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Programa para mais logo

por Samuel de Paiva Pires, em 09.01.17

José Adelino Maltez - Liberdade, Pátria e Honra.

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publicado às 13:33

Programa para amanhã

por Samuel de Paiva Pires, em 29.11.16

convite do império por cumprir.jpg

 

Mais informações aqui ou aqui

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publicado às 23:24

"Do Império por Cumprir"

por Samuel de Paiva Pires, em 05.09.16

É o título da nova obra da autoria do Professor José Adelino Maltez, que será publicada no próximo mês de Outubro pelo ISCSP. Por ora, podem consultar alguns textos no blog a título de pré-publicação.

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publicado às 23:21

A vitória do Syriza e o futuro da Europa

por Samuel de Paiva Pires, em 22.01.15

Entrevista a José Adelino Maltez:

 

"Insisto: é possível a Tsipras levar para Bruxelas o discurso utilizado na campanha?

Por que não? Seria bom para os países ditos do sul. Seria a vingança dos PIIGS e o começo, por intermédio de um pequeno/médio país, digamos assim, daquilo que parecia estar proibido. Daria alento (em Itália, em Espanha e em Portugal) a uma alternativa dentro do modelo democrático e levaria a que deixasse de ser considerado como dogma aquilo que o senhor Schäuble diz.

Mas terá de haver algumas concessões de parte a parte. Consegue prever quais?

Não, porque quem as aproveitará imediatamente será a Itália, será Portugal, será Espanha. Acho que há reivindicações do Syriza que só por hipocrisia não são assumidas pelo governo de direita em Portugal. Acho que a vitória do Syriza em termos do interesse nacional português é o que mais nos convém."

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publicado às 15:34

Não há democracia sem povo

por Samuel de Paiva Pires, em 16.10.13

José Adelino Maltez, "Democracia sem povo?":


O desafio que se apresenta à comunidade não é apenas uma questão financeira, mas antes um desafio total à própria democracia representativa, porque o representante não é apenas o que recebeu uma autorização para agir por outro, mesmo que seja o povo. Impõe-se que ele tenha uma responsabilização a posteriori, comaccountability, com prestação de contas em sentido amplo, porque há uma diferença entre o que o representante faz (acting for) e o que o representante é (standing for), para referirmos o que ensina Hanna Finichel Pitkin. O Orçamento pode ser aprovado em reuniões técnicas com a troika, ou com os agentes das forças vivas, nomeados para comissões técnicas de acompanhamento, mas uma democracia sem povo não passa de mera democratura.

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publicado às 12:11

Tudo como dantes

por Samuel de Paiva Pires, em 22.07.13

José Adelino Maltez, Tudo como dantes, sem procura de uma república melhor:


«Em pouco menos de um quarto de hora, os portugueses, feitos auditores do comentário oficial, ficaram a saber que, sem nenhum actor pedir perdão pela ilusão de interrupção, o programa (de uma maioria, um governo e um presidente) segue dentro de momentos. Porque tudo continua como dantes, com o quartel-general nos directórios partidários da maioria formal da presente aritmética parlamentar. Não emergiu um autor, constitucionalmente autorizado, da geometria social capaz de reforçar a confiança pública no funcionamento regular das instituições, com poder de controlo democrático do dito "normal financiamento do Estado e da economia". O presidente preferiu o estático da mera sintonia entre dois dos três pilares do situacionismo da troika, com diminuição de arco, sem antecipação de um "novo ciclo político", melhor do que este, o que não se mostra aberto à "cultura política do compromisso". Até nesta "ocasião de emergência", ou "fase crucial", não ousou procurar aquele médio prazo que nos permitiria navegar para o porto seguro da pós-troika. Apenas se confirmou que o Presidente abdicou da solução que, categoricamente, considerou a melhor. O nosso futuro ficou, assim, limitado ao chamado pretérito imperfeito, o do "país imprevisível". Logo, face ao vazio político moderador do centro, capaz de ser realmente concêntrico face ao país, para que "o país possa ser administrado pelo país", ficou a resignação do "salvo-seja". Porque o presidente temeu sulcar o imprevisível, até com a mediação activa do risco, pela criatividade institucional, que parecia prometida. Esperemos que, pelo menos, "os cidadãos" tenham ficado "mais conscientes" e surjam novas forças vivas que antecipem a pilotagem do amanhã.»

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publicado às 12:24

José Adelino Maltez, Iniciativa que vai além do arrastamento: 


«Não houve fuga, pântano, nem tabu. Muito menos, a pescada do segredinho, aquela que, antes de o ser, já o era. Afinal, no presente quadro parlamentar, não vai haver um novo governo, mas a continuidade, não renovada, do que foi presidencialmente qualificado como o atual Governo, desde já condenado a não pilotar o futuro, marcado para o início de 2014. Por outras palavras, o maquiavelismo da retórica, aquele que, no curto prazo, parecia ter, com ele, a razão da história dos vencedores da espuma, não pode alcançar o médio prazo. Porque tanto é uma má moral como uma péssima política. O economista-Presidente sabe, de ciência certa, mas sem poder absoluto, que, a longo prazo, poderemos estar todos mortos. É evidente que, perante a ditadura do estado de exceção, o normal é haver anormais, até porque, em democracia, governar é gerir crises. Por outras palavras, o Presidente não quis ser, para já, a iniciativa presidencial, nomeadamente pela constituição de um governo provisório criativo e a antecipação das necessárias eleições. Mas também não se ficou pelo mero arrastamento presidencial. Apenas lançou um ultimato ao que considerou como políticos, proclamando que chegou a era da responsabilidade e reconhecendo que a atual coligação não é união sagrada. Guardou a bomba atómica para antes do pós-troika, no caso de não haver acordo de salvação nacional, e até disse que não pretende arbitrar a negociação. Em conclusão: coisas novas. Com a incerteza de poder emergir algo que vá além da velha dialética de "uma maioria, um governo e um presidente", o qual, de forma minimalista, seria mera consequência desses poderes fácticos. A política já não pode continuar a ser o que foi nem voltar a ser o que era. O que vai ser, só Deus sabe, mesmo que Deus exista.»

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publicado às 11:45

Pensar é dizer não

por Samuel de Paiva Pires, em 10.02.13

 

José Adelino Maltez, Breviário de um Repúblico, 29 de Janeiro:

 

«Pensar é dizer não. A realidade sempre foi subvertida pelas autonomias, pessoais e comunitárias, quando estas assumem que, no princípio, tem de estar o fim, o tal dever ser que é, das essências que apenas se realizam pelas existências. Todos os decretinos processadores, em nome da ideologia ou do vértice hierárquico, do ministerialismo, com os seus sucedâneos, directoristas, presidencialistas ou rectorísticos, temem os que praticam o pensar é dizer não, como dizia Alain. Ou que a revolta é bem mais fecunda que a revolução, como vai acrescentar Albert Camus (2011).

 

Resistência individual. Quem experimentou as garras do saneamento e do processamento da persiganga não pode admitir que o rolo unidimensional do conformismo nos faça enjoar, sobretudo nesta praia da Europa que sempre foi partida para todas as sete partidas. O sinal do nosso futuro continua a passar pela resistência individual e pelo pensamento crítico da liberdade. A essência do homem ocidental sempre foi o individual do indiviso, que é expressão da fundamental dignidade da pessoa humana. Mesmo quando se rejeitam as normalizações impostas pelos pretensos antidogmáticos, neodogmáticos, como esses que, perante certo situacionismo, proclamam que têm o monopólio da contestação e assim nos desmobilizam. Os bobos da demagogia, da tirania e da mentira podem alimentar-se desses irmãos-inimigos. Quem quiser continuar mesmo do contra tem que procurar o mais além e antecipar o tempo da revolta (2011).»

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publicado às 15:36

É já amanhã, dia 31 de Janeiro, pelas 18:30, na livraria Ferin, no Chiado, que será lançada a mais recente obra do Professor José Adelino Maltez, Breviário de um Repúblico. A apresentação ficará a cargo da Professora Cristina Montalvão Sarmento. Trata-se de um sublime exercício estilístico com um conteúdo inimitável, em que nos são revelados diversos escritos públicos dos últimos anos, organizados por dias, introduzidos por deliciosas efemérides criteriosamente escolhidas por quem domina como poucos a ironia, e a que o Professor retirou a carga efémera da espuma dos dias, fazendo-os alcançar aquele domínio das coisas eternas, o que tornará esta obra numa ferramenta intemporal para compreender Portugal. Podem ler algumas entradas no site da Gradiva e aconselho também a leitura deste post no Macroscopio.

 

Deixo ainda uma das primeiras entradas, de dia 17 de Janeiro, escrita em 2006:

 

«Símbolo e cultura. A pátria não é apenas a ideologia que justifica a ordem estabelecida, ou a utopia que a subverte, mas a terceira potência da alma (Platão), a imaginação, que vai além da razão e da vontade. Porque o tal imaginário atravessa o discurso racional, ordena o respectivo simbolismo e desconstrói a sua pretensa lógica. Porque quando penso que penso, não sou apenas o eu que pensa, mas também os que pensaram antes de mim, para que eu me sinta pequena onda de uma corrente que me ultrapassa.»

 

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publicado às 22:29

Da heresia e da rebeldia

por Samuel de Paiva Pires, em 19.01.13

José Adelino Maltez, O homem é um ser que nunca se repete... viva a heresia!:


«Há um Deus que pode nascer todos os dias dentro de quem somos. Porque, às vezes, é na rebeldia que está a lealdade, nessa suprema ortodoxia do heterodoxo, e não na diluição no rebanho seguidista. Deus pode ser o mundo e haver mais mundos, sobretudo aqueles que continuam a criação, dando novos mundos ao mundo. As seitas sempre foram a própria negação da verdade. Não passam de rebanhos de dilectos que apenas reagem aos exoterismos, mesmo que se disfarcem em rituais, sobretudo quando estes perderam o sentido dos gestos. 

(...)

Odeio todos os grupos e movimentos que procuram assumir o monopólio da verdade, do espírito, da vida e do próprio bem, só porque alguns exibem uma contrafacção da chave da verdade e dizem ser o caminho. Odeio catecismos e formulários, bem como os seminaristas de cordel que procuram transformar-se nos cardeais da propaganda da falsa fé e nos comandantes de uma nova Inquisição que nos quer a todos relaxar para o braço secular da persiganga. Os que retomam a hermenêutica disciplinada da unicidade preferem a liturgia da subserviência à religiosidade da libertação. Até nem compreendem que só há pátria quando se cultivam as complexas heranças que nos sagraram a terra das árvores, dos rios e dos montes. Eles nunca entenderão que é possível o não através do sim e o sim através do não. A heresia continua a ser a única foram criativa de fecundarmos este caminho repleto de dejectos, ditos os filhos dilectos, mas que sabem que a revolta individual dos que procuram é o que mais se aproxima de sua imagem e semelhança. O homem é um ser que nunca se repete.»

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publicado às 22:13

Programa para hoje

por Samuel de Paiva Pires, em 29.11.12

No âmbito do projecto "Educar", promovido pela Causa Real, decorrerá hoje, pelas 16h30m, na Escola Superior de Educação João de Deus, a primeira de uma série de conferências e debates dedicados às temáticas da democracia, regime político e cidadania em Portugal no século XXI. Os oradores serão o Professor José Adelino Maltez e eu próprio. Naturalmente, a conferência é aberta ao público e a entrada é livre.



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publicado às 11:36

É já amanhã

por Samuel de Paiva Pires, em 28.11.12

No âmbito do projecto "Educar", promovido pela Causa Real, decorrerá amanhã, pelas 16h30m, na Escola Superior de Educação João de Deus, a primeira de uma série de conferências e debates dedicados às temáticas da democracia, regime político e cidadania em Portugal no século XXI. Os oradores serão o Professor José Adelino Maltez e eu próprio. Naturalmente, a conferência é aberta ao público e a entrada é livre.

 

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publicado às 12:21

A melhor ideia de sempre: a liberdade

por Samuel de Paiva Pires, em 29.06.12

José Adelino Maltez no The Next Big Idea da Sic Notícias:

 

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publicado às 21:33

Old whiggism

por Samuel de Paiva Pires, em 27.02.12

José Adelino Maltez, Reflexões de um herético, adepto da revolução:

 

«O destino de um "whig" é como o de um "girondin". Os "tories" consideram-nos jacobinos e estes utilizam contra eles a guilhotina, acusando-os de "contra-revolucionários". Eles, como liberais, contra o construtivismo das revoluções, apenas querem uma revolução evitada, isto é, querem conservar o que deve ser, com metodologias reformistas e objectivos revolucionários. Apenas são velhos liberais, contra "neocons", "neolibs" e revolucionários frustrados, incluindo os que se transformaram em situacionistas. Detestam as "révolutions d'en haut", incluindo as dos déspotas esclarecidos, a partir do ministerialismo.

 

Alguns ainda vão dizer que isto é maçónico. Quando é apenas paleio do Friedrich Augustus e do Karl Raimund. Isto é, liberal e iluminista. E muito austríaco. Apesar de só a partir de Londres, o terem dissertado. Meras marcas identitárias de uma concepção do mundo e da vida. Friedrich Augustus von Hayek. Karl Raimund Popper. Ou a sociedade aberta e os seus inimigos, os do caminho para a servidão.»

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publicado às 11:21

Por um patriotismo científico

por Samuel de Paiva Pires, em 30.01.12

Recomenda-se a leitura do post de José Adelino Maltez. Quem tiver oportunidade, pode assistir mais logo à palestra no IST.

 

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publicado às 13:10

Da tradição em José Adelino Maltez

por Samuel de Paiva Pires, em 16.01.12

Com a devida autorização do Professor José Adelino Maltez, transcrevo na íntegra a sublime entrada "Tradição" do seu Abecedário Simbiótico (pp. 509-512):

 

 

«Do latim traditio, paradosis, em grego. Não vemos as coisas como elas são, mas antes como nós somos (Anais Nin). Etimologicamente, qualquer coisa que passa de uma pessoa para outra. A própria Antígona, se se revolta, é em nome da tradição, para que seus irmãos encontrem a paz na sepultura e os ritos sejam observados (Albert Camus, HR, 47). Para Chesterton, tradição é uma democracia dos mortos e Evola salienta que há um conceito moderno de tradição, assumido pelo nacionalismo: a dimensão da transcendência, do que é superior à história, está completamente ausente dessa tradição (RCMM, p. 439). Porque não corresponde a essa palavra existente nas civilizações antigas: trata-se antes de um mito ou de uma comunidade fictícia, assente num menor denominador comum, dado pelo simples facto de se pertencer a um determinado grupo (id. 439). Porque o Sacro Império e a civilização feudal foram as últimas manifestações desse tipo de conceito de tradição. Porque o Império foi sentido como uma realidade já supra-política, como uma instituição de origem sobre-natural que formava um poder único com o rei divino (id. 403.) E se, depois do fim do mundo antigo, houve uma civilização que tenha merecido nome de Renascimento, foi precisamente a Idade Média (id. 403). Logo, teoricamente, o Ocidente aceitou o cristianismo, mas, na prática, o Ocidente permaneceu pagão (id. 377). E o resultado foi um hibridismo: o que no catolicismo tem um carácter realmente tradicional é bem pouco cristão e o que nele é cristão é bem pouco tradicional (id. 379). Teologicamente, a tradição é um ensinamento passado a outro, principalmente de um mestre a um discípulo. Segundo as escolas desenvolvimentistas, é um conjunto de traços culturais, sociais, políticos e económicos que caracterizam as sociedades rurais pré-industriais, traços permanentes que contrariam as exigências de modernização. Ser pela tradição é saber recuar, em pensamento e em entusiasmo, para, aprofundando o presente, dar raízes ao futuro, e melhor se poder avançar, negando a falsa dialéctica do antigo contra o moderno. Tradição tanto é o acto de transmissão de um conjunto de valores morais e espirituais, como integra cada um deles numa corrente de conhecimento e de sabedoria provindas de plurais fontes culturais. Porque o homem só é capaz de construir-se quando procura a perfeição, referindo-se e enraizando-se num património, ou numa herança, cujos valores podem ser referenciados através de um experiência iniciática. Porque só é novo aquilo que se esqueceu (Le Play), ao contrário do que continua a propalar certa visão tacanha do progressismo. Porque o moderno já foi antigo de que o antigo há-de ser moderno, segundo as palavras do Padre António Vieira. Porque só é novo aquilo que vem de trás, reelaborado para um novo fim. Só há o verdadeiro fora do tempo que nos prende, mas desde que se tenha tempo e lugar: os olhos nas estrelas do transcendente e os pés, no chão pisado do dia-a-dia. A autêntica tradição sempre admitiu o verdadeiro progresso, porque este nunca pode ser visto decepadamente, como um mito desprendido das origens, para utilizarmos uma análise tão cara ao magistério de Henrique Barrilaro Ruas. A tradição nada tem a ver com esse sucedâneo do mito pagão do eterno retorno, entendido como um simples círculo fechado, totalmente contrário ao conceito de tempo linear, assumido pelo libertacionismo judaico-cristão. Porque contra os sucessivos milenarismos do fim da história, há que proclamar, como Santo Agostinho, que não é o mundo que acaba, é um novo mundo que começa. Não pode haver tradição sem inovação, sem aquele movimento que passa por uma realidade viva, bem concreta, e não por um simples espaço vazio. Reagindo contra o que foi segregado pela história, e que se manifesta nos situacionismos que cedem à ditadura do statu quo, tanto surgem aqueles pretensos revolucionários, seguidores de um modelo de pronto-a-vestir ideológico que se pretende encaixar na realidade de um qualquer lugar e de um qualquer tempo, como, do outro lado, os tradicionalistas, os que, romanticamente se opõem ao que está, para poderem conservar o que deve-ser, apostando na superação da ordem estabelecida em nome do sonho realizável. Se tais revolucionários anseiam por reconstruir o todo geometricamente, porque a utopia que os mobiliza contém todas as receitas do futuro cozinhado social, já os tradicionalistas reconhecem a docta ignorantia do bom senso e tratam de submeter-se ao mistério de certas constâncias sociais, optando pela reforma gradual de algumas parcelas do todo, em nome da defesa do património cultural herdado. Neste sentido, não confundimos o tradicionalismo com a legitimidade tradicional de Max Weber (1864-1920), para quem a acção tradicional é considerada como uma conduta mecânica, na qual o indivíduo obedece inconscientemente a valores considerados evidentes e que daria origem à chamada legitimidade tradicional, onde emergem os fiéis como seria timbre do patriarcalismo, da gerontocracia, do patrimonialismo e do sultanismo, e que seria baseada na crença quotidiana na santidade das tradições vigentes desde sempre e na legitimidade daqueles que, em virtude dessas tradições, representam a autoridade. Também não diluímos o tradicionalismo na acção emocional ou afectiva, a que é marcada pelo instinto e pela emoção, onde há confiança total no valor pessoal de um homem e no seu destino, uma acção fundada na santidade, no heroísmo e na infalibilidade, onde seria marcante a legitimidade carismática. De um lado, o chefe, o profeta, o herói ou o demagogo. Do outro, os adeptos ou os leais, os discípulos ou seguidores. A mesma seria baseada na veneração extra-quotidiana da santidade, do poder heróico ou do carácter exemplar de uma pessoa e das ordens por ela reveladas ou criadas. Tudo depende do carisma, isto é, de uma qualidade pessoal considerada extra-quotidiana (…) e em virtude da qual se atribuem a uma pessoa poderes ou qualidades sobrenaturais, sobre-humanos ou, pelo menos, extra-quotidianos específicos ou então se a toma como enviada por Deus, como exemplar e, portanto, como líder. Contudo, o mesmo Max Weber salienta que uma das formas de legitimidade carismática aparece na democracia de líderes, com um demagogo a aproveitar-se da democracia plebiscitária, surgindo uma legitimidade carismática oculta sob a forma de legitimidade que deriva da vontade dos governados. Em terceiro lugar, distanciamos o tradicionalismo da acção racional referente a fins (Zweckrational), onde os indivíduos são capazes tanto de definir os objectivos como de avaliar os meios mais adequados para a realização desses objectivos, uma acção social marcada pela moral de responsabilidade, onde o valor predominante seria a competência. Aqui já nos situaríamos no campo do Estado racional-normativo ou do Estado-razão, onde domina a acção burocrática, aquela que faz nascer o poder burocrático, o poder especializado na elaboração do formalismo legal e na conservação da lei escrita e dos seus regulamentos, onde dominam a publicização, a legalização, e a burocracia. Para nós, o tradicionalismo corresponde à weberiana acção racional referente a valores (Wertrational), a racionalidade em valor, onde os indivíduos se inspiram na convicção e não encaram as consequências previsíveis dos seus actos. A tal forma de actividade política inspirada por sistemas de valores universalistas, onde o agente actua de acordo com a moral da convicção, vivendo como pensa sem pensar como vive, em nome da honra, isto é, sem ter em conta as consequências previsíveis dos seus actos. Aquele agente que é comandado pela dignidade, pela beleza ou pelas directivas religiosas. Há um tradicionalismo que readquiriu o sentido da dialéctica clássica, onde, etimologicamente, há uma conversa, com alternância no discurso dos interlocutores, passando-se a um tema comum que se percorre, pelo que só pode haver diálogo, quando entre os dialogantes se reconhecem lugares comuns, pontos de passagem que permitem a troca de ideias e experiências de vida. A tradição consensualista nunca foi uma tese, contra a qual se assumiu a antítese liberalista, para, depois, se desaguar na oceânica maravilha da síntese pseudo-futurista, com muita palha de modernidade, pós-modernidade ou vanguarda, mesmo daqueles que, muito exogenamente se dizem conservadores, ou dos que continuam a traduzir nacionalismos em calão de État-Nation ou de national interest. O tempo pós revolucionário que vamos vivendo continua a ser de complexidade crescente, onde a convergência do antigo continua em dialéctica com a divergência do actual. As raízes do passado sustentam tanto o tempo presente como as saudades de futuro. Os divergentes continuam em diálogo com os convergentes, a liberdade, com a ordem e a justiça, com a segurança. É essa a inevitável emergência da liberdade vivida, onde não há reaccionários fins da história nem repristinações revolucionárias. É esse o eterno regresso da história, onde importa recuperar a concepção clássica de política e a consequente democracia, onde é o homem que faz a história, mesmo sem saber que história vai fazendo. Há uma complexidade bem heterodoxa de ser-se tradicionalista, nos princípios, liberal, nas metodologias, e radical, nos objectivos. Mas outra tem que ser a postura de qualquer pretenso moderado do politicamente correcto, que procure submeter-se aos ditames de uma falsa ideia de opinião comum, só porque quer ser candidato ao sindicato das citações mútuas e estar disponível para uma carreira política de sucesso, mesmo que seja através de um cargo de institucional opinion maker, para que se mantenha intacto o estado a que chegámos, e apenas se finja mudar alguma coisa, para que tudo fique na mesma. Mas o fervilhar das ideias não se pauta pelo um, dois, três das caricaturas dialécticas, onde uma certa tese gera sempre o mero simétrico da antítese, feita à imagem e contra-semelhança da primeira, para que um autoritário distribuidor de valores possa chegar, ver e vencer, decretando a pretensa solução de uma síntese, com que, de forma dogmática, se pretende esmagar o outro, o tal que, por ser diferente, importa silenciar, diabolizar e, quiçá, exterminar. Sobretudo se for um irmão-inimigo. Para que se mantenha o movimento perpétuo da luta de invejas. Tal pode ser o preço a pagar pela fama que pensa deter a serôdia garotada dos que nunca entenderam o profundo sentido do diálogo, através dos lugares comuns da verdade, da força das convicções e daquela lealdade básica que admite as regras do jogo da moral e do direito. E para quem ainda acredita nas tradições clássicas, talvez o antigo três, dois, um seja bem mais circular, bem mais revolucionário, à maneira de Platão. A tradição admite todos os aspectos da verdade. Não se opõe a qualquer adaptação legítima. Permite, aos que a compreendem, concepções tão vastas quanto os sonhos dos filósofos… abre à inteligência possibilidades ilimitadas com a própria verdade em si mesma (René Guénon, SMP 24).

 

O mister de recordar o passado é uma espécie de magistratura moral. Alexandre Herculano, in O Bobo.»

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publicado às 00:27

Ainda a maçonaria

por Samuel de Paiva Pires, em 11.01.12

Para quem não assistiu ontem à noite à entrevista do Professor José Adelino Maltez, aqui fica:

 

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publicado às 15:38

Na luta pela desmistificação, contra o fanatismo e a intolerância, os meus parabéns ao José Maria Barcia pela iniciativa de entrevistar vários maçons e interessados. Dificilmente seria possível começar de melhor forma do que com esta entrevista ao Professor Maltez, que aqui transcrevo na íntegra com a devida autorização do Zé Maria:

 

Antes de mais, o que representa para si a maçonaria?

Tenho uma concepção do mundo e da vida típica da profunda tradição liberal, fiel aos valores de Espinosa, Montesquieu e Kant que, em Portugal, tiveram expressão na luta de ideias de Silvestre Pinheiro Ferreira, Vicente Ferrer de Neto Paiva e Alexandre Herculano. Gostava de redundar o Estado conforme o exemplo dos decretos de Mouzinho da Silveira, a moralidade de Passos Manuel, o entusiasmo de José Estêvão, o sinal do Código Civil do Visconde de Seabra e o pioneirismo da abolição da pena de morte, de 1867, bem como para manter a boa relação entre a política e a religião do presente regime, fundado quando os velhos carbonários defenderam a liberdade dos católicos no cerco ao Patriarcado ou no assalto à Rádio Renascença, em 1975, quando novos totalitarismos nos ameaçavam.

 

Apertos de mãos, protocolos, símbolos e significados. Porquê?

Não conheço nenhuma instituição que não tenha uma ideia de obra, manifestações de comunhão entre os seus membros e cumprimento de estatutos internos. No caso da maçonaria, que não é uma religião nem mera ideologia, onde se vivem e revivem lendas, alegorias e símbolos, através de rituais conhecidos, é mais intensa e formalizada essa dimensão, até com a procura do próprio sagrado. Logo, ver de fora qualquer comunidade de coisas que se amam pode levar muitos a dizer que todas as cartas de amor são ridículas. Mas como dizia Fernando Pessoa, é bem mais ridículo não se escreverem cartas de amor. Ou não responder a uma entrevista na blogosfera, só porque o interpelante tem manifestado óbvias divergências com a minha concepção do mundo e da vida, mas talvez seja capaz de reconhecer que comete erros, tem dúvidas e pode enganar-se, até na listagem de inimigos públicos.

 

Como é a reunião ideal dentro de uma Loja?

Segundo aquilo que estudei, não pode haver reuniões dentro de lojas, há reuniões rituais das lojas, onde é proibida a discussão de matérias de política e de religião, porque se tem de fazer maçonaria. Quando as lojas promovem reuniões abertas a não maçons, as sessões brancas, elas são como todas as outras reuniões de qualquer grupo. Daí que não se possa inferir que um convidado seja maçon, ou ligado à maçonaria, dado que até conheço casos de convites a antimaçons para manifestarem suas perspectivas junto de maçons.

 

Qual é, ou qual deve ser o papel principal da maçonaria num país como Portugal?

Contribuir para a regeneração de uma sociedade secreta iniciática fundada em 1140 e sucessivamente redundada, a república dos portugueses, que, durante séculos, foi governada por reis.  Porque temos de a libertar do presente protectorado, com mais liberdade, mais sociedade e mais coisa pública. Isto é, contribuir para nova refundação  de Portugal.

 

Em resposta à polémica instalada na Assembleia da República, devem os maçons serem obrigados a admitirem que o são?

Qualquer cidadão deve contribuir para que cada um possa viver como pensa. Mas como as leis são gerais e abstractas, julgo que há dificuldades normativas quanto ao cumprimento do princípio da não discriminação, consagrado pela Convenção Europeia dos Direitos do Homem, nomeadamente no artigo 11. Pelo menos, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem já condenou a Itália em 2007 por um acto legislativo desse teor, emitido por uma das suas regiões.

 

Num país que considera a maçonaria um ''clube privado de amigos'' que lutam apenas pelo seu interesse, haverá fundo de verdade nesta crença popular?

No ambiente anglo-americano, as maçonarias são, sobretudo, modelos de "societies of friends" e a percepção externa liga-as a actividades de filantropia. Porque os valores que defendem são tão naturais como o ar que aí se respira. Em sociedades que sofreram a Inquisição, os autos de fé, Pina Manique, moscas, bufos, caceteiros e extinções, ainda há preconceitos e fantasmas, logo incompreensões resultantes de velhos conflitos entre política e religião, entre anticlericalismos ultrapassados e antimaçonismos requentados. Uns esquecem-se que o conservadorismo contemporâneo foi fundado pelo maçon Edmund Burke, outros, que, do anarquismo ao socialismo, de Proudhon a Antero de Quental, foi comum a coincidência maçónica, bem como na fundação do projecto europeu, de Winston Churchill a Jean Monnet. Por outras palavras, a civilização ocidental a que chegámos é o resultado da convergência do humanismo cristão com o humanismo maçónico, tanto à direita como à esquerda, de liberais a socialistas, unidos na luta contra a ignorância, o fanatismo e a tirania, nomeadamente contra as experiências totalitárias do século XX.

 

De acordo com a notícias actuais, a maçonaria é vista como um problema à democracia. A lealdade aos irmãos é superior à responsabilidade de cargos públicos?

Do que imperfeitamente sei, a maçonaria, em todos os tempos e em todos os sítios, nunca abdicará de ser uma sociedade iniciática, sob pena de perder a respectiva natureza. De acordo com as regras que a regem não pode ser uma sociedade secreta política em regimes de liberdade que não imponham o dever de resistência, definido pela própria escolástica católica. Assim, seria inconstitucional e antimaçónico qualquer anacronismo de clandestinidade política de maçons num regime como o nosso, onde todas as normas fundacionais do Estado de Direito corresponderam aos ideais expressos pelos maçons históricos, nomeadamente na Constituição. Basta recordar os símbolos e os exemplos dos maçons Adelino da Palma Carlos, o primeiro chefe do governo,  da restaurada liberdade, de Emídio Guerreiro, líder do PSD, ou de Raul Rego, futuro grão-mestre do GOL, no PS.

 

Não sendo uma sociedade secreta mas sim uma sociedade com segredos, não há aqui um desvio à transparência exigida numa democracia?

O GOL, fundado em 1802, é a mais antiga sociedade demoliberal portuguesa, com continuada actividade. E sem ser por acaso é, em termos cronológicos, a segunda organização maçónica do mundo. Logo, é um dos elementos fundamentais do nosso património cultural que se perde nas brumas da memória, tal como a Igreja Católica. Isto é, tanto é um valor nacional, como é europeu e universal, e como tal é reconhecido tanto pela Comissão Europeia como pela própria ONU, participando, através do CLIPSAS, no Conselho Económico e Social da organização. Apenas se reconhece o óbvio, o próprio desenho maçónico que esteve na base da Sociedade das Nações em 1918, num processo onde participaram portugueses tão ilustres como o futuro prémio Nobel, Egas Moniz, ou o ex-chefe do governo, Afonso Costa, insignes maçons, por acaso inimigos políticos, no plano doméstico.

 

Será, de facto, fácil de admitir que a maçonaria sofreu uma degeneração dos seus princípios?

As coisas humanas, mesmo as que procuram o sagrado, tanto degeneram como se aperfeiçoam, tal como cada um de nós cai e se levanta. A perfeição apenas reconhece que cada um deve reconhecer a respectiva imperfeição para que possa procurar a perfeição. Segundo uma alegoria maçónica, chama-se a isso trabalhar a pedra bruta, para depois a polir e permitir a construção do templo interior.

 

Casos como o das secretas, não prejudicam gravemente a reputação da maçonaria? Deve haver limites à actuação dos membros ou mesmo castigos a quem usa em vão o seu posto de maçon?

Do que foi dito e tem aparecido, julgo que o principal problema está nos órgãos de investigação criminal do Estado português, nas leis por cumprir que regem a matéria e na falta de adequada fiscalização parlamentar. Não está nos bodes expiatórios e muito menos na eventual coincidência de alguns implicados em parangonas jornalística  com sociedades maçónicas. E a transparência talvez exija que não manipulem a luta pela transparência, alimentando uma fumarada que pode ocultar lutas partidárias pelo poder político, ou lutas de grupos de negócios pelo poder económico, social e comunicacional.

 

Historicamente, a maçonaria teve um papel relevante em Portugal. Que mais se pode esperar?

Que os valores professados pela tradição liberal possam ser tão naturais quanto o ar que se respira num país livre, com homens livres. E que os maçons não esqueçam momentos dramáticos em que se dividiram em jogos profanos e dissidências politiqueiras, como foi flagrante com o cabralismo e a patuleia, ou no processo de decadência da Primeira República, com afonsistas, almeidistas, camachistas, sidonistas e outros istas da personalização poder, desrespeitando as fundamentais constituições da ordem. O que nos falta é uma nova maçonologia, isto é, uma actividade científica e não meramente apologética, que estude o fenómeno maçónico, não apenas no campo historiográfico, mas também nos domínios da filosofia, da antropologia, das belas artes, da literatura ou da arquitectura.

 

Em Portugal debate-se sempre constantemente o problema da corrupção. A maçonaria pode ter um papel contra este problema?

Tenho um artigo sobre a matéria no número um da nova série da Revista de Maçonaria, que congrega profanos e maçons de várias obediências. É exactamente a mesma coisa que tenho vindo a dizer em revistas científicas desde o século passado e que me levaram a estar associado à implantação em Portugal de duas experiências de introdução da Transparency internacional, finalmente consolidada com a associação cívica Transparência e Integridade, cujos princípios advogo militantemente.

 

O que se pode esperar da maçonaria para os próximos tempos?

Que seja liberdadeira, de acordo com as regras tradicionais da liberdade individual, da autonomia da sociedade civil e da integração dos valores da libertação nacional no cosmopolitismo, para que cada nação possa converter-se armilarmente na super-nação futura, a república universal. Isto é, que tenha saudades de futuro, conforme o sonho do maior dos símbolos maçónicos do século XX português, Fernando Pessoa.

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José Adelino Maltez - Abecedário Simbiótico

por Samuel de Paiva Pires, em 15.12.11

É já amanhã o lançamento do novo livro do Professor José Adelino Maltez, no Hotel Holiday Inn - Continental, pelas 18h30m. Eu que já tenho um exemplar recomendo vivamente, não só pela obra mas também pela conversa que promete ser interessantíssima, ficando a apresentação a cargo de Paulo Teixeira Pinto. 

 

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