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O relativismo cognitivo reforça a ética da convicção

por Samuel de Paiva Pires, em 09.10.13

 

Raymond Boudon, Os Intelectuais e o Liberalismo:

 

«Podemos afirmar que estes diversos factores – a descida média das exigências escolares e universitárias, a implantação de uma epistemologia que desvaloriza o conceito de um saber objectivo – produziram ainda outro efeito de importância crucial: contribuíram para um alastramento do moralismo nos meios do ensino e, mais ainda, nos meios intelectuais, já que é mais fácil emitir um juízo moral sobre um determinado episódio histórico ou sobre um determinado fenómeno social do que compreendê-lo. Compreender pressupõe ao mesmo tempo informação e competência analítica. Emitir um juízo moral, pelo contrário, não pressupõe nenhuma competência especial. O reconhecimento da capacidade de compreender pressupõe uma concepção objectivista do conhecimento. O reconhecimento da capacidade de sentir, não. Acresce que, se um dado juízo moral vai ao encontro da sensibilidade de um certo público, ou cumpre os dogmas que cimentam uma determinada rede de influência, pode ser socialmente rentável.

 

A isto é preciso acrescentar, antecipando uma objecção possível, que o relativismo cognitivo – o relativismo em matéria de saber – não implica de maneira nenhuma o relativismo em matéria de moral. Pelo contrário, o relativismo cognitivo estimula a ética da convicção. Porque, como uma convicção não pode, à luz do relativismo cognitivo, ser objectivamente fundamentada, o facto de ser vivida como justa é facilmente encarado como único critério que permite validá-la. Este critério tende por isso a ser considerado necessário e suficiente. O episódio do Quebeque a que anteriormente me referi, em que um grupo de feministas propôs que fossem atenuadas as exigências do doutoramento a favor das mulheres, com o argumento de que o saber é sempre incerto enquanto as exigências morais são irrecusáveis, é um exemplo que atesta este efeito.

 

Assim se compreende que a desvalorização do saber possa ser acompanhada de uma sobrevalorização da moral ou, mais exactamente, de uma exacerbação das exigências em matéria de igualdade em detrimento de outros valores. É talvez este fenómeno que algumas expressões hoje repetidas à exaustão tentam captar: «o pensamento único», «o politicamente correcto», a political correctness.» 

 

Leitura complementar: "Por isso pouco importa que a obesidade do Estado central prejudique toda a gente"

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publicado às 12:51

Angariação de fundos para financiamento de doutoramento

por Samuel de Paiva Pires, em 05.08.13

Como escrevi recentemente, foi em Janeiro deste ano que aqui denunciei o comportamento daquela que é, provavelmente, uma das menos transparentes instituições públicas nacionais, a Fundação para a Ciência e Tecnologia, que financia Bolsas de Doutoramento Individuais, e que me prejudicou deliberadamente no concurso de 2012. Cheguei, inclusive, a expor a situação em sede de audiência parlamentar concedida pela Comissão de Educação, Ciência e Cultura da Assembleia da República. Na sequência desta, um grupo de deputados questionou a tutela sobre o funcionamento da FCT, especialmente no que concerne aos júris, cujos membros pouco ou nada variam entre os vários concursos anuais - o que acabou por se tornar um elemento central de uma gigantesca rede clientelar que, desde logo, permite colocar em causa a cientificidade de grande parte do que alegadamente passa por investigação científica em Portugal. Arrisco dizer que não haverá ninguém no meio académico português que não tenha conhecimento desta rede, de boa parte das pessoas que a compõem e de como ela controla a FCT e a distribuição de dinheiros públicos que é feita por esta. A resposta veio sob a forma de legalês e sem responder às perguntas que os deputados colocaram.

 

Entretanto, acabei por submeter o pedido de recurso da avaliação, consciente não só do enviesamento que resulta do que denunciei, como do facto de a avaliação de 2 valores atribuída ao meu projecto de trabalhos ser manifestamente inválida. O pedido de recurso foi composto, essencialmente, pela exposição que fiz na Assembleia da República, pelas cartas de 3 professores, com destaque para as cartas do Professor José Adelino Maltez e da minha orientadora na Universidade de Durham, e ainda pelo meu projecto reformulado tendo em vista as críticas tecidas na primeira avaliação, o que passou, portanto, pela reformulação dos objectivos e a inclusão da bibliografia completa. Em face deste pedido de recurso, que podem consultar aqui (apenas não se incluindo as referidas cartas de 3 professores), recebi a 15 de Julho a resposta da FCT, que não respondendo a nada do que expus, informa num e-mail tipo circular que a decisão se mantém, e quando acedo à avaliação no próprio site deparo-me com esta magnífica, brilhante e densa justificação: "Não há alteração à avaliação atribuída inicialmente, uma vez que o júri identificou claramente os aspetos a aperfeiçoar no projeto de investigação."

 

Em face disto, vendo-me financeiramente impossibilitado de completar o doutoramento na Universidade de Durham, tendo inclusivamente contratado um empréstimo bancário que, complementado pelas minhas poupanças, se destinou a financiar o período em que estive em Inglaterra e os meses em que, depois de regressar a Portugal, não tive qualquer fonte de rendimento, e apesar de estar actualmente a trabalhar, persisto e não desisto na prossecução do meu desejo de realização de um doutoramento na área da Ciência Política, já não no estrangeiro, mas em Portugal, e, infelizmente, não em dedicação exclusiva, nomeadamente na minha alma mater, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa, ou melhor, actualmente da nova Universidade de Lisboa, onde completei a Licenciatura em Relações Internacionais com 16 valores, com um relatório de estágio/tese sobre O lugar do Brasil na política externa portuguesa, e o Mestrado em Ciência Política com 17 valores, com uma dissertação sobre o pensamento de Friedrich Hayek.

 

Foi, aliás, no decorrer da elaboração da dissertação de mestrado que me surgiu a ideia do projecto de doutoramento, onde pretendo abordar os conceitos de tradição e ordem espontânea à luz do pensamento liberal, contrastando-o com outras correntes de pensamento, especialmente o conservadorismo, o comunitarismo e o relativismo, de forma a procurar inquirir se a noção de tradição utilizada pelo liberalismo clássico possui os recursos para ultrapassar as falhas morais do pensamento político moderno e pós-moderno, ou seja, para resgatar o liberalismo das suas formas mais racionalistas e abstractas, e, se sim, contribuir para a formulação de uma teoria política baseada na racionalidade do tradicionalismo, que possa servir de ponto de partida para ultrapassar aquelas falhas.

 

Acontece que, neste momento, é-me muito difícil, para não dizer impossível, suportar as propinas, no valor total de 6 mil euros, ainda que distribuídos pelos 3 anos, tendo ainda que adquirir uma parte substancial da bibliografia a que tinha fácil acesso na biblioteca da Universidade de Durham, mas que por cá é mais difícil de aceder sem adquirir.

 

Por isto mesmo decidi lançar-me no crowdfunding, apelando à sociedade civil no sentido de angariar o montante necessário para liquidar as propinas. Ao expor-me publicamente desta forma, procuro continuar também a alertar para o nefasto funcionamento da FCT e para a necessidade de que esta seja completamente reformulada, e ainda para a mais que premente escassez de fontes de financiamento de bolsas de doutoramento, especialmente por parte da sociedade civil e do sector privado, que possam minorar o monopólio viciado exercido pela FCT e a rede clientelar que a domina, que tantos tem prejudicado deliberadamente. Além dos certificados de licenciatura e mestrado, respectivas dissertações e o projecto cujas hiperligações se encontram nos parágrafos anteriores, deixo ainda à consideração o meu CV, bem como os vários trabalhos, artigos e ensaios que realizei nos últimos anos.

 

A quem queira e possa colaborar neste projecto, deixo o NIB de uma conta, no Banco Santander, de que sou titular e que servirá apenas o propósito aqui referido, cujo NIB é 001800032836899102063, e peço ainda encarecidamente que ajudem a divulgar este texto. Muito agradeço que me contactem para o e-mail samuelppires@gmail.com, desde já garantindo que figurarão nos agradecimentos da dissertação os nomes de quem me auxiliar e contactar, a não ser que tenham algo a obstar a tal, e que terão total acesso ao extracto bancário e aos recibos que comprovem a correcta aplicação dos fundos. Muito obrigado.

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publicado às 08:28

Ratzinger, a polemização necessária

por João Pinto Bastos, em 03.01.13

Não tenho por norma dissentir das postas dos meus ilustres confrades, aliás, concordo geralmente com tudo o que os escribas deste blog escrevem. Contudo, e como há sempre uma primeira vez para tudo, desta feita sou obrigado a discordar em parte do longo comentário da Regina da Cruz a propósito da Mensagem de Ano Novo, de Sua Santidade Bento XVI. Subscrevo a opinião da Regina no tocante ao erro que Bento XVI cometeu ao afirmar que o "capitalismo desregulado" é o grande responsável pela crise económica e financeira do último lustro. Erro esse, justificado pela observância imprescritível da doutrina social da igreja que não é propriamente um receituário ou uma súmula de prescrições liberais. Como podem depreender do que venho escrevendo neste blog e noutros fóruns não considero o capitalismo como o grande responsável pela crise. Sou, à semelhança da Regina, um apreciador inveterado das virtudes do capitalismo. Gosto do frémito da liberdade induzido pela criatividade que só um regime de mercado e livre concorrência consegue gerar. Liberdade e criatividade devidamente temperadas pela ética, como muito bem sublinhou a Regina. O busílis do argumento desfiado pela caríssima colega prende-se não com a apologia do capitalismo, que acompanho e suporto, mas sim com o breve libelo contra o Papa e a Igreja. A Igreja, não obstante os erros, desvios e imperfeições que qualquer instituição naturalmente possui - e, aqui, mais uma vez sigo a opinião da Regina - é uma das derradeiras formas de vida inteligente que existem neste mundo pós-moderninho. Mais, se há alguém que tem apelado à renovação espiritual do homem, esse alguém tem sido Bento XVI. Com os vitupérios do costume provindos dos artesãos do politicamente correcto. Portanto, quando a Regina fala em reabilitação dos valores humanos fundamentais deveria olhar, em primeiríssimo lugar, para a Igreja, por uma razão bastante singela: em tudo o que diga respeito à vida humana, a Igreja está e estará sempre na primeira linha de defesa do justo e do direito. Ontem, hoje e amanhã. A raiz do catolicismo bebe, justamente, nesta predisposição para a dádiva.

 

A Igreja não tem uma história impoluta? É um facto indesmentível. A Igreja deixou em vários momentos de viver a palavra de Cristo? Sim, é verdade. A Igreja favoreceu, em muitas circunstâncias, os grandes deste mundo? Infelizmente, sim. Tudo isso é verdade, porém, o que atrás foi dito não ajuda, de todo, a explicar o porquê de, ainda hoje, muitas pessoas devotarem à autoridade papal um respeito invejável. A relevância da Igreja mostra-se no dia-a-dia, nos magistérios da palavra e da acção, com o Homem como pano de fundo. As "palavras vazias" e os "rituais anacrónicos" são a razão de ser da Igreja. Sem eles nada faria sentido. Com eles a comunidade de fiéis alarga e fortalece os seus horizontes. O Governo da Igreja, tão criticado por alguns, é a prova de que a conjugação entre autoridade e liberdade é uma possibilidade bem real, testada ao longo de dois mil anos. Não são muitas, se não mesmo nenhumas, as formas políticas que podem gabar-se de combinar hierarquia com autonomia, justapondo autoridade pessoal com descentralização. O Governo da Igreja, considerado amiúde como uma antigualha bárbara, é um resguardo imprescindível em tempos de niilismo político e cultural. Bento XVI soube interpretar, como poucos, a impessoalidade do mundo contemporâneo, chamando a atenção para o relativismo que acomete todos os recantos da vida social. Impessoalidade que não brota apenas da falta de ética que perpassa os mecanismos económicos. A origem desta maleita é bem mais funda, grave e periculosa. É por isso que, por mais que eu possa discordar desta ou daquela afirmação do Santo Padre, nada me levará a dizer que a Igreja pouco ou nada faz pelo bem-estar espiritual do Homem. Faz e muito, sobretudo junto dos que mais precisam, assim como, dos que anelam por um futuro melhor. Talvez o tom seja demasiado apologético, mas a verdade é que nunca como hoje a Igreja foi tão necessária. O filisteísmo relativista só será combatido com autoridade e auctoritas. Bento XVI encarna na perfeição estes dois predicados.

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publicado às 01:22

De partida para Inglaterra

por Samuel de Paiva Pires, em 21.09.12

 

Depois de alguns anos a almejar este objectivo, iniciarei dentro de poucos dias o doutoramento em Politics, na Universidade de Durham, Inglaterra, dedicado à temática “The spontaneous order and the role of tradition in classical liberalism in face of modern rationalism and post-modern relativism”. Sentindo-me, neste momento, a fechar um capítulo de vida e a abrir outro, sou compelido, pelas exigências académicas, a um certo isolamento de que cada vez mais careço para poder melhor reflectir. Ademais, muitas leituras há a fazer para colmatar a minha ignorância em várias matérias, embora tenha noção que acabarei por a aprofundar. Continuarei a andar por aqui e pelo Facebook, mas deixarei de ter a mesma disponibilidade mental e temporal para a blogosfera e para o comentário político à espuma dos dias. A busca pelo conhecimento e a dedicação às verdades eternas assim o exigem.  

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publicado às 11:26

Samuel, a premissa central do teu texto - que percebo a ser a antecedência do homem face a Deus -, da qual resulta a noção de que Deus é uma criação humana, bem como o deísmo antropomórfico que caracterizas, parece-me padecer de um problema de base, brilhantemente sumariado em Being John Malkovich. Se nós vemos o mundo pelos olhos de Malkovich, o corpo de Malkovich age de acordo com o que cada um de nós quer experimentar. A realidade de "ser John Malkovich" torna-se assim no paradoxo do relativismo absoluto: John Malkovich passa a ver e agir como cada um de nós quer.

Serve a metáfora para dizer que tudo pode ser entendido como uma construção humana, se entenderes que por ser visto pelos teus olhos, humanos, passa a ser uma realidade construída por ti. Naturalmente que foi o homem quem escreveu sobre Deus, porque a escrita é um exercício humano. Faz isso de Deus uma criação humana? Da mesma forma faria de cada mesa uma mesa diferente, consoante quem passasse pelo interior da mente de John Malkovich, e olhasse para a dita mesa. A falácia "post hoc ergo propter hoc" enviesa o conhecimento: não é por a reflexão humana sobre Deus, e a escrita do homem sobre Deus, anteceder uma epifania que admitas como válida, que essa epifania passaria a ser uma construção tua. Ou todo o conhecimento se tornaria relativo, e, como tal, nulo. O que não é o caso! 

No domínio da geometria euclidiana, o Teorema de Pitágoras é uma verdade à espera de ser descoberta, que não muda por ter sido Pitágoras a descobri-la. Fosse outro qualquer, mudasse o nome ao teorema, ele continuaria a conter uma relação indesmentível entre os comprimentos dos lados de um triângulo rectângulo, inscrito num plano.

O Teorema de Pitágoras foi verbalizado por homens. Tornar-se-ia diferente a cada um que passasse pelos olhos de John Malkovich? Não me parece, e por isso não me parece também que toda a verdade seja humana como afirmas. A Matemática é uma colecção de verdades que existem e da qual nos é dado vislumbrar pedaços da sua beleza de tempos a tempos. As verdades ainda não descobertas não são verdades inexistentes. E as existentes são idênticas para qualquer olhar que sobre elas se debruce. Mesmo o último teorema de Fermat sobreviveu séculos, apesar de não demonstrado até recentemente.

 

Se a Verdade existe então, para além do humano, o Absoluto tem também de existir. Porque a Verdade é absoluta. A nossa missão muda radicalmente. Tentamos apreender a verdade, como dizia Newton, trabalhando como anões nas costas de gigantes. Santo Agostinho separava de forma clara a matéria criada da que não o foi. Deus cria. Não é ele próprio matéria criada, e por isso antecede a matéria criada. A concepção humana de Deus pode-lhe ter conferido, em muitos cultos, rostos humanizados. Da mesma forma que estilizamos as representações de extra-terrestres a partir do nosso universo de conhecimento morfológico. Mas o Cristianismo, no que me parece ser um ponto que ilude a tua reflexão, não o faz. Jesus Cristo não é a humanização de Deus, nem a representação de Cristo pretende ser a representação de Deus. Cristo é Deus que veio ao mundo como Homem. E para interagir com os homens. Por isso, numa forma reconhecível pelos homens. Nenhum Homem, diz-nos Jesus, alguma vez viu Deus, na sua vida terrena. Quando muito, alguns tiveram a Fé para reconhecer Deus no homem Jesus Cristo.

Vale a pena recordar o episódio da sarça ardente, em que Moisés interage com Deus na montanha. Pede-lhe para o ver, para o poder apresentar ao povo que tirara do Egipto. E Deus permite-lhe apenas ver a sombra de umas costas numa pedra. Santo Agostinho, em Da Trinidade, conclui que essa sombra é a sombra das costas de Jesus, pois será essa a forma humana que Deus tomará quando vem ao nosso encontro no Novo Testamento.

Não podemos, por isso, confundir antropomorfismo deísta com Cristianismo. É assumido no Cristianismo que não conhecemos o rosto de Deus, nem sabemos se o tem. Foi-nos dado, pelo Seu Amor, conhecer a Cristo, Deus que veio a nós na forma humana. Mas que não consiste na forma (se o conceito se aplica?) do próprio Deus, pois Ele não é matéria criada, nem se situa neste plano de morfologias reconhecíveis. O Deus dos Cristãos é a Trindade Santíssima: uma união perfeita de três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) que são uma só, pois cada uma está em todas as outras e são consubstanciais. O Deus é uno e trino. Consubstancial porque todo é Amor. Só se distinguem nas relações recíprocas, mas todos um mesmo Deus.

Convirás, Samuel, que há pouco de antropomórfico, na percepção de um Deus uno e trino, pois essa é uma realidade desconhecida e mesmo misteriosa no nosso plano vivencial....

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publicado às 18:31

Afinal já consegui perceber o problema

por Samuel de Paiva Pires, em 11.04.12

O problema, para a Leonor Barros, a Ana Vidigal  e outros é, afinal, o facto de José António Saraiva ser capaz de utilizar os seus olhos e o seu cérebro para operar duas acções humanas: observar e classificar. Passam ao lado do argumento central e que realmente importa no texto de JAS. Se o problema é a classificação derivada da observação e descrição, deixem-me então contar-lhes uma observação que me fizeram no início da primeira noite que fui a um bar gay. Dois gays olharam-me de alto a baixo, viraram-se para mim e afirmaram categoricamente: "Você é hetero, não é gay." Sorri e pronto. Qual é o problema? Todos os dias passo algum tempo no Chiado e, sentando-me numa qualquer esplanada ou nos Armazéns a jantar, consigo dizer quem é gay com um alto grau de probabilidade de acertar. E quem disser que o não consegue, ou está a mentir ou deve andar de olhos fechados e sem utilizar o cérebro. Todos classificamos os outros, mesmo que o façamos inconscientemente e sem o exteriorizar. Aliás, se há pessoas que refinam apuradamente esta capacidade são precisamente os gays. Não há mal nenhum nisso, é uma característica humana e que nos distingue dos animais.

 

Entretanto, recomenda-se especialmente aos que andam sempre com a tolerância na ponta da língua que leiam um artigo que José António Saraiva escreveu há uns meses e que é mais do que apropriado: Uma polícia do pensamento?

 

Adenda: Quando escrevi "é uma característica humana e que nos distingue dos animais", estava a pensar em classificação em termos do que comummente se chama tribos urbanas, mesmo pertencendo às mesmas espécie e comunidade. Alertado pelo Filipe Faria, rectifico salientando que a capacidade para definir grupos instintivamente está também presente nos animais.

 

Leitura complementar: O falhanço mental da brigada do politicamente correcto ou ainda o artigo de José António Saraiva sobre a homossexualidade contestatária; A homossexualidade como revolta contra o niilismo modernoEu, retrógrado, curvo-me perante os adiantados mentaisTodas as diferenças de opinião são também epistemológicas e metodológicas

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publicado às 14:00

A homossexualidade falsa vista por quem trabalha com ela

por Samuel de Paiva Pires, em 11.04.12

Na caixa de comentários, Abel Matos Santos:

 

«Como profissional de saúde que trabalha, também, com adolescentes, posso afirmar categoricamente que assistimos a um fenómeno absolutamente assustador, onde muitos adolescentes e jovens adultos que não são homossexuais se envolvem em práticas homossexuais pela pressão dos pares, por estar na moda e pela pressão social, tendo muitos desenvolvido problemas emocionais graves que os leva, entre outras coisas, a automutilações, depressões e suícidio. JAS tem toda a razão no seu artigo! Venham as ILGAS e os arautos dos homossexuais contestar, mas a realidade impoe-se sempre a ideologia.»

 

Leitura complementar: O falhanço mental da brigada do politicamente correcto ou ainda o artigo de José António Saraiva sobre a homossexualidade contestatáriaA homossexualidade como revolta contra o niilismo modernoEu, retrógrado, curvo-me perante os adiantados mentaisTodas as diferenças de opinião são também epistemológicas e metodológicas

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publicado às 00:55

(imagem daqui)

 

1 - A esmagadora maioria das reacções ao artigo de José António Saraiva são bem reveladoras do maniqueísmo que grassa em muitas mentes, incapazes de ver o mundo em tons de cinzento – que é como ele realmente é –, concentrando-se no acessório (a descrição que JAS faz do rapaz que encontrou no elevador) para ofender aqueles que não apreciam e deixando o essencial de lado, talvez porque tenham consciência que as suas reacções manifestamente exageradas escondem aquilo que lá no fundo sabem ou que pelo menos vislumbram como até podendo ser verdadeiro mas com que não querem confrontar-se por poder colocar em causa os dogmas em que acreditam: que, na verdade, JAS tem razão quando diz que há muitos homossexuais que não são realmente homossexuais mas sim mentes fracas que em face do niilismo moderno encontram na orientação sexual uma forma de afirmação e/ou revolta, sendo, acrescento eu, produtos da ideologia de género que faz crer que a orientação sexual pode ser uma escolha consciente e racional, o que é falso.

 

2 – Note-se que não se trata de uma contestação geracional num sentido colectivista, isto é, organizado e com propósitos bem definidos (como o foram as lutas estudantis que JAS refere) mas, num contexto de isolamento individual e alienação, sendo a sexualidade uma vertente da afirmação da personalidade, pode funcionar este processo quase espontaneamente como forma de revolta não se sabe bem contra o quê, em virtude do niilismo, do vazio de significado e propósito, acabando alguns indivíduos por se reconhecer nesse tipo de comportamento, tornando-o uma moda e atraindo mais indivíduos para esse estilo de vida. Conheço alguns casos que me parecem estar perfeitamente enquadrados nisto, daí dizer que o ponto central do artigo merece ser explorado. É interessante do ponto de vista sociológico, porque acaba por ser um fenómeno que vem a ter alguma visibilidade (no Chiado é mais do que evidente) e também do ponto de vista da psique, podendo servir para percebermos melhor os tempos em que vivemos. É primeiramente uma revolta individual, e só depois pode ou não ter efeitos nas esferas sociais e/ou política. Quando o que vários indivíduos fazem se torna uma tendência crescente e facilmente observável na sociedade, e se eu ao observá-la conseguir perceber qual o substrato filosófico que lhes dá sustentação prática (e este é o do neo-marxismo) e se eu conseguir provar que esse substrato está errado, como eu consigo com o neo-marxismo, então eu tenho o dever de o dizer/escrever, se quiser intervir criticamente na sociedade onde vivo.

 

3 – Tomando como dado adquirido que a orientação sexual é genética, isto não equivale a dizer que seja uma doença. A nossa personalidade, da qual faz parte a orientação sexual, é fruto da combinação de factores genéticos/biológicos, que nos são transmitidos pelos pais, e de factores sociais/ambientais. O que acho é que há uma transmissão genética, e há vários estudos que apontam nesse sentido, um dos quais bastante recente (2008), sendo este um debate já bem velhinho. Não estou a fazer nenhum juízo de valor ou a criticar. Pelo contrário, estou a dizer que é natural e que não é uma doença, uma fase ou uma escolha. Por outro lado, a ideologia de género é que inventou as muy politicamente correctas possibilidades de escolha do género e orientação sexual, que acabam, essas sim, muitas vezes por originar perturbações mentais. Não há contra-senso porque, tal como JAS, o que digo é que há gays que o são realmente, e depois há estes que acham que são e/ou que podem estar tão confundidos que nem sabem o que são (a ideologia de género faz muito por isso). Talvez um dia a ciência nos auxilie sobre isto. Mas por ora, tudo isto serve também para ilustrar que, sem fazer juízos de valor sobre o que é uma verdadeira orientação sexual, mas sim sobre processos sociais e individuais que advêm de teorias falsas que se desenvolvem e propagam num contexto niilista e relativista, é saudável sairmos dos redis do politicamente correcto e questionarmos aquilo sobre o que nem a ciência ainda nos deu respostas conclusivas.

 

4 - A incapacidade de muitos indivíduos para questionar as ideias pré-concebidas, politicamente correctas, que professam como um credo (provavelmente sem saber de onde provêm), e de discutir civilizadamente um qualquer tema, por mais delicado que seja, como este é, é claramente mais um sintoma do falhanço moral e educacional da sociedade portuguesa. Sem uma formação sólida nas humanidades e que fuja aos cânones do neo-marxismo, não admira que muita gente seja incapaz de perceber que generalizações são explicações de princípio, gerais, com um certo grau de verificação, mas com excepções que evidentemente servem para as confirmar como tendências.  É por isso que as estatísticas nunca são reais. Só a irregularidade da realidade é real, como escreveu Jung. E esta diz respeito a cada indivíduo, um ser único e irrepetível, pelo que ninguém obviamente diz que "todos os homossexuais são-no porque escolhem ser" ou "todos os homossexuais são-no porque querem revoltar-se contra os pais ou a sociedade" ou "todos os homossexuais são-no porque está na moda". Quando perceberem que aquilo que qualquer pensador social ou intelectual público minimamente credível faz é colocar hipóteses sobre comportamentos individuais, e que não sendo o mundo a preto e branco, podem verificar-se até em combinações várias, mas não deixam de ser hipóteses e especulações úteis para tentar entender a sociedade em que vivemos, mesmo com as excepções que confirmam a regra, talvez nessa altura o debate público em Portugal possa ser menos acrimonioso.  

 

5 – Como muitos recusam o que decorre dos pontos anteriores, enveredam pelo campo mais fácil, o do insulto, apelidando José António Saraiva ou quem com ele concorde de homofóbicos, como já hoje fizeram comigo, quando não partem para outros mimos. Claro que o facto de lidar com diversos gays ou ir a bares gays sem qualquer problema não deve obstar à minha homofobia. Deve ser um tipo especial de homofobia. Mas daquela que muitos gays têm, ao saberem perfeitamente que aquilo que aqui escrevi corresponde em grande medida à realidade que facilmente observamos em Lisboa. Para finalizar, praticamente só vi virgens ofendidas e histéricas que partiram logo para o insulto. Tentar analisar o que já por várias vezes salientei como um válido ponto central e debater civilizadamente é coisa que não assiste às mentes cheias de certezas absolutas. Entretanto, se começassem por ler isto e isto, podia ser que aprendessem qualquer coisa e conseguissem ir um bocadinho além do “que texto nojento”, “este gajo é um nojo”, “este gajo é homofóbico”, “este gajo anda a galar meninos de 17 anos” e outros mimos muito sofisticados.

 

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publicado às 22:23

Eu, retrógrado, curvo-me perante os adiantados mentais

por Samuel de Paiva Pires, em 10.04.12

Em reacção ao meu pequeno post de ontem, João Quadros, no Twitter, referiu-se a este dizendo que "há blogs no século XVIII!!!". Não sei bem se era um insulto ou um elogio, pois poucos séculos existiram tão ricos em desenvolvimentos intelectuais, políticos e sociais como o XVIII. Entretanto, o camarada Francisco Silva, que alinha pelo mesmo diapasão que o escriba anterior, produziu um texto onde pouco mais faz que insultar José António Saraiva, sem nada acrescentar à discussão do ponto central do artigo, que, como escrevi aqui, parece-me digno de ser explorado e debatido. Mas, para que os adiantados mentais dos nossos tempos se dêem ao trabalho de o fazer sem começarem num pranto, quais progressistas virgens ofendidas, têm que tentar sair dos redis do politicamente correcto. Cá os espero, se quiserem dar-se ao trabalho. Podem começar, por exemplo, por estes dois artigos da Slate e os estudos a que se referem. Sintam-se bem-vindos ao século XXI.

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publicado às 10:10

A homossexualidade como revolta contra o niilismo moderno

por Samuel de Paiva Pires, em 10.04.12

Não costumo apreciar José António Saraiva, mas daquilo que me é dado observar do que me rodeia, acho que o ponto central do artigo merece ser explorado. Creio, como o autor, que a orientação homossexual é genética. Mas que se vê muita gente a enveredar por aí como se fosse uma escolha (a ideologia de género e a Escola de Frankfurt ajudam a perceber porque muita gente pensa que pode fazer essa escolha), e como forma de constestação/revolta, também me parece verdade. Que isso tenha efeitos nefastos na psique individual é apenas natural, e o caso Renato Seabra é só um exemplo do que pode acontecer ao tentarmos alterar a nossa natureza.

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publicado às 00:20

Da pseudo-tolerância do relativismo pós-moderno

por Samuel de Paiva Pires, em 26.03.12

Circula por aí esta foto com uma mensagem pseudo-tolerante, bem ilustrativa do relativismo pós-moderno. Em primeiro lugar, classificar os outros é uma capacidade saudável, e todos a devemos exercer, para que não percamos algo que nos torna distintamente humanos: a diversidade. Em segundo, experimentem apresentar-se como orgulhosos cristãos/judeus/agnósticos/ateus, heterossexuais e brancos a certos indivíduos das categorias opostas e/ou aos que disfarçam a sua intolerância criando e divulgando este tipo de mensagens pseudo-tolerantes. Depois contem-me como correu.

 

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publicado às 22:22

Do medo na Modernidade

por Samuel de Paiva Pires, em 22.09.10

O relativismo moral e cultural da Modernidade inculcou nas mentes ocidentais o medo da crítica. Evita-se o confronto pois não há estofo para aguentar o conflito. Faltam líderes no Ocidente. E os grandes líderes, dos quais reza a História, nunca foram medricas. "A coragem é a primeira qualidade humana, pois garante todas as outras", já ensinava Aristóteles.

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publicado às 19:15

Qual é o mal de se ser conservador?

por Samuel de Paiva Pires, em 10.12.08

De há uns tempos para cá, como se não chegassem os epítetos que muitos me têm atribuído, tenho vindo a ser apelidado de conservador por quem lhe tenta dar um sentido pejorativo. Eu que abertamente me declaro como tal, ainda não consegui perceber, mas ser conservador é uma coisa negativa? E eu não posso ser um liberal-conservador, como ainda há tempos me classificava neste post? E o que é afinal o conservadorismo? E o liberalismo?

 

Eu sei que sou politicamente esquizofrénico, e adoro confundir as pessoas afirmando defender ideias aparentemente opostas, assim colocadas através de dialécticas criadas de forma quase inconsciente, quando os conceitos se desprendem da teoria e ganham vida e aplicação na realidade e consequentemente corpo histórico. Mas eu detesto rótulos padronizados. Pior, em certa parte sou bastante adepto do relativismo e de colocar em causa todos os dogmas e conceitos. Muitas das conclusões a que chego não lhes atribuo qualquer conotação positiva ou negativa de acordo com qualquer ética ou moral como a maior parte dos indivíduos parece fazer, pelo menos os políticos e os aspirantes a tal. São conclusões, conceitos, posições teóricas ou ideológicas, e não têm necessariamente que ser politicamente correctas ou obedecer à norma. Tento, isso sim, alcançar uma neutralidade e sentido crítico, de análise e de abordagem, tanto quanto possível. E por isso às vezes sinto que tenho que explicar muita coisa que é para mim evidente e que frequentemente colide com o que é aceite pela norma. E isso agasta-me.

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