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Penpal de Portugal

por John Wolf, em 05.02.17

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Portugal é um país de águas de bacalhau. Mas esse estado de alma acarreta consequências. Determina um anda e desanda, um dois passos avante e três à retaguarda. Assim tem sido e desse modo prosseguirá. Sobe uma força partidária ao poder, e logo desfaz à pancada o realizado pelo anterior. E assim sucessivamente e alternadamente. Por outras palavras, o Portugal político é uma imensa bancada central. E, embora possa parecer uma solução consensual e benigna, a verdade é que penaliza a possibilidade de um choque sistémico. A geringonça, no entanto, trai esse conceito mas não adianta grande coisa ao integrar no mesmo embutido um espectro alargado que se anula, que se descaracteriza. Ao diluirem o valor ideológico e a estância de princípios em nome da manutenção do poder, acabam por plantar no seu seio a toupeira do descalabro. O Partido Socialista ao querer ser tudo, é, ao mesmo tempo, comunista, neo-liberal, progressista e populista - mas cada vez mais menos socialista. O governo assume, sem margem para dúvida, um contrato a termo com o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português, embora não o admita, e ao invés do que dizem no PS, os socialistas terão de levar em conta a Direita, senão numa perspectiva doméstica, ao que tudo indica, no plano europeu. A grande questão que se coloca diz respeito ao seguinte: se Marine Le Pen for chamada ao Eliséu, acabou a União Europeia, não tenham dúvidas. A não ser que governos híbridos queiram replicar as suas condições de governabilidade e negoceiem cedências oportunas. Os alegados comentadores políticos e os sucedâneos de jornalistas tardam em perceber que estamos na presença de uma revolução sistémica, à la Kuhn. O modelo organizacional e político que estruturou o Ocidente nas últimas décadas, caminha, a passos largos, para um fim feio, caótico. Não foi um actor político externo a determinar o curso dos eventos  que se encontra em dinâmica crescente. Foram as complicações endémicas do projecto económico e social que falharam. Referem todos a grande paz europeia resultante do carvão e do aço, mas a que preço e com que consequências? Portugal, que não conhece a experiência dos extremos, pode ceder à tentação de negociar geringonças à escala europeia, contribuindo ainda mais para uma cisão irreversível. Quero ver se as políticas da amiga Marine também serão chumbadas na Assembleia da República ou se ela será uma Penpal. Se reprovam Trump, devem admoestar aqui e agora a congénere francesa.

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publicado às 19:26

Sobre o populismo

por Samuel de Paiva Pires, em 01.02.17

Do que tenho lido por aí sobre o populismo, Donald Trump e os tempos em que vivemos, este é, sem dúvida, o melhor, mais claro e mais recomendável artigo.

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publicado às 22:59

Síndrome de Padeiro

por John Wolf, em 28.01.17

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Antes que me acusem de sofrer da síndrome de padeiro, fica o aviso. Sou um sociólogo empírico, artesanal. Faço colagens, mas delicio-me com o corte e a costura. Adoro bricolage e fascina-me o betão. Cá vai. O ovo ou a galinha? Qual deles? Vem isto a propósito do efeito de contágio (ou não) das obras de Medina na cabeça dos cidadãos da capital europeia das autárquicas. O enunciado é relativamente simples: será que a malha civilizadora do passeio largo, da via minguada e das ciclo-rotas irá alterar o quadro comportamental do utente? Prevejo, e já assisti a muita inauguração construtora em Portugal, que teremos a insistência crónica do estacionamento sobre a calçada farta ou a ciclovia, a extensão da prática de arremesso de dejecto canino e o graffitar de assinaturas de artista delinquente sobre a pedra que tanto bate que até se apura. E há mais. A obrite aguda, embora vá embelezar a urbe alfacinha, representa, no seu âmago, uma patologia política de difícil cura. A obsessão pelo hardware. Quanto ao software do formato mental dos urbano-residentes a história será outra. A alteração da mentalidade que conduz à estima cívica e ao sentido colectivo parece ficar para depois do aumento do PMN - o passeio mínimo nacional. O problema é que a correlação entre a obra e o comportamento cívico não foi pensada em sede alguma. O que domina e extravasa é outro vector. A alma-matéria parece ser o modo de pagar promessas e comprar eleitores. Em plena época de dúvidas existenciais e rumores de populismo, convém acalmar os ânimos daqueles que usam as ferramentas mais básicas. O apelo da intelectualidade primária, ou da filosofia de lancil, parece ser a nota dominante. Quero ver quem tira o peão do caminho do triciclo, ou enxota a marca global que irá decorar aquela praça neo-típica. Quem levantará os autos? Não há dúvida que fica tudo mais bonito e que valeu a pena o pó e o trânsito, mas o resto será mais do mesmo. Quero ver quem entrega o pão como deve ser.

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publicado às 12:00

Make me normal again

por John Wolf, em 21.01.17

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Não é preciso ser cidadão norte-americano para sentir os efeitos de uma presidência nos EUA. Mas é preciso ser cidadão norte-americano (como eu) para sentir os EUA. Por mais que opinem e produzam statements a propósito da eleição de Donald Trump, há vários estereótipos que devem ser rejeitados. A ideia de que eventuais desvios aos princípios que se encontram na fundação da federação americana, e que consubstanciam o genuíno espírito da nação, serão tolerados, sem agravo ou consequência, por largos espectros da população, pela inteligência académica ou pelas grandes corporações de Wall Street. Estamos apreensivos em relação à inauguração de uma nova modalidade, porque nada disto é inédito, mas também não é exclusivo. Se realizarem a sobreposição de slides, verão, sem grandes equívocos, que Theresa May não é uma versão de Donald Trump. May, declama a sua pauta, uma palavra similar embora com variantes de discurso. Em todo o caso, trata-se de um slogan nacionalista e patriota, carregado de sentimento anti-imigração - Make Britain great again. O que está em causa essencialmente é um quadro mental de previsibilidade a que estávamos habituados. Fomos doutrinados durante tantos mandatos políticos que existe uma convenção estável, imutável. Fomos treinados a viver na sombra das consternações que seriam tratadas pelos lideres e representantes partidários. Recebemos em troca amostras de grandes promessas que se esfumaram em metas por alcançar. Aqui e agora, here and now, registamos o inverso. O juramento totalitário à partida, à cabeça. Um conjunto de absolutismos de tudo ou nada, sim ou não, you´re in or get the hell out. Há muito que vinha observando a patologia civil dos EUA - a ideia de autosuficiência intelectual. A ideia de que os outros são dispensáveis. O isolacionismo, implícito na narrativa, é apenas uma extensão natural da genética política, económica e social, construída no país que é a maior amálgama de nações extraviadas do mundo. Agora imaginem o sentimento de indefinição que se atravessa no meu ser. Para todos os efeitos, bons e maus, eu sou um cidadão dos EUA.

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publicado às 11:41

Marcelo, déficit emocional e populismo

por John Wolf, em 09.01.17

 

 

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Em plenos dias de emoções à flor da pele, afectos e vazios, parece-me apropriado pensarmos o caso Marcelo Rebelo de Sousa de um modo mais expressivo. O presidente da República Portuguesa parece padecer de uma espécie de déficit emocional. Apenas deste modo se explica a sua incessante necessidade de ser amado a torto e a direito, de norte a sul pelos ares de gente e as gentes dos mares. O seu estado roça a condição psicótica e acarreta sérias consequências para o serviço político que se espera de um chefe de Estado. Por seu turno, o comportamento obsessivo-compulsivo do sujeito não vive a solo. É uma nação inteira falha de afectos que leva em ombros este estado de transe. São os recepientes dos abraços também responsáveis pelos fundamentos desta premissa psico-emocional registada em forma de beijos e selfies. Embora Marcelo possa parecer neutralizar polaridades, ao integrar a gama completa de sabores ideológicos, em abono da objectividade, a sua acção preenche os requisitos da construção populista. E é esse o perigo da sua toada de normalização - empresta a aura benigna, pacífica. Aos poucos, Marcelo vai-se desprovendo de espinha dorsal, vai perdendo o respeito político de actores de todos os quadrantes. A dada altura do realismo pragmático que o ultrapassará, o presidente terá de tomar a posição incómoda e inequívoca. Numa fase madura e de dor governativa, Marcelo terá de trair o guião de consensos e entendimentos que escreve. E Marcelo terá de virar a casaca se pretende sobreviver e alimentar a ideia de crédito institucional e presidencial. Marcelo procura em vida aquilo que Soares está a receber nesta sua hora. A mais alta homenagem, a tábua rasa de considerações supletivas, positivas. Para se ser amado em política não se pode amar desalmadamente. Lidamos, para todos os efeitos práticos e questionáveis, com um caso maníaco.

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publicado às 09:43

Quem vai receber Varoufakis à Portela?

por John Wolf, em 02.02.15

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Quem vai receber Yanis Varoufakis à Portela? O ministro das finanças grego está em tournée europeia, e embora ainda não tenha sido noticiado, Portugal deve constar do seu rol de visitas. Apenas sabemos que existem uns quantos em território nacional que já se estão a acotovelar, a dar uns empurrões para ficar bem na fotografia. É assim que funciona em política, seja qual for a causa, a missão a cumprir. A Catarina Martins, a Ana Drago, o Jerónimo de Sousa, ou mesmo o Daniel Oliveira, devem ser os candidatos com ganas de mostrar os cantos à casa - a desgraça que nada tem a ver com a tragédia grega. Nesse dia de recepção, António Costa encontrará uma desculpa para se esquivar - quiçá, a inauguração de mais uma ciclovia. Mas o amigo Yanis não vai ficar muito contente. Então malta? O que se passa? Na Grécia, Syriza! Em Espanha, Podemos! E em Portugal, nicles batatóide? Pois, sabe Dr. Varoufakis, aqui a malta tem dificuldade em instigar a mudança. Pode dar-nos uma ajudinha? Umas dicas. Mas a verdade é que nem Tsipras nem Varoufakis têm algo para oferecer. Aliás, a cada hora que passa as probabilidades de reestruturação da dívida são cada vez mais ténues. Vejam-se os números das casas de apostas. Estudem o comportamento das taxas de juro, das condições de mercado cada vez que sopram ventos de utopia financeira. Se Varoufakis pretende chegar a um acordo com credores deve meter-se no expresso e zarpar rumo aos Goldman Sachs e Rothschilds deste mundo. Se realmente quer marcar a diferença e cortar relações com a Troika e os interlocutores formais da União Europeia, deve demonstrar que consegue ser criativo e original. Para já o duo Tsipras-Varoufakis conseguiu conquistar o poder, muito à custa do rasgo visceral de uma população derreada pela Austeridade, ávida de pão e vingança. Pensando bem, vir a Portugal é uma perda de tempo. Nenhum dos esquerdistas radicais de ocasião que acima referi percebe patavina de como funciona o mundo. Não pretendo ser cínico com este desabafo. Mas, meus senhores, as grandes decisões já foram tomadas. O resto são flores de estufa. Decoração.

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publicado às 09:14

Portugal vai levar com a taça

por John Wolf, em 19.05.14

Sabemos que a política e o futebol trabalham para o mesmo chulo. Pagam tributos na expectativa de sacar dividendos. Alimentam paixões, ódios e rancores. E com as Europeias ao virar da esquina e o Mundial a aproximar-se a passos largos, e tendo em conta a loucura que tomou conta do país nas últimas semanas, de Turim ao Jamor, julgo ser apropriado tecer algumas considerações. Sabemos que António Costa é benfiquista sem pudor, Santana Lopes sportinguista presidencial e Cavaco Silva taçista de ocasião. Depois temos uns imitadores de bairro, que desejam ser como os crescidos, e lá correm atrás da bola em Belém. Sim, João Almeida serviu-se (embora sem sucesso) desse acesso dos balneários. E Seguro? Joga em que equipa? (não há segundos sentidos aqui. Ok?). E Passos Coelho nutre amizade por que clube? Nem sequer pergunto por Assis que tem ar de emulador de Costa (aposto que é benfiquista). Mas atentemos ao seguinte. Já repararam que Passos Coelho nunca ousou declarar-se adepto deste ou daquele clube? E sabem porquê? Porque ele sabe que há coisas sagradas neste país que não devem ser arrastadas para a arena do jogo sujo. Mas eu tenho uma pergunta: se a austeridade fosse um clube de futebol que emblema seria? E qual seria o seu estádio? Não é que o futebol interesse muito ao país. Que eu saiba a bola apenas gera emprego e fortuna para uns quantos sortudos saídos na rifa desportiva - os que idolatram os homens da bola não participam nos lucros. Não senhor. Recebem apenas pequenas doses de falsa auto-estima (se a coisa correr de feição ao clube ou à equipa de eleição). Veremos se Seguro ou Passos Coelho, em desespero de causa, não deitam as patas ao esférico. A boleia do campeonato do mundo de futebol no Brasil é politicamente tentadora. Mas há um quadro ainda mais devastador que define este país. Mal acaba um festival começa logo o seguinte. Nem sequer falo do alinhamento na sua totalidade. Faço um mero apontamento. Portugal precisa tanto de se colocar em pé e estrabuchar que até dói. Para isso os portugueses têm energia e resmas de vontade. E não parece faltar nada; temos o Rock´in Rio, o Festival do Sueste, o Festival disto e daquilo, a Festa deste e daquele, e por aí fora. Seja qual for o analgésico empregue para afastar as mágoas e tristezas, a ressaca não se vai embora assim sem mais nem menos. Vai-se agravando até que o país caia em coma, atónito, mas pronto para a festa que se segue. Ao amanhecer, no lusco-fusco.

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publicado às 15:45

A idade da emoção política

por John Wolf, em 14.01.14

A idade da razão foi tomada de assalto pelo calor do momento, pelas emoções à flor da pele. Nos últimos tempos, em relação aos quais tenho dificuldade em estabelecer um marcador para o seu início, as nossas sociedades têm sido instigadas a exercer o magistério dos instintos primários. A falência económica e social do sistema capitalista, tal e qual como o conhecíamos, determinou, em larga medida, a deslocação da racionalidade para o campo aberto da luta pela sobrevivência, do salve-se como entender. O desespero dos indivíduos gerou comportamentos assimétricos, de tudo ou nada, de extremismos, de vaticínios, fundamentalismos ou devoção cega. Assistimos, neste quadro de desmoronamento, a expressões de desequilíbrio, de anulação e validação no mesmo gesto. A dialética foi preterida em nome da certeza absoluta. Esta clivagem entre extremos radicalizou posições e antagonizou a própria noção de compromisso societário, alicercado no diálogo, na condição humana enquanto valor maior. Um sem número de eventos e factos terá contribuído para engrandecer a desordem e ampliar a dimensão emocional da condição existencial. A maioria dos acontecimentos inscritos no campo negativo, e a menor parte, no campo do tendencialmente positivo. Sem o desejarmos, ou controlarmos os seus efeitos, estaremos à mercê dessa panóplia de estímulos que apelam a respostas instantâneas, viscerais. A tômbola de doutos e antídotos tem gerado náuseas e um sentimento de insegurança em relação ao futuro. De Snowden aos caprichos de Wall Street, aos casos do BPN e do Freeport, da morte de Eusébio às conquistas de bolas de ouro de Ronaldo, dos protestos de rua dos últimos dois anos, ao mais recente caso de vingança tributária do leitão da Bairrada (sem esquecer a garfada de Hollande); tudo isto contribui para reforçar o domínio do caos, da dependência em relação ao reagente que se segue, o speed emocional que se confunde com a matéria política porosa. Uma vez tombados nessa dependência, os indivíduos prescindem dos requisítos mínimos de racionalidade. E, na minha opinião, isso constitui uma séria ameaça. Porque, no contexto desse ambiente propício ao populismo, as mais radicais ideias encontram o terreno propício para serem readmitidas. Refiro-me a laivos substantivos de anti-semitismo, fascismo e corporativismo, registados sem agrado um pouco por toda a Europa debilitada. A euforia dos últimos tempos faz pendular os mais indefesos entre a glória e a desgraça, como se fossem marionetas. Reitero, de um modo humilde e pequeno, a salvaguarda de uma parte do juízo, para podermos separar o trigo do joio, o essencial do perdulário. As emoções devem comandar a vida, a poesia, a arte, mas não necessariamente a prosa política. Tenhamos atenção ao espectáculo que se nos têm oferecido nos últimos tempos, qualquer que seja a arena da nossa preferência.

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publicado às 20:47

Um recuo civilizacional sem precedentes

por João Quaresma, em 12.10.13

«A liberdade com roupagem de opulência, consumo, "conforto" e prazer escondia, pois, indústrias milionárias de alienação, a destruição sistemática das instituições inculcadoras da ordem social, cultural, e política. Foi com a benção do consumismo, do crédito para todos, do dinheiro barato que se semeou a crença que a felicidade individual só se realizaria com a substituição do dever pelo prazer e quando todas as formas de autoridade fossem substituídas pela cultura do lúdico. Certamente que ao cerrado combate para a destruição da escola e da cultura na sua expressão mais latitudinal - hoje transformadas em negócio e consumo - implicaria ipso facto o fim da própria ideia de cultura. Pensaram os ingénuos que se abria uma nova era de ilimitado experimentalismo e busca de um novo tipo de homem. Compreende-se agora o mito da "classe média", solução engenhosa para desagregar a cultura de classe (inerente a cada grupo social) e sobre ela criar uma só classe de consumistas, angariadores de crédito e prazer. A bolha imobiliária (como a bolha do automóvel para todos, a bolha das PPP's para abrir estradas levando às "novas urbanizações") - tudo isso um negócio que requeria mais mercado.

A verdade é que o capitalismo libertário se desfez deliberadamente de todas as formas de limitação - por via da moral, da ética, da responsabilidade - para, assim, implantar, não o contrário da velha ordem burguesa, mas uma sociedade sem centro, um não-Estado, uma anti-economia. Assim se explica a continuada mutilação da dimensão integradora do Estado - assistencial, educadora, codificadora, policiadora - ao longo das últimas três ou quadro décadas. Assim fica explicado o derrube da ideia de fronteira política e económica, a desvalorização moral do trabalho, a exaltação do protestarismo, o culto do "Outro" (multiculturalismo), o combate cerrado contra o patriotismo, as forças armadas e a "educação autoritária". Neste combate, a esquerda divulgou, vulgarizou, legitimou os chamados "sentimentos nobres", enquanto aderia sem reserva alguma à globalização, às migrações, à "cidadania universal". A "cidadania universal" queria apenas dizer mais imigrantes, derrube do sistema social europeu, deslocalização do aparelho produtivo. A Europa, que por via dos fascismos e do comunismo, se armara de dispositivos para regular o desespero dos pequenos, assistiu ao longo dos últimos anos a um recuo civilizacional sem precedentes. Para iludir o vazio, o liberalismo libertário inventou a ilusão da participação, estimulando o convivialismo das internets, as tribunas opinadoras, as causas que - tantas são - dispersam a angústia e compensam psicologicamente os cidadãos pela perda efectiva de capacidade interventora.»

 

Miguel Castelo-Branco, no Combustões.

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publicado às 06:14

From La Plata with love

por Nuno Castelo-Branco, em 04.05.13

A Madame Kirchner fartou-se daqueles liberais princípios sobre os quais se fundamentou a independência da Argentina. Mandando a separação de poderes ir dar uma volta sem retorno à Tierra del Fuego, a impaciente dirigente achou por bem instaurar uma nova ordem, levando a "democracia" ao sector judicial. Não contente em ter aumentado de 13 para 19 o número de juízes do Conselho de Magistrados, também decidiu que doze deles passarão a ser "eleitos por voto popular e filiados em partidos políticos"... Os remanescentes sete juízes virão do Congresso, enquanto o modestíssimo governo se contentará com a nomeação de um. O resto da estória está aqui e à disposição de quem tiver paciência para estas ""Evitadas" de meia-tigela. 

 

Como este video demonstra, a führerina perdeu a cabeça e dir-se-ia tudo estar a fazer para um dia destes comer "peixe-espada".

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publicado às 20:00

Realpolitik oblige

por João Pinto Bastos, em 12.11.12

A visita da chanceler Merkel teve o singelo mérito de exibir à saciedade o eterno provincianismo deste país. Horas e horas de directos, sem qualquer sumo jornalístico digno desse nome.  Não se pergunta, não se questiona, não se informa. Desinforma-se e oculta-se. Na rua, manifestam-se os janotas do costume, soltandos os chavões bandoleiros de sempre. Ao que parece, e avaliando pela amostra transmitida pelas televisões, a bicefalia bloquista teve aqui a sua primeira prova de fogo: os urros e clamores sectários cumpriram à risca as prescrições dogmáticas da nova liderança. Entrementes, Merkel fez a sua visita, efectuou a habitual diplomacia do croquete e assegurou, por mais algum tempo, a obediência atinada do bom aluno Passos Coelho. No fundo, Merkel fez aquilo que qualquer líder político, devidamente ciente das suas prerrogativas, faria no seu lugar: a defesa intransigente dos interesses do seu país. Mas, e agora questiono e questiono-me, haverá alguém, minimamente lúcido, que acredite que os Estados nacionais não vejam na defesa dos seus interesses o principal vector das suas políticas externas? A julgar pelas manifestações do dia de hoje, parece que sim. O que o Embaixador Francisco Seixas da Costa disse aqui é por de mais evidente, posto que os governos são eleitos para defender, em primeira mão, os interesses nacionais. Não nos iludamos, por favor. As relações entre Estados, por mais romantizadas que possam ser, e são-no, traduzem-se mormente naquilo a que Bismarck (aqui citado pelo Rui Crull Tabosa) qualificava como egoísmo político. E Merkel esteve aqui, sobretudo, para isso: para defender o egoísmo germânico da apoplexia financeira portuguesa. Nada mais.

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publicado às 18:55

Os três Fs: Futebol, Futebol e mais Futebol

por João Quaresma, em 04.06.12
Um pequeno passo para vinte e dois homens, um passo gigantesco para a mediocridade.

Todas as televisões a transmitirem em directo o momento histórico (e supostamente histérico) da descolagem do Airbus da TAP que leva a Selecção de Futebol para a Polónia. Os média já tinham registado o momento da entrada dos jogadores na aeronave, onde foram cumprimentados pelos membros da tripulação. Horas antes, o presidente que não se pronuncia sobre nada, que nunca compareceu às cerimónias nem disse uma palavra que fosse sobre a extinção do feriado da Restauração da Independência, recebeu a Selecção de Futebol e fez um autêntico discurso de estado, sobre como os jogadores têm grandes responsabilidades sobre os seus ombros, inclusive no exemplo que dão às gerações mais jovens.

Não fosse esta equipa a selecção nacional e eu já estaria mas era a torcer para que fossem eliminados quanto antes para acabar este espectáculo vergonhoso.

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publicado às 18:35

O farrismo dos "opinion-makers"

por Nuno Castelo-Branco, em 22.08.08

 

Os habituais fazedores daquilo a que abusivamente se chama opinião pública, desesperam no final de um verão que como é regra, tem sido parco em notícias capazes  de atrair um mínimo de atenção. De facto, não existe em Portugal, uma opinião pública tal como a conhecemos em alguns grandes centros urbanos na Europa ou nos Estados Unidos. No nosso país, essa opinativa actividade, é reservada a uma dúzia de participantes no jogo político que aparentemente criticam. Os habituais amigos, filhos, primos ou amantes de "personalidades de relevo", entram-nos em casa todos os dias, perturbam-nos a digestão e obrigam os telespectadores à maçada muito pequeno burguesa do zapping, na esperança de uma fuga às pequenas misérias que pelo passe prestidigitador desses opinion makers - é assim que se reconhecem e se comunicam, sempre em inglês -, sobem às alturas e transcendências dos outstanding events ou breaking news.

 

Para existir uma verdadeira opinião pública, essa massa anónima que teoricamente nomeia ou despromove políticas ou personalidades, um país terá infalivelmente que contar com sectores consistentemente organizados e participativos nas mais ínfimas formas de manifestação de interesse pelo destino comum. A isto normalmente se chama "espírito cívico" e na Inglaterra, por exemplo, proliferam sociedades já centenárias, onde os seus sócios se dedicam à preservação  de testemunhos de um passado aparentemente desinteressante  e por vezes excêntrico - a sociedade dos arqueiros, dos lanceiros ou dos amigos dos torneios -, mas que para uma comunidade, reafirma pela sua simples existência, uma constante naquele sentimento de pertença a uma terra, a um povo, enfim , à identidade que lhes é por qualquer forasteiro reconhecida. Desta forma, se em Lisboa entrarmos numa casa de revistas e jornais, podemos contar com um grande número de publicações especializadas em temas por vezes estranhos ou anacrónicos, onde após milhares de páginas publicadas durante dois séculos, ainda são publicados textos relativos a Waterloo, ou às características náuticas deste ou daquele vaso de guerra da Marinha Real do século XVII. Há quem se interesse, investigue e publique, sabendo da existência de um público ansioso por saber mais, em cimentar certezas e talvez, ávido em cultivar um certo fetichismo por símbolos de um passado que lhe dá razão de ser. É esta gente que lê, que se interessa e segue atentamente os debates sob os mais diversos temas nas tv's nacionais e estrangeiras, que constitui verdadeiramente a chamada opinião pública. Entende os discursos, possui referências capazes de situar o colóquio ou tema deste,  no espaço e tempo histórico e forma assim, um núcleo decerto restrito mas influente, de verdadeiros cidadãos aos quais os agentes políticos terão forçosamente de dar a devida importância. 

 

Em Portugal, não existe esse tipo de opinião pública e é supérfluo explicarmos a causa dessa grande lacuna num sistema - ou melhor, forma de governo - que se reclama da democracia. Existe sim, uma opinião que, sendo restrita a um círculo indecentemente íntimo dos donos da situação, não pode ser considerada pública, pois reserva-se a uma casta de duvidosa pré-selecção em conformidade com as regras acima descritas e que condiciona a informação que interessa. Os debates televisivos alongam-se infinitamente em discussões absolutamente irrelevantes e a aproximação da abertura das taças e campeonatos da "Liga" são um bom exemplo, ou recorrendo ao hipocondrismo latente na sociedade, debatem-se consecutivamente, centos de cancros e tumores, fungos e bactérias. Os horários nobres são desta forma monopolizados por todo o tipo de lixo susceptível de consumo, seja aquele protagonizado por um Dono da Bola, um intriguista dos mentideros das alfurjas da partidocracia tentacular, ou pior ainda, por novelas ou séries sem qualquer interesse e perfeitamente virtuais no que respeita à realidade portuguesa.  A esmagadora maioria dos sujeitos passivos -  os espectadores -"não quer saber" e pior, manifesta orgulhosa fanfarronice nesse desinteresse. A política, o ambiente, os problemas locais, a História, isso, ..."é para eles, os malandros que se governam à nossa conta"...É esta, a grande opinião pública que temos.

 

A verdadeira opinião local, é diariamente engendrada pelos fazedores de casos e açuladores daquilo que é mais rapidamente assimilável por massas embrutecidas ao longo de muitas décadas. Uma notícia vem quase sempre acompanhada pela censura velada ..."à arrogância, afastamento e desinteresse pela festa popular"... e desta forma, o putativo candidato a governante, terá para essa gente, que se sujeitar ao íntimo contacto e à perda do seu precioso tempo e de energia, com o eleitor incapaz de qualquer discernimento, ou, ainda  pior, de decidir conscientemente acerca de qualquer aspecto minimamente relevante da sociedade. Para os opinion makers domésticos, o bom político interessado, é aquele que se sujeita ao regabofe circense, ao permanente escrutínio da sempre presente inveja e do despeito deste ou daquele grupo de melindrados, estranhos ao círculo próximo da vítima a abater. Deve mercadejar em feiras, calcorrear lotas até à síncope libertadora, em nome da condescendência perante o zero absoluto. Quantos de nós não conserva a memória das patéticas cenas protagonizadas por ex-chefes do Estado, que cedendo ao populachismo fácil, envenenaram o relacionamento das gentes com as forças da autoridade, desrespeitaram o próprio Estado que dizem encarnar e deram deplorável sinal de fraqueza e rendição diante do voraz apetite de umas quantas objectivas fotográficas? 

 

Manuela Ferreira Leite vê chegada a sua hora amarga  e a decisiva prova de fogo, estando à mercê de uma coligação de vontades - jornais, tv, blogosfera, opositores do PPD - que antes de tudo, pretende contestar uma liderança já crismada não se descortina o porquê, de "frágil e inconsistente". Tudo isto se deve ao seu silêncio relativo a este ou aquele extraordinário evento lúdico promovido pelos meias-brancas do Partido, ou pelo menosprezo de um qualquer episódio menos feliz protagonizado pelo seu opositor governamental. A presidente não vai à feira, não frequenta bailaricos de arromba, não come fressura, nem emborca carrascão acompanhado de morcelas e sandecas de torresmo. Não está para isso e nem foi ao longo de mais de meio século, habituada à frequência desse tipo de tugúrios. É uma senhora, espécie em vias de extinção. Faz bem, ao contrário daquilo que lemos e ouvimos nos noticiários. Nesse aspecto muito particular da vida pública, creio que bem vão Sócrates e Ferreira Leite, quando se escusam a "dar confiança" a quem não interessa, não vale, nem pode. Nada de confusões.

 

 

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publicado às 16:05






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