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Putin "deselege" Trump

por John Wolf, em 04.08.17

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Quase todos conhecem o adágio - a história não se repete, mas por vezes rima. No entanto, penso que não se aplica ao seguinte enunciado. Quando Reagan lançou a Strategic Defense Initiative em 1987 (SDI, conhecida por Guerra das Estrelas) não seria um objectivo premeditado pôr de joelhos economicamente a União Soviética, mas de facto a corrida ao armamento que se seguiu acabou por ditar a ruína do império soviético e a mudança de sistema e regime políticos. A administração Trump, que "alega" ingerência russa no processo eleitoral norte-americano, riposta aplicando sanções à Rússia de Putin, como se tal ferramenta de política externa pudesse de algum modo repôr os pratos da balança da justiça, castigar economicamente a Rússia e enfraquecê-la mortalmente. Enquanto essas ferroadas são administradas, o sistema judicial dos EUA avança com a investigação a eventuais fugas de informação classificada para o domínio e controlo de oficiais russos, assim como a averiguação dos contornos das reuniões havidas entre Trump Jr. e advogados russos em 2016. Tudo isto, combinado numa aura de grande suspeição e incerteza, levanta algumas questões do foro patriótico. Fala-se, nos corredores de Washington, a cada dia que passa, de indícios de traição e lesa a pátria. Putin, que havia sido nomeado como "mandatário" de Trump, estará a pensar duas vezes à luz da imprevisibilidade comportamental do presidente americano. Ou seja, se de facto mexeu cordelinhos para auxiliar a sua eleição, também o poderá fazer para que Trump seja removido. Em todo o caso, os próprios norte-americanos já começam a invocar o enquadramento constitucional da 25ª Emenda que estabelece o modo e as condições que levam à substituição do seu presidente. Sim, a coisa está feia. Ou pouco bonita - conforme as preferências ideológicas. Veremos então se Putin "deselege" Trump.

 

créditos fotográficos: CNBC

 

 

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publicado às 19:40

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Esta história das cativações faz-me lembrar um carro cujo proprietário deixa de o levar às revisões, de mudar o óleo e os filtros, e efectivamente, as poupanças saltam à vista, são uma verdadeira maravilha - até o motor gripar. O governo encontrou um nicho contabilístico interessante. As cativações não são peixe nem carne. Não correspondem à função de reordenamento financeiro das contas do Estado, nem sugerem uma orientação programática da economia de um país. Pura e simplesmente congelam os dinheiros. Mas há mais. Se olharmos com atenção para as dimensões contaminadas pelas cativações, registamos o item Planeamento e Infraestruturas como aquele que merece especial apreço da parte da geringonça. E isto não é por acaso. Sabemos de gingeira que o sector das obras públicas e da construção é aquele em que os socialistas se sentem mais em casa. São os amigos empreiteiros que levarão o prémio quando, face ao abandono da manutenção de estradas e pontes, edifícios e paióis, forem requeridas intervenções de vulto, investimentos com montantes consideráveis para desentornar o leite derramado. As cativações são como voos atrasados. O avião não descola do aeroporto, mas os passageiros sabem que mais cedo ou mais tarde, custe o que custar, lá surgirá uma solução bem mais onerosa do que a inicialmente prevista. A Mariana Mortágua e o Jerónimo de Sousa sabem como isto funciona, mas continuam a conceder crédito ao patrão, ao mau pagador de promessas. E sabemos que este leasing político implica uma taxa de confiança que não corresponde às receitas económicas e sociais tão amplamente apregoadas para matar de vez a Austeridade. António Costa é felino e rato ao mesmo tempo.

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publicado às 14:32

Sucedâneos de demissões

por John Wolf, em 09.07.17

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O povo (e a oposição) gritava por sangue e (demissões) por causa das mortes resultantes dos incêndios de Pedrógão Grande e do assalto aos paióis de Tancos, mas o governo não respondeu à letra. Nem a ministra da administração interna nem o ministro da defesa arredaram pé. A geringonça, chica-esperta, desde a primeira hora do seu governo, vai encontrando modos de dissimular as contradições e distrair do essencial. Ao oferecer este peixe-miúdo, estes três secretários de Estado para abate de funções, pensa enganar um país inteiro com sucedâneos de demissões que deveriam naturalmente e inequivocamente acontecer. Colocar na faixa ética as viagens à pala para acompanhar a selecção nacional de futebol e não colocar a tragédia de Pedrógão e o assalto a Tancos revela o miserabilismo moral e a  total falta de escrúpulos dos actuais governantes. Mas existe ainda uma outra hipótese. Pode ser que os secretários de Estado Rocha Andrade, Costa Oliveira e João Vasconcelos saibam que vai haver chatice da grossa e que mais vale saltar do barco antes deste afundar. Parece-me muito estranho que este dossiê caia assim de paraquedas como se para calar a oposição e os detractores do governo. Deste modo a geringonça pode dizer, se perguntarem, que também sabe demitir ou exonerar, cortar ou cativar. Enfim, parecem tão certinhos e eticamente movidos, mas isto não passa de show de bola. Lamentável.

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publicado às 19:56

Peido suicida

por John Wolf, em 28.06.17

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São precisamente temas de pasquim como a declaração suicida de Passos Coelho ou a flatulência de Sobral que determinarão o próximo incêndio em Portugal. O povo aprecia o circo, e dispensa a essência basilar de um sistema. Rir à conta da palermice e da mediocridade afasta o ser pensante dos grandes desígnios do país. Ser profundo e consequente custa. E, in spite of it all, não se chega a bom porto com festas de auto-comiseração, espectáculos narcisistas e verberações masturbatórias. Sentar-se à mesa como adultos e encarar a música desafinada não é para qualquer um. Ao validarem a ideia de absolvição dos pecados, numa congregação de "manifesta e inequívoca solidariedade", adiam o trabalho duro, sujo. São momentos de pico como este, de libertação orgásmica, de hibridismo transformador da "dor dos outros" em esperança para "todos", que eternizam a noção de ascensão e queda, fulgor e inconsequência. Por mais que estiquem os zeros do milhão, os mesmos não tapam a parte descoberta de um país inteiro versado nas artes hedonistas, nos prazeres. Foram os deleites que mataram as florestas. Foram as extravagâncias de uns que abandonaram o interior. Foram os cosmopolitas vibrantes que deitaram fogo à ruralidade em nome da sofisticação cintilante de uma festa de arromba. A silly season está oficialmente aberta.

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publicado às 12:51

Trump, of Mice and Men...

por John Wolf, em 17.05.17

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Como nacional dos Estados Unidos, natural de Espanha e residente em Portugal, o que acontece, e onde quer que aconteça, interessa-me. O desfiar da presidência Trump é um facto irrefutável. O que está a suceder na América já não tem a ver com ingerências russas ou teorias da conspiração. Os republicanos da ala do próprio presidente começam a sentir os efeitos da intoxicação, e porventura terão entrado numa fase de damage control. No filme Of Mice and Men, há uma passagem emblemática, senão sagrada - não são estranhos que devem abater um cão que não lhes pertence. De acordo com uma lógica prospectiva de novo ciclo político, quiçá resultante de um impeachment, os republicanos têm mais a ganhar se desferirem a estocada final, se fizerem o reset. O que está em jogo é a credibilidade de um dos dois partidos que desenha a paisagem política dos EUA. Se forem os outros a algemar Trump, o futuro dos republicanos será posto em causa. Serão tidos como responsáveis - a montante e a jusante. Se o processo destitutivo cai nas mãos da oposição, co-adjuvada por forças exógenas, o partido republicano coloca em risco candidatos futuros. Registamos a tomada de consciência de uma certa irreversibildade dos prejuízos causados. Limpar os males que já foram feitos parece-me uma missão impossível. Trump está marcado, marcou-se. Não sei se aguenta.

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publicado às 16:57

O terrorismo doméstico de Barcelos

por John Wolf, em 26.03.17

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Começo pelo caso de violência doméstica que envolveu Donald Trump. Foram parentes próximos do seu Partido Republicano que lhe deram umas valentes castanhadas. Não foram estranhos. Foram "militantes" que, em nome de outras crenças, abandonaram o "camarada" naquela hora díficil de revogação do Obamacare. Não seria interessante, em nome de Abril, da democracia e das balelas de liberdade de expressão que por aqui grassam, que uns quantos socialistas virassem o prego às intenções da Geringonça? Não seria democrático e vibrante? No entanto, temos exemplos bicudos de dissonância partidária neste país. Penso em Campelo, penso no queijo Limiano e penso no triste desfecho dessa ocorrência - nos saneamentos e exclusões. Enfim, fico-me por aqui. Acho que conseguem pintar o resto do quadro. Não preciso de acrescentar grande coisa ao estado da arte partidária em Portugal. O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português têm superado as minhas expectativas - são frouxos, fracos. Deixaram-se levar e fingem a discordância para primeira página de matutino - mais nada. Mas adiante, passemos ao berbicacho seguinte. A violência doméstica em barda, que Portugal oferece aos jornais da TVI e CMTV, prova o seguinte; quem não tem cão, caça com gato. Os americanos, que são os campeões da venda retalhista de pistolas Colt e espingardas Winchester, não são tidos nem achados nestas histórias. Em Barcelos e Ovar bastou a faca. Nem foi preciso o alguidar. Em Barcelos foi uma coisa de brio, Briote, de seu nome. Em Ovar, foi algo esmerado, foi em Esmoriz. Pelos vistos não são necessários refugiados sírios nem fundamentalistas islâmicos para dar conta do recado - decapitar, degolar. As celúlas de violência doméstica abundam em Portugal ao ponto de se poder designar o flagelo de terrorismo doméstico. Os políticos de brandos costumes e as assistentes sociais que apregoam a reintegração social dos infractores com cadastro firmado são sempre os derradeiros responsáveis - não têm culpa das bofetadas. De nada servem as desculpas dos problemas de bebida, e da miséria económica e social dos agressores, para justificar a clemência e o encosto judicial incipiente. Assistimos a uma guerra civil com contornos preocupantes. Tinham sido os socialistas, quando estavam na oposição, que apontavam o dedo ao PAF como responsável pelo descalabro moral do país. Pois bem, agora que é tudo um mar de rosas de recuperação económica, melhoria nos níveis de desemprego, défices que já dobraram a fasquia dos 2,1%, nada disto deveria acontecer -  a paz deveria ser plena e inequívoca. Contudo, o guião de instabilidade emocional continua a prevalecer. O português suave continua a ser aquela história da carochinha. O assassino, que era pacato e boa pessoa lá no café da aldeia, vai à praia dar umas passas inofensivas e depois enterra a beata no areal.

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publicado às 12:16

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Vou servir-me da Catarina Martins do Bloco de Esquerda, como me poderia servir de outro exemplo do Partido Socialista ou ainda de um macróbio de um partido conservador. Mas fiquemo-nos pela piquena. Devemos reconhecer que a bloquista teve uma ascensão fulgurante. Com ou sem tilt de um Rosas ou de um Louçã, com ou sem a sacudidela do peso-pluma Drago (xô! chega para lá!), a verdade é que Martins transformou o berreiro em imagem de marca. Mas convém irmos mais longe. Se estivesse na política, a primeira coisa que eu buscava seria tentar organizar as ideias e proceder a uma compilação orgânica de escritos políticos. Ou seja, tentava transformar tiradas de ocasião num corpo político consistente, num volume sumário orientador da acção. Enfim, não se conhece nada de Catarina Martins que se assemelhe a um tomo intelectualmente válido. Simplesmente, a menina não tem vida própria. Deve ter lido umas coisas, mas não tem talento nem arte nem inteligência para se colocar do lado da doutrina, dos criadores. Por essa razão, apenas se pode alimentar das migalhas dos outros. Não passa de um reagente. Um teste de acidez que passa a vida medir a alcalinidade de vida política alheira - para encher chouriços. Mas nem por isso deixa de ser perigosa. A linha de influência que deve exercer sobre a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova deve ser notável - condiciona e censura. Como democrata que sou, gostaria de vê-la digladiar-se em ambiente académico, na arena que a grande política merece. Apreciaria vê-la esgrimir-se com argumentos sagazes e axiomas de difícil derrube. No entanto, a sua acção limita-se ao foro emocional da política, ao apelo primário que opõe taxativamente o rico ao pobre, o opressor ao sujeito da exploração. Para todos os efeitos semânticos operativos e ideológicos, a Catarina Martins não passa de uma populista-caviar. Escolhe a dedo com quem quer ter uma discussão, mas depois não tem bagagem para se aguentar como um homem, ou uma mulher.

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publicado às 19:05

São os referendos bons para a democracia?

por Samuel de Paiva Pires, em 26.02.17

AC Grayling, "Are referendums good for democracy?":

If you live in a small ancient Greek city with restrictions on who can take part in the political process, referendums are pretty well your only governmental decision-making resource.

But if you live in a populous, diverse and complex society, you do far better to avoid referendums, and instead to devise a representative democracy in which people are elected to act on the populace’s behalf by getting information, deliberating, discussing, listening to different points of view, making sober judgments, and acting on them wisely. If the representatives succeed in this, their electors might keep them in post. If they do not, their electors can throw them out.

There are two great advantages of the representative system. When combined with all the shortcomings of referendums, they show why the vote on 23rd June 2016 was such a farce. Regrettably, with MPs having voted in favour of triggering Article 50 on Wednesday night, the result is now very likely indeed to be acted upon.

The first such advantage is that the representative system allows the rest of us to get on with our lives, jobs and families without having to think about the minutiae of such things as legislation on health and safety in the gas industry, or amendments to §5(c)(ii) paragraph eight of the Heathlands and Waterways (Protected Fowl) Act of 1953. Much in the business of legislating involves equal quantities of boredom and expertise, each a great barrier to agora-style approaches to democracy, and they are peculiarly unfitted for them therefore.

The other advantage is that representative democracy is indirect democracy. The ignorance, self-interest, short-termism, emotion, prejudice and occasional knuckle-headedness of which almost all of us are capable are—or in the ideal should be—filtered out by the institutions and procedures of representative democracy, which are designed specifically for that purpose, and which accordingly allow mature intelligence to be focused on the business of government. Party politics interferes with this desirable arrangement, of course, and the result is not only that partisan interests and knuckle-headedness too often fail to get filtered out, but the very institutions and practices that exist to minimise such failure can be manipulated. But the system works often enough, at least for less contentious matters, and that is a good thing.

Referendums are in general inconsistent with this process. They bypass the institutions and procedures designed to optimise decision-making, and go straight for the opposite, posing a simplified question inviting a yes-no answer to a body of people among whom very few have given the matter much thought, or thought anything like informed and dispassionately enough. In handing decision-making over to a referendum, politicians thereby abdicate responsibility, and there is little guarantee that the outcome will be the most considered possible alternative.

 

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publicado às 12:56

Portugal na Monocle

por Samuel de Paiva Pires, em 23.02.17

A edição mais recente da Monocle inclui um relatório de 64 páginas dedicado a Portugal que aborda temas como o ambiente de negócios, o sector do turismo, a gastronomia, as livrarias, a indústria do vinho, entre outros. Não digam nada é aos ultra-pessimistas crónicos cá do burgo que julgam viver num país subdesenvolvido.

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publicado às 11:06

Sobre o futuro da ideia de inteligência

por Samuel de Paiva Pires, em 21.02.17

Stephen Cave, "Intelligence: a history":

So when we reflect upon how the idea of intelligence has been used to justify privilege and domination throughout more than 2,000 years of history, is it any wonder that the imminent prospect of super-smart robots fills us with dread?

 

From 2001: A Space Odyssey to the Terminator films, writers have fantasised about machines rising up against us. Now we can see why. If we’re used to believing that the top spots in society should go to the brainiest, then of course we should expect to be made redundant by bigger-brained robots and sent to the bottom of the heap. If we’ve absorbed the idea that the more intelligent can colonise the less intelligent as of right, then it’s natural that we’d fear enslavement by our super-smart creations. If we justify our own positions of power and prosperity by virtue of our intellect, it’s understandable that we see superior AI as an existential threat.


(...).

 

We would do better to worry about what humans might do with AI, rather than what it might do by itself. We humans are far more likely to deploy intelligent systems against each other, or to become over-reliant on them. As in the fable of the sorcerer’s apprentice, if AIs do cause harm, it’s more likely to be because we give them well-meaning but ill-thought-through goals – not because they wish to conquer us. Natural stupidity, rather than artificial intelligence, remains the greatest risk.

 

It’s interesting to speculate about how we’d view the rise of AI if we had a different view of intelligence. Plato believed that philosophers would need to be cajoled into becoming kings, since they naturally prefer contemplation to mastery over men. Other traditions, especially those from the East, see the intelligent person as one who scorns the trappings of power as mere vanity, and who removes him or herself from the trivialities and tribulations of quotidian affairs.

 

Imagine if such views were widespread: if we all thought that the most intelligent people were not those who claimed the right to rule, but those who went to meditate in remote places, to free themselves of worldly desires; or if the cleverest of all were those who returned to spread peace and enlightenment. Would we still fear robots smarter than ourselves?

 

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publicado às 15:12

Diz que o islão é uma religião de paz

por Samuel de Paiva Pires, em 15.02.17

O Papa Francisco afirmou há dias que o Corão é um livro de paz e que o islão não é uma religião violenta. Entretanto, na Indonésia, o cristão governador de Jakarta que vai hoje a eleições enfrenta a fúria dos que querem vê-lo condenado em tribunal por blasfémia, ou seja, por alegadamente ter insultado o islão, apesar de 88% dos indonésios admitirem que não sabem ao certo o que Basuki Purnama Tjahaja terá dito.

 

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publicado às 09:37

O tempo das indignações fugazes e das certezas absolutas

por Samuel de Paiva Pires, em 10.02.17

Na era da informação, em que temos à distância de alguns cliques todo o tipo de conteúdos sobre toda e qualquer temática, em que qualquer um pode comentar tudo e mais alguma coisa sempre que o deseje através dos mais diversos aparelhos tecnológicos e utilizando as mais variadas plataformas comunicacionais, como as redes sociais e os blogs, não deixa de ser particularmente penoso constatar que a ignorância, o dogmatismo e o fanatismo parecem também ser potenciados pelos meios que temos ao nosso alcance.


Com efeito, não é novidade para ninguém que as redes sociais vivem, em larga medida, das indignações fugazes. Há dois meses era a indignação de certa esquerda com Ricardo Araújo Pereira, há umas semanas era a indignação com um dos sócios da Padaria Portuguesa e, por ora, não me ocorrem outras indignações recentes, pelo simples facto de que são tão fugazes e, muitas vezes, tão patetas, que mal ficam na memória. Pelo meio, na forma, as indignações são sempre iguais: surgem rapidamente como reacção às declarações de alguém, têm um efeito viral nas redes sociais e geram barricadas que se digladiam furiosamente até, de repente, deixarem de o fazer – ou porque o assunto se esgotou, ou porque surgiu outra indignação ou qualquer outro evento mediático que capta a atenção da esmagadora maioria dos indignados.


O dogmatismo é marca quase sempre presença nestas indignações, mas não é exclusivo dos constantemente indignados. Parece haver, entre muitos dos mais diversos intervenientes nos espaços públicos e políticos das sociedades demo-liberais, desde os mais aos menos esclarecidos, um dogmatismo que seria de esperar que os desenvolvimentos tecnológicos atenuassem, mas que acabam também por potenciar, talvez porque grande parte dos indivíduos viva em câmaras de eco, espaços em que determinadas ideias circulam, são reforçadas e não são questionadas e em que ideias divergentes são suprimidas, o que acaba por contribuir para a criação e/ou reforço de trincheiras político-ideológicas.


Não deixa de ser irónico que, sendo a filosofia moderna (e o ambiente intelectual contemporâneo) permeada pela dúvida cartesiana e pela impossibilidade de ter certezas, e quando tanto se fala em “pós-verdade” e “factos alternativos”, tantos pareçam ter tantas certezas absolutas sobre tudo e mais alguma coisa. De onde estas certezas vêm, pouco parece importar. Alguns socorrem-se da religião, outros da ideologia e outros ainda da realidade - como se pudessem ter contactos imediatos com “a realidade” e a pudessem avaliar objectivamente e sem referência ao enquadramento cultural que lhes fornece as ferramentas para a interpretar.


Naturalmente, isto faz com que o ambiente social e político se torne exasperante, sendo essencialmente uma arena em que os mais diversos grupos se confrontam sem que haja grande esperança de poderem ter uma discussão racional, sendo o debate político e moral reduzido a um confronto de vontades.


Provavelmente, pouco ou nada haverá a fazer quanto a este ambiente. Mas permitam-me terminar com uma nota de esperança, relembrando uma célebre passagem do ensaio “Philosophy and Politics” de Bertrand Russell:

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The genuine Liberal does not say ‘this is true’, he says ‘I am inclined to think that under present circumstances this opinion is probably the best’. And it is only in this limited and undogmatic sense that he will advocate democracy.
What has theoretical philosophy to say that is relevant to the validity or otherwise of the Liberal outlook?
The essence of the Liberal outlook lies not in what opinions are held, but in how they are held: instead of being held dogmatically, they are held tentatively, and with a consciousness that new evidence may at any moment lead to their abandonment. This is the way in which opinions are held in science, as opposed to the way in which they are held in theology.

 

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publicado às 00:52

Da ciência do governo

por Samuel de Paiva Pires, em 09.02.17

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 Edmund Burke, Select Works of Edmund Burke, vol. 2 (Indianapolis: Liberty Fund, 1999), 153 (tradução minha):

Sendo a ciência do governo, portanto, tão prática em si mesma, e destinada a tais propósitos práticos, uma matéria que requer experiência, e ainda mais experiência do que uma pessoa pode adquirir em toda a sua vida, por mais sagaz e observador que possa ser, é com infinita cautela que qualquer homem deve aventurar-se a demolir um edifício que tenha respondido em qualquer grau tolerável, durante épocas, aos propósitos comuns da sociedade, ou a reconstruí-lo novamente sem ter modelos e padrões de utilidade aprovados perante os seus olhos.

 

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publicado às 21:09

Trump, Pilger and Meet the Press

por John Wolf, em 23.01.17

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As CNN e New York Times deste mundo já não ocupam o palco central das conferências de imprensa organizadas pela presidência Trump. Os últimos da fila com a senha na mão passaram a liderar o processo jornalístico. A Fox News e  o The New York Post são agora as estrelas da companhia. Os lugares cativos de certos opinion makers estão a ser redistribuídos. Hoje o Expresso e o Diário de Notícias, amanhã as Linhas da Beira ou as Notícias da Terra. Temos assitido ao pasmo e ao queixo caído de muito jornalista internacional, ou desta aldeia, que ainda não perceberam a revolução sistémica em curso. O excêntrico Donald, há poucas semanas não fazia parte do clube, mas agora ele é o country club - tem os tacos na mão. Os comentadores, aqui e acolá, ainda acreditam no regresso à convenção, à normalidade. Mas estão enganados. As regras do jogo são outras. No entanto, e em abono do karma jornalístico, foram décadas de preferências e versões coloridas que nos conduziram a este estado de arte, a esta vendetta. Foram muito poucos aqueles que ousaram partir a loiça. Retenho alguns na memória e poucos no presente. Penso no jornalista e investigador John Pilger, e na reedição da sua obra  - The New Rulers of the World -, que pensava eu, por ter Chomsky na badana, ser um hino às virtudes de um campo ideológico em detrimento de outro, mas estava enganado. O homem distribui chapada a torto e a direito, à esquerda, em cima e em baixo. São relatores deste calibre os únicos com argumentos para confrontar Trump, ou seja quem for, em nome do processo democrático. Em vez disso, vemos microfones vendidos a simular entrevistas a presidentes da república, colunistas ao melhor preço de mercado, e a verdade dos factos a escoar por um cano de minudências e chatices. Ainda não entenderam que a tendência da política é hardcore, XXX? Enquanto os jornalistas andam aos papéis para ver se saem bem na fotografia e eternizam os favores, os danos são prolongados. E muito por sua culpa. Trump está a fazer tremer mais do que mera gelatina de cobertura mediática. O epicentro pode ter sido lá, do outro lado do Atlântico, mas aqui, seja qual for a jornada parlamentar, cheira mal e há tempo demais. As conivências políticas e os encostos de ombro de determinados jornalistas são flagrantes - as primeiras páginas parecem ser agora as derradeiras. Vai rolar muita tinta e algo mais.

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publicado às 20:19

Marcelo, déficit emocional e populismo

por John Wolf, em 09.01.17

 

 

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Em plenos dias de emoções à flor da pele, afectos e vazios, parece-me apropriado pensarmos o caso Marcelo Rebelo de Sousa de um modo mais expressivo. O presidente da República Portuguesa parece padecer de uma espécie de déficit emocional. Apenas deste modo se explica a sua incessante necessidade de ser amado a torto e a direito, de norte a sul pelos ares de gente e as gentes dos mares. O seu estado roça a condição psicótica e acarreta sérias consequências para o serviço político que se espera de um chefe de Estado. Por seu turno, o comportamento obsessivo-compulsivo do sujeito não vive a solo. É uma nação inteira falha de afectos que leva em ombros este estado de transe. São os recepientes dos abraços também responsáveis pelos fundamentos desta premissa psico-emocional registada em forma de beijos e selfies. Embora Marcelo possa parecer neutralizar polaridades, ao integrar a gama completa de sabores ideológicos, em abono da objectividade, a sua acção preenche os requisitos da construção populista. E é esse o perigo da sua toada de normalização - empresta a aura benigna, pacífica. Aos poucos, Marcelo vai-se desprovendo de espinha dorsal, vai perdendo o respeito político de actores de todos os quadrantes. A dada altura do realismo pragmático que o ultrapassará, o presidente terá de tomar a posição incómoda e inequívoca. Numa fase madura e de dor governativa, Marcelo terá de trair o guião de consensos e entendimentos que escreve. E Marcelo terá de virar a casaca se pretende sobreviver e alimentar a ideia de crédito institucional e presidencial. Marcelo procura em vida aquilo que Soares está a receber nesta sua hora. A mais alta homenagem, a tábua rasa de considerações supletivas, positivas. Para se ser amado em política não se pode amar desalmadamente. Lidamos, para todos os efeitos práticos e questionáveis, com um caso maníaco.

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publicado às 09:43

Itália e os grilos europeus

por John Wolf, em 05.12.16

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A União Europeia (UE) não é uma união, mas a Europa é uma democracia. Os Estados-membro de uma e de outra exprimem a sua vontade política de um modo assimétrico. Julgavam todos que a Áustria iria pender para um lado, mas inclinou-se para outro. Matteo Renzi, porventura inspirado por David Cameron, apostou o tudo ou nada no referendo e o resultado está à vista. A Itália e o Reino Unido, um continental e o outro nem por isso, rasgam o manto do projecto europeu, colocando à vista de todos as frágeis costuras de uma construção cada vez mais duvidosa. Estamos cada vez mais à mercê de um fenómeno imprevisível de desmontagem de um sistema político. Se existia uma alma mater na génese da Comunidade Económica do Carvão e Aço, ou espiritualidade nas propostas de Schuman e Monnet, as mesmas são agora meros fantasmas. Resta saber se não terá chegado o momento da UE pensar uma saída limpa. Uma saída da sua própria condição. Enquanto decorrem processos eleitorais parcelares no espaço intra-comunitário, as instituições da UE tardam em pensar uma iniciativa estruturante, um modo de calibrar o pensamento dos europeus em relação ao seu futuro. Por outro lado, a Itália pode bem ser o melhor exemplo da patologia crónica que assola a Europa - para quê mudar? O grande deficit a que assistimos nos processos eleitorais já decorridos e naqueles que se avizinham, tem a ver, na minha opinião, na não inclusão de um clausulado de responsabilidade no que diz respeito à integração europeia. Ou seja, cada qual lida com a sua casa do modo que melhor entende, mas o edifício, o condomínio de interesses comuns da União Europeia, fica para depois. Ou seja, a cada expressão de individualidade democrática dos Estados-membro da UE, a mesma enfraquece. É esta contradição que faz a UE enfermar de problemas genéticos enquanto exulta continuamente as virtudes da liberdade política e reclama a alegada superioridade moral da Europa. No entanto, a sua tradição política é precisamente essa. Assenta na ideia de movimento epicêntrico, baseia-se na ideia de que as fissuras nunca abalarão os princípios subjacentes. A UE também sofre de um problema de linguagem. Estes fenómenos não são excêntricos nem atípicos.  Passam-se dentro de portas. E os personagens que fazem os enredos não são de todo estranhos. São produtos internos. Brutos ou nem por isso.

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publicado às 09:38

Vivam, os Castro!

por John Wolf, em 26.11.16

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Dois irmãos Castro que merecem homenagem.

 

 

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publicado às 17:46

Medina Led

por John Wolf, em 18.11.16

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Fernando Medina vai duplicar o orçamento da iluminação de Natal da Câmara Municipal de Lisboa. Afinal estamos quase a ir a eleições. E a crise acabou. Os Led são uma espécie de Web Summit das velas. Acendem-se e depois apagam-se, mas não deixam rasto que se veja. Dizem os electricistas que a luz ficará em níveis pré-crise, ou seja, depois virá um clarão. Apagão.

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publicado às 10:24

Servimos, percebes

por John Wolf, em 26.09.16

 

 

 

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publicado às 17:08

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por John Wolf, em 26.09.16

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