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Putin "deselege" Trump

por John Wolf, em 04.08.17

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Quase todos conhecem o adágio - a história não se repete, mas por vezes rima. No entanto, penso que não se aplica ao seguinte enunciado. Quando Reagan lançou a Strategic Defense Initiative em 1987 (SDI, conhecida por Guerra das Estrelas) não seria um objectivo premeditado pôr de joelhos economicamente a União Soviética, mas de facto a corrida ao armamento que se seguiu acabou por ditar a ruína do império soviético e a mudança de sistema e regime políticos. A administração Trump, que "alega" ingerência russa no processo eleitoral norte-americano, riposta aplicando sanções à Rússia de Putin, como se tal ferramenta de política externa pudesse de algum modo repôr os pratos da balança da justiça, castigar economicamente a Rússia e enfraquecê-la mortalmente. Enquanto essas ferroadas são administradas, o sistema judicial dos EUA avança com a investigação a eventuais fugas de informação classificada para o domínio e controlo de oficiais russos, assim como a averiguação dos contornos das reuniões havidas entre Trump Jr. e advogados russos em 2016. Tudo isto, combinado numa aura de grande suspeição e incerteza, levanta algumas questões do foro patriótico. Fala-se, nos corredores de Washington, a cada dia que passa, de indícios de traição e lesa a pátria. Putin, que havia sido nomeado como "mandatário" de Trump, estará a pensar duas vezes à luz da imprevisibilidade comportamental do presidente americano. Ou seja, se de facto mexeu cordelinhos para auxiliar a sua eleição, também o poderá fazer para que Trump seja removido. Em todo o caso, os próprios norte-americanos já começam a invocar o enquadramento constitucional da 25ª Emenda que estabelece o modo e as condições que levam à substituição do seu presidente. Sim, a coisa está feia. Ou pouco bonita - conforme as preferências ideológicas. Veremos então se Putin "deselege" Trump.

 

créditos fotográficos: CNBC

 

 

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publicado às 19:40

Turcos, Russos e Berlinenses

por John Wolf, em 19.12.16

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O assassinato do Embaixador Russo Karlov em Ancara deve ser interpretado à luz dos interesses comuns da Rússia e Turquia. São mais os pontos convergentes entre os dois Estados do que aqueles que os separam. Os regimes de ambos os países dependem em larga escala da justificação excêntrica. Quer Putin quer Erdogan poderão validar de um modo ainda mais intenso o modus operandi dos seus aparelhos. O alibi terrorista "externo" serve convenientemente a escalada de sistemas de controlo interno, a repressão dos media, os ataques aos inimigos que alegadamente polvilham destinos como Alepo, o reforço do apoio a um regime análogo como aquele de Assad na Síria, mas sobretudo uma certa eternização dos pressupostos de política interna e externa russa e turca.  Desenganem-se aqueles que realizam a leitura deste ataque terrorista à luz de um conflito entre os Estados formais - entre a Turquia e a Rússia. Os dois Estados, simbioticamente, saberão extrair dividendos deste evento. Erdogan poderá invocar a necessidade de uma ainda maior limpeza das forças de segurança interna e incrementar o seu processo de saneamento. Quase simultaneamente o ataque terrorista no mercado de Berlim parece obedecer a uma lógica de oportunidade e não tanto de premeditação. O primeiro evento envolvendo o Embaixador Russo em Ancara serviu para "ligar" as antenas dos media internacional, e à boleia desse facto, os actores envolvidos em Berlim terão aproveitado a deixa. A Turquia que já havia plantado sérias dúvidas em relação a uma putativa pertença à União Europeia, aproveitará este evento para se distanciar ainda mais das instituições europeias que têm demonstrado grande ineficácia no que diz respeito ao grande desafio migratório, e a montante ou jusante, o drama sírio. A Rússia tem a sua agenda determinada há já algum tempo, e estes trágicos acontecimentos em nada descarrilam os seus processos. Isto não acaba aqui. Nunca acabou. Nem terminará. Este é o nosso mundo.

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publicado às 20:26

Tal como dantes...

por Nuno Castelo-Branco, em 16.11.16

 

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 ...os Estados Unidos da América são em termos internos um Estado de Direito e na esfera internacional, naquela que mais nos deveria importar, um império, talvez o mais poderoso, mesmo em termos comparativos, da História registada. 


Poderemos datar o advento imperial aquando da expansão para leste e em direcção às terras que devido à herança de Tordesilhas, teoricamente coube ao então recentemente criado México independente, para logo depois, exterminados os índios e consolidada a posição hegemónica na América do Norte, passarem os EUA decididamente à expansão ultramarina, fosse ela de forma muito directa - a Guerra Espano-Americana com o prévio preparar da sempre fácil histeria da opinião pública interna através dos artifícios mediáticos de Hearst e do seu rival amarelado Pulitzer - ou de forma enviesada através da despótica suserania sobre uma infinidade de Estados central e sul-americanos a que rapidamente foi dada a sintomática e bem merecida denominação de repúblicas das bananas. Em suma, aos our son of a bitch Trujillo e Baptista, sucederam-se os inevitáveis Castro, Noriega e vários tipos de Maduro.  

A lista de possessões coloniais adquiridas é longa e dispensa comentários, pois vão desde a Cuba protegida até ao 1º de Janeiro de 1959, às Filipinas, Hawai, Porto Rico e um rosário de ilhas estrategicamente colocadas no Pacífico, onde Midway é apenas mais uma entre outras. Por mero acidente da relação de mútuo interesse que decorre da Aliança Luso-Britânica, Portugal não sofreu no ocaso do século XIX o mesmo destino do seu vizinho espanhol e hoje os Açores ainda fazem parte do conjunto nacional, enquanto Cabo Verde e muito possivelmente Timor e Macau, viram chegar até ao final do século XX, a presença portuguesa que agora continua sob outra forma menos comprometedora para a reputação ditada por vendavais da história.

São estes, os factos.

 Tal como durante o período que antecedeu a primeira eleição do agora constitucionalmente resignado à saída Barack Obama, as eleições presidenciais americanas e o sistema aparentemente absurdo e inextricável de selecção de candidatos a gestores de equilíbrios dos lóbis locais, não me despertou grande interesse, pois tal como dantes, o princípio da ressalva imperial é alheio à personalidade e grupos que circundam o escolhido pelo bastante volúvel colégio eleitoral. A Administração permanente existe, é inamovível, não é eleita e decide na obscuridade dos gabinetes. 

Como Império, os Estados Unidos possuem interesses entre os quais o princípio do second to none é uma constante desde 1918, ano em que a passagem de testemunho foi patente aos olhos de uma Europa prostrada pela guerra que apenas beneficiou aquela potência transatlântica. Passaram então os EUA a estabelecer a aceitável forma da organização política, social, na cultura de massas, a ordem financeira e económica a nível planetário, apenas adaptando os seus ímpetos às situações criadas pela própria evolução do sistema internacional. Passaram assim por diversas fases, apenas sendo notável uma certa ausência no decorrer dos anos difíceis da Grande Depressão, quando internamente tiveram de enfrentar uma esmagadora crise social decorrente da implosão do sistema financeiro ditada pelo desvario da ganância, situação tornada insustentável pelas catastróficas consequências dos anos de seca - o chamado período da Dust Bowl - que agravam enormemente a penúria generalizada que apenas seria suprida pelo providencial desencadear da II Guerra Mundial. Daí à dominação planetária foi apenas uma questão de tempo, momento esse que chegou aos nossos dias.

America First!, o desabafo já escutado nos anos imediatamente anteriores a Pearl Harbour e que sob o patrocínio de C. Lindhberg, mobilizou uma boa parte da opinião pública americana, bem coberta pelos media.

America First! hoje novamente audível sob outro lema já ouvido há três décadas, o Great Again! um dia pronunciado por Reagan. Este Great Again! poderá muito significar para os americanos, mas não necessariamente para todos os demais que não se encontrando directamente subvencionados numa miríade de agências, empresas, think tanks e organizações sempre dispostas a servirem quem as sustenta - e aqui entra na equação a própria ONU -, normalmente se deixam hipnotizar por tudo o que a colossal eficiência da máquina cultural, no seu sentido mais amplo, difunde em termos globais. Em suma, o que é bom para eles, geralmente habituados ao let's kick some ass!, poderá não ser assim tão positivo para os demais. 

Vejamos então onde de imediato poderá o mundo obter algumas concessões da Administração Trump, concessões essas que possam em simultâneo beneficiar os americanos e de uma forma bastante directa e exclusivamente em termos estratégicos - e na paz social -, o cada vez mais Velho Continente.

1. Na Europa oriental rufam em surdina os tambores de um progressivo afastamento, pois nos últimos quatro anos os riscos de conflito aumentaram exponencialmente e hoje encontramo-nos na iminência do impensável, ou seja, um totalmente desnecessário e final confronto directo com uma Rússia que inegavelmente foi humilhada. Humilhada após a queda há muito aguardada do sistema concentracionário soviético, viu todos os antigos satélites desertarem e rapidamente aderirem à NATO, quando muitos esperavam que aqueles países, tradicionalmente palco das disputas germano-russas, fossem pelo menos neutralizados. Tal não sucedeu e para isso poderosamente contribuíram as novas autoridades que durante mais de meio século sofreram em silêncio os arbítrios e abusos das forças ocupantes no pós-guerra, confirmando também infinitos casos ocorridos no passado pré-1917: a Polónia, os  Bálticos e Balcãs orientais, rapidamente se abrigaram sob o guarda-chuva americano, não tendo por isso de procederem à rápida adequação das suas forças armadas às exigências impostas pelas novas doutrinas e realidades tecnológicas do sector militar. Se à questão militar passarmos a outros aspectos como os industriais, financeiros e económicos, o quadro da humilhação torna-se ainda mais notório, pois ainda há uma década a Rússia era encarada como um mero sucedâneo de um Lebensraum fornecedor de matérias primas e de mão de obra especializada e a preços sem concorrência. Bem cedo, como praticamente todas as capitais da Europa ocidental, Lisboa encheu-se de mecânicos, pedreiros, estucadores, pintores, electricistas e serventes provenientes do antigo bloco soviético. Mal pagos, relativamente mais instruídos do que nós próprios, sem papéis que legalizassem a sua situação e a tudo se sujeitando em troca da possibilidade de usufruírem da paz social, das escolas para os filhos, da assistência dos SNS, de um tecto de resguardo e refeições quentes na mesa. É a verdade que bem conhecemos e fingimos ignorar. 

O advento de uma classe empresarial directamente saída dos quadros do PCUS que de forma muito célere passou a entender na perfeição as artes e artimanhas do capitalismo mais selvagem, criou um cenário de aparente opulência que naquela parte do globo já não se via desde os tempos em que a aristocracia e o empresariado do império dos Romanov passava férias na Côte d'Azur, comprava e construía palacetes em Paris e fazia compras em Viena, Berlim e Londres. Iates espampanantes recheados de garrafas de champanhe e despidas beldades mais ou menos escusas, foram notícia durante alguns anos, juntando-se ainda ao rol de extravagâncias a compra de clubes de futebol, empresas de comunicação e forte jogatina no complicado sistema bolsista ocidental. Daí ao diz-que-diz das lendas do tráfico de armas, drogas e seres humanos foi apenas um passo, pois a opacidade de uma Rússia sempre desconhecida e talvez imerecidamente imaginada sempre sob o pior dos prismas, tem sido uma constante desde que Pedro o Grande lançou a primeira pedra que ergueria nas margens do Neva, a sua capital europeia.  

Urge fazer algo e de preferência, imediatamente.

Existem muito relevantes minorias russas que vivem nos Países Bálticos, minorias essas ali instaladas após o resultado de 1945 que significou antes do mais, a deslocação sem precedentes de populações inteiras no acanhado espaço continental europeu. Estaline recheou as novas conquistas com elementos populacionais que considerava essenciais à consolidação do poder russo naquela zona estratégica do Báltico que vai de Riga a uma Königsberg despojada da sua população germânica e rapidamente rebaptizada de Kalininegrado, agora transformada numa plataforma de mísseis. 

Não valerá a pena negar que algo escandalosamente escondido e bastante absurdo por lá vigora, desde o afastamento dos russos da participação cívica em lugares de relevo na administração, como nas forças armadas e até, pasmemos, na própria organização residencial que ali, de Riga a Tallin ou Vilnius, reproduz quase exactamente o sonhado e falhado Melting Pot que bastante teoricamente acontece além-Atlântico. Existe, mas adequado a umas poucas comunidades.
Este é, queiramos ou não, um argumento precioso para a propaganda justificativa das acções das autoridades do Kremlin, para mais resguardadas estas pela tradicional lealdade que os russos votam por regra da história, a quem comanda em Moscovo. A U.E.+NATO, têm clamorosamente falhado na salvaguarda dos direitos daquelas minorias e este é um problema aparentemente sem solução, dada a degradação da situação geral.

2. A Ucrânia, perdida a oportunidade de suceder-lhe precisamente o mesmo que durante meio século tornou a Finlândia numa zona neutra, mas agora com a vantagem de ambos os contendores partilharem grosso modo o figurino económico-social, tornou-se num azarado mundo de erros, crimes políticos, violência, caos financeiro e ruína económica, provocando o rápido irredentismo das suas minorias nacionais, sejam elas russas, polacas ou outras que ali vivam. Não se aprendeu grande coisa com algumas das causas dos dois conflitos mundiais.
A falaciosa "perda" da Crimeia, subtracção essa que deveria ter sucedido por mútuo acordo logo na data da independência ucraniana, acabou num facto consumado após a rápida reacção do Kremlin à sugestão de Sebastopol poder vir a ser absorvida pelo tentacular sistema de bases da NATO, leia-se, dos EUA. Às contingências militares propriamente ditas, junta-se o poderoso sentimento de ultraje nacional dos russos que sintomática e perigosamente é de forma ostensiva, ignorado no ocidente. 

Nem tudo está perdido, apesar do folclore mediático das Praças Maidan, das "revoluções coloridas" encenadas um pouco por todo o lado e organizadas exactamente pelos mesmos sectores. Isto propicia um fértil pasto para todo o tipo de teóricos da conspiração e o refúgio da opinião pública no medo.  

Talvez seja aconselhável a nova administração americana reconhecer os factos e estabelecer com os russos, com o regime de Putin - é assim que no ocidente são designados todos aqueles ordenamentos políticos que não correspondam exactamente ao pretendido -, um modus vivendi que salvaguarde a face de americanos e de russos, em simultâneo contentando a cada vez mais subalterna Europa e garantindo em troca de certas condições escritas em formal Tratado de parceria renovada, a paz no continente e a necessária neutralidade da Ucrânia como ponto de encontro entre o ocidente e a Rússia.

Vencidos os warmongers pelo voto no ainda recentemente constituído Colégio Eleitoral, podemos estar praticamente seguros de que Putin não atacará, pois não tem razões para o fazer.  Previsivelmente actuará em conformidade junto das suas coercivas milícias dispostas no terreno. O status quo territorial não é apenas desejável, como possível. Portugal, situado no centro da civilização ocidental que geográfica e culturalmente, no seu sentido mais amplo, abrange todo o espaço entre Los Angeles e o Estreito de Bering, poderá então vislumbrar com outra perspectiva o potencial da CPLP.  

3. No Próximo Oriente a situação é outra, ditada pela intrincada teia de interesses que opõem iranianos, sauditas, qataris, israelitas, grandes empresas e o Dep. de Estado+Pentágono dos EUA, os turcos e os russos, aos quais se juntam as reivindicações curdas, cristãs, iazidis e o absurdo e há muito esperado despertar de um claramente criminoso jihadismo de recorte neo-medieval. A consequência? A Europa tem de lidar com o "Caso Refugiados", uma torrente humana ininterrupta que vai esvaziando não apenas as zonas de guerra, como outras situadas a milhares de quilómetros e que pouco ou nada têm directamente a ver com o conflito que há décadas decorre entre as margens do Mediterrâneo oriental e o Eufrates. 

É este um cenário muito pior e mais perigoso que aquele descrito nos pontos 1. e 2. e que por si, devido ao evidente, claro e sempre politicamente correcto negado confronto de civilizações, é capaz de despoletar um embate directo num momento fortuito. Assad parece cada vez mais de pedra e cal, inamovível e inesperadamente para alguns, surge hoje como a parte essencial para o relativamente rápido resolver de um conflito que mercê dos erros crassos cometidos em Bagdade e Tripoli, tornou toda a Europa num instrumento inútil como força dissuasora e totalmente incapaz como entidade reactiva. Pior ainda, quebrou a espinha dorsal da até há pouco incondicional ou resignada solidariedade ocidental. O Brexit consiste apenas numa entre outras cada vez mais prováveis consequências. 

É uma evidência a oposição de praticamente todos os países da U.E. a uma guerra com os russos e aliás, dados os resultados eleitorais, o americano que trabalha, gosta de conduzir vistosos bólides e tem de pagar contas para sustentar a família, também não a deseja. Não estamos em tempos propícios a riscos, pois estes envolvem nada mais senão o Armagedão. 

Afastadas as intransigentemente sempre irascíveis Applebaum e os bem pagos tamborileiros da guerra, urge agora falar com Putin, urge falar directa ou indirectamente com Assad.

Fira-se o amor próprio em prol do interesse geral. Mas... amor próprio de quem?


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publicado às 17:42

A putinização de João Soares

por John Wolf, em 07.04.16

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A linha que separa a ameaça do uso de força, o uso de força, a agressão e a violência é ténue. Perguntem a Putin como ele faz para afastar os detractores na democrática Rússia. João Soares já ocupou diversos cargos na sua carreira política (amplamente promovida pela sua ascendência), mas há uma posição que poderemos destacar - foi presidente da Assembleia Parlamentar da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) entre 2008 e 2010 -, a entidade especialmente criada para promover o diálogo multilateral entre o Ocidente e o Leste no contexto da Guerra Fria. Lamentavelmente, podemos confirmar que João Soares não conhece ou não quer acatar as regras do normal funcionamento de uma sociedade democrática, entre as quais o direito a opinião diversa. As únicas bofetadas aceitáveis seriam aquelas da argumentação inteligente, culta e civilizada. Este caso deve ser tratado com o maior rigor possível. Exprime de um modo elementar a tendência de censura e repressão que parece estar à flor da pele deste ministro. Um governo que queira merecer o respeito da população não pode pactuar com este tipo de linguagem. A ameaça é clara e envia uma mensagem a toda uma classe profissional alicerçada na liberdade de expressão, e atenta igualmente contra princípios universais de respeito pela condição humana - diz respeito a qualquer cidadão. Se eu fosse o Vasco Pulido Valente ou o Augusto M. Seabra movia uma acção judicial contra o ministro da cultura. Não brinquemos com coisas sérias. Hoje umas estaladas, amanhã quem sabe. E de degeneração em degeneração os animais transformam-se em monstros.

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publicado às 19:52

Tsipras, o incendiário da Europa

por John Wolf, em 01.06.15

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Amanhã é o primeiro dia do resto das nossas vidas - bem que podia ser o título da canção para acompanhar o filme de Tsipras e a lenda da Grécia no Euro. Mas antes de continuar a insistir no lirismo desta saga, convém sublinhar o seguinte respeitante a uma eventual saída grega do Euro. Em primeiro lugar, a mesma já está a decorrer. Há largos meses que milhares de milhões de euros têm vindo a fugir daquele país. As quantias detidas em depósitos bancários têm vindo a diminuir a um ritmo assinalável, mas não significa que tenham sido apagadas do balancete da economia europeia. Bem pelo contrário. Esses dinheiros foram transferidos para outros destinos onde o Euro é a divisa oficial. Por outras palavas, os outros países da Zona Euro têm beneficiado com este processo de letargia política e monetária. A máxima tempo é dinheiro serve na perfeição para diagnosticar metade do problema - a saída de capitais da Grécia e não o inverso. Segundo as últimas confissões de fontes oficiais, a haver uma saída grega, Tsipras e o que restar do seu governo, terá todo o interesse em infligir os maiores danos possíveis aos países da zona Euro - os únicos responsáveis por todos os males e aflições da nação helénica. De fonte de inspiração para revoluções ibéricas e não só, Tsipras passará a ser o arguido principal de algo mais gravoso - o semear de caos e dissensão na Europa. Nem vou arrastar outras nuances de vendetta, como o abraço fraterno a Putin e a clara demarcação em relação ao projecto de construção da União Europeia. Poderemos afirmar, com pouca margem de reserva, que um desfecho dissidente da Grécia, servirá em última instância para o início de algo negativo - o redesenhar de fronteiras ideológicas acentuadas. A traição da Esquerda será o mote para o avanço de propostas ultra-conservadoras um pouco por toda a Europa. Nessa medida, Tsipras pode ser chamado à liça como obreiro da ascensão de regimes deploráveis, nacional-facciosos. A Esquerda revolucionária que invoca a libertação esclavagista poderá bem ser a responsável pela morte do consenso, as facadas dadas na Europa que ostenta os falos maiores da Democracia. Não esqueçamos por um instante sequer que estes lideres foram eleitos. Emanam da opção terrena, da escolha livre e iluminada de quem acredita em ilusões, mas que encontrará no seu caminho um destino mais penoso. Legítimo, dirão alguns, mas pesaroso.

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publicado às 19:13

Putin e Tsipras atiram o pau ao gato

por John Wolf, em 01.03.15

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Se Putin premiu o gatilho da pistola que abateu Boris Nemtsov não é a questão principal. Há outra mais importante que acaba de ser colocada aos russos: será que estão dispostos a colaborar com um regime repressivo que atenta à liberdade de expressão e a direitos e garantias fundamentais? Embora ainda faltem peças ao puzzle, o mar de gente que enche as ruas de Moscovo faz lembrar eventos mais ou menos recentes. Por exemplo Maidan ou até a Primavera Árabe. Sem dúvida que o aparato em torno do assassinato de Nemtsov serve para distrair das movimentações russas em solo ucraniano, mas Putin pode involuntariamente ter libertado  a força crítica e avassaladora do seu povo. Putin virou-se para a exterioridade da Crimeia e da Ucrânia porque há muito que sente o seu regime ameaçado - "lá fora" parece ser mais fácil justificar as acções e vendê-las de um modo glorioso no próprio país. Mas não é o único. Tsipras também aplicou o mesmo princípio que resulta de insuficiência interna, e atirou-se aos portugueses e espanhóis chamando-os de principais responsáveis pelas dificuldades negociais havidas entre a Grécia e os interlocutores europeus. São comportamentos enviesados e desta natureza que nos devem preocupar. As atitudes de políticos que atiram o pau para longe. A Grécia e a Rússia têm muito mais em comum do que possam imaginar. E não se quedarão por aqui. Já passámos a fase de meras sugestões. A Estónia e a Turquia parecem ser candidatos para serem arrastados para o já de si complexo mapa geopolítico. Isto não fica assim. Se as coisas não correrem de feição a Putin e Tsipras, estes são mais do que capazes de incendiar casas alheias.

 

*os gatos são muitos populares na internet, mas não servem para grande coisa.

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publicado às 19:39

A Entente Greco-Russa e a Europa

por John Wolf, em 30.01.15

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Nos dias que correm é muito fácil ser atirado para um dos campos da discussão - either you´re with us or you´re against us -, é conveniente simplificar o intrinsecamente complexo, usando para o efeito, códigos caducos, linguagem ideológica fora do seu prazo de validade. Assistimos na Europa, ou se quiserem na União Europeia (UE), a grandes dificuldades interpretativas. A Entente Cordiale que está a ganhar forma entre a Grécia e a Rússia é motivo de alarme. Pela primeira vez na história da UE um estado-membro rejeita servir-se das instituições formais que foram criadas, para, em última instância, preservar a paz. Yanis Varoufakis diz por outras palavras que já não reconhece autoridade à Troika, que aquele mecanismo não tem legitimidade para decidir sobre o destino de um Estado soberano que "por acaso ainda" é membro da UE. Não é apenas Putin que não quer perder a face. Tsipras também não irá esbanjar o que alcançou oportunamente numa Europa polarizada pela extrema direita e extrema esquerda, por anti-americanismo, assim como pelas entidades pragmáticas como a austeridade, o terrorismo, enquanto extensão ou não do Estado Islâmico.  A Europa, refém dos seus processos formais e em plena crise económica, está a tornar-se presa fácil para outra "pária". A Grécia está geopoliticamente encravada numa zona de cultura ortodoxa à mão de semear dos interesses estratégicos russos. Chipre ou a Bulgária  podem ser também magnetizados pela dissensão intencional russa. Enquanto milhares celebram efusivamente a libertação dos gregos das directivas alemãs, um outro eixo de substituição está a ganhar forma, uma outra estrutura de poder conhece já a sua cúpula. Neste contexto, e por analogia ao descalabro e à guerra a que já assistimos, a Grécia pode ser entendida como uma pré-Ucrânia. Um espaço vital onde talvez não se vislumbrem tanques de guerra e colunas de infantaria russos, mas onde outra dimensão de projecção de poder, está, efectivamente a acontecer. Os libertários europeus serão confrontados com vários dilemas existenciais, mas para já, desenham de um modo claro, um certo fundamentalismo cego, de libertação do ónus da dívida a qualquer preço. O problema é que o valor não é determinado por vontades internas, por comissões políticas nascidas nos salões de uma Europa civilizada. Quem demonstra intenções claras e inequívocas é a Rússia. Seria bom se a Europa das liberdades e garantias calibrasse sem demoras a sua posição no contexto de ameaças que já não são externas. O triângulo das Bermudas da Europa desenha-se com duas pontas agudas que não tarda irão furar as expectativas utópicas de uma comunidade europeia de crentes que ainda acredita num regresso faustoso ao estado social e às subvenções vitalícias. O nosso futuro pode muito bem estar nas mãos de Putin e Tsipras. Os primeiros passos são sempre os mais difíceis.

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publicado às 18:06

A entrevista de Durão Barroso

por Nuno Castelo-Branco, em 02.11.14

 

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Sem o incómodo da apreciação daquilo que é a chamada União Europeia e sem veicular qualquer pró ou contra esta existência de múltiplos cambiantes, aqui ficam alguns dos pontos mais importantes focados pelo ex-presidente da C.E.

1. A questão da situação portuguesa nas vésperas do resgate de 2011. Gostem ou não gostem os baladeiros das  narrativas dominicais, a verdade era mesmo aquela que sabemos, ou seja, a da iminente bancarrota.

 

2. A  clara assunção de Portugal não ter uma política europeia. A nosso ver, não tem porque não pode e intimamente ninguém a quer como exclusiva. Para isto decisivamente pesam outros relacionamentos plurisseculares e qualquer programa de estado-unificação continental, consiste numa negação daquilo que este país sempre foi e quis ser, posição esta consolidada pelo nosso alinhamento com a nossa antiga e agora, de forma decisiva, com os países da CPLP.  A dualidade da política externa portuguesa deve ser para alguém como Durão barroso, uma constante que o próprio demonstrou como ministro dos negócios estrangeiros e mais tarde, como 1º ministro. 

 

3. Angela Merkel.

Neste país demasiadamente habituado a chefes de governo que não liam dossiers e preferiam cantarolar o bem-bom e jogar na chicana politiqueira, alheando-se do profundo conhecimento dos verdadeiros assuntos do Estado - houve quem por isso mesmo tivesse chegado ao Palácio de Belém - , a Chanceler alemã surge sempre como uma oportuna válvula de escape da nossa incompetência e desleixo, mesmo recorrendo-se a intragáveis argumentos revolvidos naquelas décadas em que os nossos avós ainda eram muito jovens. Segundo Barroso, Merkel é mesmo a chefe de governo mais atenta aos problemas globais da Europa e aquela que tem uma visão para a União Europeia, concorde-se ou não com o modus operandi ou o projecto alemão. Mais ainda, D.B. diz algo que embora seja uma evidência diária, a quase todos escapa por mero oportunismo ou estupidez: a Alemanha cumpre o seu papel e tornou-se preponderante por mérito próprio e pela incapacidade, falta de organização e nula vontade dos demais parceiros europeus. Esta é a verdade. Se em vez de Soares, Cavaco, Sócrates e outros, tivéssemos beneficiado da frieza e capacidade de trabalho de uma Merkel caseira, a nossa situação seria bem diferente. Note-se que não sendo a Chanceler uma águia política comparável a Adenauer, Schmidt ou até Kohl, é sem dúvida muito eficaz no seu relacionamento com a França, Itália, Espanha e demais países componentes do grupo continental. Qual é então a dúvida?

4. Rússia. 

Mesmo considerando o seu regime que nos surge como exótico no contexto para parte central e ocidental da península europeia, Putin é infinitamente mais benigno do que todos os caídos secretários-gerais que o PCUS arrogantemente exibia ao mundo como oráculos da única verdade plasmada no velho  Pravda, essa verdadeira alucinação colectiva  encarada como dogma de papel. O relacionamento com uma super-potência - estatuto que a Rússia jamais deixou de ter, apesar das ilusões cultivadas por muitos incautos e sad sweet dreamers com quem nos relacionamos em aliança - , será sempre um dos primordiais problemas da liderança europeia, seja ela a exercida pela Comissão ou aquilo que um dia lhe sucederá, ou pelo país em melhor situação para falar em nome da Europa. 

Barroso disse algo que é muito importante, pois provem de alguém que não é suspeito de anti-atlantismo ou anti-americanismo. Não soubemos ou não quisemos aproveitar as oportunidades apresentadas pela fragorosa queda do Muro de Berlim e do regime soviético.  Pelo contrário, a Rússia foi ostensivamente humilhada, alijada da sua legítima participação e consulta nos assuntos da grande política internacional. Hoje reduzida às fronteiras grosso modo correspondentes às do reinado de Pedro o Grande - quase coincidindo com as da capitulação em Brest-Litovsk -, já não é nem de longe o grande império de Nicolau II e muito menos ainda, a expansionista e agressiva União Soviética de todos os justificáveis medos. O ex-presidente da C.E. teve ainda a coragem de apontar o nome do principal responsável por esse catastrófico programa de rebaixamento de uma Rússia com quem, independentemente do regime ali vigente, imperiosamente teremos sempre de contar: nada mais nada menos, senão os Estados Unidos da América. Talvez agora os mais insistentes red-necks apostadores da política do tudo ou nada - ou por outras palavras, da guerra -, comecem a aperceber-se do verdadeiro perigo que esta política gizada além-Atlântico representa para a própria manutenção de uma NATO sem brechas. 

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publicado às 19:19

Basam Dambu ao ataque!

por Nuno Castelo-Branco, em 01.11.14

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Soam as sirenes de alarme, os bombardeiros que parecem saídos do Segredo do Espadão andam em patrulha ao largo da costa portuguesa. Nada de novo, pois este tipo de cruzeiros nas alturas são algo de bastante habitual por parte das forças aéreas da Rússia e dos Estados Unidos da América. Os mais receosos apontam a capacidade de transporte de bombas atómicas nos porões dos Tupolev-95 Bear. É como se receássemos hoje uma patrulha de dois B-29 dos tempos do Enola Gay. Alguns poderão justificar o medo com o argumento daquela solitária Fortaleza Voadora que em 1945 despejou a sua carga sobre Hiroxima. Ora, com um punhado de F-16 já um tanto ou quanto ultrapassados, mesmo o depauperadíssimo Portugal parece melhor apetrechado do que o Império do Japão estava em Agosto daquele já longínquo ano, garantindo que nem mesmo uma enorme frota de obsoletos Bear poderiam alguma vez semear cogumelos nucleares na nossa paisagem. 

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Partamos então do princípio de os aflitos comentadores da NATO ainda adormecerem com a leitura das aventuras de Blake e Mortimer, transfigurando em Putin, o bicho-papão Basam Dambu que pelo menos, era um imperador com bombardeiros aparentemente mais modernos.  É mesmo, aproveitemos então para enviar uma declaração de guerra aos russos!

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publicado às 19:22

O longo telegrama de Putin

por John Wolf, em 03.09.14

Coloquem no mesmo saco Realpolitik, estratégia, processos de tomada de decisão, política externa, propaganda, comunicação, poder económico, capacidade bélica, a história imperial da Rússia, a ex-superpotência União Soviética, o controlo dos média, os métodos políticos não convencionais,  a repressão política interna, a condição geopolítica hibrída europeia-euro-asiática do país em causa, uma oligarquia, a Esquerda, a Direita, Capitalismo,  Socialismo e Comunismo, e agitem muito bem, e terão o campeão de pesos-pesados de seu nome Putin. Não pensem por um instante que estamos a lidar com um louco que acordou para aí virado. Não se deixem enganar pela pausa forçada sobre as potências ocidentais e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Para começar a entender Putin, há que pensar como Putin. Para poder antecipar a Rússia, há que saber antecipar a sua antecipação. Para quem se deixa levar pelo brinde de um cessar-fogo acordado a escassas horas do início da cimeira da NATO (que amanhã tem início no País de Gales), relembro que Putin é hábil na transferência do ónus da questão. A NATO que já vinha preparando uma linha dura de resposta à Rússia e as suas incursões ucranianas (e outras que decerto se seguirão), pode vir a ser vislumbrada como a má da fita nesta história. No jogo de espelhos e percepções, Putin passa de agressor a vítima - a campeão da paz alcançada com a Ucrânia e a destinatário da mensagem agressora da NATO. A formulação da política externa dos EUA, e por arrasto dos países nucleares da União Europeia, parece não aproveitar lições dadas há décadas. Não peço um conselho de sábios, mas um George Kennan dos anos noventa aos dias de hoje teria dado algum jeito. No longo telegrama enviado do seu posto diplomático de Moscovo em 1946, Kennan refere a urgência da contenção dos desígnios expansionistas da União Soviética. Embora a história não se repita, a mesma pode ser alvo de desejos revisionistas (ou revanchistas ). Putin desenhou uma estratégia que vai muito para além da estância balnear da Crimeia ou do último reduto de Kiev. Os lideres ocidentais, que partilham o património atlântico e uma parte da história, se desejam efectivamente tirar o tapete por debaixo dos pés de Putin, devem pensar com grande avanço sobre os intentos russos. Devem estar adiantados no tabuleiro. Devem desejar o melhor, mas esperar o pior. Devem esboçar diversos cenários que envolvam resquícios de dominós em queda, porque a pequena paragem que Putin se nos oferece, não serve para inverter a direcção da sua marcha. Servirá apenas para deslocar o ângulo de vista de algo, que para alguns constitui um problema, mas que para outros será a única solução.

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publicado às 14:49

Putin, política externa e palavras vazias

por John Wolf, em 02.09.14

Do mesmo modo que não existem vazios de poder na grande paisagem geopolítica, também não pode haver falta de conceitos estratégicos no que diz respeito à política externa dos Estados. Obama declara que ainda não existe um modelo de resposta ou combate ao Estado Islâmico e, a União Europeia (UE), que ainda não conseguiu estabelecer a sua Política Externa e Segurança Comum, parece avançar com peças avulso na formulação das suas relações exteriores. Não sabemos com precisão o que o ainda Presidente da Comissão Europeia José Manuel Barroso terá dito, mas Putin respondeu de viva-voz  que a conquista de Kiev (a acontecer) não demoraria mais do que duas semanas. Federica Mogherini, que ainda nem sequer teve tempo de aquecer a cadeira de responsável pela política externa da UE, também não precisou de muito tempo para atirar ao ar palavras vazias que ninguém pode garantir que sejam corroboradas por actos, decisões substantivas. Mogherini afirma peremptoriamente que cabe a Putin decidir se quer ser parceiro ou opositor da UE. Pelos vistos, entramos numa fase de improviso perigoso. Enquanto Putin passa dos actos aos actos, o mundo livre parece não conseguir se desatolar da espiral de palavras descoordenadas. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) parece ter a noção de que um novo conceito definidor deve nascer com um sentido de urgência notável, mas, enquanto se preparam cimeiras, Putin poupou trabalho aos think-tank a Leste e Oeste, e já partilhou com o mundo o tratamento que a NATO deve esperar do Kremlin. E isso deve ser considerado um factor de relevo - uma mensagem clara que obriga a uma resposta inequívoca da UE, da NATO, assim como das lideranças que ainda merecem essa designação.

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publicado às 08:27

Putin decide mais Austeridade para a Europa

por John Wolf, em 30.08.14

A grande maioria dos comentadores ou analistas políticos tende a pensar dentro de uma caixa. Elege um conjunto de elementos operativos, convenções e pressupostos, e disponibiliza a sua visão do mundo. E existe um perigo assinalável quando nos deixamos repousar em determinados conceitos intelectuais, como se os mesmos fossem intocáveis. Recentemente têm surgido alguns académicos suficientemente ousados para abalar as suas próprias fundações. Nassim Taleb será um deles - o inconveniente professor de incerteza da Universidade de Nova Iorque -, que entre outros feitos, definiu o conceito de "extremistão": a dimensão onde factos tidos como improváveis acontecem. Vem esta dissertação a propósito da evolução do conflito que opõe a Ucrânia à Rússia e as consequências do seu agravamento para o resto do mundo. Ontem escutei atentamente outro analista que merece a nossa consideração por ter sido capaz de prever muitos acontecimentos que abalaram o frágil equilíbrio do sistema financeiro-económico. Dennis Gartman é mundialmente conhecido pela publicação diária de um relatório sintético que serve de alimento para processos de reflexão nos campos político, financeiro e económico- The Gartman Letter. Na entrevista que concedeu ao não menos hábil Tom Keene no programa de rádio Surveillance da Bloomberg, Gartman alerta a Europa para uma distinta e nova forma de austeridade imposta pela Rússia à Europa. No fogo-cruzado de sanções que parece estar a entrar numa fase mais aguda, a União Europeia sofrerá os efeitos da política externa destemida de Putin. Embora não resulte de um processo político convencional, ou de uma Troika dirigida com intenções claras, em termos práticos, o resultado será o mesmo. São implicações deste cariz que parecem não constar da consciência política da Europa, e, à sua escala, de países com a dimensão de Portugal. São cenários de excepção como estes que me preocupam, não tanto pelos factos em si, mas por termos ao leme dos destinos das nossas nações, governantes ou prospectivos lideres com um atroz grau de ingenuidade, um nível de preparação insuficiente. Portugal, mesmo sendo a derradeira fronteira ocidental da Europa, não ficará à margem deste processo. A haver uma guerra europeia, a mesma será de um género inédito, combinando factores de guerrilha convencional com outros meios igualmente devastadores. Há quem acredite que a Rússia esteja a fazer bluff para granjear alguma vantagem táctica, mas num quadro maior de percepções a Rússia procura readmitir o seu Lebensraum, por variadíssimas razões históricas ou histriónicas de Putin. A Europa que se convenceu da estabilidade da paz, necessita rapidamente de repensar os pressupostos do jogo. Portugal,  infelizmente,  será um pequeno mexilhão, mais espectador do que interventor capaz de alterar a força das dinâmicas que já se fazem sentir. Tenhamos algum medo.

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publicado às 12:28

Uma oportunidade

por Nuno Castelo-Branco, em 21.05.14

Não é preciso ser-se um Talleyrand de café, para de imediato nos apercebermos do potencial de revisão de política que as dificuldades de entendimento entre russos e chineses, poderão representar para o ocidente. Urge um rápido entendimento leste-oeste, precisamente quando a Moscovo surgem perspectivas de uma encruzilhada geoestratégica. A política ditada pelo país tutelar da NATO, tem  produzido as mais desvairadas decisões que em muito enfraquecem e colocam em risco os interesses da Europa. A inegável derrota militar na Síria, soma-se à precipitação quanto ao tratamento a dar ao caso ucraniano, tendo sido sempre privilegiados os ímpetos para a obtenção do sonhado tudo, esse escusado, final e tardio ajuste de contas da já por muitos esquecida Guerra Fria.

 

À Europa interessa uma Rússia cooperante e estabilizada, mas para isso urge convencer os nossos aliados norte-americanos. Não podem ser ultrapassados os limites que a história claramente indica como fundamentais para a sensação de segurança dos russos. Status quo nas áreas de influência estabelecidas após 1991, neutralidade ucraniana e o imperioso evitar de mais focos de fricção no Médio Oriente e na Ásia Central. 

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publicado às 09:52

Putin na China

por Nuno Castelo-Branco, em 30.04.14

Consta que V. Putin visitará a China, com este país assinado um contrato de fornecimento de gás natural. É esta a resposta conseguida pelo ocidente e aqui está uma excelente oportunidade oferecida a alguns polos industriais portugueses. Poderemos acelerar a produção de edredões, lanifícios e pijamas-Kispo  destinados à Europa central, oriental e do norte. Será que ainda temos alguém capaz de fabricar escalfetas e braseiras? Prevê-se alguma procura internacional.

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publicado às 10:19

O Ocidente e Putin

por Samuel de Paiva Pires, em 15.04.14

Daniel Altman:

 

"Recently Angela Merkel, the German chancellor, suggested that Putin was living in a world of his own, divorced from reality. The opposite is true. Putin is a rational actor who steadily pursues his interests, which are well known to the world at large. Appealing to morality, international law, or any other arbiter of behavior other than pure pragmatism is unlikely to succeed with him. Yet by the same token, his straightforward approach makes him the easiest sort of opponent for a similarly minded strategist. He must be surprised that the West still performs so badly against him."

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publicado às 13:02

Parece que...

por Nuno Castelo-Branco, em 24.03.14

...há qualquer coisa que está a escapar à gente de Bruxelas. Ainda há dias, na conferência anti-Rússia, decidiram-se pela valorização do fornecimento de gás proveniente do Magrebe, diga-se, da Argélia. Apontaram a excessiva dependência da Europa em relação aos russos, mas não atenderam à situação volátil que se vive a sul do Mediterrâneo e no bem possível recrudescer daquilo que há uns anos se chamava "Frente Islâmica de Salvação". Se assim for, deixaremos de depender de Putin, tornando-nos clientes dos islamitas radicais. Brilhante decisão, não haja dúvida. 

Tudo isto parece muito precipitado e causa estranheza. No entanto, bem vista a situação tal como ela se apresenta na Síria - sem sequer contarmos com a criminosa apatia perante todo o financiamento do islamismo radical pelos qataris e sauditas - , talvez seja este o novo caminho. Passamos a apoiar aqueles que nos querem destruir, ou como Lenine costumava dizer, damos-lhes a corda com que eles nos enforcarão.

 

Passando sobre marginalidades europeias, é esta a política incentivada pelo Departamento de Estado e pelo Pentágono? 

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publicado às 09:21

Brincadeiras perigosas

por Nuno Castelo-Branco, em 26.02.14

Consta ter o Sr. V. Putin colocado o exército russo de prevenção. Se é improvável o desencadear de qualquer guerra na Europa - no verão de 1914 também assim parecia -, esta demonstração de força parece querer obrigar "a Europa" a tomar consciência da situação que agora se apresenta. 

 

O que acontecer na Ucrânia, poderá significar algo que muitos julgavam impossível, mas a verdade é que já temos entreaberta a porta dos revisionismos. Uma Rússia contrariada, poderá acicatar alguns ímpetos que decerto não lhe regatearão agradecimentos. A lista de países candidatos ao redesenhar de mapas é longa e sintomaticamente, alguns deles pertencem à U.E. Senão, vejamos:

Hungria, Roménia, Bulgária, Sérvia, Croácia, entre outros. Tudo isto parecerá negligenciável, até novamente surgir um caso não esquecido pelos interessados. Façam o favor de imaginar até onde poderemos chegar.  

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publicado às 20:04

Por um canudo...

por Nuno Castelo-Branco, em 28.12.13

 

O cruzador de batalha Pedro o Grande

...ficam israelitas e americanos a ver a miragem da jihadista vitória militar na Síria. Este acordo que Putin celebra com Assad terá múltiplas vertentes, uma das quais será a delimitação da "área de caça" russa na região. Tudo se torna mais nítido, Obama não poderá fingir não ter percebido. Ele que explique os factos consumados aos seus irrequietos colegas de Jerusalém. 

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publicado às 11:01

As bombas de Obama e a carta de Putin

por Nuno Castelo-Branco, em 13.09.13

 

Pela primeira vez vez em muitas décadas, um texto saído da cúpula moscovita teve eco internacional. Já não se trata de uma velha tirada de retórica ideológica "aglomera-ânimos" dos tempos do estalinismo, mas sim de um magistral documento que em cheio atinge a psique do americano comum. Os argumentos são clássicos - e por isso mesmo sumamente eficazes -, indo sempre apelar a um bastante politicamente correcto appeasement que ao invés daquilo que o comum dos mortais julga, jamais se tratou de uma característica da politica norte-americana. Putin é bem claro, pois afirma  ..."I carefully studied his address to the nation on Tuesday. And I would rather disagree with a case he made on American exceptionalism, stating that the United States’ policy is “what makes America different. It’s what makes us exceptional.” It is extremely dangerous to encourage people to see themselves as exceptional, whatever the motivation. There are big countries and small countries, rich and poor, those with long democratic traditions and those still finding their way to democracy. Their policies differ, too. We are all different, but when we ask for the Lord’s blessings, we must not forget that God created us equal." Lapidar. 

 

Para não irmos demasiadamente longe na retrospectiva da história, temos de considerar a provocada guerra espano-americana, eivada de falsas informações, atentados inventados ou decorrentes de meras contingências alheias a qualquer malévola vontade. Prosseguindo, durante a I Guerra Mundial, o presidente Woodrow Wilson capciosamente indicaria aos beligerantes um programa que flagrantemente era por si mesmo uma tomada de posição de pré-beligerância, dada a situação  sobre a qual se erguiam os impérios da Áustria-Hungria e Otomano. De facto, todo o articulado dos 14 pontos poderia ser resumido àquilo que aos Aliados pareceu essencial, isto é, num novo e oportuno - sobretudo para a França - redesenhar do mapa do velho "continente", desarticulando-se toda a Mitteleuropa e impedindo sine die o alvorecer daquilo a que Coudenhove-Kalergi designaria de Paneuropa.  A autoria americana da destruição do outrora poderoso fiel da balança de poderes que era o império dos Habsburgos, de forma alguma consagrou os princípios anunciados por Wilson. A Checoslováquia, a Jugoslávia, a Roménia e a própria Polónia, foram o efervescente cadinho para novos conflitos que inevitavelmente desestabilizariam a ordem estabelecida por Versalhes. 

 

A inevitável ascensão do nacional-socialismo ao exercício do poder na Alemanha, - o Tratado de Versalhes e a política de "reparações" assim o permitiram - serviria precisamente para demonstrar o quão falaciosos eram os 14 pontos apresentados ao mundo como caboucos da paz eterna. Hitler deles se serviu para a contabilização das suas reivindicações territoriais na Europa. Ao pretender a inclusão da Áustria, dos Sudetas, de Dantzig, de áreas da Posnânia, do Tirol do Sul e de outros territórios povoados por alemães, não estaria o Fúhrer a basear o seu discurso naquilo que Wilson indicara como essência da justiça e da confiança internacional? Era, daí a política de appeasement que as democracias ocidentais cultivaram durante toda a década de trinta, presas ao sofisma por elas próprias adoptado como fonte primeira do direito. Prosseguindo na longa série de interpretações unilaterais do direito internacional, Washington, detentora de jamais assumidas possessões coloniais - as Filipinas, por exemplo -, verberou com acrimónia o cada vez mais evidente expansionismo japonês, precisamente no momento em que sugeria aos portugueses a cedência de Angola como possível solução para as nebulosas promessas de Lord Balfour.

 

Todo o caminho que conduziria a América a Pearl Harbour foi balizado  por discursos e atitudes claramente beligerantes, desde as proibições de comércio de matérias primas destinadas ao Japão, até a claros ultimatos enviados a Tóquio logo após a intervenção japonesa na Indochina. Se a isto somarmos as conversas à lareira que Roosevelt prodigalizaria como forma de justificar a intervenção que já se verificava em pleno Atlântico - comboiando a US Navy os freighters britânicos a caminho do R.U. -, temos então um quadro bastante completo do assumir da pretensão hegemónica mundial. O fim da II Guerra Mundial consagraria esta política, aliás facilitada pelo completo ocaso das antigas potências europeias destruídas pelo conflito. Na verdade, a emergência da URSS - previsível desde 1905, quando a espectacular recuperação económica prometia a hegemonia continental ao império dos czares -, porque tardia, serviu os interesses norte-americanos, evitando qualquer multilateralismo, ou melhor, um mundo multipolar que já se adivinhava com a chegada à cena internacional de novos países recentemente descolonizados. 

 

A simbólica queda do Muro de Berlim apenas confirmaria a suposição de uma provisória assunção americana da ordem internacional, pois em 1989 já eram nítidos os sinais do despertar chinês e da aproximação da Índia e de países sul-americanos - o Brasil - a um maior protagonismo nas relações internacionais. Os erros cometidos foram imensos, entre os quais avulta a apressada entrada da China na OIC e por isso mesmo caindo as vitais barreiras que durante muitas décadas garantiram a estabilidade e pujança das economias ocidentais. 

 

A liquidação do império soviético conduziu ao esperado resultado da fragmentação da massa euro-asiática, facto que os norte-americanos logo souberam aproveitar, estabelecendo fortes laços com as novas autoridades de alguns dos Estados da Ásia Central. A verdade é que tal como Roosevelt não fazia a menor ideia acerca da localização de importantes províncias alemãs como a Silésia, Pomerãnia e Prússia Oriental - entregando-as sem um piscar de olhos à limpeza étnica promovida pelo seu aliado J.V. Estaline -, as sucessivas administrações de Reagan, Bush, Clinton e Bush (filho), pareceram dar nenhuma importância à necessidade da existência de uma esfera de segurança russa. Já não se tratava da Europa central e oriental, do Afeganistão ou de Cuba, mas sim das áreas tradicionalmente ligadas aos russos durante os últimos trezentos anos. Washington não foi capaz - ou terá sido intencional ? - de prever a gravidade dos desafios que eram colocados a Moscovo, cujas autoridades foram subitamente colocadas perante factos consumados nas suas fronteiras. O radicalismo islâmico alastrou em algumas áreas ainda componentes do Estado russo e Putin ver-se-ia colocado perante a desagradável escolha entre uma contemporização que denotaria fraqueza extrema, e a acção que macularia a sua imagem de estadista pós-soviético. Washington não ajudou e pior ainda, deu carta branca a dirigentes considerados próximos, sendo o caso georgiano um entre outros exemplos. Todos conhecemos o afã quanto à intervenção no Iraque, alegando então George W. Bush com aqueles perigos que durante estes dias Obama tem escrupulosamente enunciado quanto à Síria. Ora, tendo sido comprovadamente falsas as alegações com as quais se mimoseou o sanguinolento regime de Saddam Hussein - um reconhecido antigo aliado táctico na luta contra os aiatolás - , como esperará agora a administração norte-americana, um acatar ocidental do mesmíssimo discurso agora dirigido a Assad? A verdade é que o regime de Damasco tem sido moderadamente eficiente na passagem da sua mensagem anti-Al Qaeda e na Europa, ao contrário dos loucos de Deus que parecem prevalecer nos EUA, o repúdio por mais uma aventura Yes we can, é evidente. Os aliados incondicionais - as populações do Reino Unido e de Portugal - fazem saber via sondagens, da sua total indisponibilidade por um caucionar do conflito que se prepara, enquanto outros, entranhadamente avessos a projectos de contornos muito difusos - a Alemanha -, abertamente se opõem ao toque a reunir. Em suma, os russos sabem que desta vez os americanos se encontram isolados e pior ainda, a administração não pode contar com um esmagador apoio interno. Neste sentido, a carta de Putin também é magistral.

 

O presidente russo sabe a quem se dirige. Senão, vejamos:

 

1. "Amansando a fera", o presidente russo anuncia não desconhecer as dificuldades do período da Guerra Fria, matizando-as com a fugaz aliança durante a II Guerra Mundial. Este poderá ser um argumento com mais peso que aquele aparentemente suspeitado, pois sabe-se que a política do Departamento de Estado está intimamente ligada, quando não dependente, do posicionamento do seu mais forte aliado no Médio Oriente. 

 

2. Aquando das intervenções russas na Alemanha (1953), Hungria (1956), Checoslováquia (1968) e Afeganistão (1979), os americanos fizeram enorme alarido em todos os areópagos internacionais, apelando à carta das Nações Unidas. Aliás, os seus interesses específicos naquela parte do mundo - o Médio Oriente - obrigariam os EUA a rapidamente condenar a intervenção anglo-francesa no Suez (1956), implicitamente reconhecendo uma violação da soberania por parte das outrora poderosas potências europeias. Putin escreve hoje exactamente segundo o mesmíssimo guião, indicando a ONU como o forum capaz de dirimir conflitos e até aponta o direito de veto - prodigamente utilizado pela Rússia e China - como um dos recursos capazes de manter o equilíbrio nas relações internacionais. O espectro da Sociedade das Nações está presente, pois não é por acaso que de imediato nos surge a lembrança das atitudes unilaterais daqueles que um dia foram os parceiros do Eixo que a Rússia (a então URSS) e os EUA combateram em nome do direito internacional. Este é um argumento de rápida divulgação e de esperado sucesso na Assembleia Geral da ONU. Em suma, "the United Nations’ founders understood that decisions affecting war and peace should happen only by consensus, and with America’s consent the veto by Security Council permanent members was enshrined in the United Nations Charter. The profound wisdom of this has underpinned the stability of international relations for decades.

 

3. Putin conhece perfeitamente a forma como o americano comum entende a sua própria presença terrena. O apelo a Deus - neste caso, o dos cristãos - e a menção ao actual Papa, não será por mero acaso. A evidência do alastrar da instabilidade pela consolidação de grupos terroristas - os americanos atrever-se-ão a considerar este facto como uma falsidade? -, não deixará de influir pesadamente na opinião pública americana, ela própria copiosamente alimentada de pavores, conspirações e mania de atentados sugeridos pelas suas autoridades. Putin simplesmente aproveita o caldo de cultura servido pelos sucessivos governos norte-americanos e ameaçando com o terrorismo islâmico - nisto irmanando os interesses de russos e americanos -, desfere um golpe fulminante em todo e qualquer discurso que Obama possa proferir. Pior ainda, ameaça a Europa com a subversão, pois "mercenaries from Arab countries fighting there, and hundreds of militants from Western countries and even Russia, are an issue of our deep concern. Might they not return to our countries with experience acquired in Syria? After all, after fighting in Libya, extremists moved on to Mali. This threatens us all." É mesmo verdade, não há como negar. 


4. Um aspecto nada negligenciável e que se prende com a situação actualmente vivida noutros países da região - referimo-nos ao Egipto -, faz de Putin um defensor das minorias religiosas, nomeadamente dos cristãos que mais que nunca se encontram ameaçados pelo avanço islamita. Há que considerar o papel da Turquia - ela própria a braços com a instabilidade - na região, sempre sob forte suspeita da tentativa de criação de um certo Lebensraum de claro recorte imperial e que obedece grosso modo à tradição otomana. O tácito apoio russo aos iranianos não deve ser apartado deste caso. 


5. A propaganda desmontada. São bastante fortes as suspeitas do uso de gases por parte dos chamados rebeldes e talvez esporadicamente, por Assad. Crescem os testemunhos e a lógica indica o total desinteresse de Assad em cruzar a barreira que Obama ainda não há muito estabeleceu. Todos se recordarão do Caso Saddam e a evolução iraquiana não foi de molde a deixar qualquer tipo de ilusões na opinião pública norte-americana, ainda para mais confrontando-a com a iminência de um ataque químico a Israel: "no one doubts that poison gas was used in Syria. But there is every reason to believe it was used not by the Syrian Army, but by opposition forces, to provoke intervention by their powerful foreign patrons, who would be siding with the fundamentalists. Reports that militants are preparing another attack — this time against Israel — cannot be ignored."


5. A desculpabilização do Irão e da Coreia do Norte. O  bastante previsível unilateralismo norte-americano que Putin aponta ao longo de todo o seu texto - "millions around the world increasingly see America not as a model of democracy but as relying solely on brute force, cobbling coalitions together under the slogan “you’re either with us or against us.” - conduzirá à inevitabilidade do surgimento de todo o tipo de arsenais dotados de armas de destruição maciça e entre estas, a pavorosa bomba atómica que ensombra a imaginação do Ocidente. Assim, o presidente russo parece oferecer os seus bons ofícios que tenderão a impedir este resvalar do armamento nuclear para mãos duvidosas. No fundo, está implícito o princípio da prevalência do "homem branco" que civiliza e protege o Direito. 


6. Putin estabelece os limites, indica o espaço da sua coutada. De facto, toda a Ásia Central, os Estados eslavos saídos da extinta URSS e uma mão cheia de países tradicionalmente aliados ou dependentes, são considerados como pontos vitais da segurança russa, sendo entre estes a Síria um importante contraponto aos desígnios turcos e aos conflitos latentes no Cáucaso. Em resumo, a presença americana deve ser moderada pelos ditames da realpolitik que afinal serve perfeitamente os interesses dos EUA - os do Ocidente - a longo prazo. 


7. Em conclusão, Putin será decerto benquisto pela maioria dos ocidentais, principalmente por muitos europeus temerosos da imprevisível situação interna nos seus países  - França, Bélgica, Alemanha, Suécia -, também convencidos do declínio norte-americano que implicará uma inevitável aproximação  entre os países do hemisfério norte. É claro que todos entenderão o que isto quer dizer, pois existe um receio histórico que há uma centena de anos se denominava de perigo amarelo. O medo funciona. Hoje, esta tonalidade é acompanhada por outras. Putin sabe-o e racionalmente apela ao irracional. É um mestre

 

 

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publicado às 19:52

Ainda a carta de Putin

por Samuel de Paiva Pires, em 13.09.13

No seguimento do meu post anterior, o Rui Carmo escreve - e bem - sobre como a acção política de Putin tem ido no sentido contrário ao que a sua carta de ontem deixa patente. No entanto, ao contrário do que o Rui aponta, não deposito qualquer esperança em Putin. Ainda ontem a Foreign Policy publicava uma excelente peça sobre uma outra carta de Putin, em 1999, em que, para justificar uma intervenção militar na Chechénia, utilizava argumentos idênticos aos que Obama utiliza para justificar a intervenção na Síria. Aliás, nem precisaríamos de ir tão longe, bastava recordar a intervenção na Geórgia e a retórica de cariz ocidental e humanista utilizada por Putin para a defender. Afinal, a política internacional, como não poderia deixar de ser, é dominada, em larga medida, por double standards. Isto, contudo, não retira importância à carta que, conforme escrevi ontem, provavelmente poderá tornar-se um dos textos mais estudados nos próximos anos em cursos de Relações Internacionais, e foi isso que pretendi transmitir com o meu post. De resto, estou completamente de acordo com este post do Rui A, que transcrevo na íntegra:

 

«A não ser que acreditemos que a conversão da Rússia já começou e que Putin é o novo Constantino, convém procurarmos outras razões para explicar o que está subjacente à magistral intervenção do líder russo na crise Síria, que ontem teve um momento alto com a publicação de um artigo seu no NYT. E esses motivos são relativamente inteligíveis. No essencial, Putin aproveitou uma janela de oportunidade escancarada pelo desastrado presidente americano para voltar a colocar a Rússia como actor decisivo na geopolítica mundial, com foco especial no Médio Oriente e no Islão, donde estava afastada desde, pelo menos, a invasão soviética do Afeganistão. E a mensagem foi muito clara: a pax americana terminou, e o mundo conta novamente com a Rússia para equilibrar o xadrez mundial. A carta “escrita” por Putin é, de resto, uma peça admirável de mestria e de cinismo político, porque utiliza os valores que são caros aos EUA para os chamar à ordem e envergonhar o presidente americano. O flanco dado por Obama com a sua gestão errática do problema Sírio, na sequência dos transtornos que tem vindo a causar com a «primavera árabe» e das trapalhadas de espionagem em que anda metido, vulnerabilizou fortemente os EUA e criou um vácuo de autoridade a que a política internacional tem horror. Putin, ontem, preencheu-o. A administração Obama está de parabéns.»

 

Leitura complementar: Estranhos tempos estesA Plea for Caution From RussiaAs Obama Pauses Action, Putin Takes Center Stage.

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publicado às 14:48






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