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Fase de rescaldo

por Samuel de Paiva Pires, em 18.10.17

A agora ex-ministra da Administração Interna já não tinha condições para continuar no cargo há, pelo menos, 4 meses. Era inevitável que saísse do Governo, embora não seja despiciendo referir que foi necessário o Presidente da República intervir para António Costa se submeter ao que já era mais do que evidente. Mas agora, independentemente da dança das cadeiras no Governo, o que importa é saber se o Primeiro-Ministro vai tornar a reforma do dispositivo de prevenção e combate aos fogos uma prioridade nacional, alocando os recursos que forem necessários para evitar que se volte a repetir algo que possa assemelhar-se ao que aconteceu no passado fim-de-semana e em Junho. Agora que veio a chuva, esperemos que não se limite a mudar pouca coisa para que, na essência, fique tudo como está e para o ano haja mais do mesmo, como vem acontecendo há já cerca de 40 anos. Quanto mais não seja, e como Marcelo Rebelo de Sousa deixou patente no seu discurso, para assegurar a sobrevivência do seu Governo - algo que parece motivar o Primeiro-Ministro muito mais do que considerações éticas, sobre o interesse nacional ou a respeito das funções primordiais do Estado.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 22:31

Ministra demitida, animal à solta...

por John Wolf, em 18.10.17

 

A demissão da ministra da administração interna Constança Urbano de Sousa soltou o animal de perguntas e questões que estavam dentro de mim. À laia de caos instalado, vou atirar as interrogações ao ar, sem que as mesmas tenham nexo entre si ou sejam justificadas. Aliás, são totalmente despropositadas;

 

1. Quem preenche o lugar deixado vago pela ministra? Simples. Alguém do PCP ou do BE.

2. Porquê? Porque nunca governaram o que quer que fosse e fazia-lhes bem ao currículo provar esse veneno chamado poder político. Afinal, garganta e mais garganta não pode ser.

3. Marcelo Rebelo de Sousa demitiu a ministra? Sim. Respondeu ao pedido que havia sido formulado pela própria há quatro meses e que foi indeferido por António Costa.

4. Significa que as relações entre o presidente e o primeiro-ministro foram afectadas? Sim. O presidente terá um mandato que extravasa os limites temporais da legislatura e convém ir afagando o pêlo de uma alternativa ideológica de governo.

5. O facto da ministra ser uma mulher facilitou a pressão exercida por António Costa? Sim e não. Por um lado, a senhora é um osso duro de roer, e por outro, não deixa de ser uma mulher e António Costa não deixa de ser António Costa.

6. A descoberta das armas roubadas em Tancos foi uma coincidência ou não? Não foi. Aquele trunfo político estava no armazém de oportunismos. Mas saiu o tiro pela culatra. Não serve para grande coisa. O povo topa logo.

7. António Costa já pediu desculpa à ministra da administração interna? Não, mas ainda vai a tempo. E para além de isso, o ministro Vieira da Silva já lhe endereçou um abraço de solidariedade.

8. Por que é que os Verdes ou o PAN não tomam a iniciativa da reforma da floresta? Porque não é a sua especialidade. Não têm competência para tal acção e estão a ser muito sensatos.

9. Um pedido de desculpa não resolve nada? Não. Nada mesmo. O deputado do PCP João Oliveira pediu perdão por esta mesma explicação.

10. E por último; a Protecção Civil é uma designação bem atribuida? Sim, senhor. É adequada e corresponde à realidade. Foram os civis que se defenderam das chamas o melhor que souberam. Se tivesse sido o Estado, chamar-se-ia Protecção Estatal.

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publicado às 13:56

Atentado na Catatonia

por John Wolf, em 19.08.17

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Enfrentamos um falso dilema ideológico. Os governos de Esquerda invocam que a sua natureza não é securitária. Defendem as liberdades individuais e o direito à criatividade, mas sabemos - porque a história é tramada e não mente (embora existam revisionistas!) -, que foram também regimes estalinistas e que são regimes de inspiração maoista que mais controlam (ou controlaram) os seus cidadãos. Os atentados de Barcelona remetem-nos para a Catalunha, e simultaneamente para a catatonia, ou seja, a forma de esquizofrenia que se caracteriza pela alternância de períodos de passividade e de excitação repentina. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa diz que "não há razões para alarmismos" e, deste modo, preenche uma das metades do estado catatónico. António Costa também lá anda na mesma ala de prejuízo e inconsequência. A geringonça, que saúda a estirpe revolucionária de um Manuel Alegre inspirador, tarda em dar conta do recado. Portugal está à mercê, pôs-se a jeito. Enquanto deglutem as mortes da avó e da neta, esquecem a geração do presente, aquela ensanduichada na mesma irresponsabilidade que grassa de Pedrógão a Tancos. A Esquerda ainda julga que existe um oásis moral, uma reserva intangível. Será expressamente proibido efectuar controlos aleatórios de cidadãos nas ruas pejadas de turistas. Está completamente vedada a colocação de barreiras físicas nas portas da Rua Augusta. É totalmente inconcebível colocar militares na ruas. Porque tudo isso é obra para o diabo  - a Direita que deve carregar o regime securitário às costas. Quem disse que a festa do Avante não é um soft target? O governo está à espera que elas aconteçam. Desse modo, pode alinhar-se com os países civilizadamente evoluídos que já viram os seus corações destroçados. Até uma criança pode entender o guião, a argumentação subjacente. Estão à espera de um estoiro de dimensão assinalável para poderem justificar as tais medidas securitárias. Inventaram a figura de estado de calamidade preventiva, mas não pescam nada de nada do mundo perigoso em que vivemos. Tenham cuidado. Ninguém vos protege. Estão sós. Estavam.

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publicado às 19:47

O melhor presidente da república portuguesa

por Nuno Resende, em 01.08.17

Imagem via «Marcelo a fazer coisas»

 

Não haja dúvida, Marcelo é o melhor presidente da república portuguesa que temos em 107 anos da dita. Nunca um homem encarnou tão bem a figura decorativa que exige o regime. Quase tão bom, mas muito sujeito aos rigores do reumatismo, foi Américo Thomaz, cujo perfil de corta-fitas é hoje uma casaca bem vestida na figura do senhor Professor Doutor Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa. O doutor Marcelo supera em discurso qualquer presidente da I e II repúblicas, demonstrando as qualidades próprias de uma república que nunca se compromete e raramente se engana (neste caso, nunca, pois nunca se compromete). É nesta aporia que se sustenta todo o mandato do senhor Presidente Marcelo.

E ao contrário do que alguns comentadores dizem ou sugerem, o professor e ex—comentador televisivo Marcelo Rebelo de Sousa não quer construir a imagem de um monarca, distribuindo beijos em vez de comendas e comendas em vez de títulos nobiliárquicos, acenando ao povo ou sorrindo para as câmaras. Não, isto não é um rei. Um rei em o papel constitucional de moderador como de resto deveria ter o presidente da república portuguesa – ainda que esta seja um sistema estranho de nem carne, nem peixe, em que o poder reside no parlamento, mas este pode ser dissolvido pelo presidente da república.

Vem isto a propósito da entrevista do senhor presidente da república ao Diário de Notícias: um extenso perorar pelo que melhor faz Marcelo: dizer muito sem dizer coisa alguma.

Para presidente não está mau; para político, óptimo.

Para chefe de estado, uma nulidade.

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publicado às 10:35

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Portugal está de luto. Pelo menos 64* pessoas perderam a vida nos fogos florestais de Pedrógão. E Marcelo Rebelo de Sousa abraça a Ministra da Administração Interna, o Secretário de Estado da Administração Interna e o Presidente de Câmara. No lugar dos afectos e compaixão política desmesurados, EXIGE-SE que haja demissões. Houve pelo menos um socialista, em análoga situação de tragédia, que soube interpretar o que os eventos demandavam - Jorge Coelho. O então Ministro das Obras Públicas, assim que ruiu a ponte de Entre-os-Rios, pôs o lugar à disposição. Mas o Presidente da República tem razão - não há falta de competência nem de audácia dos bombeiros  e da população que tentaram defender-se o melhor que souberam. O que temos é outra coisa: dolo político, irresponsabilidade governativa e administração danosa das florestas portuguesas. Enquanto os atrasados mentais dos jornalistas perguntam aos banhistas molhados se estes vão ao mar para se refrescarem, tantas questões certeiras deixam de ser colocadas. Das perguntas que devem ser colocadas em plena câmara ardente, uma delas será: "Sr. António Costa, vai sugerir a demissão de responsáveis políticos?", em vez disso, ficámos sem saber se os gelados tiram a sede. Vergonhoso, trágico e para além de lamentável.

 

* número em actualização constante

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publicado às 07:12

Pastéis e selfies de Belém

por Nuno Castelo-Branco, em 02.06.17

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Quando é que o sempre excitado afectuoso vai distribuir afectados afectos à pobre e desvairada gente que silenciosa e discretamente todos os dias e aos magotes chega ao aeroporto do Funchal? Já que está nos Açores, aproveite para fazer uma voltinha e aterre na Madeira, pois dentro de momentos terá mesmo de fazê-lo remediadamente aqui bem perto, na Portela.

Não, não vale a pena dizer que são apenas "turistas como quaisquer outros", ansiosos visitantes do busto que nem de longe faz lembrar o Cristiano Ronaldo.

Alguns deles são refugiados, perdão, retornados e talvez pela segunda vez nas suas vidas, irra!

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publicado às 11:31

Procedimento por elogios excessivos

por John Wolf, em 22.05.17

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Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente de todos os Portugueses + a Geringonça, alargou o âmbito do elogio respeitante à saída do Procedimento por Défice Excessivo (PDE). Afinal o governo anterior também tem direito a uma fatia do bolo, e a apagar uma vela. Mas o problema não reside nos festejos, nos globos de ouro, nas sandálias do Beauté, ou na alcatifa vermelha de políticas de mais ou menos Esquerda. O espinho que parece ter causado mais comichão é a simplificação que João Salgueiro cravou nos pressupostos da glória económica dos indicadores. Diz o especialista que foi o Turismo que se mexeu e roubou o lugar às indústrias, à economia dita clássica. Sem dúvida que a febre turística é responsável por uma grande quota-parte do sucesso. Mas existem perigos. Estarão recordados do primeiro boom turístico-imobiliário que desfigurou a pacata Armação de Pêra e que cicatrizou Quarteira? Pois bem. Assistimos a uma segunda vaga que comporta alguns desafios. Portugal encontra-se na fase hélio da bolha - é só facturar. São restaurantes e hóteis, tuk-tuks e programas de lazer, festivais de música, certames da bolota, mostras da rolha, mas o cidadão-residente, aquele que fica depois das festas acabarem, não está a participar no lado lúdico do espectáculo. Como o incremento do lado da oferta é superado pela procura, a equação é linear e tem um nome: inflação. O conceito Inatel, de turismo para o povo, deixou de existir. Pergunte-se a um idoso, com a reforma que se conhece, se vai para fora cá dentro. Não me parece. E é aí que a questão se torna problemática. O governo descobriu a galinha de ovos de ouro, mas à semelhança de tantas aventuras históricas de exploração económica (coloniais se quisermos), geralmente os processos descambam. Agora querem mexer no sector para o hiperbolizar ainda mais. A saída do PDE pode alimentar fantasias que estão na origem da ruína primeira que conduziu a sevícias da União Europeia, do FMI e do BCE. Por outras palavras, ao fazerem passar a ideia celebratória de vitória no festival da canção política, podem contribuir para que haja ainda mais extravagâncias. Os resultados do Turismo são óptimos. A ver se não estragam a coisa.

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publicado às 17:35

Geringonça recebe medalha de Marcelo

por John Wolf, em 12.02.17

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Marcelo Rebelo de Sousa tem razão. A geringonça é um arranjo inédito. O Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português formaram governo, mas a criação teimosa de um executivo não é um objectivo político em si. Um governo que se preze não pode sobreviver à custa de validações endémicas, de justificações internas, de palmadinhas nas costas dos parceiros de ocasião. Existe muito mais para além das virtudes do narcisismo e das comendas presidenciais - a realidade. E a verdade nua e crua das limitações económicas e dos entraves financeiros não pode ser dissimulada por malabarismos de balancete. Portugal não padece de extremismos de Esquerda ou Direita que parecem retratar a Europa maior, por isso a geringonça nem sequer é salvadora ideológica - não pode invocar esse estatuto. Este governo é um esquema aritmético, um tabuleiro de somas parlamentares e pouco mais. Pensar-se-ia que o presidente da república fosse uma velha raposa política, sábia e experiente. Mas deste modo castelhano levanta sérias dúvidas sobre o seu sentido de Estado. Portugal não está tão distante da Grécia quanto possa parecer. Quando o país económico for esmurrado pelo declínio de investimento público, como modo de conter os deslizes orçamentais para cumprir os preceitos da Comissão Europeia, já será tarde demais. Quando olho para a geringonça e o marketeer Marcelo não sinto a reviravolta do país. Deparo-me com actores posicionados para preservar intactos os princípios da continuidade. A ruptura, que seria encabeçada por uma efectiva reforma estrutural, nunca acontecerá. Se abanarem as fundações do aparelho de um regime, onde encaixam os partidos deste acerto de ocasião, vão todos de carrinho. Como uma cenoura pendurada à frente do chanfro do burro, a descentralização serve apenas para incitar a passada mais larga. Mas o asno anda à volta da nora. E não sai do mesmo lugar.

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publicado às 20:05

Marcelo, déficit emocional e populismo

por John Wolf, em 09.01.17

 

 

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Em plenos dias de emoções à flor da pele, afectos e vazios, parece-me apropriado pensarmos o caso Marcelo Rebelo de Sousa de um modo mais expressivo. O presidente da República Portuguesa parece padecer de uma espécie de déficit emocional. Apenas deste modo se explica a sua incessante necessidade de ser amado a torto e a direito, de norte a sul pelos ares de gente e as gentes dos mares. O seu estado roça a condição psicótica e acarreta sérias consequências para o serviço político que se espera de um chefe de Estado. Por seu turno, o comportamento obsessivo-compulsivo do sujeito não vive a solo. É uma nação inteira falha de afectos que leva em ombros este estado de transe. São os recepientes dos abraços também responsáveis pelos fundamentos desta premissa psico-emocional registada em forma de beijos e selfies. Embora Marcelo possa parecer neutralizar polaridades, ao integrar a gama completa de sabores ideológicos, em abono da objectividade, a sua acção preenche os requisitos da construção populista. E é esse o perigo da sua toada de normalização - empresta a aura benigna, pacífica. Aos poucos, Marcelo vai-se desprovendo de espinha dorsal, vai perdendo o respeito político de actores de todos os quadrantes. A dada altura do realismo pragmático que o ultrapassará, o presidente terá de tomar a posição incómoda e inequívoca. Numa fase madura e de dor governativa, Marcelo terá de trair o guião de consensos e entendimentos que escreve. E Marcelo terá de virar a casaca se pretende sobreviver e alimentar a ideia de crédito institucional e presidencial. Marcelo procura em vida aquilo que Soares está a receber nesta sua hora. A mais alta homenagem, a tábua rasa de considerações supletivas, positivas. Para se ser amado em política não se pode amar desalmadamente. Lidamos, para todos os efeitos práticos e questionáveis, com um caso maníaco.

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publicado às 09:43

A cornucópia de Marcelo

por John Wolf, em 18.12.16

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Antes que me atirem dardos; a seguinte manifestação de opinião nada tem a ver com a qualidade ou a substância da missão da companhia teatral a Cornucópia. Tem mais a ver com Marcelo e algumas dúvidas existenciais. O Presidente da República Portuguesa tem de decidir se quer ser um mero agente da sociedade civil ou se um digno titular do cargo público que ocupa. Não pode misturar as peças. Não pode confundir os distintos teatros de operações. E não pode vestir qualquer farda a seu bel prazer. Por mais afectos que nutra pelo seu amigo Luís Miguel Cintra, Marcelo simplesmente não pode fazer uso de prerrogativas institucionais disfarçadas de informalidade e convívio para alavancar soluções que dizem respeito ao putativo ministério da cultura. Mas há mais. Se vai a uma tem de ir todas. Tem de ir às companhias teatrais de norte a sul do país, que com igual empenho e devoção, quantas vezes pro bono, servem a mesmíssima causa e que também se encontram em situação precária, senão terminal. Eu sei que o estatuto de Deus conta muito em Portugal. Que Luís Miguel Cintra é um monstro da cultura e que deve ser protegido custe o que custar. Nada de mais errado. O princípio que parece estar a ser posto em prática põe em causa algumas nuances ideológicas. A saber; que o dinheiro da maioria dos contribuintes deva servir causas parcelares, por vezes despropositadas intelectualmente ou culturalmente, de certos agentes, porque a cultura não é "mensurável" em termos de investimento ou retorno financeiro. O que está ser chorado não é muito diferente da missa do salvamento de bancos privados, a título de exemplo, e sem adiantar mais em analogias.  Do lado das cornucópias do país também há críticas a realizar. Os encenadores e directores de companhia não podem assumir cargos de gestão. Não é essa a sua missão. Devem concentrar-se naquilo que sabem fazer. Ou seja, no fogo-cruzado de razões e lamentações que já vai no ar, convém realizar a destrinça entre o efémero e o essencial. Portugal não detém uma visão sustentável e de longo prazo no que diz respeito às artes e letras, e os sucessivos governos ainda estão contaminados com a ideia doutrinamente carregada de que o Estado deve, "a fundo perdido", subvencionar as artes e os devaneios intelectuais que o pobre do cidadão comum mal consegue assimilar. Assim não se educa um povo, e confirmamos assim, que existe aqui alguma perversão. Uma certa intenção tácita em manter o fosso entre as Óperas e os festivais onde deambulam meritoriamente, e dentro do seu género, espécies como Tony Carreira e afins. A discussão é longa e relevante, mas na maior parte das vezes infrutífera. Hoje Cornucópia, amanhã a Barraca. Abana tudo, no fim.

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publicado às 13:35

Marcelo Castrol

por John Wolf, em 27.10.16

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No meu entender, mesmo num sistema político não presidencial, um chefe de Estado deve (acima de tudo) defender o interesse nacional. Não consigo perceber o que Marcelo Rebelo de Sousa anda a fazer posando para a fotografia com Fidel Castro (?). Nem sei se existe algum valor simbólico que se possa extrair deste investimento mediático. Será que o presidente da república portuguesa tem uma dívida pendente para com Otelo? Marcelo esbanja Castrol num motor avariado. E o aparelho cubano de inspiração fidelista já era uma máquina questionável. Dar um abraço ao enigmático lider não é muito diferente do que dar um encosto fraterno a Mobutu ou Lenine - ambos (incluindo o remanescente Castro) avançaram as causas da miséria humana, da pobreza e da opressão. Não fica bem a Portugal usar recursos para fins altamente duvidosos. Cuba ainda não realizou a transição para a Democracia e o estender da mão de Obama deve ser interpretado no contexto de outras emergências geopolíticas. A única coincidência linguística-ideológica que se pode espremer deste preparado tem a ver com a ideia de embargo. Quem diz embargo diz sanções. Nessa medida, Marcelo alinha-se com aqueles que sofrem os efeitos de sanções, sejam sevícias da União Europeia, sejam admoestações impostas pela administração norte-americana. Marcelo deve ter algum cuidado para não fazer a figura de urso de Marinho gaivota. Soares fartou-se de viajar à pala não se sabe bem de que ideal. E até se fez transportar de tartaruga numa qualquer ilha perdida.

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publicado às 15:39

Traduzir de Marcelês para Português

por John Wolf, em 12.10.16

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Não é preciso ser intérprete de conferência (o que os Media erradamente designam de tradutor simultâneo - uma das minhas profissões), para descodificar o enigma de Marcelo. De um modo geral, a regra do contraditório sobeja. Quando políticos dizem uma coisa, geralmente querem fazer passar a mensagem contrária. O Presidente da República não invoca o nome da vaca sagrada uma vez sequer, mas sabemos que o Orçamento de Estado (OE) é uma parte apenas da mesma manada de considerações - o futuro próximo da geringonça e a possibilidade desta se estampar. Mas vamos por partes. Com tanto disponível para distrair o Zé da esquina há que tomar algumas precauções. Ele é a birra de taxista, ele é o violador de virgens, ele é a visita à China, ele é o homicida que ainda anda a monte, ele é a condenação do Rei Ghob, ele é a corrupção no IMT, ele é o jogo da bola, ele é o livro Do(m) Profano e sagrado...enfim, um conjunto de alarvidades mentais para garantir um zapping contínuo. O que Marcelo Rebelo de Sousa diz não é uma abstracção. Ele avisa os parceiros de geringonça sobre os perigos das vistas curtas, das facilidades para pensionista ver e sindicalista aplaudir. Sendo hábil na transacção de sentimentos, Marcelo apela para um imaginário político, e sugere, por entre as linhas que coze, que existe vida para além dos (frágeis) entendimentos de Esquerda. O OE que o homem de Belém quer apadrinhar não é filho monogâmico. O OE que deseja é uma consciência  partidogâmica que extravasa o poder pelo poder e encara a realidade de Portugal.  Por outras palavras, embora use a etimologia orçamental para confessar os seus anseios, engana-se na dimensão conceptual. Ao referir as vistas largas a que Portugal está obrigado, mais sentido faria usar a expressão doutrina, ou ainda, aquela arrestada por intelectuais virados a escolas francesas -  paradigma. Em suma, à falta de melhor veículo de comunicação, Marcelo traduziu-se a si mesmo. Usou um código monetário, consubstanciado num OE, para deambular por terrenos de ordem filosófica e existencial. Não sei se os visados receberam o telegrama. Os visados não estão para aí virados. Mas as eleições hão-de chegar. Primeiro as autárquicas e depois logo se vê.

 

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publicado às 19:13

MAATua

por Nuno Resende, em 11.10.16

Desculpem voltar ao tema, mas não deixa de me preocupar a forma passiva como a nossa classe política e a sociedade que a escolheu, olha para questões como a da barragem do Tua.
O vale do Tua já foi destruído: não há qualquer hipótese de retomar a paisagem, o território tal qual era antes da barragem que a EDP e os seus apaniguados fizeram construir à revelia de alguns.
Durante o processo houve vozes dissonantes, mas sobretudo uma silenciosa apatia em relação ao Plano Nacional de Barragens e os seus encargos para o país que inclui aquele projecto. Da Esquerda à Direita houve sempre, na Assembleia da República, uma cumplicidade que, bem vista, resulta duma chantagem global do poder económico à partidocracia.
Parecer impossível fugir a um monstro tentacular como a EDP agora controlada por cérebros economicistas chineses. Esta subserviência, «começada» por Paulo Portas e continuada hoje por António Costa, numa espécie de longa vénia entre Direita e Esquerda (de resto, movimento fácil de executar devido à característica fisiológica do político cuja espinha é uma maleável cartilagem), trata de agradar não ao cidadão, mas ao empresário. Como é possível que a Esquerda hoje no Poder, o ignore?
Chega a ser ordinário e escandaloso a forma como do mais desconhecido deputado à mais alta figura da Nação, o doutor Marcelo Rebelo de Sousa, todos se prestam ao beija-mão do senhor Mexia e da sua empresa.
Que uma jornalista «opinion maker» como a Lurdes Ferreira venha hoje dizer que o MAAT em Lisboa, não é EDP até se percebe. Está no seu direito e é coerente defender quem a premeia ou a protege. Embora até uma criança perceba que o mecenato é um nome bonito para limpar a imagem (quem não se recorda que a indústria Tabaqueira foi até há bem pouco tempo patrocionadora da cultura portuguesa?).
Mas que o senhor Presidente da República Portuguesa, pretensamente defensor dos interesses dos portugueses (eleitores ou não) corte fitas na inauguração de um Museu (?) que parece ser, em Lisboa, a paga pela destruição de um bocado de terra em Trás-os-Montes, isso não se compreende.
Talvez eu esteja errado e, como dizia um amigo meu, se os transmontanos não se importaram que os políticos lhe roubassem terra, paisagem e património e se os lisboetas fazem fila para entrar num Museu construído com o dinheiro de muita especulação energética que lhe vai aos bolsos, quem sou eu para achar isto tudo uma perfeita canalhice?

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publicado às 17:09

O veto, o voto e a Catarina Martins

por John Wolf, em 01.10.16

 

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A Catarina Martins parece não entender o que significa plena legitimidade demócratica e institucional. O Presidente da República foi eleito por maioria absoluta e não é o resultado de um arranjo a três. Marcelo Rebelo de Sousa, no capítulo dos vetos, pode dormir descansado. As decisões tomadas em Belém não se comparam ao sistema de parcelas somadas do governo. Ou seja, não existe nenhuma questão de forma ou substância que possa pôr em causa a legitimidade dos seus juízos. Quanto a Catarina Martins nem sequer dá a cara pela sua quota de governo. Usa o PS como fachada, como se fosse medrosa e não responsável pelas suas palavras e actos. Ainda bem que Portugal ainda tem um orgão de soberania que não foi vorazmente engolido pela cegueira ideológica de uns. Ainda estamos para ver se o sistema judicial serve o equilíbrio democrático ou se pode ser contaminado facciosamente no processo Marquês. A geringonça não se pode queixar de grande coisa - cada tiro, cada melro. Tem galopado com os devaneios da sua agenda sem grande possibilidade de bloqueio da oposição. Do lado do triunvirato PS-BE-PCP não podem levar de vencida tudo e mais alguma coisa. Devem aprender rapidamente, para evitar dissabores,  que a instituição presidencial pode acalmar os ânimos inflamados pela via do veto. No entanto, devemos colocar-nos na cabeça de sobreviventes políticos como Martins, Mortágua ou Costa. O que irão fazer gradualmente e sucessivamente é relativamente simples. Evitarão a todo o custo diplomas que requeiram o aval de Marcelo e enveredarão pelo caminho das pequenas alterações de apostilha simples por forma a contornar chumbos presidenciais. Nessa medida, a produção legislativa pequena que altera regras já existentes, será um modo de acautelarem os seus interesses. O veto de Marcelo Rebelo de Sousa deve ter apanhado o Largo do Rato de surpresa. Viram as imagens do presidente todo alegre e contente a passear o camarada Guterres pela ruas de Nova Iorque e pensáram: já está no papo - papalvo. Mas não é assim tão cristalino, como pudemos constatar. Venham de lá mais sigilos e segredos.

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publicado às 17:17

E se Marcelo fosse primeiro-ministro?

por John Wolf, em 28.09.16

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E se Marcelo Rebelo de Sousa fosse primeiro-ministro por um dia? O exercício é interessante. Nessas 24 horas teríamos de encontrar uma actividade de tempos livres para António Costa. Adiante. O que o Presidente da República afirma deve ser levado à letra. Fala de Sócrates e desse ano fatídico de 2011, do microfone na lapela, e o "estou bem assim? ou assim, mais para a esquerda?" - resgate à vista. Marcelo, que está uns furos intelectuais acima de Costa ou Mortágua, não está a ver as coisas de uma torre de marfim. Ele sabe que um país não pode desenrascar-se à pala do turismo. A cerimónia ejaculatória sobre o crescimento do sector assenta nalgumas contradições monetário-ideológicas. Se esses estrangeiros que andam a estragar a calçada portuguesa não tivessem acumulado riqueza não estariam aqui a gastar as suas poupanças. Se esses bifes ou boches tivessem vergonha na cara deixavam-se ficar por Bradford ou Dusseldorf. Mas esse estado de arte de passeio dos alegres pode acabar bruscamente. Basta uma crise Deutsche Bank, bastam sanções a Portugal, basta um ataque terrorista. E de repente teremos uma mercado de tuk-tuks usados interessante. Marcelo sabe, talvez melhor do que os associados em governo, que as vistas não podem ser sazonais. Parece ser um facto histórico inegável desde o tempo dos Descobrimentos existir uma certa predisposição comportamental. A riqueza nacional afinal não é nacional. Não tem cidadania. É refugiada. Vem de fora. Ora são especiarias, ora é o ouro. E mudam-se os tempos, mas o "chip" parece ser semelhante. A ver se cai algo lá de fora. Chamam-lhe turismo.

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publicado às 08:04

O Palácio-offshore de Belém

por John Wolf, em 05.09.16

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A cultura e pseudo-intelectualidade ainda são uma divisa de valor. O povo deve ser reencaminhado. O povo deve ser levado pela mão para o ministério do saber e da presciência. O burro não há-de morrer idiota. A Presidência da República disponibilizou o shopping de Belém para que editores da praça pudessem espalhar a boa palavra. Mas o busilis da questão não reside aí. Um território institucional do Estado foi colocado à disposição de empresas para que estas pudessem exercer a sua actividade e gerar um cash-flow. Houve vendas nos jardins do Palácio de Belém. Houve mais-valias no Palácio de Belém. Houve marketing e publicidade de editoras no Palácio de Belém. Houve lucros no Palácio de Belém. E se amanhã o lobby das farmácias quiser fazer uma mostra e venda promocional de um novo anti-psicótico nesse mesmo jardim? A saúde é tão importante quão a literatura. Um supositório vale tanto quanto uma bela suposição. Qual foi o regime fiscal que prevaleceu na festa do livro? A quem pertence esse domínio público? Agradecia que alguém me esclarecesse. Belém é um offshore ou não?

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publicado às 19:44

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Não é necessário regressar às Lajes de Durão, Aznar, Bush e Blair para estabelecer uma ligação doida com os eventos de Ponte de Sor. Teria sido uma vendetta aquilo que os filhos do embaixador do Iraque encetaram? Não me parece. Contudo, o governo de inspiração integracionista, o agrupamento alfa do PS, BE e PCP parece temer represálias do Iraque. O caso está a ganhar contornos bizarros. Está na praça pública. Encontra-se nas mãos da opinião pública. Os ódios, alimentados pela violência perpetrada na Síria e Iraque pelo Estado Islâmico, estão a contaminar este caso de um modo preocupante, mas que não deve ser menosprezado. Registamos a apetência para o despoletar de reacções mais extremas se o governo da República Portuguesa não souber gerir o processo de um modo inequívoco. São as águas de bacalhau que têm causado dano a Portugal, que têm minado a sua credibilidade. Onde está Guterres? Não tem opinião sobre a matéria? Poderia ter, mas não é obrigatório que tenha. Grave é o desaparecimento de António Costa (estará a banhos?) e a ausência de comentário de Marcelo Rebelo de Sousa - o presidente com poderes para acreditar e desacreditar embaixadores. Se fosse o filho do embaixador do Canadá a partir a fuça de um cidadão português, até poderia compreender a neutralidade conveniente. Afinal os juros da dívida portuguesa continuam a subir e a agência de rating canadiana DBRS tem nas mãos o futuro de Portugal. Basta mais uma castanhada financeira e lá se vão as ajudinhas do BCE, e Portugal fica a ver estrelas. Como podem constatar, a não ser que o Iraque tenha voto no rating de Portugal, as reverências nacionais não fazem muito sentido. Os filhos do embaixador do Iraque discursam de um modo imaculado, com o polimento de um colégio britânico, e demonstram que são melhores que o governo de Portugal. E isto é inacreditável. Perdoai-os - o governo de Portugal.

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publicado às 11:13

Geringonçaville

por John Wolf, em 12.06.16

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Gostava de ver Marcelo Rebelo de Sousa dizer na cara dos britânicos ou alemães que os mesmos são "excepcionais", mas os portugueses são melhores. Portugal não deve admitir declarações deste teor do seu Presidente da República. São as crianças recém-desfraldadas que usam esse paleio - o meu brinquedo é melhor que o teu. O mundo já não se presta a estes arquétipos de comportamentos, mas abro uma excepção - Trump é bem pior. Não estamos na Idade da Pedra. Existem dias felizes e dias menos felizes. E esta foi uma tarde menos conseguida. Eu entendo, que no mano-a-mano com António Costa, houvesse necessidade de não perder a corrida, de marcar pontos. Afinal, o primeiro-ministro aproveita, de um modo populista, as vantagens folclóricas de uma Geringonçaville. Os emigrantes estacionados nesse bidon de pólvora francês, são luso-portugueses que caem facilmente nessa categoria utilitária sempre que dá jeito, sempre que os domésticos continentais não chegam para as encomendas. Quando o Brexit chegar, espero que haja um plano de continência para bater a pala aos milhares que regressarão do Reino Unido. Enquanto Portugal não se estreia no Euro 2016, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa chupam até ao tutano o suco desse estado de graça. Nesta pré-euforia ejaculatória de bola bem metida, os que nutrem paixão pela nacionalidade portuguesa e pela ideia de identidade, estão à mercê de feiticeiros que se alimentam destas mézinhas fáceis. Terça-feira rola.

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publicado às 11:23

Quando a arrogante desfaçatez é ilimitada

por Nuno Castelo-Branco, em 19.04.16

 

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Uma das primeiras medidas do governo Costa (Afonso), foi a do confisco das propriedades da Casa de Bragança, incluindo estes os bens pessoais de D. Manuel II, de D. Amélia, de D. Maria Pia e do infante D. Afonso Henriques e os patrimoniais que faziam parte do único morgadio existente e constitucionalmente consagrado no país. 

Os ingleses ficaram furiosos e enviaram uma seca mensagem ao governo do dito Costa (Afonso), avisando-o de que não aceitariam tal coisa, não se ralando minimamente em esticar o tempo e à inglesa deixar o "novo regime" empastelar meses a fio sem o urgente reconhecimento internacional. Há que não esquecer que naquela época Portugal não estava reduzido à sua actual e mais ínfima dimensão, contando com um Ultramar que seria facilmente ocupado pelas potências com quem tínhamos relações. Como seria normal, não sendo a república reconhecida por um único Estado, os navios portugueses eram obrigados a deixar os portos nacionais com a flâmula inspirada no pano da carbonária - o que ainda temos como bandeira nacional - e passadas as águas territoriais, logo hasteavam a bandeira azul e branca, impedindo assim serem considerados navios piratas ou algo do género. Muito mais tarde, na Paris mergulhada na Primeira Guerra Mundial, em 1916 João Chagas veria com choque e espanto a antiga bandeira esvoaçando nos principais hotéis da capital francesa, prova de que para a maioria dos estrangeiros, a república era uma existência simbolicamente ignorada e na prática assim permaneceu mesmo até depois do fim da guerra. Os postais alegóricos demonstram-no.

Entretanto, ainda nos finais de 1910, em Lisboa e por intermédio dos seus correligionários a quem foram concedidos pelouros de decisão governamental, o Costa (Afonso) ia fazendo calmamente o seu programa que ia muito para além da declaração de guerra à Igreja, o ataque e saque de conventos, espancamento ou assassinato de adversários reais ou imaginários, destruição de jornais, adulteração e cerceamento dos cadernos eleitorais. Colocou bens pessoais da realeza deposta em hasta pública, algo que segundo as felizmente existentes más-línguas do costume, terá beneficiado muita gente que lhe era próxima.

Como se vê, os actuais maus hábitos têm antecedentes. Sai o titular do cargo de gerência de bens roubados e logo é substituído a título provisório por um regente

Na 1ª república desapareceram jóias, móveis, quadros, roupa das rainhas e sabe-se lá mais o quê. Inicialmente chegaram ao ponto de pensar em tornar a Ajuda no palácio presidencial, mas a opinião pública não era de fiar, ainda por cima já entusiasmada pelo presidente que segundo se dizia em voz embargada de emoção e em bucólicos lirismos à medida da Ilustração Portuguesa, "era tão sério, tão sério, tão sério e tão modesto que ia de eléctrico para Belém, pagava renda pelo uso do Palácio e correspondentes contas de electricidade." Quanto à água para os hipotéticos banhos ao fim de semana, disso não rezam as croniquetas. Curioso seria sabermos hoje quanto simbolicamente terá desembolsado por todos esses exotismos: 1$00? 2 ou 3 Escudos?

Sabe-se o que sucedeu. O novo regime esteve longos meses sem o reconhecimento internacional e a França foi, uma vez mais por sugestão inglesa, o primeiro Estado a fazê-lo. Tal ocorreria após a formal devolução ao rei D. Manuel II, daquilo que hoje em mais reduzida parte forma a Fundação da Casa de Bragança. Mas este caso de gula estrangulada não ficou esquecido. 

Estiveram os bens da C de B na legalidade até ao passamento do monarca, em 1932. Salazar viu então uma oportunidade para liquidar de vez esta questão, apossando-se "o Estado" do apetitoso bolo que pelos ingleses lhe fora negado duas décadas antes.

Assim tem permanecido este descarado roubo desde então, servindo de coio para todo o tipo de amigos das várias trambiqueirices que se vão sucedendo umas às outras.

Aqui como em todos os labirintos do querer é poder, também a segunda república deixou descendentes na terceira que enjeita a mãe e a avó. 

E isto não mudará, quanto a factos consumados não tenhamos ilusões.
 

 

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publicado às 08:01

Marcelo lava as mãos no Parlamento Europeu

por John Wolf, em 13.04.16

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Não é preciso ser uma velha raposa (ou um jovem Wolf) para entender onde pretende chegar Marcelo Rebelo de Sousa no seu discurso ao Parlamento Europeu. O Presidente da República Portuguesa necessita de uma apólice de seguro para os mais que prováveis ventos que far-se-ão soprar pela Europa, e as incertezas que pairam sobre Portugal. A União Europeia está à mercê de um novo continente, da profusão de certas tendências ideológicas e de centros de decisão que não se encontram em Bruxelas. A narrativa que administrou pode servir para encaixar desfechos distintos. Seja qual for o pendor do referendo no Reino Unido, Marcelo pode tentar, embora em vão, invocar o excepcionalismo português como se fosse um berliner em Bruxelas, e, deste modo lançar Portugal para o pseudo-lugar suplente deixado pelos retro-nacionalistas britânicos. O apelo à musa da inspiração literária e cultural é um caminho incerto, volátil e de entusiasmo perigoso. Dizem que Fichte foi precursor de certos regimes, e servindo-nos da mesma metodologia do lirismo sagrado, não sei até que ponto Pessoa seria europeísta - para não falar do desprezo que nutria em relação a Portugal. O "europeísta incorrigível" de que fala, soa a estabelecimento prisional, a síndrome de Tourette, a fetiche por algo esfumado. A Europa já não é nada disso. A Europa deixou-se confundir com a União Europeia, e essa sobrelotação está a gerar fenómenos que se afastam da concentração de desígnios, dos grandiosos princípios de solidariedade e paz. Marcelo Rebelo de Sousa antecipa, com alguma argúcia, o que se passará em Portugal. A sustentabilidade, e o grande projecto do governo de Esquerda do seu país, que apregoa para ouvinte parlamentar, não passa de uma aula preparatória para discentes domésticos. Quando o próximo resgate bater à porta, Marcelo será escusado. Dirá habilmente que, enquanto presidente, tudo fez para não desarmar os intentos da Esquerda. Não sei o que anda Marisa Matias a fazer. Não deve estar a ver o que está a acontecer. Mas aplaude entusiasticamente, como se acreditasse.

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publicado às 12:55






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