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Mariana Mortágua acerta em metade da sua afirmação: "A dívida é insustentável. A única coisa a fazer é reestruturar". A doutora tem razão em relação à primeira parte. A dívida vai determinar o berro governativo. É curioso que a doutora não discrimine adequadamente os itens. A dívida de que fala é a dívida pública (mas também existe uma privada, e deveras substantiva). E aqui entramos em contradição conceptual no que diz respeito à nacionalização do Novo Banco. Não existe já um banco público de seu nome Caixa Geral de Depósitos (CGD)? Como é que um Estado, que não se aguenta nas canetas, pode pôr às costas mais um banco? E tornamos ao primeiro axioma - a dívida, com um Novo Banco de Depósitos, ainda mais insustentável se torna. Não existe à face da terra nenhum banco público que aja exclusivamente de acordo com o interesse público. Não sei em que mundo vive a doutora. A própria CGD, se fosse o apanágio do interesse nacional, não poria à venda fundos de investimento controlados por gigantes especuladores semelhantes à Lone Star. E há mais nuances absurdas que andam a dar a volta à cabeça da doutora. Não sei de que reestruturação de dívida fala, mas no mundo real de investidores, Estados e governos, são entidades financeiras privadas que arcam com o peso de alargamento de prazos, embora possa parecer uma operação clean em que "entidades públicas" pagam - não é nada disso, nada mesmo. Em última instância é o aforrista privado que paga. Os governos apenas emprestam a sua falsa aura de salvadores da pátria. A reestruturação não é um jogo de soma-zero. Existe um mercado especulativo que vive desses processos. O problema da doutora é ver o mundo de um modo fantasiado, inquinado e pleno de vícios ideológicos, quando o universo já não funciona de acordo com teses que andou a defender na escolinha.

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publicado às 13:38

Geringonça exibe filme de 2011

por John Wolf, em 04.01.17

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É impressão minha? Ou já vimos este filme antes? Começam a nascer por todo o lado os mesmos sintomas que conduziram ao dramático descalabro do glorioso mandato socratino. Basta ligar a caixa que mudou o mundo, e mesmo que apenas se colem aos canais do regime, já não passa em branco a azáfama e o caos do Serviço Nacional de Saúde - nada parece funcionar. Depois, um pouco em segundo plano, como se nada fosse, as taxas de juro da dívida que têm regressado ao olimpo da ruptura iminente, têm sido abafadas pela novela quixotesca que opõe Domingues ao governo da Caixa Geral de Depósitos. Mas como cereja em cima do bolo-podre de consternações, desprovido de má-lingua propagandista, lá aparece o raio dos números das pensões mais baixas, das gasolinas mais caras ou do IUC mais a doer. No entanto, estes ingredientes dizem respeito ao quintal cá de casa. Enquanto tiram teimas de geringonça, o Banco Central Europeu (BCE) prepara uma canelada que far-se-á sentir em Abril, mês dos cravas. O BCE iniciará então a redução do seu programa de compra de títulos de dívida de países em apuros da Zona Euro. Passará de 80 mil milhões de euros mensais para 60 mil milhões, pelo que Portugal sentirá efectivamente os efeitos da referida redução. Não sei que bode-expiatório têm programado para chocalhar as hostes, mas prevejo "medidas excepcionais" e "justificações governativas" para o reforço e ampliação do conceito de austeridade, que aliás, em abono da verdade, não se foi com o estalar de dedos demagógicos da geringonça. Entretanto, como as más crónicas superarão as favoráveis, Costa deve seguir o modelo turco com ainda mais afinidade e rigor, e realizar a purga de vozes dissonantes dos meios de comunicação social. Quanto aos bloggers chatos, como eu, mandar-nos calar é mais difícil.

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publicado às 20:52

UBER CARRIS para acabar com a tosse

por John Wolf, em 21.11.16

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Por favor, alguém tenha a bondade de me explicar o swap da gestão da Carris como se eu fosse muito burro. Se fica tudo na mesma, como afirma Costa, por quê fazê-lo? A resposta é simples: estamos em plena campanha eleitoral para as autárquicas e esta operação dá ares de clarificação e liquidação de dívida, mas não passa de um embuste. As empresas privadas responsáveis pelas operações que produziram as dívidas avultadas estão a ser tratadas como bancos. Ou seja, a sua incompetência, e a gestão danosa que decorre da mesma, será saneada, caiada com tinta de resgate, porque em última instância é o dinheiro dos contribuintes que será esbanjado sem dó nem piedade. Se o malparado está num bolso ou noutro, é totalmente indiferente. Estão ambos furados. São sacos sem fundo. E quem sabe se não serão azuis. Ou rosa. Venha de lá mais um livro sobre carismo. Desta vez redigido pelo edil e ex-edil. O que isto precisava era de um UBER dos autocarros. Para pôr isto a mexer. Acabavam logo as dívidas e mordomias de direcção. Porque no fundo isto é tudo a mesma coisa. Uns vão para a Caixa Geral de Depósitos. E outros saem na paragem seguinte.

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publicado às 18:23

Silly sanções season

por John Wolf, em 29.07.16

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É isto que interessa. E o resto são lérias - a competitividade da economia portuguesa. António Costa deve colocar de lado o circo das sanções e encarar a música. A tónica de Centeno tem sido o estímulo do consumo. Ou seja, começa pelo fim. Em vez de pensar em gerar riqueza e investimento (e depois o consumo), querem afagar o pêlo bronzeado dos portugueses, dando-lhes uns cupões para gastar na silly season. Atente-se no detalhe expresso pelo Fórum para a Competitividade: "os valores apresentados pela DGO não representam a verdade orçamental e que assistimos a uma repetição do que já se passou em 2001 e 2009“. Em suma, nada disto é novo. Que o diga José Sócrates que já se pôs de joelhos para ver se lhe continuam a dar de mamar vitaliciamente - as fotocópias já não são o que eram.  Aliás, Sócrates é a perfeita imagem de um país destroçado pelos excessos. Se a crise fosse um país, Sócrates seria a mascote perfeita do desespero. Enquanto a bomba não rebentar, no leilão de resgate da Caixa Geral de Depósitos (CGD) discutem os milhares de milhões de euros como se de feijões inconsequentes se tratassem. Já que a pasta CGD está a ser discutida com o conhecimento (e aval) de entidades europeias, não vejo como tal colosso de berbicacho possa ser tratado à margem de considerações orçamentais genéricas. Por outras palavras, não acredito em sanções, mas que elas existem, existem. Têm outro nome - aumento de impostos, de IVA, de IMI, congelamento de salários, etc, etc. Em suma, anti-austeridade à moda antiga. 2011, não tarda nada.

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publicado às 20:36

Schäuble envia postal a Centeno

por John Wolf, em 11.02.16

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O impacto negativo decorrente da entrada em funções do governo de António Costa e do processo inacabado do Orçamento de Estado já é quantificável. Os títulos de dívida a 10 anos foram enjeitados pelo mercado, arrastando os juros para valores apenas registados em Março de 2014. António Costa, apontado como salvador da honra nacional, afinal não passa de um operário que trabalha à peça. Primeiro soldou as peças parlamentares para forjar um governo frágil, assente em arranjos e negociações secretas. Depois, apresentou um desenho de Orçamento de Estado que aparentemente foi um notável sucesso junto da Comissão Europeia. E agora, à luz das considerações do Eurogrupo, devemos esperar mais um passe de mágica. Uma carta sacada do baralho ideológico para servir  os interesses dos camaradas filiados. A fotografia tirada pelos sindicatos e funcionários públicos parece ter muito mais valor do que o resto. Mas a prepotência de António Costa far-se-á pagar caro. Pode ser que consiga vender as suas promessas a metade do país, mas será a outra metade a pagar a conta. Mário Centeno irá ter oportunidades de sobra para atacar o ministro das finanças alemão Wolfgang Schäuble quando este subir de tom nas próximas semanas. Portugal não vai estar preparado para medidas adicionais de Austeridade.  É feio mentir ao eleitorado nacional.

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publicado às 19:22

O queijo socialista, e as facas da Esquerda

por John Wolf, em 06.12.15

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Não existe dilema algum que possa afligir o governo de António Costa. Para poder ser um mãos largas, o homem de carteira farta, terá, inevitavelmente, de encontrar um modo de angariar fundos. A não ser que readmita a impressão de divisa própria, o cunhar de moeda, os socialistas vão ser obrigados a seguir o guião grego. A Austeridade não foi nem será exterminada pela máquina ideológica de Esquerda. De nada serve vir com essa conversa da almofada financeira. Para cumprir com as promessas de aumento de salário mínimo, reposição de pensões, fim da sobretaxa ou cancelamento de programas de privatizações, a balança terá de pender negativamente para o lado do défice e da dívida pública. Durante meses a fio, ao longo da campanha do PS, não se eximiram de apontar defeitos e acusar o governo anterior de falsear dados. Se essa era a situação "a lamentar", então o exercício da governação de António Costa deveria ser business as usual. Não se deveriam apresentar como damas ofendidas pela palavra dada e não honrada. Os testas socialistas, coadjuvados pelos bloquistas e comunistas, têm a faca e queijo na mão. Não precisam de governar em virtude de consensos parlamentares. São a tal maioria de que tanto se orgulham. O PSD e o CDS até nem precisariam de pôr os pés na freguesia da república.

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publicado às 15:23

O Euro e a dose grega

por John Wolf, em 22.06.15

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Digam o que disserem, nada mudou. Se a Grécia chegar a acordo com os credores, apenas significa que a Austeridade será prolongada, incrementada. São analistas deste calibre que constituem um perigo público. Os aspectos fundamentais da economia grega não se alteram mesmo que libertem os fundos exigidos. O problema será apenas agravado e adiado. A Grécia, assim como tantos outros países do ocidente, é um drogado em busca da próxima dose de heroína. Podem passar cheques e mais cheques de 100 mil milhões de euros que a crise não será atenuada. A bolha da conveniência política tarda em rebentar, mas quando estoirar não quero estar por perto. Tsipras vai ser hasteado na praça pública. Vamos ver como descalça a bota. Como vai explicar aos compatriotas que afinal não deveria ter prometido o que quer que fosse? Afirma ser o revolucionário que rasga os contratos com os opressores, mas vai embarcar em nova ronda de austeridade. Vai eternizar a relação helénica com os senhores do capital fresco. Lamento muito. Prometia ser um dia auspicioso, mas será apenas um dia igual a tantos outros.

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publicado às 11:09

A Grécia cá do sítio

por John Wolf, em 20.02.15

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Grécia cá do sítio. Perguntem ao Alberto João Varoufakis.

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publicado às 12:21

A corda na garganta grega

por John Wolf, em 18.02.15

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Se a Grécia aceitar uma extensão de seis meses do empréstimo haverá bronca em Atenas. Alexis Tsipras foi eleito no auge da euforia de promessas que simplesmente não pode cumprir. Os 85% de popularidade que o amparam facilmente podem descambar para um golpe de Estado e a instauração de outro regime, também esse extremo - de Direita, fascista. O povo grego dificilmente aceitará uma traição de Tsipras. A Austeridade era para acabar, segundo o mesmo, mas se um acordo for assinado com a ex-Troika (?), os termos da mesma agravar-se-ão. Por esta ordem de ideias a solução sonhada pela Grécia dificilmente se tornará realidade. De acordo com fontes oficiais, Varoufakis apresentou-se na reunião desprovido de gravata e de um documento sequer. O homem  apareceu equipado com paleio intransigente - a ideia de despejo dos termos do resgate, pura e simplesmente. 

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publicado às 09:30

Portugal, uma enorme fotocópia

por John Wolf, em 11.02.15

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É perigoso viver em Portugal. Muito perigoso - o país anda entretido com as fotocópias de Sócrates e o corte de relações institucionais entre o Sporting e o Benfica. Enquanto isso a Europa vive a maior crise desde que há memória. A vingança da Austeridade e a promessa de que a Merkel seria esmagada alimentou excessos nos discursos e novas figuras de estilo na Europa. Tsipras e Varoufakis, sem dúvida que serviram para agitar as águas instransigentes da política, mas não passam de marionetas de um esquema maior. O dia de hoje pode também figurar na história, mas não pelas razões que os gregos invocam. A Grécia bem pode ameaçar arrastar ao fundo uns quantos colaboradores se as suas exigências não forem cumpridas. Mas não é bem assim. Os mercados já começaram a descontar a "inexistência" da Grécia no quadro europeu. Os ânimos exaltados do duo grego serão rebaixados pela determinação dos políticos dos centros de decisão que não desejam uma hecatombe com efeito de dominó, o que em última instância deitaria a perder o grande sacrifício de alguns, entre os quais Portugal. Se derem despacho ao requerimento dos gregos a coisa muda logo de figura. Seria como entregar argumentos válidos a outros demandantes. Portugal não é a Grécia, nem precisa de ser a Irlanda. Certamente terão de passar alguns anos para que Portugal perceba que os caminhos trilhados pelos outros não servem as suas causas. Como já havia escrito, da escolha múltipla a decisão efectiva é um pequeno passo. Se a Grécia abandonar o Euro (e subsequentemente a União Europeia) é porque já terá alinhavado um novo arranjo de lealdade política e dinheiro fresco. O outro berbicacho em que Portugal está metido (mas que acha que não está metido), chama-se "conflito na Ucrânia". Esse outro tira-teimas pode muito bem ser mais nefasto do que muitos julgam. Mas querem lá saber. Afinal Portugal é um país à beira-mar plantado. Imaginem só se estivesse bom tempo. Ainda seria pior. Estaria tudo na praia.

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publicado às 09:33

Thomas Schelling e Grécia para totós

por John Wolf, em 09.02.15

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Vamos utilizar um pouco da Teoria do Jogo e prestar homenagem a Thomas Schelling.

Algumas hipóteses;

1. A Grécia recebe fundos adicionais, mas tem de continuar com as medidas de Austeridade - no dia seguinte dá-se um golpe de Estado, um regime de extrema-direita é instaurado e o país cai em conflito civil. Torna-se irrelevante se pertence ou não à zona Euro.

2. A Grécia não recebe mais fundos, cai em caos económico e social, e abandona o Euro - a Rússia aproveita a situação e encosta-se ainda mais ao país que abandona o Euro e a União Europeia.

3. A Grécia vê as suas demandas respondidas favoravelmente, e no dia seguinte Espanha, Portugal, Itália e Irlanda exigem semelhantes condições - em consequência dessa abertura de espírito financeiro, o Banco Central Europeu é obrigado a imprimir doses maciças adicionais de Euro que sofrerá o desgaste natural da inflação e mais tarde da hiperinflação. Ou seja, o Euro abandona-se a si mesmo.

4. Troika decide perdoar a dívida de todos os Estados-membro da União Europeia, deixando deste modo todo o espaço da zona Euro cair em depressão e desorganização monetária - facto esse que devalorizará o Euro a níveis de irrelevância, sendo que o investimento directo estrangeiro na União Europeia dispararia, mas a Europa efectivamente passaria a pertencer a entidades estrangeiras que substituiriam os centros de decisão política. Por outras palavras, o fim da União Europeia seria certo.

5. A Grécia aceita continuar com um regime de Austeridade parcial, mas os juros impostos sobre a dívida serão agravados. O país cai em conflito político, económico e social e o governo de Tsipras é obrigado a instaurar o recolher obrigatório e colocar militares na rua - ou seja, de regime libertário passa a regime repressivo, sem a ajuda da extrema-direita.

6. A Grécia abandona o Euro e a União Europeia e adopta um divisa que não será necessariamente a sua. Por exemplo, o dólar dos EUA, país esse que decide salvar os helénicos invertendo a lógica de aproximação à Rússia.

7. Devo continuar? Ou ficaram com uma ideia da complexidade da situação?...

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publicado às 20:53

Passa a massa, Merkel!

por John Wolf, em 06.02.15

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Não é preciso ler a obra de Niall Ferguson - A Ascensão do Dinheiro -, para saber que os pressupostos do crédito estão a ser postos em causa no âmago da União Europeia (UE). Sem percorrer esse perigoso caminho das compensações históricas* que são devidas ou não, e que não pouparia nenhuma nação à face da terra, o que resultar do conflito que opõe a Grécia à Alemanha pode destravar por completo a já de si ténue relação entre dinheiro e Ética.  Se vingar a tése do perdão, certamente que uma extensa fila de faltosos procurarão tratamento idêntico - situação essa contraditoriamente inexequível. O crédito (como quem diz a crença que os outros depositam em nós) precede a existência física de dinheiro - o bom nome é a divisa maior, mas apenas se valida através da sua extensão material. Se esse fundamento deontológico que se encontra por detrás da construção monetária das nossas sociedades falhar, como podemos esperar que não mine todo um sistema de transacções? Como podemos aceitar que a excepção à regra se venha a tornar a norma? São considerações desta natureza que podem corromper um dos valores mais importantes do acervo existencial humano: a confiança. Não pretendo com esta linha de argumentação libertar os credores do seu sentido de responsabilidade no contexto de um projecto europeu alegadamente inclusivo e nivelador de diferenças. Culpados? Sóis todos vós europeus por terem concebido um modelo sistémico deficiente. Em nome de uma grande "entidade económica europeia concorrencial" os visionários foram ambiciosamente incompetentes. Avançaram a causa dos negócios, mas omitiram a federação do espírito das nações. Esqueceram-se dos pilares de justiça e segurança social, e prescindiram de uma efectiva Política Externa e de Segurança ComumA Grécia, assim como o conflito na Ucrânia, servem, de um modo cáustico, para expor as grandes lacunas da UE.  Se os lideres europeus tiverem a visão e a ousadia requeridas, a grande reforma poderia ser posta em marcha na construção de uma nova ordem na Europa. Mas não é disso que se trata. Quer a Alemanha quer a Grécia estão a defender os respectivos interesses nacionais. Merkel e Tsipras estão, efectivamente, empatados: querem salvar a sua pele e pouco mais. A tal união - essa não passa do papel, da massa.

 

*Compensações históricas possíveis:

EUA ao Iraque, à Nicarágua e ao Afeganistão.

Portugal a Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde

França à Argélia e à Líbia

Etc a etc, etc e etc

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publicado às 13:52

Quem vai receber Varoufakis à Portela?

por John Wolf, em 02.02.15

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Quem vai receber Yanis Varoufakis à Portela? O ministro das finanças grego está em tournée europeia, e embora ainda não tenha sido noticiado, Portugal deve constar do seu rol de visitas. Apenas sabemos que existem uns quantos em território nacional que já se estão a acotovelar, a dar uns empurrões para ficar bem na fotografia. É assim que funciona em política, seja qual for a causa, a missão a cumprir. A Catarina Martins, a Ana Drago, o Jerónimo de Sousa, ou mesmo o Daniel Oliveira, devem ser os candidatos com ganas de mostrar os cantos à casa - a desgraça que nada tem a ver com a tragédia grega. Nesse dia de recepção, António Costa encontrará uma desculpa para se esquivar - quiçá, a inauguração de mais uma ciclovia. Mas o amigo Yanis não vai ficar muito contente. Então malta? O que se passa? Na Grécia, Syriza! Em Espanha, Podemos! E em Portugal, nicles batatóide? Pois, sabe Dr. Varoufakis, aqui a malta tem dificuldade em instigar a mudança. Pode dar-nos uma ajudinha? Umas dicas. Mas a verdade é que nem Tsipras nem Varoufakis têm algo para oferecer. Aliás, a cada hora que passa as probabilidades de reestruturação da dívida são cada vez mais ténues. Vejam-se os números das casas de apostas. Estudem o comportamento das taxas de juro, das condições de mercado cada vez que sopram ventos de utopia financeira. Se Varoufakis pretende chegar a um acordo com credores deve meter-se no expresso e zarpar rumo aos Goldman Sachs e Rothschilds deste mundo. Se realmente quer marcar a diferença e cortar relações com a Troika e os interlocutores formais da União Europeia, deve demonstrar que consegue ser criativo e original. Para já o duo Tsipras-Varoufakis conseguiu conquistar o poder, muito à custa do rasgo visceral de uma população derreada pela Austeridade, ávida de pão e vingança. Pensando bem, vir a Portugal é uma perda de tempo. Nenhum dos esquerdistas radicais de ocasião que acima referi percebe patavina de como funciona o mundo. Não pretendo ser cínico com este desabafo. Mas, meus senhores, as grandes decisões já foram tomadas. O resto são flores de estufa. Decoração.

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publicado às 09:14

A Entente Greco-Russa e a Europa

por John Wolf, em 30.01.15

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Nos dias que correm é muito fácil ser atirado para um dos campos da discussão - either you´re with us or you´re against us -, é conveniente simplificar o intrinsecamente complexo, usando para o efeito, códigos caducos, linguagem ideológica fora do seu prazo de validade. Assistimos na Europa, ou se quiserem na União Europeia (UE), a grandes dificuldades interpretativas. A Entente Cordiale que está a ganhar forma entre a Grécia e a Rússia é motivo de alarme. Pela primeira vez na história da UE um estado-membro rejeita servir-se das instituições formais que foram criadas, para, em última instância, preservar a paz. Yanis Varoufakis diz por outras palavras que já não reconhece autoridade à Troika, que aquele mecanismo não tem legitimidade para decidir sobre o destino de um Estado soberano que "por acaso ainda" é membro da UE. Não é apenas Putin que não quer perder a face. Tsipras também não irá esbanjar o que alcançou oportunamente numa Europa polarizada pela extrema direita e extrema esquerda, por anti-americanismo, assim como pelas entidades pragmáticas como a austeridade, o terrorismo, enquanto extensão ou não do Estado Islâmico.  A Europa, refém dos seus processos formais e em plena crise económica, está a tornar-se presa fácil para outra "pária". A Grécia está geopoliticamente encravada numa zona de cultura ortodoxa à mão de semear dos interesses estratégicos russos. Chipre ou a Bulgária  podem ser também magnetizados pela dissensão intencional russa. Enquanto milhares celebram efusivamente a libertação dos gregos das directivas alemãs, um outro eixo de substituição está a ganhar forma, uma outra estrutura de poder conhece já a sua cúpula. Neste contexto, e por analogia ao descalabro e à guerra a que já assistimos, a Grécia pode ser entendida como uma pré-Ucrânia. Um espaço vital onde talvez não se vislumbrem tanques de guerra e colunas de infantaria russos, mas onde outra dimensão de projecção de poder, está, efectivamente a acontecer. Os libertários europeus serão confrontados com vários dilemas existenciais, mas para já, desenham de um modo claro, um certo fundamentalismo cego, de libertação do ónus da dívida a qualquer preço. O problema é que o valor não é determinado por vontades internas, por comissões políticas nascidas nos salões de uma Europa civilizada. Quem demonstra intenções claras e inequívocas é a Rússia. Seria bom se a Europa das liberdades e garantias calibrasse sem demoras a sua posição no contexto de ameaças que já não são externas. O triângulo das Bermudas da Europa desenha-se com duas pontas agudas que não tarda irão furar as expectativas utópicas de uma comunidade europeia de crentes que ainda acredita num regresso faustoso ao estado social e às subvenções vitalícias. O nosso futuro pode muito bem estar nas mãos de Putin e Tsipras. Os primeiros passos são sempre os mais difíceis.

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publicado às 18:06

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Preso por ter cão e preso por não ter. Dizem que é uma coisa má. Mas estamos em Portugal.

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publicado às 20:26

Os fanáticos da dívida e o PS

por John Wolf, em 20.10.14

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O Partido Socialista (PS) afirma que é contra o "fanatismo da austeridade", como se não fizesse parte da história que conduziu a esse estado clínico. Para demonstrar boa-vontade e fair-play, o PS deveria reconhecer que os loucos que agora apertam o cinto dos portugueses também são seus filhos - são monstros criados por si. Foram décadas de gestão esbanjadora que tornaram a dívida avassaladora e crónica. Há algo de incoerente nesta abordagem. Não foi José Sócrates que jurou que a dívida não se resolve? Que a dívida é um bicho para se ir gerindo? Alguém acredita que é possível fazer tábua rasa da realidade financeira, que é adversamente negativa, e começar de novo como se nada fosse? A haver uma renegociação da dívida, que desconto será efectivamente obtido na factura? Olhar para o problema através da óptica europeia faz sentido, mas também faz sentido reflectir sobre o impacto que as doutrinas alegadamente socialistas tiveram na estrutura económica e social da Europa - as ilações ideológicas ainda não foram tiradas, o mea culpa ainda não foi feito. Esta iniciativa de pré-executivo é um claro indicador de que existe a noção no PS que os problemas económico-sociais são grandes demais para a sua camioneta. Aos poucos, porque são ratos, percebem que devem meter todos ao barulho. Uns quantos do Manifesto 74, e ainda outros provenientes de outras latitudes. Resta saber como os socialistas, após anos de rejeição ideológica da receita de Angela Merkel, vão encetar negociações com a mesma senhora que lá estará para os receber. Prevejo que, se e quando chegarem ao poder, todo o gás da claque da oposição socialista seja convertido em algo mais etéreo, contraditório. Embora de momento ainda sejam do contra, quando forem governo e a Realpolitik de Bruxelas lhes bater na cara, aposto que vão comer e calar. E nesse momento passarão a ter outra dívida para com os eleitores portugueses. Para já o PS ainda pensa ter bom crédito dos eleitores. Veremos.

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publicado às 17:23

Portugal procura a saída

por John Wolf, em 11.03.14

Uma saída nem sempre pressupõe uma entrada. E é isso que me preocupa. A ênfase colocada na saída do programa de ajustamento a 17 de Maio sem que se vislumbre uma entrada. A passagem para um território seguro, para terra firme. Sabemos muito bem que um doente crónico, a que dão alta em determinada data, fica obrigado a consultas regulares para observar se a recuperação é tendencialmente positiva. Os políticos portugueses vivem obcecados com a numerologia da retoma. Como se tudo se pudesse reduzir a níveis de taxas de juro e percentagens. Por isso o consenso em Portugal me parece improvável. Porque o mesmo se baseia na dimensão quantitativa da política, colocando à margem a dimensão moral. Não interessa muito qual a data oficial da partida da Troika. O que interessa, e muito, é a capacidade de implementar soluções que façam erguer os portugueses da sua ruína económica e social. Os tempos que se seguem (falo de anos, falo de décadas) exigirão uma grande atitude colectiva. Um esforço acrescido para que cada português, filiado ou não, faça cair por terra a pequena política, a mentalidade de quintal. O que diz Cavaco não é totalmente desprovido de verdade e o que diz Belmiro peca por comparar alhos com bugalhos. Não sei de que modo o país se pode reinventar se insiste nos rancores e na ideologia de bancada que apenas serviram enquanto elementos fracturantes da sociedade portuguesa. A revolução cultural que Portugal necessitaria tarda em acontecer. A dinâmica de pensamento capaz de questionar as grandes estruturas, a matriz condicionadora dos processos, não está a acontecer. Nessa medida, o caso português apresenta-se-me como particularmente bicudo. Persiste na consciência colectiva um certo saudosismo por um modelo económico e social que já demonstrou a sua insuficiência. E todos sabemos que em equipa que não funciona, deve-se mexer...e muito. 

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publicado às 09:46

A divida crescente da população minguante

por John Wolf, em 02.12.13

Se Portugal é o único país a sair do ajustamento com menos população, significa que não saiu do ajustamento. Quer dizer que os poucos que ainda cá permanecem devem suportar um maior nível de dívida, mesmo que esta venha a diminuir. Ou seja, a dívida per capita acaba por ser maior. Em cima dos ombros de cada cidadão estará um encargo maior. Portanto, os números da alegada melhoria das condições económico-financeiras devem levar em conta todos os factores e não apenas os mais convenientes. Não é apenas a diminuição do número populacional que está em causa, mas o esforço que será exigido aos "sobreviventes"; àqueles que permanecem na realidade nacional e que não decidiram emigrar para outro país. Embora se refiram à fuga de mão de obra qualificada para o exterior, o drama reside com aqueles que permanecem em Portugal e que não sendo os "cérebros" que partiram, terão paradoxalmente de ser ainda melhores do que os bons que se foram. Como podemos observar a equação não é linear, embora os políticos de Bruxelas a São Bento nos queiram impingir um axioma simples, uma redução confeccionada a partir de uma complexidade muito maior. O grau de suspeição que acompanha a população é, no meu entender, uma coisa positiva. Vai obrigar cada um de nós a puxar pela cabeça para interpretar os factos que nos apresentam. Um processo de selecção pouco natural está em curso, através do qual somos obrigados a separar o trigo do joio - a má notícia da péssima. A dada altura do desenrolar dos acontecimentos, a sociedade fica mais habilitada para realizar aquilo que os ingleses designam por "number crunching" - numa péssima tradução; espremer a contagem para ver se sai alguma coisa de jeito - falta de jeito, na pior das hipóteses a terminação errada.

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publicado às 21:24

How the economic machine works

por John Wolf, em 07.11.13

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publicado às 18:21

Há maior sucesso do que este?

por Pedro Quartin Graça, em 25.10.13

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publicado às 17:15






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