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Eles comem tudo, quase tudo

por John Wolf, em 02.10.17

 

O Partido Socialista (PS), nas últimas legislativas, teve de se contentar com uma geringonça, mas se pudesse, congratular-se-ia com uma maioria absoluta para não ter de ficar refém dos comunistas ou bloquistas. Não foi isso que aconteceu nas legislativas e o PS tornou-se num partido dependente das doses radicais dos partidos mais à sua esquerda. A geringonça aproveitou os alibis internos e as exigências da sua ala mais "extrema" para fazer avançar uma agenda que, caso fosse necessário, poderia invocar como não sendo a sua. António Costa, que se alegra com o mal dos outros, nomeia o PSD como o grande perdedor da noite. Não está totalmente enganado, contudo a vista panorâmica tem de ser mais ampla e honesta. Os sócios comunistas da CDU perderam substancialmente em toda a linha - lá se vai a tese da leitura nacional que um bom resultado poderia servir para reforçar a legitimidade da geringonça. Uma das partes da geringonça sai ferida com gravidade deste embate. Fernando Medina, vendido como regente absoluto da cidade, e campeão das obras e do turismo, tem de agradecer o presente de António Costa (que largou a CML), mas sobretudo a um notável político que preparou o terreno para o incremento do Turismo em Lisboa. Adolfo Mesquita Nunes foi quem teve a visão, foi quem pensou Lisboa enquanto importante vector, enquanto região e capital económicas por excelência. Se tivessem nível, os ganhadores de secretaria e das autárquicas em Lisboa, ligavam os pontos para ampliar ainda mais a democraticidade abrangente da geringonça incluindo "inimigos". Mas não. Vivem de sobranceria ideológica - os socialistas são sempre melhores. Pelos visto Medina fez tudo de livre e espontânea vontade, e inventou a roda. No entanto, o facto de não ter conseguido a maioria absoluta em Lisboa significa que a pedra no sapato com que tem de marchar pelas ciclovias funcionará com um mecanismo de checks and balances: o posso, quero e mando já não será assim tão simples. E há mais. Não foi a Direita que saiu derrotada. Assunção Cristas encarna um perfil que transcende a bitola ideológica. Defendeu em campanha, e protege na oposição, causas definitivamente conotadas com justiça social e económica, mas que não são nem podem ser um exclusivo da Esquerda. E o prémio da noite, na minha opinião, vai para Rui Moreira. O independente foi capaz de travar as manobras e esquemas de um PS oleado há décadas para a manipulação nos bastidores e nos media.  De nada serviu, como Moreira bem frisou no discurso da noite, que Pizarro tivesse recrutado o governo de sua geringonça para descarrilar os seus intentos. Pizarro não teve fair-play, mas foi ajudado nesse tango manhoso. O PS que julga que não existem limites, levou uma castanhada no Porto. Quanto ao BE, não sei exactamente o que pensar. Estão ali em águas de blocalhau e podem ser vítimas dessa estagnação. Sabemos, face aos resultados da noite eleitoral de ontem, que o PSD vai ter de se reinventar, apanhar os cacos e fazer um reset. Mas não pode apanhar uns cacos quaisquer. A Manuela Ferreira Leite também pode apanhar a camioneta com Pedro Passos Coelho. Já não fazem falta ao partido ou ao país. Os comunistas, imutáveis perante as evidências, continuarão a musicar aquele pífaro de luta pelo trabalhador oprimido e a denunciar os opressores capitalistas. Estão, desse modo, no seu território preferencial, a jogar o papel que bem conhecem - o de vítimas. O PS irá espremer as autárquicas para canonizar a geringonça, mas em última instância será vítima do seu sucesso desmesurado. Isaltino, o cão-pisteiro, abriu o caminho para tantos outros, uns de Felgueiras, e outro da cela de Évora. Mas esse resultado espelha o povo, eticamente vergado e que se deixa enganar. Ouvi dizer que o maior derrotado da noite foi a abstenção, mas não é verdade. Foi uma metade que votou. Portanto apenas pode haver meio deleite.

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publicado às 07:26

Medina e Lisboa a metro

por John Wolf, em 07.09.17

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Aviso desde já que vi bastantes segmentos da grande tertúlia promovida pela TVI e a anfitriã Judite de Sousa. Não escutei de fio a pavio o debate. Mas ligando os pontos, facilmente chegámos à conclusão que o Partido do Turismo marcou assento mesmo sem ter sequer um lider em estúdio. Fernando Medina, o único político não eleito dos presentes, não soube aproveitar essa condição. Não soube e não quis, porque sabe que qualquer tentativa de se apresentar como "independente", e herdeiro de um legado que não escolheu, cairia por terra num ápice. Assunção Cristas sintetizou - "Medina anda de braço dado com o governo" e "foi secretário de Estado sob a batuta de José Sócrates". Mas adiante, deixemo-nos do acessório e passemos ao essencial da noite. A questão das taxas turísticas parece estar envolta na mesma aura de mistério dos donativos de Pedrógão. Não se percebe muito bem para onde foi ou para onde vai o dinheiro. Não se sabe ao certo de que modo é feita a alocação das receitas. A taxa respeitante à Protecção Civil,  a grande bandeira de financiamento das emergências da capital, afinal peca por inconstitucionalidade se for adoptada a mesma orientação jurídica que foi determinada em Vila Nova de Gaia. Cristas tem razão. A Protecção Civil não pode ficar dependente de mais ou menos meios angariados através de taxas ou taxinhas -  é um encargo em relação ao qual não se pode abrir mão. João Ferreira do PCP esteve bem ao saber demarcar-se da expressão geringonçal que o define a si e ao seu partido. Soube fingir muito bem a sua irreverência, mas sabemos que nos bastidores os acertos serão determinados. Ricardo Robles do BE foi uma agradável surpresa - é uma versão diluída e não histérica da Catarina Martins. Parece ser alguém com quem se pode discordar sem levar com um compêndio moral em cima. Teresa Leal Coelho é um erro grosseiro de casting. Infelizmente não tem o que é necessário para o cargo em questão. É incapaz de estruturar um pensamento ordeiro e é péssima no contraditório. Se é para fazer escola aqui nestas andanças, sair-lhe-á caro. Adiante. A discussão dos metros do Metro coloca Lisboa numa posição incómoda. A cidade não pode ser pensada a partir do prisma da mobilidade, como se a mesma fosse a geradora de outras soluções estruturais. Nada de conceptual foi discutido. A saber; qual o conceito de qualidade de vida que define Lisboa e quais as ambições dos seus residentes? Que implicações terão as propostas dos candidatos no desenvolvimento dos concelhos adjacentes? Qual a abordagem inter-municipal para integrar as mais que expectáveis alterações que se farão sentir na periferia? Onde começa e acaba Lisboa, e como pode a mesma ser pensada a partir do prisma do Turismo? Será que são entidades exógenas que determinarão o curso político de acção? Se deixarem o Turismo ditar o rumo da capital, poderemos apresentar um novo conceito operativo político: a perda de soberania autárquica. A cidade de Lisboa não pode pertencer aos maltrapilhos dos turistas que apenas se apresentam por interesse hedonista. E os que residem ficam para segundo plano? Fico algo chocado que não tenha sido atribuída a ênfase devida à condição alfacinha. São os que cá vivem que mais importam. O turismo é um vento favorável que sopra, mas devemos temer furacões e aguardar as tempestades geradas por políticos que acreditam nas benesses das cirurgias plásticas dos canteiros de avenidas. Como em todos os outros processos eleitorais de Portugal, não me assiste votar. Não sou uma coisa nem outra. Não sou nacional, mas também não sou turista. Sou residente de pleno direito e estou alinhado com os da terra que merecem muito mais do que presentemente lhes é oferecido. E não me venham com essas histórias encomendadas pela geringonça de que Portugal é o 5º melhor país do mundo para se trabalhar. Não é assim que se faz. Não é assim que se faz campanha. A masturbar prémios em cascata.

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publicado às 07:45

O saco azul das autárquicas

por John Wolf, em 31.08.17

 

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A campanha para as autárquicas é uma espécie de saco azul de misérias onde enfiam tudo e mais alguma coisa. À falta de argumentos profundos, sentido de Estado, verdade e ética na condução da missão política, serão miudezas de toda a espécie de que se servirão os políticos e afins para marcar pontos na caderneta mediática. Sim, os meios de comunicação social também lambem a sarjeta em nome de audiências e favores de antena política. Não tenham dúvidas da agenda em curso, marquem no calendário. A crise da Autoeuropa não passa de uma guerra partidária, arrufos por resolver entre sindicalistas e patrões, autarcas e investidores. Os partidos do governo, os sindicatos, e os agentes económicos privados, fazem parte do mesmo enredo. Por outras palavras, o que acontecer na Autoeuropa tem ramificações em diversos planos de natureza governativa e e em especial no que diz respeito ao rating de Portugal a determinar por diversas agências que acompanham o filme. Parecia tudo correr tão bem (e sobre rodas) à geringonça, mas isto que se passa projecta uma imagem negativa com repercussões além-fronteiras. Quem quer investir o seu futuro empresarial num país a discutir sábados? Os investidores directos e estrangeiros estarão atentos ao desenrolar dos eventos. Misturem nesse cocktail a merda que deu à costa em Carcavelos e peçam ao Garrett Mcnamara para surfar a maior poia do mundo. Medina bem pode ser o ardina da "cidade com a melhor qualidade de vida do mundo", mas será Isaltino a sorver essa água de beber da linha. E há mais. Há os desentroncados, cheios de rancor, ávidos por saltar para a espinha de Cavaco Silva que apareceu na Universidade de Verão, como poderia ter ido para a Arrábida ditar as mesmíssimas profecias de um socialista internacional como Guterres que desavergonhadamente fez plágio, desrespeitando tabus, roubando a Martin Luther King a frase exclusiva e intransmíssivel: "I have a dream". No entanto, a ameaça terrorista é moderada.

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publicado às 14:45

Síndrome de Padeiro

por John Wolf, em 28.01.17

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Antes que me acusem de sofrer da síndrome de padeiro, fica o aviso. Sou um sociólogo empírico, artesanal. Faço colagens, mas delicio-me com o corte e a costura. Adoro bricolage e fascina-me o betão. Cá vai. O ovo ou a galinha? Qual deles? Vem isto a propósito do efeito de contágio (ou não) das obras de Medina na cabeça dos cidadãos da capital europeia das autárquicas. O enunciado é relativamente simples: será que a malha civilizadora do passeio largo, da via minguada e das ciclo-rotas irá alterar o quadro comportamental do utente? Prevejo, e já assisti a muita inauguração construtora em Portugal, que teremos a insistência crónica do estacionamento sobre a calçada farta ou a ciclovia, a extensão da prática de arremesso de dejecto canino e o graffitar de assinaturas de artista delinquente sobre a pedra que tanto bate que até se apura. E há mais. A obrite aguda, embora vá embelezar a urbe alfacinha, representa, no seu âmago, uma patologia política de difícil cura. A obsessão pelo hardware. Quanto ao software do formato mental dos urbano-residentes a história será outra. A alteração da mentalidade que conduz à estima cívica e ao sentido colectivo parece ficar para depois do aumento do PMN - o passeio mínimo nacional. O problema é que a correlação entre a obra e o comportamento cívico não foi pensada em sede alguma. O que domina e extravasa é outro vector. A alma-matéria parece ser o modo de pagar promessas e comprar eleitores. Em plena época de dúvidas existenciais e rumores de populismo, convém acalmar os ânimos daqueles que usam as ferramentas mais básicas. O apelo da intelectualidade primária, ou da filosofia de lancil, parece ser a nota dominante. Quero ver quem tira o peão do caminho do triciclo, ou enxota a marca global que irá decorar aquela praça neo-típica. Quem levantará os autos? Não há dúvida que fica tudo mais bonito e que valeu a pena o pó e o trânsito, mas o resto será mais do mesmo. Quero ver quem entrega o pão como deve ser.

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publicado às 12:00

Mr. Clean Costa

por John Wolf, em 01.04.15

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O mais recente ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML) é a última pessoa do mundo que deve declarar que deixa a casa arrumada ao abandonar a autarquia. Eu, por exemplo, tenho opinião diversa. Onde eu moro não deixou uma das ruas arrumadas. Nem sequer deixou rua. Falta à mesma um passeio. Os caminhantes servem-se há 8 anos de um estrado de madeira com uma extensão de mais de 100 metros! António Costa pode meter o quadro financeiro sustentável onde bem entender. O homem esqueceu-se que os residentes deveriam ser os principais destinatários da sua missão. Em todo o caso, o senhor não leva a chave da CML. Agora teremos a oportunidade de vasculhar e descobrir se o trabalho foi limpinho ou não. E com tanto festejo e glorificação, passamos de Meca a Medina sem termos sido consultados. Acabei de pagar o IMI, mas não existem atenuantes.

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publicado às 14:49






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