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Alexandre Herculano citado por Hipólito Raposo

por Cristina Ribeiro, em 29.08.17

Na ' Oferenda '

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" No meio de uma nação decadente, mas rica de tradições, o mister de recordar o passado é uma espécie de magistratura moral, é uma espécie de sacerdócio. "

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publicado às 18:53

Do passado que não sabemos

por Regina da Cruz, em 12.10.13

Tenho mergulhado no passado recente português e é impressionante a quantidade de personalidades que tenho conhecido e das quais apenas muito leve e vagamente ouvi falar. É como se eu desconhecesse por completo os avós e bisavós do pensamento contemporâneo português. É um fosso abismal! Estou deveras impressionada com a minha ignorância - embora não devesse.

 

Como podemos compreender e pensar Portugal no presente e dar-lhe um rumo de futuro se tão pouco sabemos do passado, inclusive do passado recente. Quantas personalidades marcantes, quantas ideias, quanto pensamento vivo, quanta sabedoria portuguesa, quanta intuição sublime, foi atirada para o asilo do esquecimento!

Quanta ingratidão, quanta soberba, quanta miséria.

 

E não há uma alma que nos devolva o passado, que nos dê a conhecer o que de melhor e mais edificante foi construído ao longo dos séculos pelos nossos antepassados! Apresentem-me os meus avós, bisavós, tetravós! Quero conhecê-los e quero ouvi-los, quero saber o que pensaram e pensam ainda de nós, nós os que estamos perdidos, nós os que estamos desorientados nós que precisamos de um conselho e de uma direcção. Que é feitos dos "antigos"? Que é feito das suas ideias?! Ligamos a televisão, abrimos um jornal, passamos os olhos por uma revista e só vemos superficialidade descartável encenada por gente que veio ao mundo com o único propósito nefasto de nos distrair e confundir.

 

Resta-me a curiosidade individual e atomizada, sem método, aleatória, de buscar e aqui e acolá, ler esta passagem e aquela, sem guia, sem instrumentos, ao acaso, sem um fio condutor que não apenas aquele do meu parco entendimento filosófico...Ah, paciência, curiosidade e inteligência não me abandonem nunca , por favor, por que sois tudo o que me resta nesta existência orfã e faminta!

E sigo deambulando, solitária, pelo tempo histórico, colando os fragmentos do pensamento como quem cola pedaços de fotografias na tentativa de perceber a imagem total e ter uma ideia daquilo que poderá ter existido e que o tempo, na sua dinâmica inexorável, se encarregou, como é normal quando não há guardiões da memória, de apagar.

 

(publicado originalmente aqui)

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publicado às 15:13

Portugal, Rinocerontes e Elefantes Brancos

por John Wolf, em 30.01.13

 

Torna-se difícil, se não impossível, fixar um marcador para o início do declínio político, económico e social de Portugal, mas são diversas as provas de gestão danosa e ostentação que não trouxeram proveito a Portugal. Não havia necessidade de realizar um investimento tão disparatado para promover o poder do império. O mundo já havia sido dividido entre as duas potências Ibéricas, mas em 1515, D.Manuel I - Rei de Portugal -, aconselhado pelo Turismo de Portugal daquele tempo, decidiu presentear o Papa Leão X com uma prenda invulgar. Um rinoceronte capturado no oriente e que viveu na Torre de Belém até seguir viagem para Roma. Lamentavelmente o animal não chegou a conhecer o Vaticano, uma vez que a nau em que seguia afundou ao largo da costa de Itália em 1516. Volvidos quase 500 anos, uma importante gravura de Albrect Durer que retrata o referido rinoceronte, foi vendida por um valor recorde pela leiloeira Christie´s. Torna-se curioso como a História de Portugal vale muito dinheiro. Se não estivéssemos em crise, e houvesse fundos para dar e vender, talvez o Estado Português devesse licitar pela gravura. Uma imagem destas, com uma forte carga simbólica merecia estar em Portugal para lembrar outros elefantes brancos.

 

 

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publicado às 10:16

Linhas de Wellington

por João Quaresma, em 10.10.12

Enquanto a Espanha tem assinalado com pompa e circunstância o bicentenário do que designa como a sua Guerra da Independência, enaltecendo o seu esforço e exagerando o seu contributo para a derrota da França Napoleónica, em Portugal as comemorações do bicentenário das Invasões Francesas têm estado quase exclusivamente a cargo das Forças Armadas, e gozando de pouca ou nenhuma divulgação e visibilidade. Não faz qualquer sentido que assim seja, já que Portugal foi um dos vencedores daquela que foi, até então, a maior guerra a que o mundo assitiu, abrangendo o continente europeu e extendendo-se para além dele (campanha napoleónica do Egipto, conquista da Guiana Francesa por Portugal), tendo dado um contributo relevante para a vitória dos Aliados. E, no que toca a História, convém que Portugal saiba sempre marcar a sua posição caso contrário outros aproveitarão a oportunidade para revisionismos.

Quando, há uns anos, se deu início às comemorações dos 200 anos das Invasões Francesas, teve lugar em Lisboa um seminário internacional reunindo historiadores militares dos países envolvidos: Portugal, França, Espanha, Reino Unido e Brasil (que no momento das invasões foi elevado a reino e para onde foi transferido o governo e a capital). A perspectiva britânica era de que a Guerra Peninsular tinha sido uma vitória britânica, fruto da qualidade dos exércitos de Sua Majestade e do génio do general Arthur Wellesley (Duque de Wellington), numa campanha em que as tropas portuguesas tinham tido um papel digno mas de mero coadjuvante (as referências era feitas em tom de nota de rodapé...) Por seu turno, na perspectiva francesa, as invasões são ainda hoje referidas como as Expedições: não se tratava de invadir ninguém mas antes de combater o inimigo inglês, libertar os povos das trevas do Ancient Régime e implantar as luzes da Revolução Francesa. Não tardou muito a que tais pontos de vista tivessem resposta portuguesa e espanhola, dando a perspectiva dos invadidos. Recordo-me de ver, na pausa para café, o representante francês a "ferver" com o que tinha acabado de ouvir, vendo que a memória que dos Pirinéus para cá se guarda da ocupação francesa não é melhor do que a que os franceses guardam da ocupação nazi. Duzentos anos depois, as memórias e as feridas continuavam surpreendentemente presentes, e tinha bastado alguma arrogância e convencimento - e quiçá a ideia errada que o Português tudo perdoa, tudo aceita - para o revelar.

 

Duzentos e dois anos depois da derrota francesa frente ao Exército Anglo-português entrincheirado na Linhas de Torres, chegou às salas este filme português, proposto pela Câmara Municipal de Torres Vedras para comemorar o bicentenário do acontecimento que colocou a povoação do Oeste nos anais da História Militar mundial.

Mais do que uma reconstituição histórica e um filme de guerra, é sobretudo um relato sobre como a guerra (no caso, a Terceira Invasão Francesa) foi vivida por pessoas de todos os géneros, cujas vidas foram alteradas pelos acontecimentos: portugueses, ingleses, franceses ou cidadãos de outras nacionalidades que, por uma razão ou por outra, cá estavam na altura. Tudo isto tendo como pano de fundo a retirada estratégica do Exército Anglo-português e das populações para trás das Linhas de Torres Vedras, levando a cabo a política da terra queimada: uma estratégia que para muitos portugueses implicou passar fome para poder reconquistar a Liberdade e Independência. Serve para lembrar às gerações actuais o que significa para um povo passar por uma guerra e uma ocupação, no exemplo do maior suplício por que o Povo Português passou em toda a sua história.

É um filme de qualidade a todos os níveis, de que destaco a prestação do numeroso e competente elenco. Será emitido futuramente na versão de série de TV mas aconselho vivamente a vê-lo no cinema. 

Estão de parabéns Paulo Branco (que produziu), Carlos Saboga (que escreveu), Raul Ruiz (que pré-produziu) e Valeria Sarmiento (que realizou). Está de parabéns o cinema português.

 

Site oficial do filme: http://www.linesofwellington.com/pt/linhas_wellington_home.php

Site oficial das Comemorações do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras: http://www.linhasdetorresvedras.com/

Facebook: http://www.facebook.com/linhasdetorresvedras

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publicado às 02:35

Carta de António Barreto à Direcção do Público

por Samuel de Paiva Pires, em 03.09.12

Via Corta-fitas:


«A História de Portugal, Rui Ramos e Manuel Loff

Por várias vezes, no decurso das últimas semanas, fui surpreendido por escritos alusivos à História de Portugal da autoria de Rui Ramos (coordenador), Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, publicada em 2009. A maior parte desses textos apareceram no PÚBLICO e o seu principal autor é Manuel Loff. Sei bem que a liberdade de expressão não pode ser limitada de ânimo leve, nem sequer pela qualidade. Mas é sempre triste ver que a inteligência, o rigor e a decência têm por vezes de ceder perante essa liberdade última que é a de publicar o que se pensa.

Quando tive a honra de apresentar o livro, na Sociedade de Geografia, anunciei o que para mim era um momento histórico. Com efeito, esta História de Portugal quebrava finalmente o duopólio fanático estabelecido há muito entre as Histórias ditas "da esquerda" e da "direita". 

As várias formas de "nacionalismo" e de "marxismo" e respectivas variantes tinham dominado a disciplina durante décadas. Apesar de algumas contribuições magistrais (e a de José Mattoso é das principais), ainda não se tinha escrito uma História global, compacta e homogénea que rompesse com a alternativa dogmática, que viesse até aos nossos dias e que, especialmente para o século XX, "normalizasse" a interpretação da 1.ª República e do Estado Novo. Ambos estavam, mais do que qualquer outro período, submetidos à tenaz de ferro das crenças religiosas e ideológicas e ao ferrete das tribos.

Com esta História, estamos longe daquela tradição que cultiva e identifica inimigos na História. Agora, deixa de haver intrusos e parêntesis. Os regimes políticos modernos e contemporâneos, de Pombal à Democracia, passando pelos Liberais, pelos Miguelistas, pela República e pelo Salazarismo, eram finalmente tratados com igual serenidade académica, sem ajustes de contas. 

Um dos feitos desta História consiste na "normalização" do século XX, marcado por rupturas e exibindo feridas profundas. Por isso me curvava diante dos seus autores, homenageando a obra que ajuda os portugueses a libertarem-se de fantasmas. Mas, sinceramente, já não esperava que ainda houvesse demónios capazes de despertar o pior da cultura portuguesa.» 


Leitura complementar: Sobre a polémica Loff-Ramos

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publicado às 21:03

Perdemos hoje uma das nossas últimas figuras que se podem considerar referências nacionais. José Hermano Saraiva há muito que tinha adquirido o estatuto de autêntica instituição nacional. Daquelas pessoas grandes demais para poderem ser reclamadas ou rejeitadas por este ou aquele grupo. Era de todos nós, porque se dedicou a todos nós, Portugueses. Porque nos ajudou a descobrir-nos a nós próprios como Nação e como Povo, através do que fomos e do que somos. Um gigante da consciência nacional e um bastião contra o negativismo anti-português vigente. Era também uma daquelas figuras com que algumas gerações de portugueses cresceram no tempo em que havia apenas uma estação de televisão, e em que esta verdadeiramente prestava um serviço ao país. Fica a obra e a memória de um homem digno como poucos.

Recordo um momento de grandeza. Em 2003, o país assistia chocado às revelações do caso Casa Pia. No mesmo dia, Herman José teve, pela manhã, de prestar declarações ao DIAP e, à noite, apresentar a gala dos Globos de Ouro da SIC. Para Herman, terá sido um dos piores dias da sua vida, de manhã numa atmosfera de linchamento mediático, à noite num ambiente pesado e tenso em que se percebia que toda a gente mantinha-se à distância do humorista, como se de repente tivesse lepra. José Hermano Saraiva recebeu nessa noite o galardão em reconhecimento da sua carreira mas, ao receber a estatueta, em vez falar de si pediu ao público uma salva de palmas para Herman José, por «há anos fazer o melhor que se pode fazer por um país: fazê-lo rir».  A sala do Coliseu correspondeu de forma apoteótica. Atitudes que só os homens grandes tomam.

Descanse em Paz, Professor José Hermano Saraiva, e muito obrigado por tudo quanto nos transmitiu.

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publicado às 20:00

Outra leitura recomendada

por João Quaresma, em 04.05.12

 

Politicamente incorrectíssimo e importante para se perceber alguma da História contemporânea de Portugal. E é de aproveitar enquanto se publica. Da Oficina do Livro / Leya.

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publicado às 19:55

A História politicamente incorrecta do Brasil

por João Quaresma, em 21.03.12

A propósito do post da Cristina Ribeiro, coloco o vídeo de uma entrevista a Leandro Narloch, o autor do 'Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil', livro que lançou uma grande polémica sobre a forma como a História tem sido ensinada nas escolas e universidades brasileiras. O autor desmente muitos dos mitos que fazem parte da História oficial, a começar por aqueles que menorizam e atribuem sempre um carácter negativo em relação aos Portugueses e à contribuição portuguesa para aquilo que é o Brasil. O livro, que é o número um de vendas há mais de dois anos, tem sido uma verdadeira pedrada no charco e tem servido para mudar a perspectiva sobre Portugal, fazendo justiça ao muito de positivo que de nós o Brasil herdou.

 

O 'Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil' foi lançado em Portugal no ano passado mas nem assim tem merecido muita atenção por cá.

 

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publicado às 00:25

A distracção de Vasco Pulido Valente

por Nuno Castelo-Branco, em 06.02.12

Circula a notícia de um abaixo-assinado de oitenta historiadores e estoriadores muito encanitados pela abolição dos dois "feriados civis". Se é bem certo que esse lacrimejar apenas se refere ao 5 de Outubro, não é menos certeira a afirmação da "degradação do sentido de comunidade" que agora estes indignados trompeteiam. Estranha alegação esta, quando provem daquele núcleo de excelentes intelectos que dedicaram a maior parte das suas vidas ao afanoso mester de demolição do legado histórico português, obcecados em puxar de galões de auto-reconhecido estrangeirismo. Vasco Pulido Valente não é um desses e são bem conhecidos os seus honestos trabalhos no âmbito da historiografia, mesmo se as suas interpretações são recebidas com o desagradado murmurar por parte da estoriografia sustentada pelo feliz recurso ao subterfúgio da bolsa que faz tanto pesquisador da moda bolsar inanidades. Passando sobre o lapidar considerar que VPV nos deixa acerca da 1ª República e as suas felicidades tonitruantes de bombas, estampidos e traulitadas no lombo, o autor do texto ontem dado à estampa no Público, não resistiu à sua indomável condição de solitário "Vencido da Vida" dos nossos dias, deixando um desabafo acerca da União Ibérica. De facto, VPV parte de pressupostos erróneos e muito desconfiamos tratar-se esta prosa de calculada provocação, desejando rápida réplica.

 

Em 1580, o sucessor directo e legítimo ao trono vago pela morte do Rei D. Henrique I, era sem qualquer margem de hesitação, D. Catarina de Aviz, pelo seu casamento Duquesa de Bragança. Segundo opinião intelectualmente aceite, Portugal é um "país atrasado, preconceituoso e misógino", mas jamais instituiu a chamada Lei Sálica que até há poucos anos vigorou na maior parte das ..."civilizadas sociedades do norte da Europa". Se recuarmos no tempo, em 1383 os portugueses poderiam ter aclamado a sua primeira Rainha, não fosse D. Beatriz refém de um casamento rejeitado pelo país. Por curioso acaso, este é um daqueles episódios que faz cair o oportuno e recorrente mito da periculosidade que a instituição monárquica representa para a independência nacional, pois há setecentos anos e contra todas as expectativas de sucesso, aquilo que já era um sólido embrião de "uma nação", opôs-se à sucessão legítima, impondo o Mestre de Aviz como soberano. Passando ao caso de D. Catarina, a Duquesa era filha do Infante D. Duarte, filho do Rei D. Manuel I e irmão de D. João III. Se fosse vivo à data da Alcácer-Quibir, ter-lhe-ia cabido a imediata sucessão à coroa, em detrimento do Cardeal-Rei.  Filipe II, apontado por VPV como herdeiro "legítimo" das coroas peninsulares, apenas o seria no trono português, no caso de D. Catarina jamais ter existido. O Rei espanhol era filho de uma Infanta, a formosa D. Isabel que foi a segunda Imperatriz portuguesa do Sacro Império Romano-Germânico e em acumulação de títulos, Rainha de Espanha. Apenas a exaustão financeira e a ausência de efectivos militares consistentes, impediram a natural sucessão na pessoa de D. Catarina. Se Filipe II comprou e conquistou a coroa, jamais a terá herdado e os acontecimentos de 1640 apenas repuseram a legalidade exigida pelas normas sucessórias do Reino.

 

Num insólito ensaio comparativo, VPV traça um escusado paralelo com aquela outra realidade que foi o Império Austro-Húngaro saído do Compromisso de 1867. No plano europeu, os interesses da Áustria e da Hungria eram coincidentes, opondo-se às investidas pan-germanistas acicatadas pela Prússia hegemónica na Alemanha e ao pan-eslavismo alimentado por S. Petersburgo. O Ausgleisch de 1867, representou a garantia do controlo de populações não alemãs e não húngaras sob o domínio da dupla coroa da Casa de Habsburgo. 

 

Passando sobre o evidente anacronismo que definitivamente separa a chamada União Ibérica do arranjo engendrado na Europa Central, o caso peninsular era bem diverso, nem que apenas o fosse tendo em conta a evidente discrepância dos interesses das duas coroas. A Portugal interessava a manutenção do pacífico e rendoso comércio com as potências do norte, cujas frotas mercantes arribavam a uma Lisboa a abarrotar de possibilidades de negócios, daqui saindo especiarias e outros apetecidos produtos de luxo. As questões continentais eram avessas ao interesse português, precisamente no momento em que a Espanha e os seus monarcas iniciavam o fatídico caminho da luta pela hegemonia continental, atolando-se em conflitos na França, Inglaterra, nos Países-Baixos em secessão, na Itália e no imbróglio de uma Alemanha devastada pelas guerras religiosas. Já aparentemente consolidada aquilo a que os historiadores além-fronteira teimam em chamar de Monarquia Hispânica - numa evidente rejeição da tal "independência portuguesa" que VPV aponta e é baseada no mero aspecto formal -, o ministro Olivares quis desfazer o que considerava ser uma organização ineficiente dos recursos da Monarquia. No plano territorial, União de Armas pressupunha a submissão de todas as componentes europeias às leis de Castela, procedendo-se à definitiva anexação dos Estados que como Portugal, mantinham a ficção de uma união dual, aliás em clara contradição com aquilo que se passava na política real, fosse ela comercial ou militar. Contra todo o interesse da Coroa de Portugal, a partir de 1580 as nossas possessões foram de imediato atacadas - quando não o próprio território nacional - por holandeses, ingleses, franceses e nórdicos, na ânsia da conquista de um quinhão daquele Novo Mundo - em sentido lato, neste se compreendendo as Índias orientais - recentemente subjugado pelo ímpeto português. Neste aspecto, esquece VPV o descuido perante os compromissos assumidos em Tomar e poucos anos após a subida ao trono de Filipe I de Portugal, já os principais navios da Invencível Armada, precisamente aqueles que maior valor militar tinham, eram requisitados para uma aventura de funestas consequências para a nossa incipiente talassocracia. O abandono dos arsenais portugueses, a incúria na manutenção das guarnições ultramarinas - perda de Ormuz, de feitorias na Índia, Insulíndia e Ceilão, conquista holandesa de Angola, de S. Tomé e do nordeste brasileiro -, o exaurir de recursos canalizados para as guerras continentais que a Casa de Áustria mantinha desde os Pirenéus à Alemanha, do Mar do Norte ao Mediterrâneo Central e Oriental, inevitavelmente conduziram ao 1º de Dezembro que alguns historiadores e os estoriadores de serviço, hoje juram querer defender a memória. Nada mais falso, pois a verdadeira questão é aquela que se prende com a opípara manjedoura que o 5 de Outubro significa. É mesmo aquela peonagem do 5 de Outubro "liquida pátrias" que ergueu os seus alicerces no Casino, rejubilou com o Ultimato como óptimo recurso demolidor e não hesitou por um momento, em esmagar o Estado liberal que tanto sustento material e intelectual lhes propiciara. Tudo isto, recorrendo a inomináveis torpezas que tinham nos costumes e vida privada de fulano e sicrano, ignóbil recurso para discursatas, obras de grande divulgação difamatória e propaganda comicieira. 

 

O tal espírito do Casino está bem vivo, espante-se! Se fossem os tais estoriadores sinceros defensores da memória do liberalismo que negregam dia após dia, dedicar-se-iam agora à defesa da inclusão do 24 de Julho como festa nacional, aliás aquela data marcante que fartamente lhes tem alimentado ambições e barrigas.

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publicado às 16:01

No The Nation, em Bangkok

por Nuno Castelo-Branco, em 20.01.12

 

Os "Guardas Portugueses" de sentinela ao Templo de Wat Po, em Bangkok

 "The Portuguese - the first Europeans to hunt for treasure in Southeast Asia - got off to a poor start, spending two years in the early 1500s violently establishing a foothold in the Malay state of Malacca. Lesson learned, they were more diplomatic in Pegu, Sumatra and Siam.

Just how peaceful their history was in old Thailand will be examined in a conference in Ayutthaya next week on the 500th anniversary of Siamese relations with the West.

Over two days, dozens of scholars will describe what happened half a millennium ago when the hulking, bearded strangers (think of the frightening farang "guardian" statues at Wat Po) first appeared on these shores.

"Malacca was where East met West, and the Portuguese came to take over the maritime trade," historian Charnvit Kasetsiri told reporters during a recent preliminary tour in Malacca, once known as "the Emporium of the East".

The Maritime Museum makes it clear that the Malays still fume about Portugal's invasion. With a replica of the Portuguese ship Flor de la Mar bearing witness, the version of history as told by the loser has it that the wealth of sultans was piled onto that boat and carried off to Europe, along with dozens of skilled female weavers, calligraphers and dancers.

Much more tragically, they didn't get far - the Flor de la Mar sank in a storm off Sumatra.

Also among its haul were letters and gifts that King Ramathibodi II of Ayutthaya was sending to King Manuel I of Portugal.

First contact with Siam occurred before the conquest of Malacca. The viceroy of Portuguese India, Alfonso de Albuquerque, sent his envoy Duarte Fernandes to Siam to make acquaintance. The relationship has continued uninterrupted ever since.

In 1516 Ramathibodi II granted riverside land for a Portuguese settlement and permission to erect a wooden cross, thus guaranteeing their right to worship God as they chose. In return, the Siamese received lucrative market access to Malacca, its erstwhile trading rival.

Apart from the lost lives and letters, it all sounds pleasant enough, and this was mainly to the credit of the Portuguese lan."

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publicado às 08:28

Errata ao meu post sobre o vídeo dirigido à Finlândia

por Samuel de Paiva Pires, em 09.05.11

Alertado pelo Rodrigo Moita de Deus, cumpre-me efectivamente reconhecer que incorri num erro no meu post anterior, pelo qual peço desculpa aos leitores. Não é dito no vídeo que tenhamos sido os primeiros a abolir a escravatura, ao contrário do que indiquei. Fica o reparo, embora a data, contudo, esteja errada. 

 

Devo ainda dizer que estou em acordo com o Rodrigo e outros comentadores. Tenho sérias dúvidas que Cristiano Ronaldo seja melhor que o Ronaldo brasileiro, pelo menos o dos tempos do Barcelona. 

 

De resto, ao que parece e precisamente no sentido do que escrevi, o vídeo já está a ter um efeito contraproducente.

 

E, por último, agradeço a todos os que divulgaram o texto, fazendo disparar o número de visitas e tendo até ao momento sido partilhado por quase 1200 pessoas no Facebook.

 

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publicado às 03:18

 

A respeito do vídeo do momento, dirigido aos finlandeses, estou em crer que este é contraproducente. Para além dos erros históricos grosseiros, é indigno de uma nação com 9 séculos de História colocar-se nesta posição de tentativa de cobrança moral de um apoio aparentemente altruísta em tempo de guerra, quando é mais que certo que nos bastidores da UE a reapolitik obviamente forçará não necessariamente a aprovação mas pelo menos a abstenção por parte do governo finlandês. Não é por acaso que ainda não tendo formado governo, o actual ministro das finanças finlandês, futuro Primeiro-Ministro, defende o apoio ao resgate. E também não será por acaso que o líder dos True Finns tem jogado com esta questão por puro tacticismo a nível de política interna, já se tendo mostrado aberto à aprovação do apoio. Se eu fosse um finlandês, em face deste vídeo, agarrava em meia dúzia de gráficos da evolução da economia portuguesa, colocava-os numa carta ou num vídeo e perguntava: "Se são assim tão bons, porque têm maus políticos e governantes que arruinaram a economia?". E sim, todos sabemos que seremos nós a pagar o apoio. Mas, em primeiro lugar, serão os países da UE a endividarem-se nos mercados para garantir as verbas necessárias ao mesmo, que implica directa e indirectamente dinheiro dos contribuintes dos respectivos países. Não estamos em posição de andar a brincar aos orgulhos pseudo-patrióticos de quem não sabe lidar com a grandeza da sua História, olhando recorrentemente para o passado sem saber como lidar com o presente e o futuro, o que é apenas sintomático da crise de hiper-identidade de que sofremos.

 

Posto isto, importa salientar que me causa alguma perplexidade ver muitas pessoas que me são próximas entusiasmadas com este vídeo. Não só pelo que escrevi acima, mas principalmente porque têm a obrigação, em resultado da sua formação académica, de notar os erros grosseiros que o vídeo contém, bem como a falácia da mensagem final quanto ao apoio à Finlândia na II Guerra Mundial.

 

Não deixa de ser curioso ver muitos dos "anti-fássistas" a tentar cobrar este apoio. Se pensarmos um pouco, não é difícil conceber o contexto em que este aconteceu. Para começo de conversa, em 1940 não existiam os meios de comunicação e de tranporte que existem hoje, e estando ainda as liberdades de iniciativa e associação extremamente mitigadas, não poderia a sociedade portuguesa decidir espontaneamente ajudar um país a milhares de kilómetros de distância. Em segundo lugar, considerando a gestão de equilíbrios que Salazar já vinha a ensaiar desde a Guerra Civil de Espanha, entre a aliança britânica de um lado e Berlim e Roma de outro - não por acaso, apoiou Franco e os nacionalistas por intermédio dos grandes empresários portugueses - e sabendo-se ainda da sua arreigada veia anti-comunista, não causa perplexidade que tenha sido o próprio Salazar a ordenar o apoio. Uma breve investigação levou-me a descobrir que, na verdade, foi o Reino Unido quem abordou Lisboa, Roma e Washington no sentido de apoiar os finlandeses contra a ofensiva da União Soviética. O telegrama enviado pelo Foreign Secretary Viscount Halifax ao Embaixador britânico em Lisboa, W. Selby, é a este respeito ilustrativo. E estou em crer que uma rápida consulta ao Arquivo Histórico-Diplomático nas Necessidades poderá trazer luz sobre a restante troca de telegramas. Perante este pedido, o cálculo pragmático e realista de Salazar não terá estado imbuído de qualquer altruísmo. Na verdade, esta era uma situação vantajosa, porquanto se destinava a combater o perigo soviético e reafirmava a tradicional Aliança Luso-Britânica, que viria a conhecer vários episódios durante a guerra. Tal não obstou, obviamente, a uma nota de agradecimento por parte dos finalandeses.

 

Portanto, não só não há um altruísmo que permita esta recente tentativa de levar a questão do apoio para o campo moral, como, reiterando o que já escrevi acima, me parece indigno de um país como o nosso colocar-se nesta posição. Se querem ser patriotas, sejam-no a todo o momento, em particular fiscalizando os governantes - accountability, como nas democracias liberais de pendor anglo-saxónico.

 

Depois, entre as várias referências, há erros que deveriam saltar logo à vista de qualquer um que saiba um mínimo de História de Portugal e de Política Externa Portuguesa:

 

- Há mais portugueses fora de Portugal que no país - Segundo as últimas estatíscas que encontrei, reportando-se a dados de 1999, 10 milhões de portugueses residem em Portugal, ao passo que quase 5 milhões vivem no estrangeiro.

 

- Arigato é uma palavra portuguesa - este é um mito propagado por muitos. Embora muitas palavras japonesas derivem do português, não é o caso de arigato. Os portugueses chegaram ao Japão em 1543. Há registos da palavra arigato que datam de 759.

 

- Fomos os primeiros a abolir a escravatura, em 1751 - Dois erros numa só frase. Primeiro, não foi em 1751 mas em 1761 que o Marquês de Pombal, no reinado de D. José I, aboliu a escravatura na Metrópole e na Índia. Continuou em África e no Brasil, já que o comércio de escravos era bastante rentável, como é sabido. Só pelo Decreto de 10 de Dezembro de 1836, pela mão de Sá da Bandeira, que se dedicou a essa causa, foi efectivamente abolido o tráfico de escravos, embora com excepções. Em 1854 foram libertados os escravos do Governo e só em 1869 é que de facto é abolida a escravatura em todos os territórios portugueses. Em segundo lugar, no campo das leis abolicionistas que não o foram de facto, como aconteceu com Portugal (efectivamente, os territórios do império eram Portugal), a primeira é espanhola e data de 1542. No campo das que o foram de facto, a primeira data de 1833, trata-se do Slavery Abolition Act do Império Britânico (no qual, aliás, Sá da Bandeira se inspirou).

 

-Fomos o primeiro país a abolir a pena de morte - outro mito. Depois de vários tentativas, fizemo-lo  em 1867. Antes disso, o primeiro país a aboli-la, embora hoje em dia a pratique, foi a China, em 747 (durou até 759), durante a Dinastia Tang, pelo Imperador Xuanzong. Seguiu-se o Japão, em 818, embora tenha voltado a adoptá-la em 1156. Em 1849 foi a vez da República Romana, em 1863 a Venezuela, e ainda antes de nós, em 1865, São Marino. 

 

- Por último, e embora provavelmente existam mais erros e imprecisões, há um que é particularmente gritante. Segundo o vídeo, Napoleão tentou conquistar Portugal três vezes e falhou. Fiquei tão perplexo perante esta que achei que já não sabia nada de História. A verdade é que a segunda e a terceira das Invasões Napoleónicas foram efectivamente goradas. Mas a primeira, não só teve sucesso como levou à saída da Família Real para o Brasil. D. João VI havia dado ordens para que não fosse oposta resistência às tropas francesas, chegando Junot a Lisboa a 30 de Novembro de 1807, sendo recebido pela Junta de Regência, já depois de ter sido assinado entre França e Espanha o célebre Tratado de Fontainebleau. Junot instalou-se e governou o país a partir de Lisboa, chegando a hastear a bandeira francesa no Castelo de S. Jorge. Embora inicialmente a Junta de Regência tivesse conservado formalmente as funções de Governo em conjunto com os franceses, a partir de 1 de Fevereiro de 1808 um decreto de Napoleão declarou a anexação de Portugal, dissolveu a Junta de Regência e instituiu um Conselho de Governo, formado pelos antigos membros da Junta mas presidido por Junot. Só a partir de Maio é que começam as revoltas populares contra os franceses, que encontram o apoio das forças inglesas, lideradas por Wellesley, no final de Julho, início de Agosto.

 

Só para finalizar, recomendo ainda a leitura deste post e deste (que aponta mais erros para além dos que indiquei) e que tenham bem em mente que, provavelmente, aquilo que os Finlandeses mais quererão saber sobre Portugal, assim como os restantes membros da UE, é, como salienta o João Miranda, se José Sócrates será reconduzido no cargo de Primeiro-Ministro. 

 

(Errata, adicionada a este post às 15h45 de 9 de Maio, já depois de ontem ter sido assinalada noutro post: Alertado pelo Rodrigo Moita de Deus, cumpre-me efectivamente reconhecer que incorri num erro no meu post anterior, pelo qual peço desculpa aos leitores. Não é dito no vídeo que tenhamos sido os primeiros a abolir a escravatura, ao contrário do que indiquei. Fica o reparo, embora a data, contudo, esteja errada). 

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publicado às 19:00

A mão monárquica

por Nuno Castelo-Branco, em 08.05.11

O video do momento, é um eloquente exemplo do esmagador peso da recordação da Monarquia Portuguesa. Praticamente todos os feitos e figuras históricas, correspondem integralmente ao período em que Portugal vivia seguro com a sua Monarquia. Mesmo quando quase à margem se invoca o século XX, surge Aristides Sousa Mendes, outro declarado realista. No Centenário da República que nos conduziu ao desastre, os autores nem sequer esqueceram D. Carlos I.  Um curto filme para consumo interno e que é dado a conhecer, num momento em que as duas últimas gerações não fazem a mínima ideia acerca do solo que pisam e dos antepassados que tiveram.  Mais ainda, este video é um terrível dedo acusador a este regime.

 

Como conclusão, podemos dizer que o presidente da Câmara de Cascais anda bem acompanhado.

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publicado às 09:42

Pseudo-nacionalistas portugueses e lições de História

por Samuel de Paiva Pires, em 04.04.11

Já há uns tempos publiquei aqui este vídeo. Fica novamente à consideração dos preclaros leitores. Um dos momentos mais lúcidos de Marcelo Rebelo de Sousa. De resto, se a alguém aprouver, também há uns tempos publiquei aqui umas breves notas sobre os conceitos de nação, nacionalismo e estado

 

 

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publicado às 01:04

Hoje, 28 de Abril, António de Oliveira Salazar faria 121 anos. Há três anos coloquei este post no Café, corria o ano de 2007, no qual havia sido publicado o livro Como levantar um Estado, com base num texto elaborado por Salazar para a Exposição Mundial de Paris, em 1937.
O post continua a ser muito oportuno e os excertos nele contidos, como se de algo intuitivo se tratasse, fazem no momento presente ainda mais sentido do que há três anos. Não sei se felizmente se infelizmente...
"Perante a Nação, mal despertada do seu torpor, reanimando-se penosamente de um pessimismo doentio, forçada pelas circunstâncias a defender o seu nome, a sua vida e a sua histórica missão civilizadora, aquele que governa não pode ver interesse nas mudanças superficiais que deixam intacta a causa dos males, mas sim, e unicamente, nas profundas transformações económicas, sociais e políticas que dão origem a novos costumes e a novas concepções de vida social e os garantem.

Um outro artigo também com bastante interesse sobre A.O.Salazar.

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publicado às 02:15

Pelo aniversário de Herculano III

por P.F., em 29.03.10


Alexandre Herculano, o "político"

 

 

 

Pelo Prof. Doutor José Augusto Seabra

 

«Sei que Deus é Deus e o homem livre»

 

Onde começam e terminam pois a poesia, a religião, a filosofia, a economia, a sociologia e a política? É preciso ainda não esquecer que, na visão de Herculano, a liberdade — por individual que seja — encarna comunitariamente numa instituição histórica: o municipalismo, que de Idade Média Portuguesa, por ele a fundo estudada, quis transplantar para a actualidade. Que admira que o liberalismo acabe por se negar aparentemente a si mesmo, a tal ponto que, combatendo como combatia a democracia e a república, tenha um dia desabafado: «sem ser republicano, chego a pensar que sou o único democrata neste país».

 

E, no entanto, a democracia, ao impor o princípio da vontade das maiorias, era-lhe insuportável, tanto como a tirania: «que a tirania de dez milhões se exerça sobre um indivíduo, que a de um indivíduo se exerça sobre dez milhões deles, é sempre a tirania é sempre uma coisa abominável». A inferioridade ou superioridade da República face à Monarquia, enquanto regimes políticos, é entretanto para ele uma «questão secundária», pois tão ilegítimo lhe parece «o direito divino da soberania régia, como o direito divino da soberania popular». Num e noutro caso, o erro está precisamente em considerar a soberania como um «direito», quando, em sua opinião, «a soberania não é direito, é facto». Como, pois, aplicar-lhe a teoria do «Contrato Social» de Rousseau, baseada na ideia da «vontade da maioria» como «vontade geral»? Não, para Herculano, que diz nunca ter encontrado uma «definição precisa e rigorosa» da democracia, não se trata senão, no fundo, de «apoucar o indivíduo» e «engrandecer a sociedade».

Da condenação da lógica democrática ele infere consequentemente a do socialismo: «a democracia — diz ele — estende constantemente os braços para o fantasma irrealizável da igualdade social entre os homens, blasfemando da natureza que, impassível, os vai efervescente gerando física e intelectualmente desiguais». (...)

E, finalmente, Herculano acaba por considerar o socialismo uma religião, no sentido dogmático do termo: «o socialismo é uma espécie de religião e, como todas as religiões, tem dogmas, e os dogmas, por via de regra, pertencem ao mundo do sobre-inteligível»

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publicado às 03:23

Pelo aniversário de Herculano II

por P.F., em 29.03.10

 

Pelo Prof. Doutor J. Veríssimo Serrão (pp.96-97)

Alexandre Herculano e a fundamentação da História de Portugal

 

 

Disse há pouco que Herculano foi um cristão não praticante, mas nunca adversário da Igreja. O seu pensamento liberal impunha-lhe uma ampla tolerância para com uma instituição que prestara os maiores serviços na fundação do reino. Nas suas andanças por terras dentre Douro e Minho pôde ele captar um quadro histórico e realidades humanas que o deixaram surpreso. A variedade da paisagem, as manifestações religiosas, a traça dos monumentos, os claustros solitários, os túmulos carcomidos, tudo lhe dera a consciência do tempo passado que ajudara a forjar uma grande nação. Por isso Herculano protestou com veemência contra as depradações e roubos que se faziam no património artístico, todo ele de marca espiritual e que perpetuava a voz de uma Igreja que moldara o carácter, a sensibilidade e o patriotismo dos homens. A venda ao desbarato dos templos e relíquias conventuais não era de molde a dignificar um liberalismo que mergulhava as raízes na Idade Média, berço histórico da Nação. Daí o seu clamor, numa hora de profunda reflexão e que traduziu em página de belo recorte literário, ao mostrar que não podia haver contradição entre o ideal fidelista da meia Idade e a cartilha dos liberais: se um erguera o amor da Pátria, a outra garantia a sua permanência histórica. Negar os valores do passado era, para o nosso autor, uma ingratidão, quase um crime:

  

«Oh! que se a minha débil voz pudesse retumbar nas paços dos grandes e no conselho dos legisladores, eu lhes dissera: Nossa glória passou, e o nome português é a fábula do mundo. Caídos no fundo do nosso abatimento, incertos acerca do futuro, é para o passado que, sem rubor ou sem custos, podemos volver os olhos: não apagueis portanto na face da terra natal todos os vestígios de recordações de consolo. Esses claustros, esses templos ora desertos, eram cheios de vida e de ruído em dias de virtude e de renome, e por baixo dessas lagens dormem homens que nos legaram larga herança de boa fama. Não vendais ao rico as ossadas dos nossos antepassados, que disso tomarão as raças vindouras estreita conta à vossa memória, nem fieis da piedade do abastado, porque a infâmia que lhe aumentar os tesouros, deixa de lhe ser infâmia. Ele espalhará ao vento as cinzas avitas, com o mesmo descaro com que o verdugo espalha as do justiçado, condenado a assim cumprir com sua justiça. Monumentos da história e fonte de meditações são os sepulcros, e em quase todas essas campas, hoje cobertas de musgo, se lê em letras meias gastas o nome de varões abalisados. Eles passaram, mas oxalá nunca a sua memória pereça. É ela o grito de consciência nacional: este grito, se o deixardes soar, talvez ajude a liberdade a regenerar os nosso filhos...»

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publicado às 02:27

Pelo aniversário de Herculano

por P.F., em 29.03.10

 

Pelo Prof. Doutor J. Veríssimo Serrão (p.91)

Alexandre Herculano e a fundamentação da História de Portugal

 

Torna-se assim possível compreender a metodologia de Herculano com vista à edificação de uma história causal, isto é, um labor de investigação que procura encontrar o fio explicativo dos factos numa ampla visão documental e crítica. O historiador não devia encarar à luz do presente o que tinha forçosamente de ser visto à luz do passado, impondo-se-lhe recuar no tempo, como se fora um homem de outras eras, para descrever os sucessos então ocorridos. Mas descrever com verdade, pondo esta acima de tudo, mesmo que tocasse em lendas venerandas, mesmo que ferisse crenças seculares. A verdade estava acima de tudo e de todos, como dogma fundamental do ideário do historiador. Entra-se assim na zona crítica do pensamento de Herculano, buscando os seus conceitos de patriotismo e de religião quando aplicados à história. Para ele, as tradições irreais e desprovidas de sentido não tinham aproveitamento no campo histórico. Tudo dizendo: Herculano comportava-se como um cientista e não como português, colocando a isenção, norma da consciência, acima do sentimento que é a voz do coração. Era uma posição nova na cultura nacional e que traduziu na mais pura forma antológica:

 

 

 

 «Tenho fé que não me cegou malevolência para com os estranhos, nem parcialidade pela terra natal. Para o homem sacrificar a longas e áridas investigações, frequentes vezes sem resultado, todas as faculdades do espírito, quase todas as horas da vida, com o intuito de dar ao seu país uma história, senão boa, ao menos sincera, é necessário, creio eu, algum amor da pátria. Cifrei-o nisso tão somente. Convertendo em realidade o meu pensamento, procurei esquecer-me de que sou português e parece-me tê-lo alcançado. O patriotismo pode inspirar a poesia; pode aviventar o estilo; mas é péssimo conselheiro do historiador. Quantas vezes, levado de tão mau guia, ele vê os factos através do prisma das preocupações nacionais, e nem sequer suspeita que o mundo se rirá, não só dele, o que pouco importará, mas também da credulidade e ignorância do seu país, o qual desonrou, crendo exaltá-lo...»

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publicado às 01:46

Nunca me tinha acontecido...

por Samuel de Paiva Pires, em 11.09.08

...chorar pelo meu país. Aconteceu esta noite, depois de terminar a leitura de determinada obra sobre a figura principal do século XX português. Não sei para onde caminhamos actualmente mas sei que não deveria ser em direcção ao abismo para que nos vamos quotidianamente precipitando.

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publicado às 05:51






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