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O que importa perguntar

por Samuel de Paiva Pires, em 21.06.17

Rui Ramos, "Um país entregue à sua sorte":

 

Não, não é a altura para discutir a limpeza das matas e das bermas da estrada, a desertificação do interior, a propriedade rural, o aquecimento global e a relação dos seres humanos com a natureza. Tudo isso são temas muito interessantes, mas desta vez temos de resistir à mania nacional de fazer derivar as conversas. Neste momento, há apenas uma questão relevante: o Estado tem um sistema de protecção civil, e esse sistema falhou tragicamente. Porquê? A “natureza” e os “problemas estruturais”, como o mitológico ordenamento do território, não ilibam o sistema, porque a protecção civil existe para defender as populações nas condições existentes, mesmo quando tudo é “muito rápido”, e não apenas em condições ideais, como fossem aquelas em que o país se tivesse desenvolvido de outra maneira ou a progressão dos fogos fosse sempre muito lenta.

 

(...).

 

Os oligarcas não querem que se “faça política” com a tragédia. Mas se não “fizermos política” com a morte evitável de 64 pessoas, para que serve então a política? Só para festejar vitórias no Festival da Canção? A oligarquia convenceu-se recentemente de que a política são uns abraços. Mas a política não devia ser um programa televisivo da manhã, mas o debate sobre o estado de um país onde desta vez faltou a sorte que houve noutras ocasiões. Porque com esta oligarquia política, só a sorte nos pode valer.

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publicado às 12:10

SIRESPonsáveis

por John Wolf, em 20.06.17

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Os promotores do magistério intocável do luto podem transmitir às famílias das vítimas que o sistema de comunicações SIRESP provavelmente falhou e que alegadamente resultou na morte trágica dos seus parentes. Não existe árvore criminosa nem trovoada delinquente que possa ilibar a responsabilidade de políticos desprovidos de sentido ético. O luto, interpretado por todos menos os próprios inflamados, deixou de ser de pesar. O luto é indignação. O luto é raiva. O luto é exigir responsabilidades. O luto é pedir demissões. O luto não é um alibi para encapotar as verdades. O luto não é atribuir a culpa à natureza feroz. O luto não é silenciar aqueles que defendem a reserva natural da verdade e respectivas consequências. Não querem assumir a SIRESPonsabilidade? Deveriam ter vergonha na cara. Todos eles. Os governantes do passado, do presente e provavelmente do dia de amanhã. Em vez disso colocam paninhos quentes no eucalipto queimado.

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publicado às 09:28

Como ajudar os bombeiros neste momento (2)

por Samuel de Paiva Pires, em 19.06.17

Haverá certamente que apurar responsabilidades, debater estratégias e actuar no sentido de melhorar o dispositivo de prevenção e combate aos fogos. Até lá, é ajudar os bombeiros que estão no terreno e as populações afectadas por este flagelo. Entre as várias louváveis iniciativas, destaco a da Uber, que permite utilizar a aplicação para solicitar gratuitamente recolhas de donativos como água e bens não perecíveis.

 

Entretanto, para os que estão em Lisboa, podem entregar soro fisiológico (unidoses), compressas, ligaduras e adesivos, a qualquer hora do dia e da noite, no quartel dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, no Largo Barão de Quintela.

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publicado às 16:21

Como ajudar os bombeiros neste momento

por Samuel de Paiva Pires, em 18.06.17

Ver aquiaqui ou aqui.

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publicado às 18:28

Portugal, Pedrógão e o ambiente mental

por John Wolf, em 18.06.17

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in Portugal Traduzido, Edições Cosmos 2008

 

Ambiente Mental

 

Para lidar com a primeira entrada do abecedário, teremos de reconhecer os diferentes significados e aspectos do conceito de ‘ambiente’. Por exemplo, efectuar uma distinção entre ambiente natural, natureza ou ecossistema, e ambiente humano. As dimensões a que nos referimos são indissociáveis, pelo que em Portugal tem sido difícil estabelecer a relação de parentesco entre o indivíduo e o ambiente. A natureza em Portugal é um filho bastardo e mal amado.

A natureza não é assumida enquanto propriedade colectiva ou património nacional, de forma activa e inquestionável. Talvez o nascimento de cada indivíduo e a consequente atribuição de nacionalidade deveria implicar a propriedade de um qualquer enésimo do território do país. Esta forma de cidadania proprietária teria um efeito psico-simbólico intenso, gerando uma espécie de auto-estima territorial.

Não reconhecer o valor do espaço de inserção geográfico, significa praticar uma forma de ‘geo-fobismo’, expulsando a terra, tornando cada indivíduo um membro voluntário de um movimento sem-terra. Talvez devido ao seu passado histórico colonial, Portugal tenha subvertido a importância do conceito de espaço vital imediato, com a excessiva disponibilidade além-mar a incutir uma nefasta atitude perdulária. Nem mesmo a Conferência de Berlim de 1884, que instituiu o princípio de ocupação efectiva dos domínios coloniais, e que retirou territórios e capacidade de projecção de poder a Portugal, terá servido para um ‘regresso’ a limites geográficos proporcionais à dimensão nacional. Poderemos legitimamente perguntar: como e quando se inicia um processo de desrespeito pela dimensão física e natural de Portugal? Não encontraremos na literatura ou na pintura a exaltação da geo-pátria? Terá sido o antigo regime um solitário proclamador do alto da montanha? Não será possível aproveitar alguns elementos edificantes em detrimento de outros com forte carga política? E será que o 25 de Abril libertou o homem para este voltar a ser um bom selvagem?

Assistimos ao tabu do domínio da terra sobre o homem, porque, de forma deturpada, o cuspir sobre o passeio ou a queimada incendiária serão expressões da interpretação desequilibrada do sentido de poder ou liberdade, fortemente entranhado na prática quotidiana. A análise do fenómeno anti-natureza em Portugal tem de seguir um critério mais estrutural e sociológico. A modernidade, promovida pelos governos pós 25 de Abril, apoia-se em imagens de betão armado, carros velozes e roupa de marca. Ironicamente, a imagem exterior dos indivíduos alcançou uma expressão notável em detrimento da preservação do ambiente. Mesmo perseguindo um idealizado parcelamento da propriedade latifundiária, tal não serviu a salvaguarda de um sentido ecológico. Esta indiferença em relação ao ambiente reflecte um desapego pelo abstracto, na medida em que os vínculos afectivos não se estabelecem em relação a um ideal de espírito livre ou natureza selvagem. Assim, a floresta é apropriada enquanto fenómeno de massas, colectivo e irracional, mas não por uma vontade individual.

Um olhar possível sobre um processo de evolução (que obedece alternadamente a mecanismos de auge e declínio, êxito ou tragédia) pode limitar-se à aceitação do destino, sem intervenção humana praticável. Ou seja, o cidadão é um mero espectador do fenómeno natural ou, no limite, um interventor negativo. Outra leitura admissível diz respeito ao modo como a rejeição da procedência provinciana pode significar o cortar de relações afectivas com o atraso estrutural do interior não-urbano. Uma vez que os centros urbanos são habitados pelos que abandonaram as suas origens humildes e campestres à procura de melhores condições de vida, verifica-se uma tomada de consciência deturpada de modernidade, através da qual se procura dissimular a proveniência, simulando sofisticação. Os eventos que afligem a floresta não comovem porque já representam factos distantes da neo-urbanidade adquirida pelos migrados do campo.

A única forma de corrigir comportamentos eco-destrutivos parece ser através da instituição de um sistema sancionatório implacável, em simultâneo com mecanismos que reconheçam os esforços de reposição do equilíbrio ambiental. Os filhos menores devem reconhecer aos pais o esforço que estes desenvolvem para separar o lixo e respeitar os eco-pontos. A adopção de uma ‘agenda ambiental’ significa co-responsabilizar governos indivíduos, crianças e proprietários de cães que lançam os seus dejectos nos passeios.

A promoção de objectivos concretos poderá representar uma janela de oportunidades para converter adversidades em mais-valias. Por exemplo, à semelhança da recente legislação que obriga as novas construções a instalar sistemas de energia solar, a instalação de redes de cisternas ou depósitos para aproveitamento de águas das chuvas poderia representar uma primeira solução para o problema de escassez de água, que terá de ser confrontado seriamente e a breve trecho. Esta solução, não original, foi concebida e instituída pelos árabes durante a sua permanência na Ibéria. Um ‘plano tecnológico’ não significa necessariamente novidades sofisticadas, e por vezes o próprio traçado histórico oferece algumas soluções. A tecnologia comporta na sua génese uma ideia de optimização e simplificação. Uma sociedade desenvolvida garante a sua continuidade pela manutenção dos seus elementos naturais, através de um status quo que em certa medida contradiz a ideia de alteração dinâmica, mudança e progresso. Nesta acepção, o desenvolvimento corresponde à capacidade de manutenção dos factores de equilíbrio herdados do passado.

Associamos a esta noção uma outra, de historicidade natural, através da qual poderemos aceitar a evolução política que altera profundamente a configuração mental e cultural da população, mas que não afecta dramaticamente a expressão física ou geográfica do território.

A ideia de reserva natural em Portugal assemelha-se a uma wasteland, sem utilidade perceptível para as populações. A noção de qualidade de vida dos indivíduos não integra o factor natureza enquanto um elemento determinante. O ‘cidadão-tipo’ prefere eleger a propriedade de um bom carro ou casa, os fins-de-semana no Algarve do betão, ou um horário laboral flexível como elementos definidores de qualidade de vida. Parece ter-se tornado um síndrome nacional o vínculo a matérias ou factos que representem novidade, daí que a natureza ‘eternamente silenciosa’ não consiga oferecer nenhum estímulo adicional relevante.

Este quadro ainda se torna mais negro pela ausência de debate sobre a protecção ambiental, sendo que me refiro àquele desenvolvido espontaneamente pelos indivíduos, e não pelas associações de defesas do ambiente ou autoridades nacionais. Enquanto a ‘consciência de ambiente’ não se democratizar e popularizar, no espírito de cada um, não se vislumbra uma evolução favorável para a paisagem natural. Do mesmo modo que cada contribuinte tem a noção do imposto ou taxa que paga pela propriedade de uma viatura ou casa, seria conveniente integrar nessa consciência fiscal a quota devida ao ambiente.

A operacionalidade de uma ‘polícia do ambiente’, eficiente e percepcionada como tal pelas populações, constitui uma obrigação moral dos governos. Uma forma de contrariar a primitiva prática de abandono de frigoríficos ou baterias no matagal, seria instituir um sistema de registo de propriedade dos equipamentos, que delimitaria os tempos de vida útil, comprometendo os proprietários com o depósito no termo da sua utilidade. Uma espécie de banco ambiental contra a poluição.

O mais importante será socializar e politizar a questão ambiental, e que a problemática faça parte do domínio doméstico das preocupações existenciais de cada indivíduo. A lei do frigorífico, enquanto exercício exemplar, poderá servir de nota de lembrança para as transgressões ambientais, e fazendo uso de um efeito de spill-over, estaremos a contribuir para a tomada de consciência da importância do ambiente.

Outra forma de induzir o respeito pelo ambiente, poderia materializar-se na criação de um cadastro ambiental que registasse as transgressões em relação ao ambiente, perpetradas por cidadãos ou empresas. Depois, num segundo momento, a informação resultante do cadastro seria cruzada com o sistema fiscal no sentido de penalizar os prevaricadores em sede de IRS ou IRC.

Uma das grandes dificuldades que Portugal encara, prende-se com um sentido de orgulho nacional fortemente dependente da expressão física da riqueza. A intelectualidade em Portugal é rejeitada porque integra uma dimensão não materialista e porque colide com aquilo que poderemos designar por ‘expressionismo’ físico. A afirmação social pode no entanto levar a que se faça a dupla demonstração do nível cultural e o grau de riqueza, através da compra de tomos de enciclopédias com lombadas douradas que têm lugar cativo nas estantes das salas de estar, e que fazem o regalo de observadores pouco exigentes.

Uma interpretação parcial do próprio significado ou alcance da era de informação pode conduzir-nos a um juízo reducionista definido em termos de atributos logísticos ou de transporte de informação, através do qual se atribui maior importância à rapidez da entrega de mensagens ou conteúdos. Os excessos de velocidade que se registam nas estradas portuguesas e que conduzem a acidentes desnecessários, encontram analogia na forma como se transportam conteúdos na era de informação. Uma noção ecológica e cultural poderia estabelecer uma hierarquia na escala de valores de informação, o que significa que os produtores de informação devem procurar obedecer a critérios de qualidade, objectividade, veracidade e não necessariamente a rapidez. Nessa medida, um país ecológico investe no terreno fértil do conhecimento e cultura, e na educação dos seus cidadãos, que representa sempre um processo lento e geracional. A era da informação poderá tornar-se numa era de conhecimento se um plano tecnológico não for vendido como destino final, mas um elo de um processo muito maior. O esforço de prossecução de equilíbrio ambiental associa-se inequivocamente à ideia de paridade entre as dimensões intelectual e cultural, relegando para segundo plano a tecnologia e a ideia de vanguarda.

A excessiva estratificação social do país é também responsável por vários desequilíbrios estruturais e ambientais, incluindo o desnível cultural e intelectual, pela forma como as elites se apropriam dos meios de desenvolvimento à custa do progresso colectivo. Este fenómeno observável noutras sociedades, assume contornos especiais em Portugal porque o ‘povo’ não demonstra capacidade para produzir factores de contrapeso. A não partilha de conhecimentos na sociedade portuguesa constitui uma prática contra-produtiva e geneticamente comprometedora pela forma como contraria a teoria de evolução das sociedades, construída sobre a premissa da comunicação entre os diferentes segmentos ou classes da sociedade. Uma noção, porventura herdada do corporativismo, instigou uma actuação compartimentada, sem trocas ou comunicação efectiva. A experiência de um sector ou domínio dificilmente transborda para um ecossistema distinto, apenas porque subsiste uma atitude conservadora pouco aberta a códigos diferentes. Questionamos se Portugal aproveitou a experiência histórica da multiculturalidade, das línguas e costumes distintos do império colonial. E nesse contexto observamos uma forma de desequilíbrio ambiental histórico. Neste momento o quadro mental de defesa do círculo restrito de conhecimento implica desconfiar continuamente de qualquer tentativa de incursão da parte de elementos excêntricos ou imigrados. Esse quadro social de defesa de interesses específicos compromete um sentido de desenvolvimento alargado e colectivo, capaz de integrar a diferença e a mudança, o que em última análise implica o progresso da sociedade.

Na natureza, as novas espécies resultam da evolução genética forçada pelas condições adversas do meio envolvente. As sociedades, que são macróbios (grandes formas de vida), evoluem através de processos de ruptura e equilíbrio entre os diferentes agentes que as integram. Nessa medida, enquanto a prática da dialéctica entre indivíduos não ocorrer em todos os fóruns e numa sociedade aberta, a ideia, conceito ou as práticas, nunca atingirão um grau de maturação suficiente para se converterem em matéria de desenvolvimento para uma sociedade.

As ideias, ao contrário dos ideais, que nascem na intangibilidade do espírito humano, são também fruto da experiência dos outros, transcritas em obras metodologicamente organizadas e que podem ser alvo de leitura e interpretação. Apenas uma fundamentação sólida do conhecimento poderá permitir ulteriores desenvolvimentos de um ideal de progresso. Se uma sociedade não promove a inteligência e a cultura de forma sustentada estará a contribuir para o desequilíbrio ambiental, pelo défice e peso da representação de uma população inculta ou analfabeta. Ter a expectativa de que a ferramenta tecnológica poderá preceder e estimular o aumento do nível cultural da população é contrária à lógica de desenvolvimento humano, em Portugal ou qualquer outro destino.

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publicado às 16:57

A geringonça e o fogo conveniente

por John Wolf, em 10.08.16

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Não sei onde anda António Costa. Não sei em que festival de danças se encontra a Catarina Martins. Não sei se Jerónimo Martins é voluntário na festa do Avante. Não sei se o homem do PAN já regressou do nirvana no Tibete. Apenas sei que o governo de Portugal não existe. Ontem tivemos o enorme privilégio de escutar os chavões que os intelectuais do fogo andaram a debitar nas televisões deste lindo Agosto. Ainda escutei um repórter da TVI, em directo da Madeira, apelar a que salvassem os cães e gatos do canil mais próximo, e depois lá se lembrou de mencionar o lar de terceira idade. Antes que apareçam os ideólogos da floresta mista e das liberdades da mata brava, a procurar integrar os incendiários recorrentes, tenho a dizer o seguinte - sobre as mãos destes e de todos os outros governantes se encontram as cinzas da morte e destruição. Eles são todos culpados - os Guterres, os Cavacos, os Soares, os Durões, os Costas, os Jerónimos e já agora as Catarinas. Andaram décadas a fio a tentar civilizar a animalidade, mas desautorizaram-se por completo. Os incendiários andam a monte a rir na cara dos portugueses e dos seus governantes. A pena máxima, reservada para crimes de sangue, deve ser aplicada sem contemplações a estes loucos exterminadores. Onde quer que se encontre a Geringonça, esta deve reunir de imediato e convocar um estado de emergência tendo em conta o mapa de incêndios. Mas existe um lado cínico, intensamente político e oportunista. Deixar arder por completo pode ser o meio de entrar dinheiro gratuíto das Comissões Europeias e um modo de sacudir a água do capote de deslizes deficitários e orçamentais. Daqui a umas semanas estará pronto o guião de António Costa. A culpa foi dos fogos. Vivam os incendiários. Passa para cá a massa.

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publicado às 11:22

Teoria Geral do Fogo

por John Wolf, em 09.08.16

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Todos os anos é a mesma coisa - fogo. Desde que me lembro, e já tenho memória lusa há mais de duas décadas - os incêndios fazem parte da paisagem suicidária de Portugal. E a cada ano que passa, grandes teorias de explicação e fundamentação são avançadas quer pelo governo, quer por especialistas académicos ou quer pela população. Ora são as matas por desbravar, ora foi o desordenamento do território, ora é a falta de meios-aéreos, ora são os bombeiros que não dispõem de mangueiras, ora são os agricultores que não trataram dos seus campos, ora foram os governos anteriores...Enfim, um conjunto de desculpas que não se podem tolerar. O problema tem sido atacado de um modo incorrecto. O problema dos incêndios tem sido diagnosticado de uma maneira errada. É a matriz cultural do país a responsável pelo flagelo dos fogos. São os cidadãos que não nutrem um carinho especial pela sua base geográfica. São os papás e as mamãs que deitam o cigarro pela janela do carro. São as avozinhas e as enteadas que abandonam o churrasco proibído na clareira da reserva natural. São os especuladores imobiliários que precisam de desbastar uns entraves políticos. São os organizadores de festivais que não pensaram o estacionamento em condições. E o problema é transversal a tantas dimensões da realidade nacional - a ideia de que uma entidade abstracta é a responsável. O alibi perfeito de que não existe explicação para os falsos mistérios. Um bode expiatório que está sempre a monte. Mas essencialmente, falta aos portugueses amor à camisola. Falta aos portugueses de Esquerda ou de Direita um instinto de protecção da sua base geográfica, do seu território. Os portugueses parece que não amam o seu país. Falta aos portugueses a coragem para mudar comportamentos. Conheço pessoalmente académicos versados na arte do fogo. Um deles confidenciou-me há dias que tem vontade de abandonar Portugal. E deixá-lo a arder.

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publicado às 11:23

Fruta silly season

por John Wolf, em 08.08.16

 

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Quase todas as pessoas que eu conheço apreciam uma bela salada de fruta – fresquinha é ainda melhor, um mimo - uma tentação. E há uma razão fundamental para que assim seja. No meio da selva, da orgia de frutos silvestres, dos gomos sumarentos e do “tudo ao molho e fé em dióspiros”, existe sempre a possibilidade de cada um praticar a sua modalidade preferida, de escolher o seu parceiro adocicado – já se sabe, gostos não se descuram. Há quem queira a banana ou deseje o ananás e exclua, sem mais nem menos, a laranjinha das considerações gustativas. A saladinha de fruta obedece a esse princípio de que o cliente nunca sai de mãos a abanar – a satisfação será garantida seja qual for a língua. De maneiras que é assim; quando não se aprecia o kiwi basta pescá-lo e recambiá-lo para a Nova Zelândia, retirá-lo à linha da taça transparente – o vidrão onde geralmente a fruta é exibida de um modo despudorado. A colher, que parece insonsa, afinal é uma ferramenta fetichista que trata do assunto sem remorsos. Mas apesar destes golpes, não existe sobremesa mais democrática do que uma bela rapsódia de fruta – o homem e a mulher quando confrontados com essa fartura mesclada de sensações, apenas chupam o que querem e não são obrigados a engolir em seco. A fruta-pão até pode vir descascada, mas só por não ter caroço não significa que não possa ser devolvida. E nessa gala de tentações e guloseimas apanhadas à mão da árvore mais próxima, há fruta que fica por cima e outra que é esmagada pela virilidade concorrente de um belo cacho. Dizem que as nêsperas são melhores que os abrunhos e isso é mau – é discriminação natural com vitaminas de todas as cores metidas ao barulho de uma alimentação saudável. Mas deixemo-nos de eufemismos e chamemos as coisas pelos nomes: há fruta sexy e outra nem por isso - ponto final. Há néctares de glamour feitos na hora e reles sumos de segunda. Sempre foi assim e duvido que haja um espremedor que produza uma outra casta de ideias. O bicho do fruto pode andar por aí a fazer das suas, mas ainda não conseguiu destronar o governo afrodisíaco da cultura frutícola. No entanto, e apesar das nossas genuínas intenções, estamos a ser limitados na nossa apreciação gastronómica. E os legumes? Que é feito deles? Será que existe um ranking de verduras eróticas? Estava a pensar em todas essa ricas peças que abarbatamos no mercado mais próximo, mas que não merecem o olhar atento da nossa libido. A batata e a courgette vão diretamente para a panela sem uma palavra amiga. Colocamos a tampa, pomos o fogão a debitar calor e não se fala mais no assunto. A beringela – coitadita -, lá por ter curvas acentuadas e vestir tamanhos grandes, não deve ser dispensada do ménage. A dama farta veste látex como o diabo veste Prada. O seu toque escorregadio não é lycra não senhoré textura natural e pode fazer as delícias de gente de espírito aberto. Mas existem ainda outros desprezados no jogo de sedução hortícola que decerto guardam algum rancor na despensa. A couve-flor tem inveja do pepino. Esta flor que não se cheira há muito que vem sendo vilipendiada pelo pickle. Este garanhão da horta da fonte está sempre a receber convites para festas temáticas. O pepino avinagrado mal sai do boião de rosas, raramente regressa ao imaculado caldo. O raio do vegetal parece mais um animal e não tem descanso por isso. A couve é outra desgraçada que não sai da casa. Fica acordada em sobressalto, pesarosa e pensar na sua vida. Quando de repente escuta o trinco da porta a altas horas da noite e diz: “ah, és tu cenoura. Pensava que era o pepino. Saiu às 10 da noite com aquele tomate ordinário e ainda não voltou.” Estão a ver o que eu quero dizer? Há aqui muita verdura magoada como se fossem batatas esmurradas. O sexo que dizem ser dos anjos também é dos legumes, não tenham dúvidas disso. Não é justo que as frutinhas estejam sempre no centro de mesa das atenções. Por que razão a abóbora não pode ter glamour? E a cebola não pode ser gastro-orgásmica? Só de pensar nisto vêm-me lágrimas aos molhos. Vivemos num mundo cruel e destemperado - pretensioso. Alho francês? Estão a ouvir? Francês? Que mania é esta que lá por ser estrangeiro é melhor – italians vegetables do it better? Não me parece. Somos realmente nabos, nabiças – noviços de uma religião frutada. Venha de lá esse caldo verde.

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publicado às 13:24

Há vários temas que dominam os escaparates dos últimos dias. As trágicas mortes dos bombeiros decorrente dos combates aos incêndios, o chumbo do tribunal constitucional (TC), e o clássico, o dérbi que opõe o Sporting ao Benfica. Um outro tema é a crise na Síria e se os americanos chegarão a vias de facto ou não nos dias que se seguem. Mas, fiquemo-nos pelos fogos e pelos tribunais. Se cruzarmos o flagelo do fogo com a razia levada a cabo pelos juízes do TC poderemos perguntar porque razão ainda não redigiram uma Constituição da Floresta e não criaram um Tribunal do Fogo? A catástrofe incendiária que assola Portugal deve ser tratada em sede própria. Os tribunais regulares parecem totalmente desadequados e incompetentes no tratamento jurídico dos ilícitos praticados. Quantas vezes não somos confrontados com reincidentes incendiários que foram sujeitos a um simples termo de identidade e residência? Os deflagradores de matas são assassinos da alma mater do país e homicídas com rosto, e merecem ser tratados como traidores de Portugal. Quantas vezes não são desculpados por terem um isqueiro no bolso e padecerem de problemas de bebida. Por outro lado, a inexistência de uma verdadeira constituição dedicada em exclusivo à floresta, significa que as árvores fazem parte de um regime jurídico regular, banal. Os governantes parecem esquecer que foi a partir de matos desbravados que a nação se ergueu. O que pensam que foi o condado Portucalense? E quem pensam que foi D. Afonso Henriques? O primeiro governante foi precisamente um gestor de terras bravias - o Primeiro Ordenador -, embora não tenha sido esse o seu cognome. A base geográfica de Portugal é a fundação a partir da qual todos os edifícios e sonhos são propostos. O modo inequívoco de decidir dos juízes do TC deveria transitar para um Tribunal do Fogo. Contudo, para que possam agir de um modo conclusivo e irredutível, uma Constituição da Floresta teria de existir. Um normativo fundamental que determinasse a inviolabilidade da bio-massa, do pinhal ou eucaliptal. Todos os anos é a mesma história de sempre. As chamas atravessam vales e montanhas, e a batata esturricada passa de mão em mão. De governante para governante que afirma que Portugal é um exemplo, um modelo de gestão das florestas. Os bombeiros que não têm voto na matéria da administração do território carregam o maior fardo de todos - pagam com a sua vida. Os políticos, mesmo os fracassados e derrotados, nunca se chegam a chamuscar, quanto mais se queimar. Guardam sempre uma distância confortável da responsabilidade, dos crimes de sangue e seiva - e têm sempre à mão de semear um extintor para o caso das coisas começarem a aquecer. A floresta, e todas as suas representações vivas e simbólicas, parece estar votada a uma neblina fatal. Quem disse que Portugal não tem uma floresta negra?

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publicado às 14:37

A arder

por Pedro Quartin Graça, em 05.08.12

«[O ministério] não deve um cêntimo [aos bombeiros] e faço honra disso.» 

Miguel Macedo, ministro da Administração Interna, 29 de julho

 

«[O ministro Miguel Macedo está] equivocado [porque deve] muito, muito, muito, muito dinheiro [às corporações] 

Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses e antigo deputado do PSD, 29 de julho

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publicado às 22:32

Como travar incêndios nas ruas

por Pedro Quartin Graça, em 05.09.11

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publicado às 08:16

Agradecimento

por Samuel de Paiva Pires, em 24.08.10

Ao Delito de Opinião, pelo convite que me levou a discorrer sobre "Os incêndios do nosso descontentamento".

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publicado às 03:17






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