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É a hora!

por Nuno Castelo-Branco, em 06.05.17

 

venezuela_portugal.jpg

 Muito bem e humanamente se fez tudo o que devia e tinha de ser feito: ofereceram-lhes protecção, guarida, assistência médica, escolas para as crianças, alimentos e agasalhos.

Com todo o direito, partiram livremente e sem qualquer impedimento.
 
Agora o que há a fazer com os recursos acumulados e que não podem ser desperdiçados?
 
Isto:

- chegam todos os dias de forma tão sorrateira que a imprensa prefere minimizar, centos e centos de portugueses refugiados da situação do há muito previsível descalabro generalizado na Venezuela. O aeroporto do Funchal vê agora certas cenas que Portugal preferiu ostensivamente ignorar em 1974,1975 e 1976. O mesmo processo, os mesmíssimos casos de desespero total. O país não pode agora virar as costas a esta situação caótica que um dia destes tornará a Portela, Pedras Rubras, Funchal e Faro em acampamentos. 

Desta vez as nossas autoridades foram avisadas e como sempre improvisaram às cinco para a meia noite, mas ainda estão a tempo de salvar a face. Não, não os empurrem a todos para o Brasil, daí lavando as mãos. 

Há gente que passou do meio século de vida e que não só não possui a menor possibilidade de se integrar no mercado de trabalho, como também nada, absolutamente nada possui no nosso país. Nem sequer gente de família ou uma muda de roupa. Muitos estão sem tecto, comida ou agasalhos. Doentes e alguns inválidos à espera de rápida assistência, devem ser de imediato integrados no sistema de Segurança Social e/ou no RSI. Aos outros, os mais jovens que querem reiniciar por cá as suas vidas, deverão ser abertas linhas de crédito por parte do banco do Estado, estabelecendo em todo o território português os seus afazeres e novos negócios. 
 
O que há então a fazer de imediato?

1. Entreguem-lhes as casas perfeitamente equipadas e mobiliadas e abandonadas por quem há pouco partiu. Isto implica devassar a parte imobiliária acumulada pela banca estatal e privada, persuadida a libertar casas para o acolhimento de quem delas agora imperiosamente necessita. É uma medida demasiadamente radical? Sim, sem dúvida e por isso mesmo deve ser adoptada. 

2. Entreguem os mesmos serviços de assistência médica a quem deles muito precisa, acabando de chegar de um país onde os medicamentos e cuidados de assistência há muito se volatilizaram. Os mais idosos deverão ser devidamente tratados de forma célere e sem delongas burocráticas. 

3. Quem tenha filhos, deverá poder contar imediatamente com a integração dos mesmos nos equipamentos escolares da zona destinada à fixação, mesmo que provisória.

4. Alguns dos que chegam mantêm a ilusão de retornar um dia à Venezuela. Enquanto isso precisam de ser protegidos, tratados, alimentados e agasalhados. Outros, mais realistas, dizem que jamais regressarão àquele país que os viu nascer. Conhece-se bem este tipo de história, Portugal já a viveu.
 
Boa parte da sociedade organizou-se, recolheu fundos, mantimentos, roupas e boas vontades. Não pode isto ser atirado para o fundo das conveniências poíticas de armazéns à espera não se sabe bem de quem e do quê.

Se não existe qualquer reserva mental, então aqueles que bem depressa organizaram todas as boas vontades, deverão agora volver-se em direcção aos que agora chegam. Portugal não compreenderá o desleixo, desinteresse ou pior ainda, a negação de auxílio a quem dele precisa. Isto dirige-se sobretudo ao Conselho Português para os Refugiados e generosos entusiastas como a deputada Ana Gomes, a Conferência Episcopal e o enxame de organizações religiosas desta última dependentes. 

Utilize-se imediatamente o que foi acumulado e ofereça-se total assistência a estes necessitados. É o mínimo que a mais elementar decência impõe.

O país deve nestes infelizes, reparar aquilo que uma boa parte da sua actual população jamais esqueceu. 

 

 

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publicado às 19:13

A liberdade e a igualdade entre a verdade e a retórica

por Samuel de Paiva Pires, em 24.02.13

Roger Scruton, Postmodern Tories:

«If we are to confront these ideas, it seems to me, we must begin from Plato’s famous distinction between philosophy, whose goal is truth, and rhetoric, whose goal is persuasion. In a media-dominated democracy truth counts for very little, while persuasion is everything. Looming over the battlefield of modern politics is the rhetoric of equality. It fights for any side that can capture it, defending traditional conservatism as equality of opportunity, and socialism as equality of outcome.

Philosophically speaking the idea that all human beings are equal is questionable. Equal in what respect, for what end, and in what perspective? Are criminals to be treated equally with law-abiding citizens, for instance? Nevertheless, from the rhetorical point of view, the very same idea of equality is the premise of every winning argument. Equality demands equal treatment for disadvantaged and advantaged children, and therefore exams that make no real distinctions between them. It demands equal treatment for nationals and for migrants, and therefore the abolition of effective border controls. It demands equal treatment for gay and straight people, and therefore gay marriage.

 

Looming slightly less prominently over the battlefield is the rhetoric of freedom. Philosophically speaking it is again highly questionable whether human beings are or ought to be free: free from whom, to do what? In the name of freedom men abandon their families; schools abandon discipline; universities abandon the old and tried curriculum in order to offer students a wider choice of degrees. Freedom means opportunity, and opportunity means that the canny, the determined and the strong rise to the top, enjoy those phenomenal city salaries, and join the new class of global fat cats. Dressed up in this way, individual freedom cries out for top-down control.

 

Yet freedom also opens the road to the rest of us; educational freedom creates opportunities for those at the bottom of society; economic freedom protects the volunteer and the entrepreneur against the smothering cloak of regulation; freedom of conscience protects us from the rule of priests and mullahs, while freedom of speech enables us to scorn bigots and bullies without fear of reprisal. Freedom, in this sense, is unquestionably a good thing—unless it is abused. And there’s the rub. What counts as abuse, who is to decide, and what should be the penalty? The philosophy here is deep and difficult but the rhetoric is easy. Matthew Arnold summarised the matter succinctly: “a very good horse to ride; but to ride somewhere.”


Reading these two books I came to the conclusion that the current difficulties for the conservative cause lie exactly in the tension that worried Plato. The philosophy of conservatism, launched two centuries ago by Adam Smith, Edmund Burke and David Hume, and on the continent by GWF Hegel and Joseph de Maistre, is, in my view, difficult, intricate and true. Today’s winning political rhetoric, by contrast, is simple, persuasive, and false. The theory of knowledge and its social function that inspires Michael Gove cannot silence the loud cry of the teachers’ unions for equality whatever the cost. The subtle arguments for the market economy developed by the Austrian school will never extinguish the zero-sum fallacy, which says that if some are rich it is because others aren’t. Burke’s defence of common law justice, like Hegel’s defence of the family and the corporation, has little weight against the rhetoric of “compassion.” Even those on the right who believe that the long-term effect of this rhetoric is to make everyone dependent on the state, and the state dependent on borrowing from a purely imaginary future, will go on repeating it. For the ruling belief is that “in the long run we are all dead,” as Keynes famously put it—none of us will have to pay for current policies and meanwhile it is best to look caring and nice. The philosophy of conservatism has nothing to say in response to this. For it is not about appearing nice. It is about conserving the foundations of civil society. Whatever rhetoric you choose for promoting that cause, the other side is going to describe you as “nasty.” For rhetoric is about appearance, not truth.»

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publicado às 18:24

É a política da maçã de adão.

por Silvia Vermelho, em 23.03.11

"SÓCRATES - Pois bem, Górgias, a retórica, ao que me parece, é uma prática estranha à arte, mas que exige uma alma dotada de imaginação de ousadia e, naturalmente apta para o trato com as pessoas. O nome genérico desta espécie de prática é, quanto a mim, adulação. Nela distingo várias subdivisões, uma das quais é a cozinha. Esta passa por ser uma arte, mas em meu entender não é uma arte, é uma actividade empírica e uma rotina.

Ligo ainda à adulação, como outras tantas partes distintas, a retórica, a toilette e a sofística, ao todo quatro subdivisões com tantos objectos específicos.

Se Polo quiser interrogar-me, que me interrogue; porque ele ainda não ouviu as minhas explicações sobre o lugar que atribuo à retórica entre as subdivisões da adulação. Ainda não se apercebeu disso e já me pergunta se eu não a acho bela. Por mim, não responderei a essa pergunta sobre a beleza ou a fealdade que atribuo à retórica, antes de ter respondido a esta outra sobre aquilo que ela é. Seria incorrecto, Polo. Se, pelo contrário, queres saber que parte da adulação ela é, podes interrogar-me.

POLO - Pois bem, pergunto-te: que parte é ela?

SÓCRATES - Não sei se entenderás bem a minha resposta: na minha opinião, a retórica é como o simulacro de uma parte da política.

POLO - Que entendes por isso? Queres dizer que é bela ou feia?

SÓCRATES - Feia, na minha opinião, porque eu chamo feio a tudo o que é mau."

in Górgias, Platão

 

Este "debate" do PEC é a verdadeira política da maçã de Adão, os discursos ritmados e com o mesmo timbre desde o século XIX, um escol que de escol nada tem em que pulula a testosterona e um modelo de discurso programado, repetitivo, enfático nas mesmas partes. Mesmo as mulheres o adoptaram, esganiçando as vozes nas oitavas a que não conseguem aceder por falta de testosterona. Os homens usam e abusam, disso e da gravata, esse uniforme do vómito que encarna a profissão de adulador/a profissional.

 

Proponha-se um uniforme de estadista. Ainda que o hábito não faça o monge e que Jesus Cristo não perceba de Finanças, mal não faz ser excêntrica/o quando a solução parece transcendente.

 

Adopte-se a túnica unissexo e de cor neutra, acabe-se com a palhaçada de "cada gravata, a sua ocasião".

 

"SÓCRATES - Sustento que há no corpo e na alma algo que lhes dá a aparência da saúde sem que a possuam realmente.

GÓRGIAS - Tens razão.

SÓCRATES - Pois bem, agora vou tentar fazer-te compreender o meu pensamento mais claramente, se for possível. Digo, portanto, que há duas realidades diferentes e duas artes correspondentes: à arte que diz respeito à alma, chamo-a política; quanto àquela que diz respeito ao corpo, não posso dar-lhe da memsa menira um único nome; mas nesta cultura do corpo, que forma um todo, distingo duas partes, a ginástica e a medicina. Na política, distingo a legislação, que corresponde à ginástica, e a justiça que corresponde à medicina. Em cada um destes grupos, de facto, as duas artes assemelham-se pela identidade do seu objecto, a medicina e a ginástica no que se refere ao corpo, a justiça e a legislação no que se refere à alma; mas, por outro lado, distinguem-se sob determinados aspectos.

Sendo assim constituídas estas quatro artes e visando todas o maior bem ou do corpo ou da alma, a adulação apercebeu-se disso, não por um conhecimento alcançado por meio de raciocínios, mas por uma conjectura instintiva. Então, dividindo-se ela mesma em quatro partes e introduzindo em seguida cada uma destas partes sob a arte correspondente, ela fez-se passar pela arte de que tinha tomado a máscara; não tem qualquer preocupação pelo bem, mas antes, pelo atractivo do prazer, arma um laço à tolice que ela engana e cuja consideração ganha desta forma. É asssim que a cozinha toma a aparência da mediciina e finge conhecer os alimentos que melhor convêm ao corpo, de tal maneira que se fossem crianças, ou homens tão pouco razoáveis como as crianças, quem tivesse de decidir qual dos dois, o médico ou o cozinheiro, conhece melhor a boa ou a má qualidade dos alimentos, ao médico apenas restaria morrer de fome.

A tal prática chamo eu adulação e considero-a como algo de feio, Polo (pois é a ti que me dirijo) porque ela visa o agradável sem se preocupar com o melhor. E digo que ela não é uma arte, mas uma actividade empírica porque, para oferecer as coisas que oferece, não tem razões fundadas naquilo que é a sua natureza e não pode, por conseguinte, ligar cada uma delas à sua causa. Ora, quanto a mim, não dou o nome de arte a uma prática que não esteja fundada na razão. [...]

Para abreviarm dir-te-ei na linguagem dos geómetras (talvez agora me compreendas) que a toilette está para a ginástica como a cozinha está para a medicina; ou, melhor ainda, que a sofística está para a legislação como a toilette está para a ginástica e que a retórica está para a justiça como a cozinha está para a medicina. Contudo, repito-o, estas coisas diferem quanto à sua natureza, mas como, por outro lado, estão próximas, sofistas e oradores confundem-se e baralham-se no mesmo domínio, em torno dos mesmos assuntos, de tal maneira que nem eles proprios nem as outras pessoas sabem qual é verdadeiramente a sua função. [...]

Sabes agora, o que, a meu ver, é a retórica: é para a alma aquilo que a cozinha é para o corpo."

 

in Górgias, Platão

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publicado às 17:11






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