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Do futuro da Europa

por Samuel de Paiva Pires, em 03.07.16

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Michel Houellebecq, Submissão:

Quando o Lempereur voltou, estendeu-me uma dezena de folhas agrafadas, escritas com caracteres muito pequenos; efectivamente, o documento tinha um título claríssimo: «PREPARAR A GUERRA CIVIL».
- Bom, há muita coisa do mesmo género, este é um dos mais sintéticos e com estatísticas mais fiáveis. Tem grande profusão de números, visto que analisa os vinte e dois países da União Europeia, mas as conclusões são sempre as mesmas em todos. De forma resumida, a tese do movimento é a seguinte: a transcendência é uma vantagem selectiva, os casais que se reconhecem numa das três religiões do Livro, e que mantêm portanto os valores patriarcais, têm mais crianças do que os casais agnósticos ou ateus; as mulheres têm menos estudos, o hedonismo e o individualismo são menos impositivos. Por outro lado, a transcendência é em larga medida uma característica geneticamente transmissível: conversões a outras religiões ou rejeições dos valores familiares têm uma frequência marginal; na esmagadora maioria dos casos as pessoas mantêm-se fiéis ao sistema metafísico em que foram criadas. O humanismo ateu, sobre o qual assenta o laico «viver juntos» dos casais informais, está portanto condenado a acabar em breve, a percentagem de população monoteísta está a aumentar em flecha, como acontece no caso particular da população muçulmana – não contando com a imigração, que acentua ainda mais o fenómeno. Assim, os identitários europeus admitem abertamente que entre os muçulmanos e a restante população vai rebentar, obrigatoriamente, mais cedo ou mais tarde, uma guerra civil. E concluem que para haver uma hipótese de os europeus vencerem essa guerra civil, esta tem de começar o mais depressa possível – em qualquer caso antes de 2050, e de preferência muito antes.

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publicado às 23:03

Visitas à mesquita

por Nuno Castelo-Branco, em 16.01.15

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Nuno, Ângela e Miguel, no fontanário do Jardim Vasco da Gama, em Lourenço Marques. Na cabeça, os cofiós bordados, oferecidos por amigos do Centro Aga Khan (1968)

 

Há trinta e cinco anos, o Xá Reza Pahlavi  para sempre abandonou o seu país. Durante muitos anos era uma presença constante nos noticiários, um peão essencial no ténue equilíbrio de poderes no Médio Oriente. Ainda hoje acusado de demasiado ocidentalismo, o Xá dos anos sessenta surgia como um dirigente que procurava a difícil síntese entre a milenar tradição persa, o legado muçulmano e as exigências impostas por um trabalhoso período reformista que guindou a Pérsia ao lugar cimeiro do concerto internacional. Para quem vivesse no Moçambique português, Reza Pahlavi era o imperturbável e discreto amigo que decidindo a partir dos seus gabinetes nos palácios de Niavaran ou Golestan, ignorava sanções impostas na ONU e as advertências de aliados contrariados pela presença portuguesa na África e na Ásia. Nos seus afazeres de funcionário da Sonap, várias vezes o meu pai visitou petroleiros iranianos que descarregavam na refinaria Sonarep da Matola, tornando-se estes num elo vital da sobrevivência económica da então província ultramarina de Moçambique. Se o Xá era um homem moderno, Farah Diba foi gabada como uma beldade da época Twiggy, um figurino da moda, tendo mesmo Lourenço Marques conhecido uma boutique Xabanu. A tricolor que ostentava o leão dourado, a bandeira do mais poderoso país muçulmano, era assim uma rotineira e amiga visitante do porto da então denominada Baía do Espírito Santo.

Na capital de Moçambique a presença maometana era importante, abundando gentes vindas do antigo Raj britânico, assim como naturais de famílias há muito islamizadas, oriundas da zona norte e centro de Moçambique e de toda a suavemente sinuosa costa que ia de Inhambane até à Quíloa, Mombaça ou Melinde do Ibn Majid. Lojas de rua espalhavam-se por toda a cidade e arredores, também pontilhando as estradas que conduziam ao interior do território, por vezes servindo como vitais pontos de abastecimento das populações nas pequenas vilas e cidadezinhas que como na Terra da Boa Gente, mostravam a forte presença dos seguidores de Maomé.

 

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 A velha mesquita da Rua Salazar, hoje muito alterada por um mastodôntico acrescento betonado

 

Sempre fascinado pelo Oriente, o meu pai tinha uma imensidão de amigos que eram então entre nós designados de maometanos. Estávamos ainda muito longe dos tempos em que o  termo muçulmano erroneamente pareceu querer dizer algo de diferente, logo evoluindo para o islamita que hoje conota um certo programa político perturbador das mentes e ameaçador da tranquilidade dos espíritos e de uma estabilidade internacional historicamente sempre efémera e entrecortada por longos períodos de conflito. Conhecendo-os a todos pelo nome próprio, entretinha-se com conversas acerca das novidades recentemente chegadas dos orientes, sem cuidar muito acerca da verdadeira proveniência dos artigos, fossem eles indianos, paquistaneses, cingaleses, de Zanzibar ou até das longínquas Java, Filipinas, China ou Japão. Aos poucos a nossa casa foi-se compondo com mesinhas de apoio, canapés e orelhudas cadeiras de descanso, esculpidas numa madeira escurecida onde abundavam motivos vegetalistas e ocasionalmente, uma cabeça de besta, fosse ela um leão, tigre ou aquilo que melhor imaginássemos. Muitas vezes almoçávamos em restaurantes indianos e em casa comíamos em louças chinesas. Nos dias especiais, saía do móvel inglês de vidrinhos o serviço de Satsuma pleno de dourados foscos e decorado com aparentemente severas figuras que passavam a vigiar-nos de rompante, logo que rapávamos a derradeira garfada.  Nos sofás e pelo chão espahavam-se almofadas com os tons das especiarias e sobre os móveis e mesas, vidros, jarras e caixas de metal com embutidos, lampadários. Nas zonas de acesso à casa, pendurávamos aquilo que então designávamos de tling-tlings, os espanta-espíritos anunciadores de boas brisas em dias de inclemente fornalha. À mesa, as iguarias indianas confundiam-nos quanto à origem religiosa de quem as tinha confeccionado, fossem eles hindus, fervorosos cristãos goeses - muitos deles recentemente chegados a Moçambique após os acontecimentos de 1961 - ou maometanos. Aos domingos, ao infalível arroz de amêijoas cozinhado pela minha mãe, somavam-se os bajis, chamuças de vários recheios, balchões, o sarapatel, a dulcíssima bebinka e os caris encomendados a senhoras da Avenida Afonso de Albuquerque, empanturrando os sempre imprevistos convidados que como era hábito na desaparecida Lourenço Marques, apareciam sem aviso. Sempre chegava alguém com mais uma pequena prenda, fosse ela uma caixinha de incenso, um belo corte para um sari, ou uma écharpe de berrantes riscas com que a minha mãe, aproveitando a fase hippie que afinal por aquelas paragens há muito existia e estava à venda na Baixa e nos mercados, logo acrescentava à sua colecção de pequenas vaidades. As senhoras iam passando por várias fases quanto às preferências da moda, buscando nas lojas dos indianos as pulseiras de vidros multicolores, alternando-as com outras de latão gravado ou então, noutra combinação convencionada, braceletes de madeira com incrustações de madrepérola, marfim ou metais onde a prata era sempre a primeira escolha. Eram extraordinárias, essas pratarias adorna braços. Finamente lavradas, exibiam turquesas, ágatas ou onix, fazendo subir a parada na demanda das bijutarias provenientes da zona do Golfo, também fornecedor de cintos, cinturões e malas de cabedal e camurça, franjadas e pródigas de aplicações metálicas.

Em muitos sábados acompanhei os meus pais naquele vasculhar de lojinhas do bazar da Av. da República - a D. Carlos I dos tempos dos meus bisavós e trisavós -, dali trazendo saquinhos com coloridas especiarias - ou vítreas pedrinhas - que invariavelmente iam enchendo alguns velhos frascos de pharmácia, relíquias de vidro grosso, onde a tampa com topo em forma de oito deitado, era por si uma pequena obra de arte. Esses frascos  decoravam prateleiras ou móveis de estilo, sendo bem cheios com camadas dessas especiarias que passavam a formar uma zebra multicolor alternando o amarelo açafrão com o azul cobalto, os vários vermelhos, laranjas, cores de terra e o verde pistacho. Nem a mesa baixa comprada na Pandora, de armação metálica e  tampo de mármore alaranjado, escapou a um desses vidros de drogas. Tal como surgira aos olhos do Gama e da sua espantada marinhagem, a Índia, fosse ela a hindu ou muçulmana  - ou até budista, tanto fazia -, era para todos nós capaz de produzir fosse o que fosse, numa mescla de refinamento pontilhado por aquilo que aos olhos dos europeus mais teimosos, parecia ser sumamente kitsch. Quantos Ganesh ou Shivas de vidro translúcido vi eu espalhados montra após montra, verdes, azuis, cor de rosa, ou simplesmente transparentes? Sem sequer imaginarmos a absurda invasão de talhas de plástico dourado do início do século XXI, aqueles santíssimos vidros eram objectos votivos considerados como muito pirosos e inapreciáveis. Para cúmulo, estavam por todo o lado como testemunhos mudos da existência de uma sociedade de muitos e variados seguidores de não menos diversos deuses ou crenças que ostensivamente pareciam contradizer os exaltados textos  que narravam a História de Portugal nos livros da primária. Eram uma decorativa, mas dispensável vulgaridade.

A minha loja preferida situava-se lá para as bandas do Alto Maé, talvez nas imediações da Pinheiro Chagas - ou seria na 24 de Julho? - e pertencia a mais um daqueles indianos do comércio. O termo indiano - monhé era um evitável termo depreciativo atirado aos reconhecidamente muçulmanos - englobava muita e diversa gente, por vezes estipulada feroz inimiga entre si, após a revoada das independências saídas da antiga Índia britânica. Uns eram paquistaneses ocidentais, enquanto outros eram paquistaneses orientais - o actual Bangla Desh -, entrando também na mesma conta os cingaleses e aqueles provenientes daquele termo geográfico politicamente transfigurado - à semelhança da Itália e da Alemanha da segunda metade do século XIX - em União Indiana.
Neste caso concreto, o homem era de Carachi e possuía um estabelecimento bem cuidado, todo forrado de madeiras e desordenadamente organizado de forma a provocar a aturada busca e revista por quem o  visitava. Sempre acompanhado por um macaquinho de estimação que ia espalhando cascas de amendoim loja fora, jamais lhe vi outro traje senão aquele próprio do seu país. Atrás do balcão-montra, existia uma porta que dava acesso ao armazém e talvez, à sua própria residência. Durante anos, sobre esse reservado acesso permaneceram em vigilância, três grandes fotografias envidraçadas e emolduradas em madeira pintada a purpurina ouro-velho. Ao centro e de pé, estava a rainha Isabel II em roupagens da coroação, uma foto colorida e já um tanto empastelada após quase duas décadas de reinado. À sua esquerda, o herói da independência paquistanesa, Muhammad Ali Jinnah, uma quase perfeita correspondência física em versão exótica com Oliveira Salazar, colocado à direita da soberana britânica. Duas fotografias a preto e branco, realçando a peça central colorida e abrilhantada pela exibição da cintilante Regalia guardada a sete chaves na Torre de Londres.

Loja de tecidos de indianos 1 copy.jpg

 


Este homem cujo nome esqueci, tinha um inato bom gosto, sabendo o que as suas clientes procuravam. Os tecidos eram cuidadosamente escolhidos, a bijutaria parecia saída das vitrinas de uma Cartier subitamente convertida em fornecedora de hippies, irmanando pulseiras de vidro colorido com outras metálicas, de marfim, osso, entretecidas fibras de coco, colares, cintos de prata torcida remetendo-nos para o nosso monumental estilo Manuelino. 

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Enquanto ia respondendo ao meu pai sempre ansioso por encontrar mais uma cadeira indiana de balouço, uma mesa redonda de três pernas decoradas com cabeças de elefante ou  biombos para futuro restauro, ia languçando aquilo que as mulheres remexiam:

- Áne Marí, Áne Marí, tem sari novo lindo, sari chegou de Páquitã semana passada, bonito para calçon curte!

- Aaaaaaah, não sei, tenho pernas magras...

 

- Áne Marí tem pérne fine, tem pérne fine, más ande! Compra-compra, ser chibante. 

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Aquele "tem pérne fine más ande!" ficou para sempre, pois ao longo de décadas ouvi a minha mãe contar e recontar o episódio, principalmente por naquele preciso momento dos finais de sessenta, o mundo subitamente ter passado a interessar-se pelas "pérnes fines" e isto, até aos nossos dias. 

 

Indianos 1 copy.jpg

 

Naquele outro plano da minha existência, os devotos amigos maometanos não faziam muito caso daquilo que um dia surgiriam como temíveis fatwas, fazendo então amontoar nas suas lojas ídolos das mais variadas origens, sabendo serem os portugueses ávidos compradores de gordos budas chineses ou aqueles outros oriundos do Sião, sempre tão esbeltos que pareciam entidades em tudo opostas às provenientes do Império do Meio. A estes somavam-se objectos decorativos Made in India, seguindo a já passada mas sempre bem aceite e exaustivamente copiada  Art Déco, organizando-se pelas salas autênticos zoos com canzoada pernalta, leões, tigres, elefantes, leopardos, equídeos, gatos e passarada fundida em latão, bronze ou num modesto ferro patinado a capricho. Negócio era negócio. Por vezes lá soava no nosso telefone, o 29292 da R. Dr. J. Serrão nº 40 r/c e do outro lado da linha, num inconfundível sotaque asiático anunciador de novidades, alguém perguntava: poder falar com Vítor? Claro que podia, era uma imperdível oportunidade para mais umas bisbilhotices abrindo caixas e remexendo stocks acabados de chegar da alfândega do porto. 

Por vezes, em tempo de férias ou após o horário de trabalho, o meu pai levava-me pela mão até à Rua Salazar, hoje crismada de Rua da Mesquita, situada entre a Av. da República e a R. Consiglieri Pedroso, bem perto da Praça Mac Mahon. Dos pés à cabeça vestido com roupa de algodão produzida em Macau, ali entrava livremente, deixando à porta os chinelos de borracha, aquilo que hoje designamos de havaianas, naquela época sem marcas a clamarem por surfistas ou bandeiras anunciando o país do samba. Em meios-dias tórridos, a sala de orações era fresca, proporcionando-me um imenso gozo espojar-me sobre os tapetes com arabescos. De barriga para o ar, ficava a admirar o grande lustre de cristal, aquilo que parecia uma interpretação orientalizante dos modelos expostos nos salões dourados por um Grand Siècle há muito passado mas ainda simbólico de uma Europa maior. 

MAPUTO - edificio aga khan_resize.jpg

No final da década de sessenta, a expensas do Aga Khan ergueu-se o imponente centro ismaelita de Lourenço Marques. Orgulhosos por aquele grandioso testemunho da sua importância social e empresarial, os seguidores do príncipe Karim eram pródigos em convites de visita ao seu edifício, não fazendo destrinças religiosas e também assim confirmando aquilo que era normal na cidade. Nas salas de aula tínhamos colegas a quem jamais perguntávamos acerca da frequência ou não, de templo. Para nós, o João Carlos Leal Bento era o espanhol, pois a sua mãe era castelhana, logo católico. O Páris Zagrephos era o  grego presumivelmente frequentador do Ateneu na Av. Pinheiro Chagas e pelo B.I. tão português como o Abdul de Goa - ou seria de Carachi? -, o Cheng de Macau, ou o Matavele da zona de Gaza. Uns eram tal como eu, brancos de segunda, os tais Velhos Colonos que ostentavam esse título como se fosse um ancestral ducado concedido na época das descobertas, Outros, brancos de primeira, iam variando de sotaque em sotaque, recém-chegados da longínqua Metrópole, filhos de militares ou de casais que evitando as Franças do banlieus, julgavam para sempre eterna aquela África Oriental Portuguesa. 


Um dia, um telefonema feito a partir de um gabinete do Centro Aga Khan, para sempre mudou as nossas vidas. O amigo ismaelita convenceu o Vítor a levar a família para bem longe, pois aquilo que Lisboa prometia era apenas um arrazoado de miragens alija-responsabilidades:

- Vítor, contacta discretamente toda a tua família e os amigos de maior confiança que por sua vez, devem fazer o mesmo. Vão-se embora, muitos de nós fazemos o mesmo neste momento, estamos a empacotar. Não percam mais tempo, vai ser mau, muito mau.

Estávamos no início de Junho de 1974. Somando-se ao petróleo do Xá que desafiara os nossos comuns aliados e às cores e sabores oferecidos pela generosa costa oriental africana e pelas Índias, a então muito leal amizade dos maometanos evitou-nos o testemunhar de um imenso rol de indignidades, fossem elas protagonizadas pela nossa própria gente uniformizada ou à paisana, ou por aqueles que ébrios por uma vitória que lhes foi graciosamente outorgada de facto, para sempre alteraram aquilo que para nós era a ordem normal no nosso pequeno mundo. 

Mas será que estes islamitas de indesejável noticiário novo século, novos terrores, terão mesmo algo em comum com os nossos maometanos do outro tempo? 

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publicado às 17:09

Coisinhas boas recebidas por e-mail

por Samuel de Paiva Pires, em 26.01.10

Cortesia do caríssimo José Manuel Barbosa.

 

 

A female CNN journalist heard about a very old Jewish man who had been going to the Western Wall to pray, twice a day, every day, for a long, long time.  

 

She went to check it out.  She went to the Western Wall and there he was walking slowly up to the holy site.

 

She watched him pray and after about 45 minutes, when he turned to leave, using a cane and moving very slowly, she approached him for an interview.

 

“Pardon me, sir, I’m Rebecca Smith from CNN. What’s your name?"

 

“Morris Fishbein,” he replied.

 

“Sir, how long have you been coming to the Western Wall and praying?”

 

“For about 60 years.”

 

“60 years! That’s amazing! What do you pray for?”

 

“I pray for peace between the Christians, Jews and the Muslims. I pray for all the wars and all the hatred to stop. I pray for all our children to grow up safely as responsible adults, and to love their fellow man.”

 

“And how do you feel after doing this for 60 years?” 

 

“Like I’m talking to a fucking brick wall!"

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publicado às 00:17

Ainda a respeito das afirmações de D. José Policarpo

por Samuel de Paiva Pires, em 18.01.09

 É ler o que escreve o João Miranda no DN:

 

D.José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, defendeu que os casamentos entre mulheres católicas e muçulmanos podem ser uma fonte de sarilhos. Com estas declarações, D. José Policarpo fez uma crítica implícita ao estatuto da mulher no mundo muçulmano, estatuto esse que não seria facilmente aceite por uma mulher de cultura católica. Estas palavras geraram uma onda de críticas. D. José Policarpo foi acusado de fazer generalizações abusivas e de promover a discriminação dos muçulmanos.


A Amnistia Internacional pediu que D. José Policarpo fizesse uma retractação. A Amnistia considera que as declarações de D. José Policarpo fomentam a intolerância e atentam contra o espírito de fraternidade e paz. Existe uma infeliz ironia nesta posição da Amnistia Internacional. A Amnistia Internacional adquiriu a sua reputação por lutar pelos direitos humanos mais básicos. A Amnistia Internacional devia, por isso, ter como prioridade a luta contra a discriminação das mulheres muçulmanas. Mas, em vez disso, opta por tentar suprimir as críticas a essa discriminação. A Amnistia Internacional devia defender todos aqueles que, nos países muçulmanos, são perseguidos por criticarem a religião muçulmana. Mas, em vez disso, prefere criticar quem faz uma crítica certeira à religião muçulmana.


D. José Policarpo identificou correctamente uma das fontes de discriminação das mulheres no mundo muçulmano. Fez uma generalização? Claro que sim. Mas todas as pessoas inteligentes conhecem as vantagens e os limites das generalizações. As generalizações permitem chegar à essência do problema. Neste caso, a essência do problema é que os factores culturais e religiosos são a principal causa de discriminação das mulheres no mundo muçulmano. No entanto, as generalizações não se aplicam a todos os casos particulares, mas como nenhum de nós é estúpido, todos sabemos que não se aplicam. D. José Policarpo não terá sido intolerante? Dificilmente. A crítica cultural e religiosa é parte integrante de uma sociedade livre e tolerante. Tolerar implica também tolerar a crítica.

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publicado às 16:44






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