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Estranhas Rotas.

por Nuno Resende, em 01.06.17

 Anúncio à «Rota do Anho Assado»

 

Um dos problemas históricos de Portugal tem sido o do desfasamento institucional entre o local e o central. Desde a fundação que o país oscila entre os pequenos poderes locais ou autárcicos e uma macrocefalia que desequilibra o crescimento homogéneo do território.

Quando se criaram em 1979 as Comissões de Coordenação Regional, hoje representadas nas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, pensou-se (e bem) dar expressão a uma necessidade de planeamento regional para equilibrar a tal bipolaridade de um país de dicotomias: norte/sul, centro/interior. Não se tratava, penso, de uma regionalização, tal qual foi discutida há alguns anos, mas de uma descentralização de capacidades que transformasse um imenso polvo burocrático, numa forma fluída de comunicação de proximidade.

A meu ver a regionalização, pelo contrário, iria constituir o mal de dois mundos já existentes: ou se reproduzia o centralismo de Lisboa em vários «Terreiros do Paço», ou se ampliaria o caciquismo municipalista à escala regional.

De qualquer forma as CCDR traziam na sua base o que era necessário: «serviços desconcentrados do Ministério das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente  […] dotados de autonomia administrativa e financeira, incumbidos de executar ao nível das respectivas áreas geográficas de actuação as políticas de ambiente, de ordenamento do território, de conservação da natureza e da biodiversidade, de utilização sustentável dos recursos naturais, de requalificação urbana, de planeamento estratégico regional […]. Vou parar por aqui a citação do decreto. A legislação em Portugal é pródiga. É pródiga em abundância, liberalidade, utopias e … em inaplicabilidade.

Passados 38 anos sobre a criação das CCRs e 14 sobre as CCDRs é possível verificar o estado de coisas. Ambas as instituições, absolutamente dependentes do poder político central, caíram numa sobreposição de funções, reduziram a estratégia à tentativa de equilíbrio entre poder local e agenda política, descurando o tal planeamento estratégio regional que importava aplicar verdadeiramente. É óbvio que sem uma profunda renovação da relação partidária com os poderes civis, tal organismo nunca deixará de funcionar aos sabores da cartilha do partido A ou B. E pior, estava bem de ver que sendo as CCRs simples braços dos polvos de Lisboa, era certo que colidiram com os municípios, onde se cruzam interesses políticos com individuais e onde impera a figura do coronel-autarca.

Cada vez mais o país parece uma manta de retalhos. Não aquela manta de retalhos bem cosida que nos apresentou o Estado Novo, com as suas províncias e juntas de turismo, que promoviam desde a minhota enfeitada de filigrana às termas de Entre os Rios ou à praia da Nazaré. Hoje o país é um tecido de cores esquizofrénicas, sem qualquer tipo de leitura homogénea e, pior, já não cosido, mas roto.

A prova disso são as Rotas e as designações genéricas de categorias de paisagem ou povoados (algumas delas claramente decalcadas do tempo de António Ferro). Há rotas para tudo: rotas para celebrar património, rotas para celebrar comida, rotas de vinho, rotas de escritores, rotas de minério, rotas sobre contrabando, etc. Há aldeias históricas, aldeias de Portugal, aldeias de xisto, etc, etc. E não é só o jargão que se repete, são os logótipos, os «slogans», as frases-feitas que acompanham as justificações para a criação de tudo isto. Dir-se-ia que quem ganhou com estes produtos foi o marketing e as agências de comunicação. E foi.

Se não vejamos o recente caso dos Caminhos de Fátima. Há 19 anos foi criado um logótipo para sinalizar os itinerários de peregrinação. Recentemente o Turismo de Portugal (o mesmo organismo que tem levado a cabo um processo de uniformização da imagem turística do país) lançou um projecto de criação de novas rotas e um novo símbolo para o Caminho. A Associação de Amigos dos Caminhos de Fátima conta e denuncia este caso, aqui.

Mas são inúmeros pelo país. O desenho de projectos subsidiados pelos fundos europeus, pretensamente destinados a suprir necessidades locais, parecem ser elaborados com base em interesses corporativos e partidário-políticos locais e centrais e menos num conhecimento efectivo do território – não obstante as frequentes menções a estudos, estatísticas e avaliações prévias. O resultado é uma absoluta desconexão entre passado e futuro, com produtos «turísticos» totalmente desconexos da realidade histórica, da verdadeira necessidade das pessoas que artificializam as ideias de paisagem e território num desenho gráfico bem apelativo, mas sem qualquer conteúdo - basta, aliás, ler os textos de plataformas digitais, roteiros e até alguns livros para perceber o alcance confrangedor daqueles textos....

E espanta-me que ninguém, até hoje, procure saber a origem e o custo de todo aquele desenho gráfico – certamente que teríamos resposta para justifica a maioria das rotas e «frases feitas» que hoje compõem a imagem turística de Portugal.

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publicado às 10:04

Por falar em ideias novas...

por Nuno Resende, em 02.06.15

Sem Título-10.jpg

 Folheto informativo do Secretariado de Propaganda Nacional sobre o concurso «A Aldeia mais Portuguesa de Portugal», 1938

Sem Título-21.jpg

 Nova imagem logótipa do Porto criada pela Whitestudio (c) para a Câmara Municipal daquela cidade.

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publicado às 11:28

Diz-me que empresas tens, dir-te-ei quem és.

por João Quaresma, em 02.02.13

Pouco tempo depois de se tornar Primeiro Ministro, Mariano Rajoy convocou - e o termo é mesmo esse - as empresas espanholas com maior projecção internacional (Repsol, Telefónica, Zara, Indra, BBVA, Santander, Pescanova) para usarem a sua visibilidade para passar uma imagem positiva de Espanha, de forma a contrariar os danos provocados pela crise económica na credibilidade do país.

Neste espírito, está a fazer furor no país vizinho um video feito pela filial espanhola da consultora Grant Thornton que pretende justamente fazer passar a mensagem que, apesar das más notícias, Espanha merece confiança e optimismo. E que, mesmo com estatísticas pouco animadoras, a economia espanhola conta com empresas bem sucedidas e prestigiadas internacionalmente.

O curioso é que o video está a ser elogiado pela originalidade, quando de facto parece ser uma imitação do video feito há dois anos em Portugal, destinado a esclarecer os finlandeses. É claro que há grandes diferenças. O video espanhol, além de ser francamente mais inteligente, tem a enorme vantagem de poder mostrar grandes empresas espanholas que são exemplos de como o saber-fazer espanhol merece a confiança de clientes em todo o Mundo.

É claro que cá, sendo um desporto nacional vender as boas empresas a estrangeiros, já não podemos fazer o mesmo: apesar de haver algumas empresas de capitais portugueses com dimensão internacional (Jerónimo Martins, Galp, Sonae, Amorim, Soares da Costa, Efacec), são de facto muito poucas as que têm visibilidade a nível internacional que possa ser capitalizada em favor do país: além da TAP e do Mateus Rosé (as mesmas de há quarenta anos) e agora da Galp (em Espanha) pouco mais temos com notoriedade junto do grande público como sendo uma marca portuguesa. E é óbvio que, por muito importantes que sejam os investimentos que têm cá, não podemos contar com a Volkswagen, a IKEA ou a Continental-Mabor para promover a imagem externa de Portugal.

 

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publicado às 03:20

O glamour do ridículo

por Silvia Vermelho, em 30.08.11
Mais informações aqui.

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publicado às 14:02






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