliás, em abono da verdade, não se foi com o estalar de dedos demagógicos da geringonça. Entretanto, como as más crónicas superarão as favoráveis, Costa deve seguir o modelo turco com ainda mais afinidade e rigor, e realizar a purga de vozes dissonantes dos meios de comunicação social. Quanto aos bloggers chatos, como eu, mandar-nos calar é mais difícil.

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publicado às 20:52

Geringonça, por quem os sinos dobram

por John Wolf, em 07.12.16

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Onde é que eu ia? Ah, muito bem. Já sei. Distraí-me com a Caixa Geral de Depósitos, o desastre aéreo na Colômbia  o apuramento para os oitavos, a meia de elástico da Tadeu e as promoções do Pingo Doce. De maneiras que é assim. Os italianos de Nápoles não foram simpáticos, mas os italianos de Itália também não estão a ajudar - Referendo para que te quero. Antes de começarem a bater no Commerzbank e a chamar nomes aos alemães, lembrem-se que foi inaugurada a época natalícia, que entramos em pleno na época de paz, embustes e promessas grandiosas para o ano que vem. O Banco Central Europeu (BCE) já sabe o que António Costa tem vindo a negar: Portugal é candidato a um dos lugares cimeiros da crise europeia. Daí que Draghi e companhia já tenham ameaçado manter a compra de títulos de dívida nos estados-membro em apuros ao ritmo de 80 mil milhões de euros até ao final de Setembro de 2017. Ou seja, o mercado já está a descontar a crise europeia que parece passar ao lado da geringonça. O timing para se estar no sector da banca não poderia ser melhor para patrões e para detentores de acções de instituições financeiras. O dinheiro fresco ficcionado pelo BCE vai directamente para a toxicodepêndencia monetária de países como Portugal, embora tenha sido pensado para o cliente italiano (não se esqueçam da Grécia). Depois temos as outras autárquicas de arrumação política-monetária - o Brexit efectivo que causará mossas nos planos bi-quinquenais de Costa. E não há nada que se possa fazer para barrar o que se passa para além da Mancha. Que fique esclarecido: as obras de Medina nas artérias de Lisboa não são investimento. Não geram produtividade. São florzinhas de estufa. Os putativos ciclistas que farão uso das vias verdes que estão a ser plantadas, baixarão o colesterol, mas não serão um alívio para o Serviço Nacional de Saúde. Há taquicardias que não podem ser evitadas. Invistam fortemente no Natal.

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publicado às 11:57

Itália e os grilos europeus

por John Wolf, em 05.12.16

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A União Europeia (UE) não é uma união, mas a Europa é uma democracia. Os Estados-membro de uma e de outra exprimem a sua vontade política de um modo assimétrico. Julgavam todos que a Áustria iria pender para um lado, mas inclinou-se para outro. Matteo Renzi, porventura inspirado por David Cameron, apostou o tudo ou nada no referendo e o resultado está à vista. A Itália e o Reino Unido, um continental e o outro nem por isso, rasgam o manto do projecto europeu, colocando à vista de todos as frágeis costuras de uma construção cada vez mais duvidosa. Estamos cada vez mais à mercê de um fenómeno imprevisível de desmontagem de um sistema político. Se existia uma alma mater na génese da Comunidade Económica do Carvão e Aço, ou espiritualidade nas propostas de Schuman e Monnet, as mesmas são agora meros fantasmas. Resta saber se não terá chegado o momento da UE pensar uma saída limpa. Uma saída da sua própria condição. Enquanto decorrem processos eleitorais parcelares no espaço intra-comunitário, as instituições da UE tardam em pensar uma iniciativa estruturante, um modo de calibrar o pensamento dos europeus em relação ao seu futuro. Por outro lado, a Itália pode bem ser o melhor exemplo da patologia crónica que assola a Europa - para quê mudar? O grande deficit a que assistimos nos processos eleitorais já decorridos e naqueles que se avizinham, tem a ver, na minha opinião, na não inclusão de um clausulado de responsabilidade no que diz respeito à integração europeia. Ou seja, cada qual lida com a sua casa do modo que melhor entende, mas o edifício, o condomínio de interesses comuns da União Europeia, fica para depois. Ou seja, a cada expressão de individualidade democrática dos Estados-membro da UE, a mesma enfraquece. É esta contradição que faz a UE enfermar de problemas genéticos enquanto exulta continuamente as virtudes da liberdade política e reclama a alegada superioridade moral da Europa. No entanto, a sua tradição política é precisamente essa. Assenta na ideia de movimento epicêntrico, baseia-se na ideia de que as fissuras nunca abalarão os princípios subjacentes. A UE também sofre de um problema de linguagem. Estes fenómenos não são excêntricos nem atípicos.  Passam-se dentro de portas. E os personagens que fazem os enredos não são de todo estranhos. São produtos internos. Brutos ou nem por isso.

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publicado às 09:38

O perigo de governos míopes

por John Wolf, em 27.01.16

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De nada serve o Tratado de Methuen assinado entre Portugal e Inglaterra  - o governo de António Costa tem a obrigação de delinear uma série de planos B para a eventualidade de uma saída britânica do Euro e muito mais que consta da ementa do quadro internacional. Mas os políticos, na sua generalidade, apenas conseguem ver um palmo à frente do seu nariz, obviando uma visão panorâmica e integrativa de diversos factores de risco. A saber; (aquele que acabo de referir - o Brexit), a crise dos refugiados, a obliteração do enunciado pelo tratado de Schengen e o seu impacto nos assuntos internos da União Europeia nos planos social e económico, a desaceleração da economia chinesa, o efeito cada vez mais minguado do programa de estímulo financeiro lançado pelo Banco Central Europeu, as ameaças terroristas convertidas em actos pelo Estado Islâmico em distintos endereços do espaço da UE, a quebra acentuada e continuada do preço do crude, as implicações da política externa da Rússia no que diz respeito à ruptura de equilíbrios já de si frágeis (no contexto do (des)intervencionismo americano), a (des)democratização da Húngria e da Polónia com efeitos nefastos e contagiantes no demais espaço da UE, a possibilidade de uma vitória presidencial de Donald Trump e a implementação de uma política externa intensamente agressiva, o conflito sírio e as suas ramificações no espaço do Médio Oriente, designadamente no que concerne à relação entre o Irão e a Arábia Saudita, a iminência de mais uma crise financeira com impacto acentuado, numa primeira fase, nos mercados bolsistas, e num segundo momento na economia real dos países desenvolvidos; as crises em diversos países emergentes como por exemplo o Brasil, e por último, num plano doméstico, mas não menos importante, a desagregação do actual governo de Esquerda colado a cuspo, e apoiado em acordos frágeis e de conjuntura que não produzem propostas que merecem a aprovação da Comissão Europeia. Enfim, o que está em cima da mesa é de facto incontornável, seja qual for o governo em funções. Acontece que António Costa e o seu tesoureiro Mário Centeno estimam os seus extraordinários resultados baseando-se no princípio de ceteris paribus, quando é precisamente o oposto que sucede. A realidade é um difícil alvo em movimento. E não me parece que este governo tenha a visão panóptica para sequer equacionar o sarilho em que está metido. Agarrem-se à cadeira. Não tenham dúvidas. Isto vai estoirar. Lá e cá.

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publicado às 18:53

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Enquanto Maria de Belém, Sampaio da Nóvoa ou Marcelo Rebelo de Sousa brincam às presidenciais, e António Costa e Mário Centeno jogam à apanhada do governo, algo muito mais avassalador está a fermentar no caldeirão da economia e do sistema financeiro internacional. Desde 2008 que os bancos centrais, um pouco por todo o mundo, mas em particular aqueles da Zona Euro e dos Estados Unidos, têm vindo a ser utilizados enquanto muleta das economias mais afectadas pela crise de crédito iniciada pela Lehman Bros., fazendo uso de munição mais ou menos convencional, na forma de injecção de liquidez nos mercados de dívida principais ou secundários, e contribuindo simultaneamente para a valorização ficcionada dos títulos transaccionados em bolsa. Findo este período de inflacionamento do valor das acções e a concessão de uma imagem de aparente saúde económica, e à medida que são removidos os mecanismos de estímulo iniciados pelos banqueiros centrais, os aspectos fundamentais da economia vieram à tona para revelar uma certa anemia, ou mais realisticamente, a sua genuína fragilidade. E é precisamente aqui que nos encontramos. As taxas de juro a zero, ou perto do mesmo, não permitem grande margem de manobra aos bancos centrais. Por outras palavras, a munição acabou, e o momento da verdade, do reajustamento da relação entre os mercados financeiros e a economia chegou com alguma intensidade para indicar a expressão de uma verdadeira tempestade de volatilidade. Para além destes dissabores, do domínio económico e financeiro, há que contar com medidas expansionistas e gastos desproporcionais da parte de governos de inspiração populista ou de Esquerda, como parece ser a troupe liderada por António Costa. E Portugal corre, deste modo, perigos reais; a ameaça de um desastre ainda maior do que aquele proporcionado pela natural apetência ideológica de um governo que sustenta a sua acção na ideia de rolling debt, ou seja, a ideia de que a dívida seguinte pode cobrir parte da precedente e assim sucessivamente. António Costa deve julgar que controla as operações, mas, efectivamente, não controla nada. Deve pensar que a época dos banqueiros centrais de mãos largas não tem fim, que representa um elemento crónico na condução da política monetária da Zona Euro. Estas considerações ingénuas e de índole socialista, colocam Portugal na mira de (des)investidores que pressentem a insustentabilidade do projecto governativo nacional. O que já está a decorrer nas bolsas de todo o mundo, indica, sem margem para dúvida, grande turbulência nos próximos tempos. António Costa pode ter conquistado o governo com artimanhas parlamentares, mas o que aí vem estravasa o tamanho da sua esperteza. Para fazer face ao que aí vem, é preciso bastante mais do que um ex-presidente de câmara.

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publicado às 21:02

Grécia - o canário na mina chinesa

por John Wolf, em 08.07.15

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Uma visão exclusivamente eurocêntrica do mundo implica imensos perigos. O drama que assola a Grécia e que implica substantivamente o resto da Europa, deve ser interpretado à luz de um quadro maior de consternações. Vou pedir emprestada a expressão em língua inglesa para retratar a crise grega no âmbito de uma visão panorâmica, global - a Grécia é um canary in the coal mine. Enquanto Tsipras e Juncker, entre outros protagonistas, roubam as atenções, uma crise de proporções avassaladoras está a atingir velocidade de cruzeiro. Os mercados bolsistas chineses encontram-se em processo de melt-down e os títulos accionistas têm registado invulgares níveis de volatilidade. Enquanto o Banco Central Europeu tenta estabilizar as economias em apuros da Zona Euro, procedendo à compra de títulos de tesouro, o Banco Central da China vai mais longe na expressão da mesma ficção monetária e estabelece arbitrariamente o preço das acções das empresas cotadas em bolsa. Por outras palavras, as autoridades chinesas tudo fazem para salvar os mercados, mas não a economia. As reformas estruturais que são requeridas estão a ser obviadas através de um mecanismo de manipulação da bolsaMeus senhores, corremos perigos reais. As poupanças dos cidadãos daquele país estão a ser destruídas e quando o pânico se instalar não vai haver Praça Syntagma que nos valha. Enquanto os gregos se queixam do défice de Democracia na Europa e apelidam de terroristas os credores, os chineses nem sequer têm direito de resposta. O governo da República Popular da China quando quiser esmagar, não tem de pedir autorização a quem quer que seja. A Grécia nem sequer entra nas considerações orientais, mas o oposto não podemos afirmar.

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publicado às 11:11

A Grécia e o default da União Europeia

por John Wolf, em 30.06.15

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Os Europeus têm o péssimo hábito de usar argumentos de antiguidade histórica e tradição sempre que são confrontados com o pragmatismo dos Norte-Americanos. Porque temos 800 anos de história. Porque temos os rituais e os brasões. Porque temos as dinastias. Porque estamos cá há mais tempo. Porque os Americanos são uma amálgama de gente oriunda da mescla europeia. Enfim, um conjunto de patacoadas com pouca utilidade para resolver dilemas. Não esqueçamos o seguinte, para bem e para mal. A Constituição dos Estados Unidos da América (1787) é a primeira do mundo que consubstancia verdadeiramente Democracia na sua forma e na sua substância. Precede a própria Revolução Francesa (1789). Nessa linha de ideias, os americanos poderiam ser sobranceiros em relação ao adolescente Euro - a divisa ainda nem sequer pode conduzir um motociclo ligeiro de 50 c.c. - ainda não fez 16 anos, o dólar Americano tem mais de 200. Um facto curioso que reporta directamente ao processo de construção das comunidades europeias deve ser realçado: o dólar americano precede a Constituição Americana. Ou seja, começou a ser cunhado em 1786, um ano antes do Tratado Constitutivo. O actual turbilhão que a União Europeia enfrenta, deve, por essa razão, servir para levantar algumas questões pertinentes. Uma União Monetária deve preceder uma União Política? E será que efectivamente chegou o momento "We, the People" da Europa? Querem uma verdadeira Federação ou apenas um cartel de poderosos nos centros de decisão da Europa? A Grécia, se for bem aproveitada, pode servir para um profundo processo revisionista das premissas europeias, mas, para tal acontecer, deve saber se purgar dos efeitos nefastos da ideologia, quer de mercado quer de índole política. Ao ver as imagens de milhares de atenienses em frente ao seu parlamento, retenho a ideia de algo maior do que um Referendo, um sim, um não, a continuidade de Tsipras ou a reforma de Juncker. A encruzilhada em que se encontra a Europa também se reporta à ideia de tradição e continuidade, de regresso à "normalidade", quando o que o continente mais necessita é de um novo modelo existencial. As palavras valem o que valem, mas um novo Tratado da União Europeia não seria mal pensado. O default constitucional da Europa salta à vista de um modo flagrante.

 

Addendum do Prof. Armando Marques Guedes a quem agradeço o "alargamento" do meu texto.

 

"Vai haver quem não goste de "uma verdadeira Federação"... mas ele há gente em toda a parte que não sabe o que diz. A integração jurídica europeia já é federal. Mas incompletamente, e esse é um dos problemas. Não ter política externa ou política de segurança e defesa é obviamente um preço alto de mais a pagar por pseudo-soberanismos sem quaisquer fundamentos que não os ideológicos.
No princípio do artigo, John, valia a pena empiricamente desmontar a ideia de que, comparada com a Europa, a América é "nova" e "sem história". Há aqui um misto de ignorância e má fé. Os EUA têm todas as histórias europeias dentro, bem como imensas outras, não europeias. logo segundo argumento tem os pés no ar. Baseia-se, apenas, numa ideia de antiguidade e continuidade estadual e nacional que não faz grande sentido. Basta olhar para a ideia de que se trata de um Estado "novo", e comparativamente recente. Ora isto é, factulamente, falso. Os EUA existem desde 1776. Poucos são os Estados europeus com essa provecta idade. A Alemanha data de 1871. A Itália anda por aí. A Polónia, que se foi acendendo e apagando enanto ia mudando de sítio, é de 1920, a Ucrânia de 1921, os três Bálticos ainda mais recentes são, a Noruega data de 1905, a Finlândia dos 1900s, com vais e vens, a Bélgica e a Holanda são recentíssimas comparadas com os EUA, a Sérvia e os Balcãs quase todos são do século XX - finais do século XX, no caso dos 8 ex-ioguslavos e dos 15 ex-URSS, e do século XIX as Grécias, Roménias, e Bulgárias; a Turquia é de 1915, a Áustria de 1919, tal como a Hungria. E não se fale em nações: quase todas estão ainda em processo de construção, veja-se os três maiores, a Alemanha, a França e o Reino Unido. Conversa política de balela. Salvo raras excepções (a Grã-Bretanha, que é de 1707, a França, milenar, Portugal, todos Estados sem grande peso comparativo directo na Europa, se comparados com a recentíssima Alemanha ou com a proverbial Rússia, um império que vai mudando) os Estados europeus são na sua maioria muito, mais mesmo muito, mais recentes do que o é o norte-americano. Gostemos ou não, isto é um facto. A diferença específica dos EUA é que são mais antigos, não o contrário. A especificidade dos EUA é muito melhor vista e interpretável como uma forma de sabedoria dos mais velhos do que como um arremedo de um jovem. O resto são declarações políticas contra-factuais."

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publicado às 10:06

Tsipras pode agradecer ao Multibanco

por John Wolf, em 28.06.15

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Podem agradecer às caixas Multibanco não haver tiros, mortes e sangue nas ruas de Atenas e outras cidades gregas. Se não fossem as ditas caixas, decerto que a fúria da falência iminente transbordaria para outras formas de levantamento - não vai a bem, vai a mal. A tecnologia, já com décadas de existência, está a servir de válvula de escape para milhões de gregos ávidos por lançar a mão às suas poupanças. No entanto, amanhã a história será outra. E no dia seguinte outra ainda. Uma corrida aos bancos não é uma maratona. 

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publicado às 13:42

Grécia e o grande conflito europeu

por John Wolf, em 28.06.15

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A ruptura negocial de Tsipras com os parceiros europeus remete o drama grego para outro patamar de preocupações. Será no plano interno daquele país que os verdadeiros perigos serão expostos num primeiro momento. A toada nacional-esquerdista, imbuída de patriotismo helénico, poderá facilmente descambar para um Estado fascista. Se o povo grego votar em Referendo a aceitação do pacote de ajuda que arrasta mais Austeridade, Tsipras deve, democraticamente, se demitir, mas tenho sérias dúvidas que o faça dado o seu perfil de intransigência. A partir desse momento vislumbram-se alguns cenários mais drásticos. A saber; um golpe militar com a instituição de um regime de coronéis; a convocação contrariada de eleições em virtude da dissolução do governo e a ascensão de uma força nacionalista; a eclosão de um conflito armado com um vizinho regional com o apoio logístico e ideológico da Rússia; um ou vários assassinatos políticos; ataques terroristas de falanges políticas gregas dispostas a acentuar a dissensão interna e intimidar a comunidade internacional. No entanto, as instituições convencionais da política europeia restringem-se a consternações de ordem económica e financeira e os media insistem que é a política que move as diversas partes envolvidas. Enquanto pensam em controlar os danos decorrentes da corrida aos bancos a que já assistimos fora do horário normal de expediente, outras ramificações devem ser tidas em conta de um modo muito sério. A União Europeia para além de estar a braços com uma crise económica, social e financeira de um dos seus estados-membro, terá de encarar desafios de ordem geopolítica para os quais não está devidamente apetrechado. A Política Externa de Segurança Comum é um dos outros pilares da construção europeia que carece de uma estrutura sólida e eficaz no seio das consternações externas de uma Europa comum. Por essa razão, a opção transatlântica ainda merece grande consideração. Os EUA jogam desse modo na sombra do tabuleiro da política europeia. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) deve, face aos desenvolvimentos da situação na Grécia, pensar nas implicações decorrentes do agravamento da crise europeia. Embora haja uma tendência inata, resultante da paz longa do pós-segunda Guerra Mundial, para pensar na normalização do quadro de relações, a verdade é que ao longo da história da humanidade, a estabilidade política e económica tem sido a excepção e não a norma. Tempos difíceis aproximam-se a passos largos e de nada serve deitar as culpas a uns ou a outros. A história é isto mesmo. Irrascível, mas explicada por modelos racionais.

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publicado às 08:03

Palavra de Varoufakis

por John Wolf, em 27.06.15

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Há que saber interpretar as palavras de ameaça de Varoufakis:

"Não existem provisões nos Tratados para uma saída do Euro. Existem para uma saída da União Europeia". 

 

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publicado às 19:55

Esfolar gatos gregos

por John Wolf, em 27.06.15

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Aproveitem bem. Pode ser um dos últimos fins de semana normais. Ide ao "coma como um bruto no piquenique do Continente" lá para os lados do Parque do Eduardo o sétimo, ou estiquem a banha toda na Praia da Caparica e vejam a bola logo à tarde. Está tudo bem - uma maravilha. Dia 5 de Julho veremos como é que elas são: se o povo grego tem amor à camisola do Euro e está disposto a aguentar com ainda mais Austeridade e a libertar Tsipras do ónus do desastre (o homem lava as mãozinhas com muita arte, e dizem que tem andado a ler o Príncipe de Maquíavel, enquanto Varoufakis revê Schelling). A Catarina Martins e a Esquerda, ilustradas por poetas e pragmáticos, pode voltar a tatuar no antebraço a estrofe: o povo é quem mais ordena. Teremos a expressão plena de Democracia na sua terra Natal. Hitler também foi eleito democraticamente, mas isso fica para depois dos estilhaços do Syriza serem varridos do Syntagma e aparecerem outros totalistas. O povo grego já foi exposto ao medo, mas ainda pode experimentar o terror. No dia 5 de Julho serão as massas a definir a relação de forças de um enredo intransigente: com ou sem Euros, com ou sem bailouts, com ou sem extensões, com ou sem perdões de dívida, com ou sem Austeridade, a odisseia grega não será editada, convertida em romance épico. Para todos os efeitos, os europeus encontram-se entre a espada e as espaldas aventuristas daqueles que prometem não arredar pé do sacrifício de um povo. Os rituais de autoflagelação, são isso mesmo, prerrogativas daqueles que juram ter o direito de esfolar o seu próprio gato. Tsipras também dirá que o seu povo está bem e "que só queimou um bocadinho o pêlo".

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publicado às 10:38

A Grécia ou vai ou racha

por John Wolf, em 25.06.15

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Enquanto as casas de apostas e câmbios do Bloco de Esquerda, Livre, Partido Socialista, Partido Social-Democrata, Governo e afins, se posicionam ideologicamente para o desfecho-não desfecho-desfecho da situação grega, devemos aproveitar as precipitações de Catarina Martins e a excessiva cautela de António Costa para retirar algumas ilações sobre o quadro helénico. A saber; a Grécia aderiu ao Euro em 2001, mas acabou por revelar em 2004 que havia aldrabado as contas do défice orçamental para passar no teste de adesão à moeda única. Ou seja, começou mal. Depois embandeiraram em arco e gastaram 7 mil milhões de euros para pôr de pé os Jogos Olímpicos comemorativos - vá-se lá saber que valores foram desviados para amigos e compadres. Mas vamos avançar até 2010, antes da crise estoirar, para confirmar que foi o governo daquele momento que implementou as primeiras medidas de austeridade. Ou seja, o mito urbano de que a Troika foi o único papão da Grécia é falso. Os próprios gregos já davam conta de sérios problemas e decidiram tomar as suas próprias medidas fiscais. Em 2011 a Grécia recebe ajuda externa na ordem dos 150 mil milhões de euros e subsequentemente viu a sua dívida ser desbastada na ordem dos 50%. Por outras palavras - aquele país já recebeu ajuda substancial e mesmo assim não foi capaz de reorganizar a sua casa. A verdade deve ser dita e as falsidades rejeitadas. A Grécia já foi ajudada vezes sem conta ao longo da sua história, mas parece sempre ter o mesmo destino de negação e incapacidade. Mas existe ainda outra dimensão, uma externalidade que não deve ser afastada das nossas preocupações civilizacionais. A casa de penhoras Jogos Olímpicos, sempre que visita países não  desenvolvidos ou emergentes, deixa uma rasto de incerteza, corrupção e bancarrota. Tudo em nome de uma certa vaidade do Estado organizador. E o mesmo se passa com a FIFA e os seus maravilhosos campeonatos do mundo de futebol. Veja-se o caso do Brasil, onde juraram a pés juntos que o mundial iria despoletar um processo de desenvolvimento económico e social mesmo ao lado dos esplendorosos estádios de futebol. Não sei que jogo a União Europeia vai decidir, mas aposto que o tabuleiro de decisões irá acarretar consequências para toda a Zona Euro. Ou seja, um espectáculo qualquer irá ser montado para demonstrar que está tudo bem e que decididamente caminhamos para bingo. Do modo como as negociações entre a Grécia e a Troika decorrem, podem atirar uma moeda ao ar. Ninguém sabe qual será o desfecho. E decididamente alguém sabe tudo, mas não quer dizer.

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publicado às 11:43

A hora grega, o tempo europeu...

por John Wolf, em 21.06.15

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O dia de amanhã pode ser igual aos restantes, mas a Grécia pode de facto determinar o futuro da Europa. Na qualidade de extra-comunitário, passageiro da aventura unionista do continente, torna-se-me relativamente fácil ver as falhas e as lacunas do projecto europeu. A União Europeia (UE) não é uma união do espírito dos povos e dificilmente aspirará a se tornar numa federação. Não foi concebida a partir de uma pirâmide de valores sustentáveis. Foram os mercados que determinaram os tratados e os regulamentos. Foi a ideia de uma bloco económico competitivo que esteve por detrás dos sucessivos momentos de aprofundamento comunitário. E na senda dessa cegueira de ganhos e proveitos, os pilares de justica comunitária e de uma política externa e de segurança comum foram obviados. Para já, são as finanças dos países da zona euro que têm servido para acentuar divergências ideológicas e alimentar considerações de ordem geopolítica. Aguardo com expectativa a coragem ou não dos decisores europeus. Se a Europa, no seu desdobramento institucional corporizado no Banco Central Europeu, na Comissão Europeia, no Eurogrupo ou no Fundo Monetário Internacional, cede à chantagem grega, então será inaugurado o início do processo de desagregação da UE. Uma conquista de Tsipras servirá de mote para os demais demandantes da zona euro e enfraqueçerá a centralidade política da Europa. A Grécia sai a ganhar. A Rússia tira proveito. Por outro lado, se a UE mantiver a intransigência da sua posição, deve contar com uma nova fronteira geopolítica na Europa. A Grécia encostar-se-á ainda mais à Rússia, sendo que estes dois países partilham estirpes distintas de austeridade. Ou seja, têm bastante em comum para forjar uma aliança firme de párias. Pela parte que me toca, deixarei de respeitar as instituições europeias se estas se deixarem torcer pelas ameaças de caos que Tsipras tão ideologicamente postula em nome da Democracia que apenas ele parece entender. Em todo o caso, a Europa, a partir de amanhã, deixará de ser o que era, ou o que nunca foi.

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publicado às 13:00

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Aproveito a deixa de Fernando Melro dos Santos para confirmar que os portugueses nunca estiveram tão preocupados com os eventos que assolam a Europa contemporânea. É surpreendente que ainda arranjem tempo para marchas populares, romarias a Évora, privatizações, calvários da bola e atribulações decorrentes de aparições de Jesus em clubes alheios. A Grécia já rachou e em breve sentiremos o impacto dessa falha na União Europeia e de um modo que transcende a normalidade, anormalidade. O que vale é que o crédito ao consumo em Portugal já está ganhar proporções épicas. Isso há-de salvar o país de catástrofe certa. Podemos também dormir aliviados sabendo que a eurodeputada Elisa Ferreira sabe interpelar o presidente do Banco Central Europeu para lhe colocar uma pergunta lúdica, infantil: "Senhor Mário Draghi, pode garantir que não haverá contágio se a Grécia abandonar o Euro?". Isto foi há coisa de três horas. Estamos defendidos, como podem ver.

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publicado às 17:40

Bondex - a crise que se segue

por John Wolf, em 13.05.15

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Nunca se tratou de atirar ao ar a moeda (grega). As opções que se apresentam são claras. Qual o preço a pagar pela manutenção da Grécia no euro? Sai mais cara a estadia ou a partida? Tsipras e Varoufakis fizeram o que lhes competia perante o desespero do seu povo, mas não foram intelectualmente honestos. Desde sempre souberam que qualquer forma de ajuda extraordinária teria de ser acompanhada por mais austeridade. Ao rejeitarem esta premissa teriam de ter algo na mão que pudesse servir de alternativa. Mas não é o caso. Ontem pagaram ao FMI uma parte das suas obrigações recorrendo a fundos de emergência. E esses estão a acabar. Por isso é mais que natural que a União Europeia tenha em preparação um Plano B para a mais que provável saída grega do euro. Não assistiremos a um evento-surpresa, de choque. Há muito que as instituições europeias preparam o terreno. O próprio lançamento do programa de quantitative easing do Banco Central Europeu deve ser entendido enquanto almofada para a volatilidade que um evento desta natureza pode causar. No entanto, há algumas falhas de cálculo a ter em conta. Os decisores políticos europeus tardam em dar conta de uma outra crise de proporções muito maiores. Chamar-lhe-ei (e serei o primeiro a cunhar a expressão): Bondex - a fuga global aos títulos de tesouro (government bonds), a saída de posições detidas. Em síntese, o pressuposto comportamental macro-económico apontava para a persistência do ambiente deflacionário na Europa e o mesmo parece não se verificar (o crude, por exemplo, retoma a sua via ascendente no que diz respeito a preços). E existem mais factores a ter em conta. Mas, em traços largos, a inflação não premeia os detentores de títulos de tesouro uma vez que o yield recebido, seja ele qual for, vale menos, porque a divisa tem menos poder de compra. Por isso a valorização do dólar americano pode ser benéfica para atenuar problemas "regionais". Contudo, já não vivemos em regiões. A interligação financeira e monetária do nosso mundo tornou o mais pequeno canto do mundo ainda mais vulnerável a ventos forasteiros. Estou preocupado em relação ao progresso desta situação complexamente degenerativa que envolve múltiplas dimensões com efeitos recíprocos, mas assimétricos. Uma saída grega acarreta também trade-offs de natureza geopolítica e militar - refiro-me às eventuais perdas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e à ascensão Russa no contexto da fragilidade da União Europeia, exposta pela crise grega. Nem vou envolver Portugal nestes cenários, porque já faz parte dele, embora existam putativos candidatos a primeiro-ministro que não parecem cientes destes perigos. Não quero ser alarmista, mas a crise que se segue será avassaladora quando comparada com aquela iniciada em 2008. Há mais actores em campo e as variáveis nunca são idênticas. Peregrinações são coisa boa, mas duvido que sirvam para certos actos de fé como eleições legislativas ou teimosias ideológicas.

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publicado às 08:28

Greece - living on the edge

por John Wolf, em 23.04.15

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A União Europeia (UE) será leal para com a sua matriz - a Europa. Ao longo da história dos últimos 50 anos do velho continente sempre vingou a ideia de preservação. Um conceito decorrente da devastação e da paz que se seguiu à Segunda Grande Guerra. Nessa medida intensamente condicionante, podemos localizar a questão grega. A Grécia faz parte desse alegado património de estabilidade, e os políticos que fazem parte da contemporaneidade assumem um modelo de percepções. Ou seja, agem de acordo com as expectativas dos cidadãos dos Estados-membro da UE. E aqui reside grande parte do problema. A bifurcação, a separação entre aquilo que deve ser feito e aquilo que efectivamente acontecerá. As mais recentes movimentações greco-alemãs apontam para uma solução forjada, a resposta híbrida de aparente capacidade de superação da Europa em nome do grande desígnio comunitário. A haver acordo, e consequente transferência de fundos para a Grécia, o problema será apenas preterido, adiado para data futura, mas com a agravante da "próxima" emergência ser ainda mais épica, de proporções muito maiores. Em todo o caso, material e substantivo, a Grécia já se encontra em default, enquanto que nos antípodas desse balancete prevalece a ideia de salvar a face a todo o custo. Foi para isso que os membros do Parlamento Europeu foram eleitos. É para isso que presidentes de Comissão Europeia são escolhidos - para garantir os níveis mínimos de ficção política. Temo, que a cada dia que passa,  algo verdadeiramente dramático esteja para acontecer. E os políticos, domésticos ou internacionais, não foram programados para avisar as populações dos verdadeiros perigos que correm. We are living on the edge.

 

foto The Economist

 

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publicado às 20:48

Austeridade à la Tsipras

por John Wolf, em 20.04.15

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A escassos dias da fanfarra de Abril, dos cravos na lapela, dos discursos da geração de 74, da cantiga eles comem tudo e não deixam nada, seria bom que os aniversariantes da revolução olhassem para a direita, a direita geográfica - a Grécia -, e registassem o que o camarada Tsipras está a fazer. O amigo de longa data de Mário Soares acaba de decretar a transferência obrigatória de fundos de entidades públicas para o banco central, no sentido de suprir necessidades de caixa. Refiro-me a reservas de fundos de pensões, que embora possam vir a ser repostas, colocam em risco a vida de reformados e outros dependentes do Estado. Confirmamos algo cínico neste processo, pertença de regimes ideologicamente autoritários. Em última instância, Tsipras prefere matar o seu povo do que acatar as regras propostas pela ex-Troika. Não sei de que modo o que se passa na Grécia pode servir de fonte de inspiração para aqueles que juram defender o seu povo das intempéries e agressões externas. Tsipras quer sacudir a Austeridade de forasteiros, mas para o fazer terá de implementar uma modalidade doméstica - uma estirpe muito mais agressiva do que aquela imposta pelos exploradores do centro da Europa.

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publicado às 17:37

Europa e os sonhos do PS

por John Wolf, em 18.03.15

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No futuro próximo, seja qual for o governo que estiver em funções em Portugal, não terá a sua vida facilitada. O tema da Austeridade que condicionou o discurso e a acção políticos dos últimos quatro anos será substituído por algo ainda mais dramático. Façamos a distinção entre a manutenção de um sistema a todo o custo, e o descalabro da ordem subjacente. Quando Cavaco Silva perfila o seu sucessor como alguém com experiência em relações externas, acerta nas qualificações, mas engana-se no posto. Quando escuto as palavras convenientes de António Costa sobre o fim dos tempos difíceis em Portugal, a reposição das pensões dos reformados, o crescimento económico e o emprego, vejo uma criança. Os grandes estrategas do Partido Socialista (PS) apresentam-se com ganas de vingar Portugal, mas omitem as dinâmicas do resto do mundo. Descuram cenários extremos que estão a acontecer além de Badajoz. O crescendo que se regista na opinião pública na Alemanha sobre a saída grega do Euro deve ser integrado na racionalidade política e de um modo expressivo. A agenda para a década do PS vendida como panaceia, incorpora ou não uma Europa radicalmente transformada ou assenta em premissas falidas? Mas acho que encontrei a explicação para o desprezo no que toca a condicionantes excêntricas. Se os socialistas chegarem ao poder, e quando começarem a falhar as suas receitas, sempre poderão atribuir a culpa a factores exógeneos. Mas existe uma contradição endémica nessa hipotética abordagem. O sistema europeu não irá explodir fruto de ameaças de Tsipras e da sua falange revanchista. A ordem da Zona Euro e da própria União Europeia sofre o desgaste no âmago da sua construção. E os sonhos acordados dos socialistas também sofrerão, por analogia, das mesmas contradições endémicas. A natureza ideológica da Europa assente na ideia de Seguranças Social e subvenções sem fim, está em profunda mutação. Os socialistas do Rato ainda não entenderam isso. As instituições europeias também parecem caminhar de um modo desalinhado. O lider do Eurogrupo fala de uma solução à Chipre, enquanto na Alemanha o Grexit parece estar a ganhar cada vez mais adeptos. António Costa, que se tem esquivado às questões que dizem respeito aos homens, vai ter de tomar decisões difíceis. E isso vai baralhar ainda mais as contas. Para além da complexidade que define todo este processo político-financeiro europeu, vamos ter de incluir juízos errados de futuros governantes nacionais. Preocupa-me a falta de visão do mundo daqueles que prometem salvá-lo.

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publicado às 09:11

Mais Grécia menos Europa?

por John Wolf, em 20.02.15

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Cada um vê aquilo que quer ver. Eu olho para a União Europeia na qualidade de passageiro. Sou extra-comunitário. Não elegi nenhum europeu. A minha opinião de nada vale, mas partilho-a de bom grado. Enquanto as Esquerdas do Syriza e companhia abrem o espumante para celebrar a alegada estocada dada na cadeira de Schäuble, alimentando o sonho do descarrilamento do poder central da UE, a realidade apresenta-se de um modo distinto. Segunda-feira Varoufakis terá de apresentar por escrito as medidas de Austeridade adicionais. Foi assim que o acordo foi gizado. E é aí que reside grande parte do problema. O tal mandato de Tsipras contemplava a denúncia do clausulado imposto pelo programa de resgate e o alívio estrutural da Grécia. O que conseguiu o primeiro-ministro grego com a mesada a quatro meses? Consegui muito pouco para além de um pequeno balão de oxigénio. Um país com uma dívida de mais de 350 mil milhões de euros e ainda refém de reformas por realizar e corrupção crónica, nem por sombras conseguirá dar a volta ao texto nos quatro meses negociados por entre as estrofes de Kant e Nietzsche. Mesmo um período de quatro anos não seria suficiente. Resta saber como o povo grego irá engolir esta pastilha de mais esforço fiscal, e se uma facção ainda mais radical daquele país interpretará o novo contrato como uma verdadeira traição política. Daqui por três meses (um mês antes do fecho de contas) seremos confrontados com um déjà vu, o vira-o-disco e toca o mesmo - a cantiga do pre-default. Não sei bem quem ganhou tempo. Se a União Europeia ou a Grécia. Mas em todo o caso não importa muito. A situação é de perda seja qual for o local de residência na União Europeia. É isto a que se referem quando falam do espírito solidário da Europa? A resposta parece óbvia. Pouco esclarecedora. Por vezes choques sistémicos são desejáveis para alavancar certos impasses. Em vez disso assistimos hoje à entrega de um remendo com o aviso paternalista: vá lá, faz-te à vida.

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publicado às 22:10

Eu não elegi a Maria João Rodrigues

por John Wolf, em 17.02.15

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É para isto que Portugal elege membros do Parlamento Europeu? Para debitar um conjunto de generalidades e lugares-comum? Francamente. Isto parece um trabalho de um aluno do ensino secundário. Como diria aquele outro especial de corrida que costuma dar notas em directo na televisão: 9. Dou-lhe um 9. Dou um 9 à Maria João Rodrigues.

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publicado às 19:40






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