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Síndrome de Padeiro

por John Wolf, em 28.01.17

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Antes que me acusem de sofrer da síndrome de padeiro, fica o aviso. Sou um sociólogo empírico, artesanal. Faço colagens, mas delicio-me com o corte e a costura. Adoro bricolage e fascina-me o betão. Cá vai. O ovo ou a galinha? Qual deles? Vem isto a propósito do efeito de contágio (ou não) das obras de Medina na cabeça dos cidadãos da capital europeia das autárquicas. O enunciado é relativamente simples: será que a malha civilizadora do passeio largo, da via minguada e das ciclo-rotas irá alterar o quadro comportamental do utente? Prevejo, e já assisti a muita inauguração construtora em Portugal, que teremos a insistência crónica do estacionamento sobre a calçada farta ou a ciclovia, a extensão da prática de arremesso de dejecto canino e o graffitar de assinaturas de artista delinquente sobre a pedra que tanto bate que até se apura. E há mais. A obrite aguda, embora vá embelezar a urbe alfacinha, representa, no seu âmago, uma patologia política de difícil cura. A obsessão pelo hardware. Quanto ao software do formato mental dos urbano-residentes a história será outra. A alteração da mentalidade que conduz à estima cívica e ao sentido colectivo parece ficar para depois do aumento do PMN - o passeio mínimo nacional. O problema é que a correlação entre a obra e o comportamento cívico não foi pensada em sede alguma. O que domina e extravasa é outro vector. A alma-matéria parece ser o modo de pagar promessas e comprar eleitores. Em plena época de dúvidas existenciais e rumores de populismo, convém acalmar os ânimos daqueles que usam as ferramentas mais básicas. O apelo da intelectualidade primária, ou da filosofia de lancil, parece ser a nota dominante. Quero ver quem tira o peão do caminho do triciclo, ou enxota a marca global que irá decorar aquela praça neo-típica. Quem levantará os autos? Não há dúvida que fica tudo mais bonito e que valeu a pena o pó e o trânsito, mas o resto será mais do mesmo. Quero ver quem entrega o pão como deve ser.

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publicado às 12:00

 

A ética está ao alcance de todos. A Fundação Calouste Gulbenkian expõe para venda títulos de grande qualidade. Livros editados pela casa e a preços de saldo. Acabo de trazer para casa um dos tratados mais importantes sobre Ética do século passado. O livro - Principia Ethica de G.E. Moore (edição em língua Portuguesa, FCG. A edição original data de 1903, Cambridge University) -, pode ser seu por uns míseros 6 Euros. Aliás, na bancada que ostentava esta obra, outros títulos épicos estão à mão de semear. E não são livros quaisquer. São clássicos de Alexander Hamilton, Wittgenstein, Kant ou Platão. Um conjunto notável de textos que serviria para reescrever os postulados da política contemporânea. Princípios que parecem ter passado ao lado da inteligência governante...perdão, ignorante. Em plena época de privatizações, talvez não fosse má ideia os governantes "privatizarem" um pouco de saber em nome do seu crescimento pessoal, mas em última instância para melhor servir o interesse público. Mas parece que ambas as condições não são compatíveis. Diria até que um dos requisítos para a função governativa é não ter bagagem e viajar nesse firmamento de debilidade intelectual.

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publicado às 13:34






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