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«Anda comigo ver os aviões...»

por Nuno Resende, em 03.03.16

Nunca uma letra de uma música se adequou tanto à polémica que grassa a norte. A norte, como quem diz. No Porto. Embora o discurso político mais recorrente dos ocupantes da cadeira do palácio da avenida dos Aliados seja a ideia de que o Porto é a capital do Norte, historicamente nunca o foi. Nem nunca o será, em abono da verdade, e esperemos que assim seja, para bem das liberdades locais e regionais do Minho, Douro e Trás-os-Montes
Provavelmente a única cidade-estado na História medieval e moderna portuguesa, o Porto foi sempre uma urbe com brio, consciente da sua qualidade de entreposto comercial e lugar de poder.
Naturalmente que o poder acarreta conflitos e o Porto nunca também foi espaço de paz, cidade de plácidos momentos. Fosse o Bispo, a câmara, o povo, os nobres ou os reis, sempre um espinho contribuía para sangrar o percurso histórico e comercial desta comunidade de burgueses.
Assim compreende-se que na esteira dos seus antecessores o presidente da actual cidade lance as suas farpas em várias direcções. Hoje não há reis nem nobres, o bispo já não detém o senhorio do velho couto e naus como as que daqui rumaram a Ceuta em 1415 não há.
Não há velas, mas há asas - as dos aviões que sulcam os céus da cidade num fernesim entre lá e cá, trazendo e levando já não especiarias, panos ou obras de arte, mas despejando gente que vem usufruir do exotismo da cidade - ainda que este seja hoje do género «gourmet», um género que se encontra em qualquer cidade do mundo ocidental.
Talvez assim se compreenda a polémica «Moreira-TAP». Já não preocupado com as questões aduaneiras do rio, as inspecções de saúde, ou os períodos de quarentena na margem esquerda do Douro, Rui Moreira aponta baterias à TAP esse reflexo de um país estado-novista que não existe.
Que a questão é estranha e inusitada é. Que eu me lembre e que os registos documentem, nunca um presidente de câmara se preocupou tanto com voos de longo curso, sobretudo quando os de low-cost que ligam o Porto aos subúrbios europeus é que lhe trouxeram fama e proveito*. Fama à cidade e proveito ao executivo camarário actual que à conta do lucro de empresas como a Ryanair ou a Easyjet tem vendido a ideia de um Porto-Pitoresco.Ponto.
Por isso que interessa que a TAP deixe de voar para o Porto ou que do Porto voe para o resto do Mundo? Não é o turista da Malásia ou da Argentina que vai usufruir de uma francesinha gourmet, numa «tasca gourmet», de uma rua gourmet da cidade-gourmet. De resto, quem vê mobilário Ikea vê-o num café do Porto ou em outra qualquer parte do mundo.
Não entendo, portanto, a fixação do senhor presidente Moreira nos defeitos empresariais da TAP.
Entenderia mais depressa se concentrasse esforços em contribuir para o melhoramentos dos transportes públicos de e para a cidade. A STCP presta um dos piores serviços desde a sua existência e as empresas públicas CP/REFER desinteressaram-se completamente na revitalização do património ferroviário a norte do país. Entenderia a exictação do senhor presidente se ele pedisse (exigisse!) a retoma da ligação ferroviária Porto-Salamanca, ou a duplicação e electrificação da linha do Minho até Espanha. Mas não consigo compreender a celeuma em relação à TAP.
Calculo contudo que o senhor presidente saiba o que faz, dada a taxa de popularidade de que usufrui nas redes sociais e que o torna num dos mais notáveis virtuais fazedores da história do Porto. Mas suspeito que o senhor Rui Moreira ande mais de avião do que eu ando de autocarro ou de comboio e tenhamos, portanto, uma visão diferente dos problemas da cidade onde ambos vivemos.

 

*Sobre aviões em geral, ou melhor, sobre aviõezinhos, há contudo alguma tradição no Porto - que radica a sua origem numa disputa por corridas daqueles aparelhos, patrocinada por uma reconhecida marca de bebidas energéticas.

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publicado às 17:46

A cultura sexy da integração europeia

por John Wolf, em 26.11.13

No auge do entusiasmo das Comunidades Europeias, os programadores culturais tudo fizeram para demonstrar a fraternidade dos povos. As televisões foram os canais privilegiados para mostrar as verdadeiras provas da alegria de uma Europa a caminho da abertura de fronteiras, do mercado comum e das políticas gizadas na grande capital comunitária. Finalmente Bruxelas passava a ter alguma utilidade, mesmo não tendo o carisma de outras metrópoles - o poder efectivo e o glamour de outras coutadas. O estudo cultural que aqui apresento pretende relembrar alguns dos pilares de sustentabilidade da aproximação dos povos do norte e do sul da Europa. O primeiro pilar que refiro é o Festival da Canção da Eurovisão, a festa-maravilha que, em nome da solidariedade e da igualdade de tratamento, lá foi dando prémios políticos a cantores de países necessitados de um abraço, uma palavra de estímulo para se aproximarem do norte trabalhador e inventor da excelência. Depois vem-me à memória mais um icone da baboseira lúdica - os Jogos sem Fronteiras. Uma espécie de instituto de integração dos desajeitados e trapalhões (Eládio Clímaco foi o terapeuta de serviço). Neste belo programa já se notava um certo tratamento discriminatório das equipas a concurso. Os países do norte mais hábeis e os do sul queimados pela vida airosa do mediterrâneo pontuavam quase sempre menos (mas eram muito esforçados). As diferenças entre as equipas mal formadas e as exemplares passavam em horário nobre como se nada fosse, para ajudar nessa lenta conversão à norma, ao modelo salutar de desenvolvimento e progresso - vocês são um atraso de vida, mas podem ser como nós. Foram belos tempos de ilusão televisiva apresentados em forma de cavalhadas e quedas na piscina de águas límpidas. Mas no clímax da excitação, do entretenimento televisivo, houve quem quisesse ir mais longe. Uns quantos especuladores precoces quiseram verter as suas considerações para um patamar ainda mais rebuscado, próximo da sexualidade que faz mover o homem na busca da perfeição estética ou laboral. Os alemães não quiseram deixar que a coisa descambasse por completo e resolveram demonstrar a sua aproximação aos estilos de vida do sul. O programa Tutti-Frutti tinha logo à partida todos os ingredientes para se tornar num sucesso de bilheteira, como se fosse um estímulo para combater o problema de envelhecimento que já se fazia sentir na Europa - ide e reproduzai-vos - foi o mote. Sim, podemos entender esta iniciativa como uma forma de miscigenação pré-Schengen - o desenvolvimento de relações íntimas entre os parceiros europeus. Os italianos, indignados pelo assalto alemão à libertinagem, pertença exclusiva dos sulistas, não foram de meias-medidas e avançaram com o seu formato de uma Europa ainda mais sexy. Quem não se recorda do famoso Colpo Grosso? O programa internacional, proposto pela direcção de informação da SIC, deixou a RTP a morder a poeira das cantigas do festival ou a chover no molhado daqueles joguinhos. Pois é. E eis que nos encontramos aqui sem concorrente à altura. Um programa que espelhe o grande entusiasmo, a esperança e a vibração que se fazem sentir no seio da União Europeia. 

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publicado às 10:37

A indústria da reclamação nortenha

por João Pinto Bastos, em 30.12.12

Paulo Rangel é indiscutivelmente um dos políticos mais argutos da imensa feira de vaidades que dá pelo nome de Partido Social Democrata. Sabe o que diz, quando deve dizer, e, ainda que em muitas ocasiões esteja em total desacordo com o que defende a propósito das mais variadas matérias, não deixo de lhe reconhecer uma capacidade de síntese e de raciocínio bastante acima da dos seus pares partidários. Vem isto a propósito da recente conclamação a respeito de um "15 de Setembro" para defender os interesses do Norte. Entendo a reclamação, compreendo até a ira e o agastamento, tenho, porém, mais dificuldades em aceitar o modo, o porquê, e, acima de tudo, as razões de tamanha indignação. Que o Norte tem sido sistematicamente preterido na agenda governativa é um facto, empiricamente observável, que nem mesmo o adversário mais empedernido do Portugal-é-bem-mais-do-que-a-magnífica-paisagem-lisboeta seria capaz de negar. Falta de recursos financeiros, ruína do tecido produtivo e desemprego massivo, são realidades insofismáveis que qualquer observador minimamente atento pode confirmar com um mero relance de olhos. Agora, outra coisa bem diferente é apelar a uma espécie de levantamento popular para reclamar pressupostos de acção assentes no estatismo centralizador tão do agrado das elitezinhas da "Lesboa" nefanda e anafada. O Norte não precisa da bênção subsidiocrática costumeira, necessita, isso sim, do liberalismo autonomista de antanho. Do espírito das liberdades liberais dos seus antepassados e do autonomismo idiossincrático das suas gentes. Coisas que, como é óbvio, arrepiam os "lesboetas" da treta. Rangel, melhor que ninguém, sabe bem que a indústria da reclamação baseada na pedinchice ao Leviatã esgotou-se. Mais, o eurodeputado, inteligente como é, tem a obrigação de saber que se o Norte quiser de facto progredir terá forçosamente de abrir a sua economia e de aproveitar o potencial exportador de uma economia há muito adormecida. Basta querer e desejar.

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publicado às 15:50






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