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Duas incógnitas.

por Nuno Castelo-Branco, em 30.10.17

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1. Naturalmente acossado, o primeiro-ministro tem andado ocupado a apagar os incêndios de imagem que o laxismo e uma certa sobranceira auto-suficiência do seu próprio executivo terá permitido. É uma realidade que não escapa nem aos próprios socialistas que muito mais terão para fazer do que embrenhar-se em desculpas cujos farrapos não cobrirão um só dedo de quem está ao leme da governação. Seria mais simples, digno e credível assumirem os erros que todo o país já compreendeu. Isto é tão válido para os actuais governantes, como para todos os outros do passado e do futuro, pouco interessando o nome do partido.

Dizia António Costa que a reconstrução das segundas casas, ou seja, aquelas que um dia terão dado tecto à infância de portugueses que da terrinha saíram em direcção a paragens mais auspiciosas, têm o seu vital quinhão de importância na manutenção de uma certa identidade de cada um dentro deste exíguo território que é o nacional. Tem ele toda a razão e embora seja evidentemente um escasso pecúlio a apresentação de uma verba de 5.000 Euros para fazer face a despesas que inevitavelmente envolverão as infra-estruturas de cada um das casas, o erguer de muros, o forro de chão, telhados e uma infinidade de detalhes nada  e essenciais à criação de condições de habitabilidade. É a verba possível, é verdade.
Pelo que se vê, habituados a transferências directas através do computador caseiro, uma vez mais não fazem a menor ideia do que são obras em casa. Convenhamos que 5.000 Euros são pouca coisa e deveremos então ficar naquela posição incómoda de nos apercebermos o quão distante estarão os decisores acerca da realidade do dia a dia, dos orçamentos, preços de materiais e da mão de obra nacional que deveria ser bem paga, garantindo a própria sobrevivência da mesma. O que mais impressão causa, é um certo alheamento que não poderá ser desligado de um infinito  conjunto de actividades que facilmente deveria, num Estado interessado e competente, ser politicamente entendido como convém. Neste momento deveria estar o país a ser mobilizado para uma campanha mais vasta, onde os fundos são o ponto essencial de encontro para muitas, senão a maioria, das soluções. É esta a função de um governo, seja ele qual for. Infelizmente tal não tem acontecido ao longo de muitas décadas, vive-se semanalmente, esperando pela sondagem da sexta-feira.

Muita sorte têm aqueles que por cá ou vindos de França, da Alemanha, Bélgica ou Luxemburgo, poderão quando puderem ou quiserem, visitar a terra e com a passagem dos anos, a cada vez mais idealizada casa que os viu nascer. Fica longe? Nem por isso, está apenas a uma distância de poucas horas, pois o sempre sonhado regresso, o retorno, é um mero componente da vontade.

É fácil perceberem o que aqui se escreve.

Exige-se competência e abnegação, não havendo lugar para o tradicional improvisar.

2. Também como conviria, o MNE tem actuado de forma discreta quanto aos portugueses da Venezuela. O correspondente secretário de Estado tem visitado o país com a regularidade possível e finalmente ouvimo-lo declarar diante das televisões, estarem dispostos a incluir no serviço de assistência pública todos os necessitados que a ele acorram. Esperemos então pelos actos que confirmem palavras que não poderão ser vãs devido à reconhecida inércia que caracteriza muitas das políticas públicas que não envolvam a recolecta de dinheiro. Fica no entanto aquela nebulosa situação da presença física dos futuros beneficiários, se permanecem na Venezuela ou serão para alguns desagradável e inevitavelmente transportados para Portugal e não apenas para a Região Autónoma da Madeira. Dourando a pílula, vejam-nos como números que ajudarão a  repovoar algumas zonas do país, assim talvez entendam. 

Dir-se-ia existir a maior relutância quanto à palavra evacuação e mais ainda, refugiados. São mesmo refugiados, a maioria deles em condições deploráveis. Dado o que se sabe acerca da imparável deterioração da situação geral naquele país, aconselhar-se-ia o estabelecimento de um plano sólido que acorra às eventualidades que talvez se precipitem sem anúncio prévio.

Neste caso, também não há lugar para o improviso.

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publicado às 09:09

Ataque de hackers do Shaolin ao MNE

por John Wolf, em 10.12.13

Não sei o que procuram os chineses nas gavetas de Rui Machete. Uma factura da EDP por cobrar? Uma carta por enviar com um pedido de desculpas? Mas devemos começar a pensar alto por que razão os hackers de Shaolin estão tão interessados na troca de correspondência do ministério dos negócios estrangeiros. Por outro lado, pode ter sido uma simulação por forma a dar a impressão que Machete é um player de respeito no tabuleiro geopolítico. Trabalham para quem estes maoístas? Para a National Security Agency? Terá sido um outsourcing por ajuste directo de contas antigas? Tudo isto é muito misterioso, mas não nos deve espantar. A República Popular da China já tem muitos interesses por defender em Portugal e convém tomar algumas precauções. Não vá haver algum leakage involuntário que possa comprometer futuros negócios líquidos ou não. De qualquer forma, em termos de percepção ou de classificações de instituições com matéria sensível a proteger, Portugal deve já estar no top 15 deste ranking de fífias. Não sei se a Judite Estrela - perdão, Edite Estrela -, tem razão, ao afirmar que ninguém sabe quem é Nuno Melo no Parlamento Europeu, porque pelos vistos estes chineses sabem-na toda. Este emaranhado de temas que para aqui trago parece que não tem ligação, mas aposto que tem. Talvez seja boa ideia perguntar à Ana Gomes se ouviu falar de alguma coisa.

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publicado às 18:37

Tente para a próxima, "si iu néxte láif!"!

por Nuno Castelo-Branco, em 28.09.13

 

Entrevistado há uns tempos, um dos nossos mais conhecidos mangeur de croquettes dizia que ..."imediatamente sei se alguém tem ou não tem perfil para ingressar na carreira diplomática". Foi mais ou menos este o sentido geral da sua bem oleada guilhotina verbal.

 

Não valerá a pena voltarmos ao vira que vira e torn'a virar da leva de peões que de tempos a tempos engrossam os contingentes aboletados no pitoresco palácio cor de rosa que até já serviu de sede da representação do Estado. Os casos vão-se acumulando e as tricas, mexericos e diz-se diz-se, apenas continuam a garantir a perenidade de episódios que de situação em situação se mantêm. Longe vão os tempos em que os embaixadores nomeados por um quase milenar regime fortuitamente deposto pelo reconhecido abstencionismo nacional, voluntariamente despiram as casacas consteladas de comendas e ouros de variada proveniência. Dignamente se despediram com uma cerimonial vénia aos arrivistas e daqueles nunca mais o país voltou a ouvir fosse o que fosse.

 

Esta farta safra saída de camaradarias, camaratas, compinchagens à amigo do seu amigo e imorredouras solidariedades garantidas pelo veni, vidi, vinhaça, sabe adaptar-se e ainda melhor rodear-se de recursos humanos que num universo paralelo e presente nas velhotas revistinhas para crianças da primária, decerto teriam como lema aquele letreiro pintado à porta do clube do Bolinha:"menina(o) não entra!".

 

Aqui está mais uma estória, ou como agora se diz diante de secos e molhados, uma narrativa. "Porque razão" é este mais um daqueles testes que apenas nos garante estar o necessitário clube na mesmíssima boa forma de antanho? Além da originalidade do neo-português desacordado, temos inovações ao estilo da Ginjinha do Rossio, como  o incontornável regime "facista" de onde muitos dos já pneumáticos representantes desta nação saíram em boa hora antes do estouro. O rodado recauchutado é o que se vê e passando sobre o texto de mais um dos fixativos encartados do estado de coisas, atentem apenas nas perguntas.

 

Como é óbvio, serei o menos qualificado para uma atrevida crítica. Chumbado sem apelo, resta-me rir. Tal como o papelinho recomenda e em "muito breve resumo", a todos desejo uma boa noite de reflexão, pois amanhã não podem uma vez mais "enrodilhar-se" naquele mais do mesmo  de uma votação "sem grande fluidez".

 

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publicado às 19:12

Comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros

por Samuel de Paiva Pires, em 03.04.13

Aqui:

 

«O Ministério dos Negócios Estrangeiros decidiu mandar repetir a prova escrita de cultura geral do concurso de acesso à carreira diplomática.

 

Segundo informação do presidente do júri, a realização da prova, no passado dia 16 de março, não terá assegurado as condições de igualdade entre todos os candidatos uma vez que, em algumas salas, foi autorizada a substituição do enunciado da prova e, em consequência, a correção de respostas rasuradas.

 

Este facto contraria as instruções previstas no enunciado da prova.

 

Para garantir a total e igualdade de circunstâncias dos candidatos, deste concurso de acesso, o MNE decidiu anular o exame, convocando os candidatos para uma nova prova, a realizar no próximo dia 20 de abril.»

 

Leitura complementar: As necessidades do Trivial Pursuit"Candidatos à carreira diplomática criticam teste "obscuro" do MNE"

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publicado às 20:57

O fetiche da eliminação dos feriados

por Samuel de Paiva Pires, em 14.12.12

Aqui fica o meu artigo de hoje para o Diário Digital, publicado também no blog da Real Associação de Lisboa.

 

 

(1 de Dezembro de 2012, fotografia cordialmente cedida pela Real Associação de Lisboa)

 

No meio da catástrofe que se abateu sobre Portugal e os portugueses, uma tendência fetichista com a eliminação dos feriados emerge entre os que nos vão sujeitando a uma penosa navegação à vista. Ilustrativa quanto baste da perigosidade do Leviatã e dos que o manobram praticando o velhinho princípio cesarista de divide et impera, esta tendência torna-se ainda mais preocupante quando colocada em perspectiva nos contextos da intervenção internacional a que o consulado socrático infelizmente nos trouxe e da crise da União Europeia que muitos parecem querer ultrapassar com uma fuga para a frente em direcção a um federalismo muito pouco federalista e democrático, o que me traz à memória uma célebre gaffe de João Pinto, antigo jogador do Futebol Clube do Porto: “Estávamos à beira do abismo e fizemos o que tínhamos a fazer: demos o passo em frente.”

 

Não constando do memorando de entendimento com a troika ou do programa do actual governo quaisquer referências à redução do número de feriados, não deixa de ser intrigante assistir a esta tendência apresentada como forma de penitência, visando a redenção perante os parceiros internacionais e ajudando a reforçar ideias perigosas como a de que em Portugal trabalha-se poucas horas, quando na verdade trabalhamos mais horas que a média europeia, ou a de que a culpa da crise que vivemos é da nossa total responsabilidade, quando se é certo que os governantes erraram em muita coisa nas últimas décadas, também não deixa de ser porque o sistema financeiro europeu e as políticas da União Europeia contribuíram em larga medida para os desvarios que nos trouxeram ao estado a que chegámos.

 

Primeiro foram os quatro feriados que o governo achou por bem negociar em sede de concertação social, como se esta tivesse qualquer mandato para tal – o que é revelador não só da falta de conexão entre as confederações que ali têm assento e a nação, mas também dos tiques autoritários que perpassam este governo. Há dias, foi notícia a intenção do governo de tornar o 25 de Abril um feriado de celebração opcional nas embaixadas, missões bilaterais e serviços consulares portugueses. Sendo o feriado fundacional do regime, não deixa de ser estranho que a sua celebração deixe de ser obrigatória nas representações externas do estado português, o que em conjunto com a eliminação do feriado do 1.º de Dezembro só vem agravar ainda mais a preocupante propensão para não nos darmos ao respeito na arena internacional.

 

Mas mais grave que isto é este fetiche parecer-me estar enquadrado no processo de apagamento da identidade portuguesa em curso, sobre o qual escrevi no início deste ano. Como se não bastasse o absurdo Acordo Ortográfico que vai desfigurando a língua portuguesa, o governo ainda se considera no direito de dispor a seu bel-prazer de celebrações de mitos que dão corpo à nossa identidade nacional, à nossa pátria, não hesitando inclusive em enveredar pelo já referido dividir para reinar, no qual caíram monárquicos e republicanos a respeito do 1.º de Dezembro e 5 de Outubro. Este processo não é fruto do mero acaso. Trata-se de um ataque despudorado ao Estado-nação, que visa abrir brechas para permitir, em primeiro lugar, o enfraquecimento e manipulação da identidade nacional, e em segundo, o reforço da lealdade e identificação com a União Europeia, o que poderá vir a reflectir-se na tentativa de implantação de uma suposta identidade supranacional que muito facilitaria o trabalho aos eurocratas que, não satisfeitos com a fragmentação a que a maioria das nações e sociedades europeias foram e estão a ser sujeitas, parecem apostados em dar o passo em frente em direcção ao abismo. Não estou com isto a dizer que a União Europeia não deve avançar no sentido de uma federação. Mas conhecendo-se o historial do método comunitário, apenas suspeito fortemente que o processo que levará a uma federação europeia aprofundará o défice democrático e terá muito pouco respeito pelas identidades nacionais.

 

Desenganem-se os que julgam, como salienta Pierre Manent, que uma nação “é um traje ligeiro que se possa pôr e tirar à vontade, ficando-se na mesma.” Escreve o autor francês que “Ela é esse todo no qual todos os elementos da nossa vida se reúnem e ganham sentido.” Como assinala Roger Scruton, é a cultura que nos une e a pátria é o lugar onde regressamos, nem que seja apenas em pensamento, no fim das nossas deambulações. Por mim, continuo a subscrever Pessoa quando afirma que “O Estado está acima do cidadão, mas o Homem está acima do Estado” e apenas acrescento que a pátria está acima do estado, não podendo ser aprisionada por este nem por nenhum de nós e sendo, na realidade, o mito que fundamenta o burkeano contrato entre os mortos, os vivos e os ainda por nascer. Porque recordando ainda Miguel Torga, a pátria é “o espaço telúrico e moral, cultural e afectivo, onde cada natural se cumpre humana e civicamente. Só nele a sua respiração é plena, o seu instinto sossega, a sua inteligência fulgura, o seu passado tem sentido e o seu presente tem futuro.”

 

Que actualmente sejamos liderados por um governo que tem revelado esforços muito tímidos quanto a fazer aquilo para que foi eleito e que ambos os partidos da coligação prometeram em campanha eleitoral – reformar o estado –, preferindo a velha e estafada receita do aumento de impostos, parece-me ser uma vicissitude de um regime democrático, que não deixa de reforçar o descrédito dos agentes políticos e, consequentemente, do regime. Mas que numa das mais graves horas que enfrentamos colectivamente, ainda sejamos sujeitos a uma ofensiva anti-patriótica, é somente trágico.

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publicado às 18:49

Como?

por Samuel de Paiva Pires, em 08.12.12

O feriado fundacional do regime vai deixar de ser de celebração obrigatória nos serviços diplomáticos portugueses? Mesmo quem não seja adepto do 25 de Abril deve conseguir perceber perfeitamente a idiotice. Acima do estado está o país, e depois de se ter acabado com a celebração do 1.º de Dezembro, isto só vem agravar ainda mais a preocupante tendência para não nos darmos ao respeito na arena internacional. Parece que já estou a imaginar os telegramas das missões diplomáticas acreditadas em Lisboa...

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publicado às 14:49

Muito bem, Paulo Portas!

por Samuel de Paiva Pires, em 08.05.12

 

(imagem daqui)

  

No Sol

 

"O Governo não vai seguir o apelo da chanceler alemã e do presidente da Comissão Europeia e admite fazer-se representar nos jogos de Portugal no Euro-2012.


«Para o Governo português, política é política, futebol é futebol. E misturar questões muito relevantes de direitos humanos na Ucrânia com a realização do Euro-2012, que já está decidido há vários anos, não é de todo opção», adiantou ao SOL o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros."

 

O mote para o boicote ao Euro-2012 foi dado pela chanceler alemã. Angela Merkel já fez saber que não vai assistir ao primeiro jogo da Alemanha, no dia 9 de Junho, em Lviv – que tem precisamente Portugal como adversário – e lançou o apelo aos seus ministros e aos restantes líderes da UE para não participarem no evento, como forma de protesto contra o tratamento a que tem sido sujeita Iulia Timochenko, ex-primeira-ministra, pelo regime do Presidente Víctor Yanukóvich. Timochenko está presa, doente e em greve de fome, em Lviv.

 

Uma decisão certeira e que num assunto que parece politicamente irrelevante acaba por dar um sinal de rebeldia em relação a Berlim. De relembrar a carta aberta à Europa que há tempos assinei com o Nuno e o Miguel Castelo-Branco.

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publicado às 20:32

O Diplomata

por Nuno Castelo-Branco, em 01.04.10

Quadro alusivo ao Congresso de Viena. Na imagem, à esquerda e logo a seguir a Wellington, Joaquim Lobo da Silveira, António Saldanha da Gama e sentado, lendo um documento, Pedro de Sousa Holstein (Palmela), representantes de Portugal

 

 

Um blog que não se destina aos prazeres da degustação de salgadinhos, champagnades, spinsters gourmandes ou o preenchimento do carnet mondain. Alexandre Guerra, o autor de O Diplomata aborda os mais diversos temas da actualidade internacional. A seguir com atenção.

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publicado às 12:42

 

Hoje, os noticiários estão fixados nos Rohingas, novo ariete "questão de sapatos" para agredir as autoridades tailandesas, acusadas de os escorraçarem para mar alto. Pedia-se, ao menos, que a comunicação social portuguesa explicasse ao público português que a Birmânia é um manto multi-étnico e religioso, que os Rohingas são uma insignificante comunidade, que por lá também há Karen's, Shan's, indianos, Mon's, chineses, Naga's, Lahu's, Lisu's e ... Portugueses ! Mas não, quando a falta de informação se arma de espada em riste para lançar moda, nada há que a demova. Quererá o nosso governo informar-se sobre a sorte dos portugueses da Birmânia ? Sempre ao dispor para qualquer ajuda.

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publicado às 13:27

Realismo puro

por Samuel de Paiva Pires, em 02.04.08
O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, afirmou que O direito é um instrumento ao serviço de opções políticas que, em cada circunstância histórica, se vão constituindo. E há momentos de ruptura no sistema jurídico internacional e de ajustamento das normas jurídicas internacionais à realidade, decorrente do que pensam os actores que pesam na modelação do sistema internacional.

Diz-nos o Professor Maltez a respeito destas afirmações que duvido que subscreva a magnífica frase do nosso ministro dos estrangeiros, para quem o direito internacional é "um instrumento ao serviço de opções políticas", ao bom estilo do Manifesto Comunista de 1848. Apenas reconheço que, no Instituto Diplomático, não devem dar Antígona, Cícero, os jusnaturalistas de antes do Iluminismo, os jusracionalistas kantianos e os actuais defensores do direito da razão.

Devo dizer, até porque alinho mais pela vertente Realista da Teoria das Relações Internacionais que, quer se goste ou não, é a que domina a academia norte-americana que, por sua vez, domina as restantes (salvo a excepção da mais evidente contra-corrente, a Escola Inglesa), que por mais que queira acreditar nas boas vontades do idealismo e do dever ser, não posso deixar de constatar o mundo que é.

E no mundo que é, até muitos professores da área do Direito e Direito Internacional reconhecem que o Direito Internacional Público é uma realidade extremamente politizada e feita a partir da vontade do mais forte, até porque nesta sociedade anárquica a ordem mundial faz-se sempre a partir da vontade dos vencedores e dos mais poderosos, esses sim detentores da razão, porque imposta pela sua capacidade de constranger os outros à sua vontade. A razão é a razão dos vencedores, não é uma qualquer razão inscrita nos corações dos homens ou reflexo do que é ideal ou moralmente justo.

Qualquer aluno de Ciência Política e/ou Relações Internacionais sabe que uma Constituição só é legítima até que haja uma ruptura de regime, em que um golpe de estado inicialmente é sempre ilegítimo, mas no dia seguinte legitima-se a si próprio, logo de seguida revogando a Constituição que entretanto se tornou ilegítima, para dar lugar a uma nova Constituição legítima à luz do novo regime instituído.

Ora se daqui decorre que o Direito é uma realidade sempre submetida ao regime político, que no plano interno, se torna dogma porque existe uma entidade, o Estado, que assegura, ou deve assegurar, a implementação, cumprimento e inviolabilidade, ou consequência e/ou sanção da violação da Lei, pelo que assim será o Direito uma realidade dinâmica e volátil consoante as vontades políticas, quanto mais no plano internacional onde não há uma submissão a uma entidade superior que a todos fizesse submeter às mesmas regras.

Tratados e acordos são meras formalidades, valem o que valem para a realidade em que são forjados, os tempos mudam, os governos mudam, os regimes mudam e essas orientações também mudam consoante os vencedores e definidores da ordem mundial. Daí a parca coincidência entre determinadas manifestações de Direito Internacional Público e a prática acção dos Estados, que se movem apenas pelas suas necessidades e interesses.

O Direito não é uma realidade absoluta, a Política não é a procura do bem comum e da razão. A Política é a manipulação de vontades pelos mais fortes que submetem o Direito consoante os seus desejos e necessidades.

Não estou a dizer que concordo com isto. Estou apenas a constatar que assim é, infelizmente porque nunca nos será permitido atingir um regime perfeito e porque estaremos sempre sujeitos a injustiças e à acção da governação por parte de medíocres, felizmente porque se alguma vez o atingíssemos a política deixava de ter piada.

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publicado às 04:26

Luís Amado na Universidade Lusíada

por Samuel de Paiva Pires, em 02.04.08
O sempre informado Carlos Albino traz-nos um excelente post sobre as lições que o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, deu ontem na Universidade Lusíada, a mostrar que até o próprio Ministro tem dificuldade em remar contra as, vá lá, dificuldades, que perpassam os sectores económico e cultural das Necessidades:

Nem sabemos bem por que motivo, mas quando aqui em NV demos relevo à ida do ministro Luís Amado à Universidade Lusíada/Lisboa, suspeitámos que o MNE iria dar lição. E deu.

E na lição que deu, o ministro surpreendeu sobretudo os que o têm como que a navegar na linha de águas entre o sim e o não, com o astrolábio daquela cautela que não tem norte nem sul, na mão petrificada. Ou, pela fábula bíblica, como que um ministro conformado no seu Monte das Oliveiras, dispondo-se ao sacrifício político de pedir perdão para os que não sabem o que fazem, com o Barrabás e até o outro ao lado, no calvário de estado.

Nada disso. Desta vez, Luís Amado foi a direito contra a "política de capelas" ou "política de preservação do poder" que identificou como um problema "muito flagrante neste momento na acção externa".

Disse o ministro sentir dificuldades na "melhor promoção dos interesses económicos" e na "maior valorização do papel da cultura e da língua portuguesa", onde também sente ser necessária "mais e melhor cooperação interministerial em todas as áreas".

E que "há sempre uma política de capelinhas a condicionar, muito, os interesses de Portugal", dando relevo a que "o défice é especialmente visível no sector cultural".

"Custa-me que haja uma missão diplomática num país com potencial (económico) que não faça tudo o que pode fazer pela promoção dos interesses portugueses, às vezes não por não ter sensibilidade, mas por falta de enquadramento", avaliou o ministro para concluir que "a política de capelas isola-nos" na acção externa, tanto a nível cultural como económico.

Resultado: "É um desperdício termos uma máquina política e diplomática que não se foca nestas áreas", sendo "inaceitável que o potencial destes recursos não seja mobilizado”.

Luís Amado, com isto, fez o mais importante: identificou o problema - a política de capelas, a política de preservação do poder.

Ora quando se identifica o problema, ressucita-se! Aleluia!

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publicado às 03:58






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