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Esta manhã, em Liège

por Nuno Castelo-Branco, em 04.08.14

 

Foi a sensatez e sentido das proporções que para nossa desgraça, faltou aos Costas, Bernardinos e Camachos. Durante quatro anos  Afonso XIII tudo fez para manter a neutralidade espanhola, sendo por isso mesmo homenageado pelos seus compatriotas e pelos estrangeiros de ambos os campos em combate. O monarca desenvolveu um inestimável serviço junto dos prisioneiros de guerra, estabelecendo contactos, garantindo o correio, vigiando o tratamento ministrado pelos captores, distribuindo o precioso auxílio moral e  material. Quando após a sua deposição chegou a Paris e logo em seguida a Londres, foi recebido por multidões agradecidas pelo seu trabalho durante a tragédia que foi a Grande Guerra. 


No âmbito do centenário da eclosão da I Guerra Mundial, Filipe VI está hoje em Liège, não se entende bem a razão. Podemos considerar uma explicação para além deste insólito pro forma. Sendo um trineto do Kaiser Guilherme II, talvez a esse facto se deva a sua presença, juntando-se aos descendentes de Alberto I dos belgas e de Jorge V da Grã-Bretanha. Uma foto da família agora não desavinda. 

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publicado às 10:04

O Reich reabilitado pela esquerda

por Nuno Castelo-Branco, em 22.04.13

Num  post oportunamente aqui deixado pelo Samuel, foi sem surpresa que li o excerto de uma crónica de Soromenho Marques. A guerrilha mediática contra a chanceler alemã está no auge e é assim compreensível o recurso a todos os argumentos susceptíveis de convencerem a sempre facilmente impressionável opinião pública.

 

O texto de Soromenho é fantástico, apelando à memória de Bismarck e ao seu legado na construção do Estado Social. Dentro de dias e em desespero de causa, o distinto professor bem poderá apelar à memória de Sua Majestade o Kaiser Guilherme II, o soberano das massas com quem Bismarck teve sérios dissabores e que ao chanceler imporia inéditas medidas no campo da protecção social. Aliás, logo no início do seu reinado, o Kaiser afirmaria que "o assunto mais urgente é o alargamento da lei da protecção do trabalhador", projecto que foi aprovado em 1891, através dos Actos de Protecção dos Trabalhadores que em muito melhoraram as condições de trabalho, regularam as relações laborais e protegeram as mulheres e crianças.

 

Esta é uma constante da Alemanha que na Europa surgiu como um Estado após a derrota da França em 1871. Os pensadores que como Soromenho apontam a idade de ouro do alvorecer do Estado Social, deviam também explicar o porquê do inabalável apoio que mais tarde, as massas prestariam ao regime de Hitler. Uma das principais razões, consistiu na manutenção das inovações que vinham dos tempos de Bismarck e de Guilherme II, tendo o regime nacional-socialista habilidosamente envolvido os grandes princípios consagrados pela lei, em roupagens tecidas por uma propaganda incessante - e pela azáfama laborista da Kraft durch Freude - que muito desagradou aos liberais e conservadores alemães. Assim sendo, Soromenho vem involuntariamente apelar à memória do II e III Reich e precisamente daquilo que a par de umas potentes forças armadas - hoje bastante diminuídas na RFA -  melhor caracterizava a desaparecida Alemanha que ia do Reno ao Niémen.

 

O Estado Social não parece estar em risco na Alemanha, nem os alemães admitiriam tal coisa. Dizer o contrário, é não conhecê-los. De lá surgem propostas de contratação de médicos portugueses, enfermeiros, assistentes sociais e outros trabalhadores destinados a garantirem a qualidade desse privilegiado e bem cuidado sector da sociedade alemã. 

 

O caso alemão não pode surgir isolado e como oportuno bode expiatório para erros cometidos por outros e também, é fácil reconhecê-lo, pela degradação da qualidade dos políticos que sucederam a Helmut Kohl. No combate político "pela Europa" - que afinal sempre foi uma das obsessões alemãs, inclusivamente durante a II Guerra Mundial -, recorrer-se a sugestões de revanchismo hitleriano, é uma indecência que descridibiliza quem o faz. Outro aspecto a considerar e sem o qual qualquer tipo de análise pecará por muito parcial, consiste na situação de abissal desigualdade com que a Europa se bate no plano económico. Os tratados de comércio livre - a globalização - não atendem à concorrência desleal por parte de potências onde os "pressupostos sociais Bismarck-Guilherme II", são apenas uma miragem, quando não totalmente desprezados. Há uns dias, um intelectual dizia numa entrevista que  ao chegar a Nova Iorque há uns meses, teve a estranha sensação de de se encontrar num local onde "algo está a terminar". Pelo contrário, ao visitar países asiáticos, verificou que esse algo era inverso, precisamente o início de um outro mundo. Resta-nos saber se a venenosa farpa lançada por um militante das lapidações de 1968, ao indisfarçadamente exultar com o sempre anunciado fim do odiado Ocidente a que pertence, poderá contribuir para um hiper-capitalismo global à chinesa. Contra isto, nem mil Panzerdivisionen de blindados Merkel, Kohl, Schmidt, Brandt, Adenauer, Bismarck ou Guilherme II poderão fazer seja o que for. 

 

Para alguns a Europa ideal seria um espaço onde não existisse a Alemanha, mas este é apenas um sonho que bem depressa se tornaria num pesadelo. Devido aos humores franceses que sempre foram tão expansivos como os gases que fazem saltar as rolhas das garrafas de champanhe, Bismarck unificou a Alemanha pelo ferro e pelo sangue. Há que compreender que em pleno século XIX, outra solução não existia. Soromenho esquece-se desse pequeno detalhe, ficando-se nas entrelinhas pelo mercado comum alemão - o Zollverein - e pelos progressos legislativos da Época Guilhermina. Devia então divulgar alguns factos relativos à organização do trabalho e contratação, o ensino técnico e a formação profissional, o equilíbrio das contas públicas, os benefícios da poupança e a cuidadosa ponderação das políticas de investimento estatal. É que se não o fizer, Soromenho Marques arrisca-se a ser colocado naquele regimento de combativos militantes pelos cheques em branco passados a ineptos líderes políticos portugueses - até o sr. Sócrates que quando exerceu o poder foi um bem conhecido aliado de Merkel, vem agora dizer que há que colocar um travão aos alemães! -  e claro está, a essa artificiosa forma de extorsão que são estes tão cobiçados mas mal explicados eurobonds, a mutualização da dívida. Tente dizer o que pretende aos alemães, talvez lhe ofereçam um pickelhaube. Evocar Bismarck supõe a sugestão de um Estado autoritário e Soromenho não hesita em apresentar a ameaça de um "marxismo de legítima defesa", afinal o bicho-papão que a Europa já experimentou e que o filósofo talvez entenda como solução: um ansiado regresso ao passado. 

 

A questão será sempre a mesma: onde pensam ir buscar o dinheiro? Às rotativas? 

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publicado às 01:56

Aos amnésicos

por Nuno Castelo-Branco, em 20.04.13

 

Conhecemos bem a versão oficial dos factos, embora os próprios britânicos façam, como sempre, um excelente trabalho que por regra corresponde à realidade dos acontecimentos. Que este curto excerto de um episódio d' "A Queda das Águias," possa servir de aviso a muita gente amnésica.  A criação de monstros é sempre um risco demasiadamente caro.

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publicado às 22:15

Resistir para ajudar.

por Nuno Castelo-Branco, em 24.06.09

  

 

Estas duas últimas semanas têm correspondido plenamente aos anseios seculares da chamada Ummah. De facto, o mundo muçulmano tem preenchido os cabeçalhos da imprensa escrita, enquanto beneficia igualmente da duvidosa honra de abertura de todos os telejornais.

 

Trata-se de uma notoriedade pelas piores razões. A informação global, ao invés de apresentar esta "civilização" com as pinceladas do já há muito fanado brilho do Califado de Córdova, mostra-nos o culminar de um processo já vetusto de uma época em que saídas da camisa de forças do colonialismo - ou mandato - ocidental,  as sociedades de matriz maometana procuraram afirmar uma improvável identidade comum, apenas possível pela crença religiosa. De Marrocos ao Bornéu, jamais existiu essa imaginada unidade que os proselitistas exaltam no fervor dos sentidos, diante das multidões receptivas a uma qualquer mensagem de esperança. Profundamente humilhadas por um longo processo histórico que as conduziu a uma estratificação social - logo político-económica - vexatória a que se resignaram, as gentes recentemente definidas em termos de nação pelas fronteiras de Estados gizados a régua e esquadro pelos nazarin, encontraram num  perdido passado de expansão militar, re-descoberta dos Clássicos e construção de impérios relativamente efémeros, um hipotético modelo orientador para um porvir que emanando directamente do Todo Poderoso, apenas significaria a recompensa pela cornucópia da glória, abundância e superioridade da sua identitária fé. Pouco importariam as realidades apresentadas por uma Turquia em secularização coerciva, uma Argélia satelitizada pela suserania da Santa Mãe do materialismo russo-soviético, ou ainda, a da antiga Pérsia que queria surgir diante da Europa como sua directa antepassada, sem a mediação incómoda  aferrada pelos cavaleiros vindos do deserto do sul e que de cimitarra a tinha subjugado. Pareciam ser aspectos menores diante daquilo que verdadeiramente era capaz de unificar de este para oeste, um novo mundo em formação. Impossível.

 

A realidade internacional saída da II Guerra Mundial e que mergulhando na Guerra Fria dividiu as principais - e até aí hegemónicas - potências  europeias em dois campos, definiu os blocos em liça pela supremacia. Sendo o bloco norte americano um natural prolongamento da Europa, os novos Estados do hemisfério sul continuaram fatalmente a servir como móbil nos jogos de poder, definindo desde a independência qual o dois dos Grandes - os EUA e a URSS - corresponderiam aos desígnios das elites formadas pelo colonialismo e que recentemente chegadas ao poder, esperavam ansiosamente  afirmar-se no palco internacional, por esta forma consolidando  a sua prevalência interna.

 

Embora os europeus e os "árabes" estejam separados por esse mar-de-ninguém que é o Mediterrâneo, desde sempre a História mostrou existir um "amigo e protector" dos muçulmanos. Francisco I de França abasteceu as galeras da Sublime Porta, contrariando a aventura do império mundial de Carlos V. Luís XIV aproveitou o avanço otomano contra Viena, atacando a rectaguarda dos Habsburgo em Espanha, nos Países Baixos, no Franco-Condado e nos mares. Napoleão imaginou uma aliança com o sultão, para poder submeter o bloco austríaco e condicionar os ímpetos do fogoso czar Alexandre. Guilherme II apresentou a Constantinopla a conveniência da assistência prussiana, assumindo-se como protector de um império cujos achaques de "homem doente da Europa" faziam adivinhar um fim próximo. Hitler recebeu o Grande Mufti  de Jerusalém - o único homem a quem permitiu o uso de um cafetã na sua presença - , sancionou o ingresso de combatentes pelo Islão nas SS e no Mein Kampf, afirmava a conveniência que o credo de Mafoma significaria para a organização da sua própria Jihad em direcção a um Lebensraum não apenas material, mas perfeitamente correspondente aos velhos mitos germânicos dos tempos  da vida nas florestas, em oposição à decadência de uma Roma invejada e porque inatingível, tornara-se desprezível e pouco animosa.

 

Uma lista dos chamados grandes homens do século árabe  - na conhecida e errónea vulgarização do termo pelos ocidentais - das independências, demonstra-nos a simples não existência de um único que sendo perfeitamente autónomo relativamente ao odiado Ocidente, pudesse imitar o tolerante e grande chefe que fora o Saladino dos tempos áureos de Bagdade. O líbio Idris, o saudita Ibn-Saud, os egípcios Faruk e Nasser, a plêiade de quase desconhecidos generais que sucessivamente se sentaram no trono do menino Faiçal II do Iraque, os novos Khan-presidentes do artificial Paquistão, os Ben Bella,  Bourgibas, Assads, Kaddafys e tantos, tantos outros que a história apenas reconhecerá em notas de rodapé, nenhum deles foi capaz de oferecer ao seu povo, um modelo definido de ordem, prosperidade e sobretudo, de reconhecimento geral pelo brilho de uma cultura já há muito assimilada pelos europeus. Arrancaram à terra as suas riquezas, desbaratando-as em novéis palácios de Mil e Uma Noites de pesadelos de tortura, guerras, extorsão e preconceitos anacrónicos. Entre todos os "grandes dirigentes muçulmanos", apenas dois perfazem integralmente o arquétipo do homem diligente, moderno e senhor das suas acções que fora de portas é um igual entre os maiores: Attaturk e Mohammad Reza Pahlavi - seguindo o programa modernizador do pai -, estes directos herdeiros de um outro mundo velho de muitos séculos e que compreenderam a necessidade de adequar a sociedade aos tempos da tecnologia, universalidade da Lei e liberdade nacional, bem diferente do complexo e muitas vezes equívoco conceito que a restringe à esfera pessoal do anónimo. 

 

Fracassaram nos seus propósitos, pois ansiosos em ir sempre mais além e de forma acelerada, não conseguiram ser totalmente compreendidos e acompanhados por sociedades resignadas e estruturadas de uma forma conceptual diametralmente oposta à do modelo que lhes ditava a moda, organizava os serviços essenciais a um Estado, criava o consumo e estabelecia os parâmetros de conduta. Se Attaturk ainda permanece hoje como uma referência ciosamente guardada pela vigilância que os militares exercem sobre as sucessivas interpretações do próprio khemalismo, o grande homem que foi o Xá Reza Pahlavi, acabou deposto pela conjugação de factores que não podia controlar. O auge do confronto EUA-URSS no ocaso da Guerra Fria; os choques petrolíferos nos quais procurou ser um elemento apaziguador - que lhe granjeou acirrados ódios internos e entre os "irmãos de fé" -; a oposição de um clero profundamente patriarcal e de uma mentalidade onde prevalecia o espírito da organização rural em contraposto à "prostituída" vida urbana e finalmente, as consequências  inevitáveis do seu desejo de independência e de igualdade entre os grandes, condenaram-no a um fracasso que criou uma inédita situação internacional que hoje parece finalmente evoluir de forma abrupta e inesperada.

 

Esta dualidade amor-ódio pelo Ocidente, pode ser afinal, um grande e poderoso móbil para mais uma e talvez derradeira aproximação do Ocidente, a um "mundo muçulmano" desconfiado, hesitante, mas talvez ainda possível de subtrair à total capitulação perante uma interpretação abusiva de um passado cada vez mais anacrónico. Usam e idolatram a tecnologia nazarin, organizam as suas cidades sob a métrica nazarin, organizam-se em termos legais numa mescla impossível do primado constitucional-legal nazarin, com os preceitos próprios para a salvaguarda identitária das já há muito desaparecidas tribos do deserto do século VI. Encandeados pela luz das nossas urbes são para a Europa atraídos como ferro para imã, mas a coacção moral e física de uns tantos, julga poder convencer a massa expectante, da prometida conquista que vingue a própria impotência.

 

A única fórmula possível de assistência naquela demanda pelo progresso, consiste na manutenção de uma posição firme, inabalável. Qualquer cedência ao capricho de assembleias de homens sábios, condena aquelas sociedades a um desastroso fracasso, do qual nós próprios seremos as preferenciais vítimas. Há que resistir.

 

 

 

 

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publicado às 17:03






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