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A Geringonça não está a ver bem...

por John Wolf, em 20.02.18

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Deixemo-nos de congressos do Partido Social Democrata e se a Sra. Dona Fraga tem uma voz semelhante àquela do ditador- acabaram-se-os-jornais, o Goeballs de Alvalade, para centrarmos as vistas em algo um pouco mais substantivo. Refiro-me a um facto que escapa ao controlo da Geringonça, do Banco Central Europeu (com ou sem o vice VÍtor Constâncio a imitar o chefe Draghi) ou de ideólogos de mãos largas e tesourarias falidas. Como todos sabemos, ou deveríamos conhecer, o fim da era dos juros baixíssimos de títulos de dívida pública aproxima-se a passos largos - assim teria de ser, a não ser que desejemos inflação e depois ainda mais inflação - galopante ou hiperbolante. O sistema financeiro internacional é, para todos os efeitos, um monstro que não se restringe à cerca da política monetária de um dado país. Ou seja, o que está a acontecer nos Estados Unidos da América (EUA), no que concerne à subida da taxa de juros de government bonds, far-se-á sentir na Zona Euro. A União Europeia, castigada pelo Euro forte (que em nada ajuda as exportações), não se encontrará nas melhores condições para acompanhar a Reserva Federal, ou seja, subir a taxa de juro de referência com efeitos inevitáveis para parceiros como Portugal ou a Grécia, a título de exemplo. Mas terá de o fazer porque a inflação pode ser madrasta quando menos se espera. Nesta toada de considerações, Portugal, que tem festejado sucessivas emissões de dívida (a 2, 5 e 10 anos) a níveis invulgarmente baixos, pode encontrar-se numa situação particularmente anti-gerigonçal no que diz respeito a financiamentos públicos. António Costa tem celebrado o grande desempenho da economia portuguesa, mas parece omitir o easy money, os tais dinheiros emprestados ao Estado português com prestações ao preço da chuva. Tudo isto está a mudar. Desde os anos 40 que não se registava tal fenómeno de subida abrupta das taxas de juro dos títulos de tesouro dos EUA. E isto tem de preocupar os gestores da economia portuguesa, mas sobretudo os governantes da república. Mas vejo algo diverso - rest and relaxation a mais deste governo de Esquerda que julga erradamente que isto é lá com eles. Nem a três conseguem vislumbrar o que aí vem - o dinheiro fácil algum dia tinha de acabar.

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publicado às 14:46

Ervilhas e funcionários públicos

por John Wolf, em 15.02.18

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Um país do tamanho de uma ervilha não precisa de mais funcionários públicos. A não ser que o governo em funções precise de alavancar a sua posição por forma a garantir uma vitória eleitoral em legislativas que dependem de terceiros. O Partido Socialista precisa de tomar as devidas precauções, antecipando o período oficial de campanha - comprando votos com lugares na função pública. Mas mesmo que aceitássemos a premissa do aumento de funcionários públicos, o departamento de recursos humanos do Estado contrata nos departamentos errados. Quem precisa de técnicos superiores nos dias que correm? Qualquer laborador é suficientemente hábil para se desenvencilhar de bugs e virus informáticos sem ter de fazer uma requisição ao andar de cima onde manda um bigodaço colocado por um familiar do Rato. Sem dúvida que médicos são necessários, mas entendo a patranha. O Sistema Nacional de Saúde já está a meter água pela barba e, deste modo, o governo, ao abrir as comportas a internistas, dá ares de bom samaritano. Quanto às forças de segurança, maltratadas e desprezadas por sucessivos mandatos, é realmente vergonhoso que não lhes seja fatiada uma maior quota de respeito e condições. Um país de perto de dez milhões de almas precisa de 700 mil funcionários públicos para isto funcionar mal? Com 300 mil fariam a mesma coisa. E o descalabro seria semelhante.

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publicado às 21:36

Sobral de Leiria - plantar pelos dois

por John Wolf, em 23.01.18

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Percebo muito pouco da poda, mas o novo Pinhal de Leiria não deveria ser chamado de Sobral de Leiria? Leio a notícia, vejo as enxadas, parece um enterro, e referem que grande parte das árvores a plantar será sobreiros e não pinheiros. Falta apenas uma coisa - um desígnio nacional como aquele lançado por D.Dinis (1279-1325), embora tenha sido D.Afonso III (1248-1279) a inaugurar a plantação. Que epopeia de descobertas pode ser promovida pela Geringonça? Capital do Móvel já temos. Ikea já cá está. Ah, já sei! Para evitar incêndios noutras partes, o tal Pinhal de Leiria pode ser um parque temático com diversões, comes e bebes - uma zona franca do fogo que arde sem se ver - um exemplo para gerações políticas futuras de como um governo com uma mão lava a outra. Estas inaugurações com pompa e gala deixam-me sempre desconfiado do bicho carpinteiro. Chaparros.

 

foto: John Wolf

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publicado às 09:12

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Não é preciso ser o bruxo de Fafe, nem saber a letra do hino pão, pão, paz e liberdade, para entender que o Partido Comunista Português (PCP) e o Bloco de Esquerda (BE) têm os lugares em risco na selecção da Geringonça. O actual mister dos socialistas anda de olho no avançado Rio, desfazendo-se em elogios à convocação do novo lider da oposição. Para quem sobrevive com as sobras eleitorais de legislativas e transforma derrotas em maiorias e governos, a jogada é um clássico. O esquema táctico pode passar num ápice de um 1-1-1 para um 1-1. O galanteio de António Costa pode até ser considerado uma forma de assédio ao social-democrata Rui Rio. O que o primeiro-ministro deseja, mas nem ao Rato confessa, seria que o camarada do Partido Social Democrata deixasse cair uma parte da nomenclatura dita liberal daquele partido e se convertesse à sua igreja, que fosse adoptado pelos socialistas como se de um orfão se tratasse. Por outras palavras - que se convertesse à religião da Esquerda iluminada. Mas para chegar a tal bloco de notas e realizações falta algo atípico - que Costa se comece a inclinar à Direita e a seduzir uma parte do espectro laranja. Face a estas movimentações e indícios de traição, o PCP e BE poderão sentir o enchifrar de um modo agreste e, em resultado de tal estado político-emocional descontrolado, começar a cobrar caro à Geringonça. Como o PCP e BE continuam a ser o que sempre foram e não têm nem Ruis nem Rios para vender, terão de jogar com a prata da casa. Teremos deste modo uma Catarina ainda mais teatral e um Jerónimo cada vez mais histórico. António Costa sabe que Rui Rio é muito mais intelectual e programático do que a sua persona, por isso terá de reforçar o seu jogo de cintura, apontando alguns golpes de rim aos argumentos económicos e financeiros intransponíveis que cedo irão jorrar do discurso coerente de Rio. O homem do puerto sabe muito mais da poda  do que Costa. Quanto ao traquejo político que falta, lá chegará. O estado de graça de que dispõe é superior ao tempo que remanesce à Geringonça antes que as coisas começem a meter água.

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publicado às 17:28

Ao largo do Rio

por John Wolf, em 14.01.18

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Andaram entretidos a fazer bonecos, a esquiçar desenhos, a apalpar almas gémeas onde elas nem sequer existiam e agora António Costa terá de se revisitar e rever a matriz ideológica que o sustenta, os vícios que o coligam ao Partido Socialista - chegou alguém capaz de o destronar dessa corte colada com o cuspo de uma maioria parlamentar de Esquerda. Rui Rio aí está, e embora ainda se encontre em fase experimental, em versão beta de um sistema político operativo open source, já apresentou credenciais de quem será capaz de buscar apoios e insatisfações daqueles que se iludiram total ou parcialmente com a receita da Geringonça. Existe coerência estratégica da parte do novo líder do Partido Social Democrata, que paulatinamente deixou que o inscrevessem na resistência formada à Esquerda. Rui Rio apresenta-se numa condição híbrida, trans-partidária - como se fosse independente sem descurar atributos liberais, social-democratas ou mesmo de Esquerda. É essa convivência endémica, na relação que mantém consigo mesmo, que o distinguirá das parecenças com António Costa que necessita de se abengalar aos camaradas caducos e prestar homenagem à mitologia de Mário Soares para justificar a acção governativa, como se existissem imperativos de ordem moral, pertença exclusiva da superioridade republicana e socialista. Nessa medida ideológica, devemos considerar Rui Rio como um atéu acabado de chegar, mas que partiu há muito para a mesma travessia da odisseia política de Portugal. Vai haver efeitos de sopro e ondas de choque. No seu partido e no dos outros.

 

foto: OBSERVADOR

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publicado às 14:06

2018 e o lápis azul da Geringonça

por John Wolf, em 01.01.18

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A geringonça decididamente não é a outra senhora; o governo já não tem uma PIDE. Mas eles andam aí, reencarnados, dotados de um sentido, de uma missão - afastar qualquer forma de informação conducente a protesto político. Subrepticiamente, mas efectivamente, o governo tenta colocar em lugares-chave agentes de controlo da comunicação. Não lhes convém que se levantem ondas. A nomeação de Nicolau Santos para presidente do conselho de administração da Lusa faz parte da narrativa que sugiro. A agência noticiosa deveria ser regida por critérios de pureza, de idoneidade e imparcialidade. O director-adjunto do Expresso entra mesmo a tempo (na Lusa) e antes da nomeação de um novo lider do Partido Social Democrata (PSD). O simples facto dos nomes de João Soares e Gabriela Canavilhas terem sido referidos para o cargo em questão confirma algum nervosismo da agência de comunicação do governo. Parece que irão precisar de reforços para aguentar a verdade incontornável dos dados de governação e a liderança do PSD. Este ano será particularmente interessante com o Banco Central Europeu a reduzir o apoio financeiro a países como Portugal. Aliás, não faria sentido outra coisa. Se o sucesso desmesurado da economia e finanças de Portugal é inegável, não vejo razões para que continue a ser subvencionado. Mas eu não me quero afastar do tema central de este post - a censura. Ainda ontem, sem nunca imaginar que tal pudesse acontecer, fui bombardeado com insultos e ofensas por ter atribuído o prémio Flop do Ano às ciclovias da Câmara Municipal de Lisboa. A um ritmo feroz e intensamente ideológico foram chovendo comentários intensamente pendulares, totalmente inclinados para a excelsa governação de Fernando Medina. A maior parte dos comentadores apresentava-se na qualidade de anónimo ou desconhecido, mas era mais que óbvio que trabalhavam para a agência noticiosa da autarquia. O que me valeu foi o lápis azul. A dada altura, face à torrente medíocre de insultos e palavrões, decidimos que grande parte dos comentários não seria aprovado. Recordo aqueles mais distraídos - a internet não é uma democracia. Assim sendo, neste primeiro dia do ano, faço a seguinte promessa. Não nos vergaremos perante tentativas de condicionamento ou coacção seja qual for a casa política ou partidária que os instigue ou os consubstancie. Se querem esgrimir-se de razões, façam-no com a inteligência da argumentação e a volúpia da forma literária. Melhor ainda, dêem a cara, criem um blog (ainda recebem algum do governo) e assinem os artigos de opinião. Não vale a pena ficarem nervosos por causa de umas pedaleiras.

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publicado às 18:40

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Imaginem por um instante que estava filiado no Partido Socialista (PS) com direito a assento parlamentar e desatava a tecer críticas a colegas, patrões de bancada e a mandar bocas sobre decisões tomadas pelo governo. Por esta altura já teria sido saneado à má-fila. Já teriam rasgado o meu cartão de sócio e me enviado para certo e determinado lugar. Não me surpreende que Ascenso Simões esteja a ser alvo de censura e de um provável processo disciplinar da Comissão Nacional de Jurisdição do seu partido. A PIDE do PS - a Polícia Interna de Difamação e Escárnio -, existe há algum tempo. A dissonância nunca foi bem aceite naquele partido que inventou a Democracia em Portugal Continental e Regiões Autónomas. Carlos César que se fez ao terreiro, vindo do refugo insular, assume a sua vocação de ditador de ilhota ideológica, de onde postula sevícias e recomenda sermões. No entanto, Ascenso Simões também é filho da casa e, nessa medida, também sofre de intolerância a lactose política (é googlar...) Mas estas querelas são coisa pequena, de quintal. A ver vamos se Centeno cumpre as ordens dos maiores accionistas do Eurogrupo - os chefes entregaram ao estafeta uma imensa lista de compras e se o rapaz torce o nariz às demandas, ainda leva com a minuta de admoestação da Comissão Europeia e dos Césares lá do sítio. Começo a perceber porque Centeno se quis distanciar do PS. É preferível ser criticado por uma cambada de estrangeiros do que por camaradas de luta - há sempre algo que se perde na tradução.

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publicado às 14:06

Dezembro, o mês do Pai Natal mentiroso

por John Wolf, em 03.12.17

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Já têm idade para saber melhor. Já viveram vezes sem conta a grande falácia do Natal. Os governos, no derradeiro mês do ano, entram em transe mentirosa. Começam em Novembro a distribuir brindes e prémios àqueles que fizeram o favor de emprestar o voto - geralmente são funcionários públicos, se o governo por acaso for adepto de ideologias colectivistas, mais ou menos à Esquerda, mas sempre com o olho posto em Marx. Em Dezembro, a toada de auto-congratulações continua como se para amparar a inevitável pancada que se fará sentir às primeiras estrofes cantadas em Janeiro. De repente, como se não soubessem, como se fossem tomados de supresa, lá vêm no Ano Novo os aumentos de preço do pão e de outros miolos estruturantes da vida quotidiana dos portugueses. As cativações - o mito da caverna financeira; e os estímulos do Banco Central Europeu - essa droga promotora de alegada vibração económica -, foram sem dúvida os alicerces laterais da ficcionada sustentabilidade portuguesa. O turismo, tratado nas palminhas das mãos, não gera os efeitos multiplicadores desejados na economia. Não contagia a indústria, não fomenta as exportações. Para todos os efeitos, o turismo é uma forma de importação. São dinheiros turísticos de economias forasteiras que se desviam para Portugal. Não ouvimos falar de investimento directo estrangeiro em Portugal no ano de 2017. O WebSummit, o santuário de Fátima das start-ups, não trouxe grande coisa ao país para além dos 60.000 visitantes. Quando se fizer o balança do ano, e descontando Pedrógão Grande, não resta grande coisa. O governo agradece uma sucessão de espectáculos fúnebres para tapar o sol com a peneira. 2018 não será muito diferente. Apenas mais caro.

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publicado às 20:05

Há vida para além da Geringonça

por John Wolf, em 23.11.17

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António Costa, naquela histórica noite de Outubro de 2015, invocou o teor inviolável de democraticidade de soluções governativas extraídas a partir de arranjos parlamentares com maioria de assentos - assim nasceu a geringonça - a fórmula patenteada para governar. Esse princípio fundador, no entanto, não serve apenas  a geração de governos. O que acabamos de registar, a coligação ocasional entre o Partido Social Democrata (PSD) e o Partido Comunista Português (PCP), a propósito da questão da residência universitária de Rio Maior, deveria ser a norma. Os partidos, na sua expressão civil e genuinamente política, não deveriam ter género nem se tornar reféns de ideologias. A coligação que designam de "negativa" é de facto "positiva". Demonstra que o magistério das ideias e da racionalidade deve subalternizar a teimosia ou a ortodoxia ideológicas. Não existe nada, mas mesmo nada, que António Costa possa afirmar para afastar esta solução. A mesma é a expressão plena de diversidade democrática e liberdade de expressão. Este primeiro aviso, deve, no entanto, ser levado a sério pelo Partido Socialista (PS) - o Largo do Rato não é dono nem senhor do Bloco de Esquerda (BE) ou do PCP. O juntar de trapinhos do PSD, CDS e BE na questão das cativações revela matematicamente e parlamentarmente que algumas das soluções do PS já não são aprovadas por Portugal. Os deputados que ali professam a sua fé, bem ou mal, com mais ou menos fervor partidário, sabem que em última instãncia devem servir o povo português. O BE e PCP, numa primeira fase, entusiasmados com a estreia "governativa", começam a perceber que serão deixados na estrada pelo mestre e senhor PS, se não servirem as causas da sociedade, das pessoas que existem para além dos clientelismos que pendulam entre Lisboa e o Porto. O PS foi sempre um jogador político e, nessa medida, o atirar da ficha do Infarmed para o Porto deve ser entendido como uma modalidade de pré-campanha. Podemos deduzir a partir desta decisão que o PS apostou forte na candidatura de Rui Rio. A continuar com estes joguinhos de cativações e transferências oportunas tornar-se-á mais que evidente que começam a faltar argumentos políticos e governativos de vulto ao PS.

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publicado às 10:40

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Não existe matéria-prima ou tema que não pertença à política. Da madeira do eucaliptal ao crude, do feijão verde ao comprimido azul para engolir ao pequeno-almoço - tudo isto é fado, tudo isto é política. A Agência Europeia do Medicamento (AEM) inscreve-se na máxima inaugural deste post. Assim que houve declaração de vontade do Porto para se candidatar a sede da agência europeia, o governo de António Costa sentiu-se arreliado e bateu o pé. Em vez de unir, dividiu. Em vez de fazer lobbying positivo, perturbou o processo. Ou seja, a AEM foi instrumentalizada para tentar fragilizar uma cidade que escapa ao controlo ideológico e partidário convencional do país da geringonça. Rui Moreira terá sido o principal visado. Agora que "nem peixe nem carne", António Costa poderá afirmar que afinal tinha razão, que a cidade de Lisboa deveria ter sido a apresentada como a noiva a concurso. Em todo o caso, o que podemos extrair deste processo, prende-se com um défice estrutural - a ausência de lobbying à séria. Se analisarmos a nomeação de António Guterres a secretário-geral da Organização das Nações Unidas, devemos levar em conta certos ventos favoráveis - os socialistas europeus que devem ter emprestado o seu apoio fizeram-no porque se trata de uma causa inofensiva, banal - Guterres vai salvar o mundo? Não, não vai. No que diz respeito à indústria dos medicamentos a estória muda radicalmente de figura. O sector farmacêutico é dos mais poderosos do mundo. Mexe-se com grande destreza nos meandros e corredores políticos, e Portugal, simplesmente, não é um player significativo nos processos de tomada de decisão respeitante a medicamentos. Não é um país que detenha uma "marca" medicamentosa global como a Merck ou a Pfizer. E desse modo nunca poderia ter o músculo necessário para abalroar os cartéis e afins que configuram a indústria farmacêutica que se deita na cama política sem pudor. É fundamentalmente de isso que se trata. No mundo da realpolitik, a linda cor dos olhinhos de uma cidade não basta. É preciso saber alavancar argumentos. A ver vamos, com tanta prosápia à mistura, se Mário Centeno se deixa ficar na fase de grupos, ou avança na liga dos champions do Eurogrupo.

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publicado às 16:08

Os novos indignados

por John Wolf, em 18.11.17

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É impressão minha ou a manifestação de hoje, que levou dezenas de milhares de pessoas à rua em protesto, faz lembrar os indignados de outras sortes? Pois. É curioso que os que estão na rua a gritar foram precisamente aqueles que votaram no PS, BE e PCP. Em suma, a luta é interna. Nem sequer é da oposição. É prata da casa. No entanto, o barulho parece estar a ser abafado pela geringonça. Resta saber quanto vai custar calar esses "pelintras". Falta saber quais serão as subidas de impostos necessárias para comprar o silêncio de todos os funcionários públicos. Muita sorte tem a geringonça que os privados não se fazem à estrada para engrossar a voz de desagrado.

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publicado às 20:01

A matança

por John Wolf, em 16.11.17

Texto integral de João Gonçalves;

 

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O verbo "matar" é indistintamente utilizado nas capas dos jornais de hoje. Uma, mais colorida, apresenta mesmo o produto de tanta morte de forma tão brutal quanto insensata: "polícias mataram 31 pessoas entre 2006 e 2016". Um marciano cursado em "novas oportunidades" que leia isto pode julgar que, em Portugal, a polícia ocupa o lugar do bandido e o bandido o lugar do morto. Uma operação polícial que envolva perseguição é, por natureza, uma operação de risco. Em Almada, em Nova Iorque ou em Moscovo. Esta, em que foi atingida mortalmente (esta é a expressão correcta) uma criatura que aparentemente não fazia parte da perseguição, era-o especialmente porque a polícia foi alvo de tiros disparados da viatura dos assaltantes que perseguia. O outro carro, conduzido por indocumentado para o efeito, foi mandado parar na zona de continuidade da perseguição policial e não obedeceu. Para mais, foi confundido com o carro dos assaltantes. O princípio da proporcionalidade da acção policial ditará se eram necessários tantos disparos. Alguns certamente eram. Um deles foi fatal, mas quando se dispara para um alvo em movimento, uma viatura, o risco aumenta para o alvo. Não se pode avaliar serenamente uma acção policial concreta "condenando" mediaticamente os agentes policiais como vulgares assassinos. Nunca dou por semelhante semântica punitiva quando agentes policiais são agredidos ou, para usar o verbo do dia, mortos. Esta é a minha polícia porque um Estado de Direito tem a capacidade jurídica e ética de avaliar sem preconceitos as acções policiais. Sem necessidade de ser panfletário à míngua de assunto.

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publicado às 13:36

A seca extrema da Geringonça

por John Wolf, em 14.11.17

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Existe uma outra espécie de Austeridade que não tem merecido a devida importância em Portugal - a seca extrema. Entendo que a mesma implique menos pasto para arder e consequentemente menos demonstrações de incompetência governativa, mas não precisam de exagerar. Enfrentamos, com todas as letras, uma catástrofe. Uma tragédia que exige uma resposta inquestionável do actual governo. Neste caso climatológico não existe um despacho do governo anterior sobre autorizações concedidas a São Pedro ou coisa que o valha. Este drama transcende o desporto político do arremesso de responsabilidade para mandatos passados. A seca extrema acarreta danos na estrutura económica e social de um país. Não ouvi uma palavra de António Costa que sugerisse a mais ligeira reflexão sobre o problema. Por outro lado, os portugueses deslumbraram-se com o lindo mês de Agosto (em Outubro), e foram a banhos. Existe, portanto, um conluio na total ausência de consciência. De um lado da leviandade temos a Geringonça que aperta com toda a força a teta do Turismo - a vaca solitária da alegada recuperação económica -, e por isso agradece os dias solarengos, para que venham de lá mais magotes de turistas low-cost, esses também uma indignidade flagrante para o património histórico e cultural de Portugal: é vê-los entrar de chinela no Mosteiro dos Jerónimos, é cheirar-lhes o sovaco na fila para o pastel de Belém. Do outro lado, os citadinos - os filhos geracionais dos lavradores da terra encravada na unha -, declaram:" eu gosto é de calor - assim como está". Li há dias que poderemos enfrentar um período de mais de dez anos de seca extrema. O que andam a fazer os governantes de Portugal? Onde está um gabinete de crise para lidar com esta emergência? Ainda não vimos nada. Nem chuva, nem a formulação governativa do drama que enfrentamos - a Geringonça tem a língua enrolada, seca.

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publicado às 09:55

Assédio Digital do Panteão Nacional

por John Wolf, em 11.11.17

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A devassa privada do Panteão Nacional é da exclusiva responsabilidade do governo, do actual governo. António Costa afirma (que): "Apesar de enquadrado legalmente, através de despacho proferido pelo anterior Governo, é ofensivo utilizar deste modo um monumento nacional com as características e particularidades do Panteão Nacional". Se aqueles que jazem no Panteão Nacional tivessem sido evocados no WebSummit, de um modo digno, em jeito de homenagem-app, com aparições virtuais da Amália Rodrigues ou do Eusébio, poder-se-ia, com alguma mestria, realizar um encerramento honrado do evento no mausoléu daqueles que escreveram a História de Portugal. Seria um modo de Paddy Cosgrave e companhia renderem homenagem aos anfitriões, a Portugal. O problema do WebSummit, do ponto vista conceptual, tem a ver com esta tumular contradição. O WebSummit está totalmente virado para o Futuro enquanto o Panteão Nacional é o Passado na sua máxima expressão. Com tanto génio organizativo, não foram capazes de gizar um alinhamento que levasse em conta a mitologia dos heróis portugueses e a sua conjugação com a epopeia dos descobrimentos digitais - não pensaram na originalidade de um Panteão Digital. Por isso volto a reiterar; a sofisticação, e o glamour tecnológico dos nossos tempos e seus agentes, pecam por falta de substância cultural. Por outras palavras, é possível ser hiper-tecnológico e simultaneamente azelha -   smartphone na mão, e pouco mais. A Geringonça, ao remeter o corpo ardente da responsabilidade política ao governo de Passos Coelho, passa um atestado de burrice e incompetência às suas hostes. O governo, e por extensão, o ministério da cultura, tinham a obrigação de verificar preventivamente os contornos da requisição do arrendamento temporário do Panteão Nacional. Os mortos, os simbólicos, os de Pedrógão, os da Legionella, os de Arganil ou os do velório arrestado foram todos implicados nesta orgia festiva do WebSummit - degradante. O Panteão Nacional foi vítima de assédio digital.

 

foto: DR/JORNAL DE NOTÍCIAS

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publicado às 17:26

O churrasco do Orçamento do Estado 2018

por John Wolf, em 23.10.17

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O Orçamento do Estado (OE) de 2018 já está a arder. O governo encontrou um nome todo catita para ficcionar as contas e fingir que está tudo óptimo - cativações. Imaginem que têm os dentes a apodrecer, mas que ainda conseguem mastigar uma bela açorda, e em função desse repasto, decidem que afinal aquele investimento na placa dentária não vale a pena. De repente ficaram umas centenas de euros mais ricos. As contas lá de casa melhoraram. E os caninos e molares? - logo se vê. É mais ou menos assim que o Estado está a ser gerido. É quase definitivamente deste modo que governam. A derrapagem orçamental que aí vem, terá, no entanto, uma desculpa do tamanho do Pinhal de Leiria. Os incêndios florestais serão invocados sem piedade para espremer a simpatia de Bruxelas e uma interpretação excepcional do cumprimento ou não do OE. A falta de emoções de António Costa poderá agora ser transsexualizada directamente de São Bento para divisa política pura, para moelas deploráveis de troca. De um modo racional e mensurável, as tragédias florestais e a perda de vida humana, poderão ser cambiadas por argumentos no mercado político da União Europeia. Na lista de descalabros tudo poderá ser incluído. A saber, e a título de ilustração; as cabeças de gado bovino e caprino que sucumbiram na densa mata de fogo, a contaminação de cursos de água - decorrente da putrefação dos referidos animais; o impacto que se fará sentir no sector agrícola e florestal, a perda de empresas de base familiar e respectiva mão de obra, a sobrecarga do sistema de segurança social que terá de atender a pessoas em estado de carência e emergência, o peso sobre o sistema nacional de saúde que terá de cuidar dos queimados e outros feridos, mas também de um número insondável de pacientes que emergirão por degradação da qualidade do ar na proximidade das ocorrências ou em destinos mais afastados. Enfim, uma quantidade de alibis operacionais de natureza financeira e administrativa será sacada de uma espessa nuvem de consequências oportunas, mas mesmo com todas as cativações do mundo e todos os favores de Bruxelas as contas não baterão certo. Das duas uma; ou deixam a factura sair fora de controlo -"estou-me cagando para a dívida" ou assumem a iminência do descalabro à moda de 2011, e toca a aplicar ainda mais descaradamente efectivas medidas de austeridade que, em jargão geringonçal,  terão outro nome mais adequado para não ferir a massa associativa de funcionários públicos que colocou no triatlo os três partidos de governação. Uma outra hipótese, mais remota porém, será o PCP ou BE acabarem de vez com esta fantasia cozinhada à La Carte dos interesses ideológicos dos partidos em causa. Esperemos para ver. E nem tem de ser sentado. Parece-me que tudo isto será rápido, mas a doer. Pacientes, paciência. Os portugueses, como sempre, são as vítimas.

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publicado às 17:23

Fase de rescaldo

por Samuel de Paiva Pires, em 18.10.17

A agora ex-ministra da Administração Interna já não tinha condições para continuar no cargo há, pelo menos, 4 meses. Era inevitável que saísse do Governo, embora não seja despiciendo referir que foi necessário o Presidente da República intervir para António Costa se submeter ao que já era mais do que evidente. Mas agora, independentemente da dança das cadeiras no Governo, o que importa é saber se o Primeiro-Ministro vai tornar a reforma do dispositivo de prevenção e combate aos fogos uma prioridade nacional, alocando os recursos que forem necessários para evitar que se volte a repetir algo que possa assemelhar-se ao que aconteceu no passado fim-de-semana e em Junho. Agora que veio a chuva, esperemos que não se limite a mudar pouca coisa para que, na essência, fique tudo como está e para o ano haja mais do mesmo, como vem acontecendo há já cerca de 40 anos. Quanto mais não seja, e como Marcelo Rebelo de Sousa deixou patente no seu discurso, para assegurar a sobrevivência do seu Governo - algo que parece motivar o Primeiro-Ministro muito mais do que considerações éticas, sobre o interesse nacional ou a respeito das funções primordiais do Estado.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 22:31

Ministra demitida, animal à solta...

por John Wolf, em 18.10.17

 

A demissão da ministra da administração interna Constança Urbano de Sousa soltou o animal de perguntas e questões que estavam dentro de mim. À laia de caos instalado, vou atirar as interrogações ao ar, sem que as mesmas tenham nexo entre si ou sejam justificadas. Aliás, são totalmente despropositadas;

 

1. Quem preenche o lugar deixado vago pela ministra? Simples. Alguém do PCP ou do BE.

2. Porquê? Porque nunca governaram o que quer que fosse e fazia-lhes bem ao currículo provar esse veneno chamado poder político. Afinal, garganta e mais garganta não pode ser.

3. Marcelo Rebelo de Sousa demitiu a ministra? Sim. Respondeu ao pedido que havia sido formulado pela própria há quatro meses e que foi indeferido por António Costa.

4. Significa que as relações entre o presidente e o primeiro-ministro foram afectadas? Sim. O presidente terá um mandato que extravasa os limites temporais da legislatura e convém ir afagando o pêlo de uma alternativa ideológica de governo.

5. O facto da ministra ser uma mulher facilitou a pressão exercida por António Costa? Sim e não. Por um lado, a senhora é um osso duro de roer, e por outro, não deixa de ser uma mulher e António Costa não deixa de ser António Costa.

6. A descoberta das armas roubadas em Tancos foi uma coincidência ou não? Não foi. Aquele trunfo político estava no armazém de oportunismos. Mas saiu o tiro pela culatra. Não serve para grande coisa. O povo topa logo.

7. António Costa já pediu desculpa à ministra da administração interna? Não, mas ainda vai a tempo. E para além de isso, o ministro Vieira da Silva já lhe endereçou um abraço de solidariedade.

8. Por que é que os Verdes ou o PAN não tomam a iniciativa da reforma da floresta? Porque não é a sua especialidade. Não têm competência para tal acção e estão a ser muito sensatos.

9. Um pedido de desculpa não resolve nada? Não. Nada mesmo. O deputado do PCP João Oliveira pediu perdão por esta mesma explicação.

10. E por último; a Protecção Civil é uma designação bem atribuida? Sim, senhor. É adequada e corresponde à realidade. Foram os civis que se defenderam das chamas o melhor que souberam. Se tivesse sido o Estado, chamar-se-ia Protecção Estatal.

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publicado às 13:56

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Os políticos que não respeitam a vida e desonram a morte não têm condições para ser lideres. António Costa e Constança Urbano de Sousa ainda não realizaram o diálogo filosófico e ético a que estão obrigados. Independentemente de critérios técnicos, logísticos e operacionais, o primeiro-ministro e a ministra da administração interna esquecem que respondem perante Deus e imperativos de ordem moral. A comunidade de crentes não aceita a missa que reitera que "as comunidades têm de se tornar mais resilientes". Este discurso  lembra modelos de selecção natural aplicados por regimes fascistas ou nacional-socialistas. De acordo com a Constança Urbano de Sousa, a tragédia e as mortes tornarão as sucessivas gerações melhor preparadas para o apocalipse final. O determinismo patente nestas afirmações, desprovidas de empatia e religiosidade, remete as vítimas e familiares para a odisseia trágica, para a anulação existencial. A entidade sagrada foi totalmente obliterada em nome de considerações políticas. A ministra da administração tem o desplante de agradecer os profissionais de saúde por terem anulado a greve prevista, mas pode colocar debaixo do travesseiro as quase cem mortes e dormir descansadinha - Tancinha.

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publicado às 12:34

Centeno, o arguido da dívida

por John Wolf, em 12.10.17

 

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Acusam o camarada Sócrates, e logo no dia seguinte Centeno anuncia que a dívida vai baixar. Existe relação entre os dois factos? Talvez. Mas o ministro das finanças está a ser muito optimista. A haver condenação e compensação financeira, o dinheiro ainda demorará a ser cobrado, a chegar aos cofres do Estado - faltam os recursos, os julgamentos, as sentenças e as execuções. Eu entendo a excitação monetária da geringonça - os milhões do desfalque são muitos -, mas calma, aguentem os cavalos. Para além dessas fantasias, existem incontornavelmente outros factores a ter em conta. Como é que este economista ousa apontar uma melhoria no serviço de dívida, se sabemos sem margem para dúvida, que o Banco Central Europeu irá subir as taxas de juro de referência nos próximos tempos? Como dizia o acusado-mor 44 - "a dívida é para ir gerindo". Até parece que Centeno nunca ouviu falar em ceteris paribus, como se fosse possível congelar a realidade financeira do resto do mundo e analisar Portugal como se esta fosse uma entidade independente, uma Catalunha da dívida pública. Para atenuar de um modo irrisório a tendência fatal de crescimento da dívida o governo de Portugal teria de cortar o investimento público de um modo ainda mais significativo. Ou seja, fingir a ficção dos cofres abundantes, de tesouraria saudável. Mas há mais lições de economia para totós a ter em conta. Sem poupança não há investimento, e a máquina de propaganda da geringonça pura e simplesmente não consegue escamotear a ausência de poupança pública e privada. Diria mais; cada vez que os níveis de confiança dos consumidores se elevam, o governo e o ministério das finanças festejam o facto, brindando-se vezes sem conta pelo comportamento material dos portugueses. E isso é grave. Significa que os trabalhadores gastam a quase totalidade do salário auferido - chapa ganha, chapa gasta. Para além dessa fraude, servem-se de um indicador caduco para se congratularem antecipadamente por vitórias que não controlam. A saber, e a título de exemplo; a Inflação (core inflation) exclui do seu processo de cálculo a Energia e os Bens Alimentares, o que falsifica ainda mais a realidade financeira dos factos. Por outras palavras, o "acordão" de diminuição da dívida pública nem precisa de ter 4000 páginas para ser uma ficção de bolso, de levar por casa. A dívida está encravada e é uma unha sem fim.

 

foto: Jornal Económico

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publicado às 17:57

Declaração de independência do PSD

por John Wolf, em 10.10.17

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A crise de liderança do Partido Social Democrata (PSD) tem provocado mais alergias e urticárias no seio de outros partidos do que na própria casa da Rua de São Caetano à Lapa. Parece quase certo que o Derby social-democrata será disputado entre Santana Lopes e Rui Rio. Convém sublinhar o seguinte fenómeno separatista; Os mais contundentes sucessos de governação dos candidatos aconteceram na região norte - nas cidades da Figueira da Foz e do Porto. Numa lógica de bastiões e reservas estratégicas do PSD, faz algum sentido que assim seja, e tendo em conta o track-record de cada um dos adversários, se puxarem dos galões autárquicos para promoverem as suas causas, farão a vontade dos socialistas. Ainda recentemente, embora embriagado pelo oportunismo das eleições autárquicas, António Costa reforçou a sua dose ideológica de regionalismo e  "autonomia" política dos concelhos desde que estes sejam do Partido Socialista (PS). Numa interpretação mais ampla, e à luz dos acontecimentos que decorrem na Catalunha, a bandeira do poder local pode ser um argumento subtil a ter em conta na gestão de um país. Quer Santana Lopes quer Rui Rio devem saber integrar as movimentações ideológicas excêntricas. Dirão muitos que o que acontece na Catalunha não interessa ao menino Jesus, mas não é bem assim. Quaisquer derrames não previstos, decorrentes da garraiada que opõe Madrid a Barcelona, terão impacto nos discursos políticos pan-europeus e nas contas europeias. A geringonça ficará indelevelmente colada ao ciclo económico favorável do turismo e ao dinheiro fácil do Banco Central Europeu. Numa lógica de modelos económicos que se esgotam e de alternância de vocalistas, o mais provável é o PSD agarrar o poder em Portugal quando este estiver na mó de baixo, a andar às voltas da nora de uma nova crise de excessos e devaneios orçamentais. Seja qual for o chefe da casa política do PSD, este deve alinhar ideias de um modo realista, mas desapaixonado. O PSD, não sendo governo, deve ter um papel de auditor interno, de agência de rating. Por outras palavras, deve fazer uso do capital de que dispõe. E o legado de que dispõe diz respeito à experiência na gestão de crises. Os outros, para serem coerentes com o seu currículo, continuarão a pintar um cenário cor-de-rosa, perfeito. O PSD deve levar em conta que as marés psicológicas são de duração limitada e que as escorregadelas financeiras dos governos marcam o início do seu fim. O PSD apenas deve ser paciente. A realidade falará por si. A ideologia acaba sempre por se trair e deixar ficar mal os crentes mais ferverosos. O PSD deve declarar a sua independência política das querelas típicas que polvilham o quadro governativo de Portugal. Se quiser sair por cima.

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publicado às 14:26






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