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Diz que o islão é uma religião de paz

por Samuel de Paiva Pires, em 15.02.17

O Papa Francisco afirmou há dias que o Corão é um livro de paz e que o islão não é uma religião violenta. Entretanto, na Indonésia, o cristão governador de Jakarta que vai hoje a eleições enfrenta a fúria dos que querem vê-lo condenado em tribunal por blasfémia, ou seja, por alegadamente ter insultado o islão, apesar de 88% dos indonésios admitirem que não sabem ao certo o que Basuki Purnama Tjahaja terá dito.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 09:37

cass sunstein - the world according to star wars.j

Cass R. Sunstein, The World According to Star Wars:

 

But the Force is not merely about human psychology, behavioral biases, or even magic. It is far murkier and more mysterious than that. Above all, it involves a “leap of faith”. Qui-Gon insisted that “[t]he ways of the Living Force are beyond our understanding.”

 

Undoubtedly so, but the ways of George Lucas are pretty transparent, at least here. He was and remains intensely interested in religions, and he sought to convey something spiritual. When he was just eight years old, he asked his mother, “If there is only one God, why are there so many religions?” He’s been fascinated by that question ever since. In writing Star Wars, he said, “I wanted a concept of religion based on the premise that there is a God and there is good and evil… I believe in God and I believe in right and wrong.”

 

Stars Wars self-consciously borrows from a variety of religious traditions. Lucas thinks that in an important sense, all of them are essentially the same. He is clear about that, insisting that in doing that borrowing, he “is telling an old myth in a new way.” We have seen that he was immensely influenced by Joseph Campbell, his “last mentor,” who claimed that many myths, and many religions, were rooted in a single narrative, a product of the human unconscious. Campbell can be taken to have given a kind of answer to eight-year Lucas: there is one God, and all religions worship Him. Campbell argued that apparently disparate myths drew from, or were, the “monomyth,” which has identifiable features.

 

In brief: A hero is called to some kind of adventure. (Perhaps by circumstances, perhaps by someone in distress.) Initially he declines the call, pointing to his fears, his habits, and what he can’t do. But eventually, he feels compelled to accept the call and leaves his home. Encountering serious danger, he needs, and obtains, supernatural aid, often from a small, old, or wizened man or woman. (Think Obi-Wan or Yoda.) He is initiated through various trials, some of them life-threatening, but he manages to survive. Then he faces some kind of evil temptation, perhaps from a satanic figure, whom he resists (with severe difficulty). At that stage he has a reconciliation with his father – and becomes godlike, a religious figure (the apotheosis). Defeating the most dangerous enemies, he returns home to general acclaim.

 

That is, of course, a summary of many myths and many religious traditions; it also captures countless books, television shows, and movies in popular culture. (The Matrix, Batman, Spider-Man, Jessica Jones, and Harry Potter are just five examples; many comic books, and the movies based on them, have a similar plot.) In a nutshell, it’s Luke’s journey in the first trilogy. In Lucas’s words, “When I did Star Wars, I self-consciously set about to recreate myths and the classic mythological motifs.” The Hero’s Journey also captures much of Anakin’s in the prequels – with the terrific twist that Anakin becomes a monster, not a savior. But as it turns out, he’s the ultimate savior, the Chosen One who restores balance to the Force, and so his journey nicely fits the standard pattern if the six episodes are taken as a whole. Seeing the first trilogy for the first time, Campbell was inspired: “You know, I thought real art stopped with Picasso, Joyce and Mann. Now I know it hasn’t.”

 

As Lucas put it, “With Star Wars, it was the religion – everything was so taken and put into a form that was easy for everybody to accept so it didn’t fall into a contemporary mode where you could argue about it. It went everywhere in the world.” The enduring triumph of Star Wars is that it takes a familiar tale, built into disparate cultures and psyches, sets it in a wholly unfamiliar setting, makes it effervescent and fresh, and gives it a series of emotionally daring twists, thus allowing a series of kids’ movies to touch the human heart. Our modern myth is both a spiritual quest and a psychodrama, insisting that redemption is always possible, that anyone can be forgiven, and that freedom is never an illusion.

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publicado às 01:20

Na comunidade muçulmana, a Guerra Santa é um dever religioso, devido ao universalismo da missão islâmica e à obrigação de converter todos ao Islão, pela persuasão ou pela força. Os outros grupos religiosos não têm missão universal e a Guerra Santa não é, para eles, um dever religioso, a não ser para fins defensivos.

Ibn Kaldhun

 

A cultura europeia é intrinsecamente materialista e já só conserva o Cristianismo como uma relíquia de família. […] É nosso dever estabelecer a soberania em todo o mundo e converter a humanidade aos sábios preceitos do Islão e seus ensinamentos, sem os quais o homem não pode aspirar à felicidade. 

Hassan al-Banna, fundador da Irmandade Muçulmana 

 

Em Agosto de 2008, uma provocação por parte do então presidente georgiano Mikhail Saakashvili viria a precipitar a invasão da Geórgia ordenada por Vladimir Putin e Dmitry Medvedev. O Ocidente assistiu impávido e paralisado a esta invasão, em especial porque Putin utilizou a retórica de defesa dos valores ocidentais para a justificar, argumentando que a sua acção se destinava a proteger os direitos humanos dos cidadãos russos residentes nos territórios da Abkhazia e da Ossétia do Sul. 

 

Em Agosto de 2016, após a proibição de utilização do burkini em alguns municípios franceses, o Conselho de Estado francês suspendeu esta proibição em resposta a um requerimento apresentado pela Liga dos Direitos Humanos e pelo Colectivo Contra a Islamofobia em França.

 

O que estes dois exemplos têm em comum é o facto de serem sintomáticos de uma certa perplexidade do Ocidente perante terceiros que utilizam uma retórica característica dos regimes políticos demo-liberais, em que os valores da liberdade, igualdade, tolerância e direitos humanos são traves-mestras, para impor valores contrários a estes. Pior do que esta perplexidade que paralisa ou torna as instituições ocidentais reféns de valores que lhes são estranhos, só a colaboração de muitos ocidentais nestas investidas. 

 

Com efeito, muitos activistas defensores dos direitos humanos, dos direitos das mulheres e dos direitos das pessoas LGBT, bem como aqueles que, em resultado do domínio do discurso político pelo liberalismo e o neo-marxismo que promovem as ideias de universalismo, multiculturalismo e cosmopolitismo, desprezam ou odeiam as noções de pátria, nação e Estado-nação e a sua própria identidade e herança cultural judaico-cristã, são assaz sensíveis e defensores do acolhimento do Outro, em especial dos muçulmanos, ignorando deliberadamente que estes defendem crenças que estão no extremo oposto das suas. Não é propriamente novidade para ninguém que o islão despreza os direitos humanos, submete as mulheres ao jugo e caprichos dos homens e trata-as de formas inadmissíveis e impensáveis no Ocidente e advoga a morte dos homossexuais, dos infiéis e dos apóstatas. Ainda assim, mesmo em face destas evidências, há sempre quem continue refém do relativismo cultural e do multiculturalismo, não hesitando em pedir que se tenha ainda mais tolerância e respeito por aqueles que nos querem subjugar e aniquilar, aparentando sofrer da Síndrome de Estocolmo, como acontece com Pedro Vaz Patto, que passo a citar (negrito meu):

Não pode conceber-se a integração nas sociedades europeias de imigrantes de outras proveniências culturais como um processo forçado, ou como uma forma de aculturação unilateral. Não pode exigir-se dos muçulmanos que deixem de o ser para se integrarem nas sociedades europeias. O preço dessa integração não pode ser a renúncia à sua identidade. O que se lhe deve exigir é que respeitem outras culturas e identidades, como pretendem que as suas sejam respeitadas. Trata-se de um processo bilateral de diálogo intercultural e de enriquecimento recíproco. Se assim não for, a integração estará condenada ao fracasso. Se prevalecer a ideia de que a integração dos muçulmanos nas sociedades europeias implica alguma forma de renúncia à sua identidade, maior será, neles, a tendência para recusar essa integração, para o ódio ao Ocidente, para o isolamento e para a radicalização.

 

A frase que assinalei a negrito é sintomática de um certo estado mental de quem não conhece ou prefere ignorar deliberadamente o carácter absoluto, totalitário e universalista do islão, que não só não respeita outras culturas como pretende subjugá-las ou aniquilá-las. Enquanto em muitos países muçulmanos os Ocidentais têm obrigatoriamente de se adaptar ao modo de vida e costumes locais - sob pena de poderem cair nas malhas da justiça islâmica -, os muçulmanos em países ocidentais pretendem impor nestes os seus costumes, a sua cultura, a sua religião e as suas leis e têm vindo paulatinamente a consegui-lo. A tolerância é apenas praticada pelos ocidentais, não havendo reciprocidade de tratamento.  

 

Creio ser acertado afirmar que há um desconhecimento, ou uma ignorância deliberada, em relação ao paradoxo da tolerância e ao que Karl Popper escreveu a respeito deste numa das odes contemporâneas ao demo-liberalismo, a sua obra A Sociedade Aberta e os seus Inimigos (tradução e negritos meus): 

 

karl-popper.jpeg

Menos conhecido é o paradoxo da tolerância: A tolerância ilimitada tem de levar ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo àqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles. — Nesta formulação, não quero dizer que, por exemplo, devamos sempre suprimir a expressão de filosofias intolerantes; enquanto as possamos contrariar por argumentos racionais e mantê-las sob controlo pela opinião pública, a supressão será certamente insensata. Mas devemos reivindicar o direito de as suprimir, se necessário até pela força; pois pode facilmente dar-se o caso de elas não estarem preparadas para discutir racionalmente connosco, começando por denunciar todos os argumentos; elas podem proibir os seus seguidores de ouvir argumentos racionais, porque são enganadores, e ensiná-los a responder aos argumentos utilizando os seus punhos ou pistolas. Devemos, portanto, reinvindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante. Devemos afirmar que qualquer movimento que pregue a intolerância se coloca à margem da lei, e devemos considerar o incitamento à intolerância e à perseguição como crime, da mesma forma que devemos considerar como crime o incitamento ao homicídio, ou ao sequestro, ou ao regresso do comércio de escravos.[1]

 

Isto devia ser algo sedimentado nas mentes de muitos ocidentais, mas infelizmente não o é e muitas instituições não se apercebem da armadilha em que caem ao defender a tolerância para com algumas práticas culturais de muçulmanos que vivem no Ocidente, em que, muitas vezes, acabam por defender práticas que se caracterizam pela intolerância e que são contrárias aos valores ocidentais. Esta armadilha é um sinal preocupante de desorientação por parte de muitas instituições. 

 

Perante isto, é particularmente oportuno salientar algumas considerações que Mario Vargas Llosa teceu aquando da proibição do véu islâmico nas escolas públicas francesas (negritos meus):

A imigração, por isso, em vez do íncubo que habita os pesadelos de tantos europeus, deve ser entendida como uma injecção de energia e de força laboral e criativa a que os países ocidentais devem abrir as suas portas de par em par e trabalhar pela integração do imigrante. Mas sem que por isso a mais admirável conquista dos países europeus, que é a cultura democrática, se veja beliscada, mas que, pelo contrário, se renove e enriqueça com a adoção desses novos cidadãos. É óbvio que são estes quem têm de se adaptar às instituições da liberdade e não estas renunciar a si mesmas para se acomodarem a práticas ou tradições incompatíveis com elas. Nisto não pode nem deve haver concessão alguma, em nome das falácias de um comunitarismo ou multiculturalismo pessimamente entendidos. Todas as culturas, crenças e costumes devem ter cabimento numa sociedade aberta, sempre e quando não entrarem em colisão frontal com os direitos humanos e princípios de tolerância e liberdade que constituem a essência da democracia. Os direitos humanos e as liberdades públicas e privadas que uma sociedade democrática garante estabelecem um leque muito amplo de possibilidades de vida que permitem a coexistência no seu seio de todas as religiões e crenças, mas estas, em muitos casos, como aconteceu com o cristianismo, deverão renunciar aos maximalismos da sua doutrina – o monopólio, a exclusão do outro e práticas discriminatórias e lesivas dos direitos humanos – para ganhar o direito de cidadania numa sociedade aberta. Têm razão Alain Finkielkraut, Élisabeth Badinter, Régis Debray, Jean-François Revel e aqueles que estão com eles nesta polémica: o véu islâmico deve ser proibido nas escolas públicas francesas em nome da liberdade.[2]

 

Quem esteja minimamente atento pode facilmente observar que, na Europa, as concessões ao multiculturalismo e ao relativismo cultural têm permitido, a coberto da tolerância, que práticas intolerantes tenham vindo a instalar-se paulatinamente em vários países. Muitos muçulmanos, ao invés de renunciarem aos maximalismos da sua doutrina, têm tentado impô-los.  Não surpreendem, por isso, episódios como os relatados por Gavin Mortimer, em que muçulmanos se sentem à vontade para insultar e agredir não apenas mulheres muçulmanas que não adoptam práticas como a de tapar o corpo na totalidade, mas também mulheres europeias. Como ficou patente a propósito da recente polémica do burkini, muitos europeus ignoram esta realidade. Ignoram, como salienta Mortimer, a extensão do extremismo islâmico em França, onde 100 das 2500 mesquitas são controladas por salafistas, ou seja, pela corrente mais puritana e fundamentalista do islão, que defende que todas as mulheres andem sempre cobertas. O burkini é parte da sua estratégia, sendo um símbolo da pureza islâmica que serve como forma de distinção entre as muçulmanas moralmente boas (as que usam o burkini) e as moralmente más (as que não usam o burkini). Naturalmente, existem muçulmanas que não pretendem envergar o burkini e que sofrem pressões por isso mesmo. No meio desta polémica, a maioria das pessoas, mais preocupada em defender a liberdade de vestir o que se queira, não entendeu ou ignorou isto, mesmo quando Nicolas Sarkozy afirmou o óbvio: trajar o burkini é um acto político e se este não for proibido, corremos o risco de que raparigas muçulmanas que não pretendam usar o véu ou o burkini venham a ser estigmatizadas e sofram pressões sociais. Na realidade, situações deste género já acontecem. Mortimer revela que uma organização muçulmana chamada "Femmes sans voile" (Mulheres sem véu) publicou uma declaração no Dia Internacional Mulher em que afirmou que as mulheres que a compõem se recusam a usar véu por consubstanciar uma violência simbólica visível no espaço público, e que os islamistas estão a formalizar a desigualdade entre os sexos na família e na sociedade em detrimento dos valores fundamentais da república francesa.

 

Aqueles que defendem a suspensão da proibição do burkini, sendo tolerantes com os intolerantes, não percebem que estão a colocar a tolerância em risco; pretendendo promover a liberdade individual, não percebem que estão precisamente a ajudar a reduzi-la; e sendo França o país que tem como mote "Liberté, égalité, fraternité", não deixa de ser irónico que estejam a ajudar a promover a desigualdade. Sustentando as suas decisões em argumentos assentes na liberdade religiosa, não vislumbram os perigosos precedentes que estão a abrir. Importa, por isso, voltar novamente às considerações de Vargas Llosa sobre a proibição do véu islâmico nas escolas públicas francesas, que são igualmente adequadas no caso da proibição do burkini (negritos meus):

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As meninas enviadas pelas suas famílias e comunidades ornamentadas com o véu islâmico para as escolas públicas de França são algo mais do que parece ao simples olhar; isto é, são a avançada de uma campanha empreendida pelos sectores mais militantes do integrismo muçulmano em França, que procuram conquistar uma cabeça de praia não só no sistema educativo como em todas as instituições da sociedade civil francesa. O seu objectivo é que se lhes reconheça o direito à diferença, por outras palavras, a usufruir, naqueles espaços públicos, de uma extraterritorialidade cívica compatível com o que aqueles sectores afirmam ser a sua identidade cultural, sustentada nas suas crenças e práticas religiosas. Este processo cultural e político que se esconde por detrás dos amáveis apelos de comunitarismo ou multiculturalismo com que os seus mentores o defendem, é um dos mais potentes desafios que a cultura da liberdade enfrenta nos nossos dias e, segundo me parece, é essa a batalha que no fundo começou a travar-se em França por detrás das escaramuças e encontrões de aparência superficial e episódica entre partidários e adversários de as meninas muçulmanas poderem ou não usar o véu islâmico nas escolas públicas de França.

(…)

Este argumento [o direito de as meninas muçulmanas assistirem às aulas com véu, por respeito à sua identidade e à sua cultura], levado aos seus extremos, não tem fim. Ou, melhor dizendo, se se aceitar, cria uns precedentes poderosos para aceitar também outros traços e práticas tão ficticiamente «essenciais» à cultura própria como os casamentos das jovens negociados pelos pais, a poligamia e, ao extremo, a ablação feminina. Este obscurantismo disfarça-se com um discurso de alardes progressistas: com que direito é que o etnocentrismo colonialista dos franceses de velho cunho quer impor aos franceses recentíssimos de religião muçulmana costumes e procedimentos que são contrários à sua tradição, à sua moral e à sua religião? Fertilizada por ousadias supostamente pluralistas, a Idade Média poderá assim ressuscitar e instalar um enclave anacrónico, desumano e fanático na sociedade que proclamou, a primeira no mundo, os Direitos do Homem. Este raciocínio aberrante e demagógico deve ser denunciado com energia, como aquilo que é: um perigo gravíssimo para o futuro da liberdade. [3]

 

Aqui chegados, debrucemo-nos agora sobre as questões mais amplas do islão e o fundamentalismo islâmico e as suas relações com o Ocidente. Um dos lugares-comuns mais propagandeados a respeito do islão é o de que este é uma religião de paz. Outro é o de que o fundamentalismo islâmico é uma corrente minoritária do islão que interpreta o Alcorão e os hadith (conjunto de relatos dos ensinamentos e hábitos do profeta Maomé que compõem a jurisprudência e são importantes na interpretação do Alcorão) perversa e erradamente. Ora, a propósito do ataque terrorista a uma discoteca gay em Orlando, um gay muçulmano, Parvez Sharma, escreveu que "Chamar ao islão uma religião de paz é perigoso e redutor. Tal como os outros dois monoteísmos que o precedem, tem sangue nas suas mãos", e assinalou ainda que o cânone islâmico que emergiu após a morte de Maomé sanciona a violência e condena a homossexualidade. A respeito desta última, a sharia é inequívoca. Em Reliance of the Traveller: A Classic Manual of Islamic Sacred Law, encontra-se a seguinte passagem transcrita por Andrew C. Mccarthy:

Sec. p17.0: SODOMY AND LESBIANISM

 

Sec. p17.1: In more than one place in the Holy Koran, Allah recounts to us the story of Lot’s people, and how He destroyed them for their wicked practice. There is consensus among both Muslims and the followers of all other religions that sodomy is an enormity. It is even viler and uglier than adultery [AM: which is punished brutally, including by death].

 

Sec. p17.2: Allah Most High says: “Do you approach the males of humanity, leaving the wives Allah has created for you? But you are a people who transgress” (Koran 26:165-66).

 

Sec. p17.3: The Prophet (Allah bless him and give him peace) said:

 

1. “Kill the one who sodomizes and the one who lets it be done to him.”

 

2. “May Allah curse him who does what Lot’s people did.”

 

3. “Lesbianism by women is adultery between them.”

 

É também na sharia que se estabelece a pena de morte como castigo pela apostasia, a flagelação como pena por crimes como beber álcool ou o adultério no caso de pré-pubescentes, sendo que nos restantes casos de adultério aplica-se a pena de morte por apedrejamento, entre outras penas para outros crimes que, à luz dos valores Ocidentais, não são crime algum. É bastante esclarecedor consultar algumas passagens da sharia neste artigo de Mccarthy. Conforme este sublinha, a sharia não é uma invenção da Al-Qaeda, do Daesh ou de qualquer outro grupo fundamentalista islâmico. A sharia é a lei islâmica.

 

Sobre as ideias de que o islão é uma religião de paz e o fundamentalismo islâmico um desvio que seria, até, anti-islâmico, Jaime Nogueira Pinto escreve o seguinte em Ideologia e Razão de Estado:

Existe também muita controvérsia à volta da natureza do Islão: será uma “religião de paz”, como pretende a maioria dos seus seguidores moderados, que consideram o terrorismo islâmico um desvio e uma deturpação dos ensinamentos do Profeta, ou encerra uma mensagem de proselitismo armado, em que a conversão ou a supressão física é a única alternativa dada aos apóstatas, aos ímpios, aos infiéis, aos não-crentes?

 

Existem nos livros sagrados islâmicos, no Corão (a lei) e nos Hadith (a jurisprudência), passagens, prescrições e disposições que vão num e noutro sentido. Como acontece aliás, com o Antigo Testamento judaico-cristão e até com os Evangelhos. Mas tal como Moisés e ao contrário de Cristo, Maomé foi um profeta armado e tanto o seu estilo guerreiro, épico e violento como a História sangrenta dos primeiros califas e da expansão muçulmana contra Bizâncio e os Persas, da Índia à Península Ibérica, parecem favorecer uma interpretação mais radical do Islão, reforçada pela sua juventude enquanto religião em fase de recuperação do tempo perdido e pelo facto de o uso da força ser recomendado nos próprios textos sagrados. Textos que, na versão ortodoxa, deverão ser interpretados literalmente.

 

Para esta corrente, o próprio Corão não só não impede a via totalitária do Islão como a encoraja: Maomé é um chefe militar sequioso de conquistas, faz da guerra santa e da morte na guerra santa o mais glorioso objectivo do crente, usa de uma linguagem de grande fúria e virulência, não mostra qualquer espécie de tolerância para com os não-crentes e institui uma teocracia absoluta que não estabelece nem admite distinção entre fé e razão. Terá, assim, criado uma religião radical, que pelo seu empenhamento territorial e político, pode justificar um tipo de totalitarismo ideológico, uma espécie de teocracia revivalista e absoluta.

 

(...)


Maioritário ou minoritário no mundo islâmico, legitimado ou não pelos textos do Corão, o islamismo radical é uma realidade materializada num movimento ideológico e activista que desencadeou uma guerra contra os Estados Unidos, Israel e os Estados árabes “heréticos”. Estes últimos fazem parte da “Casa da Guerra" porque os seus governantes são considerados ímpios ou apóstatas.[4]

 

O último parágrafo refere-se à Al-Qaeda, mas é igualmente adequado ao Daesh, sendo apenas de acrescentar que também a Europa se encontra entre os inimigos do islamismo radical. Embora a distinção entre islão e islamismo radical seja útil, a ideia de que o Ocidente não tem problemas com o islão, mas sim com os fundamentalistas islâmicos, é simplista e politicamente correcta, mas não é verdadeira, como assinala Samuel Huntington (tradução e negritos meus):

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Alguns ocidentais, incluindo o Presidente Bill Clinton, têm argumentado que o Ocidente não tem problemas com o islão, mas apenas com extremistas islâmicos violentos. Mil e quatrocentos anos de história demonstram o contrário. As relações entre o Islão e a Cristandade, quer a Ortodoxa, quer a Ocidental, têm sido tempestuosas. Cada um tem sido o Outro do outro. O conflito do século XX entre a democracia liberal e o Marxismo-Leninismo é apenas um fenómeno histórico efémero e superficial em comparação com a continuada e profundamente conflitual relação entre o Islão e a Cristandade. Por vezes, tem prevalecido a coexistência pacífica; mais frequentemente, a relação tem sido de intensa rivalidade e pautada por vários graus de guerra quente. As suas "dinâmicas históricas" comenta John Esposito, "... levaram a que as duas comunidades se encontrassem frequentemente em competição e, por vezes, empenhadas num combate mortal por poder, território e almas." Ao longo dos séculos, as fortunas das duas religiões têm ascendido e caído numa sequência de importantes vagas, pausas e vagas contrárias.[5]

 

Ainda assim, em relação ao islamismo radical, importa também questionar, de acordo com Jaime Nogueira Pinto, se

Estaremos perante um desígnio universal, uma ideologia-religião islâmica que pretende a conversão do mundo aos seus ensinamentos pela palavra e pela força, ou apenas perante um movimento que pretende restaurar a verdadeira fé na área islâmica (o mundo árabe e a Ásia, o Magrebe e a África islamizados), corrigindo e castigando os heréticos e desapossando-os do poder? Se se trata de restabelecer a “casa de Deus” (o verdadeiro Islão), na “Casa da Guerra” (o mundo árabe não ortodoxo) deixando em paz o resto do globo desde que este os deixe em paz, é uma coisa; se se trata de exportar uma religião e converter o resto do mundo, é outra.[6]

 

No seguimento da passagem supracitada, importa sublinhar que o islão efectua uma distinção entre o dar al-islam, o mundo onde se aplica o islão, ou seja, a casa de Deus, e o dar al-harb, o mundo ou casa da guerra, que, segundo José Adelino Maltez, "seria necessário converter, através de um esforço, dito jihad." Embora o significado de jihad seja disputado pelas várias correntes de interpretação do islão, existem três formas de jihad: "a maior, que tem a ver com o combate do crente contra um inimigo interior, contra as paixões e a inclinação para o mal; a menor interior, que ocorre dentro do próprio mundo islâmico, contra os renegados e os apóstatas, justificando a dominação dos rebeldes e dos tiranos pela força; e a menor exterior, que tem a ver com a expansão do Islão em todo o mundo."[7] Se é verdade que, em relação a esta última, o Alcorão e os ensinamentos islâmicos afirmam que deve ser apenas defensiva e impõem determinadas condições para que os muçulmanos possam pegar em armas - têm de sofrer alguma forma de opressão em relação à prática do islão e ameaças às suas vidas, devem ter sido forçados a deixar as suas casas no local onde ocorre a opressão e só se o opressor continuar a oprimi-los no local para onde se mudaram e a ameaçar as suas vidas é que podem pegar em armas -, e estabelecem também condições em relação ao que é permitido na guerra defensiva - como, por exemplo, civis que não lutem contra o islão não devem ser atacados, mulheres, homens e idosos devem permanecer intocáveis e os prisioneiros de guerra devem ser tratados com respeito - também não é menos verdade que a Al-Qaeda veio romper com estes ensinamentos, tendo Bin Laden, de acordo com Jaime Nogueira Pinto, justificado a guerra total em virtude da desproporção dos meios em relação ao inimigo, inscrevendo-se, desta forma, na linha extremista do wahhabismo,[8] que tem uma visão integrista e puritana do islão. E se a Al-Qaeda trouxe esta novidade, o que dizer do Daesh, cuja violência extrema é uma imagem de marca? 

 

Com efeito, o islamismo moderno, nas palavras de Roger Scruton, "é um exemplo daquilo a que Burke chamou, ao descrever os revolucionários franceses, uma "doutrina armada", ou seja, uma ideologia agressiva apostada em erradicar toda e qualquer oposição."[9]  O islamismo promove uma irmandade que "fala secretamente ao coração de todos os muçulmanos, unindo-os contra o infiel,"[10] e levou até a uma confluência entre xiitas e sunitas que esteve na base do chamado ressurgimento islâmico, aparecendo o islão, "pela primeira vez em muitos séculos, (...) - aos olhos de muçulmanos, mas também aos olhos dos infiéis - como um movimento religioso uno e unido em torno de um objectivo comum," o que fica a dever-se, em muito, a dois factores, "a civilização ocidental e o processo de globalização que ela desencadeou."[11] Conforme salienta o filósofo britânico,

roger scruton.jpg

No tempo em que o Oriente era o Oriente e o Ocidente era o Ocidente, os muçulmanos podiam consagrar as suas vidas a deveres piedosos e ignorar o mal que prevalecia no dar al-harb. Mas quando o mal se espalha por toda a terra, propondo alegremente liberdades e direitos em vez dos rígidos deveres de um código religioso, e chega a invadir o dar al-islam, despertam os velhos antagonismos e, com eles, a velha necessidade de recrutar aliados contra o infiel.[12]

 

A própria utilização, com uma pesada conotação pejorativa, do termo infiel (kafir) - embora o cristianismo também tenha utilizado o termo no passado - para designar todos os que não crêem no islão, que devem ser persuadidos a converter-se, pela palavra ou pela força, ou combatidos e mortos, é ilustrativa de como esta religião encara a tolerância e a liberdade religiosa. Segundo Christopher Hitchens,

O islão começou não só por condenar todos os cépticos ao fogo eterno como continua a reivindicar o direito de fazer o mesmo em quase todos os seus domínios e continua a pregar que esses mesmos domínios podem e têm de ser alargados através da guerra. Durante a minha vida, nunca houve uma tentativa de questionar ou sequer investigar as reivindicações do islão que não tenha sido recebida com uma repressão extremamente dura e célere. Assim sendo, temos o direito de concluir provisoriamente que a aparente unidade e confiança da fé são uma máscara para uma insegurança muito profunda e, provavelmente, justificável. Naturalmente, nem será preciso dizer que existiram e existirão sempre feudos sanguinários entre diferentes escolas do islão, resultando em acusações estritamente intermuçulmanas de heresia e profanação e em actos de violência terríveis.[13]

 

Independentemente das discórdias e conflitos entre as várias correntes do islão, os infiéis são um inimigo comum. A este respeito, vejamos o que afirmou o Ayatollah Khomeini em 1984, citado em O Ocidente e o Resto de Scruton:

Se permitirmos que os infiéis continuem a desempenhar a sua missão de corruptores da terra, tanto maior será o seu castigo. Assim, se matarmos os infiéis para pôr termo à sua actividade [corruptora], estaremos na verdade a prestar-lhes um serviço. Pois o seu castigo final será menor. Permitir que os infiéis permaneçam vivos significa autorizá-los a prosseguirem as suas actividades corruptoras. [Matá-los] é uma operação cirúrgica ordenada por Alá, o Criador... Aqueles que respeitam as regras do Corão sabem que devemos aplicar as leis de qissas [retribuição] e que devemos matar... A guerra é uma bênção para o mundo e para todas as nações. É Alá quem ordena aos homens que combatam e matem.[14] 

 

Embora seja possível encontrar passagens no Alcorão para justificar a ideia de que o islão é uma religião de paz, de acordo com Scruton (negritos meus),

o facto é que a interpretação de Khomeini da mensagem do Profeta encontra confirmação no texto e reflecte precisamente a apropriação do político que tem distinguido as revoluções islâmicas no mundo moderno.

 

No entanto, os sentimentos de Khomeini não lhe foram inspirados apenas pela sua leitura do Corão, constituindo igualmente o resultado de um exílio prolongado, primeiro no Iraque e a seguir no Ocidente, onde viveu protegido pelos infiéis que pretendia esconjurar pela aniquilação. E demonstram claramente que as virtudes dos sistemas políticos ocidentais são, para uma determinada mentalidade islâmica, incompreensíveis - ou compreendidas, como foram por Qutb e Atta, como falhas morais imperdoáveis. Mesmo desfrutando da paz, bem-estar e liberdade decorrentes de um estado de direito secular, alguém que encara a charia como o caminho único da salvação pode ver nessas vantagens meros sinais de vazio espiritual ou de corrupção. Para alguém como Khomeini, os direitos humanos e o governo secular denunciam a decadência da civilização ocidental, que não consegue erguer-se contra aqueles que a querem destruir e espera em vez disso conseguir apaziguá-los. Mas para o militante islamista não há compromisso possível e os sistemas que se norteiam pelos princípios do compromisso e da conciliação são meros agentes do Diabo.[15]

 

Aqueles que se encontram reféns da retórica dos direitos humanos e advogam mais tolerância para com práticas muçulmanas que, na verdade, ofendem os direitos humanos, não percebem que estão apenas a sinalizar aos muçulmanos a fraqueza do Ocidente perante os que o querem subjugar. Como Scruton assinalou em 2009, num ensaio intitulado "Islam and the West: Lines of Demarcation", o Ocidente encontra-se num perigoso período de concessão ao islão, em que as legítimas revindicações da nossa própria cultura são ignoradas ou minimizadas como forma de provar as nossas intenções pacíficas. 

 

Que fazer?

 

José Meireles Graça, a propósito da polémica em torno do burkini, escreveu o seguinte:

Finalmente: É uma atitude inteligente o Estado, em vez de fechar as madraças onde se ensine o ódio ao Ocidente, e impedir a construção de mais mesquitas onde se prega o obscurantismo de uma religião à qual os muçulmanos moderados ainda não impuseram o aggiornamento, andar pelas praias a multar mulheres que tiveram a infelicidade de nascer em sociedades medievais?

Há quem diga, com boas razões, que não. Inclino-me a pensar que sim, não porque a verdadeira guerra esteja aí mas porque, para tratar doenças, nos devemos preocupar com as causas, mas sem desprezar o tratamento sintomático.

 

Partilho desta opinião. É verdade que há questões muito mais importantes e prioritárias nas relações com o islão. Mas também é verdade que muitas instituições ocidentais têm feito concessões a práticas que violam os valores do Ocidente e que, no meio da desorientação que nelas grassa, talvez já nem saibam bem o que fazer no que concerne às relações com o islão. Ora, é preciso começar por algum lado, nem que seja por alguns dos sintomas. 

 

Muito se fala, em Teoria das Relações Internacionais, de hard power soft power. É um lugar-comum dizer-se que, frequentemente, o soft power, isto é, a influência, só consegue alcançar os seus objectivos se tiver forma de os alcançar também através do hard powerSoft power sem hard power leva muitas vezes a resultados insatisfatórios. 

 

O mesmo se pode aplicar em relação à forma como as instituições ocidentais devem lidar com as reivindicações do islão nos países ocidentais. Em primeiro lugar, devem abandonar a retórica multiculturalista e perceber a armadilha a que aludi neste post, quando com a intenção de defenderem a tolerância ou a liberdade, acabam por fazer concessões a práticas que colocam estes valores em causa. Em segundo lugar, se as instituições - bem como muitos indivíduos ocidentais - pretendem continuar a pedir tolerância e respeito aos muçulmanos (soft power), têm de estar preparadas para não fazer concessões em tudo o que ofenda os valores ocidentais (hard power), para que os muçulmanos entendam que, no Ocidente, são a cultura e os valores ocidentais que imperam. O Ocidente tem um património cultural e político que tem de ser defendido.

 

Scruton, na parte final do artigo que acima mencionei, recomenda isto mesmo como forma de nos defendermos do islamismo. Após aludir a sete características definidoras do Ocidente e que o distinguem das comunidades islâmicas, o britânico diz-nos que temos de estar preparados para não fazer concessões aos que querem que nós "troquemos a cidadania pela sujeição, a nacionalidade pela conformidade religiosa, a lei secular pela sharia, a herança judaico-cristã pelo islão, a ironia pela solenidade, a auto-crítica pelo dogmatismo, a representação pela submissão e a alegria de beber pela abstinência censória. Devemos tratar com desprezo  todos os que exigem estas mudanças e convidá-los a viver onde a sua forma de ordem política preferida já se encontra em vigor. E devemos responder à sua violência com a força que seja necessária para contê-la."

 

1 - Karl Popper, The Spell of Plato, vol. 1 de The Open Society and Its Enemies (London: Routledge, 2003), 293.

2 - Mario Vargas Llosa, A Civilização do Espectáculo (Lisboa: Quetzal Editores, 2012), 98.

3 - Ibid., 96-97.

4 - Jaime Nogueira Pinto, Ideologia e Razão de Estado (Porto: Civilização Editora, 2013), 906-907.

5 - Samuel P. Huntington, The Clash of Civilizations (Londres: Simon & Schuster, 2002) 209.

6 - Jaime Nogueira Pinto, Ideologia e Razão de Estado, 906.

7 - José Adelino Maltez, Curso de Relações Internacionais (São João do Estoril: Principia, 2002), 93.

8 - Jaime Nogueira Pinto, O Islão e o Ocidente, 4.ª ed. (Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2015), 150-151.

9 - Roger Scruton, O Ocidente e o Resto (Lisboa: Guerra e Paz, 2006), 102.

10 - Ibid., 114.

11 - Ibid., 111.

12 - Ibid., 111-112.

13 - Christopher Hitchens, Deus não é grande, 2.ª ed. (Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010), 152.

14 - Roger Sruton, O Ocidente e o Resto, 108.

15 - Ibid., 108-109.  

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publicado às 14:10

Do futuro da Europa

por Samuel de Paiva Pires, em 03.07.16

michel houellebecq - submissão.jpg

 

Michel Houellebecq, Submissão:

Quando o Lempereur voltou, estendeu-me uma dezena de folhas agrafadas, escritas com caracteres muito pequenos; efectivamente, o documento tinha um título claríssimo: «PREPARAR A GUERRA CIVIL».
- Bom, há muita coisa do mesmo género, este é um dos mais sintéticos e com estatísticas mais fiáveis. Tem grande profusão de números, visto que analisa os vinte e dois países da União Europeia, mas as conclusões são sempre as mesmas em todos. De forma resumida, a tese do movimento é a seguinte: a transcendência é uma vantagem selectiva, os casais que se reconhecem numa das três religiões do Livro, e que mantêm portanto os valores patriarcais, têm mais crianças do que os casais agnósticos ou ateus; as mulheres têm menos estudos, o hedonismo e o individualismo são menos impositivos. Por outro lado, a transcendência é em larga medida uma característica geneticamente transmissível: conversões a outras religiões ou rejeições dos valores familiares têm uma frequência marginal; na esmagadora maioria dos casos as pessoas mantêm-se fiéis ao sistema metafísico em que foram criadas. O humanismo ateu, sobre o qual assenta o laico «viver juntos» dos casais informais, está portanto condenado a acabar em breve, a percentagem de população monoteísta está a aumentar em flecha, como acontece no caso particular da população muçulmana – não contando com a imigração, que acentua ainda mais o fenómeno. Assim, os identitários europeus admitem abertamente que entre os muçulmanos e a restante população vai rebentar, obrigatoriamente, mais cedo ou mais tarde, uma guerra civil. E concluem que para haver uma hipótese de os europeus vencerem essa guerra civil, esta tem de começar o mais depressa possível – em qualquer caso antes de 2050, e de preferência muito antes.

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publicado às 23:03

O Islão não é uma religião de paz

por Samuel de Paiva Pires, em 23.03.16

A repetição ad nauseam de que o "Islão é uma religião de paz" não torna esta patetice numa verdade. Na realidade, nem o Islão nem o Cristianismo são pacifistas, pois estão no seu cerne as ideias de conversão, submissão e aniquilação do Outro, o que implica e implicou sempre violência, quer psicológica, quer física. Claro que para o Cristianismo o tempo das Cruzadas já lá vai e o confronto entre catolicismo e protestantismo já não tem os contornos de outrora, além de que as seitas fundamentalistas são residuais, mas para o Islão a violência continua a ser um instrumento primordial. Independentemente da crença em Deus, a religião está sujeita aos desejos e ímpetos humanos e historicamente talvez apenas o número de mortes causadas pelos totalitarismos do século XX supere o número de mortes em nome da religião.

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publicado às 14:21

Primitivismo do Bloco de Esquerda

por John Wolf, em 26.02.16

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Não é preciso ser católico praticante para avistar o primitivismo do Bloco de Esquerda (BE). Não é este o modo de celebrar a eucaristia da adopção por casais do mesmo sexo. O mau gosto, a falta de respeito e pudor, e a baixeza de nível deste modo de propaganda inscreve-se no repertório de truques rudimentares. Em plena época de clivagens entre distintas religiões na cena geopolítica, o BE abre a caixa de Pandora da bandalheira. Hoje os católicos, amanhã os muçulmanos e na semana seguinte os judeus. Mas existe uma outra dimensão que confirma uma enorme falta de sensibilidade. A Esquerda, que se autoproclama defensora dos ostracizados económica e socialmente, esquece, que grande número dos "pobre coitado" deste país, atravessando momentos de grande privação, serve-se da fé enquanto bengala para superar os obstáculos da vida. A instituição religiosa (seja ela qual for) merece essa consciência colectiva. O Bloco de Esquerda, porventura inspirado pelos cânticos de Charlie Hebdo, confirma que criativos de comunicação política não existem naquela casa. Se era para causar estardalhaço a qualquer custo, poderiam ter consultado a paternidade bombista das irmãs Mortágua. Não se brinca com a fé dos homens - mesmo não tendo Igreja, como é o meu caso.

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publicado às 10:59

A discriminação sistémica do não-pensamento

por João Pinto Bastos, em 11.12.13

Troika, ajustamento, austeridade, e, agora, a "discriminação sistémica". Entende-se: em Portugal, sobretudo nos últimos anos, os "livre-pensadores" têm sido sujeitos a sevícias culturais inomináveis, basta pensar, a título meramente exemplificativo, no caso da discriminadíssima Fernanda Câncio, que, como é do domínio geral, é comummente silenciada para não emitir as suas costumeiras arengadas anti-católicas. De quem é a culpa? Da Igreja, claro está, e dos seus sequazes no poder executivo. Em resumo, o mundo anda mesmo perdido.

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publicado às 16:41

125.º aniversário do nascimento de T. S. Eliot

por Samuel de Paiva Pires, em 26.09.13

 

T. S. Eliot, Notas para um definição de cultura:


«Quando cada termo é tomado no seu justo contexto, a concepção de cultura e religião, como sendo aspectos diferentes da mesma coisa, é uma concepção que requer ser devidamente explicada. Desejo sugerir, porém, em primeiro lugar, que ela nos fornece os meios de combater dois erros complementares, o mais comum dos quais é pensar que a cultura pode ser conservada, ampliada e desenvolvida na ausência de religião. Este erro é mantido tanto pelo cristão como pelo descrente e a sua refutação exige uma análise histórica muito pormenorizada, visto que a verdade não é facilmente aparente e pode até parecer desmentida pelas aparências; uma cultura pode continuar, sim, e mesmo produzir algumas das suas mais brilhantes obras artísticas e de outros géneros depois de a fé religiosa ter caído na decadência. O outro erro é acreditar que a conservação e a continuação da religião não têm de contar com a conservação e a continuação da cultura, uma convicção que pode até conduzir à rejeição dos produtos da cultura como sendo obstruções frívolas à vida espiritual. Para nos encontrarmos na posição de rejeitar este erro, e também o primeiro, é necessário que olhemos bem longe e recusemos aceitar a conclusão, quando a cultura que temos ante nós é uma cultura sem declínio, de que a cultura é algo que podemos considerar com indiferença. Devo acrescentar que ver a unidade de cultura e religião dessa forma não implica que todos os produtos da arte possam ser aceites sem críticas, nem que essa perspectiva nos ofereça um critério pelo qual toda a gente possa distinguir imediatamente a diferença entre eles. A sensibilidade estética deve ser elevada à percepção espiritual e a percepção espiritual à sensibilidade estética e ao gosto disciplinado, antes de nos qualificarmos para julgar a decadência, o diabolismo ou o niilismo na arte. Julgar uma obra de arte por padrões artísticos ou padrões religiosos, julgar uma religião por padrões religiosos ou padrões artísticos, no fim de contas, deveria ser exactamente o mesmo., embora se trate de um objectivo que nenhum indivíduo pode alcançar.»

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publicado às 17:46

Ainda a respeito da co-adopção por homossexuais

por Samuel de Paiva Pires, em 21.05.13

Deixo um artigo de Roger Scruton, "This 'right' for gays is an injustice to children" (negritos meus):

 

«Western societies have, in recent decades, undergone a radical change in their attitudes to homosexuality. What was once regarded as an intolerable vice is now regarded as an "orientation", no different in kind, though different in direction, from the inclinations that lead men to unite with women, and children to be born. This radical change began with the decriminalisation of homosexual conduct, and with a growing readiness not just to tolerate homosexuality in private, but to talk about it in public. We saw the emergence of the "public homosexual", the flamboyant propagandist for that "other" way of life who, like Quentin Crisp, tried to persuade us that "gay" is after all the right description. There followed the movement for "gay pride" and the "coming out" of public figures —to the point where it is no longer very interesting to know whether someone is or is not of the other persuasion.

 

For the most part, the people of this country have gone along with the changes. They may not be comfortable with its more demonstrative expressions, but they are prepared to tolerate the homosexual way of life, provided it keeps within the bounds of decency, and does no violence to fundamental norms. However, this attitude does not satisfy the activists. For to tolerate is to disapprove. It is only when conduct offends you that you need to exercise your toleration, and the activists want people to treat homosexuality as normal. Through the slippery notions of discrimination and human rights, they have used the law to advance their agenda. Homosexuality is now treated by the law as a tendency comparable in almost every way to heterosexuality, so that any attempt to distinguish between people on grounds of their "orientation" — whether as applicants for a job, or as recipients of a privilege — is regarded as unjust "discrimination", comparable in its moral heinousness to discrimination on grounds of race or sex.

 

On the whole we have accepted that laws against discrimination might be needed, in order to protect those who have suffered in the past from hostile prejudice. Every now and then, however, we wake up to the fact that, although homosexuality has been normalised, it is not normal. Our acceptance of the homosexual lifestyle, of same-sex couples, and of the gay scene has not eliminated our sense that these are alternatives to something, and that it is the other thing that is normal. This other thing is not heterosexual desire, conceived as an "orientation". It is heterosexual union: the joining of man and woman, in an act which leads in the natural course of things not just to mutual commitment but to the bearing of children, the raising of a family and the self-sacrificing habits on which, when all is said and done, the future of society depends. The propaganda that has tried to rewrite heterosexuality as an "orientation" is really an attempt to persuade us to overlook the real truth about sexual union, which is that it is, in its normal form, the way in which one generation gives way to the next.

 

This truth is recognised by all the great religions, and is endorsed in the Christian view of marriage as a union created by God. This explains, to a great extent, the reluctance of religious people to endorse gay marriage, which they see as an attempt to rewrite in merely human terms the eternal contract of society. To put it in another way, they see gay marriage as the desecration of a sacrament. Hence the growing conflict between the gay agenda and traditional religion, of which the current dispute over "adoption rights" is the latest sign. According to the Christian perspective — and it is one that is shared, I believe, by Muslims and Jews – adoption means receiving a child as a member of the family, as one to whom you are committed in the way that a father and mother are committed to children of their own. It is an act of sacrifice, performed for the benefit of the child, and with a view to providing that child with the normal comforts of home. Its purpose is not to gratify the parents, but to foster the child, by making him part of a family. For religious people that means providing the child with a father and a mother. Anything else would be an injustice to the child and an abuse of his innocence. Hence there are no such things as "adoption rights". Adoption is the assumption of a duty, and the only rights involved are the rights of the child.

 

Against that argument the appeal to "anti-discrimination" laws is surely irrelevant. The purpose of adoption is not to gratify the foster parents but to help the child. And since, on the religious view, the only help that can be offered is the provision of a real family, it is no more an act of discrimination to exclude gay couples than it is to exclude incestuous liaisons or communes of promiscuous "swingers". Indeed, the implication that adoption is entirely a matter of the "rights" of the prospective parents shows the moral inversion that is infecting modern society. Instead of regarding the family as the present generation's way of sacrificing itself for the next, we are being asked to create families in which the next generation is sacrificed for the pleasure of the present one. We are being asked to overlook all that we know about the fragility of homosexual partnerships, about the psychological needs of children, and about the norms that still prevail in our schools and communities, for the sake of an ideological fantasy.

 

To oppose homosexual adoption is not to believe that homosexuals should have no dealings with children. From Plato to Britten, homosexuals have distinguished themselves as teachers, often sublimating their erotic feelings as those two great men did, through nurturing the minds and souls of the young. But it was Plato who, in The Laws, pointed out that homosexuals, like heterosexuals, must learn the way of sacrifice, that it is not present desires that should govern them, but the long-term interests of the community. And it is surely not implausible to think that those long-term interests are more likely to be protected by religion than by the political ideologies that govern the Labour Party.»

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publicado às 14:19

Grave, muito grave!

por João Pinto Bastos, em 16.04.13

A Helena Matos fez bem em repescar esta barbaridade. Por este andar, o Ocidente entrará inevitavelmente num ocaso deprimente. A crise não é apenas económica, é, também, e em grande medida, uma crise cultural.

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publicado às 14:25

Andar de transportes públicos como virtude papal

por Samuel de Paiva Pires, em 14.03.13

Vejo que andar de metro e autocarro está a ser alçado à categoria de virtude, por o novo Papa utilizar estes meios de transporte para se deslocar, em vez da limusina a que teria direito enquanto arcebispo de Buenos Aires. Descubro, assim, que estou em linha com esta nova virtude papal - ainda que seja agnóstico. Aguarda-se, claro, que os crentes que a exaltam, mas ainda não a praticam, sigam as pisadas de Francisco I.

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publicado às 01:46

Coincidências

por Samuel de Paiva Pires, em 07.03.13

Há coincidências realmente estranhas. Hoje fui acordado por uma Testemunha de Jeová a bater-me à porta com o intuito de divulgar a Palavra do Senhor. Há pouco, via blog de Edward Feser, fui dar a uns posts de Andrew Sullivan em que este relata algumas conversas que teve com Christopher Hitchens. Às tantas, diz este último:

«Yes. As well as being impossibly arrogant, coming in the disguise of modesty, humility, simplicity. “Ah, I’m just a humble person doing God’s work.” No, excuse me, you must be either humble or doing God’s work. You can’t know what God’s work would be, don’t try your modesty on me. And once one’s made that elimination, then everything else becomes more or less simple. My problem only begins there.»

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publicado às 14:58

A hiper-religião do disparate

por João Pinto Bastos, em 02.01.13

A laicização da máxima protestante de que basta a fé para nos salvarmos criou um homem maleável e permissivo. As obras, a ética e a moral não têm lugar num mundo em que a acção perdeu o referente transcendente. Tudo é vendável, a honra, a dignidade, a fé, o corpo, a moral, em suma, tudo é negociável contanto que no fim a simples crença na infalibilidade do indivíduo garanta a nossa segurança. Precisamos urgentemente de regressar a Deus.

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publicado às 20:44

Apocalipse

por Samuel de Paiva Pires, em 21.12.12

A crença no fim do mundo é tão velha quanto a própria civilização ocidental, embora não tenha apenas raízes ocidentais, estando presente desde sempre nas religiões, e tendo inclusivamente sido transposta para a política por via do Iluminismo que produziu versões secularizadas das religiões - as ideologias - , pelo que a política moderna, como aponta John Gray, não é senão apenas mais um capítulo da história da religião. Para quem queira compreender melhor o assunto, recomenda-se a leitura da obra de Gray A Morte da Utopia, pelo menos do primeiro capítulo, de que deixo umas breves passagens:

 

 

«A política moderna é um capítulo da história da religião. Os maiores levantamentos revolucionários que tanto moldaram a história dos últimos dois séculos foram episódios da história da fé - momentos de prolongada dissolução do cristianismo e da ascensão da moderna religião política. O mundo em que nos encontramos no início do novo milénio está cheio de detritos de projectos utópicos que, embora enquadrados em termos seculares que negavam a verdade da religião, foram, de facto, veículos de mitos religiosos.

 

O comunismo e o nazismo afirmavam que se baseavam na ciência - no caso do comunismo, na falsa ciência do materialismo histórico; no do nazismo, na salgalhada do «racismo científico». Estas afirmações eram fraudulentas mas o uso da pseudociência não travou o colapso do totalitarismo que culminou com a dissolução da URSS em Dezembro de 1991. Continuou nas teorias neoconservadoras que afirmavam que o mundo estava a convergir para um tipo único de governo e de sistema económico - a democracia universal, ou um mercado livre global. A despeito de ser apresentada com os arreios das ciências sociais, esta crença de que a humanidade estava à beira de uma nova era foi apenas a versão mais recente das crenças apocalípticas que remontam aos tempos mais antigos.

 

Jesus e os seus seguidores acreditavam que viviam num Tempo Final em que os males do mundo estavam para acabar. Doença e morte, fome, guerra e opressão, tudo deixaria de existir após uma batalha que abalaria o mundo e em que as forças do mal seriam completamente destruídas. Foi essa fé que inspirou os primeiros cristãos e, embora o Tempo Final tenha sido reinterpretado por pensadores cristãos posteriores como uma metáfora de uma mudança espiritual, a vida ocidental tem sido perseguida por visões de Apocalipse desde esses tempos recuados.

 

Durante a Idade Média, a Europa foi abalada por grandes movimentos inspirados pela crença de que a história ia acabar e nasceria um novo mundo. Esses cristãos medievais acreditavam que só Deus podia conduzir ao novo mundo, mas a fé no Tempo Final não se desvaneceu quando começou o declínio do cristianismo. Pelo contrário, enquanto o cristianismo vacilava, a esperança de um Tempo Final iminente tornou-se mais forte e mais militante. Revolucionários modernos como os jacobinos franceses e os bolcheviques russos detestavam a religião tradicional, mas a sua convicção de que os crimes e as loucuras do passado podiam ser ultrapassados numa transformação omniabrangente da vida humana foi uma reencarnação secular das crenças cristãs primitivas.  

 

(...)

 

Não foram só os revolucionários que sustentaram versões secularizadas das crenças religiosas. Também os humanistas liberais, que vêem o progresso como uma lenta luta gradual, o fizeram. A crença de que o mundo vai acabar e a crença no progresso gradual parecem contrárias - uma à espera da destruição do mundo, a outra à espera do seu melhoramento -, mas, no fundo, não são tão diferentes como isso. Apregoem elas a mudança parcelada ou a transformação revolucionária, as teorias do progresso não são hipóteses científicas. São mitos que respondem à necessidade humana de sentido. 

 

(...)

 

Seja onde for que esteja a acontecer, o renascimento da religião está misturado com conflitos políticos, incluindo uma luta que se intensifica por causa das reservas de recursos naturais da Terra, que estão a diminuir; mas não pode haver dúvida de que a religião é mais uma vez um poder por direito próprio. Com a morte da Utopia, a religião apocalíptica reemergiu, nua e sem adornos, como uma força na política mundial.

 

(...)

 

Na linguagem vulgar, «apocalíptico» significa um acontecimento catastrófico, mas, em termos bíblicos, deriva da palavra grega que significa revelar - um apocalipse é uma revelação em que os mistérios que estão escritos no céu são revelados no fim dos tempos, e, para o Eleito, isso não significa a catástrofe mas a salvação. Escatologia é a doutrina das últimas coisas e do fim do mundo (em grego, escathos significa «último», ou «mais distante»). Como já indiquei, inicialmente o cristianismo era um culto escatológico: Jesus e os primeiros discípulos acreditavam que o mundo estava destinado à imensa destruição, de modo que pudesse passar a existir um novo e perfeito.»

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publicado às 02:25

Mario Vargas Llosa, A Civilização do Espectáculo:

 

«Na civilização do espectáculo o laicismo ganhou terreno sobre as religiões, aparentemente. E, entre os ainda crentes, aumentaram os que só o são de vez em quando e da boca para fora, de maneira superficial e social, enquanto na maior parte das suas vidas prescindem inteiramente da religião. O efeito positivo da secularização da vida é que a liberdade é agora mais profunda do que quando os dogmas e as censuras eclesiásticas a limitavam e asfixiavam. Mas enganam-se aqueles que julgam que, pelo facto de no mundo ocidental haver hoje percentagens menores de católicos e protestantes do que antes, tenha vindo a desaparecer a religião nos sectores conquistados ao laicismo. Isso só acontece nas estatísticas. Na verdade, ao mesmo tempo que muitos fiéis renunciavam às Igrejas tradicionais, começavam a proliferar as seitas, os cultos e toda a espécie de formas alternativas de praticar a religião, desde o espiritualismo oriental em todas as suas escolas e divisões – budismo, budismo zen, tantrismo, ioga – até às Igrejas Evangélicas que agora pululam e se dividem e subdividem nos bairros marginais, e pitorescos sucedâneos como o Quarto Caminho, o rosacrucianismo, a Igreja da Unificação – os Moonies –, a Cientologia, tão popular em Hollywood, e Igrejas ainda mais exóticas e epidérmicas.

 

A razão desta proliferação de Igrejas e seitas é que só sectores muito reduzidos de seres humanos podem prescindir por inteiro da religião, que faz falta à imensa maioria pois só a segurança que a fé religiosa transmite sobre a transcendência e a alma a liberta do desassossego, do medo e do desvario em que a ideia da extinção, do perecimento total a mergulha. E, com efeito, a única maneira como a maioria dos seres humanos entende e pratica uma ética é através de uma religião. Só pequenas minorias se emancipam da religião substituindo com a cultura o vazio que ela deixa nas suas vidas: a filosofia, a ciência, a literatura e as artes. Mas a cultura que pode cumprir esta função é a alta cultura, que enfrenta os problemas e não lhes foge, que tenta dar respostas sérias e não lúdicas aos grandes enigmas, interrogações e conflitos de que a existência humana está rodeada. A cultura de superfície e de aparência, de jogo e de pose, é insuficiente para suprir as certezas, mitos mistérios e rituais das religiões que sobreviveram à prova dos séculos. Na sociedade do nosso tempo os estupefacientes e o álcool fornecem a tranquilidade momentânea do espírito e as certezas e alívios que outrora se deparavam aos homens e mulheres com as rezas, a confissão, a comunhão e os sermões dos párocos.» 

 

Leitura complementar: O mito do individualismo extremo do nosso tempoA insustentável leveza da literatura do nosso tempoA banalização da políticaDa arte modernaDo erro da equivalência entre culturas à difusão da incultura

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publicado às 12:30

A filosofia como forma de espiritualidade

por Samuel de Paiva Pires, em 14.08.12

Mark Vernon, How to be an Agnostic:

 

«Or take a philosopher like Schonpenhauer. He is famous for his pessimism and explicitly said that philosophy cannot change lives. He thought human beings were the tragic slaves of their base wills. People may make great efforts to aspire to the higher things that their 'excess intellect' glimpses above them; but will 'will out'. Love, for example, is always brutalised by the animal will for coitus. The result, some of his interpreters say, is suffering and labour and radical unhappiness. This though is not quite fair. Every day Schopenhauer read from the Upanishads. They confirmed for him a rather different ethic: if the world is determined by will, then the goal of life should be to see through that relentless volition. He interpreted nirvana as the end of wilfulness which, because it is never fully possible in this life, would be like a transition to nothingness. In other words, philosophy for Schopenhauer was like the Buddhist teaching that the value of life lies in not wanting it - and that required the cultivation of an attitude to life, not just thought about it. Even for Schopenhauer, and almost in spite of himself, philosophy elicits a kind of spirituality.»

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publicado às 13:49

Antes de mais, permitam-me pedir desculpa ao Carlos Santos e ao Corcunda por só agora conseguir responder a ambos. Aqui fica:

 

1) O Corcunda aponta que o agnosticismo "Esquece que nos apoiamos na fé para conhecer tudo o que nos rodeia", dando exemplos de fenómenos físicos, químicos e biológicos, que outrora foram tidos como verdadeiros, assinalando de seguida que "Sem a certeza de um ponto exterior, sem a presunção de uma ordem exterior de referência (e a verdade não é mais que o confronto do ser racional com um Ser que não é o seu), toda a discussão é meramente contingente (…)", o que vai no sentido da afirmação do Carlos de que "Se a Verdade existe então, para além do humano, o Absoluto tem também de existir." Temos, portanto, que a verdade é absoluta. Ora, há uma contradição lógica nisto: se a verdade, aqui entendida como divina e, portanto, decorrente da fé, é absoluta, como podem acepções tidas como verdadeiras ter sido contestadas e refutadas?

 

2) O ponto anterior leva-me novamente a perguntar de que verdade falamos em concreto? Porque não é a mesma coisa falar de verdade em teologia, filosofia ou ciência, embora existam, obviamente, pontos de contacto.

 

3) Afirma o Corcunda que "Uma religião que tem uma finalidade social é um código político, ou seja, um mero instrumento do Poder". Se uma religião não tem uma finalidade social, então que finalidade tem? Parece-me que não só toda a religião tem uma finalidade social como foi e continua a ser um instrumento do poder. Não quer dizer que seja apenas isto, mas é também isto. O que vai ainda de encontro à crítica do Carlos quanto à abordagem utilitarista à religião. A este respeito, com a devida autorização, aproveito para citar um comentário que a Silvia fez no Facebook: «Uma abordagem utilitarista da religião é uma abordagem muito válida e não concebo como pode recursar-se. Religare para alcançar a felicidade, a paz interior, o Amor universal – que é isto se não uma abordagem utilitarista? A religião é a estrada do mundano ao transcendente. Não só assume uma abordagem utilitarista nessa perspectiva (da prática individual da religião) como assume uma abordagem utilitarista no colectivo social, da procura do bem-estar pela regulação da ordem social a que a religião, desde o início dos tempos, não é alheia, como sabemos. E isto na abordagem utilitarista que não radica, como alguma parte do texto parece indicar, na utilidade (abordagem utilitária) em sentido lato. Se bem que, também aí, devo afirmar que a religião tem efectivamente uma utilidade – ou várias – controlo social, fonte de direito, and so on. Por isso está a religião organizada devidamente nas suas instituições onde pululam os ritos e outras acções simbólicas de ligação ao divino. São meios, meios que utilizamos. A estrada do religare.»

 

4) Como é que se justifica algo como justo ou injusto sem que seja meramente reflexo do poder? Através do direito natural, da razão prática em ligação com a noção de tradição e evolução cultural e do imperativo categórico kantiano.

 

5) Em resposta ao ponto 6 do Corcunda e à perspectiva do Carlos quanto à antropomorfização da Vontade Divina, quando eu falo nesta é no sentido que Hayek lhe dava, conforme Linda Raeder assinala: "Por outras palavras, ele temia que a atribuição da fonte de ordem à Vontade Divina pudesse levar à interpretação antropomórfica dessa Vontade como a “vontade da sociedade” (que tem, na realidade, de ser a vontade de seres humanos em particular) e inspirasse esforços equivocados para controlar o processo social espontâneo através da direcção consciente. Isso, acreditava, seria fatal não só à vontade humana mas à sobrevivência da civilização avançada." Coloco um exemplo prático: George W. Bush disse falar com Deus e que este lhe ordenou que invadisse o Iraque. Saddam Hussein também acreditava em Deus e, como muitos muçulmanos, que Alá lhes ordena que combatam os EUA. Como é possível a existência de duas verdades contrárias com justificações transcendentes? 

 

6) Diz o Corcunda, num comentário: "Se alguém diz que tem a certeza que Deus não existe, é porque tem uma visão do além e conseguiu vislumbrar aí o Vazio (...)." Da mesma forma, se alguém diz que tem a certeza que Deus existe, é porque tem uma visão do além e conseguiu vislumbrar aí algo. E eu simplesmente não consigo conceber nenhuma destas posições.

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publicado às 18:12

Algumas Questões

por o corcunda, em 10.06.12

Sobre este texto do Samuel:

 

1) Uma religião que tem uma finalidade social é um código político, ou seja, um mero instrumento do Poder. Se se aceita isso, nunca mais poderás dizer que algo é justo ou injusto, porque a justiça é apenas reflexo do Poder. Tocqueville, p.ex., vê no Cristianismo uma verdade transcendente que tem utilidade social. E tu estás a afirmar a primazia desse papel social, face ao Transcendente, o que implica uma subordinação do padre ao sociólogo. Isso é positivismo puro e incompatível com a fundamentação do liberalismo que defendes...


2) A modernidade não matou Deus. Foi a pós-modernidade. A modernidade de Locke a Kant está cheia de Deus, de um Deus que possibilita o progresso (individual e colectivo) que é tão patente no vitorianismo e na obra de Hayek. Nenhuma dessa modernidade ousou afirmar que haveria uma independência entre o Homem e Deus, ou que o segundo fosse subproduto do primeiro.


3) Esse vitorianismo foi uma forma de fundamentalismo sem fundamento. Sem transcendência divinizou os "mores" sociais (vide penas sobre a homossexualidade ou mendicidade) utilizando o aparato de Poder para perpetuar "manners not morals". Foi certamente mais repressivo moralmente que toda a Idade Média, com os seus filhos bastardos e liberdade para o pecado socialmente irrelevante.


4) Essa visão que tens em relação à verdade e expuseste em "Não creio que a modernidade tenha transformado a verdade numa percepção humana, creio que sempre o foi" é radicalmente incompatível com os teus pressupostos liberais políticos e económicos, uma vez que um pós-moderno não pode ser defensor de visões protestantes ou deístas. Como sabes melhor que eu, o fundamento de Hayek para a liberdade repousa na concepção de que a melhor (um termo qualitativo) forma política é revelada através do sucesso material, ou seja, presume uma transcendência protestante, incompatível com essa visão. Até porque se a consciência empírica fundamenta a liberdade, temos de aceitar também a boa-fé dos que não aceitam a liberdade. A circularidade do argumento é evidente e demonstra que nesta formulação não há possibilidade de fundamentar o que seja.

 
5) Como verás, o texto a que te referes não é uma apologia do Cristianismo. E portanto o argumento do agnosticismo ser mais antigo que o Cristianismo não tem razão de ser. O que sabemos é que a definição de uma Verdade em Sócrates (de Platão) conduziu a uma concepção religiosa monoteísta (a Ideia do Bem) e a aceitação de que a Verdade não é um artefacto humano (o diálogo com Trasímaco). O oposto do que afirmas. O que significa que a dúvida socrática tem uma fé que a fundamenta. Essa fé é em algo que é exterior ao homem e constitui a referência para este! Algo radicalmente incompatível com essa concepção humanizante da verdade. Mesmo o cepticismo presume que se pode atingir uma verdade externa ao Homem. A tua posição não é céptica, mas sofística.

 

6) Nas últimas linhas fazes uma profissão de fé na tua concepção, acreditando que a mesma toca a transcendência. Mas como? E não podemos fazê-lo todos? Hitler acreditava firmemente nisso. E também na verdade como produto humano e num conjunto de máximas morais. Se não há nada de transcendente na posição dele, o que é que a distingue da tua?

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publicado às 15:07

Samuel, a premissa central do teu texto - que percebo a ser a antecedência do homem face a Deus -, da qual resulta a noção de que Deus é uma criação humana, bem como o deísmo antropomórfico que caracterizas, parece-me padecer de um problema de base, brilhantemente sumariado em Being John Malkovich. Se nós vemos o mundo pelos olhos de Malkovich, o corpo de Malkovich age de acordo com o que cada um de nós quer experimentar. A realidade de "ser John Malkovich" torna-se assim no paradoxo do relativismo absoluto: John Malkovich passa a ver e agir como cada um de nós quer.

Serve a metáfora para dizer que tudo pode ser entendido como uma construção humana, se entenderes que por ser visto pelos teus olhos, humanos, passa a ser uma realidade construída por ti. Naturalmente que foi o homem quem escreveu sobre Deus, porque a escrita é um exercício humano. Faz isso de Deus uma criação humana? Da mesma forma faria de cada mesa uma mesa diferente, consoante quem passasse pelo interior da mente de John Malkovich, e olhasse para a dita mesa. A falácia "post hoc ergo propter hoc" enviesa o conhecimento: não é por a reflexão humana sobre Deus, e a escrita do homem sobre Deus, anteceder uma epifania que admitas como válida, que essa epifania passaria a ser uma construção tua. Ou todo o conhecimento se tornaria relativo, e, como tal, nulo. O que não é o caso! 

No domínio da geometria euclidiana, o Teorema de Pitágoras é uma verdade à espera de ser descoberta, que não muda por ter sido Pitágoras a descobri-la. Fosse outro qualquer, mudasse o nome ao teorema, ele continuaria a conter uma relação indesmentível entre os comprimentos dos lados de um triângulo rectângulo, inscrito num plano.

O Teorema de Pitágoras foi verbalizado por homens. Tornar-se-ia diferente a cada um que passasse pelos olhos de John Malkovich? Não me parece, e por isso não me parece também que toda a verdade seja humana como afirmas. A Matemática é uma colecção de verdades que existem e da qual nos é dado vislumbrar pedaços da sua beleza de tempos a tempos. As verdades ainda não descobertas não são verdades inexistentes. E as existentes são idênticas para qualquer olhar que sobre elas se debruce. Mesmo o último teorema de Fermat sobreviveu séculos, apesar de não demonstrado até recentemente.

 

Se a Verdade existe então, para além do humano, o Absoluto tem também de existir. Porque a Verdade é absoluta. A nossa missão muda radicalmente. Tentamos apreender a verdade, como dizia Newton, trabalhando como anões nas costas de gigantes. Santo Agostinho separava de forma clara a matéria criada da que não o foi. Deus cria. Não é ele próprio matéria criada, e por isso antecede a matéria criada. A concepção humana de Deus pode-lhe ter conferido, em muitos cultos, rostos humanizados. Da mesma forma que estilizamos as representações de extra-terrestres a partir do nosso universo de conhecimento morfológico. Mas o Cristianismo, no que me parece ser um ponto que ilude a tua reflexão, não o faz. Jesus Cristo não é a humanização de Deus, nem a representação de Cristo pretende ser a representação de Deus. Cristo é Deus que veio ao mundo como Homem. E para interagir com os homens. Por isso, numa forma reconhecível pelos homens. Nenhum Homem, diz-nos Jesus, alguma vez viu Deus, na sua vida terrena. Quando muito, alguns tiveram a Fé para reconhecer Deus no homem Jesus Cristo.

Vale a pena recordar o episódio da sarça ardente, em que Moisés interage com Deus na montanha. Pede-lhe para o ver, para o poder apresentar ao povo que tirara do Egipto. E Deus permite-lhe apenas ver a sombra de umas costas numa pedra. Santo Agostinho, em Da Trinidade, conclui que essa sombra é a sombra das costas de Jesus, pois será essa a forma humana que Deus tomará quando vem ao nosso encontro no Novo Testamento.

Não podemos, por isso, confundir antropomorfismo deísta com Cristianismo. É assumido no Cristianismo que não conhecemos o rosto de Deus, nem sabemos se o tem. Foi-nos dado, pelo Seu Amor, conhecer a Cristo, Deus que veio a nós na forma humana. Mas que não consiste na forma (se o conceito se aplica?) do próprio Deus, pois Ele não é matéria criada, nem se situa neste plano de morfologias reconhecíveis. O Deus dos Cristãos é a Trindade Santíssima: uma união perfeita de três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) que são uma só, pois cada uma está em todas as outras e são consubstanciais. O Deus é uno e trino. Consubstancial porque todo é Amor. Só se distinguem nas relações recíprocas, mas todos um mesmo Deus.

Convirás, Samuel, que há pouco de antropomórfico, na percepção de um Deus uno e trino, pois essa é uma realidade desconhecida e mesmo misteriosa no nosso plano vivencial....

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publicado às 18:31

 

Como alguns leitores terão notado, nos últimos tempos, especialmente desde que decidi assumir publicamente o meu agnosticismo, tenho-me debruçado, ainda que não tão aprofundadamente como gostaria, sobre a temática da religião, deixando por aqui excertos de autores como Scruton, Jung e Mark Vernon. Na lista de leitura constam ainda obras de Nietzsche, Kierkegaard, Feuerbach, Russell, William Rowe, Hitchens e dos mesmos Scruton, Jung e Vernon. Disto procede, como bem apontaste, Carlos, no primeiro texto em que respondias a um excerto de Vernon, que a verdade é que a minha abordagem à religião é essencialmente filosófica. Mais, eu padeço da mesma incultura religiosa de Camus, ou talvez mais apropriadamente, incultura em relação à religião católica, e é por isso que, embora a Bíblia também faça parte da minha longa lista de leitura, não sou capaz de responder nos mesmos termos simbólicos que utilizas. 

 

Ainda assim, permite-me uma breve réplica para dizer que o ponto que levantas relativamente à ausência do utilitarismo na religião católica - e não é surpreendente a crítica que fazes ao utilitarismo de Vernon, ou não tenha este sido padre da Igreja Anglicana - parece-me poder ser disputado em dois sentidos. O primeiro, é que quando se fala em Salvação somos obrigados desde logo a colocar a questão "o que é a alma?" - que recentemente Edward Feser abordou-; o segundo, é que como Hayek, também ele agnóstico, mostra em The Fatal Conceit, a religião tem, de facto, uma utilidade, mais imanente que transcendente. Distinguindo entre as práticas de comunidades primitivas e das modernas sociedades ocidentais, o autor austríaco salienta que instituições, sistemas morais e tradições evoluíram de forma a gerar e manter um número elevadíssimo de indivíduos, através de uma selecção natural competitiva mas pacífica das tradições de diversos grupos, tradições estas que muitos não entendem ou não apreciam e que até combatem, mas que são fundamentais para a sobrevivência destes grupos. Contudo, quanto ao porquê destas terem sido preservadas contra instintos e até contra o racionalismo construtivista, Hayek assinala que a religião desempenha/ou um papel fundamental (tradução minha): "Devemos parcialmente a crenças místicas e religiosas e, acredito eu, particularmente às principais crenças monoteístas, que tradições benéficas tenham sido preservadas e transmitidas pelo menos o tempo suficiente para permitir a estes grupos que as seguiam crescer e ter a oportunidade de se espalharem através da selecção natural ou cultural. Isto significa que, gostemos ou não, devemos a persistência de certas práticas, e a civilização que resultou destas, em parte ao apoio de crenças que não são verdadeiras – ou verificáveis ou testáveis – no sentido em que são as afirmações científicas, e que certamente não são o resultado de argumentação racional. Eu às vezes penso que pode ser apropriado chamar-lhes, pelo menos como gesto de apreciação, “verdades simbólicas”, visto que elas ajudaram os seus aderentes a ser “frutíferos e multiplicarem-se e reabastecerem a terra e subjugá-la” (Génesis 1:28). Mesmo aqueles entre nós, como eu próprio, que não estão preparados para aceitar a concepção antropomórfica de uma divindade pessoal, têm de admitir que a perda prematura do que consideramos como crenças não factuais, teria privado a humanidade de um poderoso apoio ao longo desenvolvimento da ordem alargada que agora gozamos, e que mesmo agora a perda dessas crenças, quer sejam falsas ou verdadeiras, criaria grandes dificuldades."1

 

Também Jung nos traz alguma luz a este respeito, quando faz a distinção entre credo e religião, que é também útil para responder ao Corcunda. Diz-nos Jung (tradução minha) que "Um credo dá expressão a uma determinada crença coletiva, ao passo que a palavra religião exprime uma relação subjectiva com certos factores metafísicos, extramundanos. Um credo é uma confissão de fé destinada principalmente ao mundo em geral e é, portanto, um assunto intramundano, enquanto o significado e o propósito da religião recaem na relação do indivíduo com Deus (cristianismo, judaísmo, islamismo) ou no caminho da salvação e libertação (budismo). A partir deste facto básico é derivada toda a ética, o que, sem a responsabilidade do indivíduo perante Deus pode ser chamado de nada mais do que moralidade convencional."2

Atendendo à moderna morte de Deus,  quando, em A Gaia Ciência3, Nietzsche aborda o assunto, fá-lo, como Vernon salienta, contando uma história que é ilustrativa da tragédia que, para ele, foi a proclamação da morte de Deus. Diz-nos a personagem do louco (tradução minha): "Como havemos de nos consolar, os assassinos de todos os assassinos? O que era mais sagrado e mais poderoso de tudo o que o mundo já possuiu sangrou até à morte sob as nossas facas: quem vai limpar esse sangue de nós? Que água existe para nos limparmos a nós mesmos? Que festivais de desagravo, que jogos sagrados teremos de inventar? Não é a grandeza deste acto demasiado grande para nós? Não deveremos nós próprios tornar-nos deuses simplesmente para parecermos dignos dele?"3 "O homem como o novo Deus", diz-nos Vernon, "quão assustador é este pensamento."4

Nietzsche percebeu claramente o que o Corcunda salienta, tal como Jung, no que diz respeito à ausência de um critério transcendente de verdade: "Ser o aderente de um credo, portanto, não é sempre uma questão religiosa, mas mais frequentemente uma questão social e, como tal, não faz nada para dar ao indivíduo qualquer fundamento. Para suporte ele tem que depender exclusivamente da sua relação com uma autoridade que não é deste mundo. O critério aqui não é a aprovação de um credo, mas o facto psicológico de que a vida do indivíduo não é determinada exclusivamente pelo ego e as suas opiniões ou por factores sociais, mas em igual medida, se não mais, por uma autoridade transcendente. Não são princípios éticos, por mais elevados, ou credos, por mais ortodoxos, que estabelecem as bases para a liberdade e a autonomia do indivíduo, mas simples e unicamente a consciência empírica, a experiência indiscutível de uma intensa relação pessoal e recíproca entre o homem e uma autoridade extramundana que actua como um contrapeso ao "mundo" e a sua "razão."5

Dito isto, importa afirmar que um agnóstico, ou melhor, um pensador ou filósofo agnóstico (aspirante, no meu caso), não é necessariamente irreligioso. Pelo contrário,  enquanto muitos, se não mesmo a maioria dos aderentes a um credo, limitam-se a existir e não a viver, já que aceitam dogmaticamente o que a Igreja do credo lhes diga que está certo e errado, não chegando sequer a debruçarem-se sobre as grandes questões da existência humana, como a existência de Deus, um agnóstico que o seja no sentido que a palavra tomava na Época Vitoriana, ou seja, que tenha a convicção de que nada pode ser conhecido com absoluta certeza mas que se dedica à busca pelo conhecimento com a plena noção dos limites deste e da sua ignorância, não pode deixar de repudiar o fundamentalismo quer dos credos quer do ateísmo, colocando-se numa posição de dúvida que dá corpo ao seu pensamento e à sua forma de estar na vida. Aliás, a sua relação com uma entidade extramundana, exercitando a dúvida, pode inclusive ser mais rica e intensa que a de um crente, como foi o caso de Sócrates. Mais, se o agnosticismo e o ateísmo são até mais velhos que o cristianismo, como pode este clamar estar em contacto ou saber o que é a verdade? E de que verdade falamos em concreto? E por que é que esta tem que ser necessariamente um sub-produto do Divino? Ademais, se aceitarmos que foi o Homem que criou Deus - como eu tendo a aceitar -, temos que a sacralização ocorre(u) do mundano para o extramundano pelo que, em última análise, estamos sempre a aceitar verdades que têm apenas origem humana. Não creio que a modernidade tenha transformado a verdade numa percepção humana, creio que sempre o foi, e que o Iluminismo apenas veio revelá-lo - reforçando o temor em relação à antropomorfização da Vontade Divina. Neste contexto, que outra hipótese temos que não virar-nos para a imanência, mas sabendo que esta não deixa, contudo, pelo menos para mim, de ter ligação à transcendência - na tal posição de dúvida -, e que individualmente cabe-nos adoptar princípios, valores e comportamentos que nos pareçam moralmente correctos, que em última análise, até podem derivar, e em larga medida derivam, da religião - de que as ideologias são, elas próprias, os melhores exemplos, no que à conduta política diz respeito?



1 - F. A. Hayek, The Fatal Conceit: The Errors of Socialism, Indianapolis,Liberty Fund, 1991, pp. 136-137.

2 - Carl Jung, The Undiscovered Self, New York, Back Bay Books, 1957, pp. 20-22.

3 - Friedrich Nietzsche, The Gay Science, New York, Vintage Books, 1974, pp. 181-182.

4 - Mark Vernon, How to be an Agnostic, Basingstoke,Palgrave Macmillan,2011, p. 8.

5 - Carl Jung, Ibid., pp. 22-23.

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