Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A geringonça e o IRS para incautos

por John Wolf, em 08.10.17

IRS-642x336.jpg

 

A fasquia do IRS, colocada a esse nível de rendimentos, produz um efeito detractor. Ou seja, não estabelece relação com o salário mínimo nacional - essa barreira psicológica, a ranhosa mula de carga de tanta glória política. No entanto, um salário até 925 euros, livre de IRS, é um presente envenenado que merece alguns cuidados. As inúmeras satisfações que daí possam advir são compensadas por uma mecânica de pensamento negativa, inversa. Um empregador que pretenda contratar um colaborador intermédio, ou seja, aquele com algum grau de especialização acima de cão, pode servir-se do osso da vantagem de isenção de IRS para converter um candidato a emprego a aceitar um salário mais baixo que não chega bem aos 1000 euros. A solução apresentada como apanágio das benesses laborais, traduz bem o ponto mediano de um sistema ao qual nada parece escapar. O efeito de ilusão, de passe de magia, mantém embutida no espírito do assalariado a falsa sensação de vantagem. O Partido Comunista Português, que foi obliterado nas autárquicas, ainda é suficientemente insonso para ir nesta cantiga ao abrigo do clausulado da geringonça. A receita milagreira vai promover subterfúgios de ordem diversa na classe média laboral. Sabemos bem como funcionam os pagamentos, as facturas e recibos em Portugal. Sabemos como se produzem declarações. O povo sempre recebeu por fora. E o governo sabe isso. A expressão corrente e escorreita é a seguinte:  vou trabalhar umas horas para ganhar mais algum. O governo pode ser muito esperto, mas não nos deixemos enganar pelo modo engenhoso de pôr os empregadores a puxar para baixo - o salário, seja qual for o nome que derem a esse prémio tributativo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:10

Quero viver num buraco

por John Wolf, em 14.10.13

Não tenho a certeza se este é o momento certo ou errado para colocar a hipótese em cima da mesa. Mas não resisti a arrastar para este espaço um conceito que começa a ganhar forma no país da inovação e dos sonhos - na terra do Uncle Sam. Os cortes nas pensões e outras tarifas contributivas que agora assolam Portugal, não correspondem aos desígnios traçados na seguinte proposta, por não serem opções voluntárias. Foram governos que decidiram o rumo a seguir, a bem ou a mal. O que eu trago a lume é algo distinto na sua acepção filosófica. Refiro-me aos "pobres intencionais" que começam a brotar em diferentes nichos do império americano que se encontra em inegável queda económica e social. Viver num buraco passou a ser um estilo de vida muito diferente daquele a que estamos habituados. Não há nada de degradante nesta forma de vida - segundo os próprios. Aliás, para os praticantes, significa viver com mais qualidade e liberdade do que ser escravo da próxima prestação da casa. O que está a acontecer, e que está bem patente nestes exemplos, relaciona-se com a tomada de consciência de que a precariedade material pode ser considerada uma vantagem. Em vez de adicionar encargos, estes cidadãos prescindem dos confortos da vida moderna, e realizam uma viagem profundamente filosófica - imaterial, mas terrena. Sei que o actual ambiente de grande consternação social mexe com a sensibilidade de tanta gente caída por terra, mas isto constitui um indício de uma nova ordem civilizacional alicerçada num conceito de realização e felicidade que colide com a extravagância esbanjadora dos nossos tempos. Aqui não se trata do cliché de "amor e uma cabana", a visão romantizada em ficção, a poesia conveniente plantada por um certo imaginário idílico. Nestes casos lida-se com a crueza elementar da natureza e o grau de suficiência que deve pautar as nossas vidas. Viver com pouco mais de três mil e quinhentos euros por ano parece ser um duro teste de sobrevivência - quando esta situação não resulta de uma escolha livre e idealista. Certamente que em Portugal existem centenas de milhar de cidadãos que vivem com esse rendimento anual, enquanto outros nem por isso. E é aqui que reside a injustiça - o confronto entre a filosofia de uns e as contas da electricidade de outros. No final da história, e apesar das palavras, ficaremos todos às escuras.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:17






Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas