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Finalmente, alguma acção visível

por Nuno Castelo-Branco, em 29.07.17

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 O governo, bem, há que dizê-lo, resolveu tornar mais visível o programa de acolhimento de refugiados da Venezuela. Mais vale tarde do que nunca, é o que se diz nestes casos.

Nem teria sequer outra opção, apenas cumpre aquilo a que se comprometeu constitucionalmente. Basta agora convencerem quem para Portugal queira vir, a estabelecer-se no continente onde existem mais capacidades de integração, mais oferta e espaço.

Criem-se então as condições, as linhas de crédito, os alojamentos a obrigatoriamente serem cedidos pela banca intervencionada pelo Estado - possui milhares de casas em carteira -, as escolas para os filhos e os médicos de família. A questão da saúde será talvez a mais urgente.

Talvez assim mitiguem o opróbrio que sobre o esquema vigente caiu após certas coisas das quais foi e ainda é o único responsável. Em suma, uma forma indirecta de pedir desculpas a quem, mesmo passadas algumas décadas, ainda não se esqueceu.
Organize o governo uma campanha de angariação de boas vontades a título gratuito e logo verão os voluntários que se apresentarão. Aqui estará um deles.

* Não se esqueçam de accionar as linhas de auxílio gizadas em Bruxelas para este fim que é precisamente idêntico a outros.

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publicado às 08:23

Rédea curta

por Nuno Castelo-Branco, em 19.07.17

 

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 Não se trata de um tema de campanha e muito menos uma arma de arremesso político. A calma é o que se aconselha quanto a este melindroso dossier da evacuação de nacionais estabelecidos na Venezuela. Estrondeia nas redes sociais um coro de indignações por aquilo que sucedeu num organismo qualquer da U.E. a propósito do voto português quanto ao  notoriamente incapaz Maduro de Caracas. Por muita razão que os nossos comparsas europeus tenham, não atendem aos mesmos problemas enfrentados pelas autoridades de Lisboa, sejam elas de que partido forem. O que têm os portugueses em perspectiva? O número que uma vez mais se aproxima  do milhão. Não estamos a falar de moedas ou de apostas, mas sim de pessoas que urge proteger.


A verdade é que o regime não pode nem deve falhar onde fracassou clamorosa e voluntariamente em 1974/76. Não pode, seria mesmo uma afronta ao interesse nacional.

Queremos então acreditar de tudo estar a ser feito para precaver uma catástrofe e assim, os assuntos que são simulltaneamente políticos e humanitários, deverão ser tratados de forma discreta. Contudo existem alguns indícios preocupantes, como os milhares já arribados à Madeira e deixados à guarda do governo regional, parte integrante da estrutura do Estado de direito que é Portugal. Não se vislumbram campanhas organizadoras ou recolectoras de fundos, os dizeres na imprensa são praticamente inexistentes, não se vê um único programa nos canais televisivos nacionais. Dir-se-ia nada estar a acontecer.

A palavra é dura e neste caso politicamente feia, mas real: refugiados.

Neste momento deveria o governo de Lisboa apresentar um plano de contingência em Bruxelas que aos refugiados da Venezuela fossem pelo menos concedidas as mesmas condições de integração como as oralmente garantidas aos que à Europa chegam de outras paragens. Está isto a ser feito? Não parece, é duvidoso e este caso deve ser tomado de rédea curta. Mantenhamos então a vigilância.



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publicado às 13:29

António Barreto diz o essencial acerca da Venezuela

por Nuno Castelo-Branco, em 06.06.17

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 Finalmente alguém com voz se atreve a escrever sobre este assunto que o governo teme. É justo dizer que nisto está irmanado com praticamente toda a oposição. Decidiram que não lhes convém o ruído e diplomaticamente falando, têm razão, razão essa que logo se espatifa quando depois fazem afirmações disparatadas perante os jornalistas. Como já se disse, repetem os mesmos pueris argumentos e sugestões feitas a outros portugueses, noutros tempos e noutras paragens. As mesmas rimas, as mesmas desculpas, os mesmos argumentos que a ninguém convence, dir-se-ia um copy-paste perfeito. Não resultará e deverão enfrentar o problema que lhes estourou nas mãos.

De uma coisa podemos estar certos: a enxurrada acontecerá e pior, foram avisados e nada ou pouco fizeram.

O texto de António Barreto

"O que se passa na Venezuela é, a todos os títulos, grave. Sob o domínio de uma ditadura demagógica e populista, um país rico encontra-se falido, dá sinais de caos e miséria, em permanente revolução e à beira de uma perigosa insurreição. O seu governo é imprevisível e goza de uma grande tolerância internacional, talvez por ser uma ditadura esquerdista e tropical, que destruiu, em pouco mais de quinze anos, um país moderno e em desenvolvimento, apesar de muito desigual. Os primeiros anos de ditadura serviram para uma radical distribuição de riqueza e uma diminuição da pobreza, facilitadas pelas receitas do petróleo, cujas reservas estão entre as mais vastas do mundo. A política americana em relação à Venezuela pecou várias vezes por interferência. A quebra de proventos com o petróleo e a política dos governos de Chávez e Maduro são as causas essenciais da actual desordem.

 

 Há muitas décadas, os emigrantes portugueses elegeram a Venezuela como um dos países de destino favoritos. Talvez sejam hoje quase 500 000, ninguém sabe ao certo, mas este número deve incluir muitos de segunda geração. Parece que haverá quase 200 000 pessoas inscritas nos consulados. É muita gente. Com a evolução da situação actual, muitos vão querer regressar a Portugal. Não se sabe quantos. Mas o país precisa de estar pronto para que regressem muitos. Mais vale estar preparado a mais do que a menos. A Madeira é a principal origem de emigrantes para a Venezuela. Será também o principal ponto para retorno.

 

Já regressaram à Madeira, em poucos meses, cerca de mil. Ao todo, em dois ou três anos, perto de quatro mil. Mais de 800 já se inscreveram nos centros de emprego. Muitos procuram casa. E lugar nas escolas para os filhos. O governo da República tem a estrita obrigação de fazer tudo e mais alguma coisa. Directamente e através do governo regional. As instituições europeias têm a obrigação de apoiar estes refugiados que não podem ser penalizados pelo facto de não serem africanos ou asiáticos.


Tanto quanto sei, o governo regional está a fazer o que pode. Se está, muito bem. Mas deve ser pouco. Tem de ter o apoio do governo da República, assim como das instituições europeias. Se portugueses regressarem da Venezuela, serão, a muitos títulos, refugiados. Mais ainda, serão também retornados. Sobre estes, temos obrigação de saber aquilo de que falamos. Não é possível imaginar que os portugueses da Venezuela sejam tratados como foram muitos retornados das colónias, em 1975, nem como muitos refugiados muçulmanos e africanos que hoje chegam à Europa. Convém não esquecer que não é apenas à Madeira que aqueles emigrantes estão a regressar, é a Portugal!

 

O governo não deve falar alto. Deve estar calado. E ser discreto. E não fazer demagogia. Mas deve estar pronto e mostrar aos portugueses de lá que está preparado. O governo não deve fazer barulho a mais sobre este problema. Um secretário de Estado foi a Caracas e tratou do assunto com cuidado? Muito bem. Há dispositivos de segurança que começam a estar preparados, para as viagens e os transportes? Há sistemas prontos a funcionar para a saúde, os cuidados de emergência, a habitação e as primeiras necessidades? Há cuidados para crianças e idosos? Há sistemas imaginados para rapidamente ajudar quem pode trabalhar? Há apoios para apoiar quem quiser criar empresas? Há uma boa articulação, sem política de permeio, entre o governo da República, o governo regional e as instituições europeias?

 

O facto de a ditadura venezuelana ser de esquerda não deve embaraçar o governo português. O facto de os portugueses da Venezuela não serem muçulmanos não deve inibir o governo. Esses mesmos factos não deveriam impedir a imprensa de estar mais atenta. A discrição, em todo este tema, obriga o governo e as autoridades, não os privados nem os jornalistas. O que, neste caso, se fizer a mais, com ruído excessivo e exibicionismo, será criminoso. Tanto como se não se fizer nada nem o suficiente."

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publicado às 09:35

Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais nº 2

por Nuno Castelo-Branco, em 03.06.17

1.2.-Patrimonio-Palacio-Sotto-Mayor-Carlos-Valadas

Lembro-se como se hoje tivesse sido. 

Num dia daquele já bastante distante ano de 1975, o meu pai* disse-me para ir com ele ao Palácio Sottomayor, onde, pelo que se sabia, existia alguma boa vontade para com as pessoas que forçadamente tinham vindo para a até então - e ainda o era em Timor - Metrópole. No Rossio corria o boato que garantia um staff  composto por gente alheia às foices, martelos, estrelas e patinhas de galinha (MDP/CDE). Assim constava e por regra parece que assim acontecia. A minha companhia talvez servisse como um arremedo de chantagem moral.


Aquele belo edifício servia então como entreposto de roupas destinadas aos retornados. Os grandes salões dourados num brilho fanado já tinham vivido melhores dias e estavam atulhados com arranha-tectos de caixas contendo roupas. Mal se vendo em toda a sua sumptuosidade, essa grandeza de outrora, décadas mais tarde miraculosamente escaparia a uma fortuita decisão de demolição com o fim de ali se erguer um daqueles mamarrachos de betão que nas cercanias a CML permitiu brotar como cogumelos venenosos. 


Estava-se em plena pródiga época de cunhas que noutros regimes foram denominadas de empenhos. O meu pai conseguira esgueirar-se entre as apertadas malhas dos controleiros da Intersindical, ou  seja, do bastante impertinente PC e satélites de serviço e mediante um amigo de pseudónimo Valente Cunha, lá conseguira o lugar de professor de História no Liceu D. Manuel I, em Alcochete. Diariamente deslocava-se no 43 até às imediações do Terreiro do Paço, onde iniciava a sua odisseia de várias horas entre idas Tejo acima e regressos tardios ao parque de campismo de Monsanto. Obteve já nem sei através de quem, mais uma muito empenhada cunha que talvez propiciasse o contorno das regras impostas pelo governo da troika PS/PPD/PC + MFA de Vasco Gonçalves, normas essas que de uma eficaz penada eximiram o Estado da contabilização de muitos milhares de pessoas que num ápice deixaram de entrar nas contas do ábaco do desastre e mais importante ainda, nas ajudas a conceder. Já tínhamos ido ao IARN que então funcionava para as bandas do Museu de Arte Antiga e ali foi-nos friamente esclarecido que ..."pela Lei o senhor e a sua família, chegando a 31 de Agosto de 1974, não podem solicitar ajuda".


Chegados ao Palácio Sottomayor, tivemos o supremo azar de sermos recebido por uma bastante iracunda activista com a patinha de galinha à lapela, numa época em que era de bom tom separar as águas, fosse no machimbombo (autocarro verde da Carris), no eléctrico ou metropolitano. Usava-se o símbolo do partido bem visível no casaco, vestido ou camisa, como se se tratasse de um precioso broche de pedrarias cuidadosa e requintadamente lapidadas por aquele Leitão que durante tanto tempo bem servira a Coroa. Os apressadamente aggiornados ou preocupados por serem ainda mais visíveis, preferiam o grande autocolante e tal como como acontecia com os banhos e cuecas, dele faziam a muda semanalmente, dependendo da data da próxima manif ou greve aprazada. Olhava-se de soslaio para o lado e no caso do efémero vizinho de viagem cumprir grosso modo o politicamente correcto da época, até se metiam ambos em simpática cavaqueira. O pior é se aquele com quem era forçado a empernar ostentava algo que lhe fosse desagradável, um daqueles inimigos de classe, mesmo que este usasse umas calças esfarrapadas. Logo os olhos chispavam de ódio e os mais afoitos deixavam cair uma ou outra provocação que prontamente tinha resposta. 

- Então digam lá "ó quéque" vêm? (ó quéque? Huuuuuuum, soava a falso e isso confirmou-se uns tempos depois**)

- Bom, nós estamos a viver no parque de campismo de Monsanto...

Interrompendo abruptamente,

- Ouça lá, nós instalámos toda esta gente em pensões e hotéis (gesto circular, abrangendo toda a sala), não amandámos (sic) ninguém aboletar-se em campismos! (voz em crescendo de decibéis)

- Eu sei, mas tenho cá um primo que nos emprestou uma roulotte...

- Olhe, sorte a vossa e azar do seu primo que a receberá de volta toda escangalhada, se é que alguma vez a terá! (risota)

- Minha senhora, vim aqui para obter roupas de inverno para os meus filhos. 

- Então dê-m'aí a senha e diga lá em que data chegou para eu apontar aqui no livro de entregas! Despache-se!, não vê que tenho mais que fazer? (voz bem audível para todos os que ali também estavam à espera da esmola)

- Chegámos a Lisboa no dia 31 de Agosto de 1974...

Virando-se para trás e rindo desbragadamente em direcção às colaboradoras que estavam a tomar notas:

- Olha-m'estes, por 24 horas não têm direito à ponta de um corno! Da'donde (sic) é que você desencantou esta senha? (gritos)

Tendo tentado e não conseguindo o que queria, o meu pai desatou num para mim até então desconhecido embrulho oral, um hilariante mas refinado atoalhado revisteiro de escárnio e maldizer, profusamente entrapado com o mais barroco calão que existia à época na Alfama. Recuso-me terminantemente a publicá-lo.

No meio do gargalhar geral daqueles subitamente encantados vencidos da vida que, alguns deles resignadamente humilhados e de chancas rotas mas percebendo o alcance dos tortuosos ditos vagamente camilianos, também aguardavam a sua vez de ordálio, a patinha de galinha quedou-se muda de espanto.

Estrondeou uma prolongada erupção de risos krakatoanos e antes que chegasse o Copcon pertencente ao famoso tolo, dali saímos lestamente sem olhar para trás. O pior é que o visado galináceo de broche esmaltado não terá compreendido a maior porção do alcance do improvisado número digno do que  melhor se concebia na Comédie Française, ficando apenas plenamente ciente da ínfima parte reservada ao léxico da Alfama pré-airbnb. Tanto pior.


- Gostaste? Esquece o que ouviste e vamos para casa. 

Era este o Portugal de outros tempos. Não me esquecerei nem quero ou tenho sequer o direito de olvidar este e outros episódios até ao último dos meus dias, tenham lá a santa paciência. Esquecer é uma condenação certa à repetição e pelo que se ouve no telejornal, isto é precisamente o que está a suceder, martelando-se tintim por tintim, aquilo que os pais deles disseram e pior ainda, fizeram naquela época. 

Já transformado o Palácio Sottomayor na propriedade de uma entidade bancária (?) e numa parte daquele grandioso espaço funcionando uma Embaixada de um país contíguo da Venezuela, ali não pode o governo instalar qualquer renovado IARN, Algo deve ser disposto urgentemente e sobretudo recheado com pessoal mais simpático e preferencialmente sem sucedâneas  patinhas de galinha à lapela.

Uma sugestão? Falem com a Isabel Jonet, pessoa mais do que apta para este tipo de já históricas maçadas e imprevistos há muito avisados. 

 

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 Gostei tanto do episódio que uns anos depois, passando numa banca de propaganda do PC que durante anos existiu no Rossio, comprei à irmã gémea do Brezhnev - se não era, parecia - esta bela patinha de galinha que ainda conservo na minha tralha referente ao PREC. Tenho mais exemplares, muitos mais. 


* Ao longo da sua vida na antiga Metrópole, o meu pai jamais votou em qualquer partido da direita.  
Enquanto o Arq. Ribeiro Telles presidiu ao Directório do PPM foi um eleitor fiel, considerando-o como o único partido com um projecto interessante e com garantias de propiciar um futuro melhor e mais equilibrado, embora sem megalomanias para este país. Dizia mesmo que era a única organização revolucionária portuguesa, olhando de soslaio e com um certo desprezo para os demais que se alavancavam, segundo ele abusiva e pateticamente, a essa duvidosa condição. A partir dos anos 80 insistia uma e mais uma e outra vez no voto PS num agora é que é, naquela bem conhecida e inexplicável fórmula de "PS à PS", uma espécie de dito do recorte "Benfica à Benfica". Nunca nos conseguiu dizer o que isso significava e ficou sempre uma genérica impressão familiar de simpatia pela sigla. Para além do CNC, nunca se inscreveu em entidade alguma.

** Confirmou-se uns tempos mais tarde, em 1980, quando com um grupinho de amigos fui lanchar ao Vá-Vá. Reconhecia-a de imediato e sentando-me numa mesa bem próxima, ouvi-a discorrer sem populeirices forçadas. Era uma burgesa dos arrabaldes perpendiculares da Av. de Roma, precisamente daquela casta mazinha e disposta a todo o tipo de camaleonismos, dependendo estes de cada momento. A propósito, já não ostentava a patinha de galinha









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publicado às 09:00

Pastéis e selfies de Belém

por Nuno Castelo-Branco, em 02.06.17

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Quando é que o sempre excitado afectuoso vai distribuir afectados afectos à pobre e desvairada gente que silenciosa e discretamente todos os dias e aos magotes chega ao aeroporto do Funchal? Já que está nos Açores, aproveite para fazer uma voltinha e aterre na Madeira, pois dentro de momentos terá mesmo de fazê-lo remediadamente aqui bem perto, na Portela.

Não, não vale a pena dizer que são apenas "turistas como quaisquer outros", ansiosos visitantes do busto que nem de longe faz lembrar o Cristiano Ronaldo.

Alguns deles são refugiados, perdão, retornados e talvez pela segunda vez nas suas vidas, irra!

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publicado às 11:31

Afinal, a Madeira já é outro país

por Nuno Castelo-Branco, em 31.05.17

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É o que parece ser, a considerar os escritos ou ditos da autoria dos responsáveis políticos, uma espécie de herdeiros do governador Pôncio Pilatos. A tina de águas turvas onde insistem em lavar as mãos, é comprovada quase diariamente pelos silêncios embaraçados ou por recomendações indirectas, aquelas que após tecerem os considerandos que já ouvimos noutros tempos ..."os portugueses e luso-descendentes aqui nasceram, foram educados, têm as suas famílias, casas e empregos", logo indicam aquilo que para o esquema aqui vigente é mais aconselhável: ..."façam-se à vidinha e procurem outras paragens se não quiserem ficar na Venezuela".

Foi exactamente o que a catrefa de agentes civis ou militares disse em Luanda, Lourenço Marques, Bissau e outras localidades, quando perante eles se ergueu a evidente ameaça da deportação de centenas de milhar de nacionais. Nunca é demais voltarmos à carga, pois ponto por ponto, trata-se de uma repetição de factos. Aconteceu o que sabe por única responsabilidade e total culpa das autoridades então mandantes em Lisboa. Agora até se dão ao luxo de indicarem os receptores da desgraça de inegáveis nacionais portugueses, atrevendo-se mesmo a aconselhar como destino o Brasil - que se encontra numa excelente situação interna e externa -, a França, Espanha e até a América de perna-aberta do Sr. Trump que exautoram cada vez que tenham ou não uma oportunidade para tal.  Como se sobre estes países exercessem qualquer tipo de soberania, mesmo que moral. 

Desde que não venhas para cá, podes fazer o que te apetecer!, eis a mensagem subliminar. Se assim não é, tal é a impressão que eles, os luso-venezuelanos, têm acerca dos nossos dirigentes que ali desembarcam para conversações.  

Já vimos, ou pior ainda, já sofremos isto "naquele tempo que eles prefeririam jamais ter acontecido". Os mesmos argumentos, o mesmo laissez-faire, a mesma descarada inépcia ditada não se sabe bem porquê que suspeitamos ser a cíclica reserva mental que corrói aquelas pobres cabeças cheias de vento. Pior ainda, são exactamente os mesmos partenaires, ansiosos por não terem de se dar ao trabalho de accionarem gabinetes que já existem para outras finalidades, como o CPR e tudo o que à volta disto tem girado: gabinetes de estudos, boas vontades, entusiasmos de hora de telejornais, ditos espirituosos em S. Bento e sobretudo, os fundos comunitários que destinam a outros alvos. Sim, "aqueles" em que estão a pensar. 

Se não é assim, assim parece, apesar da nossa compreensão pela desejável moderação no deixar passar da informação. A prudência é inimiga do medo. 

Portugal não deve ver os luso-venezuelanos como um potencial perigo, mas sim como a reedição da oportunidade que outrora teve, quando à Metrópole arribaram centenas de milhar de pessoas em muitíssimo pior situação, se é que isto é possível, do que aqueles que para cá não só querem, como terão mesmo de vir. Já não se trata de um imaginado se, mas daquele indesejado  quando. Julgá-los como alvo fácil da desbragada reacção política, é um erro, mais um a juntar a todas as outras superstições. 

O governo regional da Madeira, honra e glória lhe seja votada, tem feito tudo o que é possível para arrecadar com a parte de leão desta catástrofe nacional. Catástrofe, dada a inércia evidente das autoridades centrais, apertadas entre os seus negócios e o compromisso oficial para com o governo de Caracas que, há que dizê-lo uma vez mais e sem rebuçados para a garganta, tem sido um bom amigo das autoridades de Lisboa, sejam elas as dos executivos da esquerda, como as dos executivos da direita.

Já não se trata de negócios de loja & conveniência, mas sim de vidas a prazo, as que por mais irritante que isso possa ser para o politicamente correcto que por cá faz cátedra, pertencem à nossa família nacional, mesmo aquelas que apenas falem a língua da pátria-mãe num arrevesado de portunhol.

Devem ser estes refugiados prontamente auxiliados e sobretudo, terem a sensação de serem bem-vindos. Ora, uma vez mais repetindo a história - para alguns deles quiçá pela segunda vez -, tal não está a acontecer. 


Repitamos então o acima dito, isto não está a acontecer. Digamos desassombradamente do que se trata, a palavra chave que é o repetitivo tabu deste regime, são refugiados e ainda por cima, nacionais. 

Refugiados! 

Se pensam que a substituição do actual regime General Tapioca poder  rapidamente dar o lugar a um novo-antigo regime General Alcazar, precisamente aquele que provocou a ascensão irreversível do chavismo, preparem-se então, pois qualquer coisa em que surja como cabeça um qualquer Sr. Capriles, demorará décadas até a Venezuela remotamente poder comparar-se ao que era em 1975, quando ainda por ali imperava o sr. Carlos Andrés Pérez. Décadas, na melhor das hipóteses. 

Têm sido as nossas autoridades uma indigesta entremeada de timidez, medo, desleixo e barco de cavername carcomido e convés sem bússola. Isto, para não dizermos algo infinitamente pior. É o que tem transparecido semana após semana. 

Convém insistirmos nesta tecla até que algo seja bastante visível e evidente. Em momento de tecnologias da informação e imagens a cores, já não há como esconder os factos. 

Como se disse um dia a respeito de outro assunto, agora trata-se de ..."para Portugal e em força!"



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publicado às 13:55

Défice excessivo e estudos para o regresso de nacionais

por Nuno Castelo-Branco, em 22.05.17

Fotografia dos contentores dos 'retornados' feita

 Saiu há uns dias um estudo previsivelmente encomendado, referindo a imperiosa necessidade do país acolher mais imigrantes. Nada sabendo acerca do assunto, tendemos a concordar, mesmo deixando de lado o futuro que a robotização generalizada implicará, ou seja, a cada vez menor necessidade de mão de obra humana no sector industrial e quiçá, nos serviços. Trata-se sobretudo de garantir a sobrevivência e a tranquilidade de quem à Europa pede auxílio. Não há como negá-lo.


Portugal está então apto, saindo do procedimento por défices excessivos, de tentar convencer Bruxelas acerca daquilo que se perfila ameaçadoramente no horizonte mais próximo:
- a enxurrada de refugiados que virão da Venezuela e mais tarde mas como já foi aqui previsto, da África do Sul. Urge planear com tempo, mas o segundo caso, embora as notícias sejam cuidadosamente filtradas, é menos urgente.

Dados os números em questão, o nosso país enfrenta uma catástrofe ainda mais gravosa do que aquela ocorrida há quatro décadas, quando teve, contra a vontade dos seus dirigentes, de suportar a chegada de centenas de milhar de portugueses sem eira nem beira, no meio da geral indiferença de aliados, amigos ou comparsas internacionais. Solitário e contra a benquerença geral, Portugal enfrentou o desafio e conseguiu resolver o problema, ou pelo menos mitigá-lo à custa do silêncio tacitamente imposto àqueles que estiveram do lado errado da história e dos seus vendavais.

O que há então a fazer? Segundo o MNE, o processo já se encontra em marcha e apenas podemos imaginar o que terá sido dito pelo ministro da tutela na Comissão Parlamentar destinada a este incómodo assunto. As pessoas estão antes de contabilidades, negócios, preconceitos ou superstições políticas mais ou menos correctas.

O governo deve simplesmente recorrer de imediato aos mecanismos já estabelecidos para outros casos, apresentando os números e invocando os grandes princípios humanitários propalados no areópago de Estrasburgo e na própria Comissão Europeia.

Este é um caso que não poderão negar ou adiar indefinidamente, não significando descurarem-se todas as probabilidades e a totalmente indesejável evacuação em massa, pois esta implica, em caso de necessidade absoluta, a cooperação de todas as agências europeias que decerto terão Portugal como um país merecedor da solidariedade que é fartamente prodigalizada a Estados alheios à Europa. 

Facilmente é compreensível a premissa destes retornados poderem ser satisfatoriamente integrados, para além de Portugal, noutras sociedades europeias, não chegando com exigências de qualquer tipo que comprometam o ethos e a paz das sociedades dos países de acolhimento. Veremos então até que ponto é credível toda esta até agora espantosa inflamada oralidade de fóruns, associações e ONG de boas vontades.

Aguardemos então e como se dizia noutro post acerca deste assunto, ...o tempo urge. Não se trata de generosidade, mas sim de uma obrigação nacional. 



 

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publicado às 21:57

Alemanha e o voto dos refugiados

por John Wolf, em 13.03.16

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Portugal queixa-se da sua Direita, mas a estirpe benigna da mesma deve ser louvada. Paulo Portas, definido pela Esquerda como perigoso e ultra-conservador, afinal foi um dos políticos mais moderados que a história democrática de Portugal conheceu. Mas passemos adiante. A Alemanha enfrenta perigos muito maiores, e, por arrasto, a Europa corre o risco de replicar certas tendências ideológicas. Pela primeira vez na história da Alemanha os refugiados vão "eleger" políticos, e não são uns "quaisquer". O AfD (Alternative für Deutschland), o partido mais jovem de extrema-direita, irá, nas eleições que se seguem, desferir um duro golpe no partido de Angela Merkel e nas demais forças do espectro político moderado daquele país. Putin, malentendido e subestimado, tem sido um formidável jogador europeu, um híper-realista capaz de confundir os seus adversários e lançar o caos na política de salão da União Europeia, ainda crente nas virtudes das suas instituições, mas coxa no capítulo da política externa comum (PESC) - podemos incluir os refugiados no conceito de guerra híbrida da Rússia. Se juntarmos a tudo isto umas pitadas de irreverência monetária de Mário Draghi e do Banco Central Europeu, estão reunidos os factores para uma tempestade perfeita. Os eurocratas têm sido lestos na interpretação dos genuínos desafios que se lhes apresentam. Portugal deve ter algum cuidado com aquilo que deseja. A sorte do país continental é ter apenas duas fronteiras - a do Oceano Atlântico e aquela de Espanha. Se Portugal fosse a Áustria, com as suas sete portas de entrada, não estaria a dançar o bailarico canhoto da Esquerda. Os portugueses devem agradecer a moderação e o civismo político de Paulo Portas que se encontra a milhas de distância dos monstros que estarão para nascer na vossa Europa civilizada. Não vale a pena referir o governo de António Costa e parceiros. Imaginem se o preço da gasolina fosse mais baixo nas ilhas Canárias?

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publicado às 10:54

A UE e as vinhas da ira dos refugiados

por John Wolf, em 08.03.16

 

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 Antes pagavam para arrancar vinhas. Agora pagam para plantar refugiados. Da CEE à UE - uma breve história.

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publicado às 09:38

O perigo de governos míopes

por John Wolf, em 27.01.16

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De nada serve o Tratado de Methuen assinado entre Portugal e Inglaterra  - o governo de António Costa tem a obrigação de delinear uma série de planos B para a eventualidade de uma saída britânica do Euro e muito mais que consta da ementa do quadro internacional. Mas os políticos, na sua generalidade, apenas conseguem ver um palmo à frente do seu nariz, obviando uma visão panorâmica e integrativa de diversos factores de risco. A saber; (aquele que acabo de referir - o Brexit), a crise dos refugiados, a obliteração do enunciado pelo tratado de Schengen e o seu impacto nos assuntos internos da União Europeia nos planos social e económico, a desaceleração da economia chinesa, o efeito cada vez mais minguado do programa de estímulo financeiro lançado pelo Banco Central Europeu, as ameaças terroristas convertidas em actos pelo Estado Islâmico em distintos endereços do espaço da UE, a quebra acentuada e continuada do preço do crude, as implicações da política externa da Rússia no que diz respeito à ruptura de equilíbrios já de si frágeis (no contexto do (des)intervencionismo americano), a (des)democratização da Húngria e da Polónia com efeitos nefastos e contagiantes no demais espaço da UE, a possibilidade de uma vitória presidencial de Donald Trump e a implementação de uma política externa intensamente agressiva, o conflito sírio e as suas ramificações no espaço do Médio Oriente, designadamente no que concerne à relação entre o Irão e a Arábia Saudita, a iminência de mais uma crise financeira com impacto acentuado, numa primeira fase, nos mercados bolsistas, e num segundo momento na economia real dos países desenvolvidos; as crises em diversos países emergentes como por exemplo o Brasil, e por último, num plano doméstico, mas não menos importante, a desagregação do actual governo de Esquerda colado a cuspo, e apoiado em acordos frágeis e de conjuntura que não produzem propostas que merecem a aprovação da Comissão Europeia. Enfim, o que está em cima da mesa é de facto incontornável, seja qual for o governo em funções. Acontece que António Costa e o seu tesoureiro Mário Centeno estimam os seus extraordinários resultados baseando-se no princípio de ceteris paribus, quando é precisamente o oposto que sucede. A realidade é um difícil alvo em movimento. E não me parece que este governo tenha a visão panóptica para sequer equacionar o sarilho em que está metido. Agarrem-se à cadeira. Não tenham dúvidas. Isto vai estoirar. Lá e cá.

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publicado às 18:53

Na Dinamarca, perdão, em Moçambique

por Nuno Castelo-Branco, em 14.01.16

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A vergonhosa decisão dinamarquesa em confiscar bens a quem ao país chega como refugiado, não é inédita. O mesmo aconteceu noutras épocas e pelo menos por decisão de três outros governos. A primeira respeitará ao geralmente conhecido saque nazi aos judeus alemães e de todos os territórios que a Wehrmacht ocupou. A segunda, às jóias que o governo de Salazar decidiu manter em guarda no BNU/BdP, logo após a conquista do Estado da Índia por parte do exército de Nehru. Durou mais de meio século, essa pretensa guarda de bens que sem alguma dúvida pertenciam aos depositantes. Entretanto morreram muitos dos seus proprietários e descendentes directos, tendo sido há pouco procedida a devolução a familiares de terceira e quarta geração.

Vamos então ao terceiro caso. Governo? O português, dirigido então por Vasco Gonçalves. Ano? 1974 e 1975. Local? Antigo Ultramar. 

Assim que tomou posse após a demissão de Palma Carlos, logo fez chover sobre os territórios africanos diplomas e ordenações vexatórias, desde normas correspondentes às transferências de bens, às outras que incluiam emissões de rádio, programas educativos nas escolas, liceus e universidades locais. A mais absurda terá sido o confisco puro e simples das posses daqueles que seriam prosaicamente chamados de retornados a um país onde a maioria jamais tinha estado. Enfeitavam-se os regulamentos normativos com excitadas manifestações de benquerença para os futuros países que todos previam como inevitavelmente independentes a curtíssimo prazo, logo de forma nítida surgindo o jargão habitual da sabotagem económica como justificativo. Como a imaginação era escassa, recorreram aos manuais. 

O saque foi extensivo, embora paulatinamente tornando-se mais visível e descarado a partir do inverno local de 1974, os meses correspondentes a Agosto, Setembro e seguintes. A Coordenadora do MFA e o diligente ministro da Coordenação Interterritorial - um rápido ersatz do então disparatadamente extinto Ministério do Ultramar -, decidiu colocar de vigilância nos aeroportos Gago Coutinho (Lourenço Marques) e Sacadura Cabral (Beira) - idem quanto a fronteiras terrestres e marítimas -, soldados recentemente chegados da Metrópole, hipoteticamente comandados por oficiais bem escolhidos. Limitavam-se a desfraldadamente passear de G-3 assestada e de cigarro no canto da boca. Iam olhando com um ar vagamente feroz para aqueles que embarcavam para as vitalícias férias. Nos pontos de check-in havia uma pretendida revista minuciosa das bagagens, mas a desordem era evidente, uma expectável luso-desorganização que facilmente permitiu o logro de coortes de militares postados no terreno à cata de despojos destinados não se sabe bem a quem. Alguns deles dir-se-ia encabulados pelo triste e escabroso serviço a que estavam obrigados, talvez assim se explicando a falta de cuidado na organização dos espaços de revista que naquele caso, permitiu um episódio em que gostosamente participei, industriado pelo meu pai.


Chegámos ao aeroporto à tarde, pois o Boeing 707 partiria ao anoitecer e era necessário proceder às formalidades de embarque, entre as quais a caprichosa revista de bagagens. Num relance, o meu pai percebeu que seria relativamente fácil fazer passar as duas pequenas caixas com as jóias da minha mãe, pois o check-in de bilhetes e bagagens era feito numa única porta, após o que os já "retornados" poderiam livremente chegar-se ao varão que os separava de amigos e familiares que permaneciam do outro lado. No nosso caso, o "amigo e familiar" era, além da minha pessoa destinada à derradeira cena de teatro,  a minha minha avó Irlanda, a única que se deslocara ao Gago Coutinho, pois ao contrário de tios, tias, primos e primas, amigos e amigas, não estava nada convencida dos amanhãs que cantariam.


- Nuno, discretamente vais ficar do lado de cá do varão, com o saco das jóias e com o teu blusão a tapá-lo. Nós os quatro (ele, a mãe, o Miguel e a Ângela) faremos a revista e depois a tua mãe virá "despedir-se da família"  (um piscar do olho direito para encorajamento) e entregar-lhe-ás discretamente isto. Depois, esperas um pouco e vais até à porta de embarque para seres revistado.

 Dito e feito, esperei pacientemente junto do varão e a minha mãe foi "despedir-se de mim" num  momento em que o reboliço pela aproximação da hora de voo era ostensivo, mantendo os camaradas distraídos com quem já estava dentro do recinto. Lampeiramente me esgueirei até ao local onde entreguei a minha passagem e como aos quinze anos já tinha 1,76m, nem sequer me perguntaram se viajava acompanhado. Se excluir  uma daquelas pequenas malas tubulares fechadas a zip que a TAP de então oferecia a quem comprasse bilhetes, não levava coisa alguma. O deixa andar era de tal forma que nem sequer estranharam o facto de não possuir qualquer bagagem de porão. Devem ter achado normal partir sem uma muda de roupa e atendendo à distância de quatro décadas, hoje julgo que por ali não campeava muita esperteza, quanto mais inteligência.

Escusado será dizer que nos fartámos de rir pelo facílimo trote pregado aos iracundos e desleixados vigilantes.

Tal sucedeu no dia 30 de Agosto de 1974, por sinal a data de aniversário do meu irmão. Uma semana depois foi o 7 de Setembro e então, sim, subitamente desapareceu o relaxamento nas vistorias, as tais "véstorias" como se usa dizer por cá.

Procedeu-se à cuidadosa expoliação extensiva de quem para sempre partia, desta vez já com a colaboração dos guerrilheiros recentemente chegados a uma cidade que até então totalmente desconheciam. Ajudados pelos militares portugueses e pelas delegações governamentais de transição da então potência administrante do território, perpetraram todo o tipo de latrocínios, fossem eles nos recheios de casas, como quanto a jóias e especialmente, nas transferências de títulos - que subitamente deixaram de ter qualquer valor local - e dinheiro em Escudos de Moçambique que de rompante passaram a ser cambiados sob a arbitrária fórmula imposta pelo mercado negro oficial de 3 para 1, 4 para 1 ou 5 para 1, engrossando os privativos cabedais de numerosos oficiais enviados pelo MFA de Lisboa. Daí à simples impossibilidade de trocar dinheiro e obrigar os luso-moçambicanos a deixá-lo em depósito nos escritórios que mais tarde seriam absorvidos pelo Consulado ou Embaixada, foi apenas uma questão de tempo. Nunca esses montantes foram devolvidos, nem deles há notícia de paradeiro actual. Foi um confisco puro e simples.  

A verdadeira História foi mesmo assim, tão ou ainda mais vergonhosa como a que agora sucede na Dinamarca.

Portugal fez exactamente o mesmo aos seus próprios cidadãos. A questão a colocar é a seguinte: limpeza étnica feita, onde foi parar o saque?  

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publicado às 07:00

O voto refugiado no socialismo

por John Wolf, em 16.09.15

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António Guterres não tem conta de Facebook. Se o Alto-Comissário para os Refugiados das Nações Unidas (UNHCR) tivesse perfil e mural percebia logo que o homem-comum, o cidadão-tipo de Portugal, não está nada contente com a possibilidade da vinda de contingentes de refugiados. Bastar-lhe-ia falar com um taxista para chegar a essa conclusão: "eles que fiquem lá na terra deles". Se falasse com um condutor-uber, talvez o caso mudasse de figura, mas não é isso o mais importante. O que convém sublinhar é o alinhamento de Guterres com o camarada António Costa, que referiu que o problema demográfico de Portugal seria resolvido com a chegada de migrantes. Até pode ter alguma razão, mas o que me chateia mesmo é Guterres servir-se do seu cargo para dar um empurrão à campanha de Costa. As suas palavras, subtilmente oferecidas, enaltecendo a sociedade civil de Portugal, passam por outra portagem. Inscrevem-se na fórmula oportunista de Costa, que antes da crise de refugiados tomar estas proporções, nunca havia tido uma ideia pan-europeia, uma sugestão que fosse sobre o futuro da relação de Portugal com um continente em profunda alteração. Um candidato a primeiro-ministro deve ter capacidade para pensar além dos ganhos e proveitos da mão-de-obra barata que as empresas de construção civil anseiam por ter. Em suma, os refugiados, que não são tidos nem achados, já servem de arma de arremesso na campanha dos socialistas. Eles nem sonham com a utilização abusiva da sua condição e não irão eleger Costa ou quem quer que seja.

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publicado às 09:25

O declínio da União Europeia

por Samuel de Paiva Pires, em 01.09.15

Bernardo Pires de Lima, Um "furo" na agenda:

É sempre lesta a reunir aos domingos sobre a moeda única, fomentar maratonas negociais para vergar parceiros ou ter governantes a fazer figuras tristes no Twitter, mas não consegue arranjar umas horas para, em conjunto, discutir medidas urgentes que salvem vidas e salvaguardem Schengen. É triste, mas não surpreendente, assistir ao desaparecimento em combate do senhor Juncker, ouvir o Durão Barroso-analista fingir que o Durão Barroso-político nunca existiu, ver alguns países de Leste comportarem-se com a amnésia própria dos ingratos da história, ter políticos moderados com medo das franjas, hoje residuais, amanhã maciças, e um Parlamento Europeu com força prática inversa à que lhe atribuem os tratados. E é angustiante, mas também não surpreendente, ver cair a mitologia da UE como "potência normativa" ou "exemplar" para terceiros.

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publicado às 10:16

Sobre a Alemanha

por Samuel de Paiva Pires, em 31.08.15

Os alemães que acolhem de bom grado milhares de refugiados que atravessam o Mediterrâneo são os mesmos que punem com medidas de austeridade, de há anos a esta parte, os povos de países que fazem parte da União Europeia, fomentando Merkel e Schäuble a desconfiança generalizada em relação ao futuro do projecto europeu. Desculpem-me a intromissão, podem continuar a elogiar os alemães.

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publicado às 11:30

Processo "Retornados" II

por Nuno Castelo-Branco, em 08.09.13

Aquilo que John Wolf aqui manifesta a propósito de um possível apelo a potenciais imigrantes, poderá ter imprevistos desenvolvimentos. Portugal poderá até receber um insuspeitado e numeroso contingente de salvadores do défice demográfico, repetindo uma outra chegada que ocorreu há perto de quarenta anos.

 

A situação na África do Sul é bastante diferente daquele idílico panorama arco-íris que os media insistem em apresentar como exclusivo. A violência urbana é espantosa e os sectores radicais do partido no poder reclamam pelo fim daquilo a que sugestiva e sintomaticamente designam de transição. Por outras palavras, pretendem a liquidação do processo de reconciliação nacional, a feliz solução que Mandela terá patrocinado. Os catastróficos acontecimentos verificados em todos os países fronteiriços da África do Sul, aconselhou a uma prudente rejeição do modelo "tudo ou nada" implementado em Moçambique e em Angola e numa apressada segunda fase do processo pós-independência, no Zimbabué-Rodésia. O resultado foi aquele que se previa e não merecerá a pena apresentarmos números que confirmam o desastre de norte a sul e de este a oeste. Estados fracassados e onde imperam os mais despóticos e  ineptos regimes cleptocráticos, apenas sobrevivem mercê dos importantes recursos que a natureza propicia. A África do Sul durante anos beneficiou do fluxo migratório de muitos daqueles que tendo vivido perto das suas fronteiras, neste país encontraram o destino final da sua permanência no continente. 

 

Quantos portugueses e luso-descendentes vivem no extremo sul de África? Os números são díspares, mas sem dúvida importantes e potencialmente aterradores para o Estado português. A situação interna tem evoluído negativamente. Os centros urbanos, outrora razoavelmente seguros, são pasto da mais violenta criminalidade imaginável e nas zonas rurais, o exemplo rodesiano também parece ter alastrado para sul, ocorrendo todo o tipo de abusos e depredações exercidas sobre fazendeiros brancos e respectivas propriedades. 

 

É desejável que tudo ocorra normalmente, evitando-se confrontos e êxodos, mas a realidade parece perpectivar algo de muito diferente. A incógnita do marco do cada vez mais próximo desaparecimento físico de Mandela, não se prende com esta ou aquela alteração nas instituições que conformam a África do Sul pós-apartheid, colocando-se já como uma certeza, a indesejável possibilidade da formalização de um racismo revanchista como norma. O afastamento dos brancos dos cargos públicos, o cerceamento dos direitos de representatividade que até hoje têm sido constitucionalmente garantidos, a expropriação extensiva da propriedade e a impunidade da violência a que os tribunais não podem dar a devida resposta, surgem como declaradas e bem sonoras reivindicações dos sucessores da geração de Mbeki.  O fim do mandato de Zuma, cuja escandalosa impreparação é demasiadamente evidente, poderá significar o liquidar do ansiosamente esperado sucesso da ainda muito recente sociedade multirracial. A insegurança fez disparar os índices de pobreza -  muitas fazendas foram abandonadas, o comércio e a indústria definham - e aquilo que outrora era apontado ao governo da minoria, pode hoje ser atribuído como disfarçada cópia às autoridades formalmente responsáveis pela manutenção da ordem nas ruas e nos locais de trabalho. Muita gente tem saído do país num silencioso e discreto processo de abandono, na Austrália e América procurando refazer a sua vida. Os portugueses, rotineiramente atingidos pela vaga de crimes, não serão excepção. Na sua maioria pretenderão permanecer em África e decerto acalentarão a esperança de um inverter da espiral a que têm assistido. Portugal terá todo o interesse de manter uma presença, digamos, física, naquelas paragens, colmatando a perda de influência abruptamente interrompida em 1975.

 

Moçambique é um país vizinho e onde uma certa calma - muito diferente daquela que existiu até 1974 - ainda poderá acalentar algumas ilusões quanto a um fazer de novo, um recomeçar. Neste caso, muitos portugueses possuem bens e aptidões capazes de trazerem o desenvolvimento a muitos sectores que estiolaram após 25 de Junho de 1975, mas o problema político, aliás confirmado pelos círculos próximos do partido no poder, apontam para um certo anti-portuguesismo que não se verificando de forma grave junto da população negra, é evidente em alguns órgãos da informação, habituais correias de transmissão do regime. Os insucessos da situação presente são sempre apontadas como responsabilidade do passado, também se obliterando aquilo que já existiu e terá desaparecido pela falta de quadros - escorraçados pelo regime implantado por S. Machel - e total desinteresse pela manutenção de serviços outrora considerados essenciais. A verdade é que no afã de garantirem privilégios jamais sonhados, as cúpulas dos poderes vigentes em quase todos os Estados sub-saharianos, têm sido coerentes nos extensivos esquemas de apropriação dos recursos, para isso eternizando-se no exercício da autoridade: Os Congos, o Gabão, a Guiné Equatorial, a Tanzânia, o Uganda, Ruanda e Burundi, a Zâmbia, Quénia, Malawi e Tanzânia, somam-se aos já apontados exemplos surgidos na década de setenta. 

 

Portugal deverá estar preparado para qualquer eventualidade, gizando atempados programas de emergência. Para isso, deverá estabelecer os necessários contactos com grupos organizados de luso-descendentes, também dotando a nossa representação com quadros capazes de estudarem os problemas que se apresentam, encontrando soluções para os mesmos.

 

Está-nos totalmente vedado o enfrentar de outra ignomínia como aquela ocorrida durante o PREC.

 

O portugueses da África do Sul são industriosos, muitos deles possuem recursos próprios e capazes de trazer claros benefícios à nossa economia e tão importante como isto, poderão oferecer alguma segurança à solvência do Estado Social e ao sempre sibilinamente mencionado défice demográfico. Há que atrair os investimentos, facilitar procedimentos legais - burocracia, impostos, justiça -, oferecer perspectivas de actividades empresariais e garantias de segurança.

 

Serão inevitáveis algumas alterações no mapa político português, quanto a este aspecto não existirão quaisquer dúvidas. Será este um dos maiores problemas, dado o que se sabe sobre o pendor caciquista da nossa política e a apropriação da mesma por bem conhecidos círculos que dela reivindicam o exclusivo exercício. Os agentes políticos nacionais que estão conscientes da realidade da situação da nossa comunidade na África do Sul, disto poderão ter algum receio, adiando indefinidamente os planos de contingência que parecem estar a tornar-se cada vez mais urgentes. Este é um perigo que o normalizado laxismo oportunista que tanto pesa sobre a tomada de decisões, poderá desastrosamente implicar a repetição de uma nova desgraça, neste caso, um Processo "Retornados" II. 

 

Há que estarmos preparados para o que poderá acontecer. A morte de Mandela será apenas uma simbólica abertura formal de uma potencial escalada mugabizante da política sul-africana. Os boer - hoje muito empobrecidos, marginalizados e alvos de uma violência como ainda há poucos anos jamais poderíamos prever -, encontram-se numa situação infinitamente mais perigosa que aquela reservada aos nossos concidadãos a quem Portugal não poderá deixar de prestar, no seu próprio interesse, uma total e competente assistência. 

 

O tempo urge. Não se trata de generosidade, mas sim de uma obrigação nacional. 

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publicado às 09:29

Refugiados de Portugal

por John Wolf, em 23.05.13

Portugal está a assistir a acontecimentos peculiares, com uma carga dramática intensa e com laivos de ironia histórica. Está a viver a descolonização daqueles que resultaram da descolonização dos anos sessenta e setenta. Parece que estamos a reviver a demise do império ultramarino sem ter de ir além-mar. O descalabro que está a acontecer, está à distância de um autocarro da Carris, à distância de um bairro cada vez menos de periferia. Os Portugueses, que foram enviados para o desterro, que emigraram, também foram descolonizados de sua casa. Tudo isto é trágico, e coloca numa mesma casa de desespero, nativos, colonos, e imigrantes. A séria crise que se nos atravessa, serve também para destapar as graves falhas de sucessivos governos, no que concerne à integração daqueles provenientes das ex-colónias. Por outro lado, os neo-colonizadores do norte da Europa ainda não perceberam que estão a criar um fenómeno que há alguns seria impensável nos territórios de uma Europa "civilizada". Em breve, a expressão que será empregue pela primeira vez na União Europeia, será refugiados europeus. Em cada um dos países afagados pela mão áspera da Troika, os cidadãos desses países já vivem a condição plena de refugiados. Procuram fugir da perseguição dos governos que elegeram. As comunidades provenientes de ex-colónias Portuguesas, que depositaram confiança na pátria de acolhimento, estão a braços com um dilema adicional. O regresso aos seus países de origem, se realizado em grande escala, decerto que esmagaria as parcas estruturas que começam a ser erguidas naqueles países emergentes que carregam passados históricos complexos, pejados de destruição e da falta de instituições democráticas, no seu sentido mais profundo e consolidado. A Austeridade já não é apenas Europeia. É já  um fenómeno que se sente em diversos países Africanos, pelas ondas de choque que se fazem sentir na vida de cidadãos provenientes das ex-colónias Portuguesas. Essas comunidades não conheceram outra coisa senão Austeridade, mesmo quando a Austeridade ainda não tinha sido inventada. Sempre viveram com grandes dificuldades e marginalizados pelo mainstream político. Agora assistimos à africanização da Austeridade. Quando pensamos em Portugal, realizamos um exercício enorme. Portugal tem o mundo todo contido em si. E Portugal tem compatriotas espalhados pelos seus quatro cantos do mundo. A grande estratégia nacional tem obrigatoriamente de incorporar esse sentido universal. Pelas razões atrás referidas, e outras que não cabem nesta discussão, o papel de Portugal é importantíssimo no quadro Europeu, e por essa razão há que dar forma à sua voz, de modo a que possa condicionar o desenho dos anos futuros, da Europa e do Mundo. Temo, porém, que os lideres nacionais não sejam capazes de vislumbrar a mudança de paradigma a que estamos a assistir. Juntemos a esta equação Portuguesa, as matrizes contidas em França, na Alemanha, em Espanha, na Turquia e na Grécia, e verão que estamos a braços com um desafio de proporções incalculáveis. O Conselho de Estado a que (não!) assistimos demonstra a infantilidade e inconsciência dos nossos governantes. Algo muito mais profundo está em causa que torna irrelevante coligações e a fita-cola que desejam usar. O país fracturado não pode ser reparado com ligaduras, mas também não pode permanecer engessado em atavismos.

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publicado às 09:42






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