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The Moreira case-study

por John Wolf, em 12.04.17

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Tenho fama de distribuir chapada a torto e a direito - mais à esquerda do que à direita -, para ser coerente e honesto, mas aprecio casos de sucesso. Escuto com a devida atenção as histórias daqueles que ousaram romper com as regras da casa, aqueles que têm uma visão que transcende as formatações de quadros mentais estanques. O Presidente da Câmara do Porto Rui Moreira deve servir de farol para a construção de um novo ADN político. O homem do Norte não deve ser apenas daquela região. A declaração peremptória de que não haverá  jobs for the boys deve fazer parte do caderno de encargos de todas as agremiações políticas. E aqui não faço distinções. A farinha é a mesma seja qual for o saco de interesses partidários. São comunas que metem a cunhada Aliete no serviço. São sociais-democratas que lançam o Martim na banca. São socialistas que enchem de afilhados os corredores da PT. O que Moreira afirma é, em certa medida autofágico, mas obrigatório. É a promiscuidade e a proximidade de interesses que esmaga a excentricidade criativa do mérito desfiliado. É o incesto partidário que produz aberrações. Mas é sobretudo o fundamentalismo ideológico que mata e mói nesta ordem invertida. Rui Moreira declama qual o seu campo de crenças, com toda a naturalidade, mas não cerra fileiras. Abre a vedação. Professa uma salutar forma de ideologia civil. E quanto às obras no Porto. Onde está o pó das autárquicas? Também irão a votos.

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publicado às 10:59

Liberais e conservadores precisam uns dos outros

por Samuel de Paiva Pires, em 13.02.17

George H. Nash, "Populism, I: American conservatism and the problem of populism":

In the late 1950s and early 1960s the three independent wings of the conservative revolt against the Left began to coalesce around National Review, founded by William F. Buckley Jr. in 1955. Apart from his extraordinary talents as a writer, debater, and public intellectual, Buckley personified each impulse in the developing coalition. He was at once a traditional Christian, a defender of the free market, and a staunch anticommunist (a source of his ecumenical appeal to conservatives).

 

As this consolidation began to occur, a serious challenge arose to the fragile conservative identity: a growing and permanent tension between the libertarians and the traditionalists. To the libertarians the highest good in society was individual liberty, the emancipation of the autonomous self from external (especially governmental) restraint. To the traditionalists (who tended to be more religiously oriented than most libertarians) the highest social good was not unqualified freedom but ordered freedom grounded in community and resting on the cultivation of virtue in the individual soul. Such cultivation, argued the traditionalists, did not arise spontaneously. It needed the reinforcement of mediating institutions (such as schools, churches, and synagogues) and at times of the government itself. To put it another way, libertarians tended to believe in the beneficence of an uncoerced social order, both in markets and morals. The traditionalists often agreed, more or less, about the market order (as opposed to statism), but they were far less sanguine about an unregulated moral order.

 

Not surprisingly, this conflict of visions generated a tremendous controversy on the American Right in the early 1960s, as conservative intellectuals attempted to sort out their first principles. The argument became known as the freedom-versus-virtue debate. It fell to a former Communist and chief ideologist at National Review, a man named Frank Meyer, to formulate a middle way that became known as fusionism—that is, a fusing or merging of the competing paradigms of the libertarians and the traditionalists. In brief, Meyer argued that the overriding purpose of government was to protect and promote individual liberty, but that the supreme purpose of the free individual should be to pursue a life of virtue, unfettered by and unaided by the State.

 

As a purely theoretical construct, Meyer’s fusionism did not convince all his critics, then or later. But as a formula for political action and as an insight into the actual character of American conservatism, his project was a considerable success. He taught libertarian and traditionalist purists that they needed one another and that American conservatism must not become doctrinaire. To be relevant and influential, it must stand neither for dogmatic antistatism at one extreme nor for moral authoritarianism at the other, but for a society in which people are simultaneously free to choose and desirous of choosing the path of virtue.

 

(...).

 

What do conservatives want? To put it in elementary terms, I believe they want what nearly all conservatives since 1945 have wanted: they want to be free; they want to live virtuous and meaningful lives; and they want to be secure from threats both beyond and within our borders. They want to live in a society whose government respects and encourages these aspirations while otherwise leaving people alone. Freedom, virtue, and safety: goals reflected in the libertarian, traditionalist, and national security dimensions of the conservative movement as it has developed over the past seventy years. In other words, there is at least a little fusionism in nearly all of us. It is something to build on. But it will take time.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 16:54

Do dogmatismo da ideologia de género

por Samuel de Paiva Pires, em 08.02.17

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Camille Paglia, "Liberdade vs. politicamente correcto," Ler, no. 144 (Inverno de 2016): 67:

Mantenho, de acordo com a minha desalentada observação na época, que esses novos programas suplementares raramente, ou mesmo nunca, se alicerçavam em princípios académicos autênticos: eram gestos de relações públicas destinados a abafar críticas de um passado intolerante. Na concepção de qualquer programa de estudos femininos, por exemplo, devia ser obrigatório para as alunas fazerem pelo menos uma cadeira de biologia básica, para que o papel das hormonas no desenvolvimento humano pudesse ser investigado - e rejeitado, se necessário. Mas não, tanto os estudos femininos como, mais tarde, os estudos de género evoluíram sem referência à ciência, garantindo desse modo que a sua ideologia permaneceria partidária e unidimensional, a sublinhar a construção social do género. Qualquer ponto de vista diferente é considerado uma heresia e praticamente nunca foi sequer apresentado aos estudantes como hipótese alternativa.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 23:28

Geringonça is so 2015

por John Wolf, em 16.01.17

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O Partido Socialista (PS) está a ter dificuldades em engolir em seco. Não está a conseguir encaixar o que se está a passar e a Ana Catarina Mendes Pedroso é o exemplo vivo de alguém que ainda não entendeu as transformações em curso no nosso mundo. Sempre existiram bons e maus comunistas, péssimos e excelentes social-democratas ou medianos e magníficos socialistas. A Taxa Social Única simplesmente não serve de bitola do que quer que seja. Em causa está a natureza parcelar da Política. São causas avulso que permitem distinguir uns de outros. Ora assumir de antemão a vontade de outrém roça a sobranceria autoritária. Sempre dei o braço a torcer e aplaudi a iniciativa do homem livre, desprovido de ensinamentos de mestres e ideologias caducas. Não se podem erguer muros em torno de reservas oportunistas. Até parece que a concertação social é uma invenção do Largo do Rato e da Esquerda. Errado. Desde sempre, desde Chicago, se quisermos, as negociações entre trabalhadores e patrões, assalariados e pagadores, decorreram, tratando essencialmente de matérias validadas intrinsecamente e não por ditames ideológicos. O Partido Social Democrata ou o Bloco de Esquerda, para todos os efeitos, podem e devem quebrar a "alegada disciplina ideológica" que o PS reclama como regra de ouro. Isso faz vibrar a democracia. Existem social-democratas comunas, como existem socialistas de extrema-direita, mas não significa que sejam nem peixe nem carne. Se não querem ver com olhos de ver, então estão metidos em grandes sarilhos. A NATO já não é a NATO, a União Europeia já não é a União Europeia, a Presidência dos EUA já não é a Presidência dos EUA, mas o PS continua igual a si. Geringonças há muitas. Depende da perspectiva.

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publicado às 09:15

Pensar fora da CGD

por John Wolf, em 02.12.16

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A malta pensa que me conhece. Os leitores, de um modo geral, arrumam as obras nas estantes. Fazem catálogos. Organizam ideias em categorias específicas. Rotulam uns como sendo de Esquerda e outros enquanto expoentes de Direita. Chamam ricos a uns e pobres a outros. E não existe nada de mais errado, no que me diz respeito, e no que toca ao conceito de arrumação mental em abstracto. António Costa faz parte da classe de arrumadores. Pertence ao rol de estacionadores de ideologias, e essa prerrogativa operativa provoca chatices. Porque de repente é se apanhado em contramão. Sem se dar conta entra-se no itinerário principal e esbarra-se de frente com um conjunto de convicções. Mas Costa insiste e não admite que teve de chamar o bombeiro inimigo para apagar o fogo que lavra na caixa de fósforos. Ora vejam: "O governo não é dono do processo de seleção e aprovação dos novos administradores da Caixa Geral de Depósitos, que, por ser um banco sistémico, cai na supervisão europeia." (in Observador). Deveria deixar-se de tangas e admitir que a competência não é exclusivo da casa cor de rosa. Esperemos que esta iniciativa de recurso sirva de lição de um modo transversal aos partidos. O talento e as qualidades humanas existem para além do firmamento de uma bíblia política. Nesta vida tudo é possível. Já tivemos o inverso. Já tivemos a transferência de passe de uma dispensável Zita Seabra de um sector de bancada para outro, mas sem qualidades assinaláveis. Já tivemos um Barroso MRPP que agora é Goldman Sachs. Mas aqui lidamos contra outra estirpe de distinção. Paulo Macedo deu a volta magistral à Autoridade Tributária - pôs a máquina a funcionar. Paulo Macedo esteve no sector de saúde com resultados assinaláveis. Enfim, e em jeito de inconclusão, temos homem para dar a volta a muito texto. É raro encontrar alguém que não se deixa estragar pela política. Aprende, António Costa. E passa a palavra às infantas - à Catarina Martins e às manas Mortágua -, que pelos vistos pecam por falta de educação e sentado de estado. Não se levantem e não aplaudam. Macedo não é monárquico.

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publicado às 09:24

Costa - o grande ditador de Esquerda

por John Wolf, em 23.11.16

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Costa está todo lançado. Está inspirado. Trump deu-lhe a volta à cabeça. A Europa está a ressacar de 50 anos de promessas furadas de estado social, liberdades e garantias, de pão e paz para todos, casa, carro e férias sem restrições, e agora, que a coisa deu para o torto, os conservadores fazem a festa. Ainda não perceberam que a cenoura à frente do burro já foi charro que deu urros? É o passe infantil da Carris para o menino e para a menina, é o falseamento das prestações devidas ao FMI, e de lenga-lenga a peta maior ou menor, a Esquerda continua a basear o seu guião no mesmíssimo filme que nos conduziu a este estado de arte. A promessa ou ameaça de António Costa permanecer para uma década de governação enferma de diversos vícios democráticos. Assume  a imaculada estância de verdade das suas propostas e concentra na sua figura o sucesso de um país inteiro. Apenas um crápula arrogante pode declarar deste modo despudorado ao que vem - poder fascina-o, o país logo se vê. A época do politicamente correcto acabou em definitivo. A sua confissão de peito aberto lembra regimes autoritários, ditadores que à época não dispunham do beneplácito dos media para ombrear intenções - eram a voz. Portugal prima pela excepcionalidade. Mas não será desta natureza. A Europa está a dar uma guinada forte e António Costa quer ser o cubano do continente. O último a descolonizar-se das balelas que já nos foram cantadas vezes sem conta.

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publicado às 10:19

Roteiro de viagens de Trump à Europa

por John Wolf, em 14.11.16

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A eleição de Trump abriu uma brecha no sistema político por onde alegadamente dizem entrar luz. Temos em mãos um roteiro de viagens que oferece caminhos alternativos, uns mais difíceis do que outros. Designemos as coisas de um modo correcto. A direita conservadora está no poder nos EUA, enquanto a Europa se encontra em processo de reconfiguração. Mas existem semelhanças e distinções flagrantes. A bandeira da imigração é um dos pilares indiscutíveis de sustentação das propostas políticas de um lado e de outro do lago. Ou seja, uma entidade excêntrica não estadual está a determinar as agendas domésticas. A campanha de Trump assentou na premissa de que a cada Estado deve corresponder um conceito de população estanque, não sujeito a negociações. Durante o período de instigação de paixões territoriais, o termo nação não foi convocado. Porque a nação americana não existe no sentido clássico, tradicional. Porque sugerir o debate do significado de nação seria reavaliar o ADN dos EUA. A América é a amálgama incerta. Os EUA são a perfeita expressão de volatilidade cultural, da chegada de forasteiros com expressão muito mais intensa do que a sua eventual partida. Todos observam com atenção a definição do programa de governação de Trump, usando enquanto bitola o programa de campanha eleitoral. Se o primeiro for uma fotocópia do segundo, sem tirar nem pôr, a direita europeia que se encontra na fila de espera do poder, deve replicar a disciplina ideológica, não cedendo em campanha perante as exigências de detractores políticos. Por seu turno, se houver maleabilidade ideológica de Trump, e cedências de discurso que coincidam com acção concreta, a direita europeia vê uma parte do seu tapete tirado por debaixo dos pés. Teremos a breve trecho uma amostra de posicionamento que pode servir de guia para ambições maiores. Em Dezembro a Áustria terá um processo eleitoral presidencial que eventualmente terá sofrido o desgaste e os efeitos de contágio da experiência americana. E em menos de um ano a Itália, a França, a Holanda e a Alemanha serão expostas a influências cumulativas que incluem o processo americano, assim como aquelas produzidas no próprio espaço da União Europeia (UE). Ou seja, o concerto de eleições europeias, embora dependente do tabuleiro americano, joga a sua própria partida endémica. A Europa, embora tenha ou possa vir a ter a tentação de responsabilizar os republicanos americanos e o povo dos EUA pelas alterações políticas em curso, terá de confrontar as várias nuances ideológicas que configuram a UE. A tarefa de Trump é relativamente mais fácil do que aquela que a alegada UE tem de enfrentar. A federação dos EUA é, para todos os efeitos, uma superficie soberana contínua. A UE é uma colecção de Estados soberanos que desejarão manter os seu respectivos perfis político-ideológicos. Em função dos resultados das eleições na Áustria ou em França, os Portugueses ou os Espanhóis quererão demonstrar inequivocamente que não são uma coisa nem outra, que são diferentes. Contudo, esse eventual distanciamento não significa necessariamente um afastamento ideológico. Significa que cada país-membro da União Europeia ainda quer ter a paternidade sobre os destinos do seu Estado. E isso pode significar um aceleramento do processo de desmontagem da UE ou um alinhamento ideológico questionável para dizer o mínimo.

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publicado às 09:50

Mea culpa Trump

por John Wolf, em 09.11.16

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Começo por realizar um mea culpa. Deixei-me levar pelos media dos EUA. Acreditei, de facto, na imparcialidade dos jornais e estações de televisão, nas emissões com paineis de especialistas, nos fabricantes de sondagens e no status quo dos meus compatriotas. Não votei em Trump, mas à luz da sua eleição, devo conservar o espírito construtivo e procurar acreditar que o povo americano deve saber interpretar e moldar a excepcionalidade deste desfecho. Seria faccioso e fundamentalista político, mas acima de tudo hipócrita, se não responsabilizasse a própria Hillary Clinton pelos resultados e os limites das suas ambições. Houve, na senda do partido Democrata, uma insistência na velha escola, nos valores autofágicos, e na rejeição da revolução que não veio a acontecer. Enquanto conhecedor do sistema político americano sei que qualquer exagero comportamental de Donald Trump encontrará barreiras e fará soar alarmes. Quer o desejemos ou não, uma nova ordem mundial está a ser construída e assenta numa premissa fundamental. Os diversos povos do mundo há muito que vêm reclamando uma alteração das regras de jogo. Veremos como a Europa nos seus diversos processos electivos se reconfigura. Como já foi democraticamente enunciado no século XIX: I don´t agree with what you say, but I´ll defend to death your right to say it.  Em nome da nossa própria sanidade mental aguardemos então que as palavras descabidas de Trump apenas parcialmente sejam convertidas em actos, e que uma epifania política possa brotar do pântano de Washington que alguém diz que prontamente será drenado.

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publicado às 09:03

Morrer à espera do SNS

por John Wolf, em 23.06.16

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Os socialistas, bloquistas e comunistas não pouparam o governo anterior, acusando o mesmo de estar a matar os portugueses. Mas a geringonça parece querer ir mais longe. Promete conceder uma morte lenta aos utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS). António Costa bem pode carregar em ombros o pai do SNS, mas será a própria ideologia de Estado-monopolista a arma escolhida para desferir o golpe misericordioso nos doentes de Portugal. Na mesma linha de pensamento tosco sobre a exclusividade da escola pública, deparamo-nos com uma situação mais dramática, um enredo de vida ou morte. Por alguma razão, ao longo das últimas décadas, o sector privado de saúde serviu para colmatar as lacunas e insuficiências do SNS. O que mudou do dia para a noite? De repente, a toque de caixa, o SNS vai ter capacidade para atender às imensas filas de espera de pacientes? Tudo isto soa a teimosia ideológica. Mas há semelhanças com o que se passa no sector do ensino - o professor de Faro colocado à última hora em Bragança (?). Assim sucederá como o doente oncológico de Cuba (Alentejo) que terá de fazer malas para ser operado nos Açores. Dizem eles, com os três dedos em cada mão, que o SNS tem capacidade para servir os utentes. Eu sei o que querem fazer. Querem amputar as despesas com saúde, mas dando a volta ao texto, para que pareça o elogio da causa pública, do interesse nacional. Treta. Um governo incapaz de gerar dinâmica na economia apenas pode fazer uma coisa - cortar a torto e a direito. Os senhores-funcionários-públicos-médicos-cirurgiões que se preparem. Vão ter sessões contínuas. Mas podem dormir nos corredores dos hospitais se encontrarem uma maca.

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publicado às 09:07

Esses porcos alemães

por John Wolf, em 30.05.16

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Não sou um especialista. Não sou um fiscalista. Não sou constitucionalista. Não sou político. E não sei se o bater do meu coração é público ou privado. Já não sei nada. Mas arrisco o seguinte: o governo de Portugal está a mexer de um modo irresponsável em conceitos existenciais profundos. Coloca em causa uma tese que ouso avançar: os direitos, liberdades e garantias do próprio Estado estão a ser postos em causa. O governo que cessa os contratos de associação com os colégios privados abre uma enorme caixa de Pandora. A cisão, profundamente ideológica, arrasta para o debate todos os domínios existenciais do exercício de prerrogativas do Estado. O mais perverso desta acção de manipulação é que se trata de uma purga interna. Como se a partir de agora fosse tabu o Estado emprestar a mão a privados. Ao demarcar uma linha tão áspera, o governo em funções, relança rancores ideológicos do antigo regime, reaviva dissabores que obrigam Portugal a regressar a tempos penosos. Divide um país entre bons e maus, oprimidos e exploradores. Na testa dos portugueses passam a estar tatuadas as palavras privado ou público. O governo colide com o conceito que o define, com a sua missão de redistribuição e justiça social. Deveria na minha opinião criar dois regimes contributivos. Um para aqueles que desejem ver os seus impostos servir as causas públicas, e outro para os que defendem que o seu dinheiro deve ser usado exclusivamente em prol de causas privadas. Quando as coisas dão para o torto na função pública o que faz o governo? Recorre à fígura da requisição civil. Ou seja, são os privados que emprestam a mangueira para apagar os fogos. Este país está a tornar-se cada vez mais ridículo. E muito por culpa dos que estão no governo. Um dia precisarei da vossa ajuda. E onde ireis estar? A secretária de Estado da Educação, que alegadamente tem descendência a estudar na Escola Alemã, devia ficar caladinha. São os contribuintes alemães que financiam uma parte da operação desse colégio. Assunto encerrado.

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publicado às 13:27

Orçamento número 44

por John Wolf, em 23.02.16

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Alguém pode ajudar? Estou a tentar falar com o ministro Vieira da Silva. Já liguei para o Parlamento uma série de vezes e informam-me que o senhor está a discursar e que está muito ocupado. Está a falar insistentemente sobre evasão fiscal e do delapidar de contas públicas. E também sobre solidariedade. Mas esqueceu-se de um pequeno pormenor que não deve fazer parte dos capítulos do Orçamento de Estado de 2016. Gostava de saber que medidas de controlo e sanção serão implementadas por forma a que alguém do aparelho de poder não deite a mão a dinheiro alheio? Sim, estou a pensar em José Sócrates. O herói do Simplex. O homem do Magalhães. E alegadamente o homem dos offshores e malas de euros. Gostava de saber qual o impacto orçamental dos devaneios do número 44 nos anos passados e vindouros? Ao bom estilo socialista, a memória é selectiva. Não lhes convém lembrar essa pedra no sapato. Vieira da Silva, campeão da solidariedade, não passa de um dispensador de frases-feitas, de um mero gestor de máximas socialistas completamente desfasadas da realidade. O governo em funções declama a poesia de justiça económica e social, mas não explica como vai financiar a fantasia. As contas não irão bater certo por mais que insistam na superioridade moral. Onde está o corte nas gorduras do Estado que escorreram em tantos cartazes de campanha do Partido Socialista? Como irão gerar emprego? Não explicam. Mas garantem que o crescimento económico é uma dimensão sem ligação ao emprego. Ora para isso acontecer, as contribuições fiscais têm de aumentar. E aqui reside grande parte da mentira económica e financeira que não passará em claro junto dos credores internacionais e dos eleitores. O Orçamento de Estado (OE) respeita a Constituição (?), repetem eles como se fosse uma mantra, mas esqueçem que esse "diploma" não é uma ferramenta de governação. Quanto muito será um modelo de orientação. E aqui reside mais um problema. A sua ortodoxia ideológica, fruto de calores revolucionários, tem sido o entrave, uma parte do conjunto de obstáculos à modernização de Portugal, mas também do Estado e da administração pública. O debate de apresentação e aprovação do OE não sai daquela sala. Não passa do Parlamento. Não migra para a verdadeira dimensão da realidade portuguesa. O governo, defendendo-se sem ser atacado, demonstra a sua vulnerabilidade. Nem sequer consegue liderar da retaguarda. E espelha irremediavelmente algo complexo e pertença da realidade política nacional. A ideologia, seja qual for, domina para bem e para mal. E os socialistas são particularmente dotados na expressão dessa cegueira. Chamem Sócrates que ele deve saber responder a questões de superioridade moral e ética.

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publicado às 15:15

O PREC do TRAQUE

por John Wolf, em 08.10.15

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O governo de Passos Coelho e Paulo Portas tenta a todo o custo travar o Processo Revolucionário em Curso (PREC II) levado a cabo pelo Trio de Ataque , também conhecido por TRAQUE e formado pelo Partido Socialista (PS), a Coligação Democrática Unitária (CDU) e o Bloco de Esquerda (BE). Nesse sentido, e colocando o interesse de Portugal acima de questões ideológicas, a coligação procura encontrar as linhas mestras de um entendimento que evite o marasmo e a confusão políticos em Portugal. O PS, que se encontra em cacos após a utópica promessa de governar a solo, talvez não encontre tão rapidamente melhor oportunidade para chegar perto de mandar no que quer que seja. A extremização dos socialistas, e subsequente convocação de novas eleições, certamente que afastaria ainda mais simpatizantes da sua franja de apoio. E acresce a esse facto que grande parte das propostas do governo de coligação têm o assentimento dos socialistas, embora estes se vendam como radicais e distintos dos restantes. Mas não é bem assim. A verdade é que o condicionamento económico e financeiro de Portugal mitiga as apirações de qualquer entidade política.  Não existe margem suficiente para grandes aventuras, lamentavelmente. A ideologia, invocada a torto e a direito, há muito tempo que foi substituída por conceitos operativos que buscam soluções a montante e a jusante, à Esquerda e à Direita. Os socialistas não entenderam isso e estão limitados pela sua imagem de marca, o seu branding. Entramos, deste modo, numa nova fase de política em Portugal. Bastará à coligação, fazendo uso de alguma inteligência estratégica, abraçar os socialistas. Se de facto a recuperação económica ganhar ainda mais pernas para andar, o PS poderá fazer parte da solução e não do problema, reclamando para si uma parte desse sucesso. Sendo do contra, os socialistas arriscam-se a ver bonitos do governo de coligação e a perder o comboio que já está em andamento. Ultimamente no Largo do Rato tem faltado algum juízo e bom-senso. Julgava Costa que o crédito do património socialista seria suficiente para ganhar tudo e todos. Mas ele insiste. A casa de apostas do Rato parece desejar mais um flop. Maria de Belém não é uma figura icónica que possa beneficiar de uma moção de confiança presidencial dos portugueses. A bússola socialista está efectivamente escangalhada. Talvez não fosse má ideia António Costa negociar algo que bem conhece - o Ministério da Justiça. O que pensaria Sócrates sobre esta hipótese? Não está mal pensado, pois não?

 

Trio de Ataque foi uma designação proposta pela minha amiga Ana Luísa Ferreira Rodrigues para a coligação PS-CDU-BE. A expressão simplificada TRAQUE é de minha autoria.

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publicado às 11:10

A economia como ideologia da vida moderna

por Samuel de Paiva Pires, em 21.09.15

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Roger Scruton, How to be a Conservative:

There is another reason, too, why our politicians have succumbed to the bureaucrats in this matter, and that is the rise and triumph of economics, and its transformation from the science of instrumental reasoning to the ideology of modern life. As a science, with its roots in decision theory, economics involves the valid application to everyday life of indisputable mathematical theorems. As an ideology, however, describing the behaviour of Homo oeconomicus, it involves the replacement of everyday life by a more manageable caricature. As I suggested in the previous chapter, conceived as an ideology, economics describes a world in which value is given in advance of our associations, in which the goals of life are clear and predetermined, and in which the task of politics is simply to assess the costs and benefits and choose the ‘optimal’ solution. When economics triumphs over politics, the sole ‘experts’ consulted are those who promise to replace the difficult, because human, questions of political choice with the easy, because mathematical, questions of economics, starting from assumptions that no one would ever make were he not in the grip of a self-aggrandizing obsession.

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publicado às 23:13

Greek refer end? um...I wonder.

por John Wolf, em 04.07.15

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Tsipras e Varoufakis assumiram que o conceito de liberdade e dignidade lhes pertencia. Interpretaram de um modo ruinoso a vontade do povo grego. Declararam unir um país, mas a escassas horas de um Referendo histórico com impacto para os demais cidadãos da Europa, a Grécia está efectivamente dividida. Amanhã saberemos se estes governantes são autores de um memorando conducente a pânico, caos, quiçá guerra civil. Numa óptica de custos/benefícios para o cidadão helénico saem perdedores. Se era este o modo de forçar a alteração do status quo da União Europeia, serão bem sucedidos, mas à custa de prestações de forasteiros, o desgaste de nações distantes. Serão os membros da União Europeia a suportar a mudança induzida por catalisadores positivos ou de ruptura. A teoria de jogo, o dilema de prisioneiros, ou qualquer outro mindgame que tenham elegido como instrumento de aquisição de vantagens económicas e políticas, parte de um pressuposto eticamente questionável - a ideia de que o sacríficio alheio deve ser promovido para granjear vantagens domésticas. Quando Tsipras invoca a Europa unida e solidária, fá-lo de um modo teórico e abstracto. Enuncia princípios, mas lança dissensão na sua própria casa. Ou seja, nem filosoficamente oferece um bom exemplo.  Ao fim e ao cabo das tormentas do povo grego e de cinco meses de negociações, sabemos que a Grécia irá necessitar de pelo menos 50 mil milhões de euros para continuar a sobreviver e porventura reclamar ainda mais. Há alguns dias houve quem tivesse comparado a Grécia à União Soviética no limiar do descalabro desta. Em dose hiper-concentrada, a Grécia do Syriza, qual bolchevique anão, é uma espécie quase soviética a caminho do descalabro ideológico. Os soviéticos em 1992 já estavam a viver dias de controlo de capitais, falta de alimentos, enquanto emergiam actores da penumbra sinistra da sociedade. Foi nesse ambiente de ruptura que nasceram oligarcas e capitalistas com um particular sentido democrático. A Grécia, berço dos Estoicos entre outros, quer emular-se na invenção filosófica. Mas convém relembrar que a racionalidade e a ética não caminham necessariamente de mãos dadas. O povo sabe-o. E o Referendo reflictirá a verdade. A verdade será o que acontecer e não o que foi prometido.

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publicado às 12:24

A hora grega, o tempo europeu...

por John Wolf, em 21.06.15

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O dia de amanhã pode ser igual aos restantes, mas a Grécia pode de facto determinar o futuro da Europa. Na qualidade de extra-comunitário, passageiro da aventura unionista do continente, torna-se-me relativamente fácil ver as falhas e as lacunas do projecto europeu. A União Europeia (UE) não é uma união do espírito dos povos e dificilmente aspirará a se tornar numa federação. Não foi concebida a partir de uma pirâmide de valores sustentáveis. Foram os mercados que determinaram os tratados e os regulamentos. Foi a ideia de uma bloco económico competitivo que esteve por detrás dos sucessivos momentos de aprofundamento comunitário. E na senda dessa cegueira de ganhos e proveitos, os pilares de justica comunitária e de uma política externa e de segurança comum foram obviados. Para já, são as finanças dos países da zona euro que têm servido para acentuar divergências ideológicas e alimentar considerações de ordem geopolítica. Aguardo com expectativa a coragem ou não dos decisores europeus. Se a Europa, no seu desdobramento institucional corporizado no Banco Central Europeu, na Comissão Europeia, no Eurogrupo ou no Fundo Monetário Internacional, cede à chantagem grega, então será inaugurado o início do processo de desagregação da UE. Uma conquista de Tsipras servirá de mote para os demais demandantes da zona euro e enfraqueçerá a centralidade política da Europa. A Grécia sai a ganhar. A Rússia tira proveito. Por outro lado, se a UE mantiver a intransigência da sua posição, deve contar com uma nova fronteira geopolítica na Europa. A Grécia encostar-se-á ainda mais à Rússia, sendo que estes dois países partilham estirpes distintas de austeridade. Ou seja, têm bastante em comum para forjar uma aliança firme de párias. Pela parte que me toca, deixarei de respeitar as instituições europeias se estas se deixarem torcer pelas ameaças de caos que Tsipras tão ideologicamente postula em nome da Democracia que apenas ele parece entender. Em todo o caso, a Europa, a partir de amanhã, deixará de ser o que era, ou o que nunca foi.

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publicado às 13:00

António Costa: "mon ami Piketty"

por John Wolf, em 27.04.15

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Todos sabem que a Austeridade não é coisa boa. Todos sabem que a mesma assenta na contracção e no apertar do cinto. Esse diagnóstico é fácil de fazer depois da receita ter sido aviada. E é escusado Thomas Piketty vir alimentar falsas esperanças a António Costa, ao proclamá-lo como "reorientador da Europa". O que o francês diz é muito bonito e faz todo o sentido, mas só funciona em ambientes macro-económicos em que haja controlo sobre políticas monetárias. Imaginem um marceneiro a oferecer a ferramenta-maravilha ao colega canalizador - é mais ou menos isto sem tirar nem pôr. Não serve, a não ser que me escape alguma coisa. Ou seja, que no tal documento da "década para Portugal" venha consagrada a criação de um banco central no Largo do Rato. Uma máquina de impressão de dinheiro cor de rosa para combinar com os sonhos que emanam da mesma casa. Grande economista que me saiu este Piketty. Era suposto a disciplina servir para encontrar meios para gerar dinâmicas de criação de riqueza e emprego. O melhor que conseguem é a brilhante ideia de criar um imposto sobre as grandes heranças. E isso confirma a máxima negada pelos socialistas. Sim, são excelentes a tratar de destruir o dinheiro dos outros. Neste caso nem sequer olham para o futuro. Metem a mão no bolso do passado. Em termos económicos este género de socialismo de ocasião posiciona-se no lado da procura agregada - a procura intensa dos meios financeiros dos outros. Isto era a última coisa que faltava. Aparecer um francês das escolas do iluminismo económico para dar alento a um visionário como António Costa. São muito bons a descrever os males. Quanto a oferecer respostas válidas, isso é outra história. Mário Soares também tinha vários amigos franceses.

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publicado às 18:34

Cada um tem direito à sua lista VIP

por John Wolf, em 21.03.15

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Cada português tem direito à sua própria lista VIP. Fizeram a revolução dos cravos para quê? Assim que esgotarem os ingressos deste espectáculo teremos certamente novo passatempo. Um caso de plágio na revista Maria, uma mochila Disney abandonada à porta da sede do Partido Socialista, um espião infiltrado na cantina do Instituto do Mar e da Atmosfera. Enfim, mais moelas deploráveis servidas para distrair dos reais tormentos que afligem os cidadãos deste país. Se eu fosse o António Costa teria algum cuidado. Não vá algum sucedâneo de Sócrates surgir no enredo de uma outra bronca. Quando o putativo candidato a primeiro-ministro diz: "Temos de ter um sistema fiscal justo, e não de tratamento VIP para uns e de intransigência sobre os outros" parece esquecer que foi ministro da justiça em tempos não tão longínquos. Ou seja, demarca-se da responsabilidade colectiva que deve assistir a todos os políticos. Cada um dos governantes, do presente e do passado, assina os termos do contrato ético e moral que condiciona esta nação. O partidarismo, qualquer que seja a preferência ideológica, assenta na ideia de discriminação, da importância atribuída a uns em detrimento de outros. Ao oferecer-se para ser guarda-nocturno da devolução da confiança aos cidadãos, António Costa expõe-se às contrariedades do seu percurso político, seja na Câmara Municipal de Lisboa, seja nos entroncamentos dos vários governos socialistas de que fez parte. A consanguinidade de interesses foi o que permitiu a sua respiração no pelourinho de Lisboa ou na capelinha do Rato. Por outras palavras, este senhor tem a sua própria listinha VIP, como terão todos os outros políticos, agentes da alegada segurança económica e social dos portugueses. Afinal, o Araújo dos sabonetes tem razão. Isto cheira mesmo muito mal.

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publicado às 14:48

Dos manuais no ensino moderno

por Samuel de Paiva Pires, em 14.03.15

Eduardo Lourenço, "Da filosofia e da sua relação com a ideologia":

Em lugar das obras a escolaridade secundária serve de preferência manuais. O manual tornou-se assim no ensino moderno (curiosa correspondência com o mundo económico das “sociedades anónimas de responsabilidade limitada) uma espécie de terra de ninguém da sabedoria, que não é outra coisa que uma sabedoria degradada. Em vez dos mestres são-nos servidos compiladores. O ensino moderno é o ensaio incrível de fazer compreender o mais pelo menos, o superior pelo inferior. É a inversão da ordem natural, a inversão da educação antiga, comunicação dos que sabiam aos que sabiam menos ou não sabiam.

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publicado às 17:57

O congresso do PS ou como pensar pequeno

por John Wolf, em 01.12.14

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O congresso do Partido Socialista (PS) confirma o que nós já sabíamos, e o que certamente transcende aquela unidade política. Os lideres não estão à altura dos desafios que enfrentamos. Este fim de semana fomos agraciados com prestações de nível intelectual medíocre. O que está em causa é muito maior do que saneamentos internos, escândalos socráticos, viragens à Esquerda, rejeições da alianças ou maiorias absolutas. O que está em causa é areia demais para a camioneta destes protagonistas. Ou seja, a capacidade de pensar um modelo societário profundamente diferente daquele que nos conduziu ao descalabro. António Costa, Ferro Rodrigues, e os outros recrutas, simplesmente não têm a visão e a cultura para repensar a sua condição. O congresso do PS eterniza os mesmos vícios que definem a política. Os arranjos internos são mais importantes do que uma abordagem integrativa de soluções trans-políticas, para além da ideologia. Por outras palavras, a fonte da ideologia já não serve de um modo pertinente para encher as medidas das pessoas carentes de soluções "civis" - respostas económicas e sociais desprovidas de assinatura programática ou ideológica. Pelo que escutamos ontem, podemos afirmar que o PS deseja (mais uma vez) reclamar o estatuto de fundamentalista da verdade política. Os socialistas não conseguem esconder o vazio que permeia o seu espírito. Servem-se da mesma cartilha para enfrentar um mundo radicalmente diferente. São vítimas dos mesmíssimos paternalismos que enfermam os seus processos de pensamento. Definitivamente, a filosofia e a política estão divorciadas. De nada serve o lirismo bacoco de Alegre ou o apelo ao rasgo visceral da violência doméstica. A política, quando é eticamente movida, parte de uma base racional, metódica e autocrítica. Quando as emoções se tornam arma de arremesso sabemos que pouco ou nada resta. A agremiação deste fim de semana foi um mero exercício de austeridade de pensamento, ou simplesmente, um caso de pequenez.

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publicado às 09:57

António Costa e o concílio do Rato

por John Wolf, em 29.06.14

Nunca fui de me apoiar no paizinho, de me servir de pergaminhos familiares para avançar as minhas causas. Aliás, a ruptura talvez me caracterize com maior precisão. No entanto, não sou político e porventura não saberei apreciar o valor da tradição, a importância dos anciões, o respeitinho pelos progenitores. Acho triste que o jovem António Costa se tenha de servir dos fundadores do Partido Socialista (PS) para validar as suas aspirações. O que dista entre o acervo socialista original e aquilo em que o mesmo se transformou é assinalável e nem sempre positivo. Mas este processo de aprovação faz parte de uma matriz comportamental mais ampla. Faz parte de um alegado juízo conservador, de um conceito museológico, que atribui grande importância ao legado, ao passado. Embora o incentivo dos fundadores do PS possa servir a agenda interna de Costa e arrumar com o desreferenciado António José Seguro, a verdade é que é apenas algo que se passa no quintal do Rato. Mais valente e imortal seria se Costa angariasse os seus apoios numa colecta independente de filiações partidárias, da disciplina ideológica, dos da casa. A maioria absoluta com que sonha para governar é uma contradição genética. O pantano em que os socialistas se encontram poderia servir para refundar a expressão do partido sem comprometer os seus valores basilares. Os socialistas cometem o mesmo erro de sempre. Procuram renascer das cinzas, mas praticam a consanguinidade partidária; cruzam-se entre si para reproduzir velhas máximas e dar à luz conhecidas fórmulas. O PS teve muitas oportunidades, mas não soube criar um departamento de R&D (research and development) para integrar soluções excêntricas disponíveis em todo o espectro ideológico. O PS poderia centrar a sua acção na cidadania e no magistério civil, mas prefere invocar a sua superioridade moral, a paternidade da democracia portuguesa que viu nascer, e que em grande medida foi traída pela acção de alguns dos seus governos da república.

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publicado às 19:06






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