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Um " ser de desbordante riqueza espiritual "

por Cristina Ribeiro, em 11.02.16

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" -Chama-o ao telefone o Sr. Prof. Reynaldo dos Santos - disse-me a empregada. - ' Que me quererá o Reynaldo? '- perguntei a mim próprio. Nunca nos tínhamos tefonado. ( ... ). Não lhe ignorava os talentos excepcionais, mas contentava-me de os admirar a distância por falta de tempo e ausência de hábito. Combinado o encontro, Reynaldo propunha-me participar com ele na direcção da revista que a Fundação Gulbenkian lhe confiara - a revista que chamaríamos << Colóquio >> e nos proporcionou uma camaradagem de onze anos. .......................,.... Surpreendente o esforço a que dedicou os últimos anos da sua vida, totalmente consagrados ao estudo e à radicação e generalização do interesse pelo nosso património artístico. Felizmente que lhe foi possível, com o auxílio da sua mulher, ocupar todas as horas em que a doença o não tolhia, a continuar até ao termo a tarefa, assumida como sagrada missão: - legar à nossa terra os três volumes monumentais - Oito Séculos de Arte Portuguesa. " ( Hernâni Cidade, director literário da Colóquio. ) Precisava inventariar os exemplares da Colóquio existentes nas prateleiras paternas, a fim de actualizar a aquisição da revista. E, como sucede frequentemente, a leitura de um excerto prende-me a atenção - paro no volume referente ao já longínquo ano de 1970, e, no número de Maio/Junho leio sobre a morte do que até aí fora o seu director artístico: o Prof. Reynaldo dos Santos. Não consigo conter um sorriso: é que ontem mesmo limpara o pó a esse ' monumento '.

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publicado às 18:39


" Entre Barcelos e Viana, Esposende... Não vim aí ver o Cávado aterrado nem as memórias do passado de Águas Celenas...

Vim ver a poesia. Ou o Poeta.

Aí, em Belinho, costas ao  mar, vive António Corrêa de Oliveira...

António Corrêa de Oliveira é poeta como as roseiras dão rosas, como as macieiras dão maçãs: espontâneamente. A única diferença é que ele dá poesia todo o tempo. ( ... ) Faz versos como os outros não fazem nada... sem esforço. Como o povo faria, e faz às vezes, quando lhe dá para poeta.

Só com sentimento. E mais nada.


Meu amor, roseira fina

Muito alto as rosas deita:

Só lá chega uma menina

Com a sua mão direita...

      Isto não faz um poeta qualquer, faz o poeta que tem a ingenuidade do Povo.


Mas esse Poeta, e vate, era profeta, portanto. Num gemido sabe pôr a história e a aflição da Terra e do Povo:

Oh ondas do mar salgadas

Donde vos vem tanto sal?

Vem das lágrimas choradas

Nas praias de Portugal...


É como o esperava. Alto, linheiro, simples... E chão, e bom, e humilde, bom e são como o pão e o vinho, como a Poesia, a sua Poesia... "


Afrânio Peixoto, « Viagens na Minha Terra »

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publicado às 19:55

" Quando o anno de 1868 pertencia já ao passado, scismavas á meia noite sobre o mau rumo que te pareceu levarem as nossas letras. Eu sou um pouco mais crente, e menos atrabiliario: á entrada de 1869, estendo os olhos ao futuro, e espero e creio muito, porque já não são de pouca monta as primicias que nos offerece o anno litterario de 1869. Falo das Flores do campo de João de Deus. ( ... ) não escolho, para te escrever, a hora lugubre dos phantasmas. Coméço a escrever-te ás horas d’uma esplendida manhã, espalhando os olhos por aquellas duas margens do nosso Mondego: a relva rasteira que as veste, e que me fala de vagas esperanças, ha de desentranhar-se em flores e frutos. Deixa-me crer muito no dia de ámanhã.
E porque não virão as flores da poesia derramar perfumes sob este céu de Portugal, neste jardim da Europa, onde já suspirou melodias Bernardim, Camões, Garrett, Castilho! Não morre a poesia portugueza: a estaturada deusa ainda não tremeu na peanha; e quando os iconoclastas do bello quizessem contra ella erguer braços profanos, a quantos apostolos da arte não teriam de suffocar a voz!
Deixa pois cantar os poetas que levantaram a vista do pó da terra, onde tudo é limitado como a materia, e vil como o gusano das ossadas. Deixa que eu te fale de um poeta, cujo espirito é aguia que raro avisinha a ponta das azas aos marneis da sociedade. A gente pasma da altura a que se eleva aquelle espirito, e acontece ás vezes que a nossa vista não pode acompanhar tão levantados vôos: perde-se elle no vacuo, e, quando divaga em mares de luz, ficamos nós em trevas, sem ver a direcção que elle toma…
João de Deus não canta para a sociedade, canta para si. Quer discorra por vergeis de poesia singela e perfumada, quer se eleve a alturas desmedidas, não se importa de que não lhe oiçam nem entendam o canto sempre harmonioso. É talvez por isso que elle não publicou, nem publicaria as Flores do campo.
Ao amigo que lh’as estampou, muito devemos nós todos os que presamos as nossas boas letras. "

Cândido de Figueiredo," Cartas a J. Simões Dias ", in « A Folha »


                   * « Flores do Campo »

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publicado às 23:22

O Herói!

por Cristina Ribeiro, em 14.08.13

Nun' Álvares Pereira


Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

Esperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!
 
        Fernando Pessoa, « Mensagem »

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publicado às 23:53


Estava-se no século XIV. A Nação fundada havia dois séculos, só não perdeu a independência porque ao lado do recém aclamado D. João I se colocaram muitos portugueses, do povo e da nobreza, e, mais do  que tudo, o Condestável pelo Rei pouco antes escolhido.

A este se deve a estratégia que venceu, a caminho seguro da vitória, o castelhano que vinha com a vontade de recuperar aquilo que no século XII não conseguira manter.

O Rei, por um lado, e D. Nuno por outro, vinham a alcançar êxitos militares promissores, com a rendição de várias praças hostis, até que, se soube da intenção do rei castelhano invadir Portugal, com exército numeroso.


Reuniu-se então o Conselho real, para se decidir o que fazer.

   " A opinião geral foi que, enquanto o rei de Castela entrava em Portugal pela Beira, descessem os portugueses ao Alentejo, entrando pela Andaluzia, obrigando assim o monarca castelhano a ir defender a sua própria terra, deixando livre o território português. De tal discordava abertamente o Condestável:  se D.   João I « ia a Sevilha por cortar duas oliveiras podres », franqueando ao exército inimigo o caminho de Lisboa, além de mostrar covardia, provocava o perigo de perder a capital,  se apesar de tudo o monarca castelhano sobre ela avançasse; e « perdida  Lisboa, perdido era todo o reyno ». 

O Condestável lembrou ao Rei que ele prometera à cidade de Lisboa impedir, a todo o custo, que o monarca castelhano lá chegasse. Que, por todos os motivos, insistia, o seu voto era por que se saísse ao caminho do exército castelhano e se lhe desse batalha, arriscando tudo.

D.João I ficou indeciso. Os do Conselho não mudaram de parecer.

Retirou-se o Condestável para o seu acampamento, e, no dia seguinte, pôs-se em marcha, com os seus, a caminho de Tomar, ao encontro do exército inimigo.

O Rei, em cujo ânimo tinham calado as razões de Nun'Álvares, mandou chamá-lo para nova conferência. Ele, porém, fez saber a D. João que levava tenção de dar batalha ao inimigo, e se o Rei resolvesse fazer o mesmo, se dirigisse a Tomar, onde o esperava. D. João I empreendeu, logo no dia seguinte, a marcha no encalço de D. Nuno. Novamente unificada, partiu a hoste portuguesa ao encontro do exército castelhano, até que, na madrugada de 14 de Agosto, fez alto ao norte de Aljubarrota, disposta a fechar ao inimigo o caminho que tinha de trilhar para se dirigir de Leiria a Lisboa. "

História de Portugal dita de Barcelos.



Heroicidade e firmeza de convicções ao serviço da Pátria fazem um Grande Português.




                     * Fernão Lopes, « Crónica de D. João I »

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publicado às 20:30

 

" Portugal, conhecido no mundo civilisado por patria de Camões, tem que agradecer a sua immortalidade a este grande Principe dos poetas das Hespanhas. A elle se deve o primeiro poema épico da Europa meridional, uma das melhores epopeias, assim antigas, como modernas - Os Lusiadas -nova Eneida escripta na doce lingua lusitana, a mais suave para dizer de amores, e a mais grave para se exprimir com altivez. A corrente que nasceu em Homero, continuou em Virgilio e se seguiu em Camões, chamado o « Homero da Peninsula », não aparecendo a seu lado quem ao menos lhe acompanhasse o passo.

Camões, como o disse o sabio Humboldt, foi um verdadeiro pintor da natureza e dos phenomenos do mar.

Assimilhou-se a Cervantes, trabalhando com a espada e a penna em terras longinquas. Como Cesar, salvou dum naufragio o seu poema; com todos os grandes homens se pareceu porque foi só foi louvado depois de morto.

O seu fallecimento em um hospital, abandonado de todos, nada teve de singular, desde que se lhe antecipou, em busca de melhor guarida, no outro mundo, o seu fiel criado que corria as ruas de Lisboa pedindo esmola para sustentar o seu nobre e honrado senhor. ( ... )

                              Não morreram não, Portugal nem Camões. Vivem e viverão eternamente. A nobre nação portugueza, que nunca pecou por desagradecida e ingrata. "

Benigno Joaquim Martinez

Madrid, 15-4-1880

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publicado às 16:56

« Ó Isabel! Ó Leonor! »

por Cristina Ribeiro, em 06.06.13

E fez-se Reino o Condado

De Antre Douro, Neiva e Minho: 

Nobre Senhor de Oceanos

Via Láctea por caminho.


Formosos Reis venturosos!

Não apenas D. Dinis:

Este, aquele, em honra e glória, 

Fez na história quanto quis.


Mas  que valem cedro e roble,

Sem um jardinzinho em flor?

Que vale um Rei sem Rainha?

- Ó Isabel! Ó Leonor!


António Corrêa d'Oliveira, in « Pátria »

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publicado às 16:39

« Amor português - beijo e saudade » ( 2 )

por Cristina Ribeiro, em 19.05.13

SAUDADES TRÁGICO-MARÍTIMAS

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.
Na praia, de bruços,
fico sonhando, fico-me escutando
o que em mim sonha e lembra e chora alguém;
e oiço nesta alma minha
um longínquo rumor de ladainha,
e soluços,
de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

São meus Avós rezando,
que andaram navegando e que se foram,
olhando todos os céus;
são eles que em mim choram
seu fundo e longo adeus,
e rezam na ânsia crua dos naufrágios;
choram de longe em mim, e eu oiço-os bem,
choram ao longe em mim sinas, presságios,
de além, de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Naufraguei cem vezes já...
Uma, foi na nau S. Bento,
e vi morrer, no trágico tormento,
Dona Leonor de Sá:
vi-a nua, na praia áspera e feia,
com os olhos implorando
– olhos de esposa e mãe -
e vi-a, seus cabelos desatando,
cavar a sua cova e enterrar-se na areia.
– E sozinho me fui pela praia além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Escuto em mim, – oiço a grita
da rude gente aflita:
– Senhor Deus, misericórdia!
– Virgem Mãe, misericórdia!
Doidos de fome e de terror varados,
gritamos nossos pecados,
e sai de cada boca rouca e louca
a confissão!
– Senhor Deus, misericórdia!
– Misericórdia, Virgem Mãe!
e o vento geme
no vulcão
sem astros;
anoitecemos sem leme,
amanhecemos sem mastros!
E o mar e o céu, sem fim, além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ah! Deus por certo conhece
minha voz que se ergue, branca e sozinha,
– flor de angústia a subir aos céus varados
p'la dor da ladainha!
Transido, o clamor da prece
do mesmo sangue nos veio
Deus conhece os meus olhos alongados;
onde o mar e o céu deixaram
um pouco de vago anseio
nesse mistério longo do seu halo...
Rezam em mim os outros que rezaram,
e choraram também;
há um pranto português, e eu sei chorá-lo
com lágrimas de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ó meu amor, repara
nos meus olhos, na sua mágoa clara!
Ainda é de além
o meu olhar de amor
e o meu beijo também.
Se sou triste, é de outrora a minha pena,
de longe a minha dor
e a minha ansiedade.
Vês como te amo, vês?
Meu sangue é português,
minha pele é morena,
minha graça a Saudade,
meus olhos longos de escutar sem fim
o além, em mim...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar


Afonso Lopes Vieira, « Ilhas de Bruma »



" E tanta era a sinceridade das suas palavras e dos seus versos, que numas e noutros ninguém poderá descobrir o vulgar brilho que falsamente refulge e com o qual tantas vezes se douram e desdouram reputações. Poeta por alto destino, Troveiro da Tradição, incansável apóstolo do patriotismo verdadeiro, arauto da ternura e nobreza do nosso Povo, saudável preceptor da sensibilidade portuguesa "

Hipólito Raposo, « Modos de Ver »

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publicado às 23:56

« Amor português - beijo e saudade »

por Cristina Ribeiro, em 19.05.13
O Encoberto

Cavaleiro do Sonho e do Desejo,
guarda no santo Graal,
com a nossa Saudade e o nosso Beijo,
- o sangue de Portugal.

Sonho de além e de glória,
há tanto, há tanto
o sonha um Povo inteiro!
Maravilha e encanto
da nossa história:
- oh Manhã de Nevoeiro...

Oh manhã misteriosa
que alvoreces em nós teu rompante claror,
teu messiânico alvor,
manhã de além, alva saudosa,
- tu és nossa força que não passa,
teu sonho em nós revive ao longe e ao perto,
manhã sem dia, oh manhã de Graça,
em que há de vir o Encoberto...

Místico Paladino iluminado,
que ao areal arrastou nossa alma em flor
e jogou a sorrir nosso destino e sorte,
ele era vivo antes de Desejado,
ele era vivo em nosso sonho e amor,
- e nunca o levou a morte!

Ele é vivo e é eterno! Horas ansiadas
em que o sinto, no meu sangue, em mim...
Ele vive nas Ilhas Encantadas
da nossa alma sem fim...

E, oh maravilha!
em toda a hora do perigo e do temor,
o Encoberto volta da sua Ilha,
e salva-nos, e salva-nos, Senhor!...

E a Esperança imortal,
surda palpita na manhã rompente!
Cerra-se a névoa alucinadamente,
Portugal boia no nevoeiro...

E o Cavaleiro
do Sonho e do Desejo
guarda no Santo Graal,
com a nossa Saudade e o nosso Beijo,
- o sangue de Portugal.

Afonso Lopes Vieira« Ilhas de Bruma »


" Sinto-me acompanhado daqueles jovens artistas e novos escritores, para quem o seu parecer era autoridade e o seu conselho estímulo de perfeição.
Oiço ecos das vozes dos estudantes de ontem e de hoje, para os quais Afonso Lopes Vieira sempre foi o mais velho e o mais moço dos companheiros nas aspirações de beleza e de renovação nacional ( ... ) Ele foi sagrado Grão-Mestre de Portugalidade.
Profeta e apóstolo descendente de Bandarra, em nenhum outro português contemporâneo mais viveram e latejaram as pulsações do coração da Pátria " 
Hipólito Raposo, « Modos de Viver »

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publicado às 23:06

 


do mosteiro cisterciense de S. João de Tarouca, isto é entre a vila de Ucanha e Salzedas, onde um padre o iniciou em latim e um tio em francês; "já nesse tempo se manifesta o traço que havia de fazer dele o maior registador de coisas populares: sem saber ao certo para quê, ia apontando em caderninhos o que ouvia ou perguntava" ( Instituto Camões )


Mas é só aos 18 anos, quando vai para o Porto estudar, licenciando-se primeiro em Ciências Naturais e depois em Medicina,  que começa a fazer, de modo sistemático, uma recolha de tipo etnográfico. 

Quando apresenta, como tese desta segunda licenciatura, « A Evolução da Linguagem », manifesta inequivocamente uma já antiga apetência pelas letras. Envereda então pelo estudo da linguística, da etnologia, arqueologia e etnografia, domínios em que se torna uma referência no âmbito mundial.


Autor de uma Obra vastíssima, parte dessa recolha etnográfica colige-a ele no « Romanceiro Português », de que retirei este " Romance Épico de Assunto Carolíngio ":


Sentado está D. Dalfeiro - no tabulado real,

Os seus dados tem na mão - e as cartas para jogar.

  - Para isso és D. Dalfeiro, - não para dar de jantar.

    Tua mulher entre os mouros, - não és para a ir buscar.

Ela estava em Salcedo, - lá no palácio real.

Foi-se ele a ter com Roldão, - que era seu primo carnal.

- Um favor te peço, ó primo, - e tu não me hás-de faltar:

  Tuas armas, teu cavalo, - tu me las hás-d'emprestar

- Minhas armas, meu cavalo, - eu tas não hei-d' emprestar

   Que as tenho bem vezadas, - não as quero mal vezar.

- Tuas armas, teu cavalo, - tu  me las hás d'emprestar,

   Para ir buscar minha mulher, - às outras bandas do mar.

- Minhas armas, meu cavalo, - eu te las hei-d'emprestar,

  E este meu corpo gentil, - para t'ir a acompanhar.

- Sozinho, quero ir só, - para melhor a roubar


À entrada de Salcedo - um Mourinho encontrara:

- Deus te guarde meu Mourinho, - que Deus te queira guardar;

  Para onde ir à Cristana, - que rua hei-de tomar?

- Indo Rua Direita acima, - ter ao palácio real


Ela estava na varanda - e se queria pentear.

- Deu'la guarde ó senhora, - que Deus la queira guardar.

- Donde será este senhor - que tão bem sabe falar?

- Cristano eu sou, senhora, - das bandas d'além do mar.

- Se virdes lá D. Dalfeiro, - que ele me venha buscar.

- Esse recado, senhora - a ele mesmo o estais a dar.


Saltou da varanda abaixo,- por não haver mais lugar.

A sentinela, que viu, - começou logo a gritar:

- Lá se marcha la Cristana - para as outras bandas do mar!

- Cala-te aí, perro mouro, - senão vou-te matar,

- Para não morrerdes um só, - morrereis a par e par.


                 ( Recolhido em Vinhais, Trás-os-Montes )

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publicado às 19:24

" A Ti ó Pátria ".

por Cristina Ribeiro, em 26.04.13
« No meio de uma nação decadente, mas rica de tradições, o mister de recordar o passado é uma espécie de magistratura moral, é uma espécie de sacerdócio. »
                                      A. Herculano, citado por Hipólito Raposo

Na esperança de que tais viagens ao Passado acordem  o sentimento de pertença a uma entidade maior do que a uma confusa ideia de Europa invasiva.

E é no passado que encontrámos mais esta personificação do Patriotismo, que nunca deu tréguas aos traidores da Nação, mesmo quando quase todos os que se diziam monárquicos baixaram os olhos. Sem medo, um paladino do exemplo. " O Condestável da Restauração Política "!

                        " Irmão dos maiores heróis no fervor do ideal, extremendo exemplo de soldado no combate, mestre de cidadãos no amor da Pátria, esse ardente paladino, cuja espada herdara os fulgores dos montantes quinhentistas, devotamente professava o culto da honra, mas nunca soube ambicionar honrarias. 
Ao Rei e ao Reino de muito novo fez doação das suas forças de alma e do sangue do coração ( ... )
Para quantos de perto o conheceram e admiraram, a personalidade de Paiva Couceiro sempre ficará valendo mais do que a sua glória de soldado ( ... )
E em tempos de tão confusa e dolorosa provação, é consolador de esperança, e confiança, esse impulso do mais espontâneo sentimento público ( ... )
Uma lição para aprender e um exemplo para seguir. "
Hipólito Raposo, « Modos de Ver »

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publicado às 19:56

Nele se colhem flores de poesia.

por Cristina Ribeiro, em 06.03.13
Num solitário vale, fresco e verde,

Onde com vela doce e vagarosa

O Vez, no Lima entrando, o nome perde,

 

Numa tarde rosada, graciosa,

Quando no mar seus raios resfriava,

O Sol, deixando a Terra saudosa:


Ouvi uma voz triste que soava

Tão brandamente ali, que parecia

Um rio que com outro murmurava


O gado, que do campo recolhia,

Deixando nele, por entre a espessura

Me fui chegando à triste voz que ouvia.


Vi Tirse e Melibeu, que na verdura,

Entre bastos salgueiros escondidos

Choravam duras mágoas com brandura.


Nesta nossa ribeira ambos nascidos.


..................................................................

.........................................................................


Os versos destes dois tristes pastores


       Diogo Bernardes, « Limiano »





Do lado direito corre o rio que os viu nascer, estava-se no século XVI; ao Poeta do Lima, Diogo Bernardes, e ao Poeta frade da Arrábida, Agostinho da Cruz, irmãos que do pai haviam herdado o sobrenome Pimenta. E, sorte diferente de outros grandes Mestres, Ponte da barca, agradecida, não os esqueceu. Um jardim na sua sala de visitas, logo atrás do Pelourinho, símbolo da liberdade municipal, foi-lhes dedicado. O Jardim dos Poetas.








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publicado às 19:37

« Luar de Saudade »

por Cristina Ribeiro, em 01.03.13

« Glorioso Voo »

 

" Na paz cantante do céu,
Nessa doçura infinita
Onde o Criador habita
Mais alto que as luzes belas
De miríades de estrelas,
Ouviu-se o estranho rumor
De alguém que se aproximava
Com rapidez e valor
Deus escutou... escutava
Com afecto paternal.

Era o avião que passava
Levando Gago e Cabral.

..................................... "

Alberto Pimentel, « Luar de Saudade »

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publicado às 23:31

´

" Eusébio Macário não conseguia refazer-se à existência de Basto. Faltava-lhe a conversa do « Palheiro », a consideração de um auditório atento e de variegada erudição.

 

Já não se acomodava a lidar com labregos, encodeados, muito broncos, ele, ex-indigitado vereador da Câmara do Porto.

 

Atrigava-se de manipular unguentos e pomadas depois que casara a filha com o barão do Rabaçal ( ... ). É verdade que a baronesa fugira com o cómico, dera em droga, mas nem por isso Eusébio Macário deixara de ser sogro de um titular, e para mais Cavaleiro da Ordem de Cristo.

 

Sentia-se aborrecido, deslocado. Habituado à moleza das poltronas do genro, já não lhe sabiam, como antes, as largas sestas roncadas à porta, no incómodo mocho de cerdeira.( ... )

 

Um dia, porém, soube-se em Basto que falecera em Guimarães um boticário, o Pereira, o último de uma dinastia afamada, cujo representante da época mesinhara o próprio rei D. José na sua visita ao berço da nação. A família de Pereira resolvida a fechar a farmácia, conservava ainda o praticante à espera da liquidação final das pomadas e unguentos.

 

Isto fez germinar no cérebro da mulher de Macário, a Eufémia Troncha, uma ideia genial: - porque não haviam de ir para Gimarães, boa terra, muito dada a comesainas, terra de soldados e mais civilização? ( ... )

 

Eusébio rendeu-se e escreveu à viúva do Pereira, a saber se a farmácia se alugava.

 

Veio a resposta pronta: - que sim, que se alugava...; que fosse lá...

 

Eram 5 horas da tarde de um sábado quando Eusébio Macário entrou no Toural ( ... ). A farmácia era na Porta da Vila ( ... ). A freguesia, segundo Eusébio colheu da boca do praticante, era da melhor. A Casa do Arco, a do Toural, a de Vila Pouca, a do Cano sortiam-se lá. E, antes de entrar em mais ajustes, assegurou-se de que lhe não faltaria a dos dois hospitais das Ordens Terceiras... ( ... )

 

Macário voltou a Basto radiante, cheio de projectos, de esperanças de vida regalada, com muito pinto e sonecas tranquilas. ( ... )"

 

Já Camilo, o feliz criador da burlesca e interesseira personagem do boticário de Basto, tinha morrido, quando o futuro patrono da minha Escola Preparatória engendrou este seu regresso ao Minho, depois de uma saída pouco airosa da capital nortenha: corria o ano de 1912 quando este livrinho encheu os escaparates das movimentadas livrarias da cidade de Afonso Henriques. Por então o autor tinha já lugar cativo entre uma geração de homens que muito trouxeram às letras e cultura em geral.

 

Com efeito, podemos ler no " site " do Agrupamento de Escolas João de Meira, entre outras coisas que indiciam um Grande, escolhido para continuar a obra de grande fôlego, iniciada pelo Enorme abade de Tagilde, Vimaranis Monumenta Historica: " Possuidor de larga cultura, a sua vocação literária manifestou-se quando, ainda estudante, principiou a colaborar em jornais académicos e de província, primeiro com versos bem trabalhados e depois em prosa, fácil e de vivo colorido. Em 1902 publicou Influências Estrangeiras em Eça de Queirós, curioso estudo revelando profundo conhecimento da obra do romancista, e mais tarde Eusébio Macário em Guimarães, à guisa de capítulos suplementares à Corja, de Camilo, e ainda Cartas de Camilo Castelo Branco a Francisco Martins Sarmento, com prefácio e notas. Cedo, porém, se manifestou a sua predilecção pelos estudos históricos e escreveu: Subsídios para a História Vimaranense; O Claustro da Colegiada de Guimarães e Estudos da Velha História Pátria - O Livro da Mumadona. "

 

Mais um vulto de que nos podemos orgulhar; mais um Grande Português.

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publicado às 22:45



Há na montanha, ao vivo, a História Viva.

Recalcaram sôbre ela as as várias gentes:

Peregrinos, ou nómadas, ou bárbaros

Condusidos por Átilas e Césares;

Mas passaram: lá vão...Nos seus recóncavos

- E como o liquem agarrado à pedra -

Para sempre ficou a Raça estóica.


Reboa na montanha uma só fala,

Primígenas raizes dum só verbo.


Não assim a falaz babel oceânica,

Onde todos os rios balbuciam

A língua natural das várias fontes.


A montanha é estável, fidelíssima;

Subversivo é o mar, confuso e múltido.


As vagas - quási sem nenhum desígnio -,

Estas atrás daquelas acorrendo,

Embatem, no recontro, a espúmea fúria

Das que voltam na espuma da ressaca...

Desordenadas tribus do Deserto!


Não apenas um íncola, seu hóspede,

Mas terrantês, extático aborígene, 

Há na montanha um impassível povo.


Há nela um bem sei quê de Majestade,

De Realeza a todo o fundamento.


Formando pátrias, enfrentando pátrias,

Já soberanas Dinastias houve.

................................................................

...............................................................


E também a montanha é religiosa.

Tem a soidade mística de ascetas,

Nos fundos ermos meditando e orando


............................................................

............................................................


Antonio Corrêa d'Oliveira, « Elogio da Monarquia »


                        Toda a razão, Duarte Meira: " Ao nível do melhor que se escreveu na literatura portuguesa em todos os tempos. "

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publicado às 21:55

" Milagre do génio nacional! - Pegar num autor dos começos do século XVI e, uma bela noite, ao ar livre, atirá-lo a um público de dez mil pessoas, entre as quais haveria um cento de letrados. E ver o povo sentir-se encantado!...Isto sucedeu em Guimarães, diante do castelo, no Centenário * de Gil Vicente "
Afonso Lopes Vieira, « Nova Demanda do Graal »

( * Refere-se, penso, ao de 1936 )

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publicado às 00:15

A humildade dos Grandes!...

por Cristina Ribeiro, em 26.09.12
" Deitando olhos ao campo imenso da sua Prosa, tal o lavrador que avalia a colheita, o Padre António Vieira confortou-se no cabo da vida com verificar que ela possuía, ao menos, um dom, e o dom para ele mais rico - a clareza: « Mas valeu-me sempre tanto a clareza...» Comove-me este juízo do artista genial. Guardemos com gratidão a lição que encerra. "
Affonso Lopes Vieira, « Nova Demanda Do Graal »

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publicado às 18:00

Andava no primeiro ano do Ciclo Preparatório,

por Cristina Ribeiro, em 21.07.12
e não perdi nenhum programa...
" É no ano de 1971 que uma grande figura "histórica" entra para a história da RTP: José Hermano Saraiva. E a entrada não podia ser mais fulgurante: "O Tempo e a Alma", um programa cultural de sua autoria, estabelece-se logo como n.º1 nas audiências. Nas palavras de J.H.Saraiva: "O povo queria cultura..."

Arquivo RTP
Não consigo imaginar hoje esse querer...

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publicado às 18:55

Agora Santo também.

D. Nuno Álvares Pereira não se limitaria a ilustrar a história pátria com esta sua faceta guerreira e patriota. O alto exemplo que nos legou ficaria para sempre marcado pelo lado humano e caritativo que « Com a paz com Castela firmada a 31 de Outubro de 1411 » o permitiria « dedicar-se com maior intensidade às obras de misericórdia, criando casas de abrigo para doentes viúvas e orfãos. O seu amor ao próximo não conhecia raça ou crença, e assim acolheu nas suas terras, mouros e judeus, construindo Mesquitas e Sinagogas » ( « D. Nuno Álvares Pereira - Um Santo Para o Nosso Tempo », in Boletim da Fundação D. Manuel II .

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publicado às 15:15

Acabaram os ideais?

por Cristina Ribeiro, em 07.09.11
 
 
" Ah! Era o tempo em que os oficiais do exército, sabendo o que significava ter jurado a bandeira, atiravam com galões e soldo e partiam para a fome, levando só a honra...
A última página da epopeia da História portuguesa, tinham-na escrito essas centenas de homens que rodeavam o Comandante "[Paiva Couceiro ]
                  Tomaz de Figueiredo, « A Toca do Lobo »

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publicado às 20:00






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