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10 de Junho

por Nuno Castelo-Branco, em 12.06.17

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 A continuidade histórica foi retomada e um bom exemplo foi o simbólico desfraldar de todas as bandeiras que foram, são e para sempre serão portuguesas. Para despeito de alguns que ainda são demasiados, foi isso mesmo o que os mais altos órgãos do Estado finalmente assumiram. Portugal não surgiu em 1385, 1640, 1810, 1820, 1834, 1910, 1926 ou 1974. Assume assim integralmente todo o seu passado quase milenar.

Agora, falando ainda mais a sério, aqui fica a necessária opinião acerca da dupla que foi ao Brasil comemorar não uma mera festa nacional que nem sequer é o dia da independência do Estado, mas sim a Portugalidade em tudo o que o termo encerra no seu todo pluricontinental, como um quase esquecido comunicado um dia infelizmente rezou em vão. 

O 10 de Junho estendeu-se a países extra-europeus e isso é positivo. Os portugueses e respectiva descendência que por lá vivem e trabalham têm sido olhados como meros utensílios arrecada-divisas e este aspecto não é apenas algo imputável a este regime que deles tem abusado, pois o abusivo costume verifica-se desde há muito. Na história dos nossos trisavós, foram evidentes os sobressaltos quando a Metrópole se viu atingida por esta ou aquela quebra da moeda ou crise económica e financeira além Atlântico. Já era tempo de vermos nos nossos compatriotas não apenas o que tradicionalmente a abstenção total que grassava nos gabinetes de Lisboa impediu de considerar, ou seja, valiosos agentes fora de portas, servindo não apenas os nossos interesses da exportação de produtos portugueses, mas sim como força de influência.

 
Não estando em causa as personagens, ficaram então os princípios que há umas décadas andam demasiadamente perdidos nas brumas da memória. Estávamos habituados a cimeiras onde fazíamos a vez do parceiro novo rico mas à conta e infalivelmente obediente, é verdade,. Estas resumiam-se a paragens e lugares que se tornaram muito comuns, limitando-se ao espaço físico dos 28, perdão, 27 convivas continentais. Tudo se resumia afinal a acatar directivas engendradas não se sabe bem em que gabinete no estrangeiro. Obedecia-se e em suma, a nossa política externa deixou de ser nossa.

Nada pôde ser mais errado - e desnecessário, como se comprova -, pois significou a voluntária renúncia a uma política externa portuguesa que como agora se vê, gostem ou não gostem os restantes rotativos que inevitavelmente regressarão um dia ao poder,  reemerge. Viagens de trabalho à China, Índia, África lusófona e Brasil, eis o caminho tradicional agora retomado e essencial à preservação da nossa identidade. O outro projecto? Um complemento de conjuntura da geopolítica. Pouco importando aquele que ocupe o cadeirão governamental, esta é mesmo uma obrigação nacional, dado todos supormos a insistência deste país em querer continuar a existir.

Os bons momentos, sempre passageiros ao longo desta já longa história, podem e devem ser aproveitados. Com alguma audácia até a aliança luso-britânica será revivida, pois com a atenção que o assunto obviamente merece, facilmente verificaremos que tal é do total interesse de ambos os comprometidos na mesma. Poderemos vir a ser-lhes muito úteis, disso não existe a menor dúvida e tudo se conjuga para esta suposição. Regimes chegaram e mais tarde partiram, o princípio e o interesse comum permaneceu. O resto? Que espere ou se conforme.

Contemos então com a desejável reserva mental, desfaçatez, oportunismo, hipocrisia e visão para além da mercearia de quem está ao leme, pois é disso mesmo que se trata e Portugal precisa: olhar para o mar, mais realismo e muito menos sonoros princípios de vacuidade afrancesada. Isso que fique então reservado para os infinitos palratórios de eurogrupos e afins, porque o fazer de conta é parte integral dos bons políticos que infelizmente têm escasseado. Como luso-africano de quarta geração e que em nenhum clubezinho de interesses  está inscrito para além do ginásio, rejubilo.

Sim, do Minho a Timor. Porquê? Têm alguma dúvida? Aproveitemos então.

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publicado às 13:45

Memórias da "net"

por João Quaresma, em 14.03.14

Por estes dias, assinalaram-se os vinte e cinco anos da criação da World Wide Web, sendo de referir que este ano também decorrem vinte anos da chegada da Internet a Portugal.

Penso que podemos dizer que Portugal aderiu relativamente bem à Internet, talvez pelo melhor domínio da língua inglesa comparativamente a outros povos, e aderiu melhor e mais atempadamente que outros países (França, por exemplo, apesar de já aí existir um sistema funcional mas muito mais primitivo desde 1980, o Minitel). Desses tempos, recordo-me do fascínio que foi descobrir este maravilhoso meio de partilha de informação e da comunicação entre utilizadores, independentemente da sua localização geográfica. De repente, podia-se consultar publicações de universidades americanas, os jornais australianos, conversar com amigos que se iam fazendo em várias partes do mundo, em simultâneo estivessem eles em Macau ou no Canadá, ou participar em grupos de debate internacionais. Hoje tudo isto é absolutamente banal. Mas, nas minhas primeiras navegações em princípios de 1995, a capacidade para enviar e receber informação de um computador para outro através do mundo, em fracções de segundo, ainda era qualquer coisa de formidável. Lembro-me de, certo dia, um amigo brasileiro enviar-me fotografias tiradas momentos antes nos confins da Amazónia, através de uma ligação via satélite, e de muita gente a quem eu contava isto não acreditar que fosse real. Aliás, a grande maioria não conseguia entender do que a Internet se tratava e achava que nós, os internautas dos primeiros tempos, éramos uns maluquinhos que sabe-se lá por que razão passavam muito tempo frente ao computador.

A propósito, recordo-me uma história curiosa que me contaram na altura. Antes da Microsoft apostar na Internet - Bill Gates, inicialmente, não lhe adivinhava grande futuro - e de se generalizar o browser Internet Explorer, o programa de consulta na WWW mais usado era outro, produzido por uma empresa norte-americana chamada Nestcape.

Elaborado o programa, a empresa teve o problema de escolher-lhe um nome eficaz. Tal como disse, nesses tempos muita gente não conseguia assimilar verdadeiramente do que a Internet se tratava, e dizer que era um programa para consultar uma base de dados seria pouco apelativo. Um dos programadores, neto de emigrantes portugueses, explicou ao responsável pela comercialização que a WWW era mais que uma base de dados, que era um verdadeiro oceano de informação disponível, que estava à espera de ser descoberta para ser consultada. Circular na internet seria como navegar num oceano, à descoberta, como fizeram os navegadores portugueses. Assim, propôs um nome condizente, que foi adoptado: Nescape Navigator. Surgiu assim a expressão «navegar» na Internet. Talvez alguns internautas dessa época tenham reparado que os primeiros logotipos do Navigator eram uma roda do leme em madeira, como as das caravelas, com a Cruz de Cristo no centro. Perante o sucesso do Nescape Navigator, a Microsoft lançou o seu próprio browser com um nome usando o mesmo conceito, o Internet Explorer.

E assim ficou uma pequena, ligeira marca de portugalidade no desenvolvimento da Internet, e tudo graças a um americano que se lembrou das suas raízes portuguesas. Isto é o que se chama herança cultural.

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publicado às 04:22

Noite de Natal

por João Quaresma, em 24.12.12

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publicado às 20:35

Da portugalidade (1)

por Samuel de Paiva Pires, em 23.11.12

Francisco da Cunha Leão, Do Homem Português:

 

«O homem preferido pelo português é o herói iluminado, cuja acção, tantas vezes intrépida, tem auréola de missão, um halo de poesia ou de transcendente destino.

 

Oliveira Martins, ao observar que o fundo céltico se manifesta em alto grau nos tipos humanos excepcionais da história pátria, como Nun’Álvares e D. João de Castro (este na sua ingénua ternura pela natureza), teve a intuição perfeita do herói português.

 

Logo no Amadis, esse ideal antropológico que se evidencia, todo pureza e sonho.

 

O herói iluminado não é simples impulsivo nem mero militante. Cabe aqui distingui-lo do tantas vezes temerário espanhol, propenso ao militantismo extremo, seguro do seu ideal enfático de personalidade.

 

O instrospeccionismo saudoso e as inferioridades numéricas, de que nunca esta nação se libertou, concorriam para preencher reflexivamente os entreactos da aventura, tornando-a eficaz. Há sinceridade na máscara do herói português. Basta olhar a face dos figurantes que povoam os painéis de Nuno Gonçalves. É resignado o rosto dos nossos Cristos, intimamente sofredores, em contraste com os espanhóis, tétricos, espectaculares.

 

O heroísmo foi inscrito por João de Castro Osório como característica dominante dos portugueses.

 

Heróico ou não, o comum dos portugueses só rende quanto é capaz, desde que situado em missão. O simples economismo só de níveis de vida e maquinetas, embora o interesse bastante, até pelo aspecto reclamativo social e político, não o prende totalmente. Quer a missão, campanha que pode ter carácter económico e social.

 

Uma vez que a não sinta, degrada-se. A crise da missão histórica reflectiu-se em crise do homem. Pulularam então os subprodutos do heroísmo: - o marialva, o fadista, conforme os escalões sociais, e certos bandoleiros; entre estes últimos, José do Telhado é do tipo galaico, José Brandão, do lusitano. Já o libertinismo puro não é connosco, amorosos por natureza, apaixonadiços, inflamáveis. O cálculo frio, em amor, é-nos difícil sustentar.»

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publicado às 14:33






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