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Trump é um péssimo negociador

por Samuel de Paiva Pires, em 06.08.17

É o que fica patente na análise de David A. Graham a duas chamadas telefónicas de Trump, uma com o presidente do México, Enrique Peña Nieto, e outra com Malcom Turnbull, Primeiro-Ministro australiano. Graham conclui assim o seu artigo na The Atlantic:

Two countries, two leaders, two approaches—yet both succeeded, for different reasons. The calls with Malcolm Turnbull and Enrique Peña Nieto are not only a valuable document of how diplomacy works; they would also set a pattern. Time and again, foreign leaders have found that Trump is hardly the hardened negotiator he claims, but is instead a pushover. If they can get into a one-on-one conversation with Trump, they can usually convince him to come around to their position. If that was true on paying for the wall and taking refugees, it stands to reason it would be true for lesser Trump priorities, too.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 18:34

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Aaron David Miller e Richard Sokolsky, "Trump is a Bad Negotiator":

Granted, international diplomacy is a lot tougher than cutting real estate deals in New York, and there’s still a lot of time left on the presidential clock to make Trump great again. But half a year into the Trump era, there’s little evidence of Donald Trump, master negotiator. Quite the opposite, in fact: In several very important areas and with some very important partners, Trump seems to be getting the short end of the proverbial stick. The president who was going to put America first and outmaneuver allies and adversaries alike seems to be getting outsmarted by both at every turn, while the United States gets nothing.

(...).

Let’s start with the president’s recent encounters with the president of Russia, a man who admittedly has confounded his fellow world leaders for nearly two decades. Apparently without any reciprocal concessions, the world’s greatest negotiator bought into Russia’s plan for Syria, where U.S. and Russian goals are in conflict; ended America’s covert program of support for the moderate Syrian opposition, then confirmed its highly classified existence on Twitter; and had an ostentatious one-on-one meeting with the Kremlin strongman at the G-20 dinner, sticking a finger in the eye of some of America’s closest allies. It’s bad enough to give Putin the global spotlight he craves while accepting Russia’s seriously flawed vision for Syria. But to do so without getting anything in return gives “the art of the deal” a whole new meaning. Trump’s failure to hold Putin accountable for Russian interference in the presidential election is the most egregious example of putting Russia’s interests first and America’s interests last, but it’s hardly the whole of the matter. There’s no other way to put it: Trump has become Putin’s poodle. If it weren’t for Congress, public opinion and the media, Trump would be giving away more of the farm on sanctions, Russian aggression in Ukraine and other issues that divide the United States and Russia. That’s not winning; it’s losing.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 14:29

Rex-T e o Embaixador Sherman

por John Wolf, em 02.02.17

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Vamos todos sentir saudades do embaixador Robert Sherman. Ao longo da história da representação diplomática dos EUA em Portugal, nunca tinha havido um chefe de missão tão próximo da cultura local. Ele era Selecção Nacional, ele era passeio de Motards a Évora, ele era embaixador para portuguesa e português sentirem de perto e apertarem a mão. Os fregueses, expostos a esse conforto, até se esqueceram de Carlucci e da mão invisível de Soares a negociar saídas ideológicas. Com a dança de cadeiras em curso na administração americana, a ver vamos quem "Rex-T"- Rex Tillerson (não confundir com T-Rex) amanha para o posto lisboeta. Embora a base dos Açores tenha já sido mungida e agora libertada de encargos maiores, prevejo uma guia de marcha que aponta para a inversão do sentido, o recrudescimento da sua vitalidade à luz da sua imprescindibilidade. Os pauletas até agradecem. A economia local também agradece. Uma eventual reactivação efectiva dessa base militar de importância geométrica variável acarreta, no essencial, consequências que escapam ao controlo de Portugal. Torna a Lusitânia aliada efectiva da doutrina Trump que se estende a novas polaridades de fricção como o Mar do Sul da China ou a Austrália. A ver vamos, quando as coisas aquecerem, e for nomeado um embaixador à medida de Trump, como os parceiros do BE e PCP irão coçar as orelhas quando o PS baixar as calças e deixar passar a banda da NATO. Estimo que uma frota de F16 de geração duvidosa esteja a caminho de Portugal para, volvido pouco tempo, no desfecho de nova bancarrota, ser remetida para amigos romenos que a leva ao desbarato. A ver vamos quem metem na embaixada dos EUA em Lisboa. Um cowboy da meia-noite? Acabaram-se os videos de incentivo. Agora cada um está por sua conta.

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publicado às 20:07

O Brexit ganha o Euro 2016

por John Wolf, em 20.06.16

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Não tenho os dotes culinários de Fernando Santos. Nem sei cozinhar resultados. Por isso não me aventuro na casa de "abostas" do vai ou fica. Refiro-me ao Brexit, naturalmente. Nos últimos meses temos sido contaminados com inquéritos e mais inquéritos de opinião, com o esgrimir de argumentos nacionalistas ou europeístas, com a exposição dos males e benefícios do rompimento britânico ou com revisitação da história europeia e as virtudes da paz Kantiana. Tudo isto, e muito mais, tem contribuído para o não esclarecimento da questão. E faz sentido que assim seja. A identidade da Europa é essa mesma. O continente sempre foi um palco de tensões, de dissidências e aparentes entendimentos. Ou seja, quer adoptemos uma visão Hobbesiana ou Hobsbawmiana, seremos invariavelmente servidos pelo magistério cultural que reforça uma certa visão determinista. Em última instância, não existe um evento singular capaz de descarrilar a "civilização" europeia da sua tendência para sobreviver à sua própria condição. E esse estado crónico extravasa os parâmetros construtivistas da Comunidade Europeia, dos Tratados Europeus e da União Europeia. Os britânicos, que sempre foram talentosos na defesa do seu interesse nacional, souberam alimentar a falange independentista promovida pelo Brexit. O elencar dos perigos resultantes da saída não são equiparáveis às contingências de uma permanência. Nem devem ser relacionados. A separação de correntes políticas e económicas, a permanência ou a saída, são no meu entender, uma falsa dicotomia. Os britânicos, ao longo das últimas décadas de pertença à União Europeia, demonstraram que é possível estar dentro sem efectivamente estar. E se nos servirmos da mesma bitola de posicionamento estratégico, serão igualmente hábeis a se imiscuirem na condução dos trabalhos da Comissão Europeia e outras instituições, estando fora da estrutura, a 20 milhas do continente europeu. Por outras palavras, a condição britânica é incontornável. Os britânicos não vão a parte alguma. O Brexit até pode vencer o Euro 2016.

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publicado às 10:38

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Há qualquer coisa que não bate certo neste guião. A Grécia vive dias muito difíceis. Tem a corda na garganta. Prometeu libertar o seu povo da Austeridade imposta pela Alemanha e chora desalmadamente porque não tem como pagar as contas. Mas isso não a inibe de negociar a compra de sistemas de mísseis à Rússia. Tsipras confirma os nossos piores receios. Não é um libertador da Europa periférica. É um perigoso apostador que arrisca lançar a Europa na maior das imprevisibilidades. A Grécia está à espera de um ataque turco? De uma investida de Panzers alemães? A União Europeia procura salvar a face, mas estes eventos exigem uma tomada de posição intransigente. Será o povo grego que em última instância pagará a factura, mas repartirá a mesma pelos restantes europeus. A política de casino, bluff, e o cinismo de Tsipras terão certamente os seus dias contados. O problema, no entanto, serão os danos colaterais deixados ao abandono. A poesia lírica do Syriza, que serviu para encantar as Esquerdas da Europa, está a ceder o seu lugar a algo intensamente explosivo. Há limites que devem ser respeitados por aqueles que afirmam pertencer à grande família europeia. O mais irónico deste enredo é que serão os Estados-membros da União Europeia a financiar a compra do sistema de mísseis à Rússia. Tsipras faz lembrar outros chicos-esperto de praças conhecidas. Se deixarem, pegará nos dinheiros de "salvamento" para comprar brinquedos para fazer a sua guerra. Não se esqueçam, Tsipras é um produto europeu. Certificado democraticamente, eleito por cidadãos no seu perfeito juízo. Dêem dinheiro ao Varoufakis e Tsipras. E depois não se queixem quando o mesmo se extraviar.

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publicado às 18:33

F16 ou o Euromilhões?

por John Wolf, em 31.10.14

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Não nos devemos esquecer quais são as fronteiras geopolíticas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN-NATO), e, nessa medida, relembrar que Portugal assinou o tratado constituinte da organização a 3 de Abril de 1949, sendo desse modo, um dos países fundadores da organização. A Rússia não nem nada a favor ou contra Portugal. Acontece que, a haver uma "porta" mais vulnerável à entrada de estranhos no "território" NATO, essa porta Ocidental pode muito bem ser Portugal. Enquanto os analistas e estrategas apontam o radar à centralidade euroasiática, a Rússia demonstra que um "assalto" é possível a partir de quadrantes distintos, de outras latitudes. Aqueles que sempre se manifestaram contra o investimento nas Forças Armadas Portuguesas e a aquisição de uma esquadra de F-16, parecem ter caído num silêncio incómodo, mas, efectivamente fica demonstrada a utilidade dos caças, na defesa do espaço nacional, mas também num quadro de apoio recíproco que a NATO convencionou entre os seus membros. Não chegamos ao patamar que implique o invocar do Artº 5 do tratado, contudo, os primeiros mecanismos de resposta parecem estar a funcionar com a agilidade de comando e controlo que incidentes desta natureza exigem. O principal desafio que se apresenta na interpretação dos mais recentes acontecimentos, prende-se com a provável escalada das provocações e a resposta que terá de ser produzida numa ordem proporcional e dissuasora. O facto do espaço aéreo nacional ter sido violado pela força aérea russa, não pode ser menosprezado, subestimado. O ministro dos negócios estrangeiros Rui Machete não pode ser o porta-voz de um falso sentimento de acomodamento. Na estrutura organizacional da NATO, e atendendo a um quadro geopolítico muito mais amplo, existem considerações maiores - patentes mais elevadas, perigos consideráveis. O destino de um país não pode resultar de um acaso, de uma tômbola de azares e fortunas em política externa. Sorte ou falta dela.

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publicado às 19:26

O império da União Europeia

por John Wolf, em 16.09.14

A matriz cultural europeia assume, de um modo irrefutável, que ocupa um papel de relevo em termos civilizacionais. Ao longo dos séculos, e em particular, a partir das correntes de Iluminismo que se verteram em Inglaterra, na França e na Alemanha, foi-se aceitando com naturalidade a ideia de superioridade moral, de desígnio quase teológico da Europa. E essa ideia, expansionista e conquistadora, consubstanciou-se, por exemplo, quer no império napeolónico quer na expressão ultramarina do império britânico. Em suma, os impérios não são um exclusivo dos oponentes, dos inimigos. O império Prussiano, assim como os demais, podem equiparar-se ao império Russo no que diz respeito aos seus intentos e aos próprios métodos: anexaram, mataram, integraram, arrasaram as estruturas políticas existentes - criaram novas ordens. Contudo, enquanto a Rússia seguiu uma via autónoma, baseada numa cultura distinta, a Europa Ocidental procurou estabilizar um conjunto de regras. O grande legado da Europa dos tempos presentes reside na força da lei, nas doutrinas de legalidade que estabelecem limites para a actuação, quer numa lógica interna quer numa abordagem externa. A invenção que a Comunidade Económica Europeia representa, e mais tarde a União Europeia aprofunda, será a versão moderna de um conceito imperial de perfil suave. Pela via positiva e de atracção, a Europa encontrou uma fórmula para se alargar económica e socialmente, mas ignorou a importância da sua expressão política e militar. A Europa, embora tenha tido projectos de auto-suficiência militar, como foi a falhada União da Europa Ocidental, nunca procurou efectivamente consolidar o seu corpo e braços armados. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) havia sempre funcionado numa lógica de blocos, de jogo a dois, de guerra fria. Mas esses tempos findaram, mas certas dinâmicas não foram interrompidas, mas meramente atrasadas por novas nomenclaturas. Nessa medida, a Rússia escolheu o seu momento com grande sentido de precisão. A crise económica europeia, a indefinição dos EUA no que diz respeito à sua política externa proactiva ou a ameaça do fundamentalismo islâmico devem ser entendidos como catalisadores da política externa russa, dificilmente interpretada pelos quadros operativos convencionais e pelos processos de pensamento transatlânticos. A tése de defesa do espaço vital natural da Rússia colide com uma outra ideia tida a seu respeito; o (re)assumir da sua expressão imperial, de superpotência. A pergunta que se coloca ao Ocidente e em particular à União Europeia, prende-se com o modo de travar os avanços russos quando o engagement da Rússia parece ser cada vez mais difícil. A construção europeia deve rapidamente pensar do mesmo modo que a Rússia, mas servindo-se do seu maior património: a sua expressão democrática positivista e pacífica. Numa lógica de alargamento, a União Europeia (UE), talvez possa procurar circumnavegar a zona de fricção, os pontos de contacto onde distintos interesses nacionais colidem. A UE deveria realizar um salto indutivo e pensar uma configuração que transcenda o mainland do seu pensamento. A Europa poderia, de um modo estratégico, pensar num alargamento a sul, obviando o paradigma continental clássico, e abraçar novos parceiros em regiões não contíguas ao continente europeu. Nessa medida, o reino de Marrocos poderia ser um bom candidato para consolidar a expressão política e económica de uma Europa fustigada por razões endémicas agravadas. Um país islâmico moderado como Marrocos, ao ser "fraternizado" pela UE, serviria o processo de relacionamento com o desafio islâmico radical que se nos apresenta. Um conceito de "se não os podes vencer, estende-lhes a mão" poderia servir para tratar problemas considerados insanáveis e que residem na centralidade europeia. Quer a França quer a Alemanha terão de lidar a breve trecho com a intensa expressão de comunidades muçulmanas residentes nos seus países. A Rússia, por outro lado, já entendeu que pode extrair força dos seus cidadãos onde quer que estes se encontrem. A Europa continua atada a velhos pressupostos e tarda em avançar para algo realmente surpreendente. Para desarmar Putin dos seus argumentos e intentos, há que pensar de um modo excêntrico, seguindo linhas de orientação emancipadas do passado. Se realmente quisermos, sabemos o que nos reserva o futuro. Procurar no passado talvez não sirva de grande coisa.

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publicado às 09:03

Putin e a independência da Escócia

por John Wolf, em 14.09.14

Os movimentos falsamente separatistas ou de anexação que se têm vindo a desenovolver nos limites da Europa convencional ou para além da sua matriz política, instigados e levados a cabo pela Rússia, na Geórgia, na Ucrânia, com uma nítida expressão na Crimeia em tempos mais recentes, embora desligados dos pressupostos nacionais europeus, podem ser reconduzidos aos mesmos. O referendo escocês, respeitante à sua independência, intensificou reinvindicações antigas e certamente fará eclodir novas solicitações de autonomia. Ambrose Evans-Pritchard releva, de um modo abrangente, quais os candidatos à fragmentação da Europa. Uma interpretação excêntrica e ousada destes eventos de dispersão, obriga os decisores da União Europeia a ter de pensar uma lógica inversa na (de) construção europeia. A haver expressão democrática e positiva no sentido da independência nacional de um conjunto de povos residentes na União Europeia, o Tratado da União Europeia torna-se parcialmente obsoleto ou conceptualmente irrelevante. As forças centrifugas e de concentração política que se acham firmadas na constituição europeia, estão a ser ultrapassadas pela realidade. Embora seja impensável uma intervenção britânica para proteger os direitos dos cidadãos que residem na Escócia, Putin lança no seio da Europa ocidental o perfume dos seus argumentos e da sua acção. De um modo pensado ou não, a verdade é que a analogia entre um cenário e outro, poderá ser resgatada para plantar divisões nas hostes da centralidade da União Europeia. Existem muitos modos de levar a guerra ao inimigo, e a Rússia não hesitará em partilhar os seus métodos com as partes interessadas. Numa lógica ainda mais ultrajante, imaginemos o apoio que a grande Rússia poderia emprestar aos diferentes movimentos nacionais que se encontram espalhados pelo mainland da Europa ocidental. Eu sei que talvez seja uma extrapolação exagerada, a roçar os limites da racionalidade teutónica, mas todas as possibilidades devem ser colocadas em cima da mesa. De Berlim a Londres, da Catalunha ao reino dos Algarves.

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publicado às 09:52

O mundo infantil das primárias

por John Wolf, em 12.09.14

Enquanto uns realizam testes primários, outros demonstram ao mundo o valor da ausência da palavra. Enquanto uns discutem IVAs e restaurantes, outros redesenham mapas de continentes. Enquantos uns estão à janela, outros organizam respostas concretas a ameaças substantivas. Enquanto uns falam de traições, outros dão facadas. Enquanto uns estão focados em si, outros sabem que deixaram de ter importância. Enquanto uns angariam simpatizantes, outros inscrevem combatentes. Enquanto uns pensam em tachos, outros aumentam a pressão da panela. Enquanto uns dormem, outros estão acordados. Enquantos uns são o que são, outros nem isso conseguem ser.

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publicado às 14:26

 

  • O interesse nacional nem sempre é do interesse das populações.
  • O interesse nacional é sempre invocado.
  • O interesse nacional é uma prerrogativa do governo.
  • A projecção de poder e o interesse nacional são quase a mesma coisa.
  • A percepção é tão ou mais importante do que a realidade.
  • As percepções constroem-se para validar ou negar os factos.
  • A produção de percepções não é um exclusivo dos governos.
  • Os média antecipam-se ou estão atrasados em relação aos factos.
  • Os média nunca estão em sintonia/sincronia com os acontecimentos.
  • Os média são uma extensão dos actores políticos.
  • A propaganda é um conflito continuado e praticado por todas as partes envolvidas.
  • O status quo ou a estabilidade são construções ilusórias.
  • A ameaça do uso de força implica ciclicamente o seu uso para se validar.
  • A contenção é a mesma coisa que a ameaça do uso de força.
  • A ameaça do uso de força e a cooperação não estão a grande distância uma da outra.
  • A força das ideologias foi sendo substituída por outras formas de crença.
  • Domínio territorial e ocupação efectiva encontram-se no mesmo plano de importância de outros modos de expressão de poder imaterial.
  • A geopolítica também é movida por dimensões psicológicas como a memória colectiva e sentimentos como o rancor.
  • É mais fácil a fundamentação da decisão política baseando-se na história do que tentar a construção de novos modelos.
  • A linguagem do passado serve apenas uma parte da narrativa do presente.
  • As ameaças pequenas não são diminutas, são efectivas e potenciais.
  • As respostas dadas são sempre grosseiras, ou seja, nunca são do grau adequado.
  • A iniciativa política é apenas a extensão de um corolário.
  • Os corolários ou os axiomas são contradições genéticas, ou seja, a intuição e o instinto, são igualmente importantes na construção de modelos tendencialmente racionais.
  • As intervenções militares, de natureza quase sempre temporária, procuram desalinhar construções políticas de cariz mais duradouro.
  • É possível interpretar factos que ainda não aconteceram.
  • A ética é retrospectiva, mas eminentemente prospectiva.
  • A ideia de ordem nem sempre é legalista ou de natureza ética.
  • As aspirações filosóficas e existenciais do homem talvez sejam as mais difíceis de satisfazer.
  • O materialismo das nossas sociedades produz assimetrias desejadas.
  • As democracias já foram beligerantes entre si.
  • A auto-determinação dos povos nem sempre é um meio para justificar os fins.
  • O auto-existencialismo das nações pode ser acordado e estimulado para fins diversos.
  • Não existem mentiras em geopolítica: é tudo uma questão de timing.

(a continuar)

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publicado às 08:16

O longo telegrama de Putin

por John Wolf, em 03.09.14

Coloquem no mesmo saco Realpolitik, estratégia, processos de tomada de decisão, política externa, propaganda, comunicação, poder económico, capacidade bélica, a história imperial da Rússia, a ex-superpotência União Soviética, o controlo dos média, os métodos políticos não convencionais,  a repressão política interna, a condição geopolítica hibrída europeia-euro-asiática do país em causa, uma oligarquia, a Esquerda, a Direita, Capitalismo,  Socialismo e Comunismo, e agitem muito bem, e terão o campeão de pesos-pesados de seu nome Putin. Não pensem por um instante que estamos a lidar com um louco que acordou para aí virado. Não se deixem enganar pela pausa forçada sobre as potências ocidentais e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Para começar a entender Putin, há que pensar como Putin. Para poder antecipar a Rússia, há que saber antecipar a sua antecipação. Para quem se deixa levar pelo brinde de um cessar-fogo acordado a escassas horas do início da cimeira da NATO (que amanhã tem início no País de Gales), relembro que Putin é hábil na transferência do ónus da questão. A NATO que já vinha preparando uma linha dura de resposta à Rússia e as suas incursões ucranianas (e outras que decerto se seguirão), pode vir a ser vislumbrada como a má da fita nesta história. No jogo de espelhos e percepções, Putin passa de agressor a vítima - a campeão da paz alcançada com a Ucrânia e a destinatário da mensagem agressora da NATO. A formulação da política externa dos EUA, e por arrasto dos países nucleares da União Europeia, parece não aproveitar lições dadas há décadas. Não peço um conselho de sábios, mas um George Kennan dos anos noventa aos dias de hoje teria dado algum jeito. No longo telegrama enviado do seu posto diplomático de Moscovo em 1946, Kennan refere a urgência da contenção dos desígnios expansionistas da União Soviética. Embora a história não se repita, a mesma pode ser alvo de desejos revisionistas (ou revanchistas ). Putin desenhou uma estratégia que vai muito para além da estância balnear da Crimeia ou do último reduto de Kiev. Os lideres ocidentais, que partilham o património atlântico e uma parte da história, se desejam efectivamente tirar o tapete por debaixo dos pés de Putin, devem pensar com grande avanço sobre os intentos russos. Devem estar adiantados no tabuleiro. Devem desejar o melhor, mas esperar o pior. Devem esboçar diversos cenários que envolvam resquícios de dominós em queda, porque a pequena paragem que Putin se nos oferece, não serve para inverter a direcção da sua marcha. Servirá apenas para deslocar o ângulo de vista de algo, que para alguns constitui um problema, mas que para outros será a única solução.

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publicado às 14:49

Putin, política externa e palavras vazias

por John Wolf, em 02.09.14

Do mesmo modo que não existem vazios de poder na grande paisagem geopolítica, também não pode haver falta de conceitos estratégicos no que diz respeito à política externa dos Estados. Obama declara que ainda não existe um modelo de resposta ou combate ao Estado Islâmico e, a União Europeia (UE), que ainda não conseguiu estabelecer a sua Política Externa e Segurança Comum, parece avançar com peças avulso na formulação das suas relações exteriores. Não sabemos com precisão o que o ainda Presidente da Comissão Europeia José Manuel Barroso terá dito, mas Putin respondeu de viva-voz  que a conquista de Kiev (a acontecer) não demoraria mais do que duas semanas. Federica Mogherini, que ainda nem sequer teve tempo de aquecer a cadeira de responsável pela política externa da UE, também não precisou de muito tempo para atirar ao ar palavras vazias que ninguém pode garantir que sejam corroboradas por actos, decisões substantivas. Mogherini afirma peremptoriamente que cabe a Putin decidir se quer ser parceiro ou opositor da UE. Pelos vistos, entramos numa fase de improviso perigoso. Enquanto Putin passa dos actos aos actos, o mundo livre parece não conseguir se desatolar da espiral de palavras descoordenadas. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) parece ter a noção de que um novo conceito definidor deve nascer com um sentido de urgência notável, mas, enquanto se preparam cimeiras, Putin poupou trabalho aos think-tank a Leste e Oeste, e já partilhou com o mundo o tratamento que a NATO deve esperar do Kremlin. E isso deve ser considerado um factor de relevo - uma mensagem clara que obriga a uma resposta inequívoca da UE, da NATO, assim como das lideranças que ainda merecem essa designação.

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publicado às 08:27

Putin decide mais Austeridade para a Europa

por John Wolf, em 30.08.14

A grande maioria dos comentadores ou analistas políticos tende a pensar dentro de uma caixa. Elege um conjunto de elementos operativos, convenções e pressupostos, e disponibiliza a sua visão do mundo. E existe um perigo assinalável quando nos deixamos repousar em determinados conceitos intelectuais, como se os mesmos fossem intocáveis. Recentemente têm surgido alguns académicos suficientemente ousados para abalar as suas próprias fundações. Nassim Taleb será um deles - o inconveniente professor de incerteza da Universidade de Nova Iorque -, que entre outros feitos, definiu o conceito de "extremistão": a dimensão onde factos tidos como improváveis acontecem. Vem esta dissertação a propósito da evolução do conflito que opõe a Ucrânia à Rússia e as consequências do seu agravamento para o resto do mundo. Ontem escutei atentamente outro analista que merece a nossa consideração por ter sido capaz de prever muitos acontecimentos que abalaram o frágil equilíbrio do sistema financeiro-económico. Dennis Gartman é mundialmente conhecido pela publicação diária de um relatório sintético que serve de alimento para processos de reflexão nos campos político, financeiro e económico- The Gartman Letter. Na entrevista que concedeu ao não menos hábil Tom Keene no programa de rádio Surveillance da Bloomberg, Gartman alerta a Europa para uma distinta e nova forma de austeridade imposta pela Rússia à Europa. No fogo-cruzado de sanções que parece estar a entrar numa fase mais aguda, a União Europeia sofrerá os efeitos da política externa destemida de Putin. Embora não resulte de um processo político convencional, ou de uma Troika dirigida com intenções claras, em termos práticos, o resultado será o mesmo. São implicações deste cariz que parecem não constar da consciência política da Europa, e, à sua escala, de países com a dimensão de Portugal. São cenários de excepção como estes que me preocupam, não tanto pelos factos em si, mas por termos ao leme dos destinos das nossas nações, governantes ou prospectivos lideres com um atroz grau de ingenuidade, um nível de preparação insuficiente. Portugal, mesmo sendo a derradeira fronteira ocidental da Europa, não ficará à margem deste processo. A haver uma guerra europeia, a mesma será de um género inédito, combinando factores de guerrilha convencional com outros meios igualmente devastadores. Há quem acredite que a Rússia esteja a fazer bluff para granjear alguma vantagem táctica, mas num quadro maior de percepções a Rússia procura readmitir o seu Lebensraum, por variadíssimas razões históricas ou histriónicas de Putin. A Europa que se convenceu da estabilidade da paz, necessita rapidamente de repensar os pressupostos do jogo. Portugal,  infelizmente,  será um pequeno mexilhão, mais espectador do que interventor capaz de alterar a força das dinâmicas que já se fazem sentir. Tenhamos algum medo.

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publicado às 12:28

Francisco Seixas da Costa, em entrevista ao i online:

 

Portugal tem uma estratégia sobre aquilo que podem ser todas as suas opções externas?

 

Há uma escassíssima reflexão em Portugal sobre as opções externas. Para algumas pessoas, nomeadamente para alguns think tanks, parece que vivemos num mundo congelado. O mundo varia, a globalização trouxe outros desafios. A própria evolução da União Europeia no seu relacionamento externo impõe aos estados-membros um posicionamento evolutivo e nós não reflectimos sobre isso. Os partidos, como sabe, não têm a mais pequena reflexão sobre questões internacionais. São desertos completos. Os programas do governo na área externa - e eu tive parte de responsabilidade em alguns desses textos - são uma forma habilmente organizada de platitudes e lugares-comuns. Faço parte de um grupo informal de reflexão que se preocupa com isso sem agenda política.

 

O que é que Portugal deveria estar a discutir?

 

Tudo o que se está a discutir a nível da União Europeia no âmbito da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, por exemplo, é da maior importância e o papel de Portugal pode ser vital. Devíamos ter isto no centro das nossas atenções porque pode ter implicações fortíssimas na utilização do porto de Sines, na questão do equilíbrio energético, nas oportunidades para as empresas portuguesas no quadro do mercado americano. E disto não se fala. Acho uma bizarria. Parece que só meia dúzia de pessoas se interessam. E é o futuro.

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publicado às 13:34

Ainda a Guiné Equatorial e a CPLP

por Samuel de Paiva Pires, em 02.08.14

Após o meu post sobre este assunto, e tendo em consideração estes dois posts do Pedro Correia, bem como um outro post de Luís Menezes Leitão, pemitam-me apenas salientar um elemento que não terá ficado claro no meu post, mas que lhe subjaz: a humilhação a que Portugal foi sujeito ao fazer-se representar pelo Primeiro-Ministro e pelo Presidente da República em Timor. É que a este respeito estou de acordo com o Pedro Correia em toda a linha. Foi absolutamente humilhante estarmos representados ao mais alto nível, especialmente quando Brasil e Angola não estiveram. Distancio-me, assim, de alguns opinadores que talvez tenham estômagos de betão, caro Pedro. Mas é precisamente por sentir a humilhação, e atendendo à transformação da natureza da CPLP, que creio que devemos adaptar-nos aos novos tempos de forma a que possamos defender melhor os nossos interesses e não andar meramente a reboque de Brasil e Angola.

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publicado às 15:54

Talvez fosse bom repensarmos a nossa política externa

por Samuel de Paiva Pires, em 24.07.14

Pese embora seja perfeitamente possível e compreensível alinhar tanto pela posição pragmática que enforma este post do Nuno Castelo Branco, como pela posição idealista resumida nestes dois posts do Pedro Correia, sendo já um facto consumado a adesão da Guiné Equatorial à CPLP parece-me que talvez pudesse ser útil atentar na forma como Portugal foi encostado às cordas e acabou por não ter alternativa a pactuar com este desfecho, para o qual contribuiu decisivamente a pressão exercida por Angola e Brasil. E isto porque foi um processo demonstrativo de que a CPLP está, efectivamente, a transformar-se, a alterar a sua essência, não sendo despiciendo referir que possui o potencial para se tornar um importante bloco económico internacional, com os devidos reflexos no que à influência geopolítica concerne.

 

Talvez fosse boa ideia relegar para segundo plano o idealismo de uma comunidade ancorada na língua - o que os restantes membros da CPLP já fizeram -, e concentrar esforços em recuperar alguma influência política no seio da CPLP. E isto pode-se fazer, para contentamento de muitos, recorrendo precisamente à tão propalada - como se fosse novidade ou invenção recente - diplomacia económica. Para não voltarmos a ser apanhados na curva, o mínimo que o governo português - o actual e os próximos - pode fazer é concentrar esforços em alargar a organização a países com os quais temos boas relações económicas e políticas e que poderão ter interesse em fazer parte da CPLP, em particular pelas oportunidades de negócios que a organização representa.

 

Se o Senegal já é observador associado há uns anos, se Albânia, Ucrânia, Venezuela e Taiwan têm interesse em fazer parte da CPLP, torna-se essencial compreender precisamente a oportunidade que a CPLP pode representar para a economia portuguesa. O mesmo é dizer que deixemos de ser anjinhos e joguemos com as mesmas armas de Brasília ou Luanda. Assim de repente, relembraria apenas que há mais África para lá dos PALOP, que há América Latina e Ásia onde somos estimados e que também há países europeus que poderiam perfeitamente ser membros de pleno direito, atendendo ao precedente aberto com a adesão de um país onde não se fala português. Se não o fizermos, Angola e Brasil continuarão a alargar a organização atendendo essencialmente aos seus interesses e negociando o acordo de Portugal com migalhas. Já vai sendo tempo de termos uma política externa que não ande a reboque de idealismos ingénuos ou dos interesses de terceiros.

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publicado às 17:12

Reunião Soviética

por John Wolf, em 19.03.14

Não sei qual é o chip que está instalado nas máquinas de política externa dos EUA e de alguns países da UE (Reino-Unido, Alemanha, entre outros), mas Vladimir Putin acaba de dar banho ao cão das aspirações do Ocidente. O russo será provavelmente o político mais hábil da actualidade. Sabe-a toda. E deu uma lição aos campeões-libertadores que haviam demonstrado a sua alegada superioridade moral no Kosovo ou no Afeganistão (a título de exemplo). O discurso de anexação da Crimeia foi uma aula magna, mas também uma primeira lição sobre a nova relação de forças que está a ser desenhada por acção deste senhor e, convenhamos, por omissão de Washington e Berlim. Não é necessário ser um génio para entender quais as implicações desta primeira incursão russa. Por que razão haveria Putin de se quedar pela Crimeia? Contudo, os EUA e a UE usam um código que surtirá pouco efeito na alteração comportamental da Rússia. As sanções, têm, na maior parte dos casos, efeitos limitados - é a Rússia que tem o gás que a Europa precisa. De nada vai servir a apólice de seguro de nome Schroder que se senta aos comandos no board of directors da Gazprom. Não vejo razões para que Putin não aspire a realizar uma Reunião Soviética. A Moldávia já o pressentiu e deixou um aviso claro a Putin - Crimeias aqui não. O que está a acontecer até pode parecer um devaneio imperialista russo, mas olhe que não. Foi a NATO que começou a desenhar um círculo em torno do Kremlin, com destinos geo-estratégicos polacos à mistura, entre outras coisas. Os franceses que estão metidos ao barulho por causa de grandes contratos, podem simular a sua indisposição e cancelar as reuniões do G8 que entenderem, mas não passa de uma farsa para inglês ver. Resta-nos assistir às diversas movimentações caducas do Ocidente. Sim, os EUA e os Europeus foram grosseiros na interpretação dos sinais que se vinham tornando claros há bastante tempo. E lembrem-se: não é a Rússia que está entre a espada e a parede. São outros que estão encostados às cordas.

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publicado às 14:17

Jet lag de Rui Machete

por John Wolf, em 11.11.13

O público anda baralhado (não, não me refiro ao jornal!). A população portuguesa anda confundida - o cidadão nacional já não bate bem da cabeça. Ainda não percebeu qual a utilidade de Rui Machete. Para mim é claríssimo o que se está a passar. O ministro dos negócios estrangeiros está apenas a aquecer - está nos treinos. Nas últimas semanas tem sido o sifão das asneiras, o canal por onde escorrem dissabores e vaias garantidas. As últimas declarações matemáticas sobre como evitar resgates devem servir de aperitivo para péssimas notícias que podem já estar no segredo dos deuses. Se o responsável pela pasta e o papel de política externa acertasse em todas, tivesse juízo, quando chegasse a hora da dolorosa, o momento de verdade, quem teria a experiência profissional certa para ser o porta-voz do descalabro? É o que eu digo - este é o homem certo. Para Passos Coelho e Paulo Portas, o camarada vem mesmo a calhar. O seu desempenho já está a produzir resultados. A opinião pública já foi hipnotizada pelas cartadas de Machete e presta menos atenção às movimentações da coligação-mas-por-pouco. Machete é como o infiel da balança do governo. Faz tombar o que já está por terra. Quando menos se espera há um descarrilamento de informação que até parece espontâneo. Mas eu não acredito na bruxa. O feitiço consiste em fazer passar informação como se não fosse a correcta, como se tivesse sido um lapso. Mas, uma vez engolidas as afirmações, não há volta a dar - entraram no sistema, na corrente de contraordenações políticas. Não existe um antidoto para este tipo de picada. Os jornalistas, antes de publicar os seus artigos, deveriam confirmar a veracidade dos factos junto das fontes, mas não daquela. O problema é que Machete é mais parecido com uma ruptura, do que saneamento básico em pleno funcionamento - não é uma fonte de água potável. A única coisa que poderemos fazer é cruzar os dedos, fazer cara de póquer e aguardar mais desenvolvimentos de última hora - um anúncio-surpresa sobre outros factos relevantes. Por exemplo, um despejo de informação que concede que "Portugal já assinou a sua saída do euro e está apenas à espera da ratificação do parlamento ou o carimbo de aprovação do tribunal constitucional" - qualquer coisa desse género, anunciado por Machete no contexto de uma visita à Guatemala. O que devemos esperar nos próximos tempos de "juízo à Machete", será algo deste teor, porventura honesto, mas totalmente deslocado da hora que interessa a Portugal. Na minha opinião Machete sofre de um problema de jet-lag crónico. Está cá, mas é como se não estivesse.

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publicado às 13:55

Portugal e as prioridades angolanas

por John Wolf, em 24.10.13

Aqueles que afirmavam sem reservas que Angola precisa mais de Portugal do que Portugal de Angola, enganaram-se redondamente. Pensavam eles que seria apenas uma questão de tempo até aquele país vir comer à mão do paizinho e que a relação de irmãos de língua se iria normalizar. Pelos vistos não é o que está a acontecer; o ministro de relações exteriores declarou de um modo inequívoco que há parceiros mais vantajosos do que Portugal. Os governantes nacionais assentaram a sua política externa na premissa de que os países africanos de língua oficial portuguesa teriam uma inclinação natural para manter viva a relação histórica, mas não é o que está a acontecer. Porque razão deve Angola ser europeísta? Desde a guerra colonial que estabeleceu ligações com actores não europeus. A África do Sul e os EUA sempre tiveram presença económica e financeira em Angola. A URSS também andou lá metida. Os cubanos também. Ou seja, Angola há muito tempo que mantém relações com diferentes interlocutores. China é outro parceiro que necessita daquilo que Angola tem em abundância - petróleo. Este encadeamento de eventos, contrário ao interesse nacional luso, decerto que não irá ficar por aqui. Embora não haja um mapa cor de rosa a ligar Angola a Moçambique, é muito provável que a eclosão de um conflito civil neste último vá produzir o mesmo tipo de efeito nas intenções políticas e geo-estratégicas de Portugal. Por outras razões, fazer negócio em Moçambique poderá se tornar impraticável. Em vez da saída do Euro, Portugal é o elo mais fraco de uma outra utopia e parece estar a ser demovido, removido. Durante anos fomos levados a crer que Portugal era o "homem-forte" da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, mas aquele projecto produziu parcos resultados. O projecto de Acordo Ortográfico é sinónimo da especial virilidade de agentes "estrangeiros" que estão pouco interessados nos valores culturais e nas prerrogativas de Portugal. O Brasil que já bateu o pé aos EUA, não terá problema algum em sacudir um país com um mercado interno de pouco mais de 10 milhões de consumidores. Um país que plantou reticências de mentalidade à vinda de trabalhadores brasileiros e agora antagoniza o seu futuro deve ter algum cuidado nos passos seguintes que tomar. Se formos ver bem a coisa, cada vez que Portugal se coloca em bicos de pé a coisa corre mal. Aos poucos, Portugal parece ir perdendo o espaço vital que afinal nunca foi seu. Embora já tenha havido ilustres a declarar o fim do colonialismo, parece que apenas agora a efectiva materialização desse rompimento está a acontecer. Portugal irá decerto reagir às mais recentes declarações do ministro angolano, mas na minha opinião talvez deva ficar quietinho para não agravar ainda mais a situação. O timing político de Portugal é péssimo. Os angolanos que detêm poder de compra não estão para chegar ao continente. Já cá estão e detêm importantes quotas de representação nas decisões económicas de importantes empresas. Portugal tornou-se refém. Os seus sistemas de gestão já foram infiltrados e tomados por parceiros tidos como convenientes. No fundo, a questão tem a ver com ética. A falta dela. Desde a libertação democrática que a divisa tem tido a voz mais alta. Portugal não quis saber e agora coloca as questões que deveria ter apresentado em sede de due diligence. Uma espécie de inquérito preventivo para acautelar o interesse nacional. A cautela - nos dias que correm-, parece estar na ordem do dia, mas chega tarde. O que está a acontecer tem mais a ver com; depois de casa roubada trancas à porta.

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publicado às 10:52

Plano de incontinência para a Síria

por John Wolf, em 27.08.13

A escassos dias (ou horas) de uma intervenção militar na Síria, conduzida pelos EUA e seus aliados, e colocando de lado interpretações de ordem geopolítica, preferências ideológicas, as questões morais respeitantes à lei da guerra e o uso de armas químicas, assim como o registo do acentuar da clivagem que opõe a Rússia ao ocidente europeu e americano, venho perguntar se uma nação marginal ao conflito como Portugal tem preparado um plano de contingência, ou se aguarda com expectativa e curiosidade o desenrolar dos acontecimentos? Sei que as guerras internas são de outra natureza, mas um hipotético grupo de trabalho de emergência deve considerar os efeitos nefastos da intervenção militar que se segue, designadamente aqueles que se farão sentir na subida dos preços do crude e nas bombas de gasolina. A intervenção a que assistiremos, de 6 ou 60 dias de duração, obriga os estrategas a redefinir a sua agenda. A crise económica e social de Portugal agudizar-se-á seja qual fôr o desfecho. A retórica das últimas horas inscreve-se no domínio do fait accompli - a política externa dos EUA já lançou os dados e não irá aguardar o aval de uma organização que há já algum tempo deixou de ter relevância no quadro actual da relação de forças - a ONU já não serve de comissão de autenticação ou de plenário de rejeição de decisões tomadas de acordo com interesses que lhe são alheios. Esteja onde estiver, Rui Machete deveria começar a pensar uma pequena declaração sobre o posicionamento de Portugal. Em que condições se encontram as reservas energéticas estratégicas de Portugal? Qual a medida estimável de impacto na consolidação orçamental? Qual o cenário mais  desfavorável para Portugal? E se o governo (ou algum membro do executivo) não realiza este exercício de listagem de possíveis cenários, a oposição teria uma excelente oportunidade para realizar um simulacro. Eu sei que o Bloco de Esquerda anda preocupado com outras coisas, como sentar na sua bancada uma economista em vez de um médico, enquanto que o PS tem resposta para tudo e mais alguma coisa, mas é o governo actual, alegadamente presente para responder a todo o tipo de incêndios, que deve apresentar à nação um esquisso de uma resposta plausível. Pode ser que eu não esteja a ver nada. Afinal de contas Machete foi o homem que sempre cultivou uma relação de proximidade com os EUA (o Soares também; Carlucci e mon ami Kissinger...) e talvez já saiba o que está para acontecer, que tenha assistido a um briefing americano e tenha recebido um memo. Bem sei que o povo português pouco espera de Cavaco, e que o mesmo nunca poderia encarnar um Churchill acutilante, mas alguém deve aparecer para relatar as possíveis consequências do conflito que se avizinha. Acho curioso que a crise Síria ainda não tenha sido utilizada como alíbi, como distracção para as desgraças domésticas que continuamente fustigam a esperança nacional, mas acho que tenho uma resposta aceitável. Melhor ainda, sei porquê. O campeonato de futebol já arrancou, a primeira liga já corre. E não há liga árabe que destrone o desporto-rei.

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publicado às 20:39






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