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O silêncio pode ser ensurdecedor

por John Wolf, em 21.10.17

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Acabo de regressar da manifestação humana, de homens e mulheres, despidos de ideologia ou partidos políticos, que aconteceu na Praça do Comércio a propósito da falência ética e técnica do presente governo. Para cima de dez mil pessoas estiveram, solenes e dignos, em pose de indignação interior. Não foi necessária uma liderança vocal do protesto, não foram necessários acessórios partidários. As pessoas, toldadas e incrédulas pelo abandono do Estado em Pedrógão, Mação ou Arganil, vieram em paz, à civil. No entanto, o movimento silencioso e sereno foi contemplado por uma provocação com provável origem no governo e as suas filiais de geringonça. Bastou uma pequena seita de provocadores, que hasteou a bandeira da culpa do PS, PSD e CDS, para que alguns arrufos e socos mal orientados decorassem o terreiro do Paço. Os media, que vivem de sangue e emoções à flor da pele, para vender publicidade e comprar tele-espectadores, aproveitaram a pequena deixa para denominar a manifestação de "violenta". A RTP, pertença do Estado e do governo, apelidou o evento de "manifestação contra os incêndios", mas está a ser cínica e a obedecer aos patrões. O protesto foi mesmo contra a inexistência do governo, do Estado. Foi a favor da maior prerrogativa que um Estado deve defender - a protecção dos seus cidadãos. Mais nada.

 

fotografia: John Wolf

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publicado às 19:33

Pinhal de Dívida Pública

por John Wolf, em 20.10.17

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Existe outra frente de incêndio activa em Portugal. Um fogo de proporções assinalável, que até 2015 estava a ser controlado, lavra agora sem que um corpo de bombeiros exista para o combater - a DÍVIDA PÚBLICA. Os incendiários, entretanto, já foram identificados. Alegadamente, o gangue composto por três elementos -  o PS, o PCP e o BE -, anda a monte. A dívida privada, por seu turno, já conseguiu organizar um concerto de solidariedade para diminuir os seus encargos e inverter a tendência dessa chama financeira. Em breve mais notícias. Um estoiro, uma explosão. Mais um resgate.

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publicado às 13:56

Fase de rescaldo

por Samuel de Paiva Pires, em 18.10.17

A agora ex-ministra da Administração Interna já não tinha condições para continuar no cargo há, pelo menos, 4 meses. Era inevitável que saísse do Governo, embora não seja despiciendo referir que foi necessário o Presidente da República intervir para António Costa se submeter ao que já era mais do que evidente. Mas agora, independentemente da dança das cadeiras no Governo, o que importa é saber se o Primeiro-Ministro vai tornar a reforma do dispositivo de prevenção e combate aos fogos uma prioridade nacional, alocando os recursos que forem necessários para evitar que se volte a repetir algo que possa assemelhar-se ao que aconteceu no passado fim-de-semana e em Junho. Agora que veio a chuva, esperemos que não se limite a mudar pouca coisa para que, na essência, fique tudo como está e para o ano haja mais do mesmo, como vem acontecendo há já cerca de 40 anos. Quanto mais não seja, e como Marcelo Rebelo de Sousa deixou patente no seu discurso, para assegurar a sobrevivência do seu Governo - algo que parece motivar o Primeiro-Ministro muito mais do que considerações éticas, sobre o interesse nacional ou a respeito das funções primordiais do Estado.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 22:31

Ministra demitida, animal à solta...

por John Wolf, em 18.10.17

 

A demissão da ministra da administração interna Constança Urbano de Sousa soltou o animal de perguntas e questões que estavam dentro de mim. À laia de caos instalado, vou atirar as interrogações ao ar, sem que as mesmas tenham nexo entre si ou sejam justificadas. Aliás, são totalmente despropositadas;

 

1. Quem preenche o lugar deixado vago pela ministra? Simples. Alguém do PCP ou do BE.

2. Porquê? Porque nunca governaram o que quer que fosse e fazia-lhes bem ao currículo provar esse veneno chamado poder político. Afinal, garganta e mais garganta não pode ser.

3. Marcelo Rebelo de Sousa demitiu a ministra? Sim. Respondeu ao pedido que havia sido formulado pela própria há quatro meses e que foi indeferido por António Costa.

4. Significa que as relações entre o presidente e o primeiro-ministro foram afectadas? Sim. O presidente terá um mandato que extravasa os limites temporais da legislatura e convém ir afagando o pêlo de uma alternativa ideológica de governo.

5. O facto da ministra ser uma mulher facilitou a pressão exercida por António Costa? Sim e não. Por um lado, a senhora é um osso duro de roer, e por outro, não deixa de ser uma mulher e António Costa não deixa de ser António Costa.

6. A descoberta das armas roubadas em Tancos foi uma coincidência ou não? Não foi. Aquele trunfo político estava no armazém de oportunismos. Mas saiu o tiro pela culatra. Não serve para grande coisa. O povo topa logo.

7. António Costa já pediu desculpa à ministra da administração interna? Não, mas ainda vai a tempo. E para além de isso, o ministro Vieira da Silva já lhe endereçou um abraço de solidariedade.

8. Por que é que os Verdes ou o PAN não tomam a iniciativa da reforma da floresta? Porque não é a sua especialidade. Não têm competência para tal acção e estão a ser muito sensatos.

9. Um pedido de desculpa não resolve nada? Não. Nada mesmo. O deputado do PCP João Oliveira pediu perdão por esta mesma explicação.

10. E por último; a Protecção Civil é uma designação bem atribuida? Sim, senhor. É adequada e corresponde à realidade. Foram os civis que se defenderam das chamas o melhor que souberam. Se tivesse sido o Estado, chamar-se-ia Protecção Estatal.

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publicado às 13:56

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Os políticos que não respeitam a vida e desonram a morte não têm condições para ser lideres. António Costa e Constança Urbano de Sousa ainda não realizaram o diálogo filosófico e ético a que estão obrigados. Independentemente de critérios técnicos, logísticos e operacionais, o primeiro-ministro e a ministra da administração interna esquecem que respondem perante Deus e imperativos de ordem moral. A comunidade de crentes não aceita a missa que reitera que "as comunidades têm de se tornar mais resilientes". Este discurso  lembra modelos de selecção natural aplicados por regimes fascistas ou nacional-socialistas. De acordo com a Constança Urbano de Sousa, a tragédia e as mortes tornarão as sucessivas gerações melhor preparadas para o apocalipse final. O determinismo patente nestas afirmações, desprovidas de empatia e religiosidade, remete as vítimas e familiares para a odisseia trágica, para a anulação existencial. A entidade sagrada foi totalmente obliterada em nome de considerações políticas. A ministra da administração tem o desplante de agradecer os profissionais de saúde por terem anulado a greve prevista, mas pode colocar debaixo do travesseiro as quase cem mortes e dormir descansadinha - Tancinha.

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publicado às 12:34

Centeno, o arguido da dívida

por John Wolf, em 12.10.17

 

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Acusam o camarada Sócrates, e logo no dia seguinte Centeno anuncia que a dívida vai baixar. Existe relação entre os dois factos? Talvez. Mas o ministro das finanças está a ser muito optimista. A haver condenação e compensação financeira, o dinheiro ainda demorará a ser cobrado, a chegar aos cofres do Estado - faltam os recursos, os julgamentos, as sentenças e as execuções. Eu entendo a excitação monetária da geringonça - os milhões do desfalque são muitos -, mas calma, aguentem os cavalos. Para além dessas fantasias, existem incontornavelmente outros factores a ter em conta. Como é que este economista ousa apontar uma melhoria no serviço de dívida, se sabemos sem margem para dúvida, que o Banco Central Europeu irá subir as taxas de juro de referência nos próximos tempos? Como dizia o acusado-mor 44 - "a dívida é para ir gerindo". Até parece que Centeno nunca ouviu falar em ceteris paribus, como se fosse possível congelar a realidade financeira do resto do mundo e analisar Portugal como se esta fosse uma entidade independente, uma Catalunha da dívida pública. Para atenuar de um modo irrisório a tendência fatal de crescimento da dívida o governo de Portugal teria de cortar o investimento público de um modo ainda mais significativo. Ou seja, fingir a ficção dos cofres abundantes, de tesouraria saudável. Mas há mais lições de economia para totós a ter em conta. Sem poupança não há investimento, e a máquina de propaganda da geringonça pura e simplesmente não consegue escamotear a ausência de poupança pública e privada. Diria mais; cada vez que os níveis de confiança dos consumidores se elevam, o governo e o ministério das finanças festejam o facto, brindando-se vezes sem conta pelo comportamento material dos portugueses. E isso é grave. Significa que os trabalhadores gastam a quase totalidade do salário auferido - chapa ganha, chapa gasta. Para além dessa fraude, servem-se de um indicador caduco para se congratularem antecipadamente por vitórias que não controlam. A saber, e a título de exemplo; a Inflação (core inflation) exclui do seu processo de cálculo a Energia e os Bens Alimentares, o que falsifica ainda mais a realidade financeira dos factos. Por outras palavras, o "acordão" de diminuição da dívida pública nem precisa de ter 4000 páginas para ser uma ficção de bolso, de levar por casa. A dívida está encravada e é uma unha sem fim.

 

foto: Jornal Económico

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publicado às 17:57

A geringonça e o IRS para incautos

por John Wolf, em 08.10.17

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A fasquia do IRS, colocada a esse nível de rendimentos, produz um efeito detractor. Ou seja, não estabelece relação com o salário mínimo nacional - essa barreira psicológica, a ranhosa mula de carga de tanta glória política. No entanto, um salário até 925 euros, livre de IRS, é um presente envenenado que merece alguns cuidados. As inúmeras satisfações que daí possam advir são compensadas por uma mecânica de pensamento negativa, inversa. Um empregador que pretenda contratar um colaborador intermédio, ou seja, aquele com algum grau de especialização acima de cão, pode servir-se do osso da vantagem de isenção de IRS para converter um candidato a emprego a aceitar um salário mais baixo que não chega bem aos 1000 euros. A solução apresentada como apanágio das benesses laborais, traduz bem o ponto mediano de um sistema ao qual nada parece escapar. O efeito de ilusão, de passe de magia, mantém embutida no espírito do assalariado a falsa sensação de vantagem. O Partido Comunista Português, que foi obliterado nas autárquicas, ainda é suficientemente insonso para ir nesta cantiga ao abrigo do clausulado da geringonça. A receita milagreira vai promover subterfúgios de ordem diversa na classe média laboral. Sabemos bem como funcionam os pagamentos, as facturas e recibos em Portugal. Sabemos como se produzem declarações. O povo sempre recebeu por fora. E o governo sabe isso. A expressão corrente e escorreita é a seguinte:  vou trabalhar umas horas para ganhar mais algum. O governo pode ser muito esperto, mas não nos deixemos enganar pelo modo engenhoso de pôr os empregadores a puxar para baixo - o salário, seja qual for o nome que derem a esse prémio tributativo.

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publicado às 17:10

Santana Lopes, o socialista

por John Wolf, em 07.10.17

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Proponho uma simples reflexão, um pequeno exercício. O Partido Social Democrata (PSD) está obrigado a encontrar um lider que possa contestar de um modo profundo e eficaz as soluções de governação da geringonça. E existe uma pequena fissura por onde entra alguma sombra de dissensão entre o Partido Socialista (PS), a Coligação Democrática Unitária (CDU) e o Bloco de Esquerda (BE) - as autárquicas puseram as comadres a ralhar, umas mais do que as outras. Mas limitemos o âmbito destas considerações ao tema da liderança no PSD. Sem nutrir preferências por putativas candidaturas, gostaria de ressalvar os seguintes aspectos de uma hipotética candidatura de Santana Lopes. Começemos então pelo seguinte; a questão da antiguidade, do repescar de velhas figuras de outros ciclos e mandatos políticos. O PS é um bom exemplo dessa prática museológica. Lá estão o Ferro Rodrigues e o Carlos César que julgávamos que tinham descalçado as botas do combate, encostado às boxes - não é o caso, estão aí cheios de Viagra. Ou seja, Santana Lopes tem legitimidade para pensar um regresso - tem a mesma idade política daqueles socialistas. Mas há mais, quiçá de índole incontornável. Que eu saiba, durante o consulado de Santana Lopes na Santa Casa de Misericórdia de Lisboa (SCML), não fomos confrontados com algo equivalente a um Processo Marquês, um escândalo de desvio de fundos para benefício próprio ou alguma forma de tráfico de influências. Por outras palavras, se Santana Lopes for o adversário a abater, o PS terá de esgravatar muito para fundamentar teses de roupa suja, de falência técnica ou ética. E há mais. A própria missão da SCML é mais socialista do que o socialismo do Rato. Assim sendo, Santana Lopes, e decorrente do conceito de redistribuição  de riqueza, é mais comunista do que Jerónimo e mais bloquista do que Catarina. Adiante. Avante. Não nos esqueçamos do seguinte; Santana Lopes está para Durão Barroso como Passos Coelho está para Sócrates. Ambos entraram para limpar borrada alheia, arrumar a casa e inverter processos de desarranjo político e económico. Ou seja, Santana Lopes, à falta de originalidade, tem argumentos que encaixam perfeitamente na matriz do poder instalado. António Costa deve ser considerado uma velha raposa, com a escola toda. Se um caloiro do PSD fosse promovido a regente, seria como entregar carne sacrificial ao rito de uma igreja ideológica e partidária que faz uso de todos os argumentos de desgaste e arremesso políticos. Vamos ver de que modo o PS volta a confrontar um seu velho adversário. No PS queriam o Rio, que é quase da casa, mas as bases do PSD já viram outros camaradas serem aliciados e depois corrompidos nos meses que se seguiram àquela noite longa de Outubro.

 

foto: Jornal de Negócios

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publicado às 11:58

O PS descongela algumas carreiras

por John Wolf, em 06.10.17

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2011 não vos faz lembrar qualquer coisa? Não foi aquele ano em que tivemos o estoiro e a coligação PSD-CDS tomou conta das ocorrências? Vamos ver se eu entendo o que está em causa. Se estou a ler correctamente, António Costa e o tesoureiro Mário Centeno estão a ser particularmente selectivos, discriminatórios até - os trabalhadores promovidos pelo governo anterior ficam de fora do processo de descongelamento de rendimentos? É isso? Ou sou eu que vejo mal? Deve ser coincidência, mas soa a perseguição, a vingança, a derradeira ferroada nos resquícios do governo liderado por Passos Coelho. Em todo o caso, estes factos exprimem outra realidade. Doa a quem doer, já se começam a sentir os apertos das extravagâncias orçamentais e de gestão da geringonça. Às mãos largas seguem-se os pés chatos - a marcha da riqueza ficou comprometida. A Função Pública é uma espécie de mula para toda a carga. Puseram-lhe uma bela cenoura à frente do chanfro, mas aumentaram a distância entre a leguminosa e a fuça do funcionário. O Partido Socialista (PS) dá e tira. Deu ao Partido Comunista e tirou à CDU. Emprestou ao Bloco de Esquerda, mas penhorou a Catarina Martins. Meus senhores, isto vai acabar à estalada. Primeira regra dos negócios: nunca trair os parceiros. O PS constituiu sociedades de paz e progresso a jusante e a montante, mas foi avalista de si mesmo. Deu-se como garantia maior, mas o cheque político está careca. É tudo uma questão de crédito. Ou acreditamos ou não.

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publicado às 09:46

Jerónimo tem a foice e o queijo na mão

por John Wolf, em 04.10.17

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Jerónimo de Sousa está com os azeites. Em 2015 tinham-lhe prometido uma bela colheita se alinhasse com os socialistas e levasse a reboque o Bloco de Esquerda (BE), mas parece que lhe passaram a perna. O Partido Socialista conseguiu enganar os comunistas nas autárquicas e convencer uma mão cheia de marxistas a despir esse macacão. Falam de sedição e traição da Catalunha, mas a Coligação Democrática Unitária (CDU) não é uma região autónoma, reside no cerne da Geringonça e agora vem com a conversa do homem da luta, da insurreição de rua, do protesto pela reposição de rendimentos. Ou seja, é a própria Geringonça que se morde. O Rei Marcelo, que tem emissões a toda a hora, não imitou o monarca espanhol com a vã intenção de acalmar os ânimos. Há dias, de Belém, havia falado na necessidade de garantir o equilíbrio funcional da acção governativa. Embora os comunistas tenham levado uma ripada valente nas eleições autáraquicas e um desbaste decano de câmaras, no meu entender, são mais poderosos do que nunca. A receita original da Geringonça foi adulterada por António Costa, mas quem tem a foice e o queijo na mão é Jerónimo de Sousa. A laia de sugestão, de quem já não quer a coisa, e por entre as linhas, o chefe da festa do Avante vai emprestando a bons ouvidos os tons de meia-dose de ameaça. Diz, nesse código de luta sindical, que se esticarem o cordel, o homem puxa a alcatifa à Geringonça e entorna o caldo. O BE, coitadito, já não é a coqueluche querida dos anseios pseudo-iluminados da Esquerda - também lhes foram aos fagotes nas câmaras - zero. Resumindo e concluindo, enquanto Santana vai ou Montenegro vem, o Partido Social Democrata (PSD) que se apronte convenientemente. O saldo eleitoral não lhes é de todo desfavorável. A mudança de líder e de óleo podem ser feitas na mesma revisão. O motor da Geringonça parece ter uma junta problemática e deixa escorrer vestígios de crise antecipada. As autárquicas não merecem apenas uma leitura nacional. Exigem uma leitura racional. Agarrem Jerónimo, senão ele parte a loiça toda.

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publicado às 16:43

Passos Coelho: "it was a dirty job..."

por John Wolf, em 03.10.17

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Passos Coelho será injustamente lembrado por muitos, mas foi o homem certo no momento errado - "it was a dirty job and somebody had to do it". O homem que agora se prepara para sair da cena política, não escolheu o mandato. O mesmo foi imposto duramente e sem tréguas. A geringonça herdou uma casa arrumada e pôde libertar-se da Troika e de todo um léxico associado à Austeridade. Se houve alguém que teve de pagar um elevado preço político, essa pessoa foi Passos Coelho. E ele sabia-o a cada medida imposta, a cada decisão que castigava o contribuinte português, o trabalhador nacional. A personificação de tudo quanto é sinistro na sua pessoa foi habilmente promovida pela oposição, como se todos os males do mundo português e o descalabro económico e financeiro tivessem sido criados por ele. O Partido Social Democrata (PSD) enfrenta agora outros dilemas. Como se diferenciar e apontar as falhas de um governo de Esquerda embalado pela onda favorável do turismo e receitas conjunturais? O PSD, à falta de candidatos-estadistas para relançar a sua estirpe política, tem forçosamente de procurar noutro palheiro a saída desta crise de liderança e défice de carisma. Rui Rio ou Luis Filipe Menezes se fossem um só, uma soma de partes, talvez pudessem representar o partido com argumentos e credibilidade, mas essa construção não é possível. Se o PSD não foi capaz de produzir uma nova geração de lideres com profundidade e campo de visão (perdão, Luís Montenegro não tem o que é preciso), terá de validar outros vectores, outras propostas, correndo o risco de perder terreno para o ex-parceiro de coligação - o CDS. O processo de recalibragem não depende de uma figura de proa. Sustentar-se-á numa leitura ajuizada da realidade ideológica e política que extravasa os parâmetros de Portugal. O PSD não pode ser um mero agente reactivo ao poder instalado, à bitola ideológica, ao PS, o PCP, o BE e agora o CDS. Exige-se uma lavagem de conceitos operativos, um refrescar de propósitos, um realinhamento sem sacrificar os princípios fundadores, os valores de base. Nessa medida, mais do que homens-estandarte, serão as ideias que terão de se autonomizar. Serão axiomas e conceitos plenos que terão de servir de justificação. Por outras palavras, as respostas estarão na métrica da realidade, como por exemplo o nível recorde de dívida pública. Serão os factos inegáveis que emprestarão credibilidade às propostas, e menos o estilo de discurso ou as preferências de liderança. O PSD, à falta de cão, terá de caçar com gastos não previstos pelo seu guião clássico, tradicional. Se souberem aproveitar a crise estarão preparados para a próxima bancarrota.

 

foto: Expresso

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publicado às 20:50

Eles comem tudo, quase tudo

por John Wolf, em 02.10.17

 

O Partido Socialista (PS), nas últimas legislativas, teve de se contentar com uma geringonça, mas se pudesse, congratular-se-ia com uma maioria absoluta para não ter de ficar refém dos comunistas ou bloquistas. Não foi isso que aconteceu nas legislativas e o PS tornou-se num partido dependente das doses radicais dos partidos mais à sua esquerda. A geringonça aproveitou os alibis internos e as exigências da sua ala mais "extrema" para fazer avançar uma agenda que, caso fosse necessário, poderia invocar como não sendo a sua. António Costa, que se alegra com o mal dos outros, nomeia o PSD como o grande perdedor da noite. Não está totalmente enganado, contudo a vista panorâmica tem de ser mais ampla e honesta. Os sócios comunistas da CDU perderam substancialmente em toda a linha - lá se vai a tese da leitura nacional que um bom resultado poderia servir para reforçar a legitimidade da geringonça. Uma das partes da geringonça sai ferida com gravidade deste embate. Fernando Medina, vendido como regente absoluto da cidade, e campeão das obras e do turismo, tem de agradecer o presente de António Costa (que largou a CML), mas sobretudo a um notável político que preparou o terreno para o incremento do Turismo em Lisboa. Adolfo Mesquita Nunes foi quem teve a visão, foi quem pensou Lisboa enquanto importante vector, enquanto região e capital económicas por excelência. Se tivessem nível, os ganhadores de secretaria e das autárquicas em Lisboa, ligavam os pontos para ampliar ainda mais a democraticidade abrangente da geringonça incluindo "inimigos". Mas não. Vivem de sobranceria ideológica - os socialistas são sempre melhores. Pelos visto Medina fez tudo de livre e espontânea vontade, e inventou a roda. No entanto, o facto de não ter conseguido a maioria absoluta em Lisboa significa que a pedra no sapato com que tem de marchar pelas ciclovias funcionará com um mecanismo de checks and balances: o posso, quero e mando já não será assim tão simples. E há mais. Não foi a Direita que saiu derrotada. Assunção Cristas encarna um perfil que transcende a bitola ideológica. Defendeu em campanha, e protege na oposição, causas definitivamente conotadas com justiça social e económica, mas que não são nem podem ser um exclusivo da Esquerda. E o prémio da noite, na minha opinião, vai para Rui Moreira. O independente foi capaz de travar as manobras e esquemas de um PS oleado há décadas para a manipulação nos bastidores e nos media.  De nada serviu, como Moreira bem frisou no discurso da noite, que Pizarro tivesse recrutado o governo de sua geringonça para descarrilar os seus intentos. Pizarro não teve fair-play, mas foi ajudado nesse tango manhoso. O PS que julga que não existem limites, levou uma castanhada no Porto. Quanto ao BE, não sei exactamente o que pensar. Estão ali em águas de blocalhau e podem ser vítimas dessa estagnação. Sabemos, face aos resultados da noite eleitoral de ontem, que o PSD vai ter de se reinventar, apanhar os cacos e fazer um reset. Mas não pode apanhar uns cacos quaisquer. A Manuela Ferreira Leite também pode apanhar a camioneta com Pedro Passos Coelho. Já não fazem falta ao partido ou ao país. Os comunistas, imutáveis perante as evidências, continuarão a musicar aquele pífaro de luta pelo trabalhador oprimido e a denunciar os opressores capitalistas. Estão, desse modo, no seu território preferencial, a jogar o papel que bem conhecem - o de vítimas. O PS irá espremer as autárquicas para canonizar a geringonça, mas em última instância será vítima do seu sucesso desmesurado. Isaltino, o cão-pisteiro, abriu o caminho para tantos outros, uns de Felgueiras, e outro da cela de Évora. Mas esse resultado espelha o povo, eticamente vergado e que se deixa enganar. Ouvi dizer que o maior derrotado da noite foi a abstenção, mas não é verdade. Foi uma metade que votou. Portanto apenas pode haver meio deleite.

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publicado às 07:26

Dia de flexões

por John Wolf, em 30.09.17

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Como é que pode haver um dia consagrado à reflexão se não há reflexão nos outros 364 dias do ano? O conceito, cuja origem desconheço, inscreve-se na escola do Iluminismo repentino. Assemelha-se a um corredor da sorte que protege os audazes da sua falência interpretativa. Os governos, ao longo dos seus mandatos, e mesmo antes de estes começarem, procuram anestesiar o povo, marinar manifestações contrárias aos seus intentos. Depois concedem o beneplácito do juízo superior ao nubente requisitado para validar o pressuposto democrático. O zézinho que vota, passa de besta a doutor num ápice. Se fossem íntegros na missão intelectual respeitante à reflexão, promoveriam a ideia de um ministério da filosofia e diversos secretários do pensamento. O boletim de voto - essa bula do saber político -, deveria ter anexado a lista de referências bibliográficas, algumas notas de rodapé e a fonte das citações inscritas nos discursos de campanha. Esta estória franciscana da reflexão sugere pão e água, abstinência sexual e artrite reumática. Se o dia fosse deveras sagrado, já deveria ter sido proposto como feriado - uma espécie de tolerância para matutar, porque, sendo uns sujeitos mais lentos do que outros, esta falsa fila prioritária para "pensar bem" reforça precisamente o oposto; a noção de que o povo é idiota e não existe antídoto para a sua estupidez. Tanto faz que abra a matraca ou não. Pouco importa que o jejum de campanha seja imposto. No silêncio do acto, pouco ou nada acontece. Dia de reflexão uma ova.

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publicado às 13:40

Centeno e Costa escrevem ficção

por John Wolf, em 23.09.17

 

 

Não gosto que me mintam. Não aprecio que dourem a pílula. Não aceito que aproveitem os louros dos outros. Não pactuo com a destruição de obra alheia. Não tolero que inventem estórias da carochinha. Não admito devaneios ideológicos. Não sou solidário com facciosos. Não acredito naquilo que me contam. Não tenho confiança em declarações de sucesso. Não me rendo perante a insistência dos outros. Não integro no meu espírito a ficção que nos querem impingir. António Costa, Mário Centeno, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa podem meter no bolso as casas de propaganda nacional, mas não conseguem enganar todos ao mesmo tempo.

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publicado às 17:25

Comunicação Política para Totós

por John Wolf, em 22.09.17

 

Embora não vá votar porque não posso votar, e mesmo que pudesse votar provavelmente não votaria, não deixo de ser visado enquanto potencial-candidato-eleitor - o meu voto é desejado.  Recebi na caixa do correio (nas últimas semanas) missivas de toda a espécie e feitio de impressão. Foram cartas e brochuras, panfletos e desdobráveis de todas as hostes partidárias, apelando ao meu poder de encaixe autárquico. Tive, desse modo, a feliz oportunidade de pôr essa leitura em dia no decorrer de actividades sanitárias - sentado, entenda-se (com as mãos livres, sem cometer infracções). Lavei as mãos e posso afirmar que me encontro em condições de avaliar como a Comunicação Política é realizada pelas diversas forças partidárias em Portugal no festival eleitoral em curso. Devo dizer que as propostas apresentadas carecem todas de um enquadramento conceptual e de uma visão estruturante. Ora falam de parques de estacionamento, ora mencionam apoios sociais, ora congratulam-se pela obra feita, ora reclamam pela incúria dos outros...enfim, não passam todos da mesma chapa gasta vezes sem conta a cada campeonato autárquico. O formato foto-passe de todos partidos pretende confirmar o alto teor de democraticidade e convívio político entre as cabeças de lista - as estrelas da companhia -, e os pobres anónimos resgatados da paragem de autocarro para preencher as listas. A Comunicação Política simplesmente não existe. Existe uma forma de Comunicação, mas não preenche os requisitos da Política. São Políticos que se apresentam, mas não Comunicam eficazmente. Plagiam-se a torto e a direito. Chamam algo diverso à mesma coisa, mas não passa de embuste ideológico. Gastam rios de dinheiro em bandeirinhas e esferográficas, pastas e sacos para arremessar a tralha, mas não conseguem erradicar os vícios da classe política canonizada pelo mistério da promessa cumprida. Os textos que acompanham a vontade política são fracotes e encontram-se na fronteira do pueril, do dispensável. Desejariam, se soubessem, ou pudessem, a sofisticação subtil, a sugestão da genuína transformação filosófica que está na génese das aspirações da freguesia, do concelho, da região, da península, do mundo. Mas não conseguem. Estão presos, cativos num labirinto de inconsequências e desperdícios. Tanta coisa para tão pouco. Tantos. Bastava um(a) para fazer o frete a todos. Criatividade, inteligência ou originalidade não fazem parte de lista alguma. Triste. É triste. É tão triste.

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publicado às 15:35

 

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José Sócrates é o lider supremo da igreja universal dos factos irrefutáveis. No seu vídeo promocional, com direito a desconto para os primeiros subscritores, só falta aparecer em rodapé o número de telefone para que os espectadores possam reclamar a sua torradeira. Este vendedor de banha da cobra é uma lástima. Nunca o contrataria para trabalhar numa empresa minha. Não esboça um sorriso e a sua linguagem corporal revela grande angústia existencial. Não percebemos muito bem o que anda a vender. Refere factos, mas não menciona os termos da garantia em caso de avaria da sua máquina da verdade. O livro, deitado na estante, The Lesser Evil de Michael Ignatieff, é uma jogada esperta, mas não me engana. Não existe nada de menoridade no desenhador de Castelo-Branco. Não sei quem foi o produtor do filme nem o realizador, ou se foi o Galamba a avisar que o cerco está a apertar. Gravata assim sem blazer já não se usa. É muito Gordon Gekko e pouco Brioni. Amanhã o grupo ético e mediático de Sócrates inaugurará uma conta no Instagrão e outra no Snapchatos. E há mais. Aquela prateleira lá ao fundo parece estar a ceder. A pressão é muita e qualquer dia estala o verniz e a madeira. Eu tratava do assunto em vez de fazer figura de urso à frente de miúdos e graúdos.

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publicado às 16:32

Sobre a rede de transportes de Lisboa

por Samuel de Paiva Pires, em 30.08.17

No debate entre os candidatos à Câmara Municipal de Lisboa, que decorre neste momento na SIC, após a afirmação de Ricardo Robles de que os transportes públicos de Lisboa, que utiliza todos os dias, estão à beira do colapso, Teresa Leal Coelho replicou que não é verdade e, sem se rir, ainda acrescentou que só com o actual governo se degradou a rede de transportes públicos de Lisboa e que o anterior até tinha melhorado a qualidade dos serviços prestados. Permitam-me apenas dizer que certos políticos, já que não têm pudor, talvez devessem, nem que fosse por um só dia, dar folga ao motorista e ao carro do Estado em que se passeiam habitualmente e experimentar a sensação de sardinha em lata na linha verde do Metro (ainda pior que nas outras linhas), no eléctrico 15 entre a Praça da Figueira e Algés ou nos comboios urbanos da CP (especialmente os da linha de Cascais durante a época balnear), o tempo de espera médio de 10 a 20 minutos em hora de ponta na linha amarela do Metro ou os autocarros da Carris que falham recorrentemente os horários indicados, em determinadas horas são suprimidos sem qualquer aviso prévio aos utentes e, num tempo em que a tecnologia de geolocalização se encontra tão aperfeiçoada, frequentemente não estão em consonância com a previsão nos painéis luminosos instalados nas paragens (os próprios painéis encontram-se, o mais das vezes, avariados). Não sou do Bloco de Esquerda - bem pelo contrário, sou militante do CDS - mas fui utente do Metro, da Carris e da CP de 2004 até há cerca de de um ano e foi precisamente por se terem tornado praticamente insuportáveis que deixei de utilizar os transportes públicos em Lisboa. Que a Câmara Municipal de Lisboa, quer com António Costa, quer com Fernando Medina, tenha a obsessão de dificultar o trânsito automóvel na cidade, só contribui para infernizar ainda mais a vida dos que residem e/ou trabalham na capital.

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publicado às 22:08

Qual o género da Autoeuropa?

por John Wolf, em 30.08.17

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A galinha de ovos de ouro do PIB, de sucessivos governos e campeões ideológicos, está a cantar de viva-voz. A geringonça está a ter algumas dificuldades para resolver este bico de obra. A comissão de trabalhadores da Autoeuropa não pertence ao Arménio Carlos ou ao Carlos Silva. Não a conseguem meter no bolso assim sem mais nem menos. A fábrica de automóveis da marca alemã já foi publicitada como a jóia da coroa, a tal contribuinte de 2% da riqueza gerada em Portugal durante um ano. Os trabalhadores, difíceis de enquadrar nas hostes de uma CGTP, sabem que podem alavancar soluções a bem ou a mal. Para além da paragem efectiva de produção daquela unidade fabril, seria um perfeito desastre se outras empresas lhe seguissem as pégadas de greve e protesto. Os efeitos multiplicadores negativos são muito mais intensos do que os positivos da actividade produtiva dita normal. Ou seja, o élan gerado pela paragem económica não é compensado pela continuidade produtiva. O que está a acontecer, e seja qual for o desfecho "laboral-patronal", o mote fica dado, e a imaculada padroeira do emprego da geringonça leva um valente rombo. Faltará muito pouco para que alguma histérica do BE ou algum marxista do PCP, aliciados pelo PS, afirmem que se trata de uma conspiração de Angela Merkel. Uma forma de submeter os devaneios de um governo de Esquerda, que na outra face do mesmo jornal celebra a mais baixa taxa de desemprego desde os Lusíadas de Camões. O Titanic da economia portuguesa (que nem sequer é português), mas sim pertença daqueles chauvinistas alemães, encalhou no rochedo da consternação do governo. O ministro da economia, no entanto, declara que espera que haja acordo entre as partes. Entre as partes? Sim, por isso se chama acordo e não solução unilateral. Resta saber qual o género da Autoeuropa. Se é daquelas oferecidas que se deixa comprar ou se é daqueles que pega de empurrão.

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publicado às 14:08

Coligação Valentim-Isaltino-Sócrates

por John Wolf, em 29.08.17

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Estou preocupado com o futuro político do escritor José Sócrates. Isaltino Morais e Valentim Loureiro já lhe passaram a perna. Estão lançados na corrida autárquica com o beneplácito do povo, mas não escreveram obras nem defenderam teses de mestrado. Sócrates pertence às elites do desenho técnico de Castelo-Branco, e o salto a Paris deve ser encarado com naturalidade - estava escrito. Contudo, devemos levar em conta certos espinhos de rosa. O Partido Socialista de António Costa nem serve para montar uma estufa para o cultivo de tomate - há, mas nem sequer são verdes. Sócrates é, nessa medida, um homem livre, disponível para transferências, quiçá no mercado de autárquicas. Bem sei que chega tarde, mas à falta de cão caçará com gato. Ou seja, não prevejo um regresso à política pela porta grande do Rato. O carimbo de aprovação do bom filho que a casa torna não será esmurrado no certificado de retorno. Por outras palavras, com outro livro a bombar, não tarda nada, Sócrates deve replicar as congéneres de Gondomar e Oeiras. Deve transformar os onze meses de prisão política em força mandeliana. Quando menos esperarmos, Sócrates lançará o seu míssil para um mar de possibilidades efectivas. Um povo que leva em ombros os seus detractores, não sabe cortar orelhas a quem tem muita lábia de mercador. As autarquias terão o que merecem. Venha de lá mais um comprador de livros por atacado. Sócrates nem precisa de tomar notas. É só imitar o Tino ou o Valentim.

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publicado às 13:29

O fim da inocência lusitana

por John Wolf, em 26.08.17

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Começo este post com um disclaimer - não existe tal coisa de excepcionalismo. Nem do tipo americano nem do tipo português. Não existem povos eleitos ou nações predestinadas. Temos sim, paragens de autocarro e consultas de dentistas, filas de supermercado e jogos da bola. O resto, aquilo de que os governos se servem, é apenas um conjunto de chavões de alegada grandeza e imunidade. E por essa razão não devemos ficar espantados com os números - mais de mil queixas por mês apresentadas na Esquadra de Turismo. O Diário de Notícias também faz parte do equívoco ao repetir ao longo da peça, parafraseando incautos, que custa acreditar que tamanhos furtos possam acontecer numa cidade como Lisboa. O saudosismo conveniente dos brandos costumes trará prejuízos de maior vulto se não for rapidamente recambiado. Passei hoje mesmo em Belém e lá vi os cubos de betão para dissuadir outro género de furtos. Mas regressemos ao flagelo dos carteiristas de mão invisível e o crescimento quase exponencial de ocorrências. Meus senhores (entenda-se todos os géneros), estamos na presença de mais um caso de negligência crónica, à laia da floresta perdida e fogos indomáveis. O número de queixas apresentado reflecte bem o défice conceptual no que concerne aos aspectos securitários decorrentes do crescendo de fenómeno turístico. Portugal é essencialmente um destino turístico há mais de quatro décadas pelo que houve tempo mais que suficiente para que os governos pudessem responder às exigências, às demandas repetidas vezes sem conta pelas forças policiais. Sucessivos governos têm tratado a dimensão de segurança interna como matéria de segundo plano. Os orçamentos de Estado têm sido anémicos na dotação de meios adequados às polícias que definem o quadro securitário interno de Portugal. Os desafios, que agora se agudizam com a pendente ameaça terrorista, devem ser aproveitados para reinvindicar mais meios e mais músculo operacional para as forças de segurança. Quando acontecer algo dramaticamente trágico, estarei ao lado das polícias que muito provavelmente serão requisitadas para o papel de bode expiatório, derradeiros responsáveis pela inevitabilidade. Nada mais falso.

 

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publicado às 13:48






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