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17 de Janeiro de 2017

por Samuel de Paiva Pires, em 17.01.17

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17 de Janeiro de 2017 ficará indelevelmente gravado na minha memória como o dia em que concluí o doutoramento. Agradeço aos membros do júri das provas públicas que hoje prestei pelos comentários, críticas e pelo estimulante debate. Aproveito ainda para agradecer novamente a todos os que, de alguma forma, me apoiaram nesta caminhada, em especial à Ana Rodrigues Bidarra, sem a qual esta aventura não teria sido possível.

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publicado às 22:06

Provas públicas de doutoramento

por Samuel de Paiva Pires, em 04.01.17

Convido os interessados a estarem presentes nas minhas provas públicas de doutoramento que terão lugar na Aula Magna Professor Doutor Adriano Moreira, no ISCSP-UL, no dia 17 de Janeiro de 2017, pelas 15h00. 

 

O júri será composto pelos Professores Doutores Manuel Meirinho Martins (Presidente do júri), José Adelino Maltez (ISCSP-UL), Cristina Montalvão Sarmento (ISCSP-UL), Miguel Morgado (IEP-UCP), André Azevedo Alves (IEP-UCP), André Freire (ISCTE), Pedro da Fonseca (ISCSP-UL) e Isabel David (ISCSP-UL).

 

A minha tese é subordinada à temática "Tradição, razão e mudança", podem ficar a conhecer alguns breves excertos, que divulgarei ao longo dos próximos dias, no Facebook e aproveito ainda para aqui deixar o abstract:

 

Nesta tese considera-se a relação entre tradição, razão e mudança que marca a modernidade e diversas correntes da teoria política moderna e contemporânea. Esta relação é analisada à luz das ideias de autores liberais, conservadores e comunitaristas, procurando-se contribuir para iluminar divergências e convergências entre estas teorias políticas. Desta forma, as noções de tradição, razão e mudança são abordadas colocando em diálogo as três teorias através de autores que consideramos serem representativos destas e que contribuíram significativamente para a temática em análise, nomeadamente Friedrich Hayek, Karl Popper, Michael Polanyi e Edward Shils, no que ao liberalismo diz respeito; Edmund Burke, Michael Oakeshott e Roger Scruton, por parte do conservadorismo; e Alasdair MacIntyre, no que ao comunitarismo concerne. Procura-se realizar uma interpretação, uma síntese teórica, resultante da sistematização das ideias destes autores e demonstrar que tradição e razão, na concepção do racionalismo crítico ou evolucionista não se opõem e que, na verdade, estão intrinsecamente ligadas, contrariando a tese do racionalismo construtivista de que a razão tem de rejeitar a tradição. No que concerne à componente empírica, procura-se aplicar a abordagem metodológica neo-institucionalista, em particular na sua variante discursiva, combinada com a síntese teórica interpretativa da relação entre tradição, razão e mudança – ou seja, com uma abordagem tradicionalista – à análise da ideia de sociedade civil enquanto tradição, realizando, para o efeito, uma sistematização da evolução deste conceito, evidenciando como foi originado, como foi transmitido e alterado ao longo do tempo, como se cindiu e ramificou em várias tradições distintas, incorporando as tradições políticas liberal e marxista, mostrando que estas duas tradições competiram entre si no século XX e demonstrando ainda de que forma a prevalência da tradição liberal contribui para a crise do Estado soberano.

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publicado às 11:59

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Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France:

You see, Sir, that in this enlightened age I am bold enough to confess, that we are generally men of untaught feelings; that instead of casting away all our old prejudices, we cherish them to a very considerable degree, and, to take more shame to ourselves, we cherish them because they are prejudices; and the longer they have lasted, and the more generally they have prevailed, the more we cherish them. We are afraid to put men to live and trade each on his own private stock of reason; because we suspect that this stock in each man is small, and that the individuals would do better to avail themselves of the general bank and capital of nations, and of ages. Many of our men of speculation, instead of exploding general prejudices, employ their sagacity to discover the latent wisdom which prevails in them. If they find what they seek, (and they seldom fail) they think it more wise to continue the prejudice, with the reason involved, than to cast away the coat of prejudice, and to leave nothing but the naked reason; because prejudice, with its reason, has a motive to give action to that reason, and an affection which will give it permanence. Prejudice is of ready application in the emergency; it previously engages the mind in a steady course of wisdom and virtue, and does not leave the man hesitating in the moment of decision, sceptical, puzzled, and unresolved. Prejudice renders a man's virtue his habit; and not a series of unconnected acts. Through just prejudice, his duty becomes a part of his nature.

Your literary men, and your politicians, and so do the whole clan of the enlightened among us, essentially differ in these points. They have no respect for the wisdom of others; but they pay it off by a very full measure of confidence in their own. With them it is a sufficient motive to destroy an old scheme of things, because it is an old one. As to the new, they are in no sort of fear with regard to the duration of a building run up in haste; because duration is no object to those who think little or nothing has been done before their time, and who place all their hopes in discovery.

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publicado às 18:50

Da política do dogmatismo

por Samuel de Paiva Pires, em 30.11.13

 

Muitos fervorosos ideólogos seguidores de um qualquer livro de princípios doutrinários que se lhes afiguram quase redentores, ou seja, socorrendo-me de Oakeshott, gente desprovida de educação para o exercício do poder e de intelecto e subtileza para entender a política como uma conversação, afinando pelo diapasão do dogmatismo ideológico, têm, naturalmente, dificuldade - chamemos-lhe assim, para sermos simpáticos - em lidar com a diferença e com opiniões divergentes. Isto tanto ocorre à esquerda, como à direita. Não admira, por isso, que o mais das vezes procurem contrariar opiniões e posições contrárias às suas quase exclusivamente por meio de ataques ad hominem, ou que, quando falamos de grupos, procurem realizar purgas e saneamentos.

 

Parece-me que, na base deste tipo de atitude, está também uma certa preguiça mental e intelectual, que nem cura de ser coerente. Por isso, em vez de se atacar Mário Soares pelas suas ideias, ataca-se pela sua idade, ao mesmo tempo que se enaltece a idade de Adriano Moreira, mesmo quando este toma posições mais próximas de Soares do que dos seus partidários; em vez de se criticar as ideias liberais, ataca-se os liberais apenas porque são liberais - e, como se sabe, o mesmo é dizer neoliberais e, logo, fascistas, plutocratas e afins epítetos -, da mesma forma que em vez de se criticar as ideias comunistas, ataca-se os comunistas apenas porque são comunistas ou os conservadores apenas porque são conservadores; ou, numa modalidade que é cada vez mais um desporto nacional, ataca-se Pacheco Pereira apenas porque é Pacheco, não curando sequer de procurar refutar as suas opiniões.

 

Acresce ainda a este fanatismo a crendice nas ideias do sector ideológico a que se pertence, encaradas como se fossem os Dez Mandamentos que conduzirão à salvação ou à felicidade eterna. No fundo, temos um espaço público composto por barricadas ideológicas e/ou sociológicas de ardentes militantes que nao só não conseguem discutir com aqueles de quem discordam, como não conseguem sequer sair da sua zona de conforto ideológico ou doutrinário. O mesmo é dizer que a política se assemelha cada vez mais ao futebol. E é por isso que, como escrevi há tempos, cada vez menos creio naquela muy liberal ideia de que a razão nasce da discussão. Do debate num espaço público dominado pela cacofonia, onde a discussão é quase sempre dominada por surdos que sofrem de hemiplegia moral, nas palavras de Ortega y Gasset, aos berros uns com os outros, não pode surgir razão alguma. 

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publicado às 17:21

G. K. Chesterton, Disparates do Mundo:

 

«Em suma, a fé humana racional tem de ser armar de preconceitos num tempo de preconceitos, da mesma maneira que se armou de lógica num tempo de lógica. Mas a diferença entre estes dois métodos mentais é profunda e inequívoca. O essencial desta diferença é o seguinte: os preconceitos são divergentes, enquanto os credos estão sempre em colisão. Os crentes chocam uns com os outros, enquanto os preconceituosos se afastam uns dos outros. Um credo é uma coisa colectiva, e até os pecados correspondentes são sociáveis. Um preconceito é uma coisa privada, e até a correspondente tolerância é misantrópica. É o que se passa com as divisões que nos separam: não se cruzam. O jornal dos conservadores e o jornal dos radicais não respondem um ao outro: ignoram-se um ao outro. A controvérsia genuína, uma controvérsia séria mantida na presença de um público comum, tornou-se hoje uma coisa muito rara. Porque o homem que a ela se dedica com sinceridade é acima de tudo um bom ouvinte. O verdadeiro entusiasta nunca interrompe: ouve os argumentos do inimigo com a mesma atenção com que um espião ouve as combinações do inimigo. Mas, se o leitor tentar manter uma discussão com um jornal que defenda ideias políticas contrárias às suas, verificará que não há meio termo entre a violência e a fuga; que a única resposta que recebe são insultos ou silêncios. O moderno director está proibido de ter aquele ouvido atento que acompanha a língua honesta. Pode ser surdo e silencioso - e a isso chama-se dignidade; ou ser surdo e ruidoso - e a isso chama-se jornalismo contundente. Em nenhum destes casos há controvérsia porque o objectivo dos actuais combatentes partidários é disparar de fora do alcance do tiro.»

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publicado às 13:44

"A fúria da razão"

por Samuel de Paiva Pires, em 13.04.13

Um belíssimo artigo de José Pacheco Pereira:

 

«O meu instrumento é a fúria da razão. É que o engano, o medo e a indecência não podem ser tratados com falinhas mansas

Quando já se viu bastante, durante muito tempo, e com muitas reviravoltas de fortunas, sucessos e desastres, olha-se para as coisas de outra maneira. É um olhar sem inocência, com muito pouca esperança, que tem defeitos, mas também pode ter virtualidades. Claro que posso valorizar as virtualidades e menosprezar os defeitos - isso vem no "pacote" do olhar -, mas é o que há, e não se consegue outro. Vem isto a propósito daquilo que alguns pensam ser o meu "radicalismo" na análise e comentário sobre a situação presente, crítica que pouco me incomoda mas que me interessa entender, quando é de boa-fé, e interrogar até que ponto tem ou não sentido. E algum terá, não pelas razões que são sugeridas, mas por outras.

A reflexão sobre a intervenção pela escrita e pelo comentário no debate público é hoje uma questão polémica, que inclui também elementos de confronto corporativo entre jornalistas e políticos pelo bem escasso da influência. Voltarei a essa questão noutra altura, mas não é disso que vou falar. Aquilo que vou fazer é uma reflexão pessoal sobre os efeitos do meu próprio acesso ao espaço público e participação nesse espaço, e é necessariamente subjectiva e impressionista. Pode ter também algum wishfull thinking mesmo que freudianamente inconsciente, embora eu saiba o suficiente para ter poucas ilusões nesta matéria e só mesmo se Freud tiver muita razão, do que não estou certo.

Sei suficientemente sobre história para não ter dúvidas sobre a inanidade das ilusões que cada um tem sobre o rastro do seu papel, mesmo quando ele possa parecer existir por uns dias ou um mês. Com excepção de meia dúzia de pessoas, a história de Portugal levará todas as outras para as notas de futuras teses muito especializadas de doutoramento. E, com o tempo, cada vez mais especializadas, e com cada vez menos nomes. Por isso, quem pensa que por ser conhecido por algumas centenas de milhares de portugueses, fruto do poder da televisão, significa mais do que isso, vai ter muitas surpresas para o seu ego.

"Ser conhecido" sou, isso é verdade, nem sempre pelas melhores razões, mas, para quem escreve nos media ou "aparece" nos media desde os catorze anos, e, repito, com a força da televisão, isso não vale muito por si. Porém tenho consciência de que os efeitos do que escrevo e digo nestes dias - e é possível medir pelo menos a intensidade da audição e da audiência - se deve a factores muito peculiares da crise que vivemos e é essa relação de que me interessa falar.

O que tenho dito e escrito, as provas materiais desse "radicalismo", tem vindo a ter sucesso, mesmo que esse sucesso seja polarizado, muito apoio e alguma recusa, em ambos os casos de forma veemente e pouco moderada, porque os tempos não estão para a moderação. Basta-me ir à rua, basta-me ler o correio que recebo, acompanhar a Rede, e ver o cortejo de admirações e irritações que por aí circulam, para o perceber. Já não é a primeira vez que isso sucede, com altos e baixos, mas agora estou perante alguma coisa de diferente de momentos do passado, em que um ou outro artigo ou intervenção circularam significativamente, como o artigo sobre os incidentes na Ponte 25 de Abril, que vem hoje nas antologias e é dado nas escolas.

O que há hoje de diferente é um efeito de representação, mais do que de concordância. As pessoas que se manifestam a favor do que digo sentem-se "representadas", e esse sentimento está para além do mero apoio intelectual ou da comunidade de pontos de vista. Esse efeito de "representação" é fruto dos tempos em que vivemos, em que, mais do que perceber - no essencial as pessoas percebem tudo -, se deseja uma voz, alguém que fale deles e por eles. Sei bem que isto é muito ambíguo, e não vai durar, mas existe e como hoje nunca me aconteceu. Este efeito de representação não é aquilo que habitualmente se chama "influência", e por si só não exige um especial mérito, pode inclusive abrir caminho ao populismo.

Há quem o tenha no espaço público, por exemplo, Medina Carreira, ou alguns jornalistas como José Gomes Ferreira, quando solta a pessoa que há em si, para além da função, também geram efeitos de representação. São casos muito diferentes do acesso ao espaço público pelo comentário, dos de Marcelo ou Marques Mendes, assentes em atitudes de curiosidade, vontade de saber ou ser informado, empatia resultante de uma longa familiaridade, e "comunicação" num sentido lato. São monólogos que "conversam", sendo que o caso mais relevante é sempre o de Marcelo. As pessoas não se sentem "representadas" por Marcelo, mas participam num efeito de comunicação, muitas vezes lúdico e intelectual, mas também irónico, maldoso, punitivo, uma vontade activa de aprender, um produto cívico que o sistema político e os partidos deixaram de fornecer

Mas se as pessoas comuns não se sentem "representadas" por Marcelo, mesmo que com ele "comuniquem", uma parte importante da sua real influência vem de que os jornalistas, esses sim, compartilham com ele uma relação de mestre e discípulos. Desse ponto de vista, a sua influência é real, embora as suas opiniões sejam mais difundidas do que discutidas, classificam mais do que interpelam. Marcelo "fez" o modelo dominante do jornalismo político português, e com excepção de OIndependente de Portas e Esteves Cardoso, os quadros desse jornalismo são-lhe devedores.

Com a crise do modelo de OIndependente, Marcelo ficou sozinho dominando a cena da análise e do comentário (veja-se o mimetismo de Marques Mendes). Aliás, a estrutura do seu comentário é a de um jornal, incluindo agenda, editorial, notícias, nacional e internacional, página de desporto, montra de livros, e secções do tipo "gente" e "setas para cima e para baixo", e até os brindes especiais para os seus espectadores, dados por via dos presentes aos interlocutores presentes. Embora Marcelo tenha uma agenda política própria, ela é suficientemente transparente para não ser enganadora, e é subsumida pelo seu poderoso efeito comunicacional, que o torna uma personalidade dos media que só por censura podia ser, como vários tentaram, retirada do espaço público, a que acede por pleno direito. (O caso Sócrates é mais complicado, e exige uma análise a mais médio prazo, porque não estou certo de que não possa também ter efeitos de representação, para além da óbvia agenda política própria.)

Não menosprezo, bem pelo contrário, esse efeito de representação, porque entendo que em momentos de crise faz parte da "pertença" a uma comunidade o esforço de estar com os que mais sofrem das consequências de um mundo de que perderam o controlo e o norte. Se quisermos é isso o núcleo duro do "patriotismo", estar com, estar com a comunidade, com os que são mais fracos, mais estão a perder, e menos defesa têm. Parece um discurso abastardado de uma certa hipocrisia caridosa que está tão entranhada na nossa cultura mole quanto não se pratica. Mas não é, só que me faltam palavras para dizer de outra maneira. Tal não significa que a análise deva abandonar a racionalidade a favor de uma emotividade mais próxima do pathos colectivo. Bem pelo contrário, temos já pathos bastante na nossa vida pública.

É por causa desse efeito de representação, que assenta num mecanismo de empatia, seja positiva seja negativa, que é mais fácil falar em "radicalismo", porque as palavras, os comentários moldam as atitudes. E desse ponto de vista há também mais perturbação, que é transmitida pelo discurso. Se a veemência fosse apenas de ordem intelectual, ou seja, contra nada que não fosse a estupidez (e isso já seria gigantesco), não exerceria esse efeito de identificação. Mas não é, é contra algumas coisas do presente, que estão no âmago da crise.

Onde é que está a fonte do meu "radicalismo" e, penso eu, no efeito de representação-identificação de que estou a falar? Primeiro, na convicção das pessoas, cada vez mais consciente, de que estão a ser enganadas. Em segundo lugar, uma vontade simples de decência nas coisas públicas. Por fim, pela recusa de serem governados pelo medo, e governados para o medo

Pode parecer uma agenda moralista, mas é uma pura agenda política no sentido nobre da palavra. Compreendo que essa agenda possa ser radical, mas a culpa é do estado do "presente", não é minha. O meu instrumento é a fúria da razão. É que o engano, o medo e a indecência não podem ser tratados com falinhas mansas, mas com dureza e severidade. Se não fosse assim, não valia a pena.»

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publicado às 12:10

Tribunal arbitral de comentários

por John Wolf, em 06.04.13

Irei aproveitar a ressaca da pedrada política nacional para me dedicar a alguns assuntos pendentes. São matérias que dizem respeito ao modo como respondemos a estímulos, como se fossemos pêndulos que balançam entre a reacção a quente e a reflexão pretensamente desprovida de emoção. Torna-se difícil exercer um controlo apertado sobre esse paradoxo, a contradição que reside entre o que sentimos, o que somos incapazes de sentir, e aquilo que nos torna anfitriões de paternalismos - o direito de conceder respostas a perguntas que não foram colocadas. Ao comentarmos diariamente a nossa vida e a vida dos outros, somos regidos por impulsos dominantes que residem ou não dentro da nossa razão. Nos últimos tempos, e fazendo mea culpa dos meo blogs, confesso que tenho sido instigado a verter o que me vai na alma de um modo gustativo, perto da cólera e do ânimo exaltado. Contudo, desgosta-me a raiva racionada em pequenos tomos de explicação. Toldados que estamos pelas ocorrências nefastas, sem o sabermos, somos animados pela adrenalina que colhe presas e predadores, e que extingue a paisagem. Deixamos de comentar de um modo equidistante, e afogamo-nos em sensações cutâneas. No entanto, não julguem por um instante que condeno o comportamento previsível. O ser humano tem limites que não serão aqueles que julga pisar. Nem serão aqueles impostos por outros, pelos tribunos ou parlamentares de causas dispostas à distância dos olhos. Os desígnios que elencam, não são inteiramente queridos, porque resultam do arbítrio tornado refém das nossas lamentações/limitações, um juízo sujeito a miragens e aplausos. Não solicito a vossa integridade no juízo deste desabafo, mas apenas senti o sangue aquecer, subir pela guelra alheia, e agora me faço rogado de uma missão que se encerra no seu despropósito. O estado fogoso que nos incendeia, parece ter relação com a compaixão, mas em última instância quando formos obrigados a escolher, deixaremos cair por terra o lastro, agarraremos o mastro e deslizaremos ao encontro de expectativas caducas. Um bote, um bode de salvação, teimoso, às marradas com a mesma tendência dos curros, uma porta de saída, quiça de entrada na mesma arena de dissabores.

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publicado às 15:05

Sir Winston Leonard Spencer-Churchill

por João Pinto Bastos, em 30.11.12

Winston Churchill


Churchill tinha, entre as suas incontáveis qualidades, um predicado que sobressaía claramente: uma ironia aristocrática única e inimitável. Se há algo que falta nas sociedades atomizadas e pós-moderninhas dos nossos dias é, justamente, uma dose bem carregada de ironia. Uma ironia fina que atinja o âmago das coisas. Uma ironia que questione radicalmente o mundo presente. Uma ironia que destempere e fira a banalidade do quotidiano. Sem ela o debate intelectual torna-se invariavelmente num sucedâneo mísero do célebre adágio hobbesiano do "homo homini lupus". Por outras palavras, a morte do pensamento. O sono goyano da razão. Churchill conhecia bem o carácter do homem democrático, posto que temeu, como poucos, as suas deformidades mais nefastas. Mas, foi, também, um dos poucos políticos que ousou, durante toda a sua vida política, lutar contra os vícios inerentes à democracia, usando sempre a ironia. No dia do seu aniversário, recordar a sua memória é, acima de tudo, retomar uma tradição perdida. Um ideário desaparecido nas brumas da memória. Como diria Churchill o fracasso não é fatal, o que importa é tão-só a coragem para continuar a perseverar. Um bom liberal, sobretudo nos dias lassos que correm, sabe que esta é a única alternativa que resta ao ocaso da razão.

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publicado às 20:16

A anormal normalização do estado de excepção, em que a razão da força é superior à força da razão, é sintomática do amorfismo que tolhe qualquer eventual sobressalto cívico da sociedade de uma dita democracia que já nem soberana é. O mesmo é dizer que o maquiavelismo dos "fins justificarem os meios" tem servido apenas os fins dos amadores aprendizes de príncipe, sendo responsável pela alienação da autonomia de um país, pela revolta calada de um povo e pelo alheamento de muitos indivíduos da vida pública. Talvez emigrar nunca tenha feito tanto sentido como hoje, servindo o propósito de nos exilarmos voluntariamente para, como alguém me disse há tempos, salvarmos o Portugal que vai dentro de nós.

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publicado às 20:12

Religião, prazer, morte e razão

por Samuel de Paiva Pires, em 14.05.12

Tarrou, descrevendo Orão em A Peste, de Albert Camus:

 

«Todos se precipitam, pelo contrário, para qualquer coisa que conhecem mal ou que lhes parece mais urgente do que Deus. Ao princípio, quando julgavam que era uma doença como as outras, a religião estava no seu lugar. Mas, quando viram que o caso era sério, lembraram-se do prazer. Toda a angústia que se pinta durante o dia nos rostos dissolve-se então, no crepúsculo ardente e poeirento, numa espécie de excitação desvairada, numa liberdade desusada que inflama todo um povo. E também eu sou como eles. Mas quê! A morte nada é para os homens como eu. É um acontecimento que lhes dá razão.»

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publicado às 18:15

CDS - um partido de ideias, mais do que de pessoas

por Samuel de Paiva Pires, em 02.04.12

Nos últimos dias, o CDS tem andado nos jornais e na Internet por dois motivos, como toda a gente sabe: o voto contra o novo Código do Trabalho de Ribeiro e Castro, por um motivo que apoio em toda a linha, a resistência à eliminação do feriado do 1.º de Dezembro, e a carta de 12 Conselheiros Nacionais que pretendiam ver reafirmados os princípios do partido no que às chamadas “causas fracturantes” (não gosto da terminologia, mas é o que temos para nos fazermos compreender) diz respeito.

 

Deixando de lado considerações e juízos sobre o conteúdo destes dois factos, fico genuinamente contente por assistir aos debates que estes estão a gerar, que significam várias coisas, nomeadamente, que o partido está bem vivo e pujante na sua reflexão ideológica e intelectual, que este é efectivamente um partido que se preocupa mais em discutir ideias do que pessoas, e que está a tornar-se maior, mais representativo do eleitorado, mais transversal à sociedade portuguesa. O facto de existirem divergências ideológicas no seu interior é apenas natural, e será saudável para um partido que se quer cada vez maior saber conviver com a pluralidade que advém de acolher no seu seio três pilares ideológicos que, se têm muitos pontos de convergência, também têm outros de divergência.

 

Mais, não tendo o restante espectro partidário português capacidade para estes debates verdadeiramente importantes e que estão para lá do economês – PSD e PS, como catch-all parties que são, pouco ou nada se preocupam com questões filosóficas e ideológicas, sendo as parcas produções intelectuais no domínio da social-democracia verdadeiramente confrangedoras, e BE e PCP vivem noutra realidade intelectual que economicamente já foi mais do que provada como errada e, do ponto de vista da teoria social, representam exactamente as escolas teóricas de certezas absolutas contrárias ao que poderá sair dos debates internos do CDS –, é com muito agrado que vejo diversas pessoas interessarem-se e debaterem temáticas que são de todo o interesse para o futuro da sociedade portuguesa.

 

E que temáticas são as que estes dois factos levantam? Em primeiro lugar, a questão do mandato livre vs. mandato imperativo, debate em relação ao qual, embora historicamente tenham os defensores do primeiro saído vencedores, importa ressalvar que com a organização de grandes aparelhos partidários ocorreu o fenómeno da frequente imposição de uma restritiva disciplina de voto aos representantes eleitos, sendo a essência do mandato livre subvertida. Na prática, um deputado eleito através de um partido recebe o mandato não dos eleitores mas do partido, que pode punir o representante através da revogação desse mandato quando este ignore a disciplina partidária, que se torna, na verdade, um substituto do mandato imperativo do eleitorado. Daqui, salta logo à vista que é incoerente quem critica Ribeiro e Castro por votar de acordo com a sua consciência (numa questão que devia envergonhar toda a bancada do CDS, diga-se de passagem, se for na realidade “radicalmente patriótica”, como há umas semanas ouvi Telmo Correia dizer que o CDS é) e ao mesmo tempo defende que noutras matérias os deputados possam votar livremente. Assim como é incoerente defender a atitude de Ribeiro e Castro e simultaneamente atacar os que nas tais outras matérias votam de acordo com a sua consciência. O argumento de que há coisas onde a liberdade de voto deve ser dada e outras não, não colhe, porque qualquer critério de verdade que possa definir substantiva e positivamente estas matérias tende a tornar-se absoluto, exclusivo e a ser contraproducente, isto é, afrontando e eventualmente afastando militantes e simpatizantes do CDS. Como é que isto se resolve? Simples, ou se acaba com a liberdade de voto de vez e o CDS se torna num PCP onde impere o centralismo democrático, ou se faz o moralmente correcto que é acabar com a disciplina de voto. E todos sabemos o que isto significa e o que se lhe deve seguir: a reforma do sistema eleitoral, com a introdução de círculos uninominais, desta forma minorando o défice de representatividade de que a democracia portuguesa enferma, tornando os partidos menos caciquistas e os eleitos verdadeiramente representativos dos eleitores e fiscalizados por estes. PS e PSD muito dificilmente avançarão com isto, pois os interesses instalados têm demasiada força, embora frequentemente encomendem estudos e anunciem intenções de o fazer. Se o CDS conseguir colocar novamente este debate na agenda mediática e contribuir para precipitar esta reforma, poderemos assistir a uma excelente evolução do sistema político português.

 

E em segundo lugar, não pretendendo entrar em temáticas nas quais não sou versado, creio que no contexto do racionalismo moderno e do relativismo pós-moderno, a chave para lhes responder filosófica e politicamente se encontra nos três pilares ideológicos do CDS. Porquê? Porque como escrevi noutro post, a modernidade produziu um enquadramento que é altamente destrutivo das tradições intelectuais e morais europeias, que através do racionalismo construtivista e do relativismo produz morais inviáveis, ou seja, sistemas de pensamento moral incapazes de sustentar qualquer ordem social estável, que através de teorizações sociológicas contemporâneas e da corrupção da arquitectura e das artes (como Roger Scruton e John Gray demonstram) criam um clima cultural que é profundamente hostil à tradição e também à sua própria existência. Confrontamo-nos, assim, com uma cultura que tem ódio à sua própria identidade, tornando-se, em larga medida, efémera e provisória. Este quadro deriva essencialmente da inspiração do Projecto Iluminista, à luz do qual os autores modernos e pós-modernos desenvolveram um caos moral, em que o abuso da razão, o objectivismo e o relativismo criaram um ambiente cultural, social e intelectual que é inimigo da tradição. Ao proporem ancorar a moralidade no racionalismo, o positivismo, o cientismo, o historicismo e o cepticismo conduziram naturalmente ao niilismo, construtivismo e planeamento social, e, consequentemente, ao utilitarismo e emotivismo. A rejeição de qualquer tipo de instituição ou código de comportamento que não seja racionalmente justificado parece ser uma característica distintiva da modernidade, e para responder a isto é necessário recorrer às ideias de tradição e evolução, que estão no centro dos pilares ideológicos do CDS. Só apelando a estas e debatendo as questões em causa com abertura de espírito podemos esperar fazer frente ao quadro político e cultural que domina Portugal e o Velho Continente.

 

Por tudo isto, apenas desejo que os debates continuem e que o CDS dê o exemplo aos restantes partidos de como um partido político pode e deve reflectir filosoficamente sobre matérias que nos interessam a todos. 

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publicado às 23:40

Programa para mais logo

por Samuel de Paiva Pires, em 19.03.12

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publicado às 13:05

O método socrático aplicado ao BE e ao PCP

por Manuel Pinto de Rezende, em 06.07.09

contém particulares elementos de inspiração de todo o tipo de coisas e coisinhas, desde uma BD à própria Ayn Rand...

 

Sobre o Uso da Força e a Arte da Persuasão através da Razão

 

 

diálogo entre Alcibíades (A) e Péricles (P)

A- Tio, o que é uma Lei?
P- Ainda bem que perguntas! Uma Lei é uma regra aprovada por uma maioria da assembleia!
A- Mas numa Tirania, se o tirano implementar uma regra, isso não é também uma Lei?
P- Hmm... Qualquer que seja o poder soberano das ordens do Estado, isso é uma Lei... Correcto!!
A- Mas não é a Força o oposto da Lei?
P- Sim...
A- E quando um Tirano dá ordens aos cidadãos sem Persuasão - isso não é Força?
P- Retiro o que disse! Retiro o que disse sobre Leis... Tudo o que passa sem Persuasão é Força, e não Lei!
A- Nesse caso - quando a Maioria se apropria das propriedades dos Ricos - isso é Força e não Lei?
P- Sim, sim... Mas sejamos práticos, nem tudo é uma questão de pura Lógica.
A- Mas não é a Lógica um exercício de racionalidade essencial, que caracteriza a arte da Argumentação, a qual nós clamamos como a grandeza da nossa Atenas?
P- Sim, é verdade, a Lógica é um elemento fulcral para discutir Racionalmente, de forma a Argumentar com a Razão.
A- E não é a capacida de pensar Racionalmente que distingue o Homem da Fera?
P- Sim, sim...
A- Então, quando a Maioria usa da Força, que é um Elemento fora do Império da Razão, não estaremos nós, atenienses, a negar a nossa condição de homens?
P- Principalmente tendo em conta que consideramos a propriedade privada como uma instituição essencial à realização do Homem...
A- Então...?
P- Sabes, da tua idade também éramos muito bons nesses enigmas.
A- Não acredito Tio, supostamente, uma vez conquistada a Inteligência, não devia ser tão fácil perde-la...

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publicado às 12:32

Aproveitando a referência do Manuel a Ayn Rand, autora que me tem prendido a leitura nos intervalos do estudo para os exames, deixo alguns excertos retirados da brilhante e poderossíssima palestra "Faith and Force: The destroyers of the modern world", que podem encontrar na colecção de ensaios de Rand Philosophy: Who needs it, ou na versão audio aqui. A quase totalidade encontra-se também neste site. Sei que ninguém ou quase ninguém se irá dar ao trabalho de ler este extenso post mas, ainda assim, não poderia deixar passar em branco tamanha demonstração de clarividência. Recomenda-se vivamente a todos os comunistas, socialistas, bloquistas, nazis, kantianos, rousseaunianos, jacobinos e afins:

 

 

"The three values which men held for centuries and which have now collapsed are: mysticism, collectivism, altruism.  Mysticism -- as a cultural power -- died at the time of the Renaissance.  Collectivism -- as a political ideal -- died in World War II.  As to altruism -- it has never been alive.  It is the poison of death in the blood of Western civilization, and men survived it only to the extent to which they neither believed nor practiced it.  But it has caught up with them -- and that is the killer which they now have to face and to defeat. That is the basic choice they have to make.  If any civilization is to survive, it is the morality of altruism that men have to reject."

 

(...)

"What is the morality of altruism?  The basic principle of altruism is that man has no right to live for his own sake, that service to others is the only justification of his existence, and that self-sacrifice is his highest moral duty, virtue and value.
Do not confuse altruism with kindness, good will or respect for the rights of others.  These are not primaries, but consequences, which, in fact, altruism makes impossible.  The irreducible primary of altruism, the basic absolute, is self-sacrifice -- which means: self-immolation, self-abnegation, self-denial, self-destruction --- which means: the self as a standard of evil, the selfless as the standard of the good."

 

(...)

 

"Now there is one word -- a single word -- which can blast the morality of altruism out of existence and which it cannot withstand -- the word: "Why?"  Why must man live for the sake of others? Why must he be a sacrificial animal?  Why is that the good?  There is no earthly reason for it -- and, ladies and gentlemen, in the whole history of philosophy no earthly reason has ever been given.

It is only mysticism that can permit moralists to get away with it.  It was mysticism, the unearthly, the supernatural, the irrational that has always been called upon to justify it -- or, to be exact, to escape the necessity of justification.  One does not justify the irrational, one just takes it on faith.  What most moralists -- and few of their victims -- realize is that reason and altruism are incompatible And this is the basic contradiction of Western civilization: reason versus altruism.  This is the conflict that had to explode sooner or later.

The real conflict, of course, is reason versus mysticism.  But if it weren't for the altruist morality, mysticism would have died when it did die -- at the Renaissance -- leaving no vampire to haunt Western culture.  A "vampire" is supposed to be a dead creature that comes out of its grave only at night -- only in the darkness -- and drains the blood of the living.  The description, applied to altruism, is exact."

 

(...)

 

"Let us define our terms.  What is reason?  Reason is the faculty which perceives, identifies and integrates the material provided by man's senses.  Reason integrates man's perceptions by means of forming abstractions or conceptions, thus raising man's knowledge from the perceptual level, which he shares with animals, to the conceptual level, which he alone can reach. The method which reason employs in this process is logic -- and logic is the art of non-contradictory identification.   What is mysticism?   Mysticism is the acceptance of allegations without evidence or proof, either apart from or against the evidence of one's senses and one's reason.  Mysticism is the claim to some non-sensory, non-rational, non-definable, non-identifiable means of knowledge, such as "instinct," "intuition," "revelation,' or any form of "just knowing."

 

"In Western civilization, the period ruled by mysticism is known as the Dark Ages and the Middle Ages.  I will assume that you know the nature of that period and the state of human existence in those ages.  The Renaissance broke the rule of the mystics.  "Renaissance" means "rebirth."  Few people today will care to remind you that it was a rebirth of reason -- of man's mind.
In the light of what followed -- most particularly, in the light of the industrial revolution -- nobody can now take faith, or religion, or revelation, or any form of mysticism as his basic and exclusive guide to existence, not in the way it was taken in the Middle Ages.  This does not mean that the Renaissance has automatically converted everybody to rationality; far from it.  It means only that so long as a single automobile, a single skyscraper or a single copy of Aristotle's Logic remains in existence, nobody will be able to arouse men's hope, eagerness and joyous enthusiasm by telling them to ditch their minds and rely on mystic faith.  This is why I said that mysticism, as a cultural power, is dead.  Observe that in the attempts at a mystic revival today, it is not an appeal to life, hope and joy that the mystics are making, but an appeal to fear, doom and despair.  "Give up, your mind is impotent, life is only a foxhole," is not a motto that can revive a culture.
Now, if you ask me to name the man most responsible for the present state of the world, the man whose influence has almost succeeded in destroying the achievements of the Renaissance -- I will name Immanuel Kant.  He was the philosopher who saved the morality of altruism, and who knew that what it had to be saved from was -- reason.

This is not a mere hypothesis.  It is a known historical fact that Kant's interest and purpose in philosophy was to save the morality of altruism, which could not survive without a mystic base.  His metaphysics and his epistemology were devised for that purpose.  He did not, of course, announce himself as a mystic -- few of them have, since the Renaissance.  He announced himself as a champion of reason -- of "pure" reason.
There are two ways to destroy the power of a concept:  one, by an open attack in open discussion -- the other, by subversion, from the inside; that is: by subverting the meaning of the concept, setting up a straw man and then refuting it.  Kant did the second.  He did not attack reason -- he merely constructed such a version of what is reason that it made mysticism look like plain, rational common sense by comparison. 
He did not deny the validity of reason -- he merely claimed that reason is "limited," that it leads us to impossible contradictions, that everything we perceive is an illusion and that we can never perceive reality or "things as they are."  He claimed, in effect, that the things we perceive are not real, because we perceive them.
"

 

(...)

 

"As to Kant's version of the altruist morality, he claimed that it was derived from "pure reason," not from revelation -- except that it rested on a special instinct for duty, a "categorical imperative" which one "just knows." His version of morality makes the Christian one sound like a healthy, cheerful, benevolent code of selfishness.  Christianity merely told man to love his neighbor as himself;  that's not exactly rational -- but at least it does not forbid man to love himself.  What Kant propounded was full, total, abject selflessness: he held that an action is moral only if you perform it out of a sense of duty and derive no benefit from it of any kind, neither material nor spiritual; if you derive any benefit, your action is not moral any longer.  This is the ultimate form of demanding that man turn himself into a "shmoo" -- the mystic little animal of the Li'l Abner comic strip, that went around seeking to be eaten by somebody.
It is Kant's version of altruism that is generally accepted today, not practiced -- who can practice it? -- but guiltily accepted.  It is Kant's version of altruism that people, who have never heard of Kant, profess when they equate self-interest with evil.  It is Kant's version of altruism that's working whenever people are afraid to admit the pursuit of any personal pleasure or gain or motive -- whenever men are afraid to confess that they are seeking their own happiness -- whenever businessmen are afraid to say that they are making profits -- whenever the victims of an advancing dictatorship are afraid to assert their "selfish" rights.
The ultimate monument to Kant and to the whole altruist morality is Soviet Russia.

If you want to prove to yourself the power of ideas and, particularly, of morality -- the intellectual history of the nineteenth century would be a good example to study.  The greatest, unprecedented, undreamed of events and achievements were taking place before men's eyes -- but men did not see them and did not understand their meaning, as they do not understand it to this day.  I am speaking of the industrial revolution, of the United States and of capitalism.  For the first time in history, men gained control over physical nature and threw off the control of men over men -- that is: men discovered science and political freedom.  The creative energy, the abundance, the wealth, the rising standard of living for every level of the population were such that the nineteenth century looks like fiction-Utopia, like a blinding burst of sunlight, in the drab progression of most of human history.  If life on earth is one's standard of value, then the nineteenth century moved mankind forward more than all the other centuries combined.
Did anyone appreciate it?  Does anyone appreciate it now?  Has anyone identified the causes of that historical miracle?
They did not and have not.  What blinded them?  The morality of altruism.

Let me explain this.  There are, fundamentally, only two causes of the progress of the nineteenth century -- the same two causes which you will find at the root of any happy, benevolent, progressive era in human history.  One cause is psychological, the other existential -- or: one pertains to man's consciousness, the other to the physical conditions of his existence.  The first is reason, the second is freedom.  And when I say "freedom," I do not mean poetic sloppiness, such as "freedom from want" or "freedom from fear" or "freedom from the necessity of earning a living."  I mean "freedom from compulsion -- freedom from rule by physical force."  Which means: political freedom.
These two -- reason and freedom -- are corollaries, and their relationship is reciprocal: when men are rational, freedom wins; when men are free, reason wins.
Their antagonists are: faith and force. 
These, also, are corollaries: every period of history dominated by mysticism, was a period of statism, of dictatorship, of tyranny.  Look at the Middle Ages -- and look at the political systems of today.
The nineteenth century was the ultimate product and expression of the intellectual trend of the Renaissance and the Age of Reason, which means: of a predominantly Aristotelian philosophy.  And, for the first time in history, it created a new economic system, the necessary corollary of political freedom, a system of free trade on a free market: capitalism.
No, it was not a full, perfect, unregulated, totally laissez-faire capitalism -- as it should have been.  Various degrees of government interference and control still remained, even in America -- and this is what led to the eventual destruction of capitalism.  But the extent to which certain countries were free was the exact extent of their economic progress.  America, the freest, achieved the most.
Never mind the low wages and harsh living conditions of the early years of capitalism.  They were all that the national economies of the time could afford.  Capitalism did not create poverty -- it inherited it.  Compared to the centuries of precapitalist starvation, the living conditions of the poor in the early years of capitalism were the first chance the poor had ever had to survive.  As proof -- the enormous growth of the European population during the nineteenth century, a growth of over 300 percent, as compared to the previous growth of something like 3 percent per century.
Now why was this not appreciated?  Why did capitalism, the truly magnificent benefactor of mankind, arouse nothing but resentment, denunciations and hatred, then and now?  Why did the so-called defenders of capitalism keep apologizing for it, then and now?  Because, ladies and gentlemen, capitalism and altruism are incompatible.
Make no mistake about it -- and tell it to your Republican friends: capitalism and altruism cannot coexist in the same man or in the same society.

Tell it to anyone who attempts to justify capitalism on the ground of the "public good" or the "general welfare" or "service to society" or the benefit it brings to the poor.  All these things are true, but they are the by-products, the secondary consequences of capitalism -- not its goal, purpose or moral justification.  The moral justification of capitalism is man's right to exist for his own sake, neither sacrificing himself to others nor sacrificing others to himself; it is the recognition that man -- every man -- is an end in himself, not a means to the ends of others, not a sacrificial animal serving anyone's need.
There is a tragic, twisted sort of compliment to mankind involved in this issue: in spite of all their irrationalities, inconsistencies, hypocrisies and evasions, the majority of men will not act, in major issues, without a sense of being morally right  and will not oppose the morality they have accepted.  They will break it, they will cheat on it, but they will not oppose it; and when they break it, they take the blame on themselves.  The power of morality is the greatest of all intellectual powers -- and mankind's tragedy lies in the fact that the vicious moral code men have accepted destroys them by means of the best within them.
So long as altruism was their moral ideal, men had to regard capitalism as immoral; capitalism certainly does not and cannot work on the principle of selfless service and sacrifice.  This was the reason why the majority of the nineteenth-century intellectuals regarded capitalism as a vulgar, uninspiring, materialistic necessity of this earth, and continued to long for their unearthly moral ideal.  From the start, while capitalism was creating the splendor of its achievements, creating it in silence, unacknowledged and undefended (morally undefended), the intellectuals were moving in greater and greater numbers towards a new dream: socialism.

Just as a small illustration of how ineffectual a defense of capitalism was offered by its most famous advocates, let me mention that the British socialists, the Fabians, were predominantly students and admirers of John Stuart Mill and Jeremy Bentham.
The socialists had a certain kind of logic on their side; if the collective sacrifice of all to all is the moral ideal, then they wanted to establish this ideal in practice, here and on this earth.    The arguments that socialism would not and could not work, did not stop them: neither has altruism ever worked, but this has not caused men to stop and question it.  Only reason can ask such questions -- and reason, they were told on all sides, has nothing to do with morality, morality lies outside the realm of reason, no rational morality can ever be defined.
The fallacies and contradictions in the economic theories of socialism were exposed and refuted time and time again, in the nineteenth century as well as today.  This did not and does not stop anyone; it is not an issue of economics, but of morality.  The intellectuals and the so-called idealists were determined to make socialism work.  How? By that magic means of all irrationalists: somehow.

It was not the tycoons of big business, it was not the working classes, it was the intellectuals who reversed the trend toward political freedom and revived the doctrines of the absolute State, of totalitarian government rule, of the government's right to control the lives of the citizens in any manner it pleases.  This time, it was not in the name of the "divine right of kings," but in the name of the divine right of the masses.  The basic principle was the same: the right to enforce at the point of a gun the moral doctrines of whoever happens to seize control of the machinery of government.
There are only two means by which men can deal with one another: guns or logic.  Force or persuasion.  Those who know that they cannot win by means of logic, have always resorted to guns.
Well, ladies and gentlemen, the socialists got their dream.  They got it in the twentieth century and they got it in triplicate, plus a great many lesser carbon copies; they got it in every possible form and variant, so that now there can be no mistake about its nature: Soviet Russia -- Nazi Germany -- Socialist England.
This was the collapse of the modern intellectuals' most cherished tradition.  It was World War II that destroyed collectivism as a political ideal.  Oh, yes, people still mouth its slogans, by routine, by social conformity and by default -- but it is not a moral crusade any longer.  It is an ugly, horrifying reality -- and part of the modern intellectuals' guilt is the knowledge that they have created it.  They have seen for themselves the bloody slaughterhouse which they had once greeted as a noble experiment -- Soviet Russia.  They have seen Nazi Germany -- and they know that "Nazi" means "National Socialism."  Perhaps the worst blow to them, the greatest disillusionment, was Socialist England: here was their literal dream, a bloodless socialism, where force was not used for murder, only for expropriation, where lives were not taken, only the products, the meaning and the future of lives, here was a country that had not been murdered, but had voted itself into suicide.  Most of the modern intellectuals, even the more evasive ones, have now understood what socialism -- or any form of political and economic collectivism -- actually means.
Today, their perfunctory advocacy of collectivism is as feeble, futile and evasive as the alleged conservatives' defense of capitalism.  The fire and the moral fervor have gone out of it.  And when you hear the liberals mumble that Russia is not really socialistic, or that it was all Stalin's fault, or that socialism never had a real chance in England, or that what they advocate is something that's different somehow -- you know that you are hearing the voices of men who haven't a leg to stand on, men who are reduced to some vague hope that "somehow my gang would have done it better."
The secret dread of modern intellectuals, liberals and conservatives alike, the unadmitted terror at the root of their anxiety, which all of their current irrationalities are intended to stave off and to disguise, is the unstated knowledge that Soviet Russia is the full, actual, literal, consistent embodiment of the morality of altruism, that Stalin did not corrupt a noble ideal, that this is the only way altruism has to be or can ever be practiced.  If service and self-sacrifice are a moral ideal, and if the "selfishness" of human nature prevents men from leaping into sacrificial furnaces, there is no reason -- no reason that a mystic moralist could name -- why a dictator should not push them in at the point of bayonets -- for their own good, or the good of humanity, or the good of posterity, or the good of the latest bureaucrat's five-year plan.  There is no reason that they can name to oppose any atrocity. 
The value of a man's life?  His right to exist?  His right to pursue his own happiness?  These are concepts that belong to individualism and capitalism -- to the antithesis of the altruist morality.

Twenty years ago the conservatives were uncertain, evasive, morally disarmed before the aggressive moral self-righteousness of the liberals.  Today, both are uncertain, evasive, morally disarmed before the aggressiveness of the communists.  It is not a moral aggressiveness any longer, it is the plain aggressiveness of a thug -- but what disarms the modern intellectuals is the secret realization that a thug is the inevitable, ultimate and only product of their cherished morality.
I have said that faith and force are corollaries, and that mysticism will always lead to the rule of brutality.  The cause of it is contained in the very nature of mysticism.  Reason is the only objective means of communication and of understanding among men; when men deal with one another by means of reason, reality is their objective standard and frame of reference.  But when men claim to possess supernatural means of knowledge, no persuasion, communication or understanding are impossible.  Why do we kill wild animals in the jungle?  Because no other way of dealing with them is open to us.  And that is the state to which mysticism reduces mankind -- a state where, in case of disagreement, men have no recourse except to physical violence.  And more: no man or mystical elite can hold a whole society subjugated to their arbitrary assertions, edicts and whims, without the use of force.  Anyone who resorts to the formula: "It's so, because I say so," will have to reach for a gun, sooner or later.  Communists, like all materialists, are neo-mystics: it does not matter whether one rejects the mind in favor of revelations or in favor of conditioned reflexes.  The basic premise and the results are the same.
Such is the nature of the evil which modern intellectuals have helped to let loose in the world -- and such is the nature of their guilt.
"

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