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Na comunidade muçulmana, a Guerra Santa é um dever religioso, devido ao universalismo da missão islâmica e à obrigação de converter todos ao Islão, pela persuasão ou pela força. Os outros grupos religiosos não têm missão universal e a Guerra Santa não é, para eles, um dever religioso, a não ser para fins defensivos.

Ibn Kaldhun

 

A cultura europeia é intrinsecamente materialista e já só conserva o Cristianismo como uma relíquia de família. […] É nosso dever estabelecer a soberania em todo o mundo e converter a humanidade aos sábios preceitos do Islão e seus ensinamentos, sem os quais o homem não pode aspirar à felicidade. 

Hassan al-Banna, fundador da Irmandade Muçulmana 

 

Em Agosto de 2008, uma provocação por parte do então presidente georgiano Mikhail Saakashvili viria a precipitar a invasão da Geórgia ordenada por Vladimir Putin e Dmitry Medvedev. O Ocidente assistiu impávido e paralisado a esta invasão, em especial porque Putin utilizou a retórica de defesa dos valores ocidentais para a justificar, argumentando que a sua acção se destinava a proteger os direitos humanos dos cidadãos russos residentes nos territórios da Abkhazia e da Ossétia do Sul. 

 

Em Agosto de 2016, após a proibição de utilização do burkini em alguns municípios franceses, o Conselho de Estado francês suspendeu esta proibição em resposta a um requerimento apresentado pela Liga dos Direitos Humanos e pelo Colectivo Contra a Islamofobia em França.

 

O que estes dois exemplos têm em comum é o facto de serem sintomáticos de uma certa perplexidade do Ocidente perante terceiros que utilizam uma retórica característica dos regimes políticos demo-liberais, em que os valores da liberdade, igualdade, tolerância e direitos humanos são traves-mestras, para impor valores contrários a estes. Pior do que esta perplexidade que paralisa ou torna as instituições ocidentais reféns de valores que lhes são estranhos, só a colaboração de muitos ocidentais nestas investidas. 

 

Com efeito, muitos activistas defensores dos direitos humanos, dos direitos das mulheres e dos direitos das pessoas LGBT, bem como aqueles que, em resultado do domínio do discurso político pelo liberalismo e o neo-marxismo que promovem as ideias de universalismo, multiculturalismo e cosmopolitismo, desprezam ou odeiam as noções de pátria, nação e Estado-nação e a sua própria identidade e herança cultural judaico-cristã, são assaz sensíveis e defensores do acolhimento do Outro, em especial dos muçulmanos, ignorando deliberadamente que estes defendem crenças que estão no extremo oposto das suas. Não é propriamente novidade para ninguém que o islão despreza os direitos humanos, submete as mulheres ao jugo e caprichos dos homens e trata-as de formas inadmissíveis e impensáveis no Ocidente e advoga a morte dos homossexuais, dos infiéis e dos apóstatas. Ainda assim, mesmo em face destas evidências, há sempre quem continue refém do relativismo cultural e do multiculturalismo, não hesitando em pedir que se tenha ainda mais tolerância e respeito por aqueles que nos querem subjugar e aniquilar, aparentando sofrer da Síndrome de Estocolmo, como acontece com Pedro Vaz Patto, que passo a citar (negrito meu):

Não pode conceber-se a integração nas sociedades europeias de imigrantes de outras proveniências culturais como um processo forçado, ou como uma forma de aculturação unilateral. Não pode exigir-se dos muçulmanos que deixem de o ser para se integrarem nas sociedades europeias. O preço dessa integração não pode ser a renúncia à sua identidade. O que se lhe deve exigir é que respeitem outras culturas e identidades, como pretendem que as suas sejam respeitadas. Trata-se de um processo bilateral de diálogo intercultural e de enriquecimento recíproco. Se assim não for, a integração estará condenada ao fracasso. Se prevalecer a ideia de que a integração dos muçulmanos nas sociedades europeias implica alguma forma de renúncia à sua identidade, maior será, neles, a tendência para recusar essa integração, para o ódio ao Ocidente, para o isolamento e para a radicalização.

 

A frase que assinalei a negrito é sintomática de um certo estado mental de quem não conhece ou prefere ignorar deliberadamente o carácter absoluto, totalitário e universalista do islão, que não só não respeita outras culturas como pretende subjugá-las ou aniquilá-las. Enquanto em muitos países muçulmanos os Ocidentais têm obrigatoriamente de se adaptar ao modo de vida e costumes locais - sob pena de poderem cair nas malhas da justiça islâmica -, os muçulmanos em países ocidentais pretendem impor nestes os seus costumes, a sua cultura, a sua religião e as suas leis e têm vindo paulatinamente a consegui-lo. A tolerância é apenas praticada pelos ocidentais, não havendo reciprocidade de tratamento.  

 

Creio ser acertado afirmar que há um desconhecimento, ou uma ignorância deliberada, em relação ao paradoxo da tolerância e ao que Karl Popper escreveu a respeito deste numa das odes contemporâneas ao demo-liberalismo, a sua obra A Sociedade Aberta e os seus Inimigos (tradução e negritos meus): 

 

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Menos conhecido é o paradoxo da tolerância: A tolerância ilimitada tem de levar ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo àqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles. — Nesta formulação, não quero dizer que, por exemplo, devamos sempre suprimir a expressão de filosofias intolerantes; enquanto as possamos contrariar por argumentos racionais e mantê-las sob controlo pela opinião pública, a supressão será certamente insensata. Mas devemos reivindicar o direito de as suprimir, se necessário até pela força; pois pode facilmente dar-se o caso de elas não estarem preparadas para discutir racionalmente connosco, começando por denunciar todos os argumentos; elas podem proibir os seus seguidores de ouvir argumentos racionais, porque são enganadores, e ensiná-los a responder aos argumentos utilizando os seus punhos ou pistolas. Devemos, portanto, reinvindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante. Devemos afirmar que qualquer movimento que pregue a intolerância se coloca à margem da lei, e devemos considerar o incitamento à intolerância e à perseguição como crime, da mesma forma que devemos considerar como crime o incitamento ao homicídio, ou ao sequestro, ou ao regresso do comércio de escravos.[1]

 

Isto devia ser algo sedimentado nas mentes de muitos ocidentais, mas infelizmente não o é e muitas instituições não se apercebem da armadilha em que caem ao defender a tolerância para com algumas práticas culturais de muçulmanos que vivem no Ocidente, em que, muitas vezes, acabam por defender práticas que se caracterizam pela intolerância e que são contrárias aos valores ocidentais. Esta armadilha é um sinal preocupante de desorientação por parte de muitas instituições. 

 

Perante isto, é particularmente oportuno salientar algumas considerações que Mario Vargas Llosa teceu aquando da proibição do véu islâmico nas escolas públicas francesas (negritos meus):

A imigração, por isso, em vez do íncubo que habita os pesadelos de tantos europeus, deve ser entendida como uma injecção de energia e de força laboral e criativa a que os países ocidentais devem abrir as suas portas de par em par e trabalhar pela integração do imigrante. Mas sem que por isso a mais admirável conquista dos países europeus, que é a cultura democrática, se veja beliscada, mas que, pelo contrário, se renove e enriqueça com a adoção desses novos cidadãos. É óbvio que são estes quem têm de se adaptar às instituições da liberdade e não estas renunciar a si mesmas para se acomodarem a práticas ou tradições incompatíveis com elas. Nisto não pode nem deve haver concessão alguma, em nome das falácias de um comunitarismo ou multiculturalismo pessimamente entendidos. Todas as culturas, crenças e costumes devem ter cabimento numa sociedade aberta, sempre e quando não entrarem em colisão frontal com os direitos humanos e princípios de tolerância e liberdade que constituem a essência da democracia. Os direitos humanos e as liberdades públicas e privadas que uma sociedade democrática garante estabelecem um leque muito amplo de possibilidades de vida que permitem a coexistência no seu seio de todas as religiões e crenças, mas estas, em muitos casos, como aconteceu com o cristianismo, deverão renunciar aos maximalismos da sua doutrina – o monopólio, a exclusão do outro e práticas discriminatórias e lesivas dos direitos humanos – para ganhar o direito de cidadania numa sociedade aberta. Têm razão Alain Finkielkraut, Élisabeth Badinter, Régis Debray, Jean-François Revel e aqueles que estão com eles nesta polémica: o véu islâmico deve ser proibido nas escolas públicas francesas em nome da liberdade.[2]

 

Quem esteja minimamente atento pode facilmente observar que, na Europa, as concessões ao multiculturalismo e ao relativismo cultural têm permitido, a coberto da tolerância, que práticas intolerantes tenham vindo a instalar-se paulatinamente em vários países. Muitos muçulmanos, ao invés de renunciarem aos maximalismos da sua doutrina, têm tentado impô-los.  Não surpreendem, por isso, episódios como os relatados por Gavin Mortimer, em que muçulmanos se sentem à vontade para insultar e agredir não apenas mulheres muçulmanas que não adoptam práticas como a de tapar o corpo na totalidade, mas também mulheres europeias. Como ficou patente a propósito da recente polémica do burkini, muitos europeus ignoram esta realidade. Ignoram, como salienta Mortimer, a extensão do extremismo islâmico em França, onde 100 das 2500 mesquitas são controladas por salafistas, ou seja, pela corrente mais puritana e fundamentalista do islão, que defende que todas as mulheres andem sempre cobertas. O burkini é parte da sua estratégia, sendo um símbolo da pureza islâmica que serve como forma de distinção entre as muçulmanas moralmente boas (as que usam o burkini) e as moralmente más (as que não usam o burkini). Naturalmente, existem muçulmanas que não pretendem envergar o burkini e que sofrem pressões por isso mesmo. No meio desta polémica, a maioria das pessoas, mais preocupada em defender a liberdade de vestir o que se queira, não entendeu ou ignorou isto, mesmo quando Nicolas Sarkozy afirmou o óbvio: trajar o burkini é um acto político e se este não for proibido, corremos o risco de que raparigas muçulmanas que não pretendam usar o véu ou o burkini venham a ser estigmatizadas e sofram pressões sociais. Na realidade, situações deste género já acontecem. Mortimer revela que uma organização muçulmana chamada "Femmes sans voile" (Mulheres sem véu) publicou uma declaração no Dia Internacional Mulher em que afirmou que as mulheres que a compõem se recusam a usar véu por consubstanciar uma violência simbólica visível no espaço público, e que os islamistas estão a formalizar a desigualdade entre os sexos na família e na sociedade em detrimento dos valores fundamentais da república francesa.

 

Aqueles que defendem a suspensão da proibição do burkini, sendo tolerantes com os intolerantes, não percebem que estão a colocar a tolerância em risco; pretendendo promover a liberdade individual, não percebem que estão precisamente a ajudar a reduzi-la; e sendo França o país que tem como mote "Liberté, égalité, fraternité", não deixa de ser irónico que estejam a ajudar a promover a desigualdade. Sustentando as suas decisões em argumentos assentes na liberdade religiosa, não vislumbram os perigosos precedentes que estão a abrir. Importa, por isso, voltar novamente às considerações de Vargas Llosa sobre a proibição do véu islâmico nas escolas públicas francesas, que são igualmente adequadas no caso da proibição do burkini (negritos meus):

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As meninas enviadas pelas suas famílias e comunidades ornamentadas com o véu islâmico para as escolas públicas de França são algo mais do que parece ao simples olhar; isto é, são a avançada de uma campanha empreendida pelos sectores mais militantes do integrismo muçulmano em França, que procuram conquistar uma cabeça de praia não só no sistema educativo como em todas as instituições da sociedade civil francesa. O seu objectivo é que se lhes reconheça o direito à diferença, por outras palavras, a usufruir, naqueles espaços públicos, de uma extraterritorialidade cívica compatível com o que aqueles sectores afirmam ser a sua identidade cultural, sustentada nas suas crenças e práticas religiosas. Este processo cultural e político que se esconde por detrás dos amáveis apelos de comunitarismo ou multiculturalismo com que os seus mentores o defendem, é um dos mais potentes desafios que a cultura da liberdade enfrenta nos nossos dias e, segundo me parece, é essa a batalha que no fundo começou a travar-se em França por detrás das escaramuças e encontrões de aparência superficial e episódica entre partidários e adversários de as meninas muçulmanas poderem ou não usar o véu islâmico nas escolas públicas de França.

(…)

Este argumento [o direito de as meninas muçulmanas assistirem às aulas com véu, por respeito à sua identidade e à sua cultura], levado aos seus extremos, não tem fim. Ou, melhor dizendo, se se aceitar, cria uns precedentes poderosos para aceitar também outros traços e práticas tão ficticiamente «essenciais» à cultura própria como os casamentos das jovens negociados pelos pais, a poligamia e, ao extremo, a ablação feminina. Este obscurantismo disfarça-se com um discurso de alardes progressistas: com que direito é que o etnocentrismo colonialista dos franceses de velho cunho quer impor aos franceses recentíssimos de religião muçulmana costumes e procedimentos que são contrários à sua tradição, à sua moral e à sua religião? Fertilizada por ousadias supostamente pluralistas, a Idade Média poderá assim ressuscitar e instalar um enclave anacrónico, desumano e fanático na sociedade que proclamou, a primeira no mundo, os Direitos do Homem. Este raciocínio aberrante e demagógico deve ser denunciado com energia, como aquilo que é: um perigo gravíssimo para o futuro da liberdade. [3]

 

Aqui chegados, debrucemo-nos agora sobre as questões mais amplas do islão e o fundamentalismo islâmico e as suas relações com o Ocidente. Um dos lugares-comuns mais propagandeados a respeito do islão é o de que este é uma religião de paz. Outro é o de que o fundamentalismo islâmico é uma corrente minoritária do islão que interpreta o Alcorão e os hadith (conjunto de relatos dos ensinamentos e hábitos do profeta Maomé que compõem a jurisprudência e são importantes na interpretação do Alcorão) perversa e erradamente. Ora, a propósito do ataque terrorista a uma discoteca gay em Orlando, um gay muçulmano, Parvez Sharma, escreveu que "Chamar ao islão uma religião de paz é perigoso e redutor. Tal como os outros dois monoteísmos que o precedem, tem sangue nas suas mãos", e assinalou ainda que o cânone islâmico que emergiu após a morte de Maomé sanciona a violência e condena a homossexualidade. A respeito desta última, a sharia é inequívoca. Em Reliance of the Traveller: A Classic Manual of Islamic Sacred Law, encontra-se a seguinte passagem transcrita por Andrew C. Mccarthy:

Sec. p17.0: SODOMY AND LESBIANISM

 

Sec. p17.1: In more than one place in the Holy Koran, Allah recounts to us the story of Lot’s people, and how He destroyed them for their wicked practice. There is consensus among both Muslims and the followers of all other religions that sodomy is an enormity. It is even viler and uglier than adultery [AM: which is punished brutally, including by death].

 

Sec. p17.2: Allah Most High says: “Do you approach the males of humanity, leaving the wives Allah has created for you? But you are a people who transgress” (Koran 26:165-66).

 

Sec. p17.3: The Prophet (Allah bless him and give him peace) said:

 

1. “Kill the one who sodomizes and the one who lets it be done to him.”

 

2. “May Allah curse him who does what Lot’s people did.”

 

3. “Lesbianism by women is adultery between them.”

 

É também na sharia que se estabelece a pena de morte como castigo pela apostasia, a flagelação como pena por crimes como beber álcool ou o adultério no caso de pré-pubescentes, sendo que nos restantes casos de adultério aplica-se a pena de morte por apedrejamento, entre outras penas para outros crimes que, à luz dos valores Ocidentais, não são crime algum. É bastante esclarecedor consultar algumas passagens da sharia neste artigo de Mccarthy. Conforme este sublinha, a sharia não é uma invenção da Al-Qaeda, do Daesh ou de qualquer outro grupo fundamentalista islâmico. A sharia é a lei islâmica.

 

Sobre as ideias de que o islão é uma religião de paz e o fundamentalismo islâmico um desvio que seria, até, anti-islâmico, Jaime Nogueira Pinto escreve o seguinte em Ideologia e Razão de Estado:

Existe também muita controvérsia à volta da natureza do Islão: será uma “religião de paz”, como pretende a maioria dos seus seguidores moderados, que consideram o terrorismo islâmico um desvio e uma deturpação dos ensinamentos do Profeta, ou encerra uma mensagem de proselitismo armado, em que a conversão ou a supressão física é a única alternativa dada aos apóstatas, aos ímpios, aos infiéis, aos não-crentes?

 

Existem nos livros sagrados islâmicos, no Corão (a lei) e nos Hadith (a jurisprudência), passagens, prescrições e disposições que vão num e noutro sentido. Como acontece aliás, com o Antigo Testamento judaico-cristão e até com os Evangelhos. Mas tal como Moisés e ao contrário de Cristo, Maomé foi um profeta armado e tanto o seu estilo guerreiro, épico e violento como a História sangrenta dos primeiros califas e da expansão muçulmana contra Bizâncio e os Persas, da Índia à Península Ibérica, parecem favorecer uma interpretação mais radical do Islão, reforçada pela sua juventude enquanto religião em fase de recuperação do tempo perdido e pelo facto de o uso da força ser recomendado nos próprios textos sagrados. Textos que, na versão ortodoxa, deverão ser interpretados literalmente.

 

Para esta corrente, o próprio Corão não só não impede a via totalitária do Islão como a encoraja: Maomé é um chefe militar sequioso de conquistas, faz da guerra santa e da morte na guerra santa o mais glorioso objectivo do crente, usa de uma linguagem de grande fúria e virulência, não mostra qualquer espécie de tolerância para com os não-crentes e institui uma teocracia absoluta que não estabelece nem admite distinção entre fé e razão. Terá, assim, criado uma religião radical, que pelo seu empenhamento territorial e político, pode justificar um tipo de totalitarismo ideológico, uma espécie de teocracia revivalista e absoluta.

 

(...)


Maioritário ou minoritário no mundo islâmico, legitimado ou não pelos textos do Corão, o islamismo radical é uma realidade materializada num movimento ideológico e activista que desencadeou uma guerra contra os Estados Unidos, Israel e os Estados árabes “heréticos”. Estes últimos fazem parte da “Casa da Guerra" porque os seus governantes são considerados ímpios ou apóstatas.[4]

 

O último parágrafo refere-se à Al-Qaeda, mas é igualmente adequado ao Daesh, sendo apenas de acrescentar que também a Europa se encontra entre os inimigos do islamismo radical. Embora a distinção entre islão e islamismo radical seja útil, a ideia de que o Ocidente não tem problemas com o islão, mas sim com os fundamentalistas islâmicos, é simplista e politicamente correcta, mas não é verdadeira, como assinala Samuel Huntington (tradução e negritos meus):

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Alguns ocidentais, incluindo o Presidente Bill Clinton, têm argumentado que o Ocidente não tem problemas com o islão, mas apenas com extremistas islâmicos violentos. Mil e quatrocentos anos de história demonstram o contrário. As relações entre o Islão e a Cristandade, quer a Ortodoxa, quer a Ocidental, têm sido tempestuosas. Cada um tem sido o Outro do outro. O conflito do século XX entre a democracia liberal e o Marxismo-Leninismo é apenas um fenómeno histórico efémero e superficial em comparação com a continuada e profundamente conflitual relação entre o Islão e a Cristandade. Por vezes, tem prevalecido a coexistência pacífica; mais frequentemente, a relação tem sido de intensa rivalidade e pautada por vários graus de guerra quente. As suas "dinâmicas históricas" comenta John Esposito, "... levaram a que as duas comunidades se encontrassem frequentemente em competição e, por vezes, empenhadas num combate mortal por poder, território e almas." Ao longo dos séculos, as fortunas das duas religiões têm ascendido e caído numa sequência de importantes vagas, pausas e vagas contrárias.[5]

 

Ainda assim, em relação ao islamismo radical, importa também questionar, de acordo com Jaime Nogueira Pinto, se

Estaremos perante um desígnio universal, uma ideologia-religião islâmica que pretende a conversão do mundo aos seus ensinamentos pela palavra e pela força, ou apenas perante um movimento que pretende restaurar a verdadeira fé na área islâmica (o mundo árabe e a Ásia, o Magrebe e a África islamizados), corrigindo e castigando os heréticos e desapossando-os do poder? Se se trata de restabelecer a “casa de Deus” (o verdadeiro Islão), na “Casa da Guerra” (o mundo árabe não ortodoxo) deixando em paz o resto do globo desde que este os deixe em paz, é uma coisa; se se trata de exportar uma religião e converter o resto do mundo, é outra.[6]

 

No seguimento da passagem supracitada, importa sublinhar que o islão efectua uma distinção entre o dar al-islam, o mundo onde se aplica o islão, ou seja, a casa de Deus, e o dar al-harb, o mundo ou casa da guerra, que, segundo José Adelino Maltez, "seria necessário converter, através de um esforço, dito jihad." Embora o significado de jihad seja disputado pelas várias correntes de interpretação do islão, existem três formas de jihad: "a maior, que tem a ver com o combate do crente contra um inimigo interior, contra as paixões e a inclinação para o mal; a menor interior, que ocorre dentro do próprio mundo islâmico, contra os renegados e os apóstatas, justificando a dominação dos rebeldes e dos tiranos pela força; e a menor exterior, que tem a ver com a expansão do Islão em todo o mundo."[7] Se é verdade que, em relação a esta última, o Alcorão e os ensinamentos islâmicos afirmam que deve ser apenas defensiva e impõem determinadas condições para que os muçulmanos possam pegar em armas - têm de sofrer alguma forma de opressão em relação à prática do islão e ameaças às suas vidas, devem ter sido forçados a deixar as suas casas no local onde ocorre a opressão e só se o opressor continuar a oprimi-los no local para onde se mudaram e a ameaçar as suas vidas é que podem pegar em armas -, e estabelecem também condições em relação ao que é permitido na guerra defensiva - como, por exemplo, civis que não lutem contra o islão não devem ser atacados, mulheres, homens e idosos devem permanecer intocáveis e os prisioneiros de guerra devem ser tratados com respeito - também não é menos verdade que a Al-Qaeda veio romper com estes ensinamentos, tendo Bin Laden, de acordo com Jaime Nogueira Pinto, justificado a guerra total em virtude da desproporção dos meios em relação ao inimigo, inscrevendo-se, desta forma, na linha extremista do wahhabismo,[8] que tem uma visão integrista e puritana do islão. E se a Al-Qaeda trouxe esta novidade, o que dizer do Daesh, cuja violência extrema é uma imagem de marca? 

 

Com efeito, o islamismo moderno, nas palavras de Roger Scruton, "é um exemplo daquilo a que Burke chamou, ao descrever os revolucionários franceses, uma "doutrina armada", ou seja, uma ideologia agressiva apostada em erradicar toda e qualquer oposição."[9]  O islamismo promove uma irmandade que "fala secretamente ao coração de todos os muçulmanos, unindo-os contra o infiel,"[10] e levou até a uma confluência entre xiitas e sunitas que esteve na base do chamado ressurgimento islâmico, aparecendo o islão, "pela primeira vez em muitos séculos, (...) - aos olhos de muçulmanos, mas também aos olhos dos infiéis - como um movimento religioso uno e unido em torno de um objectivo comum," o que fica a dever-se, em muito, a dois factores, "a civilização ocidental e o processo de globalização que ela desencadeou."[11] Conforme salienta o filósofo britânico,

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No tempo em que o Oriente era o Oriente e o Ocidente era o Ocidente, os muçulmanos podiam consagrar as suas vidas a deveres piedosos e ignorar o mal que prevalecia no dar al-harb. Mas quando o mal se espalha por toda a terra, propondo alegremente liberdades e direitos em vez dos rígidos deveres de um código religioso, e chega a invadir o dar al-islam, despertam os velhos antagonismos e, com eles, a velha necessidade de recrutar aliados contra o infiel.[12]

 

A própria utilização, com uma pesada conotação pejorativa, do termo infiel (kafir) - embora o cristianismo também tenha utilizado o termo no passado - para designar todos os que não crêem no islão, que devem ser persuadidos a converter-se, pela palavra ou pela força, ou combatidos e mortos, é ilustrativa de como esta religião encara a tolerância e a liberdade religiosa. Segundo Christopher Hitchens,

O islão começou não só por condenar todos os cépticos ao fogo eterno como continua a reivindicar o direito de fazer o mesmo em quase todos os seus domínios e continua a pregar que esses mesmos domínios podem e têm de ser alargados através da guerra. Durante a minha vida, nunca houve uma tentativa de questionar ou sequer investigar as reivindicações do islão que não tenha sido recebida com uma repressão extremamente dura e célere. Assim sendo, temos o direito de concluir provisoriamente que a aparente unidade e confiança da fé são uma máscara para uma insegurança muito profunda e, provavelmente, justificável. Naturalmente, nem será preciso dizer que existiram e existirão sempre feudos sanguinários entre diferentes escolas do islão, resultando em acusações estritamente intermuçulmanas de heresia e profanação e em actos de violência terríveis.[13]

 

Independentemente das discórdias e conflitos entre as várias correntes do islão, os infiéis são um inimigo comum. A este respeito, vejamos o que afirmou o Ayatollah Khomeini em 1984, citado em O Ocidente e o Resto de Scruton:

Se permitirmos que os infiéis continuem a desempenhar a sua missão de corruptores da terra, tanto maior será o seu castigo. Assim, se matarmos os infiéis para pôr termo à sua actividade [corruptora], estaremos na verdade a prestar-lhes um serviço. Pois o seu castigo final será menor. Permitir que os infiéis permaneçam vivos significa autorizá-los a prosseguirem as suas actividades corruptoras. [Matá-los] é uma operação cirúrgica ordenada por Alá, o Criador... Aqueles que respeitam as regras do Corão sabem que devemos aplicar as leis de qissas [retribuição] e que devemos matar... A guerra é uma bênção para o mundo e para todas as nações. É Alá quem ordena aos homens que combatam e matem.[14] 

 

Embora seja possível encontrar passagens no Alcorão para justificar a ideia de que o islão é uma religião de paz, de acordo com Scruton (negritos meus),

o facto é que a interpretação de Khomeini da mensagem do Profeta encontra confirmação no texto e reflecte precisamente a apropriação do político que tem distinguido as revoluções islâmicas no mundo moderno.

 

No entanto, os sentimentos de Khomeini não lhe foram inspirados apenas pela sua leitura do Corão, constituindo igualmente o resultado de um exílio prolongado, primeiro no Iraque e a seguir no Ocidente, onde viveu protegido pelos infiéis que pretendia esconjurar pela aniquilação. E demonstram claramente que as virtudes dos sistemas políticos ocidentais são, para uma determinada mentalidade islâmica, incompreensíveis - ou compreendidas, como foram por Qutb e Atta, como falhas morais imperdoáveis. Mesmo desfrutando da paz, bem-estar e liberdade decorrentes de um estado de direito secular, alguém que encara a charia como o caminho único da salvação pode ver nessas vantagens meros sinais de vazio espiritual ou de corrupção. Para alguém como Khomeini, os direitos humanos e o governo secular denunciam a decadência da civilização ocidental, que não consegue erguer-se contra aqueles que a querem destruir e espera em vez disso conseguir apaziguá-los. Mas para o militante islamista não há compromisso possível e os sistemas que se norteiam pelos princípios do compromisso e da conciliação são meros agentes do Diabo.[15]

 

Aqueles que se encontram reféns da retórica dos direitos humanos e advogam mais tolerância para com práticas muçulmanas que, na verdade, ofendem os direitos humanos, não percebem que estão apenas a sinalizar aos muçulmanos a fraqueza do Ocidente perante os que o querem subjugar. Como Scruton assinalou em 2009, num ensaio intitulado "Islam and the West: Lines of Demarcation", o Ocidente encontra-se num perigoso período de concessão ao islão, em que as legítimas revindicações da nossa própria cultura são ignoradas ou minimizadas como forma de provar as nossas intenções pacíficas. 

 

Que fazer?

 

José Meireles Graça, a propósito da polémica em torno do burkini, escreveu o seguinte:

Finalmente: É uma atitude inteligente o Estado, em vez de fechar as madraças onde se ensine o ódio ao Ocidente, e impedir a construção de mais mesquitas onde se prega o obscurantismo de uma religião à qual os muçulmanos moderados ainda não impuseram o aggiornamento, andar pelas praias a multar mulheres que tiveram a infelicidade de nascer em sociedades medievais?

Há quem diga, com boas razões, que não. Inclino-me a pensar que sim, não porque a verdadeira guerra esteja aí mas porque, para tratar doenças, nos devemos preocupar com as causas, mas sem desprezar o tratamento sintomático.

 

Partilho desta opinião. É verdade que há questões muito mais importantes e prioritárias nas relações com o islão. Mas também é verdade que muitas instituições ocidentais têm feito concessões a práticas que violam os valores do Ocidente e que, no meio da desorientação que nelas grassa, talvez já nem saibam bem o que fazer no que concerne às relações com o islão. Ora, é preciso começar por algum lado, nem que seja por alguns dos sintomas. 

 

Muito se fala, em Teoria das Relações Internacionais, de hard power soft power. É um lugar-comum dizer-se que, frequentemente, o soft power, isto é, a influência, só consegue alcançar os seus objectivos se tiver forma de os alcançar também através do hard powerSoft power sem hard power leva muitas vezes a resultados insatisfatórios. 

 

O mesmo se pode aplicar em relação à forma como as instituições ocidentais devem lidar com as reivindicações do islão nos países ocidentais. Em primeiro lugar, devem abandonar a retórica multiculturalista e perceber a armadilha a que aludi neste post, quando com a intenção de defenderem a tolerância ou a liberdade, acabam por fazer concessões a práticas que colocam estes valores em causa. Em segundo lugar, se as instituições - bem como muitos indivíduos ocidentais - pretendem continuar a pedir tolerância e respeito aos muçulmanos (soft power), têm de estar preparadas para não fazer concessões em tudo o que ofenda os valores ocidentais (hard power), para que os muçulmanos entendam que, no Ocidente, são a cultura e os valores ocidentais que imperam. O Ocidente tem um património cultural e político que tem de ser defendido.

 

Scruton, na parte final do artigo que acima mencionei, recomenda isto mesmo como forma de nos defendermos do islamismo. Após aludir a sete características definidoras do Ocidente e que o distinguem das comunidades islâmicas, o britânico diz-nos que temos de estar preparados para não fazer concessões aos que querem que nós "troquemos a cidadania pela sujeição, a nacionalidade pela conformidade religiosa, a lei secular pela sharia, a herança judaico-cristã pelo islão, a ironia pela solenidade, a auto-crítica pelo dogmatismo, a representação pela submissão e a alegria de beber pela abstinência censória. Devemos tratar com desprezo  todos os que exigem estas mudanças e convidá-los a viver onde a sua forma de ordem política preferida já se encontra em vigor. E devemos responder à sua violência com a força que seja necessária para contê-la."

 

1 - Karl Popper, The Spell of Plato, vol. 1 de The Open Society and Its Enemies (London: Routledge, 2003), 293.

2 - Mario Vargas Llosa, A Civilização do Espectáculo (Lisboa: Quetzal Editores, 2012), 98.

3 - Ibid., 96-97.

4 - Jaime Nogueira Pinto, Ideologia e Razão de Estado (Porto: Civilização Editora, 2013), 906-907.

5 - Samuel P. Huntington, The Clash of Civilizations (Londres: Simon & Schuster, 2002) 209.

6 - Jaime Nogueira Pinto, Ideologia e Razão de Estado, 906.

7 - José Adelino Maltez, Curso de Relações Internacionais (São João do Estoril: Principia, 2002), 93.

8 - Jaime Nogueira Pinto, O Islão e o Ocidente, 4.ª ed. (Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2015), 150-151.

9 - Roger Scruton, O Ocidente e o Resto (Lisboa: Guerra e Paz, 2006), 102.

10 - Ibid., 114.

11 - Ibid., 111.

12 - Ibid., 111-112.

13 - Christopher Hitchens, Deus não é grande, 2.ª ed. (Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010), 152.

14 - Roger Sruton, O Ocidente e o Resto, 108.

15 - Ibid., 108-109.  

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publicado às 14:10

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Uma questão que marca a actualidade e tem alimentado indignações e tomadas de posição um pouco por todo o lado é a proibição da utilização do burkini em França.

 

Como o discurso político nas sociedades ocidentais é, em larga medida, enformado pelas ideias de que é proibido proibir, igualdade e tolerância, não sendo também despiciendo salientar o ódio votado por muitos aos seus próprios países e à matriz cultural onde nasceram e foram socializados, temos vindo a assistir a algo que considero verdadeiramente espantoso por parte dos que criticam a decisão francesa: a comparação com freiras que utilizam os seus hábitos quando vão à praia. 

 

Ora, esta comparação, a coberto da defesa da liberdade de escolha na indumentária, pretende tratar como objectivamente igual aquilo que é desigual e que tem uma natureza simbólica muito diferente. Enquanto o burkini, como a restante indumentária muçulmana feminina, tem um carácter coercivo imposto por uma religião que não só é estranha ao Ocidente, como pretende submetê-lo ao seu jugo, o hábito é um traje cuja utilização resulta de uma escolha voluntária por parte da freira que o enverga. Enquanto a indumentária feminina muçulmana simboliza a submissão de mulheres a quem é retirada qualquer liberdade de escolha, o hábito das freiras simboliza a dedicação voluntária à religião cristã que, gostemos ou não, está na base da matriz cultural ocidental - e, saliente-se, eu sou agnóstico. Aliás, como assinala Mark Vernon em How to be an Agnostic, ser agnóstico só faz sentido no contexto do cristianismo - não será, com certeza, por mero acaso que a apostasia é crime na generalidade dos países muçulmanos, sendo, em alguns, punida com pena de morte. Adaptando um dito atribuído a Franklin D. Roosevelt, diria que "As freiras podem envergar uma indumentária religiosa, mas é a nossa indumentária religiosa." A indumentária feminina muçulmana é estranha ao Ocidente e contém em si a crítica aos valores Ocidentais que enformam os direitos humanos, os direitos da mulher e a liberdade individual. Por tudo isto, a proibição do burkini em França é uma decisão correcta e corajosa, ao passo que a permissão de utilização do hijab nos uniformes policiais no Canadá e na Escócia é mais um contributo para o suicídio cultural ocidental.

 

Não fosse a desorientação que grassa em muitas alminhas ocidentais e provavelmente não assistiríamos a esta comparação reveladora do suicídio cultural ocidental. Para quem ainda não tenha percebido, nós estamos em guerra com outra civilização, a do islão, mesmo que o não queiramos. Continuar a enterrar a cabeça na areia e fingir que somos todos iguais e que é possível a generalidade dos muçulmanos adoptar os valores ocidentais, é apenas adiar encarar o inevitável: o islamismo elegeu-nos como inimigo e temos de o enfrentar em várias frentes.

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publicado às 08:54

Do futuro da Europa

por Samuel de Paiva Pires, em 03.07.16

michel houellebecq - submissão.jpg

 

Michel Houellebecq, Submissão:

Quando o Lempereur voltou, estendeu-me uma dezena de folhas agrafadas, escritas com caracteres muito pequenos; efectivamente, o documento tinha um título claríssimo: «PREPARAR A GUERRA CIVIL».
- Bom, há muita coisa do mesmo género, este é um dos mais sintéticos e com estatísticas mais fiáveis. Tem grande profusão de números, visto que analisa os vinte e dois países da União Europeia, mas as conclusões são sempre as mesmas em todos. De forma resumida, a tese do movimento é a seguinte: a transcendência é uma vantagem selectiva, os casais que se reconhecem numa das três religiões do Livro, e que mantêm portanto os valores patriarcais, têm mais crianças do que os casais agnósticos ou ateus; as mulheres têm menos estudos, o hedonismo e o individualismo são menos impositivos. Por outro lado, a transcendência é em larga medida uma característica geneticamente transmissível: conversões a outras religiões ou rejeições dos valores familiares têm uma frequência marginal; na esmagadora maioria dos casos as pessoas mantêm-se fiéis ao sistema metafísico em que foram criadas. O humanismo ateu, sobre o qual assenta o laico «viver juntos» dos casais informais, está portanto condenado a acabar em breve, a percentagem de população monoteísta está a aumentar em flecha, como acontece no caso particular da população muçulmana – não contando com a imigração, que acentua ainda mais o fenómeno. Assim, os identitários europeus admitem abertamente que entre os muçulmanos e a restante população vai rebentar, obrigatoriamente, mais cedo ou mais tarde, uma guerra civil. E concluem que para haver uma hipótese de os europeus vencerem essa guerra civil, esta tem de começar o mais depressa possível – em qualquer caso antes de 2050, e de preferência muito antes.

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publicado às 23:03

A infantilidade da esquerda contemporânea

por Samuel de Paiva Pires, em 12.06.16

Ver pessoas minimamente inteligentes a afirmar que os confrontos entre adeptos ingleses e russos em Marselha mostraram ao mundo os valores da civilização Ocidental, e a procurar, desta forma, defender os que professam o islão, é não só confrangedor como revelador da ignorância a respeito das mais elementares regras da lógica e do método científico. Não só é uma inferência inválida que consubstancia uma generalização abusiva e, naturalmente, errada, - e não nos esqueçamos que muitos dos que enveredam por este pensamento absurdo não se cansam, quando ocorre algum atentado terrorista inspirado pelo fundamentalismo islâmico, de bradar que os protagonistas do terrorismo fundamentalista islâmico não são representantes do islão nem falam pela generalidade dos muçulmanos -, como, infelizmente, se trata de um tipo de pensamento alicerçado no esquerdismo contemporâneo que, como assinala Roger Scruton em Fools, Frauds and Firebrands, utiliza qualquer argumento, por mais falhas que tenha, para denegrir a herança cultural Ocidental. De facto, graças a este tipo de pessoas, que pululam em todas as instituições ocidentais, em particular nas universidades, parecemos ter entrado, como também salienta Scruton, num período de suicídio cultural.

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publicado às 19:09

O Islão não é uma religião de paz

por Samuel de Paiva Pires, em 23.03.16

A repetição ad nauseam de que o "Islão é uma religião de paz" não torna esta patetice numa verdade. Na realidade, nem o Islão nem o Cristianismo são pacifistas, pois estão no seu cerne as ideias de conversão, submissão e aniquilação do Outro, o que implica e implicou sempre violência, quer psicológica, quer física. Claro que para o Cristianismo o tempo das Cruzadas já lá vai e o confronto entre catolicismo e protestantismo já não tem os contornos de outrora, além de que as seitas fundamentalistas são residuais, mas para o Islão a violência continua a ser um instrumento primordial. Independentemente da crença em Deus, a religião está sujeita aos desejos e ímpetos humanos e historicamente talvez apenas o número de mortes causadas pelos totalitarismos do século XX supere o número de mortes em nome da religião.

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publicado às 14:21

Das relações entre o Ocidente e o Islão

por Samuel de Paiva Pires, em 22.03.16

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 Samuel Huntington, The Clash of Civilizations:


Some Westerners, including President Bill Clinton, have argued that the West does not have problems with Islam but only with violent Islamist extremists. Fourteen hundred years of history demonstrate otherwise. The relations between Islam and Christianity, both Orthodox and Western, have often been stormy. Each has been the other's Other. The twentieth-century conflict between liberal democracy and Marxist-Leninism is only a fleeting and superficial historical phenomenon compared to the continuing and deeply conflictual relation between Islam and Christianity. At times, peaceful coexistence has prevailed; more often the relation has been one of intense rivalry and of varying degrees of hot war. Their "historical dynamics," John Esposito comments, "... often found the two communities in competition, and locked at times in deadly combat, for power, land, and souls." Across the centuries the fortunes of the two religions have risen and fallen in a sequence of momentous surges, pauses, and countersurges.

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publicado às 14:43

Mensagem de Paris

por John Wolf, em 12.01.15

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O mundo ocidental vive obcecado com a ideia do superlativo, da grandeza incomparável. A manifestação de ontem foi vendida como sendo a maior na história da humanidade desde que se conhece o terrorismo. A vigília de ontem, de acordo com jornalistas que não dormiam há mais 72 horas, serviria para acabar de vez com a profunda fractura que define a sociedade francesa. E vimos a proa do cordão político da Europa dar esse espectáculo - nada devemos, nada tememos. O problema que se apresenta aos orquestradores da ordem unionista europeia prende-se com a ideia de escala. A homenagem de ontem, apresentada como cartucho maior, será certamente relativizada nos tempos que correm. O problema que essencialmente enfrentamos relaciona-se com as mensagens que se pretendem transmitir, sem que se faça a devida pausa para interpretar os seus conteúdos, assim como o seu alcance. Não sabemos ao certo quem atirou a primeira caneta ou disparou o primeiro tiro. O que sabemos é que a comunicação será sempre assimétrica. Ou seja, teremos a impressão de que a última palavra será a nossa, quando de facto a mesma se encontra em parte incerta, nas trincheiras do inimigo, porventura. Mas insistimos. Antecipamos os movimentos dos outros por descrença nas nossas palavras e nas nossas acções. E é este o mundo dialético, imprevisível, em que vivemos. Quatro milhões de pessoas quiseram enviar um recado que corre o risco de não chegar ao destinatário em conformidade com a sua intenção. Da próxima vez que algo inédito acontecer que resposta será dada? Que mega-manifestação irá superar a anterior?

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publicado às 13:11

Instituto Libera Ratio - Islão: uma ameaça para a Europa?

por Samuel de Paiva Pires, em 15.10.14

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No próximo dia 21 de Outubro o Instituto Libera Ratio retoma as suas actividades com uma conferência subordinada à temática "Islão: uma ameaça para a Europa?", que terá como orador o Professor Jaime Nogueira Pinto. A conferência terá lugar no IDL - Instituto Amaro da Costa (Rua do Patrocínio, n.º 128 - A, 1350-232 Lisboa), pelas 21h15, e a entrada é livre.

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publicado às 21:18

Loucuras catalunheireiras, ou como se fazem mais Le Pen

por Nuno Castelo-Branco, em 24.06.14

Por 2,2 milhões de Euros a mais? Que barato! Nem sei como é que a Sonae não farejou este negócio, lá estaría mais um Colombo em potância. Antes assim fosse, mas neste caso em que prepondera a tolice, não perderão pela demora.

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publicado às 18:38

Para este tipo de problemas...

por Nuno Castelo-Branco, em 05.04.14

..remédios radicais. O MAI declara existirem cidadãos portugueses na campanha terrorista que a Al Qaeda - neste caso apoiada pelos EUA, França e Turquia, entre outros - desenvolve na Síria. Acrescenta-se ainda o facto destes cidadãos portugueses serem provenientes do Paquistão, Índia e Bangla Desh, tendo alguns deles obtendo fraudulentamente a nacionalidade, através de casamentos comprados. Grosso modo, conseguiram-na mercê de uma forma de prostituição. 

Nunca foram, não são ou algum dia serão portugueses, pois tratou-se de um criminoso artifício. 

 

Há que adequar a Lei a este tipo de situações, fazendo com que seja possível o imediato retirar a dita nacionalidade aos terroristas, aproveitando-se também para através da descuidada cônjuge, punir severamente este tipo de redes de negócios. 

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publicado às 22:11

Alguns apontamentos sobre o Mali

por João Quaresma, em 19.01.13

1. Era perceptível desde o Verão que algo se iria passar no Norte do Mali, com o reforço de forças especiais francesas na região, a que se juntou a concentração de forças americanas no Mediterrâneo em Setembro (após o ataque ao consulado norte-americano em Benghazi). Ambos os países têm feito a vigilância de movimentos e a identificação de possíveis alvos. Desde que a região foi tomada pelos islamitas, França tentou virar os tuaregues contra os movimentos jihadistas ligados à Al Qaeda (Al Qaeda no Magrebe Islâmico e Ansar-Dine), criando uma luta interna de forma a permitir que o exército maliano, reforçado por contingentes dos países da região, lançasse um contra-ataque. Triplo fracasso. Não só não conseguiu criar essa divisão, como boa parte do exército governamental do Mali desertou para o lado dos rebeldes e o que existe é extremamente ineficaz, mal treinado, mal equipado e pouco motivado. Por último, o governo de Bamako tentou evitar a vinda das tropas aliadas, consciente de que se sabe quando os aliados chegam mas não se sabe quando partem. Ou seja, não podia resolver o problema sozinho mas também não queria ajuda externa. Neste impasse, e para resolver este problema que se arrastava havia já demasiado tempo, nos últimos meses França foi criando as condições para uma intervenção militar internacional (que seria dos países da CEDEAO) com o aval das Nações Unidas.

 

2. O fundamentalismo islâmico implantado pela Irmandade Muçulmana (organização que goza de grande apoio e financiamento do Qatar) está em progressão desde as «primaveras árabes», e nada indica que o processo seja reversível. Mesmo em Marrocos, país moderado e última monarquia do Magrebe, o governo é afecto à Irmandade Muçulmana e apesar da moderação conseguida pelo Rei através de concessões, não é certo que este regime se aguente; por um lado tem sido um regime sólido, prestigiado e popular, por outro a pressão para o derrubar e instalar uma república islâmica é grande. A Argélia é o único país do Norte de África que até agora escapou ao processo, e é também o maior e o mais forte, gozando também do poder de influência conferido enquanto um dos principais fornecedores energéticos da Europa. Mas há também a questão do povo tuaregue, presente numa vasta região dividida entre vários países com fronteiras traçadas a régua e esquadro, e que reclama um estado seu. Se se concede a independência a um estado tuaregue num desses países, isso criará problemas a todos os outros. A repetição da independência do Sudão do Sul não pode ser consentida.

 

3. Naturalmente que sempre que falamos dos interesses franceses na região do Sahel, temos de ter presente a Areva, o gigante francês da energia nuclear e as suas explorações de urânio. No entanto, e mesmo que esses interesses existam nesta guerra, será manifestamente exagerado considerá-los como um motivo para esta guerra. Se fosse, certamente não teria havido unanimidade no Conselho de Segurança das Nações Unidas no apoio a esta intervenção (o que é digno de registo sobretudo sabendo-se que a China também tem interesses na região), nem haveria aviões ingleses, americanos ou canadianos a apoiar directamente esta expedição. A intervenção deverá explicar-se pela necessidade de travar os islamitas e evitar que se forme um grande Afeganistão na região do Sara/Sahel, o que seria uma ameaça para a Europa. Infelizmente, e mais uma vez, a União Europeia tem primado pela passividade, até porque o Norte da Europa acha que o islamismo na margem sul do Mediterrâneo não lhe diz respeito e que é apenas um problema para os países do Sul. E será para estes países (Espanha, Portugal, França, Itália, Malta e Grécia) que a tensão que se está a acumular no Norte de África tenderá - e mais cedo do que se pensa - a transbordar.

 

4. França é actualmente, a maior potência militar europeia, e dispõe de forças numerosas, bem equipadas e treinadas. No entanto, com os cortes orçamentais a que a defesa tem sido sujeita, em algumas áreas as capacidades ressentem-se e isso é visivel. Por exemplo, o stock de bombas da Força Aérea foi quase esgotado na campanha da Líbia, em 2011, e ainda não foi completamente reposto. Grande parte do equipamento é dos anos 80 e, no caso dos aviões de transporte, anterior a isso e com muito uso. A ajuda solicitada aos aliados tem sido, justamente, de aviões de transporte, dos quais depende toda esta operação. Por seu lado, a capacidade combativa dos islamitas, determinados, bem treinados e bem armados (com a pilhagem dos depósitos do exército líbio, no momento da queda de Kadaffi) e movendo-se rapidamente em simples pick-ups, tem sido uma surpresa. Normalmente, não deveriam conseguir resistir dias a fio às forças francesas, como tem acontecido. Isto confirma que o know-how da guerra do Afeganistão e provavelmente muitos combatentes, mudaram-se para o Norte de África. Esta Sexta, a cidade de Konna foi tomada pós uma semana de combates, mas - por enquanto - não são reveladas baixas malianas nem francesas.

 

5. O conflito está a tornar-se regional. O ataque ao complexo de gás de In Aménas (um dos mais importantes do país) por parte de jihadistas vindos de território líbio (que controlam, no Sul) poderá levar a Argélia a uma intervenção no país vizinho para os perseguir nas suas bases, o que seria justificado perante a comunidade internacional dada a necessidade de segurança dos recursos energéticos. Por outro lado, o Leste da Mauritânia tem sido atravessado pelos jihadistas e nos últimos dias deram-se passos para o alastramento da guerra a este país, com o presidente local a oferecer auxílio ao Mali (contra a opinião da esmagadora maioria das forças vivas do país, que são pró-jihadistas). No início da semana, Espanha ofereceu a França a disponibilidade das suas bases aéreas e navais para as operações em África, tendo os franceses solicitado o uso das Canárias para apoio da sua aviação, o que prenuncia operações sobre território Mauritano (já que o espaço aéreo argelino está acessível às aeronaves francesas, nas ligações com a Europa). Já esta Sexta à noite, os franceses referiam que os combatentes jihadistas estavam a escapar atravessando a fronteira com a Mauritânia. Nos últimos meses, Espanha reforçou o seu dispositivo militar nas Canárias, algo que as circunstâncias estão a justificar.

 

6. Portugal, face a esta situação, fez até agora o mínimo dos mínimos que se lhe exigia: demonstrou apoio político a França e prometeu apenas apoio militar no seio da missão da UE de treino do exército maliano - uma missão de utilidade algo duvidosa, já que demora meses a formar novas tropas - valendo-se da boa desculpa da situação financeira. Naturalmente que Portugal não deve favores nenhuns a França (que há muito que faz o que pode para prejudicar a presença portuguesa em África, nomedamente na Guiné-Bissau) nem à CEDEAO, que alinha com França e que apoia directamente com as suas tropas o regime golpista que em 2012 tomou o poder em Bissau. Mas, caso se dê um maior envolvimento de outros países europeus no conflito, será difícil alhear-se da situação, e ficar apenas a assistir numa questão em que somos parte interessada: o islamismo no Norte de África é uma ameaça à segurança nacional e algo de mais efectivo provavelmente terá que ser feito, seja no apoio a França, seja a outros países envolvidos. Além de que o fluxo de refugiados que a guerra está a gerar poderá vir a afectar-nos, sendo que o envio de uma missão humanitária (provavelmente para a Mauritânia) também deverá ser de considerar. Por fim, é preciso olhar para a situação com realismo e responsabilidade. O Ministério da Defesa tem agora mais com que se ocupar do que a reprivatização dos estaleiros de Viana do Castelo ou a disparatada venda de parte dos caças F-16 (que não são muitos e que há muito deviam estar presentes também na Madeira, como defende a Força Aérea).

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publicado às 05:00

Sobre a Retaliação de Israel

por João Teixeira de Freitas, em 20.11.12

Antes de mais, e não obstante aos esquerdismos sempre gritantes e à facciosidade do espetáculo pela metade com que se nos apresentam os meios de comunicação e muitos dos seus (pouco) doutos comentadores, é necessário ter alguns elementos em consideração quando olhamos para qualquer conflicto entre um Estado e um agente protótipo de Estado inegavelmente clandestino e ilegítimo (Hamas):


1) Como a própria nómina deveria indicar de forma dolorosamente evidente, uma análise deve ser analítica, nunca prescritiva e muito menos revisionista. A análise opera-se nos elementos do agora e o anacronismo apenas se deve estender até ao ponto do estritamente relacionado com/em seguimento de.

2) Os julgamentos de valor e moralidade de matriz devem vir no fim. Infiltrando-se na análise apenas dão azo a pressupostos falsos, incompletos e, muitas vezes, absolutamente ignorantes. Como se costuma dizer e bem: é preciso ser-se frio para se ter razão.

Procedendo ao meu ver sobre as críticas inanes à retaliação Israelita:

Quando um Estado dotado de valores, legislação e cultura largamente ocidentais se vê numa situação em que tem que retaliar com violência, não há obviamente nenhum prazer nisso. Achar que jovens adultos de 21 anos gostam de ir para o deserto colocar a sua vida em risco por causa de um conjunto de terroristas com demasiados apoios Estatais (nomeadamente o Irão e uma parte da própria sociedade palestina), é um pensamento tão ignorante como atroz.

No entanto, a retaliação é essencial. Em qualquer outra situação nem seriam colocadas dúvidas, mas o mediatismo impõe o debate. A verdade é que o direito à retaliação e à auto-defesa é um direito consagrado e muito bem formulado em termos de objecto no DIP. Israel sofreu um ataque proveniente de um grupo albergado por forças administrativas de um território vizinho, logo a retaliação tem e deve de ser, de acordo com o próprio Direito, focada contra essa proveniência.

Claro que, e aqui surge a problemática maior, o Hamas recorre a uma técnica muito típica dos grupos Islâmicos fundamentalistas: a infiltração em populações e localidades civis; neste caso a utilização de escudos humanos por via do disparo do armamento de longo alcance ser feito a partir de zonas civis. Afinal de contas, a ideia de nação Muçulmana (a Umma) impõe a conscrição não voluntária de todo o povo "fiel" à Jihad de qualquer grupo fundamentalista, e isso inclui crianças que são incentivadas a continuarem a frequentar a creche enquanto agentes do Hamas utilizam a mesma como base para lançamento de rockets e outros projécteis explosivos contra Israel.

Ora, é muito fácil ao cidadão ocidental típico - habitante a distâncias consideráveis destas realidades - emitir o seu pobre e precoce julgamento moral, acusando os Israelitas de "estarem a massacrar palestinianos". Na realidade, quem os está a massacrar é o próprio Hamas, o qual muito depressa se oferece ao sacrifício de civis palestinos como escudo humano para subverter o apoio legítimo e expectável à retaliação de Israel, e para desmoralizar as tropas israelitas. 

O Hamas é, objectivamente, o maior destruidor de vidas palestinas - a realidade dos factos fala por si. Não se pode tolerar a proveniência constante de ataques à distância, sabendo muitas vezes o perigo da trajectória dos mesmos para alvos civis e afins - a reacção imediata é a retaliação, e o Hamas conta muito conscientemente e estrategicamente com isso, de uma forma nojenta e insidiosa.

Isto constitui o complexo moral bélico. O retaliar de imediato para evitar mortes do nosso lado, sabendo da potencial utilização de escudos humanos pelo lado inimigo, levanta diversas questões morais que poucas pessoas se dão ao trabalho intelectual de tratar apropriadamente. 

O dilema é de uma brutalidade e desumanidade tremenda, mas a decisão é necessariamente a de responder com moralidade relativa à imoralidade absoluta do inimigo que utiliza escudos humanos: a protecção dos que nos são culturalmente, nacionalmente e identitariamente próximos evidencia-se como a acção instinctiva; mesmo sabendo o que isso poderá significar para as vidas inocentes reféns dos devaneios fundamentalistas do Hamas – o qual não parece claramente ter o mesmo apego à vida vizinha, mas esse é um dos critérios do fundamentalismo islâmico. Que decisão tomaria? Conseguiria sequer tomar uma? Duvido, é claro, que tomando uma, esta envolvesse sacrificar os seus compatriotas civis.

Claro está, esta complexidade tem implicações humanitárias tremendas, mas, mais uma vez, a mão de Israel é forçada pelo Hamas. E, diga-se de passagem, em nenhuma guerra houve ou alguma vez haverá charme ou civismo. Apenas podemos exigir o básico: o não sacrificar vidas inocentes com propósitos de avançar agendas políticas e estratégias paramilitares (como, devo sublinhar, o Hamas fez e faz com estas técnicas).

A minha insistência em delinear bem a culpa factual do Hamas tem uma razão muito simples: os meios de comunicação exploram a culpabilização total de Israel pelas mortes civis porque isso é o que vende mais em termos de audiência e ideologia ‘mainstream’. 

Infelizmente, a maior parte das pessoas, ora por ignorância destas questões ora pelo complexo de culpa branca, ignora o facto gritante e claro da culpa residir nas acções subversivas, provocadoras, nefastas e imorais do Hamas; acções contra tanto a população palestina (muitas vezes refém da influência destruidora do Hamas no futuro do seu povo) como com a população israelita (que ‘oferece’ centenas de mortes civis aos ataques terroristas do Hamas).

Israel é um bastião do Ocidente inserido num caldeirão de ódio religioso e frustração antiocidental. Apesar das suas tensões étnicas e rácicas internas (por vezes entre etnias judaicas), a sua legislação é clara e o sistema judicial penaliza de facto todas as situações de racismo e incitamento ao racismo, inclusive julgando casos de racismo incitado em contexto de claques de desporto (algo que Portugal ainda não fez). 

Aliás, Israel "prohibits discrimination by both government and nongovernment entities on the basis of race, religion, and political beliefs, and prohibits incitement to racism.[2] The Israeli government and many groups within Israel have undertaken efforts to combat racism (...)". 

Surgiram e surgem alguns casos de violência rácica nas comunidades, os quais foram de facto (e continuam a ser) punidos e julgados de acordo com a regulação e legislação mencionadas; o que significa que Israel, como Estado, segue em todas as dimensões o seu rumo de luz ao fundo do túnel numa região de outra forma obscurecida pelo Islão fundamentalista.

Livrem-se do complexo de culpa; assumam-se como Ocidentais que são em todas as vertentes da vossa vida e não tenham vergonha da vossa cultura. É tempo de apoiar Israel, e é tempo de apoiar o povo palestino condenando não Israel, mas sim o Hamas pelas acções subversivas que conduz.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
PS: Apenas deixo também uma breve adenda de alguns factos históricos e políticos que são muitas vezes esquecidos no discurso geral e produzem vários erros de análise:


1 – A Palestina nunca foi um estado soberano (ficará claro em breve o porquê de mencionar este facto). A Palestina era um protectorado de mandato Britânico, pelo que não tinha nenhuma vontade expressa em termos de relações de política externa e matérias complexas de administração interna – assim o ditava a legislação da época, sublinhe-se.


2 – Por conseguinte, exceptuando a crise do Suez em que Israel desenvolveu acções efectivamente preventivas/preemptivas (depende da perspectiva válida de cada um), Israel nunca foi o agressor em conflictos com Estados Árabes. Todas as outras operações militares não incluídas nestes casos constituíram acções defensivas e expedições de prevenção securitária no sul do Líbano – cujo Estado respectivo não quer e/ou não consegue policiar de forma eficaz.

 

 

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publicado às 00:41






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