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Make me normal again

por John Wolf, em 21.01.17

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Não é preciso ser cidadão norte-americano para sentir os efeitos de uma presidência nos EUA. Mas é preciso ser cidadão norte-americano (como eu) para sentir os EUA. Por mais que opinem e produzam statements a propósito da eleição de Donald Trump, há vários estereótipos que devem ser rejeitados. A ideia de que eventuais desvios aos princípios que se encontram na fundação da federação americana, e que consubstanciam o genuíno espírito da nação, serão tolerados, sem agravo ou consequência, por largos espectros da população, pela inteligência académica ou pelas grandes corporações de Wall Street. Estamos apreensivos em relação à inauguração de uma nova modalidade, porque nada disto é inédito, mas também não é exclusivo. Se realizarem a sobreposição de slides, verão, sem grandes equívocos, que Theresa May não é uma versão de Donald Trump. May, declama a sua pauta, uma palavra similar embora com variantes de discurso. Em todo o caso, trata-se de um slogan nacionalista e patriota, carregado de sentimento anti-imigração - Make Britain great again. O que está em causa essencialmente é um quadro mental de previsibilidade a que estávamos habituados. Fomos doutrinados durante tantos mandatos políticos que existe uma convenção estável, imutável. Fomos treinados a viver na sombra das consternações que seriam tratadas pelos lideres e representantes partidários. Recebemos em troca amostras de grandes promessas que se esfumaram em metas por alcançar. Aqui e agora, here and now, registamos o inverso. O juramento totalitário à partida, à cabeça. Um conjunto de absolutismos de tudo ou nada, sim ou não, you´re in or get the hell out. Há muito que vinha observando a patologia civil dos EUA - a ideia de autosuficiência intelectual. A ideia de que os outros são dispensáveis. O isolacionismo, implícito na narrativa, é apenas uma extensão natural da genética política, económica e social, construída no país que é a maior amálgama de nações extraviadas do mundo. Agora imaginem o sentimento de indefinição que se atravessa no meu ser. Para todos os efeitos, bons e maus, eu sou um cidadão dos EUA.

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publicado às 11:41

Na hora da despedida de Obama

por Samuel de Paiva Pires, em 12.01.17

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 Na National Review:

The president is leaving the same way he came in: with a great deal of vague and fruity talk about “hope and change,” very little of genuine interest, and an undercurrent of bitterness communicating his unshakeable belief that the American people just simply are not up to the task of fully appreciating History’s unique gift to them in the person of Barack Obama.
 
(...)
 
As commander-in-chief, President Obama effectively lost the peace in Iraq, made a series of missteps that enabled the rise and the flourishing of the Islamic State (the so-called junior varsity of Islamic terrorism), helped turn Syria into a humanitarian disaster with his empty threats and then turned the mess over to the gentle offices of Moscow and Tehran, and failed to take seriously the threat of continued jihadist terror in the United States
 
(...)
 
Barack Obama has spent eight years under the misconception that the job of the president consists mainly in the making of speeches. And for a man who rose to national attention on the basis of his oratory, he has said relatively little that is memorable. That is because he has relatively little to say, being a man who brought no new ideas or insights to the office, only a pointlessly grandiose sense of his own specialness. He is a man who stood astride History muttering “You’re welcome, you ingrates.”

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publicado às 12:23

Aí vêm os bancos americanos!

por John Wolf, em 21.12.16

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Podíamos viver sem bancos? Podíamos viver sem crédito? Podíamos viver sem títulos de dívida? Podíamos viver sem resgates do FMI? Perguntem a Catarina Martins, a Mariana Mortágua, ou ao guru que as conduziu pelos caminhos da verdade - Francisco Louçã. Releio o académico anarco-esquerdista norte-americano David Graeber e o seu pensamento expresso na obra-  Dívida, os primeiros 5000 anos -, a resposta é inequívoca: não. Não, o crédito sempre existiu. O dinheiro sempre foi desigual e para mal dos pecados europeus, na grande competição planetária de instituições financeiras, os EUA estão a dar uma ripada na Europa. Os bancos europeus, se fossem equipas de futebol, estariam bem mais próximas da Liga de Honra do que aqueles lugares que dão acesso aos grandes prémios da UEFA. O Barclays é um brexitário financeiro e o Deutsche Bank tem de pagar uma multa às autoridades americanas - pouca coisa, uns 6 a 7 mil milhões de USD ou Euros (sim, a paridade está bem perto). Nem vou mencionar o banco-barraca CGD por ser irrelevante neste campeonato. O que eu vejo ou prevejo é o seguinte. A administração Trump vai agitar as águas da "normalidade" e tirar partido da letárgica "tradição" europeia. Bastou o pequeno sopro do fechar da torneira de liquidez por parte da Reserva Federal para o dólar americano galgar a marca psicológica dos 1.04 face ao Euro. E isto tem consequências para este cantinho à beira-mar plantado. Os títulos de dívida dos Estados-membros da Europa dependem em larga escala da procura exterior e, no contexto da crise, foi o BCE que substituiu os agentes do mercado que foram incapazes de produzir a procura requerida dos títulos em causa. Se o dólar fortalecer ainda mais significa que a compra de títulos de dívida expressos em Euros se torna mais em conta para essa divisa e, por analogia ao Japão que detém grande parte da dívida dos EUA, a dívida europeia passará a estar nas mãos de entidades bem longe dos centros de decisão europeus. Sim, a UE tornar-se-á refém de bancos de além-mar e arredores. Mas há mais. Os commodities, como o petróleo ou o cobre, são expressos em USD o que dificultará o trabalho de governos de mãos largas que são obrigados a obter dólares para deitar a mão a energia ou vigas de ferro. Eu sei que estou a dar uma grande volta neste texto, mas ainda não percebi, à luz destas singelas considerações, como António Costa e a sua escola irão pagar as extravagâncias anunciadas para a década e para o ano de 2017. Foi o primeiro-ministro que anunciou há dias que o sector da construção precisa de levar um empurrão. E nós sabemos que o chefe do executivo não está a pensar num New Deal à Trump. Está a pensar no sistema político. Está a revalidar a chave socialista que permite enfrentar as tormentas. Foi o sector da construção que aguentou os socialistas em diversos mandatos, mas fez descambar as contas cada vez que houve um seu governo. Foram os lanços e sub-lanços de estradas que inquinaram as contas. Foram as auto-estradas para nenhures que comprometeram orçamentos de Estados. Foram elefantes brancos e outras bestas dispensáveis que descarrilaram Portugal. Enfim, todos sabem o que foi e como foi. Mas ao fim e ao cabo, com  todas estas extravagâncias, perde-se algo de essencial. A genuína ideia de empreendimento, de geração de dinâmicas económicas, a  noção de retorno e acima de tudo justiça social. Assim não funciona. E isto aplica-se a projectos de ordem diversa. Não excluo a Cornucópia e afins. São bons exemplos de erros de intransigência e incompetência em gestão de empresas. Há dias brinquei com a ideia de um Teatro Haitong ou uma Fundação das Artes Altice, mas não estava a brincar. A imagem é boa e serve. Portugal deve rapidamente pensar uma estratégia duradoura. No entanto, o país padece de um problema grave - a falta de visão. E nessa obscuridão lá aparece um velho projecto sacado da mesma gaveta de promessas e avarias. E que tal um novo aeroporto? E lá surge uma OTA de cara lavada para fazer mexer o sector das construtoras. É assim que funciona. Dizem que é teatro. Mas sai sempre caro. Não acreditem. Dinheiro não cai dos céus. E daqui a nada quando os bancos Wachovia ou a Wells Fargo abrirem sucursais na Lapa e no Intendente não roguem pragas ao Durão Barroso e à Goldman Sachs. O cozinhado é da casa. A receita tem dono.

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publicado às 15:28

Rexpolitik de Trump

por John Wolf, em 13.12.16

 

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Pode parecer um choque politicamente incorrecto, mas de um ponto de vista conceptual e pragmático, a nomeação do CEO da Exxon Rex Tillerson para Secretário de Estado do próximo governo dos EUA, deve ser assumida como uma interpretação de Realpolitik particularmente brilhante. Quase todos os conflitos dos tempos modernos, ocorridos no Médio Oriente, ficaram a dever-se a interesses energéticos digladiantes. Embora tivesse havido sempre o adorno ideológico de um mundo bipolarmente repartido, em primeira e última instância, o petróleo foi o combustível de alianças políticas e dissabores bélicos. Trump realiza um salto indutivo surpreendente. Não é necessário tomar ou largar partidos para constatar este facto. A dimensão inédita da nomeação "atípica" para esta pasta significa diversas coisas. Em primeiro lugar; Trump assume que o petróleo é o tema maior da política externa dos EUA e dos seus principais interlocutores. Em segundo lugar; embora a América tenha atingido a tão desejada independência energética, sendo há uma boa meia-dúzia de anos exportadora líquida de diversas soluções carburantes, a verdade é que tal condição não é passível de ser repartida com rivais - a dependência dos outros é condição basilar para a vantagem geopolítica americana. São ângulos de análise desta natureza que convém resgatar para realizar uma leitura desapaixonada das particularidades em causa desta nomeação. Rex Tillerson terá competências que não são detidas por Henry Kissinger e muito menos por Hillary Clinton. Se a Síria possa parecer um tema desconexo do quadro energético da região, talvez seja boa ideia repensar os vectores que estão em jogo. Lentamente, embora polvilhada de riscos, uma doutrina Trump começa a emergir. O intervencionismo americano, tantas vezes sancionado por diversos detractores de quadrantes ideológicos distantes, parece agora assumir contornos híbridos. Quando Obama se desligou das causas do Médio Oriente, nem mesmo a Esquerda o quis aplaudir, porquanto os resultados práticos da "saída americana" foram, para dizer o mínimo, catastróficas. Vejamos o que o resto do mundo reserva para Trump e a inauguração de uma nova modalidade de política externa menos académica e mais endémica. Ninguém sabe ao certo se Rex será cru ou se é apenas crude.

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publicado às 15:45

Tal como dantes...

por Nuno Castelo-Branco, em 16.11.16

 

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 ...os Estados Unidos da América são em termos internos um Estado de Direito e na esfera internacional, naquela que mais nos deveria importar, um império, talvez o mais poderoso, mesmo em termos comparativos, da História registada. 


Poderemos datar o advento imperial aquando da expansão para leste e em direcção às terras que devido à herança de Tordesilhas, teoricamente coube ao então recentemente criado México independente, para logo depois, exterminados os índios e consolidada a posição hegemónica na América do Norte, passarem os EUA decididamente à expansão ultramarina, fosse ela de forma muito directa - a Guerra Espano-Americana com o prévio preparar da sempre fácil histeria da opinião pública interna através dos artifícios mediáticos de Hearst e do seu rival amarelado Pulitzer - ou de forma enviesada através da despótica suserania sobre uma infinidade de Estados central e sul-americanos a que rapidamente foi dada a sintomática e bem merecida denominação de repúblicas das bananas. Em suma, aos our son of a bitch Trujillo e Baptista, sucederam-se os inevitáveis Castro, Noriega e vários tipos de Maduro.  

A lista de possessões coloniais adquiridas é longa e dispensa comentários, pois vão desde a Cuba protegida até ao 1º de Janeiro de 1959, às Filipinas, Hawai, Porto Rico e um rosário de ilhas estrategicamente colocadas no Pacífico, onde Midway é apenas mais uma entre outras. Por mero acidente da relação de mútuo interesse que decorre da Aliança Luso-Britânica, Portugal não sofreu no ocaso do século XIX o mesmo destino do seu vizinho espanhol e hoje os Açores ainda fazem parte do conjunto nacional, enquanto Cabo Verde e muito possivelmente Timor e Macau, viram chegar até ao final do século XX, a presença portuguesa que agora continua sob outra forma menos comprometedora para a reputação ditada por vendavais da história.

São estes, os factos.

 Tal como durante o período que antecedeu a primeira eleição do agora constitucionalmente resignado à saída Barack Obama, as eleições presidenciais americanas e o sistema aparentemente absurdo e inextricável de selecção de candidatos a gestores de equilíbrios dos lóbis locais, não me despertou grande interesse, pois tal como dantes, o princípio da ressalva imperial é alheio à personalidade e grupos que circundam o escolhido pelo bastante volúvel colégio eleitoral. A Administração permanente existe, é inamovível, não é eleita e decide na obscuridade dos gabinetes. 

Como Império, os Estados Unidos possuem interesses entre os quais o princípio do second to none é uma constante desde 1918, ano em que a passagem de testemunho foi patente aos olhos de uma Europa prostrada pela guerra que apenas beneficiou aquela potência transatlântica. Passaram então os EUA a estabelecer a aceitável forma da organização política, social, na cultura de massas, a ordem financeira e económica a nível planetário, apenas adaptando os seus ímpetos às situações criadas pela própria evolução do sistema internacional. Passaram assim por diversas fases, apenas sendo notável uma certa ausência no decorrer dos anos difíceis da Grande Depressão, quando internamente tiveram de enfrentar uma esmagadora crise social decorrente da implosão do sistema financeiro ditada pelo desvario da ganância, situação tornada insustentável pelas catastróficas consequências dos anos de seca - o chamado período da Dust Bowl - que agravam enormemente a penúria generalizada que apenas seria suprida pelo providencial desencadear da II Guerra Mundial. Daí à dominação planetária foi apenas uma questão de tempo, momento esse que chegou aos nossos dias.

America First!, o desabafo já escutado nos anos imediatamente anteriores a Pearl Harbour e que sob o patrocínio de C. Lindhberg, mobilizou uma boa parte da opinião pública americana, bem coberta pelos media.

America First! hoje novamente audível sob outro lema já ouvido há três décadas, o Great Again! um dia pronunciado por Reagan. Este Great Again! poderá muito significar para os americanos, mas não necessariamente para todos os demais que não se encontrando directamente subvencionados numa miríade de agências, empresas, think tanks e organizações sempre dispostas a servirem quem as sustenta - e aqui entra na equação a própria ONU -, normalmente se deixam hipnotizar por tudo o que a colossal eficiência da máquina cultural, no seu sentido mais amplo, difunde em termos globais. Em suma, o que é bom para eles, geralmente habituados ao let's kick some ass!, poderá não ser assim tão positivo para os demais. 

Vejamos então onde de imediato poderá o mundo obter algumas concessões da Administração Trump, concessões essas que possam em simultâneo beneficiar os americanos e de uma forma bastante directa e exclusivamente em termos estratégicos - e na paz social -, o cada vez mais Velho Continente.

1. Na Europa oriental rufam em surdina os tambores de um progressivo afastamento, pois nos últimos quatro anos os riscos de conflito aumentaram exponencialmente e hoje encontramo-nos na iminência do impensável, ou seja, um totalmente desnecessário e final confronto directo com uma Rússia que inegavelmente foi humilhada. Humilhada após a queda há muito aguardada do sistema concentracionário soviético, viu todos os antigos satélites desertarem e rapidamente aderirem à NATO, quando muitos esperavam que aqueles países, tradicionalmente palco das disputas germano-russas, fossem pelo menos neutralizados. Tal não sucedeu e para isso poderosamente contribuíram as novas autoridades que durante mais de meio século sofreram em silêncio os arbítrios e abusos das forças ocupantes no pós-guerra, confirmando também infinitos casos ocorridos no passado pré-1917: a Polónia, os  Bálticos e Balcãs orientais, rapidamente se abrigaram sob o guarda-chuva americano, não tendo por isso de procederem à rápida adequação das suas forças armadas às exigências impostas pelas novas doutrinas e realidades tecnológicas do sector militar. Se à questão militar passarmos a outros aspectos como os industriais, financeiros e económicos, o quadro da humilhação torna-se ainda mais notório, pois ainda há uma década a Rússia era encarada como um mero sucedâneo de um Lebensraum fornecedor de matérias primas e de mão de obra especializada e a preços sem concorrência. Bem cedo, como praticamente todas as capitais da Europa ocidental, Lisboa encheu-se de mecânicos, pedreiros, estucadores, pintores, electricistas e serventes provenientes do antigo bloco soviético. Mal pagos, relativamente mais instruídos do que nós próprios, sem papéis que legalizassem a sua situação e a tudo se sujeitando em troca da possibilidade de usufruírem da paz social, das escolas para os filhos, da assistência dos SNS, de um tecto de resguardo e refeições quentes na mesa. É a verdade que bem conhecemos e fingimos ignorar. 

O advento de uma classe empresarial directamente saída dos quadros do PCUS que de forma muito célere passou a entender na perfeição as artes e artimanhas do capitalismo mais selvagem, criou um cenário de aparente opulência que naquela parte do globo já não se via desde os tempos em que a aristocracia e o empresariado do império dos Romanov passava férias na Côte d'Azur, comprava e construía palacetes em Paris e fazia compras em Viena, Berlim e Londres. Iates espampanantes recheados de garrafas de champanhe e despidas beldades mais ou menos escusas, foram notícia durante alguns anos, juntando-se ainda ao rol de extravagâncias a compra de clubes de futebol, empresas de comunicação e forte jogatina no complicado sistema bolsista ocidental. Daí ao diz-que-diz das lendas do tráfico de armas, drogas e seres humanos foi apenas um passo, pois a opacidade de uma Rússia sempre desconhecida e talvez imerecidamente imaginada sempre sob o pior dos prismas, tem sido uma constante desde que Pedro o Grande lançou a primeira pedra que ergueria nas margens do Neva, a sua capital europeia.  

Urge fazer algo e de preferência, imediatamente.

Existem muito relevantes minorias russas que vivem nos Países Bálticos, minorias essas ali instaladas após o resultado de 1945 que significou antes do mais, a deslocação sem precedentes de populações inteiras no acanhado espaço continental europeu. Estaline recheou as novas conquistas com elementos populacionais que considerava essenciais à consolidação do poder russo naquela zona estratégica do Báltico que vai de Riga a uma Königsberg despojada da sua população germânica e rapidamente rebaptizada de Kalininegrado, agora transformada numa plataforma de mísseis. 

Não valerá a pena negar que algo escandalosamente escondido e bastante absurdo por lá vigora, desde o afastamento dos russos da participação cívica em lugares de relevo na administração, como nas forças armadas e até, pasmemos, na própria organização residencial que ali, de Riga a Tallin ou Vilnius, reproduz quase exactamente o sonhado e falhado Melting Pot que bastante teoricamente acontece além-Atlântico. Existe, mas adequado a umas poucas comunidades.
Este é, queiramos ou não, um argumento precioso para a propaganda justificativa das acções das autoridades do Kremlin, para mais resguardadas estas pela tradicional lealdade que os russos votam por regra da história, a quem comanda em Moscovo. A U.E.+NATO, têm clamorosamente falhado na salvaguarda dos direitos daquelas minorias e este é um problema aparentemente sem solução, dada a degradação da situação geral.

2. A Ucrânia, perdida a oportunidade de suceder-lhe precisamente o mesmo que durante meio século tornou a Finlândia numa zona neutra, mas agora com a vantagem de ambos os contendores partilharem grosso modo o figurino económico-social, tornou-se num azarado mundo de erros, crimes políticos, violência, caos financeiro e ruína económica, provocando o rápido irredentismo das suas minorias nacionais, sejam elas russas, polacas ou outras que ali vivam. Não se aprendeu grande coisa com algumas das causas dos dois conflitos mundiais.
A falaciosa "perda" da Crimeia, subtracção essa que deveria ter sucedido por mútuo acordo logo na data da independência ucraniana, acabou num facto consumado após a rápida reacção do Kremlin à sugestão de Sebastopol poder vir a ser absorvida pelo tentacular sistema de bases da NATO, leia-se, dos EUA. Às contingências militares propriamente ditas, junta-se o poderoso sentimento de ultraje nacional dos russos que sintomática e perigosamente é de forma ostensiva, ignorado no ocidente. 

Nem tudo está perdido, apesar do folclore mediático das Praças Maidan, das "revoluções coloridas" encenadas um pouco por todo o lado e organizadas exactamente pelos mesmos sectores. Isto propicia um fértil pasto para todo o tipo de teóricos da conspiração e o refúgio da opinião pública no medo.  

Talvez seja aconselhável a nova administração americana reconhecer os factos e estabelecer com os russos, com o regime de Putin - é assim que no ocidente são designados todos aqueles ordenamentos políticos que não correspondam exactamente ao pretendido -, um modus vivendi que salvaguarde a face de americanos e de russos, em simultâneo contentando a cada vez mais subalterna Europa e garantindo em troca de certas condições escritas em formal Tratado de parceria renovada, a paz no continente e a necessária neutralidade da Ucrânia como ponto de encontro entre o ocidente e a Rússia.

Vencidos os warmongers pelo voto no ainda recentemente constituído Colégio Eleitoral, podemos estar praticamente seguros de que Putin não atacará, pois não tem razões para o fazer.  Previsivelmente actuará em conformidade junto das suas coercivas milícias dispostas no terreno. O status quo territorial não é apenas desejável, como possível. Portugal, situado no centro da civilização ocidental que geográfica e culturalmente, no seu sentido mais amplo, abrange todo o espaço entre Los Angeles e o Estreito de Bering, poderá então vislumbrar com outra perspectiva o potencial da CPLP.  

3. No Próximo Oriente a situação é outra, ditada pela intrincada teia de interesses que opõem iranianos, sauditas, qataris, israelitas, grandes empresas e o Dep. de Estado+Pentágono dos EUA, os turcos e os russos, aos quais se juntam as reivindicações curdas, cristãs, iazidis e o absurdo e há muito esperado despertar de um claramente criminoso jihadismo de recorte neo-medieval. A consequência? A Europa tem de lidar com o "Caso Refugiados", uma torrente humana ininterrupta que vai esvaziando não apenas as zonas de guerra, como outras situadas a milhares de quilómetros e que pouco ou nada têm directamente a ver com o conflito que há décadas decorre entre as margens do Mediterrâneo oriental e o Eufrates. 

É este um cenário muito pior e mais perigoso que aquele descrito nos pontos 1. e 2. e que por si, devido ao evidente, claro e sempre politicamente correcto negado confronto de civilizações, é capaz de despoletar um embate directo num momento fortuito. Assad parece cada vez mais de pedra e cal, inamovível e inesperadamente para alguns, surge hoje como a parte essencial para o relativamente rápido resolver de um conflito que mercê dos erros crassos cometidos em Bagdade e Tripoli, tornou toda a Europa num instrumento inútil como força dissuasora e totalmente incapaz como entidade reactiva. Pior ainda, quebrou a espinha dorsal da até há pouco incondicional ou resignada solidariedade ocidental. O Brexit consiste apenas numa entre outras cada vez mais prováveis consequências. 

É uma evidência a oposição de praticamente todos os países da U.E. a uma guerra com os russos e aliás, dados os resultados eleitorais, o americano que trabalha, gosta de conduzir vistosos bólides e tem de pagar contas para sustentar a família, também não a deseja. Não estamos em tempos propícios a riscos, pois estes envolvem nada mais senão o Armagedão. 

Afastadas as intransigentemente sempre irascíveis Applebaum e os bem pagos tamborileiros da guerra, urge agora falar com Putin, urge falar directa ou indirectamente com Assad.

Fira-se o amor próprio em prol do interesse geral. Mas... amor próprio de quem?


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publicado às 17:42

Trumpismo

por John Wolf, em 11.11.16

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Estou a mudar. E não sou o único. Não deixei de acreditar. Mas as minhas convicções também não se encontram em territórios perfeitamente delineados. Dentro de dias farei anos, e se me confinasse a uma matriz definida estaria arrumado, seria um velho - mais velho do que o mero ano que irei adicionar à minha existência. Durante anos a fio fomos arremessados sem dó nem piedade de um sistema de valores políticos para o seguinte, de uma promessa grandiosa para um juramento ainda maior, e sem pudor, fomos aceitando essa modalidade de fé, essa religião política. Encontramo-nos agora num cruzamento, no confronto entre os medos, as expectativas, as convenções e preconceitos que se sedimentaram no nosso espírito e toldaram as nossas consciências. Somos adeptos de uma modalidade de descrença em particular. Por força da dependência crónica do juízo dos outros reduzimo-nos a unidades de conformidade, de passividade perante uma narrativa agora corroborada por eventos que alguns designarão de surpreendentes. No entanto, não existe nada de excêntrico na eleição de Trump. Os americanos esbanjaram tanto tempo para encarar a sua própria decepção. Não souberam repartir a tarefa de um modo gradual, faseado. Atingiram a velocidade de cruzeiro de uma máquina desgovernada, contrafeita. Pactuaram com os termos de identidade e residência em Washington dos demais actores da mesma epopeia de ascensão e apenas ascensão. Agora que a encomenda chega, o espanto parece ser a expressão facial mais corrente. Mas fomos nós que produzimos o estado da Nação, e seremos nós que iremos escrever os próximos capítulos europeus. Os discursos e a letra dos mesmos darão lugar a algo distinto, com grau de parentesco ou não. Somos simultaneamente responsáveis e testemunhas de um processo irreversível. Mas somos letárgicos, lentos. Sabemos sempre tarde demais como poderia ter sido, como desejaríamos que tivesse sido. A política assente na antecipação é uma natureza morta. Estamos sempre em dívida e estamos quase sempre atrasados. E como deixamos que outros tomem a dianteira, queixamo-nos de um modo injusto. Fomos nós que nos paralisamos em convenções e ideologias consideradas estanques e vitalícias.

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publicado às 18:14

Mea culpa Trump

por John Wolf, em 09.11.16

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Começo por realizar um mea culpa. Deixei-me levar pelos media dos EUA. Acreditei, de facto, na imparcialidade dos jornais e estações de televisão, nas emissões com paineis de especialistas, nos fabricantes de sondagens e no status quo dos meus compatriotas. Não votei em Trump, mas à luz da sua eleição, devo conservar o espírito construtivo e procurar acreditar que o povo americano deve saber interpretar e moldar a excepcionalidade deste desfecho. Seria faccioso e fundamentalista político, mas acima de tudo hipócrita, se não responsabilizasse a própria Hillary Clinton pelos resultados e os limites das suas ambições. Houve, na senda do partido Democrata, uma insistência na velha escola, nos valores autofágicos, e na rejeição da revolução que não veio a acontecer. Enquanto conhecedor do sistema político americano sei que qualquer exagero comportamental de Donald Trump encontrará barreiras e fará soar alarmes. Quer o desejemos ou não, uma nova ordem mundial está a ser construída e assenta numa premissa fundamental. Os diversos povos do mundo há muito que vêm reclamando uma alteração das regras de jogo. Veremos como a Europa nos seus diversos processos electivos se reconfigura. Como já foi democraticamente enunciado no século XIX: I don´t agree with what you say, but I´ll defend to death your right to say it.  Em nome da nossa própria sanidade mental aguardemos então que as palavras descabidas de Trump apenas parcialmente sejam convertidas em actos, e que uma epifania política possa brotar do pântano de Washington que alguém diz que prontamente será drenado.

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publicado às 09:03

Costa não está preparado para Trump

por John Wolf, em 04.11.16

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Aviso à navegação: o meu voto já chegou ao grande Estado da Pensilvânia. Agora não há mais nada que eu possa fazer a não ser especular sobre o resultado das eleições presidenciais norte-americanas. Na noite eleitoral estarei em Lisboa num evento oficial de acompanhamento dos resultados. Começa pelas 9 da noite e dizem que estaremos despachados pelas 3 da manhã. Mas tenho sérias dúvidas que a coisa ficará resolvida nessa mesma madrugada. Do meu ponto de observação privilegiado, ou seja Portugal, observo dimensões que pouco interessam ao comum dos mortais americanos. Uma coisa é certa: os europeus estão obrigados a desenhar alguns cenários que poderão determinar substantivas consequências nas suas existências. Se Hillary for a próxima presidente dos Estados Unidos, será um "mais do mesmo" -  nada de dramaticamente distinto será colocado em cima da mesa em termos de política doméstica ou externa. Por outro lado, e para referirmos o conceito de doutrina presidencial, somos forçados a rever as prioridades de Trump, e de que modo as suas opções poderão impactar a vida no resto do mundo. E penso na União Europeia e em Portugal em particular. Para quem não tenha ainda percebido, Trump já emitiu uma declaração de guerra económica ao resto do mundo. O slogan make America great again é mais do que um mero chavão. Implica efectivamente uma hierarquização acentuada do interesse nacional americano. A ênfase na geração de emprego para americanos. A relocalização de unidades fabris nos EUA. O repatriamento de dinheiros extraviados noutros destinos económicos. A insistência de que o dólar americano deve novamente ser uma divisa de força. O alinhamento de acordos estratégicos parcelares e limitados temporalmente. A colaboração com outras forças desequilibradores a leste e a oeste, a norte e a sul. O reconhecimento de iniciativas excêntricas movidas pelo destronamento de poderes instalados - penso no Brexit e penso em Putin. Ou seja, no quadro actual de volatilidade e incerteza, Trump acrescenta combustível à fogueira de um mundo que se encontra inegavelmente na fronteira de algo novo, mas certamente imprevisível. Por outras palavras, Trump é um produto da realidade que se estendeu e que consequentemente se esgotou nas últimas décadas. Mas não está sozinho na marcha de deconstrução. A Europa tem os seus próprios exemplos de agentes que visam a ruptura sistémica. Eu também acredito na mudança, mas não acredito que a mesma possa ser instigada de um modo passional e intensamente populista. Corremos alguns perigos por haver efeitos secundários que nunca devem ser subestimados. Nessa guerra que Trump declara, nem a União Europeia nem a NATO estão a salvo, e, numa escala ainda mais minuciosa, países com a dimensão de Portugal também não estarão à margem de ventos desfavoráveis. Darei apenas um exemplo. Se um intenso desordenamento de mercados resultante de certas iniciativas presidenciais americanas tiver tempo de sedimentação suficiente, os efeitos conjunturais dos mesmos passarão a ser crónicos. Se a tesouraria do Banco Central Europeu, que depende da banca global que por sua vez é controlada por conglomerados americanos, for afectada, é muito provável que Portugal e o governo de ficção de António Costa não consiga salvar o país de um descalabro. Existe sim uma cadeia alimentar política-económica-financeira que determina o destino das nações. Centeno pode inventar as teses que quiser, mas de nada servirão numa visão que transcende as ideologias monetárias e fiscais clássicas. E nessa medida, ao escutar o debate do Orçamento de Estado na Assembleia de República Portuguesa, vejo sobretudo crianças, alguns políticos, mas nenhum estadista capaz de interpretar os verdadeiros desafios que se nos apresentam. E essa ingenuidade corre em sentido contrário à acutilância cínica de Donald Trump. Os membros do governo e os deputados do parlamento português estão encostados à mesma árvore de sempre e tardam em perceber os perigos que Portugal, e para todos os efeitos, a Europa correm. Na próxima quarta-feira cá estaremos com uma sensação qualquer a dar a volta ao estômago. Não sei qual é. Não sei qual será. Aguardemos, com alguma ansiedade à mistura.

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publicado às 21:16

Centeno pica o ponto da austeridade

por John Wolf, em 19.10.16

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Os políticos europeus andam equívocados há algum tempo. Desde que meteram na cabeça a ideia de Austeridade, não existe nada que os possa demover das suas convicções. Não é que os Estados Unidos da América (EUA) sejam desprovidos de falhas graves, mas neste capítulo dão cartas. Trabalham mais do que os europeus. Trabalham mais horas do que os italianos e os portugueses, mas assemelham-se aos suiços e alemães. E isso tem uma explicação clara. A carga fiscal muito menos acentuada, do que aquela montada em tantos países europeus, funciona como um incentivo ao trabalho. A ausência de reformas e pensões substanciais nos EUA também obriga a esforço adicional - penso na carga de trabalhos em que Portugal está metido com as centenas de milhares de funcionários públicos a que tem de dar de mamar. Os sindicatos europeus inventados para proteger os trabalhadores também contribuíram para um certo estado de alma perdulário. Sinto muitas vezes em Portugal, nos vários domínios profissionais em que me movimento, que existe uma certa falta de entusiasmo - um "estou a trabalhar para aquecer". E é isso que este Orçamento (e os restantes) ajuda a eternizar. Ao desgastarem os contribuintes corroiem a natureza intrínseca do empreendedorismo, da livre iniciativa, mancham a alma voluntariosa do indivíduo que acredita que pode mudar o mundo. E é curioso que o Web Summit esteja prestes a começar em Portugal. Aqueles visionários atracam em Lisboa porque a recepção será maravilhosa e as condições ideais, mas atentemos ao seguinte. Os criadores que aí vêm foram gerados em países com um software mental e fiscal adequado. Não sei se o impacto da cimeira será notável. Para os que vêm é apenas uma escala de um processo de desenvolvimento maior. Investir em Portugal? Perguntem ao Centeno e ao Costa.

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publicado às 09:42

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Os portugueses que não elegeram António Costa já estão a sentir os efeitos questionáveis do seu governo. O mesmo se passará com a eleição do próximo presidente dos EUA. Seja quem for que ocupe a Casa Branca, o resto do mundo será destinatário de decisões tomadas pelo presidente mais poderoso do mundo. Encontro-me no meio da discussão. O meu voto, por mais singular e ínfimo que seja, pode ajudar a esclarecer o processo presidencial americano. No entanto, enfrentamos, qualquer que seja a nossa nacionalidade, perigos trans-ideológicos assinaláveis. Ontem assistimos ao "dia 2" do longo processo de nomeação de candidatos presidenciais - Hillary Clintou levou uma ripada da estrela do "socialismo americano" Bernie Sanders, e Donald Trump arrasou Cruz e os demais republicanos. O que Sanders defende está no cerne da questão do grande desequilíbrio económico e social daquele país, e por extensão, do resto do mundo. Sabemos que os excessos de Wall Street minam os fundamentos da Democracia e prorrogam a vantagem obscena daquele 1% mais abastado do mundo. Sabemos que a justiça social ainda não foi alcançada em sociedades capitalistas um pouco por todo o mundo. Sabemos também que todo e qualquer serviço de saúde congeminado por um Estado deve chegar aos mais carentes. Em relação a isto duvido que discordemos - existem grandes fracturas que devem ser reparadas se quisermos manter viva a nossa crença na humanidade. Mas também sabemos qual o significado de cultura ideológica, de tradição ou partidarismo. Nessa medida, há que utilizar uma medida de interpretação distinta daquela convencionalmente aceite. Por outras palavras, a nomeação de Bernie Sanders quase de certeza que significará a eleição de Donald Trump como próximo presidente dos EUA. Se e quando o socialista americano Sanders chegar à nomeação, certamente que será empurrado para a extrema ideológica onde habitam os medos de que se alimenta Trump. Teremos, simplesmente, uma América rachada entre um nacionalista ultra-liberal e um recém-designado comunista, e, a haver esse dilema existencial, o pior dos EUA emergirá para eleger o uber-conservador que segue em sentido contrário aos valores fundamentais que estão na génese da nação americana. Sinto que os EUA não estão preparados para interiorizar o que pretende Sanders, e irá, por uma questão de tradição económica e financeira, pender para o lado do guru bilionário. Como votante neste processo eleitoral, não me sinto muito confortável com o que quer que seja. Hillary Clinton ainda não tem o meu aval, porque não acredito na graça política do voto útil. Aquele mecanismo sobejamente gasto pela política portuguesa, onde a virtude reside mais em derrotar do que eleger. Veremos se Bloomberg será a alavanca apropriada para desempatar um jogo cínico, ou se será apenas mais um factor de risco e volatilidade. Eu sei que a malta anda toda entusiasmada com as continhas do Orçamento de Estado, mas a eleição do próximo presidente americano diz respeito a todos. Se não tivermos cuidado, os portugueses ainda vão levar com mais um que não elegeram. Isto sem contar com António Costa.

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publicado às 15:52

O governo e o índice de erecção

por John Wolf, em 17.12.15

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Fico furioso quando me mentem. Não me refiro a esse caso patológico cujo nome recuso escrever. O actual governo da República Socialista de Portugal não fala a verdade. Em vez disso lança uma neblina para confundir os mais incautos. A aprovação do aumento de dois milhões de pensões não passa disso mesmo. Não é preciso ser um astrofísico-financeiro para perceber o truque. O tão aclamado aumento está, efectivamente, indexado à inflação, e acontece que na Zona Euro não se avista uma pontinha da mesma. O Banco Central Europeu confirma esse facto ao manter a sua posição de expansionismo monetário. Nesse medida, o pensionista nacional não deve morder este isco. A linha populista que atiram, tem, além do mais, um peso-morto no seu fim. A ficção monetária e a alegada reposição do poder de compra terá de ser compensada com mais medidas trans-demagógicas. Ou seja, o softcore desta medida fácil e aparatosa terá de ser contrabalançado por medidas XXX. Para cada decisão sexy do governo, terá de haver outra sado-maso. Onde é que o Vieira da Silva pensa que está? Nos EUA? Aí sim, já há sintomas de erecção inflacionista, e a domina Janet Yellen, ciente dos perigos que espreitam, começou ontem a fechar a torneira da liquidez ao subir a taxa de juro de referência. "Indexado à inflação" é como oferecer preservativos a um náufrago que se encontra a solo numa ilha selvagem.

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publicado às 17:46

A morte da esperança

por João Almeida Amaral, em 04.12.15

 

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 foto Jornal Lamego

Não me recordo, eram talvez 20,30 quando a emissão da RTP foi interrompida. Julgo que anunciaram um acidente com uma pequena aeronave no aeroporto de Lisboa, na zona de Camarate. Pouco depois apareceu Freitas do Amaral. Em tom combalido,anunciou a morte de todos os que viajavam a bordo do Cessna. Terminou pedindo para todos os que assistiam rezassem  com ele um Pai Nosso. 

Francisco Sá Carneiro tinha 46 anos , era um jovem político, tinha fundado o PPD.

Eu tinha 18 anos estudava num ano novo a que chamaram propedêutico, tinha menos 28 anos que ele.

Hoje tenho mais 8 anos. 

Com ele morreu a esperança da minha geração. Independentemente de nunca ter militado no PPD ,Francisco Sá Carneiro era o homem em quem depositávamos a esperança de enterrar o PREC de uma vez por todas, (a ele devemos a extinção do Conselho da Revolução). 

Sei que  muita gente, por ter nascido depois, não sente com a mesma intensidade, o que ele representava para um jovem de 18 anos.

Ao longo da vida, vivi envergonhado com a postura de muita gente no PPD,PS e CDS  . Nenhuma comissão de inquérito provou o assassinato. 

Deixo algumas questões:

  • Foi o primeiro português (julgo que único) a fazer frente aos EUA em relação ao BA4 (base dos Açores)
  • Foi o primeiro , Primeiro Ministro de Portugal a ter uma relação cordial com um Presidente ,(Machel) de uma Ex-colónia (Moçambique)
  • Samora Machel morreu da mesma forma e pouco tempo depois (apenas o piloto sobreviveu o que também é estranho)
  • A AD foi por si desenhada 
  • Alguns dos seus mais próximos são hoje independentes de esquerda , sendo raro, democratas cristãos tornarem-se adeptos de partidos e ou alianças com comunistas e trotskistas

Cada um o recordará com entender. 

Para mim a sua morte foi o fim da esperança na recuperação do meus país. 

  

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publicado às 18:39

The best Democracy money can buy

por João Quaresma, em 11.09.15

"The idea that free markets will ultimately create the best possible living conditions is, of course, a wonderful one. But the reality in America looks like this: The yearly income of a typical middle-class family has fallen by almost $5,000 since 1999. If you factor in inflation, male workers last year earned on average $783 less than they did 42 years ago. For the country's richest, on the other hand, things are going swimmingly. The highest 0.1 percent possesses almost as much wealth as the lowest 90 percent taken together. The family of Sam Walton, founder of supermarket chain Walmart, has amassed over $149 billion in wealth. The family possesses as much as all of the lowest 42 percent of the country combined."

Tem sido notória a embirração da imprensa norte-americana em relação à Alemanha, nos últimos tempos. É natural que os alemães respondam com umas pedradas aos telhados de vidro do outro lado do Atlântico, como neste caso em relação à influência do poder financeiro nas eleições presidenciais. E os alemães não brincam.

America's oligarch problem: How the Super-Rich threaten US Democracy, no Der Spiegel

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publicado às 11:37

Este é o tratamento que os candidatos presidenciais de Portugal pedem.

 

 

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publicado às 19:31

 

  • O interesse nacional nem sempre é do interesse das populações.
  • O interesse nacional é sempre invocado.
  • O interesse nacional é uma prerrogativa do governo.
  • A projecção de poder e o interesse nacional são quase a mesma coisa.
  • A percepção é tão ou mais importante do que a realidade.
  • As percepções constroem-se para validar ou negar os factos.
  • A produção de percepções não é um exclusivo dos governos.
  • Os média antecipam-se ou estão atrasados em relação aos factos.
  • Os média nunca estão em sintonia/sincronia com os acontecimentos.
  • Os média são uma extensão dos actores políticos.
  • A propaganda é um conflito continuado e praticado por todas as partes envolvidas.
  • O status quo ou a estabilidade são construções ilusórias.
  • A ameaça do uso de força implica ciclicamente o seu uso para se validar.
  • A contenção é a mesma coisa que a ameaça do uso de força.
  • A ameaça do uso de força e a cooperação não estão a grande distância uma da outra.
  • A força das ideologias foi sendo substituída por outras formas de crença.
  • Domínio territorial e ocupação efectiva encontram-se no mesmo plano de importância de outros modos de expressão de poder imaterial.
  • A geopolítica também é movida por dimensões psicológicas como a memória colectiva e sentimentos como o rancor.
  • É mais fácil a fundamentação da decisão política baseando-se na história do que tentar a construção de novos modelos.
  • A linguagem do passado serve apenas uma parte da narrativa do presente.
  • As ameaças pequenas não são diminutas, são efectivas e potenciais.
  • As respostas dadas são sempre grosseiras, ou seja, nunca são do grau adequado.
  • A iniciativa política é apenas a extensão de um corolário.
  • Os corolários ou os axiomas são contradições genéticas, ou seja, a intuição e o instinto, são igualmente importantes na construção de modelos tendencialmente racionais.
  • As intervenções militares, de natureza quase sempre temporária, procuram desalinhar construções políticas de cariz mais duradouro.
  • É possível interpretar factos que ainda não aconteceram.
  • A ética é retrospectiva, mas eminentemente prospectiva.
  • A ideia de ordem nem sempre é legalista ou de natureza ética.
  • As aspirações filosóficas e existenciais do homem talvez sejam as mais difíceis de satisfazer.
  • O materialismo das nossas sociedades produz assimetrias desejadas.
  • As democracias já foram beligerantes entre si.
  • A auto-determinação dos povos nem sempre é um meio para justificar os fins.
  • O auto-existencialismo das nações pode ser acordado e estimulado para fins diversos.
  • Não existem mentiras em geopolítica: é tudo uma questão de timing.

(a continuar)

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publicado às 08:16

O Dia D

por Nuno Castelo-Branco, em 06.06.14

Parecendo uma repescagem das diatribes, omissões e falsidades durante décadas urdidas nos volumes da História da Grande Guerra Patriótica, têm ultimamente surgido alguns interessados pela temática II Guerra Mundial apresentando uns tantos "ses" sem qualquer sustentação, quando confrontados com a miríade de problemas ditados pela realidade tal como se apresentava em Junho de 1944.

 

Estando os historiadores perante a evidência de um conflito que cabe no conceito de guerra total, alguns pretendem  considerá-la de forma sectorial, limitada e sem atender à sempiterna companheira dos eventos bélicos, isto é, a política interna e externa dos beligerantes, os interesses geoestratégicos dos principais contendores, fossem aqueles económicos, militares ou de exercício da soberania.

 

Dizem então que o desembarque anglo-americano na Normandia terá sido uma invasão desnecessária. Argumentam com a evolução das operações no teatro de guerra da frente oriental que estava a cargo dos aliados russos. Esta é uma consideração errada em todos os pressupostos, sejam eles militares ou políticos.

 

Em Junho de 1944, a Alemanha ainda era uma potência bélica de primeira categoria, apresentando ao mundo umas forças armadas muito numerosas,  perfeitamente capazes sob o ponto de vista anímico e dotadas de equipamento tecnologicamente avançado. A indústria conduzida por Speer, atingiu picos de produção que não devem ser negligenciados, apesar dos redobrados esforços das campanhas aéreas desferidas pelas potências anglo-saxónicas. Não mencionado em detalhe a imensa superioridade técnica da sua arma blindada - mesmo atendendo aos modelos mais pesados do adversário soviético -, esta qualidade era extensível às armas que ditariam as regras nos conflitos vindouros. Mísseis de todos os tipos que iam surgindo nos teatros de operações, aviões a jacto, armas automáticas, uma nova geração de submarinos apenas muito mais tarde eclipsados pelo advento das classes movidas a energia nuclear, entre toda uma série de inovações que durante quarenta anos decisivamente influenciariam o desenvolvimento dos arsenais das principais potências mundiais.

 

Os britânicos consideravam imprescindível o desembarque na Europa, cientes que estavam daquilo que significaria a outorga de toda a guerra terrestre aos exércitos levantados pelo regime soviético. No que respeita aos seus aliados americanos, destes divergiam quanto à zona escolhida para a invasão, preferindo o "baixo ventre da Europa"- Mediterrâneo central, ou seja, a Itália, Grécia e a costa jugoslava -  às praias do norte de França. A verdade é que desde o início da sua intervenção, os americanos sempre privilegiaram os pontos de vista do Kremlin, conhecendo-se também as conversações que Roosevelt e a sua administração foi entabulando com os soviéticos a respeito da liquidação dos impérios coloniais europeus, britânico incluído. A Estaline interessava a intervenção anglo-americana de uma forma limitada - permanente bombardeamento aéreo da Alemanha e caudaloso fornecimento material à URSS - e no sentido do alívio do envio pela indústria alemã, de equipamento destinado à Wehrmacht na frente leste. Os aliados ocidentais eram meramente utilitários e o lend-lease absorvia o seu quase exclusivo interesse por eles. 

 

O conceito de defesa elástica que apesar de tudo o marechal Von Manstein conseguira impor como incontornável recurso para a contenção da avalanche que vinha do leste, é facilmente compreensível quando observamos nos mapas o lento avanço soviético em direcção a Berlim. Se a seguir a Estalinegrado (início do ano de 1943) esse progresso para ocidente parecia fulminante, a partir de Kursk - um colossal erro estratégico de Hitler - e apesar da esmagadora superioridade material, as ofensivas estiveram  muito longe de atingirem aquela velocidade que teria pressuposto a queda do III Reich na primavera de 1944. A inversão de alianças da Roménia e da Bulgária - já após o D-Day -, criou um certo vazio naquela zona dos Balcãs, sem que isso significasse a imediata chegada do Exército Vermelho a Budapeste, Praga e Viena. Apesar de se encontrarem em grande desvantagem numérica, os alemães fizeram arrastar durante longos meses, as campanhas russas na Polónia e nas províncias germânicas do leste, a Prússia oriental, Silésia e  Pomerânia. 

 

A presença anglo-americana na Itália, não era um factor determinante para a derrota do Reich a ocidente, dados os condicionalismos impostos pelo terreno admiravelmente propício a quem nele estivesse numa posição defensiva. Assim sendo, havia que escolher outro sector que se prestasse a uma maciça concentração de recursos bélicos e capazes de decidirem pelo número, o resultado de uma batalha que se previa difícil e custosa.  Sob o ponto de vista estritamente militar, os actuais revisionistas da história apresentam  como certa a vitória soviética a leste, na presunção de Estaline contentar-se com a tomada de Berlim e zonas da Alemanha concedidas após as Conferências do Cairo e Teerão, ao domínio russo. Nada mais ingénuo. Consciente dos graves prejuízos causados ao esforço de guerra alemão pelas vagas de bombardeiros da RAF e USAF, Estaline decerto pretendeu estender o tão longe quanto possível, a presença dos seus exércitos na Europa central e ocidental. Quanto a isto não poderá existir a menor dúvida, conhecendo-se a importância decisiva que o factor político-ideológico exercia sobre a sua condução das operações militares e diplomacia. Poderá alguém alimentar algumas ilusões quanto a um esperado deter soviético nas margens Elba?  Há que atender à forte presença da coluna pró-soviética que os partidos comunistas representavam na Europa ocidental, não se desconhecendo a eficácia do PCF que mesmo após finda a guerra, pesadamente influiria na condução da política francesa. 

 

É verdadeira a suposição de que a ausência de uma intervenção terrestre em França, teria significado a imediata transferência para a frente leste de importantes unidades da Wehrmacht, capazes de consideravelmente atrasarem o avanço russo e adiarem em longos meses, o desfecho do conflito. Neste caso, a pressão exercida pela guerra aérea anglo-americana apenas beneficiaria geoestrategicamente a URSS, dando-lhe campo livre para uma decisiva penetração na Europa ocidental e sendo impossível aventarmos até onde aquela poderia ter chegado. Paris?, Madrid? Lisboa? Nas  Conferências de Ialta e de Potsdam, Estaline insistiu na necessidade de um ataque aliado à Espanha de Franco e isto é por si demonstrativo de um aspecto que actualmente parece ter sido alijado das cogitações dos interessados pelo estudo dos últimos capítulos da II GM. Já é bem conhecido como um grave erro político - logo militar, num contexto de guerra total -, a negativa de Eisenhower em permitir um avanço dos seus comandantes em direcção a Berlim, considerada como um objectivo meramente simbólico. Estaline sabia que a capital alemã era muito mais que um simples objectivo de prestígio, pois o seu controlo pressupunha a reivindicação da legitimidade política sobre o conjunto da nação alemã, além de significar uma indefinida permanência do Exército Vermelho em pleno coração da Europa. E assim foi até 1990.

 

A vitória soviética era um facto iniludível, os números pesavam e a generosíssima contribuição material americana foi decisiva. Blindados na ordem de muitos milhares, milhares de aviões de todos os tipos, os uniformes que vestiram e as botas que calçaram as tropas russas, armas automáticas, artilharia, a prodigiosa quantidade de munições de todos os calibres, uma espantosa quantidade de veículos de transporte que decisivamente motorizaram o E.V., mares de combustível e de matérias primas, as rações de combate que fartamente alimentaram o gigantesco exército russo, eis a contribuição decisiva. Mas isto não era suficiente, pois americanos e britânicos receavam o advento das propaladas armas secretas à disposição do Führer, suspeitando da séria possibilidade de entre os recursos tecnológicos, poder encontrar-se a arma nuclear. Durante alguns anos - 1942-44 -, Estaline irrealistamente temeu a celebração de uma paz separada entre o Reich e as potências capitalistas ocidentais, jamais conseguindo entender o vasto quadro dos interesses dos EUA e do RU no concerto internacional e ostensivamente desdenhando do capital factor político na condução da guerra pelas potências demo-liberais. Jamais considerou a evidência de o seu regime se encontrar mais próximo daquele que Hitler simbolizava, desde a forma messiânica da condução do Estado, até à concentrada organização do mesmo. 

 

Os números apresentados pelo escalpelizar de forças presentes na frente ocidental, parecem ser uma pequena fracção daqueles outros com que deparamos na consulta dos registos da frente leste. No entanto, as campanhas em França, na Bélgica e na Alemanha ocidental, foram decisivas para o abreviar do conflito e garantir a sobrevivência das democracias ocidentais na Europa.  A partir desta realidade históricai, já estaremos no plano das suposições, onde apenas o Reino Unido dificilmente se teria mantido como a única parcela da Europa livre da ocupação e re-arranjo institucional ditado pela URSS. Daí até à quase imediata  eclosão de uma terceira guerra mundial, tudo é possível imaginarmos. 

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publicado às 15:40

Reunião Soviética

por John Wolf, em 19.03.14

Não sei qual é o chip que está instalado nas máquinas de política externa dos EUA e de alguns países da UE (Reino-Unido, Alemanha, entre outros), mas Vladimir Putin acaba de dar banho ao cão das aspirações do Ocidente. O russo será provavelmente o político mais hábil da actualidade. Sabe-a toda. E deu uma lição aos campeões-libertadores que haviam demonstrado a sua alegada superioridade moral no Kosovo ou no Afeganistão (a título de exemplo). O discurso de anexação da Crimeia foi uma aula magna, mas também uma primeira lição sobre a nova relação de forças que está a ser desenhada por acção deste senhor e, convenhamos, por omissão de Washington e Berlim. Não é necessário ser um génio para entender quais as implicações desta primeira incursão russa. Por que razão haveria Putin de se quedar pela Crimeia? Contudo, os EUA e a UE usam um código que surtirá pouco efeito na alteração comportamental da Rússia. As sanções, têm, na maior parte dos casos, efeitos limitados - é a Rússia que tem o gás que a Europa precisa. De nada vai servir a apólice de seguro de nome Schroder que se senta aos comandos no board of directors da Gazprom. Não vejo razões para que Putin não aspire a realizar uma Reunião Soviética. A Moldávia já o pressentiu e deixou um aviso claro a Putin - Crimeias aqui não. O que está a acontecer até pode parecer um devaneio imperialista russo, mas olhe que não. Foi a NATO que começou a desenhar um círculo em torno do Kremlin, com destinos geo-estratégicos polacos à mistura, entre outras coisas. Os franceses que estão metidos ao barulho por causa de grandes contratos, podem simular a sua indisposição e cancelar as reuniões do G8 que entenderem, mas não passa de uma farsa para inglês ver. Resta-nos assistir às diversas movimentações caducas do Ocidente. Sim, os EUA e os Europeus foram grosseiros na interpretação dos sinais que se vinham tornando claros há bastante tempo. E lembrem-se: não é a Rússia que está entre a espada e a parede. São outros que estão encostados às cordas.

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publicado às 14:17

Crimeia e o fetiche da Guerra Fria

por John Wolf, em 06.03.14

A propósito do artigo de Daniel Oliveira tenho a dizer o seguinte: it takes two to tango. Estará a Rússia disposta a um acordo político? Será que o desfecho dos eventos que ocorrem na Crimeia servirá de ponto final para a grande estratégia russa? Não creio. Parece-me um pouco ingénua e redutora a simplificação ideológica do Daniel Oliveira. Quando os britânicos garantiam a paz na Europa após negociações com a Alemanha nazi dos anos 30, o que aconteceu a seguir? A Europa foi palco do mais devastador conflito de que há memória. Embora (ainda) não esteja a bombardear a Crimeia, a Rússia faz uso de todos os métodos de apropriação territorial que se conhecem. Certamente não se recordará Daniel Oliveira dos Sudetas e da Alemanha nazi que violou territórios para defender os interesses dos seus "nacionais" residentes na Boémia e na Morávia. A grande questão que os europeus enfrentam relaciona-se com a sua eterna passividade perante o desenrolar os acontecimentos. Em vez de criticar os EUA, os apologistas da emancipação política e militar da União Europeia deveriam fazer um esforço para estabelecer as regras do jogo. Mas para fazer isso de um modo substantivo seria necessário que a Política Externa e de Segurança Comum da UE existisse de facto e fosse para além do plano das intenções. When the shit hits the fan a quem recorrerá a Europa? Será a NATO e os EUA a intervir no terreno. Não existe política recessiva em Realpolitik. Quando a Rússia avança é porque já sabe quais os passos seguintes que irá tomar. Enquanto alguns servem-se da história da Guerra Fria para revelar rancores e interpretar os tempos presentes, outros escrevem a contemporaneidade geopolítica fazendo tábua rasa de considerações ideológicas. E é isso que a Rússia está a fazer. Está a arrastar os restantes actores para uma nova linguagem de projecção de poder, domínio e subjugação. Decerto esquece Daniel Oliveira que a União Soviética também pôs o dedo na gatilho  na guerra do Vietname. O acordo político com a Rússia de que fala Oliveira será negociado por quem? Por uma União Europeia quase incapaz de se manter em pé? Autonomia, autodeterminação ou moralismo são palavras caras que não servem grandes causas. Ainda não temos um nome para definir o que está a acontecer. Porventura por daqui a 10 anos Daniel Oliveira possa dedicar um tomo inteiro a este tema. Agora parece-me prematuro. Misturar juízos de valor com análise política séria geralmente dá asneira.

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publicado às 13:08

Como devemos chamar Portugal?

por John Wolf, em 16.12.13

Não me chamem o que quiserem como diz o outro. Não me chamem de pessimista nem de optimista. Não me chamem de todo (tolo), mas chamem os nomes que entenderem àqueles que afirmam que dobramos a esquina, que a recessão acabou e que a festa está prestes a começar. Não é preciso ser um génio para perceber que estamos longe dos tempos de prosperidade e bem-estar. De nada serve o entusiasmo ejaculatório das comunicações governamentais e das estatísticas que proclamam o fim da recessão, quando quem manda ainda não está satisfeito com o esforço nacional e o nível de desemprego em que nos encontramos. E para além disso, não está satisfeito porquê? Porque a Reforma do Estado ainda não aconteceu nos termos em que deveria acontecer. Porque um entendimento entre as diferentes forças políticas não passa de uma utopia. Porque existe uma Constituição da República que ainda não foi revista. Porque existe um Tribunal Constitucional que decide de acordo com a mesmíssima Constituição. Porque existe em Portugal uma alegada Esquerda que assenta a sua luta na dictomia entre capitalismo e função social. Porque existe uma suposta Direita que fundamenta o seu esforço na preservação de certas vantagens corporativas ou empresariais. Porque vivemos num país onde as palavras entendimento, consenso e acordo de nada valem. Porque Portugal é um país que não consegue produzir alternativas políticas que sejam provenientes da sociedade civil. Porque existe nesta nação uma alegada elite intelectual e cultural que prefere garantir a sua sobrevivência em vez de demitir as premissas que sustentam os seus privilégios. Porque todos estes vícios já estão enraízados em Portugal há décadas, senão séculos. Porque Portugal ainda acredita que existem atalhos para evitar medidas cautelares ou um 2º resgate. Porque Portugal prefere atribuir a responsabilidade do seu destino a terceiros. E sabem que mais? É precisamente isso que está a acontecer. Portugal está a entregar de mão beijada as decisões sobre o seu futuro a terceiros. O atavismo nacional que resulta do corpo e anti-corpo político, da zanga de comadres, e da eternização de compadrios é o que está mal. Por outras palavras, está tudo mal. Enquanto esta tragédia decorre, a Alemanha prepara a sua equipa para a gestão dos assuntos político-económicos dos outros países-membros da União Europeia e os EUA salvam propostas de governação através de compromissos entre Democratas e Republicanos. A Europa está encalhada. E no meio de tudo isto não sei onde colocar Portugal. Mas que está metido em sarilhos, está.

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publicado às 18:27

A foto do ano

por Pedro Quartin Graça, em 13.12.13

Manifestação contra o racismo, em Angola.

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publicado às 19:26






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