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Preconceito, autoridade e razão

por Samuel de Paiva Pires, em 19.02.17

Miguel Morgado - Autoridade.jpg

 

Miguel Morgado, Autoridade (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010), 77–78:

Em sentido literal, isento de cargas pejorativas, o preconceito é tão-somente «o julgamento que se faz antes de se ter examinado todos os elementos que determinam uma situação». Assim, um preconceito não é necessariamente um julgamento errado. Não faltará, porém, quem diga que obedecer à autoridade é confessar a indisponibilidade ou a incapacidade para superar as alegadas carências do preconceito. Grande parte do pensamento do século XVIII europeu, a que se convencionou chamar das «Luzes», não protestou outra coisa. Há preconceitos cuja relevância e valor se podem dever às limitações naturais da condição humana. Contudo, outros preconceitos há que perduram graças exclusivamente à autoridade, que aqui funcionam como uma espécie de assistência respiratória de julgamentos duvidosos. Neste caso, preconceito e autoridade aliam-se para perpetuar a servidão humana, ou pelo menos de certos estratos da humanidade, aqueles que se sujeitam à autoridade e adoptam o preconceito. É também deste modo que os adversários da autoridade denunciam sub-repticiamente a associação entre autoridade e a negação da razão, ou aplaudem a alegada inimizade entre a autoridade e a razão. Recusam-se a aceitar que a compreensão humana do mundo decorre também dos julgamentos que temos de pronunciar em variadíssimas ocasiões da nossa vida, que a razão não opera num vazio histórico, que a aceitação da autoridade é uma prática incontornável e, em circunstâncias felizes e oportunas, proporcionadora de um recto exercício das faculdades do entendimento, justificada por a autoridade, enquanto autoridade, e na medida em que é autoridade, ser igualmente fonte de verdade. Recusam-se a aceitar que a relação entre a autoridade e a razão não é a de um simples confronto, apesar de lhes ser mostrado que o reconhecimento da autoridade sugere desde logo que não se prescindiu da razão. Esse reconhecimento traz implícito o raciocínio segundo o qual vale a pena aceitar o julgamento da autoridade porque esta pronuncia julgamentos superiores aos meus. Daí que seja enganador dizer que a autoridade é imposta por alguém sobre outrem. Na realidade, se a autoridade tem de ser reconhecida e aceite, o termo «imposição» torna-se deslocado. Ademais, a obediência à autoridade, que se segue ao seu reconhecimento, continua a comprovar que estamos diante de um acto regulado pela razão, já que a superioridade dos ditames da autoridade sobre os nossos julgamentos pode, em princípio, ser sempre demonstrada racionalmente.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 14:49

A filosofia pós-moderna a mascarar a anomia

por Samuel de Paiva Pires, em 21.10.15

Alasdair_MacIntyre.jpg

 Alasdair MacIntyre, Whose Justice? Which Rationality?:

Nietzsche is of course not the only intellectual ancestor of modern perspectivism and perhaps not at all of modern relativism. Durkheim, however, provided a clue to the ancestry of both when he described in the late nineteenth century how the breakdown of traditional forms of social relationship increased the incidence of anomie, of normlessness. Anomie, as Durkheim characterized it, was a form of deprivation, of a loss of membership in those social institutions and modes in which norms, including the norms of tradition-constituted rationality, are embodied. What Durkheim did not foresee was a time when the same condition of anomie would be assigned the status of an achievement by and a reward for a self, which had, by separating itself from the social relationships of traditions, succeeded, so it believed, in emancipating itself. This seld-defined success becomes in different versions the freedom from bad faith of the Sartrian individual who rejects determinate social roles, the homelessness of Deleuze’s nomadic thinker, and the presupposition of Derrida’s choice between remaining “within,” although a stranger to, the already constructed social and intellectual edifice, but only in order to deconstruct it from within, or brutally placing oneself outside in a condition of rupture and discontinuity. What Durkheim saw as social pathology is now presented wearing the masks of philosophical pretension.

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publicado às 14:16

Dos manuais no ensino moderno

por Samuel de Paiva Pires, em 14.03.15

Eduardo Lourenço, "Da filosofia e da sua relação com a ideologia":

Em lugar das obras a escolaridade secundária serve de preferência manuais. O manual tornou-se assim no ensino moderno (curiosa correspondência com o mundo económico das “sociedades anónimas de responsabilidade limitada) uma espécie de terra de ninguém da sabedoria, que não é outra coisa que uma sabedoria degradada. Em vez dos mestres são-nos servidos compiladores. O ensino moderno é o ensaio incrível de fazer compreender o mais pelo menos, o superior pelo inferior. É a inversão da ordem natural, a inversão da educação antiga, comunicação dos que sabiam aos que sabiam menos ou não sabiam.

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publicado às 17:57

Da clareza de pensamento

por Samuel de Paiva Pires, em 07.09.14

 

Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico:

 

4.112 O objectivo da Filosofia é a clarificação lógica dos pensamentos.

 

A Filosofia não é uma doutrina, mas uma actividade.

 

Um trabalho filosófico consiste essencialmente em elucidações.

 

O resultado da Filosofia não é «proposições filosóficas», mas o esclarecimento de proposições.

 

A Filosofia deve tornar claros e delimitar rigorosamente os pensamentos, que doutro modo são como que turvos e vagos.

 

(...)


4.113 A Filosofia delimita o domínio controverso da ciência da natureza.

 

4.114 Ela deve delimitar o que é pensável e assim o impensável.

 

Ela deve delimitar o impensável, do interior, através do pensável.

 

4.115 Ela denotará o indizível, ao representar claramente o que é dizível.

 

4.116 Tudo o que pode de todo ser pensado, pode ser pensado com clareza. Tudo o que se pode exprimir, pode-se exprimir com clareza.

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publicado às 12:22

A doutrina do ponto de vista

por Samuel de Paiva Pires, em 07.05.14

 

Ortega y Gasset, El Tema de Nuestro Tiempo:

 

"Desde distintos puntos de vista, dos hombres miran el mismo paisaje. Sin embargo, no ven lo mismo. La distinta situación hace que el paisaje se organice ante ambos de distinta manera. Lo que para uno ocupa el primer término y acusa con vigor todos sus detalles, para el otro se halla en el último y queda oscuro y borroso. Además, como las cosas puestas unas detrás de otras se ocultan en todo o en parte, cada uno de ellos percibirá porciones del paisaje que al otro no llegan. ¿Tendría sentido que cada cual declarasse falso el paisaje ajeno? Evidentemente, no; tan real es el uno como el otro. Pero tampoco tendría sentido que puestos de acuerdo, en vista de no coincidir sus paisajes, los juzgasen ilusorios. Esto supondría que hay un tercer paisaje auténtico, el cual no se halla sometido a las mismas condiciones que los otros dos. Ahora bien, ese paisaje arquetipo no existe ni puede existir. La realidad cósmica es tal, que sólo puede ser vista bajo una determinada perspectiva. La perspectiva es uno de los componentes de la realidad. Lejos de ser su deformación, es su organización. Una realidad que vista desde cualquier punto resultase siempre idéntica es un concepto absurdo. Lo que acontece con la visión corpórea se cumple igualmente en todo lo demás. Todo conocimiento lo es desde un punto de vista determinado."

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publicado às 22:18

Filosofar é aprender a morrer (5)

por Samuel de Paiva Pires, em 14.06.13

 

Albert Camus, A Queda:

 

«O que é certo é que o próprio censurado [Jesus Cristo] não pôde continuar. E eu sei, meu caro, o que estou a dizer. Houve tempo em que eu ignorava, em cada minuto, como poderia chegar ao seguinte. Sim, pode-se fazer a guerra neste mundo, macaquear o amor, torturar o seu semelhante, brilhar nos jornais ou simplesmente dizer mal do vizinho enquanto se faz malha. Mas, em certos casos, continuar, somente continuar, eis o que é sobre-humano. E ele não era sobre-humano, pode crer. Gritou a sua agonia e eis porque o amo, a esse meu amigo, ele que morreu sem saber.»

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publicado às 00:34

Política e batatas quentes

por John Wolf, em 12.06.13

Numa visão de longo prazo - a la Fernand Braudel -, a grande crise económica e social que assola a Europa, a Primavera Árabe que agora se prolonga na Turquia, o défice de Democracia que parece ter atingido o coração dos fiéis dos Estados Unidos (com a implementação de vigilância apertada às comunicações)a austeridade aplicada pelos governos nacionais, a guerra na Síria ou a abstinência de Cavaco Silva, serão meras migalhas na confecção do conceito de civilização, do paradigma existente ou futuro. Os padrões existenciais a que nos habituámos e que deixámos de questionar, terão de ser avaliados de um modo intenso. Os pressupostos que definimos enquanto intocáveis estão justificadamente a ser abalados. Construímos sociedades funcionais, mas que colidem com uma certa ordem natural de proximidade, de alcance do corpo e do espírito. Faz sentido alimentarmo-nos de batatas plantadas a milhares de quilómetros de distância? Faz sentido trabalhar nove horas por dia para pagar a outrém para educar os nossos filhos? Faz sentido perder 3 horas no trânsito para sustentar a deslocação? É isto que está em causa. O modelo existencial que resultou de um processo desenfreado de aquisição, de adição, enquanto a genuína qualidade de vida foi sendo tolhida, sem se dar por isso, mas pagando um preço muito elevado. As estruturas da nossa vida quotidiana estão a ser postas em causa, obrigando os corpos sociais a reorganizar as suas células. Os governos que são a extensão da vontade humana, são responsáveis pela consolidação desse modelo fracturante, mas a representatividade que lhes conferimos não nos iliba da consciência dos factos, da nossa culpa. Em todo o caso, enquanto os governantes insistirem na mesma malha económica e social, nunca seremos testemunhas da efectiva transformação, algo distinto de um devir oportunista anunciado por prospectivos lideres que querem tomar o poder fazendo uso de argumentos que pouco valem passados alguns dias. Lamentavelmente, estamos à mercê de funcionários incapazes de pensar as grandes considerações humanas. A falência a que assistimos deve-se em grande parte a esse divórcio entre a filosofia clássica e o quotidiano. Norbert Elias que dedicou grande parte da sua reflexão àquilo que ele definiu enquanto processos civilizacionais reveladores de atitudes sociais, revelou o calcanhar de Aquiles da condição humana - a sua obsessão pela fenomenologia de massas. No estádio em que nos encontramos, tornou-se obrigatório proceder à análise anatómica das prioridades individuais. O homem tem de ser tratado individualmente. E esse exercício de procura de um sentido existencial deve ser levado a cabo por cada um de nós, independentemente do subsídio de pensamento. Os governantes a que estamos obrigados por decreto, padecem de um grande défice de entendimento, de cultura e de humanidade. Elenquemo-los um a um e veremos que não preenchem os requisítos de inteligência emocional ou social que urgentemente necessitamos. Refiro-me, sem rodeios, a todas as nações subjugadas pela mediocridade. Nessa lista incompleta de incapazes teremos sem dúvida, Cavaco Silva, Passos Coelho, António José Seguro, Francois Hollande, George W. Bush ou Angela Merkel (para mencionar apenas alguns). Serão estes os filósofos dotados para repensar o mundo? Seremos nós próprios inteligentes quanto baste para evitar colidir com a nossa diminuta estatura? No fundo os políticos nunca terão o poder de transformar profundamente as nossas sociedades porque operam na superficie que mal conseguem descascar. E de falência em falência, no jogo de estafeta que faz das pessoas armas de arremesso, entretêm-se a passar a batata quente ao próximo incompetente. Acham que fará alguma diferença o senhor que se segue?

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publicado às 08:58

Filosofar é aprender a morrer (4)

por Samuel de Paiva Pires, em 11.06.13

 

Alçada Baptista, Peregrinação Interior - Reflexões sobre Deus:

 

«Relato necessário duma peregrinação pessoal, não pretendo com ele ser exibicionista, se bem que viver é também ser capaz de perder um certo puder. Quando o meu pai morreu, eu já era homem. Já tinha a maturidade que me permitia tirar da sua pessoa todas as cargas míticas e saber olhar objectivamente os seus defeitos e virtudes, e por isso soube avaliar o peso da sua grandeza humana e o significado que ela teve para mim. Algum tempo depois da sua morte, comecei a pensar que nunca lhe dissera nada disso e que a morte o levou sem que eu lhe tivesse abertamente revelado o muito que gostava dele. E se analiso as razões porque o fiz, creio que foi por pudor, por este absurdo que se apodera das pessoas e que não permite que se diga a um pai o muito que se pode gostar dele. Nos meus filhos, passa-se que deixam de me dizer que gostam de mim à medida que não são capazes de me aparecer nus. Assim se prolonga um diálogo insinuado, por suposições, por cálculo, por subjacências, quando nada devia haver de mais simples e aberto do que o diálogo de amor de pais para filhos, de homens para mulheres, de pessoas para pessoas. A literatura está cheia de insinuações veladas de seres que gostaram tremendamente de outros, mas essas vozes de amor transferem-se, curvam-se, corrigem-se, num espartilho vitoriano que nos abafa e comprime e de que a muito custo nos conseguimos libertar. Assim andamos, com o coração apertado na garrafa da vida, a bater timidade pelo gargalo da vida.»

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publicado às 10:56

Filosofar é aprender a morrer (3)

por Samuel de Paiva Pires, em 03.06.13

 

(Jacques-Louis David, A Morte de Sócrates)

 

Platão, Apology:

 

«Not much time will be gained, O Athenians, in return for the evil name which you will get from the detractors of the city, who will say that you killed Socrates, a wise man; for they will call me wise even although I am not wise when they want to reproach you. If you had waited a little while, your desire would have been fulfilled in the course of nature. For I am far advanced in years, as you may perceive, and not far from death. I am speaking now only to those of you who have condemned me to death. And I have another thing to say to them: You think that I was convicted through deficiency of words - I mean, that if I had thought fit to leave nothing undone, nothing unsaid, I might have gained an acquittal. Not so; the deficiency which led to my conviction was not of words - certainly not. But I had not the boldness or impudence or inclination to address you as you would have liked me to address you, weeping and wailing and lamenting, and saying and doing many things which you have been accustomed to hear from others, and which, as I say, are unworthy of me. But I thought that I ought not to do anything common or mean in the hour of danger: nor do I now repent of the manner of my defence, and I would rather die having spoken after my manner, than speak in your manner and live. For neither in war nor yet at law ought any man to use every way of escaping death. For often in battle there is no doubt that if a man will throw away his arms, and fall on his knees before his pursuers, he may escape death; and in other dangers there are other ways of escaping death, if a man is willing to say and do anything. The difficulty, my friends, is not in avoiding death, but in avoiding unrighteousness; for that runs faster than death. I am old and move slowly, and the slower runner has overtaken me, and my accusers are keen and quick, and the faster runner, who is unrighteousness, has overtaken them. And now I depart hence condemned by you to suffer the penalty of death, and they, too, go their ways condemned by the truth to suffer the penalty of villainy and wrong; and I must abide by my award - let them abide by theirs. I suppose that these things may be regarded as fated, - and I think that they are well.

 

And now, O men who have condemned me, I would fain prophesy to you; for I am about to die, and that is the hour in which men are gifted with prophetic power. And I prophesy to you who are my murderers, that immediately after my death punishment far heavier than you have inflicted on me will surely await you. Me you have killed because you wanted to escape the accuser, and not to give an account of your lives. But that will not be as you suppose: far otherwise. For I say that there will be more accusers of you than there are now; accusers whom hitherto I have restrained: and as they are younger they will be more severe with you, and you will be more offended at them. For if you think that by killing men you can avoid the accuser censuring your lives, you are mistaken; that is not a way of escape which is either possible or honorable; the easiest and noblest way is not to be crushing others, but to be improving yourselves. This is the prophecy which I utter before my departure, to the judges who have condemned me.

 

Friends, who would have acquitted me, I would like also to talk with you about this thing which has happened, while the magistrates are busy, and before I go to the place at which I must die. Stay then awhile, for we may as well talk with one another while there is time. You are my friends, and I should like to show you the meaning of this event which has happened to me. O my judges - for you I may truly call judges - I should like to tell you of a wonderful circumstance. Hitherto the familiar oracle within me has constantly been in the habit of opposing me even about trifles, if I was going to make a slip or error about anything; and now as you see there has come upon me that which may be thought, and is generally believed to be, the last and worst evil. But the oracle made no sign of opposition, either as I was leaving my house and going out in the morning, or when I was going up into this court, or while I was speaking, at anything which I was going to say; and yet I have often been stopped in the middle of a speech; but now in nothing I either said or did touching this matter has the oracle opposed me. What do I take to be the explanation of this? I will tell you. I regard this as a proof that what has happened to me is a good, and that those of us who think that death is an evil are in error. This is a great proof to me of what I am saying, for the customary sign would surely have opposed me had I been going to evil and not to good.

 

Let us reflect in another way, and we shall see that there is great reason to hope that death is a good, for one of two things: - either death is a state of nothingness and utter unconsciousness, or, as men say, there is a change and migration of the soul from this world to another. Now if you suppose that there is no consciousness, but a sleep like the sleep of him who is undisturbed even by the sight of dreams, death will be an unspeakable gain. For if a person were to select the night in which his sleep was undisturbed even by dreams, and were to compare with this the other days and nights of his life, and then were to tell us how many days and nights he had passed in the course of his life better and more pleasantly than this one, I think that any man, I will not say a private man, but even the great king, will not find many such days or nights, when compared with the others. Now if death is like this, I say that to die is gain; for eternity is then only a single night. But if death is the journey to another place, and there, as men say, all the dead are, what good, O my friends and judges, can be greater than this? If indeed when the pilgrim arrives in the world below, he is delivered from the professors of justice in this world, and finds the true judges who are said to give judgment there, Minos and Rhadamanthus and Aeacus and Triptolemus, and other sons of God who were righteous in their own life, that pilgrimage will be worth making. What would not a man give if he might converse with Orpheus and Musaeus and Hesiod and Homer? Nay, if this be true, let me die again and again. I, too, shall have a wonderful interest in a place where I can converse with Palamedes, and Ajax the son of Telamon, and other heroes of old, who have suffered death through an unjust judgment; and there will be no small pleasure, as I think, in comparing my own sufferings with theirs. Above all, I shall be able to continue my search into true and false knowledge; as in this world, so also in that; I shall find out who is wise, and who pretends to be wise, and is not. What would not a man give, O judges, to be able to examine the leader of the great Trojan expedition; or Odysseus or Sisyphus, or numberless others, men and women too! What infinite delight would there be in conversing with them and asking them questions! For in that world they do not put a man to death for this; certainly not. For besides being happier in that world than in this, they will be immortal, if what is said is true.

 

Wherefore, O judges, be of good cheer about death, and know this of a truth - that no evil can happen to a good man, either in life or after death. He and his are not neglected by the gods; nor has my own approaching end happened by mere chance. But I see clearly that to die and be released was better for me; and therefore the oracle gave no sign. For which reason also, I am not angry with my accusers, or my condemners; they have done me no harm, although neither of them meant to do me any good; and for this I may gently blame them.

 

Still I have a favor to ask of them. When my sons are grown up, I would ask you, O my friends, to punish them; and I would have you trouble them, as I have troubled you, if they seem to care about riches, or anything, more than about virtue; or if they pretend to be something when they are really nothing, - then reprove them, as I have reproved you, for not caring about that for which they ought to care, and thinking that they are something when they are really nothing. And if you do this, I and my sons will have received justice at your hands.

 

The hour of departure has arrived, and we go our ways - I to die, and you to live. Which is better God only knows.»

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publicado às 13:00

Filosofar é aprender a morrer (2)

por Samuel de Paiva Pires, em 30.05.13


(Autor desconhecido, Vanitas. Museu Municipal de Beja. Foto daqui)


Montaigne, Essays, "That to philosophize is to learn to die":

«All the whole time you live, you purloin from life and live at the expense of life itself. The perpetual work of your life is but to lay the foundation of death. You are in death, whilst you are in life, because you still are after death, when you are no more alive; or, if you had rather have it so, you are dead after life, but dying all the while you live; and death handles the dying much more rudely than the dead, and more sensibly and essentially. If you have made your profit of life, you have had enough of it; go your way satisfied.»

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publicado às 07:51

Filosofar é aprender a morrer

por Samuel de Paiva Pires, em 28.05.13

 

(Caravaggio, Saint Jerome Writing)

 

Montaigne, Essays, "That to philosophize is to learn to die":

 

«Let us learn to meet it steadfastly and to combat it. And to begin to strip if of its greatest advantage against us, let us take an entirely different way from the usual one. Let us rid it of its strangeness, come to know it, get used to it. Let us have nothing on our minds as often as death. At every moment let us picture it in our imagination in all its aspects. At the stumbling of a horse, the fall of a tile, the slightest pin prick, let us promptly chew on this: Well, what if it were death itself? And thereupon let us tense ourselves and make an effort. Amid feasting and gaiety let us ever keep in mind this refrain, the memory of our condition; and let us never allow ourselves to be so carried away by pleasure that we do not sometimes remember in how many ways this happiness of ours is a prey to death, and how death's clutches threaten it. Thus did the Egyptians, who, in the midst of their feasts and their greatest pleasures, had the skeleton of a dead man brought before them, to serve as a reminder to the guests. 

 

Look on each day as if it were your last,

And each unlooked-for hour will seem a boon.

(Horácio) 

 

It is uncertain where death awaits us; let us await it everywhere. Premeditation of death is premeditation of freedom. He who has learned how to die has unlearned how to be a slave. He who has learned how to die has unlearned how to be a slave. Knowing how to die frees us from all subjection and constraint. There is nothing evil in life for the man who has thoroughly grasped the fact that to be deprived of life is not an evil.»

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publicado às 17:12

Anti-frágil sem ser Seguro

por John Wolf, em 13.04.13

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publicado às 17:50

A liberdade e a igualdade entre a verdade e a retórica

por Samuel de Paiva Pires, em 24.02.13

Roger Scruton, Postmodern Tories:

«If we are to confront these ideas, it seems to me, we must begin from Plato’s famous distinction between philosophy, whose goal is truth, and rhetoric, whose goal is persuasion. In a media-dominated democracy truth counts for very little, while persuasion is everything. Looming over the battlefield of modern politics is the rhetoric of equality. It fights for any side that can capture it, defending traditional conservatism as equality of opportunity, and socialism as equality of outcome.

Philosophically speaking the idea that all human beings are equal is questionable. Equal in what respect, for what end, and in what perspective? Are criminals to be treated equally with law-abiding citizens, for instance? Nevertheless, from the rhetorical point of view, the very same idea of equality is the premise of every winning argument. Equality demands equal treatment for disadvantaged and advantaged children, and therefore exams that make no real distinctions between them. It demands equal treatment for nationals and for migrants, and therefore the abolition of effective border controls. It demands equal treatment for gay and straight people, and therefore gay marriage.

 

Looming slightly less prominently over the battlefield is the rhetoric of freedom. Philosophically speaking it is again highly questionable whether human beings are or ought to be free: free from whom, to do what? In the name of freedom men abandon their families; schools abandon discipline; universities abandon the old and tried curriculum in order to offer students a wider choice of degrees. Freedom means opportunity, and opportunity means that the canny, the determined and the strong rise to the top, enjoy those phenomenal city salaries, and join the new class of global fat cats. Dressed up in this way, individual freedom cries out for top-down control.

 

Yet freedom also opens the road to the rest of us; educational freedom creates opportunities for those at the bottom of society; economic freedom protects the volunteer and the entrepreneur against the smothering cloak of regulation; freedom of conscience protects us from the rule of priests and mullahs, while freedom of speech enables us to scorn bigots and bullies without fear of reprisal. Freedom, in this sense, is unquestionably a good thing—unless it is abused. And there’s the rub. What counts as abuse, who is to decide, and what should be the penalty? The philosophy here is deep and difficult but the rhetoric is easy. Matthew Arnold summarised the matter succinctly: “a very good horse to ride; but to ride somewhere.”


Reading these two books I came to the conclusion that the current difficulties for the conservative cause lie exactly in the tension that worried Plato. The philosophy of conservatism, launched two centuries ago by Adam Smith, Edmund Burke and David Hume, and on the continent by GWF Hegel and Joseph de Maistre, is, in my view, difficult, intricate and true. Today’s winning political rhetoric, by contrast, is simple, persuasive, and false. The theory of knowledge and its social function that inspires Michael Gove cannot silence the loud cry of the teachers’ unions for equality whatever the cost. The subtle arguments for the market economy developed by the Austrian school will never extinguish the zero-sum fallacy, which says that if some are rich it is because others aren’t. Burke’s defence of common law justice, like Hegel’s defence of the family and the corporation, has little weight against the rhetoric of “compassion.” Even those on the right who believe that the long-term effect of this rhetoric is to make everyone dependent on the state, and the state dependent on borrowing from a purely imaginary future, will go on repeating it. For the ruling belief is that “in the long run we are all dead,” as Keynes famously put it—none of us will have to pay for current policies and meanwhile it is best to look caring and nice. The philosophy of conservatism has nothing to say in response to this. For it is not about appearing nice. It is about conserving the foundations of civil society. Whatever rhetoric you choose for promoting that cause, the other side is going to describe you as “nasty.” For rhetoric is about appearance, not truth.»

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publicado às 18:24

A política é bem mais complicada do que muitos crêem

por Samuel de Paiva Pires, em 01.01.13

Roger Scruton: "O mercado livre é o princípio segundo o qual a vida económica deve ser organizada. Mas a vida económica é só parte da vida. As pessoas não procuram apenas o lucro e bens económicos. Procuram a felicidade, valores religiosos, ordem moral. Procuram a amizade com outros, querem unir-se com outros em pequenas comunidades. Isto significa que há muitos aspectos da sociedade para além do mercado. Há clubes, instituições e igrejas e há toda a ordem moral que é difícil de definir caso a caso, mas que é de muito maior importância para nós que a mera acumulação do lucro e evitar perdas. É o entender estes outros aspectos da sociedade humana que nos leva a reconhecer que a política é bem mais complicada do que os free-marketeers gostariam que acreditássemos. A política tem de proteger não apenas o mercado livre, mas também estes outros aspectos da vida social, que são repetidamente ameaçados não só por inimigos exteriores, mas também pela anarquia individual."

 

 

(Vídeo via Filipe Faria)

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publicado às 21:48

Os primeiros 5000 anos de dívida...

por John Wolf, em 10.12.12

 

A propósito do desmoronamento de Itália, o reputado teórico e jurista Rudolf von Jhering, constatou que a Roma Antiga havia conquistado o mundo por três vezes. Da primeira vez fazendo uso dos seus exércitos, da segunda vez por via da religião e da terceira vez pelo normativo que estabeleceu. As leis romanas serviram de base para quase todas as construções jurídicas. Um dos conceitos que se estabeleceu foi o do Domínio (propriedade) - a "relação" entre um sujeito e uma coisa. Aceitamos com naturalidade a noção de relação entre pessoas, mas como devemos integrar no nosso espírito o elo que se estabelece entre a "personalidade humana" e o "objecto que não tem "vida"? Levanta-se deste modo um sério debate sobre a propriedade, e por extensão a titularidade da dívida. A divida pode pertencer a alguém? Pode ser minguada ou incrementada? Será que existe num reino utópico que dista da acção humana? E os objectos poderão estabelecer uma relação entre si, independemente da "presença" anímica (anémica) do homem? São estas e outras questões que são desfiadas e que se enrolam no espírito toldado de indivíduos que buscam posicionar-se na grande construção e ruína material da nossa civilização. O autor David Graeber, considerado desconcertante por uns e anarquista por outros, expõe de um modo bíblico as implicações materiais e filosóficas decorrentes de 5000 anos de dívida. Em dia de entrega de certificados Nobel, rogo a vossa atenção para um livro profundo e exigente que escapa aos radares canónicos de uma troupe movida a toque de cornetas politicamente intencionadas. Este livro ajuda a agitar o caldeirão do pensamento, e coloca na mesma tina o espectro ideológico na sua quase totalidade, relatividade.

 

Debt - the first 5000 years.  

David Graeber

Melville Publishing House (English version)

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publicado às 10:16

Coisinhas boas do mercado editorial português por estes dias

por Samuel de Paiva Pires, em 21.11.12

Eduardo Lourenço, Heterodoxias, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

 

 

 

Pedro Galvão (org.), Filosofia: uma introdução por disciplinas, editado pelas Edições 70.

 

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publicado às 12:12

Da revolta em Sade

por Samuel de Paiva Pires, em 30.08.12

 

(Marquês de Sade, imagem daqui)

 

Albert Camus, The Rebel:

 

«From rebellion, Sade can only deduce an absolute negative. Twenty-seven years in prison do not, in fact, produce a very conciliatory form of intelligence. Such a lengthy confinement makes a man either a weakling or a killer – or sometimes both. If the mind is strong enough to construct, in a prison cell, a moral philosophy which is not one of submission, it will generally be one of domination. Every ethic conceived in solitude implies the exercise of power. In this respect Sade is the archetype, for in so far as society treated him atrociously he responded in an atrocious fashion. (…)

 

He his exalted as the philosopher in chains and the first theoretician of absolute rebellion. He might well have been. In prison, dreams have no limits and reality is no curb. Intelligence in chains loses in lucidity what it gains in intensity. The only logic know to Sade was the logic of his feelings. He did not create a philosophy, he pursued a monstrous dream of revenge. Only the dream turned out to be prophetic. His desperate claim to freedom led Sade into the kingdom of servitude; his inordinate thirst for a form of life he could never attain was assuaged in the successive frenzies of a dream of universal destruction. In this way, at least, Sade is our contemporary.» 

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publicado às 23:40

 

(Anne Hathaway. Porque nada melhor que uma mulher bonita para ilustrar este post)

 

Sendo, entre outras coisas, conhecido pela crítica que faz às noções de beleza vigentes nos mais variados domínios, em Beauty Roger Scruton sistematiza magistralmente a sua abordagem kantiana ao conceito de beleza. Rejeitando o relativismo da apreciação estética, considerando que a beleza é um valor universal ancorado na racionalidade humana, Scruton crê que é possível educar o gosto de forma a poder apreciar a beleza e fundamentar esta apreciação na razão. À primeira vista, esta posição pode parecer cair num racionalismo exagerado, mas quem conhece o trabalho de Scruton sabe que não é de todo o caso. A verdade é que, embora a contemporânea corrupção das artes nos leve a celebrar o que é feio, como Scruton não se cansa de assinalar, e esta crise fomentada pelo relativismo intelectual e moral se verifique essencialmente nas Ciências Sociais e Humanas, desde Platão que a beleza se encontra na companhia da verdade e da bondade, sendo estes valores o trio que se constitui como centro das preocupações da Filosofia. Partindo desta concepção, o que Scruton faz é recuperar duas ideias de Kant: sendo a apreciação estética individual e, portanto, subjectiva, não deixa de ser passível de ser debatida com terceiros – e daí a possibilidade de se educar o gosto ; e a verdadeira apreciação da beleza é aquela que tem uma perspectiva de interesse desinteressado, sendo um fim em si mesma.

 

É nesta segunda ideia que me quero focar. Scruton afirma que não «avaliamos a beleza de algo apenas pela sua utilidade, mas também pelo que as coisas são em si próprias – ou mais plausivelmente, pela forma como aparecem em si próprias. (…) Quando o nosso interesse é inteiramente tomado por uma coisa, como ela aparece na nossa percepção, e independentemente de qualquer uso que se lhe possa dar, então podemos começar a falar da sua beleza.»1 Desta forma, «consideramos algo belo quando obtemos prazer em contemplá-lo como um objecto individual, por si próprio, e na sua forma apresentada. (…) Estar interessado na beleza é colocar todos os interesses de lado, de modo a atender à coisa em si própria.»2 É isto que é um interesse desinteressado, contrário à abordagem interessada que pressupõe tratar algo ou alguém como um meio para satisfazer os nossos interesses.

 

Feitos os considerandos anteriores, permitam-me procurar aplicá-los a duas situações: a música e a beleza feminina.  

 

Não me recordo onde foi que li ou ouvi que a diferença entre estar apaixonado e não estar é que quando se está a música faz sentido. A ideia parece estar correcta, à primeira vista. Não é preciso realizar um apurado estudo estatístico para chegarmos à noção de que a esmagadora maioria das músicas trata da temática do amor. O que acontece quando estamos apaixonados e ouvimos determinadas músicas é que estas ficam associadas a certos momentos e à pessoa a quem o nosso amor se dirige. Quer o sentimento seja correspondido ou não, quer as músicas nos apareçam por acaso ou sejamos nós a procurar ouvi-las deliberadamente, as composições e as letras parecem feitas de propósito para nós. Quer seja a alegria ou a tristeza que nos invada, parecem realmente fazer sentido. Mas este sentido não decorre da apreciação da música como fim em si mesma. Decorre da condição do sujeito que realiza a apreciação, o que significa que esta tem um contexto do qual o sujeito não se consegue desligar e que não serve o propósito de efectuar uma mais correcta apreciação do valor estético do objecto visado. Por outro lado, quando não estamos apaixonados, por estranho que isto possa parecer a muitos indivíduos, estamos em condições de poder apreciar de forma mais verdadeira – porque inteiramente desprovida de interesse – a beleza de uma música. Não há, contudo, como escapar à temática do amor. Se o tentássemos fazer, provavelmente acabávamos a ouvir uma diminuta porção de toda a música jamais realizada. Mas mesmo que pudéssemos escapar a esta temática, por que o haveríamos de fazer? Juntamente com a verdade, a bondade e a beleza, o amor também se constituiu desde a Antiguidade Clássica como temática de eleição dos filósofos, dado que se encontra inscrito na natureza humana e é provavelmente o sentimento mais poderoso que qualquer ser humano pode sentir. Mesmo quando não estamos apaixonados, ou sonhamos em estar ou queremos não cair nesta condição. O amor define-nos, e define em parte a forma como vemos e estamos no mundo.

 

Isto significa também que o amor está ligado à apreciação da beleza. Dado que o amor se revela na concretização do desejo sexual erótico individualizado, tendo precisamente a ver com a intencionalidade da emoção sexual dirigida a um sujeito corporizado e não apenas a um corpo, importa salientar que, citando novamente Scruton, “De acordo com Platão, o desejo sexual, na sua forma comum, envolve um desejo de possuir o que é mortal e transitório, e uma consequente escravização ao aspecto menor da alma, o aspecto que está imerso no imediatismo sensual e nas coisas deste mundo. O amor pela beleza é realmente um sinal para nos libertarmos deste apego sensorial, e de começarmos a ascensão da alma em direcção ao mundo das ideias, para aí participarmos na versão divina da reprodução, que é a compreensão e a transmissão de verdades eternas.»3 Quando os nossos sentidos estão despertos, quando procuramos a beleza como fim em si mesma, por vezes, embora raramente, deparamo-nos com uma mulher que nos deixa com uma sensação de verdadeira admiração por si, sem que tal envolva um interesse sexual. Nestes momentos, percebemos realmente o dilema entre os nossos desejos e instintos primários e o nosso eu mais racional. Prevalecendo o segundo, abre-se a porta a todo o um novo tipo de sensações. Chega a tratar-se, quanto muito, caso conheçamos a pessoa e, portanto, esta não seja meramente uma estranha que se nos atravessa na rua, de um amor platónico – a sublimação do amor erótico, dirigido a algo mais elevado que é o prazer da contemplação de algo belo. Não contém, nem poderia, o desejo sexual, porque tal seria conspurcar um objecto que para nós se torna sagrado.

 

Quando existe desejo sexual, quando se trata da mais comum forma de amor, abre-se a porta à eventualidade de sermos invadidos por sensações bem menos tranquilizantes que as referidas no parágrafo anterior. Fernando Pessoa escreveu que todas as cartas de amor são ridículas. E são-no porque ainda antes de serem escritas têm um propósito definido – conquistar a outra pessoa – que advém de algo tão forte que chega a escravizar quem escreve a carta. Quando o eu irracional, primário e movido pelo desejo, se sobrepõe ao eu racional, o resultado é quase sempre desastroso, ridículo e piroso. Numa carta de amor, é-o necessariamente porque a carta é um mero instrumento que visa a conquista do outro, que é objectificado com vista a satisfazer as necessidades emocionais e sexuais de quem escreve. Amar é um egoísmo totalitário e avassalador. Quando não se está inebriado por este tipo de sentimentos, apreciar a beleza de alguém como fim em si mesmo reveste-se de uma natureza completamente diferente. E se por acaso o nosso espírito o decidir declarar à visada, a sensação de o fazer e após o fazer é completamente diferente. É algo verdadeiramente genuíno e que conforta a alma daqueles que estão despertos para a beleza que se encontra neste mundo. Afinal, o que poderá ser mais poético do que a beleza pela beleza?

 

Como escreveu Wilde, “Aqueles que encontram belas significações nas coisas belas são cultos. Para esses há esperança. São os eleitos aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.”



1 - Roger Scruton, Beauty, Oxford,Oxford University Press, 2009, p. 17.

2 - Ibid., p. 26.

3 - Ibid., p. 41.

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publicado às 02:35

A filosofia como forma de espiritualidade

por Samuel de Paiva Pires, em 14.08.12

Mark Vernon, How to be an Agnostic:

 

«Or take a philosopher like Schonpenhauer. He is famous for his pessimism and explicitly said that philosophy cannot change lives. He thought human beings were the tragic slaves of their base wills. People may make great efforts to aspire to the higher things that their 'excess intellect' glimpses above them; but will 'will out'. Love, for example, is always brutalised by the animal will for coitus. The result, some of his interpreters say, is suffering and labour and radical unhappiness. This though is not quite fair. Every day Schopenhauer read from the Upanishads. They confirmed for him a rather different ethic: if the world is determined by will, then the goal of life should be to see through that relentless volition. He interpreted nirvana as the end of wilfulness which, because it is never fully possible in this life, would be like a transition to nothingness. In other words, philosophy for Schopenhauer was like the Buddhist teaching that the value of life lies in not wanting it - and that required the cultivation of an attitude to life, not just thought about it. Even for Schopenhauer, and almost in spite of himself, philosophy elicits a kind of spirituality.»

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publicado às 13:49

Roger Scruton em Lisboa

por Samuel de Paiva Pires, em 18.06.12

Conforme aqui divulguei, Roger Scruton esteve hoje em Lisboa, numa conferência na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde se debruçou essencialmente sobre a temática do estado-nação como resposta para as crises que vamos vivendo, não deixando de criticar as falhas evidentes do processo de integração europeia.

 

Dando desde já os parabéns aos organizadores por trazerem ao nosso país um dos maiores e mais conhecidos filósofos contemporâneos, impõe-se salientar que, se por um lado foi agradável o tom informal e quase intimista de Scruton ao deparar-se com uma simples sala de aula onde não estavam mais de 15 a 20 pessoas, entre as quais alguns conhecidos bloggers e jovens académicos, o que tornou o ambiente ainda mais agradável e permitiu que as mesmas pessoas colocassem várias perguntas, por outro, parece-me que houve uma certa falta de organização, divulgação e dignidade de tratamento.

 

Não vi a conferência divulgada em mais lado algum a não ser no Facebook da Quetzal, no site da FCSH encontra-se apenas uma breve referência na agenda/calendário, e fiquei surpreendido por o evento decorrer numa sala de aula e não num auditório, na qual não se encontrava um único estudante, e do corpo docente estariam apenas 4 ou 5 pessoas. Não sei se é habitual que a FCSH trate assim convidados deste calibre, e claro que o facto de ser uma universidade marcadamente esquerdista talvez possa ajudar a explicar isto. Mas, na verdade, parece-me que qualquer universidade portuguesa deve ter noção que quando convida alguém como Scruton, se não causar uma boa impressão, dificilmente a pessoa em causa volta a aceitar outro convite para vir ao nosso país. O mínimo que se pede é que o evento seja bem divulgado, que tenha lugar num auditório e que a universidade faça os possíveis para que a sala seja maioritariamente composta por estudantes. Foi assim há uns meses no ICS, quando Quentin Skinner deu uma memóravel palestra. Estou em crer que no ICS, no ISCSP ou na Católica, Scruton teria sido tratado com a dignidade que merece.

 

Contudo, saliento, os organizadores estão de parabéns por terem trazido o filósofo britânico a Portugal, onde não vinha há já 30 anos. Da minha parte, não só valeu a pena pela possibilidade de ver, ouvir e interagir com uma lenda viva da filosofia, como também pelo autógrafo abaixo.

 

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publicado às 23:00






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