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Paris, início dos anos 90

por Nuno Castelo-Branco, em 23.04.17

 

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 Devido a afazeres profissionais, durante um certo período tive de visitar Paris bastas vezes e foram tantas que praticamente dividia a residência entre Lisboa e aquela capital. Era um penoso dever bastante agradável numa cidade que cumpria fielmente todos os lugares comuns das luzes cintilantes, quilómetros de museus, vitrinas opulentas e tudo o mais que se sabe.


Ficava então instalado no XVIéme, nas imediações do Trocadero, uma zona a abarrotar de celebridades, gente de pasta, uns tantos exilados voluntários ou não como a grandiosa Xabanu Farah Diba ou a esquiva Marlene Dietrich. Era este o ambiente. O apartamento? Intermitentemente vazio e pertencente a uns amigos, claro.

Naquele prédio sito nas imediações da G. Mandel, imperava uma imponente porteira cuja nacionalidade facilmente se adivinha, pois isto também fazia então parte integral dos já citados lugares comuns acima apontados. Era uma belíssima alentejana alta, bem torneada, lábios e peitorais protuberantemente carnudos e com um não sei quê de Amália fisicamente muito mais dotada. Nunca, jamais a vi de bata e ar tristonho e pelo contrário saía à rua impecavelmente vestida, bem ciente de saber sempre ser notada. Para cúmulo da felicidade era orgulhosa, altiva e apenas ficava naquele meio sorriso bem educado que não dava azo a confianças. Inacreditavelmente não tinha aquele sotaque típico que tão bem caracteriza as nossas elites caseiras em todas as suas pretensões cosmopolitas. Ia todas as semanas ao teatro, lia, visitava exposições e comigo jamais soltou boca fora qualquer galicismo. Nunca. 

Como se sabe, aquela zona de Paris é pródiga em blondasses naturais ou químicas, umas que já viram melhores dias e outras que mesmo o passar dos anos em nada mudam o aspecto geral bastante razoável. Naturalmente corteses e friamente distantes, davam-se a ares não se sabe bem de quê e viviam recolhidas nos seus não-afazeres quotidianos. Era o caso daquele prédio onde a luso-majestática Maria Antonieta ditava a sua lei que em boa verdade era timidamente obedecida por todos. Os residentes resmungavam pela surdina e abandonado o átrio, os decibéis dos latidos iam subindo à medida que galgavam as escadas, afastando-se da despótica Senhora que fazia sombra a todas as outras. A Antonieta abertamente se ria e virando-se para mim, disparava com um esgar desdenhoso:

- Estás a ver, é assim que devem ser tratados, é metê-los a todos nas suas tocas! Pffffff...era só o que mais me faltava!

E passava adiante, falando das suas saudades do nosso país que ainda imaginava ser o seu. Nunca me atrevi a dizer-lhe que de facto a França, ou melhor, o ambiente que ali existia muito fizera por ela e como inteligente pessoa que era, nem sequer disso dava conta, tudo aquilo que mostrava tornou-se numa naturalidade que advinha da sua forte personalidade rica e multifacetada.

Um dia, chegando a meio da manhã, deparei com esta Senhora numa acalorada discussão com uma pequena e rechonchuda blondasse do edifício, uma verdadeira doméstica burguesa sem qualquer tipo de chamariz e bastante vulgar na expressão portuguesa do termo. Não sei qual teria sido a origem da disputa, mas a certa altura a famosa ditadora da portaria acabou com o assunto de forma lapidar, vincando bem cada palavra:

- Est ce que vous savez mon nom, Madame? Ma-ri-e An-toi-ne-tte, Ma-ri-e Ant-toi-ne-tte! ICI, LA REINE C'EST MOI!

Clac! (porta fechada com estrondo na cara da pequena bourgeoise atrevida)

E era mesmo a rainha do prédio, batia todas as outras por KO absoluto. 

Guardo para mim as desconfianças, mas o que terá ela decidido para hoje? 


 

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publicado às 09:05

Ver Le Pen e navios passar

por John Wolf, em 24.03.17

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A ver vamos quem ganha a corrida. Se o festival europeu da canção populista ou se a melodia da traição de Trump. Falamos de Democracia, naturalmente. Em qualquer um dos casos, os processos decorrem de prerrogativas firmadas em Constituições e materializam-se quer em processos eleitorais ou mecanismos de controlo. Afastemo-nos por alguns instantes da contaminação ideológica e concentremo-nos nas liberdades e garantias. Em França, Le Pen tem o direito inalienável de se propor como solvente do dilema existencial daquele país. Nos Estados Unidos (EUA), Trump, que já se senta na cadeira do poder, é agora obrigado a rever algumas premissas de sustentação. Na grande competição de legitimizações, os lideres efectivos ou prospectivos não se livram dos mecanismos de controlo. Nessa medida, os EUA  levam a vantagem. Trump não pode abandonar o dólar americano e iniciar um Americexit. Está preso nessa federação consolidada e responde perante o FBI. Le Pen, por seu turno, pode rasgar sem dó ou piedade o Tratado de Lisboa, o Euro e fazer-se à vida soberana. Nos EUA, a soberania também se exprime na acção da agência federal de investigação que virará o prego caso seja necessário e à luz de evidências de traição que parecem estar a ganhar contornos inegáveis. A União Europeia (UE), com todos os seus salamaleques burocráticos e danças de comissão, pura e simplesmente nada pode fazer. Está de mãos atadas à cadeira da sua própria construção política fantasiosa. Parece-me ser mais um pecado mortal, para além de tantos outros, que a alegada "Constituição" da UE não tenha sequer pensado em mecanismos jurídicos de controlo recíproco. Se houver mão russa nas eleições francesas, os estados-membro da UE ficam a ver navios passar. Até ao momento registámos vontades eleitoriais unilaterais. Foram os britânicos que democraticamente decidiram alargar o canal e cortar o cordão que ligava o Reino Unido ao "continente" e iniciar o Brexit. Mas imaginemos por um instante, integrando no nosso espírito uma extrapolação radical, que a expulsão passa a ser necessidade de auto-preservação da UE. Suponhamos que, volvidos alguns meses, se vem a descobrir a mão invisível de Putin nas eleições em França e que o excelso acervo democrático transparente e idóneo da Europa é posto em causa. O que farão os magníficos Junckers e Dijsselbloems da UE? Será que chamam nomes indigestos aos gauleses? Será que lhes atiram à cara que são uns camemberts malcheirosos e uns míseros flauberistas? E será que ficam a ver Le Pen passar?

 

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publicado às 09:42

Fillon mignon

por John Wolf, em 21.11.16

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Os democratas franceses nada aprenderam com os mais recentes eventos que abanaram o sistema político norte-americano. A lição de Hillary não foi assimilada. São tantos os participantes a concurso nesse campo ideológico que Marine Le Pen deve estar a esfregar as mãos de contente. Sarkozy jafoste. E agora Fillon mignon apresenta-se com grandes desígnios que se inscrevem nessa velha escola de funcionalismo público, impostos mais ou menos baixos, e depois, como se ninguém reparasse, lá mete um referendo sobre a quota de imigrantes como se a virtude democrática das massas pudesse ser exultada de um modo honesto. Ou seja, defende o que Trump defende, mas não assina o despacho. Remete para o povo essa decisão nefasta. Sacode preventivamente a água do capote do nacionalismo residente na marselhesa. Em plena época de falências do politicamente correcto o filão de Fillon não pega. Nas cidades e nas serras, e nos banlieu, o código de sobrevivência é outro. Os franceses de pleno direito, que em tempos não o eram, são os primeiros a pôr trancas à porta, a barrar a porta a "ladrões" de empregos. E há mais. A alegada moderação de Trump apenas ajuda a consolidar a ideia de que afinal o conservadorismo não se faz equivaler a extremismos proto-fascistas. Vivemos uma época de grandes rupturas. O descarrilamento das instituições clássicas, mas também da linguagem que tarda em se refrescar para acompanhar o novo glossário de intenções políticas.

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publicado às 10:51

Trumpismo

por John Wolf, em 11.11.16

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Estou a mudar. E não sou o único. Não deixei de acreditar. Mas as minhas convicções também não se encontram em territórios perfeitamente delineados. Dentro de dias farei anos, e se me confinasse a uma matriz definida estaria arrumado, seria um velho - mais velho do que o mero ano que irei adicionar à minha existência. Durante anos a fio fomos arremessados sem dó nem piedade de um sistema de valores políticos para o seguinte, de uma promessa grandiosa para um juramento ainda maior, e sem pudor, fomos aceitando essa modalidade de fé, essa religião política. Encontramo-nos agora num cruzamento, no confronto entre os medos, as expectativas, as convenções e preconceitos que se sedimentaram no nosso espírito e toldaram as nossas consciências. Somos adeptos de uma modalidade de descrença em particular. Por força da dependência crónica do juízo dos outros reduzimo-nos a unidades de conformidade, de passividade perante uma narrativa agora corroborada por eventos que alguns designarão de surpreendentes. No entanto, não existe nada de excêntrico na eleição de Trump. Os americanos esbanjaram tanto tempo para encarar a sua própria decepção. Não souberam repartir a tarefa de um modo gradual, faseado. Atingiram a velocidade de cruzeiro de uma máquina desgovernada, contrafeita. Pactuaram com os termos de identidade e residência em Washington dos demais actores da mesma epopeia de ascensão e apenas ascensão. Agora que a encomenda chega, o espanto parece ser a expressão facial mais corrente. Mas fomos nós que produzimos o estado da Nação, e seremos nós que iremos escrever os próximos capítulos europeus. Os discursos e a letra dos mesmos darão lugar a algo distinto, com grau de parentesco ou não. Somos simultaneamente responsáveis e testemunhas de um processo irreversível. Mas somos letárgicos, lentos. Sabemos sempre tarde demais como poderia ter sido, como desejaríamos que tivesse sido. A política assente na antecipação é uma natureza morta. Estamos sempre em dívida e estamos quase sempre atrasados. E como deixamos que outros tomem a dianteira, queixamo-nos de um modo injusto. Fomos nós que nos paralisamos em convenções e ideologias consideradas estanques e vitalícias.

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publicado às 18:14

Última hora! Hillary já é presidente!

por John Wolf, em 07.11.16

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Querem saber o resultado das eleições presidenciais? A resposta certa é: follow the money. Embora os mercados sejam apreciadores de estabilidade, anseiam por volatilidade. Mas essa dictomia, como tantas outras, encerra em si contradições. Os especuladores vivem à custa das rupturas sistémicas, mas a espinha dorsal de uma economia depende de previsibilidade, de racionalidade. Os ciclos tecnológicos não acompanham os mandatos políticos, ou o seu inverso. Nem Donald Trump é o revolucionário que afirma ser, nem Hillary Clinton será a simples continuadora como muitos a pintam. O problema que enfrentamos prende-se com o seguinte - a virtude já não se encontra no meio. As nossas sociedades vivem, mais uma vez, a era de extremos. E os mecanismos de controlo institucional do sistema político americano funcionam para evitar descalabros radicais. A investigação e o encerramento do processo de e-mails de Clinton funciona como um lembrete, uma mnemónica. Cada movimento de um detentor de um cargo público é escrutinado. Mesmo que Trump lá chegasse estaria condicionado pelo Congresso, a Câmara dos Representantes, o Senado e um vasto corpo de instituições dedicado à prerrogativa do checks and balances. Aliás, essa realidade decorre de um simples facto processual. A Constituição dos Estados Unidos da América (EUA) não dá azo a grande elaborações e subterfúgios - é curta e grossa, simples no seu enunciado. Na Europa a tradição constitucional é diversa, quase antagónica. Tantas vezes países da orla democrática se vêm perdidos no marasmo da complexidade constitucional. Veja-se o caso de Portugal. Aquele armazém legal permite acomodar tantos direitos consagrados, mas tal facto não implica que o país tenha processos democráticos mais transparentes ou seja mais consensual nas decisões que os seus governantes tomam. O dinheiro, por sua vez, não está sujeito a constrangimentos normativos de ordem política. Os meios financeiros elegem e derrotam candidatos numa base diária. Os mercados determinam a viabilidade ou não de projectos ou devaneios. Nessa medida, e servindo-nos de meros indicadores monetários que reflectem estabilidade ou volatilidade, podemos desde já declarar o vencedor da noite eleitoral de amanhã. Hillary Clinton, sem grande sobressalto, será a próxima presidente dos EUA. Não corro grandes riscos ao produzir esta ousadia de afirmação. Os mercados já colocaram na ranhura Trump. E quem somos nós para discutir com eles? Elas.

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publicado às 10:14

A migração ideológica da Europa

por John Wolf, em 24.05.16

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Desejava deixar a poeira assentar, mas os eventos que assolam a Europa ultrapassam a falsa expectativa de um status quo. Encontramo-nos na torrente de transformação, na tempestade que se multiplica por maiores ou menores remoinhos, a Leste e a Oeste. Em política não existem coincidências. Existe um alinhamento que extravasa análises retrospectivas, depois do sucedido. Por exemplo; a efectivação da decisão tomada pelas autoridades gregas para remover migrantes do campo de refugiados Idomeni, acontece apenas após o desfecho das eleições presidenciais na Áustria. E porquê? Porque se Hofer tivesse ganho as eleições, os gregos certamente que não avançariam com a remoção autoritária dos refugiados. Seriam imediatamente equiparados a  outros quadrantes ideológicos (distantes mas próximos) - à extrema-direita. Ou seja, deste modo a acção dos gregos passa despercebida. Não causa grande alarido ideológico. Afinal trata-se da Esquerda que não se deixa contaminar por desfalecimentos éticos, pelo uso da força - a troco de dinheiro fresco? Este encadeamento de ideias não é de todo rebuscado. É assim que funciona a política que não distingue as dimensões domésticas e internacionais, a oportunidade do calendário apertado. É isso que se está a passar na Europa - um mecanismo de trocas convenientes no contexto de uma União Europeia cada vez mais falha no que diz respeito aos seus princípios constitutivos. Os nacionalismos assumem-se porque já não se consegue realizar a destrinça dos desafios. Enquanto que em Portugal a ideologia divide privados de públicos, estivadores de patrões, em França, a ferida aberta causa mossa directa no motor económico. A greve das refinarias já se espalhou à quase totalidade do país. O que pretendem? Inflacionar repentinamente o preço do crude nos mercados internacionais? Gostava de saber qual o impacto (positivo) que estes acontecimentos terão nas operações da gigante petrolífera francesa Total, e aqui, na vacaria instalada no burgo por Costa e Centeno que delira com a recuperação plena e faustosa. Francamente. As verrugas já estão plantadas no panorama. Agora é só ligar os pontos. Negros.

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publicado às 14:18

Alemanha e o voto dos refugiados

por John Wolf, em 13.03.16

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Portugal queixa-se da sua Direita, mas a estirpe benigna da mesma deve ser louvada. Paulo Portas, definido pela Esquerda como perigoso e ultra-conservador, afinal foi um dos políticos mais moderados que a história democrática de Portugal conheceu. Mas passemos adiante. A Alemanha enfrenta perigos muito maiores, e, por arrasto, a Europa corre o risco de replicar certas tendências ideológicas. Pela primeira vez na história da Alemanha os refugiados vão "eleger" políticos, e não são uns "quaisquer". O AfD (Alternative für Deutschland), o partido mais jovem de extrema-direita, irá, nas eleições que se seguem, desferir um duro golpe no partido de Angela Merkel e nas demais forças do espectro político moderado daquele país. Putin, malentendido e subestimado, tem sido um formidável jogador europeu, um híper-realista capaz de confundir os seus adversários e lançar o caos na política de salão da União Europeia, ainda crente nas virtudes das suas instituições, mas coxa no capítulo da política externa comum (PESC) - podemos incluir os refugiados no conceito de guerra híbrida da Rússia. Se juntarmos a tudo isto umas pitadas de irreverência monetária de Mário Draghi e do Banco Central Europeu, estão reunidos os factores para uma tempestade perfeita. Os eurocratas têm sido lestos na interpretação dos genuínos desafios que se lhes apresentam. Portugal deve ter algum cuidado com aquilo que deseja. A sorte do país continental é ter apenas duas fronteiras - a do Oceano Atlântico e aquela de Espanha. Se Portugal fosse a Áustria, com as suas sete portas de entrada, não estaria a dançar o bailarico canhoto da Esquerda. Os portugueses devem agradecer a moderação e o civismo político de Paulo Portas que se encontra a milhas de distância dos monstros que estarão para nascer na vossa Europa civilizada. Não vale a pena referir o governo de António Costa e parceiros. Imaginem se o preço da gasolina fosse mais baixo nas ilhas Canárias?

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publicado às 10:54

"Deixem-me comer" - diz Maria de Belém

por John Wolf, em 14.01.16

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Apresento-vos o novo humorista de Portugal - Jorge Coelho. Qual homem-forte do PS qual carapuças. O político que apenas mereceu o meu respeito no dia em que se demitiu (estais recordados da tragédia de Entre-os-Rios? Esteve bem. Foi-se embora). Não sei se o guião estava combinado com a Maria de Belém, mas o arruaceiro Coelhão, à falta de melhores piadas, pôs-se a contar umas anedotas. Citou de memória Marx (Groucho, mas poderia ter sido o outro, esse mesmo da Esquerda esclarecida), partilhou a depressão que atravessa, mas deixou transparecer o seguinte: tem uma certa dor de cotovelo, uma pequena inveja de Maria de Belém. Fala alto, de um modo desengonçado, embora sem estilo, como se ele próprio fosse candidato a qualquer coisa. E depois, para rematar, foi deselegante para com a senhora candidata. Chamou Maria de Belém de velha - uma mulher madura, com muito para ensinar do alto do seu "pensamento estruturado" e com a sua bagagem de "experiência". Enfim, não sei que mais poderemos esperar desta campanha. Nos cartazes de rua da candidata já não se lê "a força do carácter"; agora é tempo de "unir os portugueses", e aproveitou o seu entusiasmo para indicar que se for presidente da república será para governar Portugal. As 35 horas semanais já servem de mote, de munição de campanha. Ao referir que o presidente da república deve manter-se à margem das negociações entre o governo e os sindicatos, confessa precisamente o oposto: que quer dar os seus bitates, meter a colher. Não sei o que ela pretende, mas deve desejar elevar o estatuto de candidato a algo mais permanente. Para já aqui vos deixo com a sua frase do dia: "Temos aqui estes tabuleiros fantásticos à nossa frente, com um cheirinho fabuloso e agora não nos deixam começar a comer".

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publicado às 19:25

A força dos caracteres e dos candidatos

por John Wolf, em 11.01.16

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Cada um dos candidatos presidenciais depende da força dos caracteres - a capacidade para formar palavras e frases que exprimam a força das suas ideias.  A força do carácter (que é uma coisa distinta) não chega, como julga Maria de Belém. Existe algo ainda mais importante. Os (stors) Rebelo de Sousa e Sampaio da Nóvoa, o (padre) Edgar, o Tino (de rãs), o Jorge (Sequeira, ou se quiser), o D. Henrique (o neto), a Marisa (que não é fadista), o Morais (de nome e de ética) ou o (cândido, doce) Ferreira disputam entre si o primado da palavra. A palavra é a trabalhadora da esquina política, amestrada pelos chulos que disputam territórios. Os proxenetas também tentam convencer os clientes da sua superioridade, do seu talento. Os candidatos presidenciais em cena, praticam a língua portuguesa de acordo com o seu património cultural (duvidoso nalguns casos), fazendo uso de um cabaz de chavões e frases-feitas. Arremessam versos sem que se possa descrever a sua origem ideológica, etimológica, alegriana ou não. No domínio do jargão propriamente dito estamos servidos. A tragédia que se apresenta aos portugueses é de outra natureza, mas igualmente nefasta. Onde estão as reflexões profundas que se exigem? Onde encontramos um conceito de presidência que oblitere a conversa de taberna a que temos assistido? O nível intelectual, o sentido de Estado, a cultura de um povo ou a visão estratégica que culminariam no refundar da missão da presidência, simplesmente não se avistam. Os debates havidos, a que se somará mais uma bela dúzia, continuará a confirmar os nossos piores receios. Portugal, na sua recente história democrática, não conseguiu produzir uma verdadeira escola de presidentes. Ou são ex-militares moderados ou já foram presidentes de câmara, ou primeiros-ministro, mas não parece ter servido para grande coisa. O casting de candidatos à presidência obedece à matriz tipicamente lusa - a arte do desenrascanço, do aproveitamento das sobras, do oportunismo do momento.  Nesta tosta-mista de considerações, somos servidos por mais chefes que índios. Não havia necessidade de lançar tamanha confusão. Até parece que as eleições vão servir para nomear um presidente para cada capital de distrito (?). E depois temos de levar com certas contradições de ordem filosófica. O carácter, essa dimensão de alma insondável pela estatística política, deve permanecer no seu silêncio sepulcral. O carácter não se comunica, embora se afirme. O carácter não se vence, e não pode ser sujeito a derrotas. O carácter não se confunde, portanto é singular. E o carácter não se hierarquiza e humilha o dos outros. Enfim, o carácter não se imprime em outdoors gigantes quando falta tudo e mais alguma coisa. Os homens e as mulheres por vezes também se medem aos palmos. E as palmas não irão abundar nos póximos tempos. Miséria.

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publicado às 09:14

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António Costa julga mesmo que manda nisto tudo. Quer mesmo ser dono disto tudo. Mas não quer transformar a presidência da república num consulado socialista, embora dê ares dessa graça. Quer imitar o modo como se apropriou do parlamento e formou governo, mas de um modo mais perverso, cínico. Ao lançar a aposta múltipla nas eleições presidenciais, apelando às f(r)acções representadas por Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa, não esclarece publicamente qual a posição que assume. Ou seja, não se coloca inequivocamente ao lado de um dos seus candidatos, mas generaliza e não fala a verdade quando descreve a área logística da sua preferência. E isso não passa de areia atirada aos olhos de Soares e dos diversos barões do Largo do Rato. Se formos minimamente astutos, percebemos a rasteira num piscar de olhos. António Costa apoia, com esta jogatana de "apoio aos dois camaradas", a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, porque este será o alibi ideologicamente perfeito para poder contradizer a acção presidencial quando esta começar a estrangular os seus intentos governativos. Não convém nada ao governo socialista ter um dos seus em Belém. Isso restringe a sua área de actuação. Se estiver lá o Marcelo é mais fácil ser extravagante e ousado. Convém a António Costa ter uma réplica, mesmo que mais colorida, de Cavaco Silva. Desse modo, o status quo das relações institucionais mantém-se sem grandes alaridos. O mauzão continuará a residir em Belém. Marcelo Rebelo de Sousa será a válvula de escape ideal, o embaixador do princípio do contraditório. Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa bem que se podem queixar, mas por outro lado, como são politicamente dispensáveis, o seu afastamento serve preciosamente outras guerras. Mais cedo ou mais tarde, com as atribulações de um governo feito a retalhos do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português, a sua liderança será naturalmente posta em causa, e a haver guerras fratricidas, são menos uns quantos para confrontar. Veremos, mais adiante, como António Costa afasta a Ana Gomes que está mortinha por realizar um "regresso auspicioso". Não se esqueçam que as legislativas ou as presidenciais, por mais mediáticas e nacionais que sejam, servem para arrumar as casas partidárias de Portugal. Os portugueses e o interesse nacional são meros pretextos de ocasião. Um festival a 9 ou 10 candidatos, ou um rancho folclórico presidencial, é um mimo para a realização política deste calibre. Aguentem. Ainda vão ter de levar com muitos debates nas noites quentes da sensacionalista TVI, da vendida SIC e da pobrezinha RTP - uma TAP que rasteja pela paisagem de oportunistas nacionais. Marcelo ainda vai agradecer a alguém.

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publicado às 18:04

Marcelo Rebelo de Sousa à meia-volta

por John Wolf, em 11.12.15

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Depois não digam que eu não avisei. No desfecho dos resultados das eleições presidenciais, Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém e Marisa Matias podem chegar a "acordo" para derrubar Marcelo Rebelo de Sousa. Qual primeira qual segunda volta. Ao homem que apenas dorme quatro horas por dia (dizem que de noite), basta uma meia-volta para levar de vencida a competição. Nenhum dos "participantes" pode aspirar a Belém. Faz-me lembrar aqueles atletas de alta competição que trabalham no duro, mas que não perdem o tino. Aquele lançador de peso(s) ou o ginasta acrobático, que à luz da sua auto-percepção, afirma sempre, e de um modo humilde: "já é um privilégio participar nos jogos olímpicos" (ou), "vim para ganhar experiência" (ou então), "sou realista, não posso aspirar a ganhar medalhas". Mas aqui observamos algo diverso. Um candidato que cultivou a proximidade com o cidadão comum, que é capaz de estar à conversa com a Ofémia lá da praça, ou que é capaz de desafiar um proto-intelectual para um tira-teimas de retórica. Quem quer ir à bola com a Maria de Belém? Quem quer receber a taça de Portugal de Sampaio da Nóvoa? Quem quer levar com as tretas psico-ideológicas da Marisa? A resposta nem precisa de ser dada. Marcelo Rebelo de Sousa é o homem que não é de ocasião. O professor foi aos treinos. Entrou na casa (e na cabeça) dos portugueses sem ser calculista, porque ao longo dos anos alimentou mais dúvidas do que certezas em relação a uma tirada presidencial. Os outros candidatos simplesmente não reúnem os requisitos necessários - nem se conseguem olhar ao espelho. A excentricidade saudável, com uns temperos maníacos, não é para todos. Nem que se somem todos chegam aos calcanhares de Marcelo. Quanto mais a Belém.

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publicado às 16:05

O Usurpador

por João Almeida Amaral, em 26.11.15

Independentemente da legalidade da situação o Dr. António Costa ganhou hoje o seu lugar na historia e será sempre reconhecido como o usurpador, aquele que não olhando a meios para atingir o seu objectivo , tendo perdido as eleições consegue ser empossado como primeiro ministro., usando e enganando a extrema esquerda.
Os jornalistas mais emblemáticos cá do burgo já foram ao beija mão.
Em termos de dignidade tudo isto é um nojo.

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publicado às 20:10

ESTRELAS, PLANETAS E CALHAUS

por Manuel Sousa Dias, em 20.10.15

O país está calmamente entretido a encadear clips uns nos outros enquanto o PS leva a cabo a sua missão de unir as várias esquerdas numa só frente comum de combate à austeridade e ao neoliberalismo da PaF. A coisa tem de levar o seu tempo, até porque cada apoio é mais um degrau subido por António Costa na sua ascensão a estrela principal do sistema político português. Trata-se de colocar ordem num sistema complexo em torno da força gravítica do PS e de António Costa, sistema este no qual pretendem que coabitem alguns planetas (PCP e Bloco), algumas polémicas científicas em relação ao estatuto de alguns corpos celestes (o PCP garante que Heloísa Apolônia é uma lua enquanto outros garantem que, como Plutão, não passa de um grande calhau) e muitos corpos celestes de trajetória errante tais como o caso do Agir, Livre, Movimento Alternativa Socialista, Movimento Tempo de Avançar, Manifesto 3D, Associação Forum Manifesto e Renovação Comunista, calhaus estes de volumes variáveis e de difícil cartografia no espaço e no tempo. As opiniões dividem-se. Uns dizem que Deus quer, o homem sonha e a obra nasce. Garantem que é possível ter a esquerda bem orquestrada a gravitar em torno de António Costa. Outros dizem que esse será um sistema instável e que facilmente implodirá, ora porque o Bloco (Política XXI, UDP, Ruptura FER e PSR) só por si já é altamente instável, ora porque a força gravítica de António Costa é fraca para aglutinar na sua órbita tantos corpos celestes, ora porque à estrela em queda António Costa já não resta qualquer chama. E o que pensará o povo? O povo olha para cima e não consegue compreender por que é que alguns insistem teimosamente em tentar fazer um sistema girar em torno de uma estrela menor que caiu em colapso quando vê bem escrito nos céus que esse sistema só poderá acabar mal. Muito mal, sobretudo quando um céu que não escolheu se precipita a cair em cheio bem em cima da sua cabeça

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publicado às 15:17

Costa, o senhor das moscas

por John Wolf, em 16.10.15

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O oportunismo de António Costa deve ser analisado mais em detalhe. A sua falta de fair-play democrático acarreta consequências em diversas estruturas de natureza política ou sociológica. Ora vejamos. Não sei o que vem escrito na Constituição das Repúblicas Autárquicas, mas imaginemos que a revolta fosse passível de ser deflagrada noutras instâncias e, deste modo, teríamos minorias em sede de Assembleia Municipal, que no culminar de certos resultados eleitorais, decidissem, post hoc, e em conluio, destituir o Presidente de Câmara Municipal eleito por maioria, mesmo que relativa, substituindo-o por outro resultante de uma soma conveniente de maus-perdedores. Gostaria de saber o que o Supremo Tribunal Autárquico teria a dizer sobre o assunto. Ou ainda, se em processos de eleição para presidentes de clubes de futebol, os candidatos que não conseguissem atingir os seus objectivos, apresentassem à revelia do bom-senso e equilíbrio democrático, um presidente-fantasma emergido da bruma combinada de uma aposta múltipla de última hora. Não sei se me faço entender, mas o comportamento da "Esquerda rancorada pelos resultados", viaja para além do domínio da política strictu sensu. O que os socialistas, bloquistas e comunistas estão a fazer, arrasa conceitos comportamentais que resultam da ideia de direito natural. Mexe com aspectos etológicos e acaba por premiar a animalidade instintiva, aquilo que William Golding narra na sua obra O Senhor das Moscas. António Costa já não é socialista. Nem sequer será comunista. Inclassificável.

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publicado às 09:20

Quando quem governa esconde a cara

por Pedro Quartin Graça, em 28.09.15

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Diz-se por aí que a PàF vai lançar uma última série de cartazes e de novo sem Passos, nem Portas. Uma campanha gráfica sem líderes, nem candidatos? Só figurantes?!!
Será que Passos e Portas têm medo de dar a cara nos cartazes? Terão vergonha? Embaraço? E a PàF não tem candidatos? As eleições são para escolher figurantes? Ninguém deles dá a cara?
Uma VERGONHA!

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publicado às 13:54

A benção do abade Sócrates

por John Wolf, em 08.09.15

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José Sócrates merece uma nota de louvor, o nosso reconhecimento. Há quem o tenha vilipendiado, chamado de traidor, insultado e difamado sem prova do que quer que fosse, mas agora devemos ser justos e imparciais. O ex-primeiro ministro demonstra que tem sentido de Estado e que os homens estão sempre a tempo de se redimirem, de renascerem na bruma do desgaste da fé política. As mais recentes palavras de abade de José Sócrates são uma benção. Agora temos motivos para rumar, romar(ia) ao seu novo santuário. Afirma o próprio, que tem sido parco em palavras e comedido no tom, que está ao lado de António Costa e do Partido Socialista. Amigos destes não se arranjam com facilidade. O candidato socialista, o não-empate-técnico, o ganhador de tudo, deve estar muito feliz com a dádiva do prestamista Sócrates. Não há nada melhor do que ter o apoio de cidadãos verticais e impolutos. António Costa já avisou que não comenta comentadores, mas agora vê-se obrigado a agradecer o apoio do seu colega, uma vez que o mote no Largo do Rato é inequívoco: os camaradas são para todas as ocasiões. Sobre aquela pergunta infantil que os jornalistas repetem a toda a hora; se José Sócrates vai contaminar a campanha de António Costa (?). Precisam de mais esclarecimentos? Ai, abençoado abade.

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publicado às 09:47

Tempo de gula eleitoral

por John Wolf, em 04.08.15

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O Guia Eleitoral publicado pelo Observador deveria ser distribuído nas praias com as bolas de Berlim. O lindo mês de agosto é o mais indicado para leitura descontraída, seja qual for o género, prosa ou ficção. Os partidos políticos e forças afins são lestos na divulgação do seu mapa de intenções, mas a grande maioria dos temas apresentados carecem de fundamentação. Ou seja, é tudo muito bonito, mas não explicam grande coisa sobre como irão alcançar as faustosas metas. Em abono da verdade factual do exercício, o guia deveria ser rebaptizado. Chamar-lhe-íamos de bom grado "gula eleitoral". Por exemplo, o Partido Socialista (PS), no que toca a matéria de Investimento Público, refere sob o título de "compromissos principais" que será dada prioridade a investimentos seletivos e complementares que permitam valorizar o investimento de base já realizado. O que significa esta afirmação? Que darão continuidade a obras iniciadas por outros governantes ou que retomarão a sua linha ideológica própria de argamassa e betão? E no quadro de Justiça o PS nem sequer retira consequências da salganhada em que se viu metido Sócrates. O mesmo escrutínio e grau de exigência também deve ser aplicado aos outros partidos e as suas promessas. No entanto, deve recair sobre a principal força de oposição o ónus da argumentação sólida, da sustentabilidade e exequibilidade. Até ao momento o PS não tem conseguido convencer Portugal da sua capacidade, da sua elevação no contexto da emergência nacional. Também não soube aproveitar o período de defeso para explorar uma outra linguagem. Não soube credibilizar-se junto da sociedade civil, daqueles que querem lá saber de filiações partidárias. Para falar a verdade crua e dura, António Costa já é considerado um lider decepcionante dentro do próprio partido. Chavões como: o que prometemos fazemos, já não funcionam. Para além de tudo o mais, a aposta nos mesmos obreiros que conduziram Sócrates ao poder, parece ser uma fórmula questionável - a campanha mal arrancou e deixa muito a desejar. A máxima "em equipa vencedora não se mexe" não serve para grande coisa. Nem é isso que está a ser feito. A equipa socialista está agarrada a preconceitos antigos, a velhas glórias fora do prazo de validade. E Portugal tem de dar um salto em frente. Pelo andar da carruagem, quedar-nos-emos pela mesma carruagem - e o mérito será daqueles que não colocam o carro à frente do populismo conveniente - a instigação de instintos primários de hordas de eleitores enebriados nas festas que polvilham Portugal de sol a norte.

 

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publicado às 17:29

Adriano Moreira na SIC N

por Nuno Castelo-Branco, em 30.07.15

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 Numa entrevista transmitida pela SIC N, o Prof. Adriano Moreira referiu-se a temas da actualidade, entre estes a questão premente do vazio absoluto quanto à falta de estadistas, pecha que infelizmente tomou conta de todos os sistemas representativos, desde Lisboa a Varsóvia e de Londres a Sofia e porque não ousar dizê-lo?, a Atenas. De uma forma sumamente elegante, A.M.  arrasou o Sr. Hollande e a sua estapafúrdia pequena ideia brilhante de isolar a Alemanha, para isso recorrendo ao directório dos fundadores da CEE. Estejamos desde este momento descansados, a Alemanha não o permitirá. Se é disso mesmo que deveremos falar como incontornável manifestação da reserva mental do presidente francês, o que mais nos importa tratar é aquele horizonte próximo, o de 4 de Outubro e os dias que se lhe seguirão. A isto se limita a estreiteza de visão de quem alternadamente tem comandado este país.


Na situação em que a Europa se encontra, dois meses são uma eternidade, havendo obrigatoriamente a considerar algumas hipóteses que decerto todos conhecemos. Pouco interessará agora discutir ou não o caminho único ditado pelas evidências de uma conjuntura difícil. Num momento em que os acontecimentos no Médio Oriente vão acumulando atrocidades sobre a péssima política que a NATO insiste em impor nos últimos anos - Síria, Iraque, Líbia, Ucrânia, Cáucaso -, o Mediterrâneo surge como segunda frente, não podendo a Europa insistir em ignorar os boat people que quotidianamente chegam às praias do flanco sul da União Europeia. Isto, quando muito mais a norte, as entradas do túnel da Mancha já se encontram sob insuportável pressão de migrantes em busca daquilo que, gostem ou não os situacionistas de encarar como realidade, é o Estado Social. Bem vistos os factos, tudo se resume a este factor: o Estado Social, ou por palavras internacionalmente reconhecidas, o Welfare State.

Entretanto, em Portugal estamos entregues a esterilidades eleiçoeiras, como se os nossos problemas fossem imunes à situação geral que sem convite nos entra pela sala em cada telejornal. Segundo declara A. M., tanto Pedro Passos Coelho como António Costa estarão então na iminência da suprema prova de fogo que segundo todas as sondagens têm indicado, chegará na própria noite eleitoral. É a sua reacção perante os resultados, que informará o país - e a Europa - se temos ou não temos estadistas. A eles caberá a ingrata tarefa da conciliação do aparentemente inconciliável, de dar remédio a tudo o que neste preciso momento parece ser irremediável. Manifesto o meu profundo cepticismo, este regime é - como desde a sua génese sempre foi -  uma fedorenta mixórdia de interesses entrecruzados de ganância e total inépcia ditada por larvar ignorância. 

Adriano Moreira voltou a referir aquela evidência que todos conhecemos, embora alguns insistam fingir ignorar: desde a fatídica tarde do 1º de Fevereiro de 1908, o país que ainda conhecemos por Portugal, deixou de poder contar com o decisivo Poder Moderador que a Carta atribuía ao Chefe do Estado, o Rei. Sublinhando ainda mais a mensagem, o antigo presidente do CDS mencionou o papel desempenhado por Isabel II, que teoricamente sem poderes reais, merece sempre aquele bem conhecido ...listen the Queen.

Infelizmente não podemos aconselhar os nossos sofríveis políticos a fazerem o mesmo, neste momento entretendo-se com mais um afiar de facas para mais um agora é que é!, difundindo esperanças sobre gente a quem falta qualquer padrão de idoneidade, quanto mais de representação de uma história quase milenar. Lembram-se dos excitados de há dez anos, quando enchiam resmas e resmas de páginas com sonhos de uma 4ª república, a presidencialista do Sr. Cavaco Silva? Onde isso já vai...

* Adriano Moreira conta com 93 anos de idade e apesar de repetir-se numa meia dúzia de temas, há que colocar a questão: quando Salazar deixou S. Bento (1968), o que teria sucedido a Portugal se em vez do indeciso Marcelo, Américo Tomás tivesse escolhido A.M.?

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publicado às 23:35

PS fora da Zona Oiro

por John Wolf, em 19.06.15

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É o que dizem as sondagens. O Partido Socialista está fora da Zona Oiro das legislativas. Seguro não está a rir.

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publicado às 15:59

Uma doença chamada Tsiprite

por John Wolf, em 07.05.15

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Queiram-me desculpar por bater na mesma tecla, mas é o futuro deste país que está em causa e não nos podemos deixar levar por balelas demagógica-eleitoralistas. Por outras palavras; António Costa sofre de Tsprite - a patologia das promessas que não podem ser cumpridas. O lider do Ministério do Socialismo deveria sintonizar a sua telefonia e escutar o que se passa no tira-teimas que opõe a Grécia à Alemanha. Dia 11 de Maio é quando elas apertam e Tsipras terá de voltar atrás na palavra dada aos gregos de um modo tão leviano. Ou seja, o financiamento da bancarrota da Grécia depende da implementação de reformas naquele país. Mais nada. Acabou a conversa. Ora se o contador de histórias do largo do Rato for eleito CEO de Portugal, será confrontado com o falso dilema que aflige os gregos. Já repeti vezes sem conta que não convém nada mentir aos eleitores - eles ficam raivosos e por diversas legislaturas. A não ser que Costa seja o Che Guevara da Europa. O inspirador de marginais que queimam todas as regras que definem a ordem da União Europeia. Nesse caso falamos de uma revolução, coisa que os socialistas dizem ter inventado e, em consequência de tal estado de arte, são detentores dos inalienáveis direitos de autor. Aquela conversa "de quem é a culpa e das reparações de guerra" serviu apenas para consumo propagandista interno da Grécia - as reformas não tardam nada. Não sei que lenga-lenga podem os socialistas portugueses agarrar para açicatar os desejos revanchistas que roçam os territórios de nacionalismo. E convém não esquecer o seguinte: quando os argumentos económicos da recuperação portuguesa deitarem por terra o "restelismo" socialista, assente na penúria e na exaustão de meios, vislumbro que outras armas de arremesso sejam recrutadas. Por isso é que o socialismo facilmente pode descambar para oportunas teatralizações, encenações com laivos de nacionalismo bacoco. Não sei o que fazer ao Sr. Costa enquanto chega ou não chega o Sr. Euclides.

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publicado às 16:08






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