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Quando o partidarismo se sobrepõe ao interesse nacional

por Samuel de Paiva Pires, em 09.06.17

Jamelle Bouie, "Who Needs Rule of Law?":

Just one of our two parties is interested in checking this president’s abuse. The other, the Republican Party, is indifferent, content to tolerate Trump’s misconduct as long as it doesn’t interrupt or interfere with its political agenda. What defined Thursday’s hearing, in fact, was the degree to which Republicans downplayed obvious examples of bad—potentially illegal—behavior and sought to exonerate Trump rather than grapple with Comey’s damning allegations about the president. Sen. James Risch of Idaho, for example, pressed Comey on his claim that President Trump had asked the then–FBI director to drop the investigation into Flynn, suggesting that—because Trump didn’t give a direct order—we ought to ignore the clear subtext of the president’s statement. Sen. James Lankford of Oklahoma described Trump’s actions on behalf of Flynn as a “light touch.” Other Republican committee members, like Sens. John Cornyn of Texas and John McCain of Arizona, steered the conversation toward the FBI’s investigation of Hillary Clinton’s private email server. Still others, like Sen. Marco Rubio of Florida, defended Trump’s actions, blasting leaks to the press as efforts to undermine his administration.

 

Republican committee members were aided in all of this by the official organs of the GOP, which treated the hearings as a distraction—a partisan frivolity driven by Democrats and the press. “Director Comey’s opening statement confirms he told President Trump three times that he was not under investigation,” said a statement from the Republican National Committee that recommended a strategy of deflection. The RNC additionally argued that “Director Comey lost confidence of both sides of the aisle, and the president was justified in firing him.” House Speaker Paul Ryan, commenting on the procedures, defended Trump’s potentially illegal behavior as the mistakes of a novice. “He’s just new to this, and probably wasn’t steeped in long-running protocols,” he said.

 

(...).

 

James Comey’s sworn Senate testimony, both written and spoken, is evidence of one political crisis: A president with little regard for rule of law who sees no problem in bringing his influence and authority to bear on federal investigations. The Republican reaction—the effort to protect Trump and discredit Comey—is evidence of another: a crisis of ultra-partisanship, where the nation’s governing party has opted against oversight and accountability, abdicating its role in our system of checks and balances and allowing that president free rein, as long as he signs its legislation and nominates its judges.

 

Americans face two major crises, each feeding into the other. Republicans aren’t bound to partisan loyalty. They can choose country over party, rule of law over ideology. But they won’t, and the rest of us will pay for it.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 17:00

1983

por Nuno Castelo-Branco, em 14.10.16

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 Estávamos em 1983, na fase final da Guerra Fria. Não costumo falar das minhas experiências, mas neste caso abrirei uma excepção. Fui convidado pelo então deputado Borges de Carvalho, para participar num seminário da NATO a realizar-se em Pont-à-Mousson, nas cercanias de Nancy, numa abadia magnífica e adaptada para este tipo de encontros. Um serviço onde a gastronomia e civilidade francesa era acompanhada por um horário de trabalho intenso com professores e militares provenientes de alguns dos países-membro da coligação ocidental. Como colegas portugueses tive um sobrinho do presidente da A.R. de então e o actual primeiro-ministro António Costa. 


Naquele momento a NATO encontrava-se sob esmagadora pressão militar, política e mediática após uma fase de refluxo da presença do ocidente em todo o mundo, perda de influência à qual não foi estranha a derrota americana no Vietname e mais importante ainda, como então sublinhei a quem pacientemente quis ouvir-me, a catastrófica perda de todas as possessões de um dos países fundadores da Aliança Atlântica, deixando assim oaqueles que deveriam ter sido os interesses euro-americanos perigosamente fragilizados nas vias de acesso do grande comércio internacional marítimo, para além da evidente segurança militar que a existência de portos, costas e ilhas amigas representavam. Abertamente o afirmei a quem do outro lado do Atlântico ali chegou para um misto de doutrinação, aulas e talvez prospecção de futuros quadros de confiança. Nunca mais fui convidado para coisa alguma e muitos anos mais tarde percebi o porquê, mea culpa,  quando os outros dois portugueses, então muito mais parcos nas palavras, bem depressa chegaram aos lugares que pretenderam. Nestas reuniões aparentemente procuravam alguns yes, Sir! e a minha personalidade não lhes pareceu cumprir este requisito. 

O que lhes terei dito que tenha soado tão mal aos seus ouvidos? 

Começando por criticar rispidamente toda a política norte-americana quanto ao seu relacionamento institucional com um aliado formal como era, sempre foi e é Portugal, foi em silêncio que escutaram a minha longa lista de protestos plenamente justificados com números e factos e sempre em termos comparativos com as outras prioridades internacionais das administrações que teoricamente se sucederam na Casa Branca. A posição dos EUA na Indochina, os erros crassos, quando não abusos descarados, na relação americana com todos os países da zona, confirmando o fetiche soviético pelo dominó; o disparatado boicote do esforço de guerra português na guerra em África, precisamente em três frentes onde o ocidente poderia ter feito a diferença; o estranho caso da quase gratuita Base das Lajes, sempre em comparação com o despejar de biliões de dólares para sempre irremediavelmente perdidos em Subic Bay e Cam Rahn; a total falta de informações relevantes, obrigatoriamente no âmbito da aliança a fornecer a Portugal e bem pelo contrário, a passagem delas para o campo adversário por intermediários vizinhos dos portugueses. 

Em algumas conversas fora das salas, dois dos militares então presentes concordaram com praticamente tudo o que lhes dissera e encolhendo os ombros - não encontro imagem mais apropriada - disseram-me que não podiam corrigir o mal já feito e ultrapassado em quase uma década. O pior é que estes reconhecidos erros terão durado o tempo suficiente para serem corrigidos ou minorados, atendendo à evolução claramente negativa do conflito na Indochina e a duas consecutivas guerras no Médio Oriente, onde Israel em 1973 seria salvo in extremis, mercê de uma massiva ponte aérea na qual os Açores jogaram uma parte muito relevante, sem que por isso Washington sequer aconselhasse o seu preferencial aliado a moderar a retórica anti-portuguesa nas Nações Unidas. Retorquiu um deles que para o Pentágono, Portugal apenas era uma landing beach a saturar com bombas e mísseis antes do desembarque dos G.I. Assim mesmo, a seco e um tanto ou quanto já sem paciência para a repetição do reconhecimento dos apontados erros. 

Neste período cheio de incertezas, a Base das Lajes vai sendo notícia de forma discreta, não procurando - e bem - as autoridades de Lisboa agitar oceanos que apenas poderão muito prejudicar o nosso país no seu todo territorial. Tem alguém a mais pequena dúvida disso? A viagem de Costa à China não serviu apenas para o estreitamento de relações comerciais luso-chinesas, disso deveremos estar tão certos como o Sol despontar a leste todos os dias.

Existe um facto incontornável que pela sua perenidade de imediato deverá estar sempre presente a quem, seja quem for o partido que domine o poder em Lisboa, se encontre em qualquer tipo de negociações em relação à preciosa possessão portuguesa situada em pleno Atlântico norte: mesmo que os EUA retirem todo o pessoal que tem povoado a Base das Lajes, decerto Washington ali manterá um corneteiro e um soldado que ali diariamente hasteie a bandeira estrelada. Os símbolos conformam toda a importância que têm e neste caso, a Base é de facto um local privilegiado no preciso momento em que o alargamento do Canal do Panamá promete intensificar ainda mais as ligações marítimas do resto do mundo com a até hoje abastada Europa, agora, apesar da censura dos media, sob um ataque total proveniente do exterior. Poderão argumentar os portugueses e os seus hipotéticos convidados, venham eles de onde vierem, com  intenções meramente científicas ou comerciais, mas deverão sempre ter em conta que os americanos jamais admitirão um único corneteiro, para além do seu, naquelas ilhas. Muito menos ainda, aviões, navios, blindados, mísseis, soldados ou técnicos militares que sequer de longe possam representar uma passagem de testemunho. Esta é a realpolitik com que temos de nos conformar e se são totalmente desejáveis e imprescindíveis as novas relações de comércio e troca de conhecimentos entre Portugal, a China, a Índia, a Rússia, o Brasil e até outros países europeus que connosco ainda participam na bastante incerta U.E., a questão da posse militar do arquipélago açoriano é um escolho imenso, intransponível. Para além da praticamente segura perda dos Açores, o nosso país não pode ser um alvo de qualquer tipo de campanha hate ou ter Lisboa a servir de alvo como foi Belgrado. 

Hoje a NATO tal como existe é questionável, urge mesmo a sua rápida reforma após as colossais decepções decorrentes da queda do comunismo soviético. Há que avisar todos os nossos aliados acerca desta urgência incontornável e de preferência, numa reunião magna, diante do mundo.

Previa-se a anexação do território da zona soviética da Alemanha e a neutralização ao estilo finlandês dos países do Pacto de Varsóvia, outrora servos de Moscovo. Não foi isso o que aconteceu, para grande desilusão russa, preparada como estava para aceitar a retirada do território da RDA, mas que hoje vê com legítima inquietação a grotesca, aberrante tentativa de incluir a Ucrânia numa aliança que parece cada vez mais tentacular e devemos dizê-lo sem rebuços, unilateral e capa de desculpa para acções que apenas a um dos seus membros interessam. Muito legitimamente, os russos sentem-se ameaçados directamente e para isso bastará passarmos nós, os aliados ocidentais, as nossas vistas sobre a lista de bases ocidentais espalhadas de ocidente a leste e a sul da Rússia. Em política, a psique funciona e nalguns casos é mesmo um factor determinante.

A NATO surgiu com propósitos defensivos, até de garantia de progresso material e liberdade numa Europa destruída pela guerra e ódios seculares. Cumpriu plenamente o seu papel e obteve, graças à persistência e claras insuficiências e contradições internas do sistema soviético, uma vitória certamente esperada. Nos anos de 1989, 1990 e 1991 bateram-se palmas de alegria, cantaram-se hinos, unificou-se uma nação dividida arbitrariamente e num ápice desapareceram os Estados totalitários que oprimiam os próprios povos, mantendo-os numa abjecta sujeição a um suserano externo, fatalmente incompetente no que interessava - o conforto material, a liberdade de expressão e circulação -  e brutalmente impiedoso. 

Hoje começamos a ouvir ao longe o inconfundível rufar dos tambores da guerra. Num momento em que os russos nunca viajaram tanto, num momento em que os russos livremente lêem e escrevem tudo o que entendem, num momento em que os russos são uma sociedade de consumo muito exigente e valiosa para o conjunto europeu, num momento em que os russos investem, compram e viajam na Europa, estamos perante aquilo que durante os anos de chumbo que foi a Guerra Fria jamais sucedeu: a iminência de um conflito militar de larga escala, onde, queiram ou não queiram os mais optimistas, as armas nucleares serão usadas, mesmo que pontualmente. Não serão apenas utilizadas na Europa, mas também além Atlântico, ...precisamente onde mais lhes dói, segundo o dizer de um conhecido russo.  A Síria será então um pretexto tão ínfimo como o Caso Gleiwitz. 

Em 1939, o governo então presidido por Salazar encontrou-se perante o dilema de se situar entre a potência tutelar, o então enfraquecido Reino Unido que connosco fazia fronteiras na África e na Ásia e uma Alemanha plena de vigor e espírito expansionista. Salazar sabia que não podia quebrar com os ingleses como sempre prepotentes na chantagem sobre o nosso império e em simultâneo, também tinha a plena consciência do que poderia advir para Portugal ao antagonizar-se com o Reich.

Declarada a guerra a 3 de Setembro, o Presidente do Conselho foi à Assembleia Nacional e ali manifestou a fidelidade portuguesa à Velha Aliança e em simultâneo declarou a neutralidade. Pois é disso mesmo que os nossos aliados têm a imperiosa necessidade de recordar e que o então meu colega de três semanas, António Costa, hoje primeiro ministro, deverá, em caso de inopinada e impensável necessidade,  integralmente copiar. Mesmo morrendo, salvaremos a face em relação aos poucos que ficarem para contar a história. 




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publicado às 22:11

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Há qualquer coisa que não bate certo neste guião. A Grécia vive dias muito difíceis. Tem a corda na garganta. Prometeu libertar o seu povo da Austeridade imposta pela Alemanha e chora desalmadamente porque não tem como pagar as contas. Mas isso não a inibe de negociar a compra de sistemas de mísseis à Rússia. Tsipras confirma os nossos piores receios. Não é um libertador da Europa periférica. É um perigoso apostador que arrisca lançar a Europa na maior das imprevisibilidades. A Grécia está à espera de um ataque turco? De uma investida de Panzers alemães? A União Europeia procura salvar a face, mas estes eventos exigem uma tomada de posição intransigente. Será o povo grego que em última instância pagará a factura, mas repartirá a mesma pelos restantes europeus. A política de casino, bluff, e o cinismo de Tsipras terão certamente os seus dias contados. O problema, no entanto, serão os danos colaterais deixados ao abandono. A poesia lírica do Syriza, que serviu para encantar as Esquerdas da Europa, está a ceder o seu lugar a algo intensamente explosivo. Há limites que devem ser respeitados por aqueles que afirmam pertencer à grande família europeia. O mais irónico deste enredo é que serão os Estados-membros da União Europeia a financiar a compra do sistema de mísseis à Rússia. Tsipras faz lembrar outros chicos-esperto de praças conhecidas. Se deixarem, pegará nos dinheiros de "salvamento" para comprar brinquedos para fazer a sua guerra. Não se esqueçam, Tsipras é um produto europeu. Certificado democraticamente, eleito por cidadãos no seu perfeito juízo. Dêem dinheiro ao Varoufakis e Tsipras. E depois não se queixem quando o mesmo se extraviar.

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publicado às 18:33

Putin e Tsipras atiram o pau ao gato

por John Wolf, em 01.03.15

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Se Putin premiu o gatilho da pistola que abateu Boris Nemtsov não é a questão principal. Há outra mais importante que acaba de ser colocada aos russos: será que estão dispostos a colaborar com um regime repressivo que atenta à liberdade de expressão e a direitos e garantias fundamentais? Embora ainda faltem peças ao puzzle, o mar de gente que enche as ruas de Moscovo faz lembrar eventos mais ou menos recentes. Por exemplo Maidan ou até a Primavera Árabe. Sem dúvida que o aparato em torno do assassinato de Nemtsov serve para distrair das movimentações russas em solo ucraniano, mas Putin pode involuntariamente ter libertado  a força crítica e avassaladora do seu povo. Putin virou-se para a exterioridade da Crimeia e da Ucrânia porque há muito que sente o seu regime ameaçado - "lá fora" parece ser mais fácil justificar as acções e vendê-las de um modo glorioso no próprio país. Mas não é o único. Tsipras também aplicou o mesmo princípio que resulta de insuficiência interna, e atirou-se aos portugueses e espanhóis chamando-os de principais responsáveis pelas dificuldades negociais havidas entre a Grécia e os interlocutores europeus. São comportamentos enviesados e desta natureza que nos devem preocupar. As atitudes de políticos que atiram o pau para longe. A Grécia e a Rússia têm muito mais em comum do que possam imaginar. E não se quedarão por aqui. Já passámos a fase de meras sugestões. A Estónia e a Turquia parecem ser candidatos para serem arrastados para o já de si complexo mapa geopolítico. Isto não fica assim. Se as coisas não correrem de feição a Putin e Tsipras, estes são mais do que capazes de incendiar casas alheias.

 

*os gatos são muitos populares na internet, mas não servem para grande coisa.

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publicado às 19:39

A grande ilusão europeia

por John Wolf, em 31.01.15

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Quando vejo a histeria a tomar conta dos povos, recordo-me dos filmes históricos dos anos 30 do século passado. Quando vejo povos derreados pela verga da indignidade económica e social, penso no sofrimento incomensurável de famílias inteiras. Quando vejo expressões de pura demagogia a tomar conta dos discursos de políticos, sinto que as nossas sociedades correm grandes perigos. Quando observo a bandeira da libertação ser hasteada, penso como será a nova ordem proposta pelos mercenários. Quando comprovo como nações inteiras podem ser postas ao serviço de interesses ideológicos, deixo de acreditar na pureza da Democracia. Quando testemunho a facilidade com que se arrebanha gente, penso em colunas militares. Quando sinto a prevalência do dinheiro na retórica inflamada, sei que a alma humana foi vendida. Quando registo a facilidade com que se desonra a palavra, conheço o valor de um aperto de mão. Quando nem preciso de olhar para ver, sei que já embarcaram num caminho de difícil retorno. 

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publicado às 20:02

Extrapolações a partir de Tsipras

por John Wolf, em 29.01.15

Greek-Philosophers

 

A crise europeia acabou, e o emprego vai crescer exponencialmente em todos os Estados-membro da União Europeia.

A Dívida Grega vai ser perdoada e a Troika vai conceder um bónus de 500 mil milhões de euros aos helénicos por terem tido uma ideia tão boa.

A Austeridade vai acabar dentro de 10 minutos e cada cidadão europeu vai receber um cheque de 500 euros para estoirar no Carnaval com a garantia de que receberá outro no Natal.

A Rússia vai retirar-se da Ucrânia e compensar aquele país pelos danos causados e oferecer  gás natural durante 20 anos.

O Estado Islâmico vai converter-se em centro ecuménico de reflexão e paz.

Os EUA vão deixar a Rússia desmontar a NATO.

A União Europeia vai ter, a partir de amanhã, uma União Fiscal e uma Política Externa e de Segurança Comum.

Portugal vai ser salvo por um novo partido de inspiração tsiprarista fundado por António Costa, Mário Soares e José Sócrates.

Os ataques terroristas, tal como acontece com as greves, deverão ser marcados com antecedência mínima de 24 horas pelas uniões sindicais que representam os suicídas.

As receitas da venda de armas dos EUA, França, Reino Unido e Alemanha vão reverter integralmente para a Cruz Vermelha, a Amnístia Internacional e o Banco Alimentar contra a Fome, que cessarão de existir e tornar-se -ão desnecessários.

O Euro irá ser adoptado por todos os países africanos descarrilando o Dólar Americano como moeda de referência no comércio internacional.

Todas as Empresas Privadas portuguesas serão nacionalizadas para compensar a Privatização da TAP e a perda de controlo sobre a PT.

Os bancos vão passar a ter filiais dentro da casa de cada família portuguesa para pôr em prática soluções de poupança e oferecer salários aos reformados e delinquentes.

As semanas laborais vão ser sujeitas a uma reforma humanitária que implicará não mais de 15 horas semanais de trabalho.

As dívidas vão passar a ser entendidas como um valor positivo civilizacional e promovidas no programa curricular das escolas.

Os partidos políticos da Extrema Direita e da Extrema Esquerda vão deixar de existir para dar destaque a uma força moderada nascida a partir de uma sociedade civil que não sabe o significado de ideologia.

E por último, eu deixarei de ter ideias tão realistas quanto estas e outras que me escapam de um modo tão flagrante...

 

 

 

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publicado às 10:31

Novas realidades, as velhas certezas

por Nuno Castelo-Branco, em 27.01.15

Maechtige-unter-sich-Barack-Obama-Wladimir-Putin-u

 

 

Contrariamente ao que muitos pretendiam, o caso ucraniano  parece ter passado para um plano muito secundário nas preocupações da imensa maioria dos europeus. Sem de forma alguma questionar-se a independência da Ucrânia, a situação tem evoluído para um estado de ponto morto sem grandes avanços ou recuos por parte de qualquer um dos contendores.  Esta é a situação que agora mais interessa ao Kremlin, para já assoberbado com problemas económicos e pressões das facções que se digladiam em torno de V. Putin.

No ocidente, poucos quiseram entender quais os limites que deveríamos impor à nossa Aliança no superior interesse da paz na Europa e na evidente necessidade de podermos contar com a colaboração russa noutras áreas geográficas que constituem a vizinhança próxima e ameaçadoramente instável, ou seja, todo o Magrebe, a zona do Suez e o Médio Oriente. De nada serviram as advertências passíveis de retirar de qualquer manual básico de história, fazendo-se pouco ou nenhum caso de eventos que para o bem e para o mal, continuam muito presentes na psique russa. A natural sugestão de uma finlandização da Ucrânia - ou seja, a progressiva adopção de uma economia e de um tipo de organização política do Estado - que a aproximasse da UE, em simultaneidade com uma certa neutralização que tranquilizaria Moscovo, foi loucamente ignorada no quadro dos principais decisores na Aliança Atlântica. Cometeram-se flagrantes erros, concederam-se demasiados incentivos ou informais garantias a responsáveis políticos como Sikorski - e inacreditável audiência à sua sempre enervada cônjuge em ambicionado tirocínio para a Secretaria de Estado -, num plano tal, que muitos apontaram de imediato um recôndito desejo de revisionismo de fronteiras. Tal será possível, mas apenas com o recurso ao desencadear de uma guerra muito diferente daquela que temos em Donetsk e Lugansk. É impossível encontrar qualquer consenso europeu para uma catástrofe desta dimensão.

A ninguém passa despercebida a evocação do período imediato a 1919, com tudo o que isso significa em termos de reordenamento territorial e demarcação de áreas de influência, quando não de reservada e ainda não ostensivamente declarada reivindicação de novas fronteiras. Parece ser avisado o recurso à tentativa de uma visão mais alargada deste problema artificialmente criado logo após a liquidação da aventura soviética, quando as fronteiras foram delineadas segundo o risco arbitrariamente imposto pelo caído regime de Lenine, Trotsky, Estaline, Kruschev e Brezhnev. Ficções que serviram para formalmente garantirem uma aparência de realidades nacionais nas Nações Unidas, foram herdadas por novos Estados internamente pouco coerentes e com situações económicas agravadas pela implosão daquilo que foi o frágil mercado interno soviético. O episódio da Crimeia, já consumado e sem retorno, é apenas o exemplo mais flagrante, podendo lobrigar-se outros na zona do Cáucaso ou nas imediações da fronteira romena. O cerne de toda a questão pode resumir-se ao alinhamento da vasta região que se chama Ucrânia - não se esquecendo a Moldávia - num dos potenciais blocos em presença, ou seja, a UE e apêndice NATO, ou o regresso à esfera de influência russa. Sabe-se que o Kremlin condescenderia com uma finlandização que até proporcionaria claras vantagens políticas e económicas, afastada que estaria a ameaça militar e a ofensa a patrióticos brios desde sempre cultivados pelos russos, seja qual for o regime vigente. 

 

Na Europa, há quem tenha entendido serem os EUA o essencial elo - tem sido esta a realidade - que pode manter a pressão sobre Moscovo, conhecendo-se também a cada vez maior relutância de algumas potencias continentais - França, Alemanha e agora, ainda num plano secundário, a Polónia - no enveredar de uma declarada política de confronto directo que de antemão significa graves prejuízos para os interesses económicos e de segurança geral. Ao longo dos últimos vinte anos, os americanos têm-se paulatinamente distanciado dos assuntos europeus, apenas intervindo na ilusória esperança de poderem manter a omnipresença saída de 1945, com o recurso a avanços pontuais na criação ou resolução de crises na Europa balcânica e de leste.  Apenas um exemplo? A crise jugoslava que se desenrolaria ao longo de anos e culminaria no Kosovo. Todos já percebemos serem outras as prioridades que a ascensão da China impõe, embora a zona de segurança próxima da Europa - Cáucaso e Médio Oriente - signifique algo mais que perímetros defensivos de índole meramente militar. A verdade é outra, verdade esta que não escapa a regra económica e o reordenamento do (des)equilíbriio de forças na região onde a Turquia e o Irão passaram a ser agentes activos e muito interessados. O reconhecimento disto? Após a catastrófica queda do regime do Xá Reza Pahlavi e o resvalar do Irão para a colecção de inimigos sagrados, temos a progressiva abertura da administração Obama a um relacionamento com Teerão, ao abjecto regime dos aiatolás, logo se seguindo outras aproximações entre as quais a de Portugal - um Estado naturalmente satélite de Washington - é apenas um, entre outros exemplos. 

A crise do Euro e das dívidas soberanas, fez estremecer a já aparentemente consolidada relação de forças na Europa, com o bastante perceptível volver das atenções alemãs para leste, para a sua tradicional zona de influência forçosamente a partilhar com a Rússia fornecedora de matérias primas e de um mercado continental que ultrapassa a Sibéria e chega ao Mar do Sul da China. Apesar do patético e inútil alarido tablóide contra Merkel - imaginemos então o que seria, se em vez de Merkel tivéssemos um dirigente da categoria de Schmidt, por exemplo -, os alemães vão tentando manter a construção europeia que herdaram do período anterior à queda do Muro. Por muito que isto desagrade aos garimpeiros da mina da culpabilidade real ou imaginada, esta é a verdade. Contudo, os apressados alargamentos que consumaram a agora periclitante União, não foram de molde a conceder mais consistência ao mercado e muito menos ainda, à moeda única outrora insistentemente exigida por uma França aterrada pela reunificação da Alemanha. Atrás dos alemães que agora praticamente desarmados, não podem ser acusados de belicismo, estão praticamente todos os países da Europa central, do norte e do leste, todos eles interessados na tranquilidade e satus quo das fronteiras, ciosos pelo cuidar da economia e não descurando o fornecimento de matérias-primas onde a energia tem a parte de leão. A perspectiva de bons negócios para o longo prazo, dita a progressiva alteração das políticas daqueles Estados pertencentes a uma UE aparentemente em rápido processo de disfunção, sendo cada vez mais evidentes os interesses divergentes entre o norte e o sul, assim como entre o leste e o oeste. 

 

O regime de Putin é avesso às conhecidas realidades  políticas e sociais para cá do Óder? É, mas agora, pela primeira vez desde há cem anos, nunca os russos compraram e consumiram tanto, viajaram, leram, livremente viram e fizeram tanto teatro e cinema sem "licença do Partido". Sobretudo, estes russos investiram de tal forma, que dissiparam muitos dos receios quanto a invasões protagonizadas por tanques ou Spetsnaz caídos do céu. Putin obteve assim alguma condescendência na zona do Danúbio e talvez, nas margens do Egeu onde decerto poderá envidar  esforços para um aumentar da sua influência em países onde a ortodoxia - no laicizado ocidente europeu, o factor religioso é escassamente considerado, um tremendo erro de cálculo dos decisores políticos - consiste num factor muito importante. Além de tudo isto, os europeus estão extremamente receosos daquilo que ocorre no norte de África e no Levante, conscientes do que hoje significam as importantes comunidades muçulmanas que sem qualquer dúvida, mantêm-se bastante silenciosas ou discretas quanto à condenação das barbaridades que quotidianamente nos chegam pelos noticiários. Se se trata de receio pela pressão moral e física de minorias activistas, ou de um resignado contentamento por aquilo que pode ser considerado como um certo revanchismo relativo ao bem patente naufrágio civilizacional do islão ao longo dos últimos seis séculos, isso não podemos garantir.

Putin apresenta-se a muitos como um aliado natural, tal como outrora o autocrata Nicolau II foi ansiosamente aguardado como o salvador militar - o mito do Rolo Compressor russo - da laica e republicana França de Poincaré, Clemenceau e Ribot. Sabe-se que o sucesso no Marne em boa parte se deveu à invasão da Prússia Oriental no verão de 1914, tal como o resultado de Verdun teve muito a ver com as operações russas na Galícia austríaca. Mais tarde, Estaline apresentar-se-ia a leste, como o mais plausível aliado das ultra-capitalistas potências anglo-saxónicas muito lestas no apagar das memórias sangrentas da implantação do regime soviético, das fomes induzidas e massacres conducentes ao Holodomor, das Grandes Purgas e do Pacto de 31 de Agosto de 1939. A lealdade ocidental para com a Polónia, não impediu o ocultar da conhecida verdade - desde 1943-44 - acerca de Katyn, um pequeno pormenor no vasto panorama oferecido pela gestão de interesses contraditórios entre as potências aliadas e o poderoso José Estaline.

 

Chegou ao fim, o já longo período de transição pós-Queda do Muro. 

 

Pelos vistos, nesta Europa do início do século XXI, mais que nunca ameaçada interna e externamente, os russos bem depressa passarão a ser encarados como incontornáveis - desejados ou não desejados - parceiros. Aqui está o primeiro dado, aquele que sendo tão evidente, relevante e para alguns desagradável, parece contudo invisível para quem pretende manter a equação impossível: manter a hegemonia na Europa, dela se retirando e estabelecendo-se noutras paragens. O caso da Base das Lajes é neste contexto, apenas mais um entre inúmeros exemplos.  

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publicado às 14:35

Na fronteira da estepe

por Nuno Castelo-Branco, em 20.11.14

 

1. Um ataque preventivo?

Foi com surpresa que nos primeiros dias da invasão de Junho de 1941, o Alto Comando da Wehrmacht foi recebendo relatórios da frente de combate, interessando-se especialmente pela quantidade de material destruído ou capturado ao Exército Vermelho. Centenas de milhar de homens aprisionados ou postos fora de combate, milhares de aviões abatidos ou pregados ao solo dos aeródromos militares, a inacreditável quantidade de peças de artilharia com que os alemães depararam e sobretudo, uma contabilidade final de perto de 17.000 veículos blindados que se amontoavam nas imediações da linha de demarcação estabelecida em Setembro de 1939, após a ocupação da Polónia por exércitos alemães e soviéticos.

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Dispositivo dos exércitos alemães e soviéticos em 22 de Junho de 1941 


A tradicional doutrina militar russa tem como norma a defesa em profundidade e desde os tempos de Pedro o Grande,  esta foi uma constante repetida ao longo de mais de dois séculos. A campanha napoleónica conheceu o calcinante pó que em turbilhões fustigava os seus regimentos durante a longa e penosa caminhada em direcção a Moscovo, para logo depois ser essa poeira substituída por outros torvelinhos, desta vez gelados, mortíferos. Durante a Guerra da Crimeia os Aliados não fizeram grande figura, tendo os russos conseguido empastelar uma invasão em grande escala. Décadas depois, os exércitos do Czar Nicolau II, apesar da clara inferioridade material, puderam ceder todo o território que hoje pertence à Polónia, aos Países Bálticos e uma boa parte da Ucrânia, sem que isso significasse o colapso da essencial segunda frente que queiram ou não queiram reconhecer os Aliados ocidentais, foi determinante para o resultado final da guerra. 

 

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A frente sudeste em 21 de Junho de 1941 

O que estaria então Estaline a preparar naquele distante ano de 1941? A concentração de efectivos de toda a ordem indiciava algo muito diferente de um dispositivo meramente defensivo, apesar de alguns poderem argumentar com a desorganização causada pelas Grandes Purgas que quase eliminaram a cúpula e o poder combativo do Exército Vermelho.  Acreditar na inocência daquela gigantesca concentração de meios, seria cultivar o sonolento prazer de imaginarmos o Alto Comando soviético ter infantilmente errado no gizar do seu dispositivo guarda-fronteiras. Parece uma impossibilidade, verificados os acontecimentos no início do verão de 1941.

A história foi e ainda é naturalmente contada pelos vencedores da IIGM, mas não será absurdo considerar a hipótese de Estaline ter apenas sido ultrapassado pela belicosidade do Führer. De facto, a comoção pela fulminante queda da França e a rápida passagem de todo o espaço balcânico para o controlo do Eixo - não esquecendo o realinhamento da Hungria, Roménia e Bulgária com a Alemanha -, levou Estaline a considerar a guerra como inevitável e a concentração de meios nas fronteiras é o melhor indício da intenção de uma guerra preventiva, somando-se às suas declarações nos conciliábulos do governo soviético e nos discursos proferidos no abrigado secretismo do Comité Central do PCUS. A verdade é que Hitler surpreendeu o seu parceiro do Pacto de 23 de Agosto de 1941, enquanto o Vozd  aguardava a consolidação do seu dispositivo ofensivo para o início das hostilidades. Pouco tempo antes, os oficiais soviéticos de visita ao Reich, com desagrado comentavam o equipamento blindado que os seus congéneres alemães apresentavam para vistoria, declarando estarem os oficiais do Panzer Amt a esconder os modelos mais recentes. Quando as fábricas russas já  produziam grandes quantidades de blindados KV e T-34, a visão dos Panzer III e IV suscitavam a incredulidade, dada a notória inferioridade em relação ao equipamento que a URSS produzia em segredo. Para o oficialato russo, os seus congéneres alemães estavam a ser desleais. ocultando o que de mais valioso e moderno estavam a construir e a fornecer aos depósitos militares da Wehrmacht. Aquilo que os soviéticos tão bem sabiam fazer, claramente julgavam recíproco do outro lado da fronteira política e ideológica. Deste modo, muitos são os elementos que indiciam uma decisão soviética para um  desencadear do conflito para um momento daquele mesmo ano de 41. A posição estratégica era de facto muito favorável, pois à posse da Ucrânia ocidental e de parte da Rússia Branca arrebatadas à Polónia, somava-se a clara vantagem obtida com a anexação dos três Países Bálticos, não podendo nós esquecer a Moldávia, anexada após um violento Ultimatum entregue em Bucareste. Se é hoje difícil imaginar-se o que teria resultado de um antecipado ataque russo a ocidente, não será abusivo considerarmos as dificuldades que teria causado  aos alemães. 

 

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20-11-2014, Putin inaugura no Kremlin, a estátua homenageando Alexandre I. A mensagem é clara.

 

2. Uma fronteira de segurança?

Não existe hoje qualquer concentração militar que seja comparável à existente em 1941. Os meios e doutrinas militares são muito distintos, a tecnologia é outra e a situação política é, apesar dos recentes acontecimentos, de paz europeia. Serve este longo intróito para abordar o problema que para os militares e políticos russos é uma fronteira que consideram desadequada aos seus esquemas defensivos em profundidade. Se atendermos às realidades que as cartas geográficas agora comprovam, a Rússia encontra-se grosso modo, na situação em que o Tratado de Brest-Litovsk a deixou após a rendição bolchevista de 1918, com a agravante de agora ter no seu flanco sul, ameaças que seriam impensáveis há cem anos, às quais se acresce a poderosa China - actualmente um aliado de circunstância - e a miríade de países que de tão instáveis, são um elemento a considerar. Inevitavelmente, a Rússia consiste num claro objectivo do expansionismo doe extremismo islamita, ou por outras palavras, um assunto que a toda a Europa interessa.

É muito difícil imaginarmos hoje, uma concentração militar russa  tão vasta e potente como aquela conseguida por Estaline na Primavera de 1941, ou a outra, por nós bem conhecida e que na Europa central se manteve até ao início dos anos 90 do século XX. É bem notório o estado de impreparação do exército russo para qualquer aventura de largo espectro, encontrando-se nestes dias numa fase de reorganização e reequipamento. Exército, marinha e força aérea são incomparavelmente inferiores aos correspondentes dos seus possíveis adversários norte-americanos e não sendo este um aspecto desconhecido ou desconsiderado pelos nossos aliados, talvez possa servir de justificação para muitas das atitudes que se têm sucedido nos últimos anos. É certa a suposição de na última década ter a Rússia investido muito na defesa anti-aérea, colocando em campo novos e sofisticados sistemas de mísseis que aparentemente poderiam contrabalançar a supremacia das forças aéreas da NATO, ou mais propriamente, a USAF.  Isto não significa uma suficiente força dissuasora de um ataque vindo do ocidente. Não é descabida a ilusão perigosa de um conflito clássico sem a utilização de armas nucleares tácticas, sendo este um puro  exercício de wishful thinking. As armas existem e serão utilizadas, mesmo que de forma limitada, num caso de desespero. Daí à escalada - mesmo que também limitada a alguns secundários alvos além-Atlântico - vai um passo que dependerá de qualquer imponderável. Qualquer diplomata russo declara-o sem qualquer pejo e não podemos contar com qualquer alegação de bluff, pois este é o pior cenário possível de apresentar aos países componentes da Aliança Atlântica. Por outro lado, o subir da parada ocidental vem assegurar indefinidamente a sobrevivência do governo de Putin, estando hoje todos os russos colocados perante a quase intimação de um Unconditional  Surrender sem guerra, quase um émulo daquele outro saído da Conferência de Casablanca e que tão nefastos efeitos provocou no seio da oposição interna alemã. Má política, ignorância crassa, ignóbil arrogância e sobretudo, péssima propaganda engendrada e difundida urbi et orbi pelo nosso próprio campo.

As colossais e desastrosas derrotas em Minsk, Brest, Smolensk, Kiev/Briansk-Viazma e a certeza dos Panzer a pouco mais de 30Km de Moscovo, eis o inesquecível legado daqueles meses de 1941. É esta uma obsessão dos militares e políticos russos. Se a independência dos Países Bálticos pode para muitos russos ter sido considerada como inevitável e até aceitável, a perda da Ucrânia e de metade do Cáucaso consistiu num desastre que apenas poderia ser limitado, se aqueles territórios fossem pelo menos neutralizados. Parece ser esta última, a posição que um antigo secretário de Estado da dimensão de Kissinger, queria apontar como apropriada a uma política ditada pela consideração das realidades. A psicologia também deverá ser indissociável da condução dos negócios públicos e nisto os russos não fogem à regra. Tem sido clara a apresentação de argumentos tendentes a confirmar a suposição de insegurançarussa , nisto copiando-se num arremedo de interpretação a própria da Doutrina de Monroe, algo que há mais de um século os nossos aliados correctamente têm apresentado em relação ao chamado hemisfério ocidental. Um caso? O dos Mísseis de Cuba, ao qual e com alguma boa vontade poderemos juntar Granada e a Nicarágua-Contras. Se a isto somarmos o orgulho ferido de uma superpotência que jamais o deixou de ser - nem que pelo argumento da sua dimensão, posição geográfica, amontoado de recursos económicos e poder militar -, temos então um quadro bastante completo que na sua complexidade, deverá ser cuidadosamente  encarado pelos potenciais adversários. Ao longo de décadas, o ocidente tem fornecido aos russos todos os argumentos que hoje prodigamente utilizam em benefício da sua aparentemente errática política externa. Não é errática, é intencional e mais a ocidente, a Alemanha sabe-o. Pior ainda, a nossa própria actividade em certas áreas do globo, parece contradizer os interesses ocidentais quando considerados a longo prazo. Isto é tão válido para o âmbito europeu, como para as zonas mais próximas dos países integrantes da NATO, como o Médio Oriente, o Mediterrâneo Oriental e o norte de África. Avoluma-se a suspeita da intenção de um indefinido alastrar da Aliança Atlântica que hoje em dia, consultando os seus componentes, deixou de justificar o nome com que foi baptizada em 1949. A certeza que fica, é a de um expansionismo ilimitado sob a condução dos EUA. Mesmo que esta seja uma falácia que com algum esforço poderá ser eliminada com argumentos mais ou menos poderosos, a sensação geral é mesmo essa, servindo os aliados europeus como simples  instrumentos justificativos do claro unilateralismo que do outro lado, Putin aproveita para denunciar. Os ostensiva e deliberadamente mal armados alemães, outrora firmes aliados dos EUA, parecem cada vez menos dispostos a consentir numa política geral que lhes parece perigosamente irreflectida, principalmente quando é dada uma crescente e demasiadamente audível voz a países ainda bastante traumatizados pela ocupação e controlo soviético decorrente da divisão do mundo - aliás consentida, quando não claramente patrocinada pelos EUA em Teerão, Ialta e Potsdam -  consagrada em 1945. Assim, Berlim tem-nos servido aquilo que mais lhe convém, ou seja, um sistemático duche escocês em que no final, o frio tenderá a preponderar. Digam o que entenderem dizer os especialistas nestas matérias, os haushoferianos continuam bem activos e há que contar com eles.  A situação na Hungria - onde previsivelmente ocorrerão aquele tipo de espontaneidades que já vimos em Kiev -, na Bulgária e na claramente pró-russa Sérvia, demonstram claras fissuras na Europa central e oriental. Como será então possível colmatá-las, essa é uma questão que carece de resposta. Bem feitas as contas e chegada a hora H, talvez poucos estarão dispostos a alinhar numa aventura com as consequências que antevemos. Talvez restem a Polónia, os Bálticos e o por enquanto indefectível Reino Unido. A tradicionalmente cínica e calculista política externa norte-americana, tem perfeitas correspondentes nas suas homologas europeias, sobejamente treinadas por muitos séculos onde as rivalidades entre os estados engendravam alianças que logo se desfaziam consoante a oportunidade de cada momento. Em matéria de cinismo, estamos então entre iguais, quanto a isso não cultivem os nossos aliados e os nossos potenciais adversários, qualquer tipo de ilusões. 

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3. Até onde poderemos expandir a NATO?

Será hoje a NATO a mesma organização que desde o seu nascimento em 1949, passou quatro longas e penosas décadas de progressiva consolidação, para logo depois se expandir em direcção ao subitamente escalavrado núcleo do seu temível adversário do leste? Não, não é. O  interesse de segurança de países tão diferentes como o Reino Unido, a França, a Alemanha ou mesmo Portugal, não corresponderá por estes dias, exactamente àquele existente durante o prolongado período do pós-guerra. Liquidado o sovietismo e afastadas as dezenas de milhar de tanques russos concentrados entre o Báltico e os Sudetas, a percepção dos perigos é outra e as mais facilmente identificáveis ameaças situam-se noutro âmbito geográfico, fora da Europa. 

Acreditem ou não os observadores ocidentais, os russos de 2014 são incomparavelmente mais livres do que aquela massa bisonha e amorfa dos anos de decadência do concentracionário e despótico regime de Brezhnev e dos seus ineptos sucessores. Os russos lêem, viajam, compram, organizam-se e contestam como (ainda) podem. Parece  bastante evidente a aprovação em larga medida, da política do Kremlin que à maioria se apresenta como de segurança nacional. O apelo de Putin é hoje tão válido como o discurso de Nicolau II em 1914, ou a evocação de Suvorov e Kutuzov que  no Outono de 1941, o desesperado José Estaline ousou fazer do alto do Mausoléu de Lenine. Não será um disparate considerarmos a veracidade dos números que indicam um claro apoio conferido à autoridade de Putin, pois apesar do desagrado pela omnipotência da oligarquia e pelas evidentes disparidades verificadas na sociedade, o sentimento popular relativo aos grandes interesses da Rússia imperial, permanecem tão sólidos como aqueles existentes precisamente há cem anos, quando a expensas da segurança do seu trono e das dilatadas fronteiras do seu império, o Czar rapidamente se decidiu pela Entente.  Se os norte-americanos e os seus incondicionais não conseguem entender os factos, então a situação poderá tornar-se extremamente perigosa e isto mesmo os porta-vozes do Kremlin não se coíbem de afirmar, sem sequer um pestanejar que denuncie hesitação. O valetudinário Kissinger dos grandes erros e abusos dos anos setenta - o golpe chinês é uma outra história -, parece estar muito lúcido, intelectualmente amesquinhando aqueles que nas chancelarias dos negócios estrangeiros ocidentais, teimam em permanecer em negação perante todas as evidências. 

Até onde pretenderão estender a NATO? À Finlândia sobranceira a S. Petersburgo? Às teimosamente neutrais Suécia, Áustria e Suíça? À Arménia e Geórgia? Ao Chipre, Israel e Jordânia? Com muito mais propriedade, porque não a Marrocos, um país porta de entrada no Mediterrâneo, no Atlântico Norte e fundamental para segurança do flanco sul?

Em suma, ao ocidente poderia convir um final delinear dos limites securitários a que se propõe - precisamente aquilo que também se exige a Putin, ou melhor, à Rússia -, talvez não fugindo ao traçado ocidental das antigas fronteiras europeias da URSS de 1938 - ou o chamado Cordão Sanitário do período de entre-as-guerras -, neste âmbito podendo-se até incluir uma Ucrânia neutralizada. Contudo, para profundo descontentamento dos russos e de cada vez mais europeus preocupados com aventureirismos e jactâncias sem sentido, não é esta a nossa politica geral, insistindo-se no querermos mais, mais e cada vez mais. 

Pagaremos bem cara a irreflexão, pois inevitavelmente abrir-se-ão insanáveis brechas na sempre desejável Aliança Atlântica. A quem atribuir então a responsabilidade? A resposta parece bastante óbvia. 

 

 

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publicado às 17:20

Na Normancaparica

por Nuno Castelo-Branco, em 05.11.14

 

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Alerta geral. Uma colossal frota russa aproximou-se da costa portuguesa em modo stealth e de surpresa desembarcou um reduzido Corpo Expedicionário com o nome C.E. Marechal Pavel Karlovich von Rennenkampf, composto por 6 divisões de infantaria, tropas Spetsnaz, 50 baterias de sistemas de mísseis AA, 10 sistemas nucleares SS-27 Topol, 4 divisões de blindados pesados T-90, 70 sistemas de lançadores de foguetes Katyusha, 1500 peças de artilharia de varios calibres e múltiplas funções e 250 caças VSTOL. Foram acolhidos pelos autarcas CDU de Almada, Barreiro e Setúbal, acompanhados por uma deputação do PNR e pelos embaixadores do Irão, Coreia do Norte, China, Venezuela, Brasil, Bolívia, Cuba, Síria e pelo autoproclamado e exilado governo do IV Reich. As baterias Krupp da Fonte da Telha prontamente entregaram as instalações ao Corpo Expedicionário Marechal Pavel Karlovich von Rennenkampf, recebendo-o os visitantes com todas as honras correspondentes e tiros de salva. 

Os pescadores da Costa de Caparica também deram as boas-vindas servindo refeições rápidas de chaputa e sardinha assada com pimentos verdes, copiosamente regadas com carrascão da zona de Palmela. Não há notícia de os russos terem deparado com qualquer turista fazendo ostensivo e ofensivo nudismo em termos pussy riot. 

No fim do repasto, foi inaugurada uma grandiosa estátua equestre de Catarina II a Grande na rotunda da vila da Costa de Caparica. Ao contrário da de D. José I no Terreiro do Paço, este bronze é folheado a ouro. 

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publicado às 21:05

A entrevista de Durão Barroso

por Nuno Castelo-Branco, em 02.11.14

 

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Sem o incómodo da apreciação daquilo que é a chamada União Europeia e sem veicular qualquer pró ou contra esta existência de múltiplos cambiantes, aqui ficam alguns dos pontos mais importantes focados pelo ex-presidente da C.E.

1. A questão da situação portuguesa nas vésperas do resgate de 2011. Gostem ou não gostem os baladeiros das  narrativas dominicais, a verdade era mesmo aquela que sabemos, ou seja, a da iminente bancarrota.

 

2. A  clara assunção de Portugal não ter uma política europeia. A nosso ver, não tem porque não pode e intimamente ninguém a quer como exclusiva. Para isto decisivamente pesam outros relacionamentos plurisseculares e qualquer programa de estado-unificação continental, consiste numa negação daquilo que este país sempre foi e quis ser, posição esta consolidada pelo nosso alinhamento com a nossa antiga e agora, de forma decisiva, com os países da CPLP.  A dualidade da política externa portuguesa deve ser para alguém como Durão barroso, uma constante que o próprio demonstrou como ministro dos negócios estrangeiros e mais tarde, como 1º ministro. 

 

3. Angela Merkel.

Neste país demasiadamente habituado a chefes de governo que não liam dossiers e preferiam cantarolar o bem-bom e jogar na chicana politiqueira, alheando-se do profundo conhecimento dos verdadeiros assuntos do Estado - houve quem por isso mesmo tivesse chegado ao Palácio de Belém - , a Chanceler alemã surge sempre como uma oportuna válvula de escape da nossa incompetência e desleixo, mesmo recorrendo-se a intragáveis argumentos revolvidos naquelas décadas em que os nossos avós ainda eram muito jovens. Segundo Barroso, Merkel é mesmo a chefe de governo mais atenta aos problemas globais da Europa e aquela que tem uma visão para a União Europeia, concorde-se ou não com o modus operandi ou o projecto alemão. Mais ainda, D.B. diz algo que embora seja uma evidência diária, a quase todos escapa por mero oportunismo ou estupidez: a Alemanha cumpre o seu papel e tornou-se preponderante por mérito próprio e pela incapacidade, falta de organização e nula vontade dos demais parceiros europeus. Esta é a verdade. Se em vez de Soares, Cavaco, Sócrates e outros, tivéssemos beneficiado da frieza e capacidade de trabalho de uma Merkel caseira, a nossa situação seria bem diferente. Note-se que não sendo a Chanceler uma águia política comparável a Adenauer, Schmidt ou até Kohl, é sem dúvida muito eficaz no seu relacionamento com a França, Itália, Espanha e demais países componentes do grupo continental. Qual é então a dúvida?

4. Rússia. 

Mesmo considerando o seu regime que nos surge como exótico no contexto para parte central e ocidental da península europeia, Putin é infinitamente mais benigno do que todos os caídos secretários-gerais que o PCUS arrogantemente exibia ao mundo como oráculos da única verdade plasmada no velho  Pravda, essa verdadeira alucinação colectiva  encarada como dogma de papel. O relacionamento com uma super-potência - estatuto que a Rússia jamais deixou de ter, apesar das ilusões cultivadas por muitos incautos e sad sweet dreamers com quem nos relacionamos em aliança - , será sempre um dos primordiais problemas da liderança europeia, seja ela a exercida pela Comissão ou aquilo que um dia lhe sucederá, ou pelo país em melhor situação para falar em nome da Europa. 

Barroso disse algo que é muito importante, pois provem de alguém que não é suspeito de anti-atlantismo ou anti-americanismo. Não soubemos ou não quisemos aproveitar as oportunidades apresentadas pela fragorosa queda do Muro de Berlim e do regime soviético.  Pelo contrário, a Rússia foi ostensivamente humilhada, alijada da sua legítima participação e consulta nos assuntos da grande política internacional. Hoje reduzida às fronteiras grosso modo correspondentes às do reinado de Pedro o Grande - quase coincidindo com as da capitulação em Brest-Litovsk -, já não é nem de longe o grande império de Nicolau II e muito menos ainda, a expansionista e agressiva União Soviética de todos os justificáveis medos. O ex-presidente da C.E. teve ainda a coragem de apontar o nome do principal responsável por esse catastrófico programa de rebaixamento de uma Rússia com quem, independentemente do regime ali vigente, imperiosamente teremos sempre de contar: nada mais nada menos, senão os Estados Unidos da América. Talvez agora os mais insistentes red-necks apostadores da política do tudo ou nada - ou por outras palavras, da guerra -, comecem a aperceber-se do verdadeiro perigo que esta política gizada além-Atlântico representa para a própria manutenção de uma NATO sem brechas. 

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publicado às 19:19

Basam Dambu ao ataque!

por Nuno Castelo-Branco, em 01.11.14

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Soam as sirenes de alarme, os bombardeiros que parecem saídos do Segredo do Espadão andam em patrulha ao largo da costa portuguesa. Nada de novo, pois este tipo de cruzeiros nas alturas são algo de bastante habitual por parte das forças aéreas da Rússia e dos Estados Unidos da América. Os mais receosos apontam a capacidade de transporte de bombas atómicas nos porões dos Tupolev-95 Bear. É como se receássemos hoje uma patrulha de dois B-29 dos tempos do Enola Gay. Alguns poderão justificar o medo com o argumento daquela solitária Fortaleza Voadora que em 1945 despejou a sua carga sobre Hiroxima. Ora, com um punhado de F-16 já um tanto ou quanto ultrapassados, mesmo o depauperadíssimo Portugal parece melhor apetrechado do que o Império do Japão estava em Agosto daquele já longínquo ano, garantindo que nem mesmo uma enorme frota de obsoletos Bear poderiam alguma vez semear cogumelos nucleares na nossa paisagem. 

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Partamos então do princípio de os aflitos comentadores da NATO ainda adormecerem com a leitura das aventuras de Blake e Mortimer, transfigurando em Putin, o bicho-papão Basam Dambu que pelo menos, era um imperador com bombardeiros aparentemente mais modernos.  É mesmo, aproveitemos então para enviar uma declaração de guerra aos russos!

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publicado às 19:22

F16 ou o Euromilhões?

por John Wolf, em 31.10.14

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Não nos devemos esquecer quais são as fronteiras geopolíticas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN-NATO), e, nessa medida, relembrar que Portugal assinou o tratado constituinte da organização a 3 de Abril de 1949, sendo desse modo, um dos países fundadores da organização. A Rússia não nem nada a favor ou contra Portugal. Acontece que, a haver uma "porta" mais vulnerável à entrada de estranhos no "território" NATO, essa porta Ocidental pode muito bem ser Portugal. Enquanto os analistas e estrategas apontam o radar à centralidade euroasiática, a Rússia demonstra que um "assalto" é possível a partir de quadrantes distintos, de outras latitudes. Aqueles que sempre se manifestaram contra o investimento nas Forças Armadas Portuguesas e a aquisição de uma esquadra de F-16, parecem ter caído num silêncio incómodo, mas, efectivamente fica demonstrada a utilidade dos caças, na defesa do espaço nacional, mas também num quadro de apoio recíproco que a NATO convencionou entre os seus membros. Não chegamos ao patamar que implique o invocar do Artº 5 do tratado, contudo, os primeiros mecanismos de resposta parecem estar a funcionar com a agilidade de comando e controlo que incidentes desta natureza exigem. O principal desafio que se apresenta na interpretação dos mais recentes acontecimentos, prende-se com a provável escalada das provocações e a resposta que terá de ser produzida numa ordem proporcional e dissuasora. O facto do espaço aéreo nacional ter sido violado pela força aérea russa, não pode ser menosprezado, subestimado. O ministro dos negócios estrangeiros Rui Machete não pode ser o porta-voz de um falso sentimento de acomodamento. Na estrutura organizacional da NATO, e atendendo a um quadro geopolítico muito mais amplo, existem considerações maiores - patentes mais elevadas, perigos consideráveis. O destino de um país não pode resultar de um acaso, de uma tômbola de azares e fortunas em política externa. Sorte ou falta dela.

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publicado às 19:26

É suficiente?

por Nuno Castelo-Branco, em 26.09.14

 

Bem verificados os calamitosos precedentes, parece legítima alguma suspeita quanto à intervenção dos EUA na Síria. Apresentando-a como o único recurso para a destruição dos terroristas do pretenso "Estado Islâmico", os nossos aliados poderão de facto tentar servir-se deste móbil para conseguirem aquilo que há muito querem: o derrube de Assad e a sua substituição pela incógnita que tememos. Municiaram e generosamente subsidiaram - ajudados por sauditas e alguns emiratos - boa parte daqueles que agora surgem como a mais directa ameaça à Europa, não nos podendo esquecer dos crimes cometidos pelo "ISIS" nas comunidades locais - cristãs e outras - que este grupo de bandidos considera como elimináveis. 

Estamos então perante a possibilidade de uma guerra em duas frentes. Quando aqui se diz estamos, isso deve-se à inevitável situação que a nossa pertença à NATO implica, apesar da fortíssima suspeita que leva a crer estar a imensa maioria dos europeus contra a aventura de uma guerra no leste. Apesar de paulatinamente vender-se  a  ilusória possibilidade de um conflito localizado, a verdade  implica o reconhecimento desta suposição como totalmente falaciosa. Um conflito que implique a entrada directa da Polónia e de outros países limítrofes da Rússia em operações militares no âmbito do contencioso russo-ucraniano, conduzirá inevitavelmente a uma escalada. São tragicamente risíveis, os sonhos quanto a uma residual utilização táctica de armas nucleares, ousando alguns menosprezar esta evidência. A acontecer o desastre, esperam circunscrevê-lo ao campo de batalha europeu, acreditando serem os russos incapazes de caírem na tentação de uma resposta num alvo além-Atlântico.  Seria aconselhável uma conscienciosa avaliação da situação, estudando-se  alguns precedentes históricos que indicam sem sofismas, qual o modus operandi russo quando em situações de desespero. 

Estamos no plano das hipóteses e é impossível prever o alastrar ou não do conflito a outras áreas do globo, onde regimes como o norte-coreano poderão tomar iniciativas de âmbito regional. Muitas interrogações ficam sem resposta, sendo a posição da China, aquela que mais pesadamente apresentará consequências até no delinear de uma nova ordem territorial. Não existe qualquer espaço para alegadas traições ou cobardias, mas tão só o ponderado considerar dos interesses de uma Europa demasiadamente sacrificada ao longo de mais de cem anos de constante declínio. Qualquer intencional projecto ocidental de conflagração no leste europeu, poderá significar danos letais na aliança que desde 1949 tem garantido a paz, prosperidade e solidariedade no amplo espaço euro-atlântico. Putin poderá estar a contar com este factor. Conhecendo-se a aversão alemã a mais desastres que a teriam como alvo primordial, também pouco se espera quanto a um alinhar francês numa nova campanha da Rússia. A estes dois países juntar-se-ão todos os países próximos da Alemanha do pós-1990, talvez sobrando para a constituição de uma frente de incondicionais, a Polónia, os Estados Bálticos e com escassa, dir-se-ia mesmo nenhuma certeza, a Roménia. É pouco, para não dizermos mais. Ninguém decerto esperará entusiasmos italianos, espanhóis, nórdicos e até, pasme-se, portugueses, pois todos sabemos que a verdadeira guerra a ser urgentemente ser travada, é outra

Quanto à aventurosa  campanha ucraniana, fala Helmut Schmidt, apresentando algumas similitudes entre a actual situação e a Crise dos Mísseis de Cuba:

"Devido a estes mísseis ameaçarem a segurança dos Estados Unidos, isto colocou o mundo inteiro à beira de uma terceira guerra mundial (...) nem B. Obama ou Putin querem uma guerra, os europeus não querem qualquer guerra (...) A solução para a crise dos mísseis de Cuba tornou-se possível, porque ambos os lados estiveram cientes das suas responsabilidades. Este ensinamento deveria servir os diplomatas para o futuro (...) a anexação da Crimeia é um facto consumado, sem possibilidade de retorno".

Schmidt tem razão, querendo apenas referir-se a uma situação que tal como a presente, parecia insolúvel a não ser pelo recurso ao confronto armado. Embora não o diga, o antigo Chanceler decerto pensa na insistência americana em incluir a Ucrânia na NATO, algo que alguns militares aliados consideravam como uma séria possibilidade, quando exibiam Sebastopol como uma necessária base para a USN. Não parece estar em causa - por enquanto - a colocação de mísseis nucleares americanos nas proximidades da fronteira russa, embora os progressos tecnológicos conseguidos nos últimos quarenta anos, sejam suficientes para colocar a situação estratégica num patamar muito diferente daquele existente no início da década de setenta. Seria uma comparação anacrónica, descartável. Trata-se antes de tudo, de uma questão de delimitação de áreas de influência e da óbvia vontade russa de afastar o mais possível da proximidade do seu centro administrativo, qualquer presença militar ocidental. Funciona como sempre, o complexo adquirido após a esmagadora derrota  de Briansk-Viazma, a sempre presente lição que paira nos espíritos dos responsáveis políticos e militares russos, em perfeito paralelo com os ensinamentos dados pela doutrina da defesa elástica concebida pelo marechal Von Manstein, cuidadosamente estudada pelos Aliados ocidentais.

 

Tal como a França dos anos vinte gizou o chamado Cordão Sanitário - Polónia, Checoslováquia, Roménia e Jugoslávia - que conteria a possibilidade de um revanchismo alemão, hoje estamos perante o ensejo russo de pelo menos garantir a neutralização da Ucrânia, servindo-se Moscovo das  minorias nacionais russas, como uma arma de pressão para conseguir os seus fins. A não-finlandização militar da Ucrânia, poderá significar a pesada contrapartida do eternizar do conflito naquele país, assim como a já quase certa perda ucraniana de importantes territórios limítrofes do Mar de Azov e Mar Negro. O assunto é desagradável para nós, os ocidentais, mas nem por isso deixará de ser colocado desta forma. 

 

Outro caso a considerar é a posição da Alemanha. Potência sem um real peso militar - airosamente beneficia das bem implícitas exigências aliadas como compensação pela reunificação -, não aparenta querer  aderir sem condições, à continuidade da sua pertença cheque em branco, à Aliança Atlântica tal como ela existiu ao longo de décadas. A Europa é hoje muito diferente daquela existente em 1988 e as mais directas ameaças à segurança geral apresentam-se noutros possíveis teatros de operações. Em suma, com ou sem exército que se veja, sem a Alemanha não é possível qualquer tipo de frente coerente. Se os outros europeus e os norte-americanos aceitam esta realidade, essa é a grande incógnita. 

 

Em referência às conclusões tiradas após Estalinegrado, o general Francisco Franco declarava a Sir Samuel Hoare - um conhecido appeaser que paradoxalmente bastante contribuiria para manter os espanhóis fora do Eixo - , embaixador britânico em Madrid: "se o curso da guerra não se transformar de maneira decisiva, os exércitos russos penetrarão profundamente no território da Alemanha (...) existirá na Europa central, um bricabraque de raças e nações desunidas (...) uma potência capaz de se opôr eficazmente às ambições de Estaline?  É esta a pergunta que a mim próprio faço. Não, não existe (...) se a Alemanha não existisse, nós deveríamos criá-la. É ridículo acreditar que uma federação de letões, de polacos, de checos e de romenos poderia substituí-la. Semelhante liga de Estados cairia rapidamente sob o poder dos russos. (Guderian, Heinz: Memórias Dum Soldado, Paris, Plon, 1954, pág. 288)


Recorrendo ou não ao informal "pacto de Visegrado", amalgamando melhor ou pior todos os países Bálticos, a Polónia e a Roménia, será isto suficiente para alguém falar ou até agir em nome da NATO? Não é, até porque para disfarçar-se uma acção unilateral com uma aliança, podem os interessados recorrer à boa vontade de Andorra, S. Marino e Mónaco. 

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publicado às 18:05

Atomium Walesa

por Nuno Castelo-Branco, em 25.09.14

 

 Nada mais nada menos, senão bombas atómicas emprestadas ou alugadas (sic), tallvez num sistema lend & lease ou rent a car.

 

O Nobel da Paz Sr. Walesa, ainda não entendeu algo que parece evidente a qualquer aluno do ciclo preparatório: a utilização de uma arma nuclear,  por muito táctica que esta seja, poderá advir de um momento furtuito ditado pelo desespero. Enganam-se aqueles que julgam impossível uma escalada. Ou anda alguém a acicatar o  Sr. Walesa a ouvir empolgantes discursos bomben mit bomben, ou então, pretenderá o ex-sindicalista-presidente uma Polónia ainda mais deslocada para ocidente, com capital em Móstoles, Voisins-le Bretonneux ou no Cacém? 

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publicado às 11:43

O império da União Europeia

por John Wolf, em 16.09.14

A matriz cultural europeia assume, de um modo irrefutável, que ocupa um papel de relevo em termos civilizacionais. Ao longo dos séculos, e em particular, a partir das correntes de Iluminismo que se verteram em Inglaterra, na França e na Alemanha, foi-se aceitando com naturalidade a ideia de superioridade moral, de desígnio quase teológico da Europa. E essa ideia, expansionista e conquistadora, consubstanciou-se, por exemplo, quer no império napeolónico quer na expressão ultramarina do império britânico. Em suma, os impérios não são um exclusivo dos oponentes, dos inimigos. O império Prussiano, assim como os demais, podem equiparar-se ao império Russo no que diz respeito aos seus intentos e aos próprios métodos: anexaram, mataram, integraram, arrasaram as estruturas políticas existentes - criaram novas ordens. Contudo, enquanto a Rússia seguiu uma via autónoma, baseada numa cultura distinta, a Europa Ocidental procurou estabilizar um conjunto de regras. O grande legado da Europa dos tempos presentes reside na força da lei, nas doutrinas de legalidade que estabelecem limites para a actuação, quer numa lógica interna quer numa abordagem externa. A invenção que a Comunidade Económica Europeia representa, e mais tarde a União Europeia aprofunda, será a versão moderna de um conceito imperial de perfil suave. Pela via positiva e de atracção, a Europa encontrou uma fórmula para se alargar económica e socialmente, mas ignorou a importância da sua expressão política e militar. A Europa, embora tenha tido projectos de auto-suficiência militar, como foi a falhada União da Europa Ocidental, nunca procurou efectivamente consolidar o seu corpo e braços armados. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) havia sempre funcionado numa lógica de blocos, de jogo a dois, de guerra fria. Mas esses tempos findaram, mas certas dinâmicas não foram interrompidas, mas meramente atrasadas por novas nomenclaturas. Nessa medida, a Rússia escolheu o seu momento com grande sentido de precisão. A crise económica europeia, a indefinição dos EUA no que diz respeito à sua política externa proactiva ou a ameaça do fundamentalismo islâmico devem ser entendidos como catalisadores da política externa russa, dificilmente interpretada pelos quadros operativos convencionais e pelos processos de pensamento transatlânticos. A tése de defesa do espaço vital natural da Rússia colide com uma outra ideia tida a seu respeito; o (re)assumir da sua expressão imperial, de superpotência. A pergunta que se coloca ao Ocidente e em particular à União Europeia, prende-se com o modo de travar os avanços russos quando o engagement da Rússia parece ser cada vez mais difícil. A construção europeia deve rapidamente pensar do mesmo modo que a Rússia, mas servindo-se do seu maior património: a sua expressão democrática positivista e pacífica. Numa lógica de alargamento, a União Europeia (UE), talvez possa procurar circumnavegar a zona de fricção, os pontos de contacto onde distintos interesses nacionais colidem. A UE deveria realizar um salto indutivo e pensar uma configuração que transcenda o mainland do seu pensamento. A Europa poderia, de um modo estratégico, pensar num alargamento a sul, obviando o paradigma continental clássico, e abraçar novos parceiros em regiões não contíguas ao continente europeu. Nessa medida, o reino de Marrocos poderia ser um bom candidato para consolidar a expressão política e económica de uma Europa fustigada por razões endémicas agravadas. Um país islâmico moderado como Marrocos, ao ser "fraternizado" pela UE, serviria o processo de relacionamento com o desafio islâmico radical que se nos apresenta. Um conceito de "se não os podes vencer, estende-lhes a mão" poderia servir para tratar problemas considerados insanáveis e que residem na centralidade europeia. Quer a França quer a Alemanha terão de lidar a breve trecho com a intensa expressão de comunidades muçulmanas residentes nos seus países. A Rússia, por outro lado, já entendeu que pode extrair força dos seus cidadãos onde quer que estes se encontrem. A Europa continua atada a velhos pressupostos e tarda em avançar para algo realmente surpreendente. Para desarmar Putin dos seus argumentos e intentos, há que pensar de um modo excêntrico, seguindo linhas de orientação emancipadas do passado. Se realmente quisermos, sabemos o que nos reserva o futuro. Procurar no passado talvez não sirva de grande coisa.

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publicado às 09:03

Putin e a independência da Escócia

por John Wolf, em 14.09.14

Os movimentos falsamente separatistas ou de anexação que se têm vindo a desenovolver nos limites da Europa convencional ou para além da sua matriz política, instigados e levados a cabo pela Rússia, na Geórgia, na Ucrânia, com uma nítida expressão na Crimeia em tempos mais recentes, embora desligados dos pressupostos nacionais europeus, podem ser reconduzidos aos mesmos. O referendo escocês, respeitante à sua independência, intensificou reinvindicações antigas e certamente fará eclodir novas solicitações de autonomia. Ambrose Evans-Pritchard releva, de um modo abrangente, quais os candidatos à fragmentação da Europa. Uma interpretação excêntrica e ousada destes eventos de dispersão, obriga os decisores da União Europeia a ter de pensar uma lógica inversa na (de) construção europeia. A haver expressão democrática e positiva no sentido da independência nacional de um conjunto de povos residentes na União Europeia, o Tratado da União Europeia torna-se parcialmente obsoleto ou conceptualmente irrelevante. As forças centrifugas e de concentração política que se acham firmadas na constituição europeia, estão a ser ultrapassadas pela realidade. Embora seja impensável uma intervenção britânica para proteger os direitos dos cidadãos que residem na Escócia, Putin lança no seio da Europa ocidental o perfume dos seus argumentos e da sua acção. De um modo pensado ou não, a verdade é que a analogia entre um cenário e outro, poderá ser resgatada para plantar divisões nas hostes da centralidade da União Europeia. Existem muitos modos de levar a guerra ao inimigo, e a Rússia não hesitará em partilhar os seus métodos com as partes interessadas. Numa lógica ainda mais ultrajante, imaginemos o apoio que a grande Rússia poderia emprestar aos diferentes movimentos nacionais que se encontram espalhados pelo mainland da Europa ocidental. Eu sei que talvez seja uma extrapolação exagerada, a roçar os limites da racionalidade teutónica, mas todas as possibilidades devem ser colocadas em cima da mesa. De Berlim a Londres, da Catalunha ao reino dos Algarves.

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publicado às 09:52

No, Sir!

por Nuno Castelo-Branco, em 13.09.14

 

Andamos todos amnésicos de uma história que a maioria dos actualmente vivos não conheceu, mas sem dúvida bastante documentada e à disposição da sua descoberta por quem nela se interessar. Se o pós-II Guerra Mundial foi registado por milhares de documentários para sempre testemunhando a miséria e o sofrimento, imaginemos então o que seríamos forçados a passar, no caso de sobrevivermos, após um conflito entre os EUA e a Rússia. 

 

Nestas danças da chuva que em tan-tans e círculos anuncia a mobilização, há que recorrer a expressões em inglês, pois consiste numa boa forma de vincarmos bem  a urgência da situação. Por muito que tentemos resistir ao patético sacrifício, este é o mundo em que vivemos.

Ninguém conhece concretamente quais os objectivos russos, pois a queda da União Soviética implicou a rápida desagregação do império construído pelos Romanov e ciosamente conservado pelos seus sucessores do PCUS. O estabelecimento da Comunidade de Estados Independentes, poderá ter parecido como um anúncio de uma correspondente russa da Doutrina de Monroe, mas a realidade da volátil política internacional nos anos noventa, bem depressa implicou o total ignorar dessa clara delimitação de uma esfera de interessas. Logo foram surgindo bases aliadas em territórios outrora integrantes do império russo-soviético, assim como convites endereçados a alguns dos novos Estados - algo até agora sem efeito -,  fazendo-os crer nas inegáveis vantagens de pertença à NATO. Conhecem-se bem as dificuldades vividas na Rússia pós-comunista, também não sendo estranhas as notícias acerca da crescente frustração local perante o ostensivo desprezar dos seus interesses, por parte de um ocidente que inicialmente se apresentava como um horizonte de esperança. Não valerá a pena repetirmos a longa lista de eventos que progressivamente foram separando os parceiros do desanuviamento, hoje em quase aberta hostilidade.

 

No verão de 1939, o ministro Ciano visitou o seu homólogo alemão. Ribbentrop recebeu-o em casa e numa conversa no jardim, o italiano, confundido pelas evasivas e manobras de diversão do seu colega, perguntou-lhe frontalmente:

- Mas afinal o que querem vocês? O Corredor? Dantzig?

 

Olhando-o friamente, Ribbentrop foi lapidar:

- Wir wollen den Krieg!

 

O governo do Reich queria a guerra e não se contentaria com qualquer reedição de Munique. Um ano antes, Mussolini tinha impedido Hitler de atacar a Checoslováquia e tal contratempo não se repetiria.

 

A quem se aplica hoje a expressarão Wir wollen den Krieg? A John Kerry, a Sergei Lavrov ou a ambos? Se esta suposição poderá ser abusiva e anacronicamente transportada para os nossos dias, ficamos tão confundidos como o ministro dos Negócios Estrangeiros da Itália, não sabendo apontar o dedo a quem verdadeiramente pretenderá despoletar um conflito. Os sinais parecem de difícil destrinça e o subir da parada uma constante, aplicando-se tanto a americanos como aos russos. Além de serem conhecidas as dificuldades internas que Putin parece estar a enfrentar - cercado por falcões ao estilo de Jirinovski e correspondentes relíquias do infelizmente mal-soterrado passado comunista -, também teremos então de atender ao democrático rufar de tambores cujo eco nos chega do lado de lá do Atlântico. Passando sobre o grotesco de certas pretensões que visavam transformar Sebastopol numa espécie de Subic Bay do Mar Negro, a verdade é que ainda poucos de nós entenderam até onde os nossos aliados pretendem chegar, quando anunciam a colocação de forças militares num possível cenário de conflito, a tal deterrence force da salvação. Ninguém acredita na eficácia da criação de um dispositivo militar na Polónia, um dos países da NATO, pois tal exercício de segurança seria naturalmente encarado pelo possível contendor. Algo de muito diferente será a presença de forças militares da Aliança dentro do próprio território ucraniano, seja essa presença devida a um súbito impulso justificado por garantias a caridosamente concedermos - sim, somos aliados na NATO -, seja ela decorrente de um daqueles habituais pedidos de assistência hipoteticamente enviados a partir de Kiev.  Se querem a guerra, então esta é a melhor forma de a obterem: coloquem tanques, soldados, canhões, mísseis e aviões na Ucrânia e de preferência, utilizem-nos nos combates contra os rebeldes.

 

Há quem pense poder iniciar um conflito de forma controlada, nem por isso temendo o epíteto de warmonger. É praticamente inevitável o rápido descambar para uma escalada envolvendo armamente táctico nuclear, relegando as trocas de granadas entre os Abrahms e os T-90, para a condição de algo bastante irrisório, previsível e rotineiro. Mesmo sendo esta uma infeliz eventualidade talvez já considerada pela gente do Pentágono e do correspondente edifício ministerial russo, há sempre que contarmos com a esperança do lamentável incidente se circunscrever ao espaço europeu, deixando a parte mais importante da aliança fora do raio de acção retaliatório. Por muito pueril que tal coisa nos possa parecer, é mesmo um wishful thinking despreocupadamente cultivado. Aparentemente, a Sra. Palin pode hoje ser considerada como uma genial visionária digna de todos os encómios. Dadas as circunstâncias, a dita personagem  poderia mesmo ser a directa candidata a sucessora republicana de Obama. Para os mais entusiastas pelo início de uma Operação Barbarossa 2, o actual mapa proporciona-lhes o ponto de partida numa frente tal como ela surgia nos inícios de 1943. Dali a Kursk, é apenas um salto. 

 

Não é necessário ou desejável qualquer mútuo appeasement, mas tão só o conhecimento de quais os limites pretendidos por russos e americanos. Quem hoje poderá indicá-los de forma concreta e credível? Ninguém. Quanto aos europeus que aparentemente beneficiaram do estiolar dos seus deveres de auto-defesa, russos e americanos arriscam-se seriamente a não encontrarem simpatizantes ou alinhados numa Europa sumamente preocupada consigo própria e por aquilo que vai acontecendo a sul.

 

Já não estamos nos tempos do "Yes, Sir!"

 

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publicado às 14:37

O mundo infantil das primárias

por John Wolf, em 12.09.14

Enquanto uns realizam testes primários, outros demonstram ao mundo o valor da ausência da palavra. Enquanto uns discutem IVAs e restaurantes, outros redesenham mapas de continentes. Enquantos uns estão à janela, outros organizam respostas concretas a ameaças substantivas. Enquanto uns falam de traições, outros dão facadas. Enquanto uns estão focados em si, outros sabem que deixaram de ter importância. Enquanto uns angariam simpatizantes, outros inscrevem combatentes. Enquanto uns pensam em tachos, outros aumentam a pressão da panela. Enquanto uns dormem, outros estão acordados. Enquantos uns são o que são, outros nem isso conseguem ser.

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publicado às 14:26

 

  • O interesse nacional nem sempre é do interesse das populações.
  • O interesse nacional é sempre invocado.
  • O interesse nacional é uma prerrogativa do governo.
  • A projecção de poder e o interesse nacional são quase a mesma coisa.
  • A percepção é tão ou mais importante do que a realidade.
  • As percepções constroem-se para validar ou negar os factos.
  • A produção de percepções não é um exclusivo dos governos.
  • Os média antecipam-se ou estão atrasados em relação aos factos.
  • Os média nunca estão em sintonia/sincronia com os acontecimentos.
  • Os média são uma extensão dos actores políticos.
  • A propaganda é um conflito continuado e praticado por todas as partes envolvidas.
  • O status quo ou a estabilidade são construções ilusórias.
  • A ameaça do uso de força implica ciclicamente o seu uso para se validar.
  • A contenção é a mesma coisa que a ameaça do uso de força.
  • A ameaça do uso de força e a cooperação não estão a grande distância uma da outra.
  • A força das ideologias foi sendo substituída por outras formas de crença.
  • Domínio territorial e ocupação efectiva encontram-se no mesmo plano de importância de outros modos de expressão de poder imaterial.
  • A geopolítica também é movida por dimensões psicológicas como a memória colectiva e sentimentos como o rancor.
  • É mais fácil a fundamentação da decisão política baseando-se na história do que tentar a construção de novos modelos.
  • A linguagem do passado serve apenas uma parte da narrativa do presente.
  • As ameaças pequenas não são diminutas, são efectivas e potenciais.
  • As respostas dadas são sempre grosseiras, ou seja, nunca são do grau adequado.
  • A iniciativa política é apenas a extensão de um corolário.
  • Os corolários ou os axiomas são contradições genéticas, ou seja, a intuição e o instinto, são igualmente importantes na construção de modelos tendencialmente racionais.
  • As intervenções militares, de natureza quase sempre temporária, procuram desalinhar construções políticas de cariz mais duradouro.
  • É possível interpretar factos que ainda não aconteceram.
  • A ética é retrospectiva, mas eminentemente prospectiva.
  • A ideia de ordem nem sempre é legalista ou de natureza ética.
  • As aspirações filosóficas e existenciais do homem talvez sejam as mais difíceis de satisfazer.
  • O materialismo das nossas sociedades produz assimetrias desejadas.
  • As democracias já foram beligerantes entre si.
  • A auto-determinação dos povos nem sempre é um meio para justificar os fins.
  • O auto-existencialismo das nações pode ser acordado e estimulado para fins diversos.
  • Não existem mentiras em geopolítica: é tudo uma questão de timing.

(a continuar)

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publicado às 08:16

Ucrânia e o vazio português

por John Wolf, em 04.09.14

Não sei que nome dar ao fenómeno. Mas parece haver um desligamento preocupante entre o que se passa em Portugal e o que está a acontecer lá para para as bandas da Ucrânia. Existe um plano de contingência para o caso de um conflito armado ocorrer e que envolva um dos países fundadores da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO)? Refiro-me a Portugal como é óbvio. Quais os impactos expectáveis para a economia portuguesa? Que implicações militares, tácticas e logísticas se reservam para Portugal? Existe alguma plataforma de coordenação no plano interno por forma a oferecer uma resposta tendencialmente racional? Será Portugal um porto seguro para células do Estado Islâmico que queiram ampliar o seu espectro de actuação? Mesmo que estejam a decorrer movimentações nos bastidores da administração e processos de brainstorming que procurem o elencar de cenários possíveis, existe uma dimensão que não deve ser alienada: o modo de envolver a sociedade civil na tomada de consciência da gravidade da situação. As televisões nacionais, assim como os outros meios de comunicação social, também contribuem para uma apatia generalizada. Não cumprem os requisitos mínimos de jornalismo sério que deve servir para acordar a sociedade civil e pôr em marcha processos intelectuais. Mas há mais que nos deve preocupar. Seria expectável, face ao grau de emergência em que nos encontramos, que pudéssemos contar com o desempenho competente dos nossos lideres e das organizações que zelam pela defesa nacional e a segurança interna. Qual a posição portuguesa a defender na Cimeira da NATO, mesmo que esta ainda não tenha a sua própria fórmula definida? Ao não haver comunicação, e partilha da relevância deste momento histórico (na intensidade que se exige), Portugal corre ainda maiores riscos. Os impactos negativos que um possível conflito europeu provocará, devem ser salvaguardados sem demoras. É de uma tristeza atroz que não haja noção dos tempos que estamos a viver. Os actuais governantes, assim como os putativos lideres, têm a obrigação de estabelecer a ligação entre os desafios económico-sociais nacionais e o quadro geopolítico internacional. A abordagem ao sistema internacional não pode ser realizada de um modo primário. Portugal partilha fronteiras com a Rússia, a Ucrânia, os EUA e a NATO. Portugal não é uma ilha remota, afastada das decisões tomadas pelos grandes senhores. Quanto às primárias que ocupam os escaparates da política nacional, nem sequer lhes dedico uma linha. São crianças que se encontram a uma distância enorme do mundo real. São peixes que não nadam no aquário. Nada.

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publicado às 09:54






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