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É a hora!

por Nuno Castelo-Branco, em 06.05.17

 

venezuela_portugal.jpg

 Muito bem e humanamente se fez tudo o que devia e tinha de ser feito: ofereceram-lhes protecção, guarida, assistência médica, escolas para as crianças, alimentos e agasalhos.

Com todo o direito, partiram livremente e sem qualquer impedimento.
 
Agora o que há a fazer com os recursos acumulados e que não podem ser desperdiçados?
 
Isto:

- chegam todos os dias de forma tão sorrateira que a imprensa prefere minimizar, centos e centos de portugueses refugiados da situação do há muito previsível descalabro generalizado na Venezuela. O aeroporto do Funchal vê agora certas cenas que Portugal preferiu ostensivamente ignorar em 1974,1975 e 1976. O mesmo processo, os mesmíssimos casos de desespero total. O país não pode agora virar as costas a esta situação caótica que um dia destes tornará a Portela, Pedras Rubras, Funchal e Faro em acampamentos. 

Desta vez as nossas autoridades foram avisadas e como sempre improvisaram às cinco para a meia noite, mas ainda estão a tempo de salvar a face. Não, não os empurrem a todos para o Brasil, daí lavando as mãos. 

Há gente que passou do meio século de vida e que não só não possui a menor possibilidade de se integrar no mercado de trabalho, como também nada, absolutamente nada possui no nosso país. Nem sequer gente de família ou uma muda de roupa. Muitos estão sem tecto, comida ou agasalhos. Doentes e alguns inválidos à espera de rápida assistência, devem ser de imediato integrados no sistema de Segurança Social e/ou no RSI. Aos outros, os mais jovens que querem reiniciar por cá as suas vidas, deverão ser abertas linhas de crédito por parte do banco do Estado, estabelecendo em todo o território português os seus afazeres e novos negócios. 
 
O que há então a fazer de imediato?

1. Entreguem-lhes as casas perfeitamente equipadas e mobiliadas e abandonadas por quem há pouco partiu. Isto implica devassar a parte imobiliária acumulada pela banca estatal e privada, persuadida a libertar casas para o acolhimento de quem delas agora imperiosamente necessita. É uma medida demasiadamente radical? Sim, sem dúvida e por isso mesmo deve ser adoptada. 

2. Entreguem os mesmos serviços de assistência médica a quem deles muito precisa, acabando de chegar de um país onde os medicamentos e cuidados de assistência há muito se volatilizaram. Os mais idosos deverão ser devidamente tratados de forma célere e sem delongas burocráticas. 

3. Quem tenha filhos, deverá poder contar imediatamente com a integração dos mesmos nos equipamentos escolares da zona destinada à fixação, mesmo que provisória.

4. Alguns dos que chegam mantêm a ilusão de retornar um dia à Venezuela. Enquanto isso precisam de ser protegidos, tratados, alimentados e agasalhados. Outros, mais realistas, dizem que jamais regressarão àquele país que os viu nascer. Conhece-se bem este tipo de história, Portugal já a viveu.
 
Boa parte da sociedade organizou-se, recolheu fundos, mantimentos, roupas e boas vontades. Não pode isto ser atirado para o fundo das conveniências poíticas de armazéns à espera não se sabe bem de quem e do quê.

Se não existe qualquer reserva mental, então aqueles que bem depressa organizaram todas as boas vontades, deverão agora volver-se em direcção aos que agora chegam. Portugal não compreenderá o desleixo, desinteresse ou pior ainda, a negação de auxílio a quem dele precisa. Isto dirige-se sobretudo ao Conselho Português para os Refugiados e generosos entusiastas como a deputada Ana Gomes, a Conferência Episcopal e o enxame de organizações religiosas desta última dependentes. 

Utilize-se imediatamente o que foi acumulado e ofereça-se total assistência a estes necessitados. É o mínimo que a mais elementar decência impõe.

O país deve nestes infelizes, reparar aquilo que uma boa parte da sua actual população jamais esqueceu. 

 

 

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publicado às 19:13

Império Romano (Germânico)

por Nuno Castelo-Branco, em 10.03.17

socken-747325.jpg

 O Manuel Freire dizia que …não há machado que corte, a raíz ao pensamento"

Pois não, não há e passando isto aos alemães, nossos amigos, aliados e sponsors, cujo país se tornou por vontade própria num merecido mega-saco de boxe, as notícias são veiculadas de uma forma muito imaginativa e quiçá, divertida. Os alemães, nossos amigos, aliados e sponsors pensam, logo existem. 

Por exemplo, ontem aconteceu "aquilo" em Dusseldórfia e como foi então identificado o meliante? Para além do tradicional problema mental que o coloca mais ou menos (felizmente muitíssimo menos!, ufa...) ao nível de Béria, Himmler, Iezhov e outros malandretes da história, disse-se que provinha de um território "da antiga Jugoslávia", entidade agora tão geográfica como América, Ásia, África, Oceânia ou Europa e que terá há muito desaparecido dos mapas políticos. 

Claro…mas, caros aliados e sponsors alemães, assim não dá, não pode ser e como facilmente detectámos a insinuação logo à primeira, parece-nos que têm de ter ainda mais imaginação! Em suma, sejam mais ousados e inventivos.

Nós, portugueses estamos treinadíssimos para este tipo de coisas e no tempo dos nossos pais e avós ou bisavós - ena, ena, já lá vão algumas gerações -, quando nas revistas do Parque Mayer alguém cantarolava qualquer coisa a respeito de Santo António, toda a gente percebia a quem se referia. Era o que se chamava "ler as entrelinhas" e desta forma os portugueses tornaram-se peritos no decifrar de enigmas, as tais indirectas por vezes demasiadamente óbvias. Burricos eram então os distraídos do lápis azul, artefacto que não pode nem deve ser confundido com lápis lazúli. Se não vos agrada este conselho dos vossos amigos aliados e sponsorizados portugueses, sempre podem pedir auxílio indicativo aos russos, ainda mais peritos em contornar esse tipo de dificuldades. Sob 30 graus negativos e na bicha para a garrafinha de leite, sempre arranjavam uma piada muito indirecta que logo pela manhã era contada no metropolitano moscovita, um monumento de engenho e arte.  

Para a próxima, os nossos amigos, aliados e sponsors alemães talvez consigam ainda ser ainda mais politicamente correctos e fazerem um comunicado com este teor:

- "um atacante proveniente de um antigo território do Império Romano, fez isto e mais aquilo. Era um louco comprovado" 

Sempre fica mais abrangente e todos compreenderão. 

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publicado às 16:52

É absolutamente inacreditável que a ameaça de violência por parte de um grupelho de estudantes de extrema-esquerda da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa leve ao cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto subordinada ao tema ‘Populismo ou Democracia: O Brexit, Trump e Le Pen’. Parece que a praga do politicamente correcto que censura o pensamento que não seja de esquerda também já está entre nós, até no seio daquela instituição, a academia, que tem o dever de promover a liberdade de pensamento, a liberdade de expressão e o verdadeiro debate de ideias.

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publicado às 19:26

Sobre o politicamente correcto

por Samuel de Paiva Pires, em 14.02.17

Raymond Boudon - Os Intelectuais e o Liberalismo.j

 

Raymond Boudon, Os Intelectuais e o Liberalismo (Lisboa: Gradiva, 2005), 85-86:

Podemos afirmar que estes diversos factores – a descida média das exigências escolares e universitárias, a implantação de uma epistemologia que desvaloriza o conceito de um saber objectivo – produziram ainda outro efeito de importância crucial: contribuíram para um alastramento do moralismo nos meios do ensino e, mais ainda, nos meios intelectuais, já que é mais fácil emitir um juízo moral sobre um determinado episódio histórico ou sobre um determinado fenómeno social do que compreendê-lo. Compreender pressupõe ao mesmo tempo informação e competência analítica. Emitir um juízo moral, pelo contrário, não pressupõe nenhuma competência especial. O reconhecimento da capacidade de compreender pressupõe uma concepção objectivista do conhecimento. O reconhecimento da capacidade de sentir, não. Acresce que, se um dado juízo moral vai ao encontro da sensibilidade de um certo público, ou cumpre os dogmas que cimentam uma determinada rede de influência, pode ser socialmente rentável.

 

A isto é preciso acrescentar, antecipando uma objecção possível, que o relativismo cognitivo – o relativismo em matéria de saber – não implica de maneira nenhuma o relativismo em matéria de moral. Pelo contrário, o relativismo cognitivo estimula a ética da convicção. Porque, como uma convicção não pode, à luz do relativismo cognitivo, ser objectivamente fundamentada, o facto de ser vivida como justa é facilmente encarado como único critério que permite validá-la. Este critério tende por isso a ser considerado necessário e suficiente. O episódio do Quebeque a que anteriormente me referi, em que um grupo de feministas propôs que fossem atenuadas as exigências do doutoramento a favor das mulheres, com o argumento de que o saber é sempre incerto enquanto as exigências morais são irrecusáveis, é um exemplo que atesta este efeito.

 

Assim se compreende que a desvalorização do saber possa ser acompanhada de uma sobrevalorização da moral ou, mais exactamente, de uma exacerbação das exigências em matéria de igualdade em detrimento de outros valores. É talvez este fenómeno que algumas expressões hoje repetidas à exaustão tentam captar: «o pensamento único», «o politicamente correcto», a political correctness.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 15:26

O relativismo cognitivo reforça a ética da convicção

por Samuel de Paiva Pires, em 09.10.13

 

Raymond Boudon, Os Intelectuais e o Liberalismo:

 

«Podemos afirmar que estes diversos factores – a descida média das exigências escolares e universitárias, a implantação de uma epistemologia que desvaloriza o conceito de um saber objectivo – produziram ainda outro efeito de importância crucial: contribuíram para um alastramento do moralismo nos meios do ensino e, mais ainda, nos meios intelectuais, já que é mais fácil emitir um juízo moral sobre um determinado episódio histórico ou sobre um determinado fenómeno social do que compreendê-lo. Compreender pressupõe ao mesmo tempo informação e competência analítica. Emitir um juízo moral, pelo contrário, não pressupõe nenhuma competência especial. O reconhecimento da capacidade de compreender pressupõe uma concepção objectivista do conhecimento. O reconhecimento da capacidade de sentir, não. Acresce que, se um dado juízo moral vai ao encontro da sensibilidade de um certo público, ou cumpre os dogmas que cimentam uma determinada rede de influência, pode ser socialmente rentável.

 

A isto é preciso acrescentar, antecipando uma objecção possível, que o relativismo cognitivo – o relativismo em matéria de saber – não implica de maneira nenhuma o relativismo em matéria de moral. Pelo contrário, o relativismo cognitivo estimula a ética da convicção. Porque, como uma convicção não pode, à luz do relativismo cognitivo, ser objectivamente fundamentada, o facto de ser vivida como justa é facilmente encarado como único critério que permite validá-la. Este critério tende por isso a ser considerado necessário e suficiente. O episódio do Quebeque a que anteriormente me referi, em que um grupo de feministas propôs que fossem atenuadas as exigências do doutoramento a favor das mulheres, com o argumento de que o saber é sempre incerto enquanto as exigências morais são irrecusáveis, é um exemplo que atesta este efeito.

 

Assim se compreende que a desvalorização do saber possa ser acompanhada de uma sobrevalorização da moral ou, mais exactamente, de uma exacerbação das exigências em matéria de igualdade em detrimento de outros valores. É talvez este fenómeno que algumas expressões hoje repetidas à exaustão tentam captar: «o pensamento único», «o politicamente correcto», a political correctness.» 

 

Leitura complementar: "Por isso pouco importa que a obesidade do Estado central prejudique toda a gente"

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publicado às 12:51

 

(imagem daqui)

 

Luiz Felipe Pondé, Guia Politicamente Incorreto da Filosofia

 

«A ética aristocrática da coragem é marca das sociedades guerreiras. Muita gente hoje em dia considera essa posição retrógrada e “reacionária” porque ela não levaria em conta os limites do humano. Para Patton, e o que ele representa no filme, a ideia é falsa, porque na vida, vista como uma guerra contínua, a falta de coragem é sempre reconhecida pelos que não mentem ou não agem de má-fé (a guerra seria uma representação da vida, como nos mostra Tolstói em seu monumental Guerra e Paz). Você não precisa estar num campo de batalha, onde brotam os corajosos e os covardes a olho nu, para saber que no cotidiano os covardes mentem mais, fogem das responsabilidades, traem seus amigos e colegas, usurpam glórias que não são suas, enfim, mesmo morta a sociedade guerreira da Antiguidade, permanece a consciência cristalina de que sabemos identificar a coragem quando se revela diante de nossos olhos. Por acaso você já viu um covarde? Talvez no espelho? Já teve vontade de ficar de joelhos diante de alguém que de fato não teme aquilo que a maioria teme (seja a morte, representação mais evidente da questão, seja a perda do emprego, o abandono, a tristeza)?

 

Uma das coisas que os politicamente corretos mais temem é a ética aristocrática da coragem levada para a vida cotidiana, porque ela desvela o que há de mais terrível no ser humano, a saber, que ele é o animal mais assustado e amedrontado do mundo. Para os politicamente corretos, o correto é mentir sobre isso, a fim de aliviar a agonia que temos porque sabemos que somos todos no fundo covardes e dispostos a colaborar com nazistas (ou seus similares) se para nós for melhor em termos de sobrevivência. Há uma profunda relação entre essa praga e a autoajuda, na medida em que ambas mentem sobre os verdadeiros problemas dos seres humanos e de nossa natureza sofrida e angustiada. Dizem eles que tudo isso é “culpa” do machismo, do capitalismo, do cristianismo, dos marcianos. Outra coisa que o politicamente correto detesta é a própria noção de aristocracia (que a filosofia, já em Platão, separou da noção de “aristocracia de sangue” para defini-la como “o governo dos mais virtuosos”), porque ela afirma que uns poucos são melhores do que a maioria dos homens. A sensibilidade democrática odeia esta verdade: os homens não são iguais, e os poucos melhores sempre carregaram a humanidade nas costas.»

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publicado às 15:08

"Resistance to the organized mass can be effected only by the man who is as well organized in his individuality as the mass itself." (Carl Jung, The Undiscovered Self)

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publicado às 13:38

A tirania do politicamente correcto no Reino Unido

por Samuel de Paiva Pires, em 01.04.12

Alberto Gonçalves, (1 de) Abril em Portugal:

 

«A 17 de Março, Fabrice Muamba, futebolista do clube inglês Bolton, sofreu uma paragem cardíaca durante um jogo e quase morreu. Em simultâneo, Liam Stacey, um galês de 21 anos, aproveitou para se divertir à custa do caso no seu Twitter, no qual escreveu umas graçolas sobre o infortúnio de Muamba e insultos à respectiva etnia (Muamba é preto).

 

Até aqui, tudo normal: temos um sujeito que sofre de um problema físico e outro sujeito que sofre de um problema mental. A partir daqui, as coisas ficam estranhas: alguns utilizadores da referida "rede social" mostraram-se ofendidos com as palermices do sr. Stacey e, após um processo cujos pormenores me escapam, num ápice o sr. Satcey viu-se diante de um juiz de Swansea que o condenou a 56 dias de prisão para, cito, "reflectir a indignação suscitada".

 

A indignação ainda se compreende. A condenação nem por isso. Bem sei que os universos em causa, leia-se o futebol e a Internet, são particularmente dados à cordialidade e à sensatez, o que facilitou a repulsa às atoardas do sr. Stacey. Porém, nem todos os sectores da sociedade se regem por tão elevados valores: se o sistema judicial começa a punir a estupidez, conviria que percebesse que nunca terminará a tarefa. O sr. Stacey é um idiota? Provavelmente. Mas a idiotia, permanente ou ocasional, é uma característica distribuída com generosidade pela espécie. Sobretudo a espécie de maluquinhos que, a fim de tornar o mundo um lugar melhor, se empenha em transformá-lo primeiro num lugar inabitável.»

 

Leitura complementar: Liberalismo clássico, conservadorismo e democracia; Democracia, "Common Law" e a "Broken Britain" (Filipe Faria); Hayek, PJ Harvey e a Broken Britain; A Tábua Rasa, a Escola de Frankfurt e a "Broken Britain" (Filipe Faria).

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publicado às 12:31

Sobre os Óscares e a pseudo-intelectualidade Hollywoodesca

por Samuel de Paiva Pires, em 26.02.12

Alberto Gonçalves na mouche, E o vencedor é...:

 

"Será talvez irónico que a televisão, responsável pelas maiores atrocidades na história do entretenimento desde a mulher barbuda (correcção: incluindo a mulher barbuda), seja hoje responsável por algumas das produções mais sofisticadas do género. Antigamente o refugo do audiovisual, a televisão desatou a exibir maravilhas como The Wire, Dexter, Arrested Development ou The Office. Em compensação, o cinema já raras vezes ultrapassa o primarismo assumido da banda desenhada ou, o que é pior, o primarismo da banda desenhada com pretensões "artísticas". Os melhores leading men da actualidade, de Hugh Laurie a Michael C. Hall, de Dominic West a Kelsey Grammer, recorrem à televisão para fazer carreira e ao cinema, onde se subjugam aos Pitt e aos Clooney desta vida, para fazer dinheiro. É inegavelmente irónico que o cinema nunca tenha facturado as fortunas actuais, e que a sua celebração anual nunca tenha sido tão épica e mentecapta.

 

Mesmo em épocas de fartura qualitativa, os Óscares jamais se distinguiram pelo esclarecimento (é escusado lembrar que Hawks, ou Cara Grant não ganharam um único). Em época de escassíssima qualidade, os Óscares distinguem-se pelo ridículo: na falta de filmes, não faltam fitas. Claro que nem sempre o ridículo e as fitas atingem os píncaros de 2003, em que a cerimónia foi reduzida a uma manifestação contra a guerra no Iraque. A imagem de Michael Moore a pedir a Bush que tivesse a vergonha que ele, um charlatão milionário, obviamente não possui simbolizou os abismos de hipocrisia a que a coisa desceu. Mas a coisa desce com regularidade. Não há cerimónia sem um par de vedetas a promover as "causas" a que aderiram na semana anterior (ou, no divertido caso de Sean Penn, vinte minutos antes), de resto a matéria da maioria das misérias a concurso.

 

No dia seguinte, os media aplaudem a coragem das vedetas. No léxico contemporâneo, "coragem" é o que leva uma pessoa a defender ou criticar o que é defendido ou criticado por quase toda a gente. É lícito louvar o ambiente, o "pacifismo" e "Che" Guevara, ou caricaturar o evangelismo cristão, Margaret Thatcher e o senador McCarthy, um monstro que, embora morto há meio século, as valentes celebridades não cessam de combater. Na verdade, as celebridades só não combatem inimigos reais e realmente perigosos. Os limites do seu activismo definem-se pelas maçadas que o activismo lhes poderá trazer. Grosso modo, os limites são o Islão.

 

Parece que Sacha Baron-Cohen, criador de Borat, sentiu agora as interdições da famosa "academia", cujo convite para os Óscares estaria dependente da garantia de que o actor inglês não aproveitará o evento a fim de promover O Ditador, paródia de um deposto líder de um país muçulmano. Suspeito que a palavra-chave, aqui, é "muçulmano": com o Profeta e respectivos seguidores não se brinca. À hora em que escrevo, consta que a "academia" deseja afinal integrar a personagem de Baron-Cohen no alinhamento da noite, uma tentativa de controlar danos à qual Baron-Cohen cederá ou não. Inclusive, corre por aí que tudo se resumirá a um truque publicitário combinado por ambas as partes. Pouco importa. O importante é a mera plausibilidade da cautela, uma extravagância num mundo orgulhoso de desafiar interditos excepto o interdito que mata.

 

Recentemente, transtornados locais promoveram pequenas chacinas a propósito da queima de exemplares do Corão numa base militar americana no Afeganistão. Em geral, as chacinas ou as ameaças não carecem de pretextos tão ofensivos (e dispensáveis). Uma palavra, um rabisco ou uma rábula cómica bastam para suscitar a fúria de quem, na última década, decide o que é admissível no nosso comportamento. Por isso o nosso comportamento se resigna ao medo, uma irrelevância quando restrito ao grotesco circo de Hollywood, um perigo quando alargado ao Ocidente. Logo veremos se o medo voltou a vencer. Ou verão os que seguem pelo televisor a homenagem a este cinema e, até certo ponto, a este Ocidente resignado. A TVI passa os Óscares. Enquanto não vir uma vedeta enxovalhar o fanatismo que conta ou um bom filme premiado, eu também passo."

 

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publicado às 14:54

Foi por pouco

por Felipe de Araujo Ribeiro, em 05.01.12

Não queria acreditar, à medida que ía lendo, agradado, o texto em questão. Depois de tentar negá-lo nos primeiros dois ou três parágrafos, eis que a partir do quarto já me encontrava praticamente decidido a fazê-lo. E perto do fim já estava penosa e decididamente certo: decidira, não obstante a contrariedade, fazer um post citando o Rodrigo Moita de Deus.

 

Os azares de John Galliano

 

Graças a Deus, Deus afinal citava Almada.

 

Desta vez foi por pouco...

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publicado às 11:00

A não discriminação e a estupidez

por Eduardo F., em 22.12.11
Edição em PDF
No Reino Unido, é prática das seguradoras exigir às condutoras do sexo feminino um prémio de seguro automóvel inferior ao dos homens. A razão de ser desta discriminação radica no facto das automobilistas terem, estatisticamente estabelecida, uma taxa de sinistralidade inferior à dos seus pares masculinos.

 

Sucede que existe uma directiva da união europeia relativa à "igualdade de género" que, segundo entendimento do Tribunal de Justiça Europeu, torna ilegal a prática de tal discriminação. O resultado, segundo se pode ler aqui, é que os prémios de seguro automóvel, cujos titulares sejam mulheres se agravarão, por ano, em cerca de 900 milhões de libras esterlinas. De nada valeu a argumentação do governo britânico!

 

Vemos assim destruída, a bem de uma idiotice "politicamente correcta" levada avante por burocratas, toda a lógica económica de um negócio que assenta na determinação e diferenciação do risco. (Via EUReferendum)

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publicado às 02:28

O défice monstruoso

por Nuno Castelo-Branco, em 26.05.10

 

Na Câmara dos Lordes e com toda a pompa das ocasiões importantes para um país sem complexos, a Rainha leu o discurso de abertura do novo Parlamento, onde o 1º ministro anuncia o programa do seu governo. Os cortes na despesa são profundos e denotam a vontade de saneamento das contas públicas. Um sector atingido é o das mordomias dos políticos que vêem cortados inúmeros privilégios e despesas de ostentação até agora pagas pelo Estado. Limusinas (10 milhões de Libras "trabalhistas" por ano!) - que agora apenas poderão ser usadas em actividades oficiais -, chauffeurs, assessores, prendas e viagens, são alguns dos draconianos cortes que impedirão conhecidos e escandalosos abusos.

Em França, Sarkozy impôs novas regras com a perda de benefícios automobilísticos para numerosas entidades governamentais e do sector empresarial do Estado, suprimindo automóveis de luxo e motoristas, despesas de "representação" e obrigatoriedade do imediato corte de 10% na despesa corrente dos departamentos do Estado. Como nota curiosa, foi publicada uma lista de restaurantes baratos que poderão ser frequentados por ministros e outros titulares de órgãos de soberania. Prevê-se uma abrupta descida no despesismo ostentatório.

Em Espanha, além do corte de 15% dos salários-políticos, desaparecem organismos parasitários, como Fundações fantasma, gabinetes de estudo contratados a apêndices da partidocracia, etc. Enquanto isso, os políticos e autarcas apertam o cinto.

 

Em Portugal, novas medidas foram tomadas. O 1º ministro vê aumentados para mais treze o número de motoristas disponíveis, não houve o menor anúncio de corte das frotas automóveis à disposição de presidentes, ministros, secretários de Estado, subsecretários de Estado, assessores presidenciais, directores do sector empresarial do Estado, dos juízes de Supremos, PGR, ministérios, etc, etc. Enquanto isso, os jobs for the boys continuam em força, como se nada de extraordinário se passasse em Portugal. A Assembleia da República viu aumentada a sua dotação e comprou novas viaturas de luxo para a sua presidencial Mesa, enquanto o Palácio de Belém bate aos pontos e para mais do dobro, a dotação do seu congénere espanhol. De facto, enquanto aumenta a despesa com subvenções, a despesa de Belém passa para 21.000.000 de Euros por ano, vendo acrescida em quatro milhões, a soma até agora recebida. Note-se que nos finais de 2009, a Casa Real espanhola enviou uma nota ao sr. Zapatero, indicando não querer receber qualquer aumento de verbas - 8.000.000 Euros/ano - para a despesa da representação oficial do Estado. Alegremente, o presidente Cavaco, o 1º ministro, ministros e outras "altas individualidades", vão viajando nos Falcon e sempre que podem, organizam cortejos de limusinas em constante renovação. O OGE prevê 160.000 Euros de despesa de comunicações móveis do gabinete do 1º ministro. Não se vislumbra qualquer corte no subsidismo a Fundações privadas  que se erguem com o dinheiro público, enquanto aumenta o clientelismo caciquista. Não se anunciaram medidas de corte na contratação de gabinetes de estudos paralelos a entidades oficiais, nem uma política mais rígida na contratação de assessores e outros quadros técnicos. A república auto-comemora-se este ano, sorvendo cabedais em jantares, conferências, publicações onanistas, visitas de estudo, selectas festas e obras de fachada em Praças e Museus que foram da Monarquia. O monstro está aí, mais gordo que nunca.

 

Entretanto, procederam a alguns cortes na despesa. Atacam quem menos possui e tem de recorrer ao Serviço Nacional de Saúde. Enquanto os sponsors da banca continuam com impostos abusivamente baixos, a imensa maioria canibalizada por políticas absurdas, paga o que já não pode.

 

Tudo na mesma. Não aprendem.

 

Portugal é um país pobre e em dificuldades. Não pode manter a república. Que seja abolida!

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publicado às 08:36

O racismo encapotado do politicamente correcto

por Samuel de Paiva Pires, em 04.05.09

Miguel Castelo-Branco in Combustões:

 

A campanha promocional de Obama e da sua mulher - já tida como cânone universal de beleza - é dessas coisas que fazem o retrato acabado da falsidade instituida como regra. O pensar correcto é, sempre, uma violação das diferenças constitutivas e enriquecedoras da humanidade, pelo que lavrar elogio (ou o seu oposto) a respeito de um homem pelo facto de ser negro, amarelo ou branco constitui insulto ao homem singular e intolerável demonstração de minimização do grupo étnico a que este se vincula por nascimento. Obama terá de ser julgado, elogiado ou contestado pela obra que fará, não por ser negro. O nóvel presidente ainda nada fez, mas as sirenes do paternalismo trompeteiam aos sete ventos os mais descabelados e irrazoáveis panegíricos. A verdade é que, se Obama morresse hoje, nada teria para deixar e dele só ficaria a nota - absolutamente irrelevante para um não-racista - por haver sido o primeiro presidente negro da história do Ocidente.

A ignorância tem destas coisas, pois lembraria aos mais afoitos paternalistas que Portugal teve no século XVI os primeiros bispos negros, no século XVII um grande diplomata e príncipe das letras que dava pelo nome de António Vieira - mulato muito escuro - e no século XVIII o primeiro primeiro-ministro misto da Europa. Obama passa, assim, como produto promocional sem novidade, apenas tido como excepção para os ignorantes da história portuguesa.

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publicado às 23:01

E a cristofobia?

por João Pedro, em 21.04.09
 
 
O Secretário Geral da ONU deve andar a ler muito o Arrastão. Só assim se explica que na abertura da conferência sobre o racismo das Nações Unidas, em Genebra, Ban Ki Moon se tenha referido logo à islamofobia. Que eu saiba, o Islão não é raça nenhuma, antes envolve questões religiosas e culturais. Mas se se faz essa interpretação ampla do conceito de racismo, fica a pergunta: então e a cristofobia, que se faz sentir em tantos países muçulmanos, como o Iraque (outrora com uma importante comunidade cristã, que agora foge do país em massa), o Paquistão e a Arábia Saudita (neste caso, é qualquer culto que não o sunita) e não só, caso da Índia? Não lhe merece nenhum reparo?
 

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publicado às 00:35

Qual é o mal de se ser conservador?

por Samuel de Paiva Pires, em 10.12.08

De há uns tempos para cá, como se não chegassem os epítetos que muitos me têm atribuído, tenho vindo a ser apelidado de conservador por quem lhe tenta dar um sentido pejorativo. Eu que abertamente me declaro como tal, ainda não consegui perceber, mas ser conservador é uma coisa negativa? E eu não posso ser um liberal-conservador, como ainda há tempos me classificava neste post? E o que é afinal o conservadorismo? E o liberalismo?

 

Eu sei que sou politicamente esquizofrénico, e adoro confundir as pessoas afirmando defender ideias aparentemente opostas, assim colocadas através de dialécticas criadas de forma quase inconsciente, quando os conceitos se desprendem da teoria e ganham vida e aplicação na realidade e consequentemente corpo histórico. Mas eu detesto rótulos padronizados. Pior, em certa parte sou bastante adepto do relativismo e de colocar em causa todos os dogmas e conceitos. Muitas das conclusões a que chego não lhes atribuo qualquer conotação positiva ou negativa de acordo com qualquer ética ou moral como a maior parte dos indivíduos parece fazer, pelo menos os políticos e os aspirantes a tal. São conclusões, conceitos, posições teóricas ou ideológicas, e não têm necessariamente que ser politicamente correctas ou obedecer à norma. Tento, isso sim, alcançar uma neutralidade e sentido crítico, de análise e de abordagem, tanto quanto possível. E por isso às vezes sinto que tenho que explicar muita coisa que é para mim evidente e que frequentemente colide com o que é aceite pela norma. E isso agasta-me.

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publicado às 00:54






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