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De Magalhães a Maduro

por John Wolf, em 31.07.17

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O Governo da República de Portugal está de consciência tranquila em relação à Venezuela. Aliás, não convém nada uma mudança de regime. Não seria nada conveniente instigar um processo democrático que resultasse no afastamento de Maduro. Os socialistas portugueses, independentemente de pareceres da União Europeia (UE), não vêem com bons olhos uma crise profunda que abane o "status quo" daquela realidade. Referem um regresso à normalidade constitucional quando o que aquele país precisa é de um levantamento popular que afaste o ditador socialista Maduro e que o julgue por crimes cometidos contra o seu povo e opositores políticos. E este estado de arte política coloca Portugal numa situação particularmente difícil. São mais de 400 mil portugueses com residência na Venezuela, ao que se somam mais de um milhão e meio de luso-descendentes. A haver um processo de "descolonização" resultante de uma revolução democrática na Venezuela, Portugal terá de ter um programa de repatriamento de nacionais, um conceito operativo para lidar com os "retornados". Para já sacodem a água do capote afirmando que os que têm saído da Venezuela preferem Espanha devido às afinidades linguísticas, mas sabemos que quando a crise ganhar contornos mais intensos, outras valias, de índole jurídica, far-se-ão valer. Quando Santos Silva diz que não aceita os resultados das eleições, está de facto a fazer ouvidos de mercador, a fingir, a ser politicamente correcto, mas a mentir com os dentes todos. A geringonça é adepta de Maduro, como outros foram de Chavéz e dos Magalhães - aqueles PC - a verdadeira maravilha do engenheiro das amizades duvidosas.

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publicado às 16:59

O último Chávez de Paris

por John Wolf, em 07.12.15

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Hollande 23% - 32% Costa. Serão almas génias?Já viram isto? Ok. Estou a brincar, mas isto não é caso para gargalhadas (já vamos à Venezuela e aos Magalhães). Por ora tratemos dos gauleses. Já sabemos que irá haver uma tentação clara para justificar a perigosa vitória de Le Pen, nas eleições regionais em França, invocando o clausulado securitário. Os Je suis Charlie e os Bataclans podem até servir para sustentar as "causas próximas", e até no plano cultural, no húmus da mentalidade, nas correntes filosóficas, poderíamos decifrar a profundidade conceptual que define o nacionalismo francês. Mas não vamos chamar o alemão Fichte nem Rousseau, e exigir explicações. Será no relógio contemporâneo que o fenómeno de ascensão da extrema-direita se move. Lembro-me do que disse o pai (octagenário) de um ex-amigo francês: "a selecção nacional de futebol de França está a ficar muito escura". Pois bem, é nesse plano da exclusão do legado histórico (e colonial) que se operam as modalidades de francês de primeira e marselhês de segunda. Hollande também tem a sua quota de responsabilidade. Em nome da justiça socialista cometeu excessos - por exemplo, e muito convenientemente, foi atrás do património alheio, radicalizou-se na sua falsa imodéstia ideológica, e demonstrou que não soube estar ao centro e se balançar no frágil palco da sociedade francesa. O que aconteceu em França nem carece de mais um empurrão de um terrorista islâmico. França está a viver o resultado de um investimento ideológico lançado pela geração Le Pen precedente. Tempos perigosos assolam a Europa, mas outro género de revoluções também denunciam a falência de uma outra Esquerda demagógica, de decepção. A Venezuela é a outra face da mesma aresta ideológica. A divisa do socialismo-extremo hiperinflacionou-se e rebentou a escala do bem comum, profundamente anti-capitalista, e destruidora de liberdades e garantias. O legado de Chávez de nada vale no mercado secundário de inspiração ideológica. Cuba também já está a dar o berro. Resta saber que fonte de inspiração ainda se mantém de pé para visionários locais. António Costa deve pensar nas sucessivas legislaturas e na efectiva possibilidade de estar a preparar o terreno para incursões radicais da Direita em Portugal. A ideologia é uma espécie de boomerang e balão de ar quente em simultâneo. Vai e volta com ainda maior pujança, ou simplesmente cai por terra. As decisões do comité-central do PCP e da coordenadora do BE podem produzir um efeito de ricochete ainda mais violento do que se possa imaginar. Basta não acertarem o passo. E tudo indica, já nesta antecâmara, que Jerónimo de Sousa não quer acertar a sua passada à música de António Costa. O que está acontecer em França é um exemplo-vivo das consternações que afligem a Europa. Não julguem por um instante que isso é lá com eles. Não é disso que se trata. Nem precisamos de ir a Munique e regressar com o troféu das garantias dadas. Lamento muito. É agora.

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publicado às 12:01

Qual a percentagem de Esquerdice?

por John Wolf, em 09.10.15

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Eu posso tentar explicar porque está errado. Não me recordo de ler na Constituição da República Portuguesa um parágrafo sequer sobre a definição de Esquerda e Direita e as percentagens mínimas de "ideologia" para preencher esse requisito. A lógica da soma das partes do Partido Socialista (PS), da Coligação Democrática Unitária (CDU) e do Bloco de Esquerda (BE) pura e simplesmente cai por terra. Pressupõe que existe um teor ideológico mensurável a partir do qual se pode definir forças de Esquerda ou de Direita. Se assim fosse teriamos um ramo do Estado dedicado à fiscalização da percentagem ideológica contida nos preparados políticos - uns agentes EMEL do estacionamento ideológico. Ofereço este exemplo contraditório, mas que bastará para consubstanciar o que digo. A Esquerda que defende com unhas e dentes o Estado Social, deve saber que essa invenção não é inteiramente ideológica, e muito menos um exclusivo da Esquerda. A Suécia, tida como exemplo nos campos da Segurança Social e dos Serviços Nacionais de Saúde, também pode ser retratada como um país intensamente neo-liberal, adepta dos mercados, da livre iniciativa e do lucro. A pergunta que deve ser colocada e que relativiza as demandas dos perdedores das eleições legislativas é a seguinte: como se define o grau de pureza ideológico? Qual a percentagem de esquerdice ou direitice que permite determinar a matriz ideológica dos participantes? Como podem constatar, aquilo que os maus perdedores pretendem, viola os pressupostos de desempenho político eficiente - a obrigação de requisitar soluções da totalidade do espectro político e ideológico. Se os "três amigos" da Esquerda fossem coerentes, e se conseguissem assaltar o poder com um golpe, então estariam proibidos de usar as práticas e costumes da alegada Direita que invocam. Teriam de abolir os mercados, as empresas altamente lucrativas, racionar o número de empreendedores e criar uma economia de direcção central. Por outras palavras: nem sequer são de Esquerda. Serão, quanto muito, oportunistas que se servem de todos os argumentos possíveis e imaginários para derrubar uma força política que legitimamente ganhou as eleições. Se fossem tão altruístas e defensores do interesse trans-partidário, deveriam ter construído a sua coligação a tempo e horas de disputar honestamente uma competição política. Teriam tido tempo para sedimentar ideias e limar arestas. Deste modo, abrupto e perturbador, colocam em causa importantes fundamentos que sustentam um Estado de Direito. Os portugueses votaram nas partes e não na equação pós-eleitoral de ocasião. E os portugueses vêem a milhas de distância o que está acontecer. Esta tentativa de colar a cuspo uma força de bloqueio e de insolvência do governo, merece a mais firme denúncia da parte daqueles que fizeram a revolução de Abril. A não ser que queiram outra cravada na realidade política nacional. Portugal está apurado para o Europeu. Quanto ao resto não sei.

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publicado às 10:49

O PREC do TRAQUE

por John Wolf, em 08.10.15

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O governo de Passos Coelho e Paulo Portas tenta a todo o custo travar o Processo Revolucionário em Curso (PREC II) levado a cabo pelo Trio de Ataque , também conhecido por TRAQUE e formado pelo Partido Socialista (PS), a Coligação Democrática Unitária (CDU) e o Bloco de Esquerda (BE). Nesse sentido, e colocando o interesse de Portugal acima de questões ideológicas, a coligação procura encontrar as linhas mestras de um entendimento que evite o marasmo e a confusão políticos em Portugal. O PS, que se encontra em cacos após a utópica promessa de governar a solo, talvez não encontre tão rapidamente melhor oportunidade para chegar perto de mandar no que quer que seja. A extremização dos socialistas, e subsequente convocação de novas eleições, certamente que afastaria ainda mais simpatizantes da sua franja de apoio. E acresce a esse facto que grande parte das propostas do governo de coligação têm o assentimento dos socialistas, embora estes se vendam como radicais e distintos dos restantes. Mas não é bem assim. A verdade é que o condicionamento económico e financeiro de Portugal mitiga as apirações de qualquer entidade política.  Não existe margem suficiente para grandes aventuras, lamentavelmente. A ideologia, invocada a torto e a direito, há muito tempo que foi substituída por conceitos operativos que buscam soluções a montante e a jusante, à Esquerda e à Direita. Os socialistas não entenderam isso e estão limitados pela sua imagem de marca, o seu branding. Entramos, deste modo, numa nova fase de política em Portugal. Bastará à coligação, fazendo uso de alguma inteligência estratégica, abraçar os socialistas. Se de facto a recuperação económica ganhar ainda mais pernas para andar, o PS poderá fazer parte da solução e não do problema, reclamando para si uma parte desse sucesso. Sendo do contra, os socialistas arriscam-se a ver bonitos do governo de coligação e a perder o comboio que já está em andamento. Ultimamente no Largo do Rato tem faltado algum juízo e bom-senso. Julgava Costa que o crédito do património socialista seria suficiente para ganhar tudo e todos. Mas ele insiste. A casa de apostas do Rato parece desejar mais um flop. Maria de Belém não é uma figura icónica que possa beneficiar de uma moção de confiança presidencial dos portugueses. A bússola socialista está efectivamente escangalhada. Talvez não fosse má ideia António Costa negociar algo que bem conhece - o Ministério da Justiça. O que pensaria Sócrates sobre esta hipótese? Não está mal pensado, pois não?

 

Trio de Ataque foi uma designação proposta pela minha amiga Ana Luísa Ferreira Rodrigues para a coligação PS-CDU-BE. A expressão simplificada TRAQUE é de minha autoria.

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publicado às 11:10

A corda na garganta grega

por John Wolf, em 18.02.15

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Se a Grécia aceitar uma extensão de seis meses do empréstimo haverá bronca em Atenas. Alexis Tsipras foi eleito no auge da euforia de promessas que simplesmente não pode cumprir. Os 85% de popularidade que o amparam facilmente podem descambar para um golpe de Estado e a instauração de outro regime, também esse extremo - de Direita, fascista. O povo grego dificilmente aceitará uma traição de Tsipras. A Austeridade era para acabar, segundo o mesmo, mas se um acordo for assinado com a ex-Troika (?), os termos da mesma agravar-se-ão. Por esta ordem de ideias a solução sonhada pela Grécia dificilmente se tornará realidade. De acordo com fontes oficiais, Varoufakis apresentou-se na reunião desprovido de gravata e de um documento sequer. O homem  apareceu equipado com paleio intransigente - a ideia de despejo dos termos do resgate, pura e simplesmente. 

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publicado às 09:30

A natureza da extrema esquerda

por Manuel Sousa Dias, em 06.02.15

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Depois da tournée europeia sem resultados  além de um perder da face ao vivo e a cores, qual a saída para a extrema-esquerda anti-capitalista-anti-globalização-anti-mercados-anti-Europa-anti-euro grega? Ser ela própria, claro!!

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publicado às 17:42

Fado luso-grego

por John Wolf, em 25.01.15

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Os portugueses não querem necessariamente saber do destino dos gregos. Querem ver se Portugal pode beneficiar da dinâmica política que tanto admiram, mas que tão intensamente lhes falta. Sejam honestos. Os outros que façam o que somos incapazes de fazer - esse sim, deveria ser o lema. Indignados, por onde andam a esta hora?

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publicado às 15:25

Da terminologia política moderna

por Samuel de Paiva Pires, em 06.05.14

Hannah Arendt, Sobre a Revolução:

 

"Talvez que o próprio facto de estes dois elementos, a preocupação com a estabilidade e o espírito de novidade, se terem tornado opostos no pensamento e terminologia políticos – sendo um identificado como conservantismo e o outro como monopólio do liberalismo progressivo – deva ser reconhecido como um dos sintomas da nossa perda. Afinal de contas, nada compromete mais seriamente a compreensão das relações políticas e o seu debate significativo hoje em dia, do que as reacções automáticas do pensamento condicionadas pelos lugares-comuns de ideologias que nasceram, na sua totalidade, no sulco e na sequência da revolução. Na verdade, não é de modo nenhum indiferente que o nosso vocabulário político tanto remonte à antiguidade clássica romana e grega, como possa derivar inequivocamente das revoluções do século XVIII. Por outras palavras, na medida em que a nossa terminologia política pode ser considerada moderna, ela é revolucionária na origem. E a característica principal deste vocabulário moderno e revolucionário parece ser a de ele se exprimir sempre através de pares de opostos – a direita e a esquerda, reaccionário e progressivo, conservantismo e liberalismo, para mencionarmos alguns ao acaso."

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publicado às 18:21

Brincando às revoluções

por João Quaresma, em 21.06.13

«Disse Gustave Le Bon sobre a psicologia das massas:
"Uma massa é como um selvagem; não está preparada para admitir que algo possa ficar entre seu desejo e a realização deste desejo. Ela forma um único ser e fica sujeita à lei de unidade mental das massas. No caso de tudo pertencer ao campo dos sentimentos, o mais eminente dos homens dificilmente supera o padrão dos indivíduos mais ordinários. Eles não podem nunca realizar atos que demandem elevado grau de inteligência. Em massas, é a estupidez, não a inteligência, que é acumulada. O sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos desaparece completamente. Todo sentimento e ato são contagiosos. O homem desce diversos degraus na escada da civilização. Isoladamente, ele pode ser um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, isto é, uma criatura agindo por instinto."

(...)
O PT tem alimentado há décadas um racha na sociedade brasileira. Desde os tempos de oposição, e depois enquanto governo (mas sempre no palanque dos demagogos e agitadores das massas), a esquerda soube apenas espalhar ódio entre diferentes grupos, segregar indivíduos com base em abstrações coletivistas, jogar uns contra os outros. Temos agora uma sociedade indignada, mas sem saber direito para onde apontar suas armas. Cansada da política, dos partidos, do Congresso, dos abusos do poder, as pessoas saem às ruas com a sensação de que é preciso “fazer algo”, mas não sabe ao certo o que ou como fazer.
E isso porque o cenário econômico começou a piorar. Imagina quando a bolha de crédito fomentada pelo governo estourar, ou se a China embicar de vez. Imagina se nossa taxa de desemprego começar a subir aceleradamente. É um cenário assustador. Alguns pensam que nada pode ser pior do que o PT, e eu quase concordo. Mas pode sim! Pode ter um PSOL messiânico, um personalismo de algum salvador da Pátria, uma junta militar tendo que reagir e assumir o poder para controlar a situação. Não desejamos nada disso! Temos que retirar o PT do poder pelas vias legais, pelas urnas, respeitando-se a ordem social e o estado de direito.
O desafio homérico de todos que não deixaram as emoções tomarem conta da razão é justamente canalizar essa revolta para algo construtivo. Mas como? Como dialogar com argumentos quando cem mil tomam as ruas e sofrem o contágio da psicologia das massas? Alguém já tentou conversar com uma torcida revoltada em um estádio de futebol? Boa sorte!
Por ser cético quanto a essa possibilidade, eu tenho mantido minha cautela e afastamento dessas manifestações. Muita gente acha que o Brasil, terra do pacato cidadão que só quer saber de carnaval, novela e futebol, precisa até mesmo de uma guerra civil para acordar. Temo que não gostem nada do gigante que vai despertar. Ele pode fazer com que essa gente morra de saudades do "homem cordial". Não se brinca impunemente de revolução. Pensem nisso, enquanto há tempo.»
Rodrigo Constantino em Brincando de Revolução

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publicado às 00:10

"Súcialismo"

por Nuno Castelo-Branco, em 23.05.13

 

Às segundas, quartas e sextas, era a greve na distribuição de água. Às terças, quintas e sábados, cabia a vez da electricidade e por vezes, em simultâneo com a do gás. Tornaram-se rotineiros os duches de água fria pelo lombo abaixo. Em pouco mais de seis meses, Portugal conseguiu copiar os bons exemplos que vinham de leste, ou melhor ainda, filhou aquela dengoza incompetência a cheirar a cascas de bananas podres vindas da terra dos Castro. A propósito deste post do John Wolf, convém recordar alguns episódios de um passado que alguns teimam em querer fazer regressar.

 

Uma família onde existissem três filhos, era coisa própria de sortudos. Se os pais conseguissem uns trocos, um dos miúdos ia para a bicha do pão, o outro para a do leite e o terceiro para o "supermercado" Val do Rio, à espera de conseguir um quilo de batatas cobertas de terra, ou meia dúzia de ovos ainda com claros indícios de terem saído do orifício do galináceo.

 

Mesmo ao lado do prédio onde a família foi viver, existia uma pequena padaria. Os fins de semana eram dias de aprovisionamento com o que fosse mais acessível. O sábado tornava-se num dia santo para a compra de carcaças capazes de encher as barrigas desses três garotos que de qualquer forma, tinham de ser alimentados. Para um indescritível número de felizardos, o Quitute da Revolução foi o pão com pão, em momentos imprevistos barrado com margarina Planta. Invariavelmente era necessário esperar uma meia hora para conseguirmos chegar ao balcão, onde uma vendedora já histérica pela gritaria dentro e fora de portas, era de chofre confrontada com um pedido hoje simples, mas naquela época perigosamente escandaloso:

 

- Quero trinta carcaças!

 

- Trinta carcaças?!  Fo...-se!, além de virem para cá estes fascistas cheios de doenças roubar-nos as nossas casas e empregos, agora são açambarcadores!


Era infalível escutarmos latidos destes, aos quais respondíamos com um sorriso por vezes sobranceiro. Vindos dos impacientes que aguardavam a sua vez na rua, logo se ouviam alguns rosnares que jamais passaram disso. Se por milagre ainda existisse a almejada quantidade daquele ainda hoje detestável pãozinho borrachoso e cheio de vento, éramos mesmo servidos e da "pádeiria" saíamos, tendo ainda a oportunidade de deixarmos no ar um provocador dito espirituoso e claramente político. O efeito era imediato e momentos após, mais acima na segurança do quarto andar, o berreiro era audível, mutuamente se enviando para os respectivos aparelhos reprodutores maternais, os furibundos "progressistas" e  "reaccionários" de então.

 

Debruçados no parapeito da varanda e mortos de riso sob o abrasador sol do verão de 1975, era um deleite gozarmos o panorama. 

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publicado às 12:00

Não tarda nada são cravos

por John Wolf, em 24.02.13

 

Não tarda nada vão atirar flores aos matadores.

 

Uma vez esgotada a canção.

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publicado às 19:26

A Revolução está próxima!

por Pedro Quartin Graça, em 03.12.12

Há muito que o escreveramos. Agora, se dúvidas houvesse, José Pacheco Pereira confirmou-o! A única questão que subsiste é a origem da dita cuja. Porque falar de licença de uso e porte de arma não vale mesmo a pena...

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publicado às 11:41

Do estado mental irracional dos comunistas

por Samuel de Paiva Pires, em 09.08.12

Eric Voegelin, "Liberalism and Its History":

 

«The radical revolutionary must make the revolution into a permanent condition; there can be no compromise or stabilization of the achievements at a definite point. For as soon as a plateau of stabilization is permitted, the revolution is over. To keep a revolution alive one must carry it on further; it thrives on unrest, it needs a permanent opponent; it must meet obstacles to be overcome by its assault, etc. If there are no more obstacles, no more imperialists or deviationists, the revolution dies for lack of things to attack. Revolution can end only if it has reached its goal. And this is precisely the insight expressed by Trotsky in his idea of the révolution permanente: revolution in the modern sense has no intention of producing a stable condition; revolution is the mental and spiritual condition of an act which has no rational goal. The revolution can be permanent because its formal goal, which in communism is a society whose members have become supermen, cannot be realized. Revolution becomes permanent when the revolutionary posits a goal which ex definitione cannot be reached because it requires the transformation of human nature. The unchangeable nature of man constantly places obstacles in the path to the paradisaical goal. If the goal of the revolution is defined by a gnostic philosophy of history, then revolutionary action has no rational goal.»

 

Fernando Pessoa, "O Preconceito Revolucionário":

 

«O estado mental do homem que crê na eficácia social directa das revoluções é exactamente o mesmo do do homem que crê na realidade dos milagres. A crença na eficácia das revoluções pressupõe a crença na intervenção antinatural da vontade humana no curso natural das coisas sociais. Não é mais absurdo supor que determinado taumaturgo inverte, por o uso de qualidades inanalisáveis, as leis físicas e naturais [?], do que supor que um grupo de homens nascido no mesmo meio que outro grupo, educado da mesma maneira, sofrendo as mesmas influências, e com hereditariedade social idêntica, pode, substituindo-se a esse outro grupo e por o simples facto de ter ideias diferentes, agir diferentemente na vida social. Isto é tão simples!

 

O estado social permanece o mesmo agravado com a anarquia que resulta da substituição violenta de uma situação administrativa por outra. Os antigos detentores do poder, por imorais e corruptos que fossem, tinham, ao menos, pelo uso do poder, certa noção inevitável de como usá-lo, conheciam, pelo menos, como administrar. Os recém-vindos, iguais moralmente a eles por serem produto do mesmo meio, levam para o poder a falta de prática do poder; são fatalmente piores — intelectualmente piores. Assim, os governos revolucionários, sendo tão imorais como os governos anteriores, são intelectualmente mais incompetentes. (...)»

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publicado às 16:00

À atenção de Otelo e companhia

por Samuel de Paiva Pires, em 20.04.11

Militares que ameaçam revoltar-se apenas quando tocam nos seus ordenados e regalias, num país com milhões de pessoas a fazer sacrifícios desde há muito tempo e em que a decadência do regime ameaça de sobremaneira a sua soberania, não são militares. São mercenários.

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publicado às 21:36

Quem não se lembra da família de Saddam Hussein e em especial, dos dilectos filhos que trouxe ao mundo na Mesopotâmia? 

 

Uday, aquele que tanto apreciava a administração de venenos e era useiro de choques eléctricos, celebrizou-se pelos seus safaris desportivos quando fazia alinhar prisioneiros, exercitando o dedo no gatilho. "Diz-se que" gostava de ouvir as cabeças estourarem pelo impacto das balas e dissertava acerca da diferença de sons, consoante a capacidade craniana de cada um.

 

Qusay era um passarinho das ilhas, um raio de sol que adorava desportos aquáticos e "diz-se que" mandava alguns acompanhantes atirarem-se ao Eufrates, para depois, em forte trovoada de gargalhadas, alvejá-los à distância. Além destes justificáveis momentos de lazer, estes queridos cordeirinhos desempenhavam os seus trabalhos nas forças de segurança e claro está, embrenharam-se a fundo no mundo dos “negócios”. Acabaram sob os focos da ribalta e da forma como assistimos quase em directo, pela tv. 

 

Os filhos de Mubarak não eram dados a luna parks de balas, electrólises e outras habilidades do estilo. Preferiam o método da engorda de contas bancárias e da apropriação da coisa pública, como se privada fosse. Decerto terão melhor sorte e um destino infinitamente mais consentâneo com os desígnios do nem sempre Misericordioso. Apesar de tudo, o pai foi, de longe, o mais mal tratado pela imprensa ocidental. Sabe-se lá porquê...

 

Vamos agora a quem mais importa, pois os pretéritos são isso mesmo: passado. Os adoráveis querubins da família Kadhafi, tornaram-se conhecidos urbi et orbi. Não são manequins, embora os saca rolhas sejam empunhados para as badaladas pândegas intra e extra-fronteiras. Passearam-se pelo ocidente, deram-se a “ares” no Departamento de Estado americano, apertaram mãos a torto e a direito. O mais conhecido, o sr. Seif – o tal “mitra” que bem conhecemos via CNN -, ostenta a invejável denominação de “sabre do islão” seja lá o que isso queira dizer. Ficamo-nos pela imaginação… Pelo "que dizem", é um liberal, coisa que por aquelas paragens, pouco quererá significar. Recebeu apoteoticamente o responsável pelo atentado de Lockerbie, envolveu-se no escabroso caso das enfermeiras búlgaras e infalivelmente, faz o que bem entende no mundo dos “negócios”, também dirigindo uma estação de televisão. Nos últimos dias, organizou as limpezas de gente em Trípoli, ao estilo das suas sumptuosas borgas bem regadas com Moet et Chandon. Um mártir do dever.

 

O segundo mitra, o rouxinolzinho dos bosques Saadi, - casado com uma menina inevitavelmente Vanessa, de apelido Hassler - era "jogador de futebol profissional" e chegando ao fim da carreira desportiva, decidiu-se pelo comando de uma unidade de elite do exército. Decerto dele ouviremos falar nos próximos dias, a menos que já esteja a caminho de Pequim, Caracas ou Pyong-Yang.  Parece ter algo em comum com mais um mitra, a gazelinha da planície Moatassem - a epítome acabada do mitra-em-chefe! - o caudilho do Conselho de Segurança Nacional, responsável pela chegada dos contingentes de mercenários que garantem a segurança da sua tribo familiar. Já tentou um golpe de Estado, "diz-se que" é fã dos copos e de artistas de variedades, pagas a peso de ouro retirado dos cofres do Estado, propriedade do pai.

 

Falta o quarto mitra, o pombinho dos pomares  Hannibal – não, não é esse em que já estão a pensar -, também famoso pelos copos e "diz-se que" é grande adepto de pancadarias em discotecas, pugilismo em amantes grávidas, chibatadas na criadagem, condução a alta velocidade e em contra-mão. Adora bater em todos e "diz-se que" nem a própria mulher escapa a esta espécie de Mike Tyson tripolitano.

 

É esta a republicana gente que manda, põe e dispõe na Líbia. Grandes revolucionários, uns bolinhos de mel que fazem inveja a qualquer cordeirinho dos prados. Não nos admiremos muito se um dia destes viermos a saber que alguém de longe, muito longe, lhes fez chegar a casa, umas recordações da Vista Alegre. 

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publicado às 17:03

Kadhafi "já morreu"

por Nuno Castelo-Branco, em 22.02.11

Ainda berra neste preciso momento. Frases desconexas, invocações a incógnitas e vãs glórias próprias e de antepassados que nas tumbas ainda o incitam à luta. O discurso em directo que a CNN está a emitir, é o vergonhoso epílogo de um regime que morre  tal como  nasceu. Coberto de ignomínia.

 

Ditadores houve que preferiram enclausurar-se num bunker da sua capital, recusando-se á rendição. Outros partiram de forma discreta, gozando de exílios relativamente amenos e anónimos.

 

O sr. Kadhafi profere aquele que já temos a certeza de ser o derradeiro discurso. Sem grandeza ou a mínima coerência, a tudo recorre, desde a "destruição, até à divisão do país, crianças inocentes, guerra civil" e inevitavelmente, a "conspirações com venenos e vinhos" e "espionagem dos cães infiéis e ocidentais" - americanos, ingleses e italianos - que já "ocupam Bengazi e bases militares líbias no leste do país". Entre as habituais ameaças, fala de Zarqawi, da Al-Qaeda, dos israelitas e promete vingança, quando já pouco ou nada pode. É deveras triste, quase uma cena à Monthy Python.

 

Mil vezes pior que Saddam. Cem mil vezes menos digno que Ceausescu ou Pol Pot, o sr. Kadhafi sai de cena aos gritos e tendo como pano de fundo, uns escombros que sintetizam o seu regime. Escabroso.

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publicado às 16:21

No Bahrein, sendo a miséria coisa inexistente, podemos estar perante uma reivindicação, onde os argumentos religiosos parecem justificar uma sublevação que se baseia na rejeição do privilégio da minoria sunita. O Marrocos e a Jordânia, são dois países onde sai gente à rua protestando contra abusos e o desemprego. A origem desta falta de trabalho, poderá também ter as suas raízes numa certa ideia da Europa, onde por razões óbvias, a absurda PAC se tornou numa ameaça à segurança internacional. Que o digam os boat-people do Mediterrâneo.

 

A situação parece ser bem diversa daquela vivida nas repúblicas da Líbia, do Egipto e da Tunísia. Um ataque geral ao sistema, a repulsa pelo Chefe do Estado e tudo o que está subjacente à sua figura, são talvez, o grito perfeitamente audível pelos curiosos ocidentais, sempre atentos a revoltas em casa alheia.

 

Pelo que as notícias dizem, os protestos nas acima referidas monarquias, resumem-se a uma frase já ouvida em Amã e que hoje gritada em Rabat, o Público cita: não temos nada contra o rei, mas queremos mais justiça e trabalho". Este grito servirá para os governos locais ouvirem e ponderarem urgentes soluções. Terão a vida facilitada, pois os seus camaradas da Internacional Socialista, decerto não regatearão o devido auxílio. Oxalá não sejam desiludidos.

 

Como entendemos, aproveitamos para aconselhar a urgente leitura deste texto de Alberto Gonçalves. A não perder.

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publicado às 19:19

O Egipto, a União Europeia e os EUA em algumas palavras

por Nuno Castelo-Branco, em 01.02.11

"Não compreendo, sinceramente, que relação haverá entre o encontro anual da fina flor do analfabetismo plutocrático em Davos e as "revoluções espontâneas" que acontecem durante ou imediatamente após essas cimeiras. Não acreditando em conspirações, penso ser incómoda coincidência."

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publicado às 07:00

5th of November Reloaded tonight

por Samuel de Paiva Pires, em 17.01.11

Ou como diria John F. Kennedy:"Those who make peaceful revolution impossible will make violent revolution inevitable".

 

And the truth is there is something terribly wrong with this country isn't there? Cruelty and injustice, intolerance and depression. And where once you had the freedom to object, think, and speak as you saw fit, you now have censors and systems of surveillance coercing your conformity and soliciting your submission.

 


Together we shall give them a 5th of November that shall never, ever be forgot!

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publicado às 20:26

A última revolução violenta

por João Pedro, em 22.12.09

 

Há precisamente vinte anos dava-se a última revolução sangrenta da Europa. Foi o culminar da derrocada do Bloco de Leste nos últimos meses de 1989. Depois de todas as outras "democracias populares" ligadas ao Pacto de Varsóvia caírem, só restava a Roménia, paradoxalmente o mais independente regime do bloco face à URSS, e ao mesmo tempo o mais paranóico, megalómano e controlado. Décadas de projectos de expansão industrial com vista à autonomia energética e de obras faraónicas em contraponto com estrito rigor orçamental no que tocava aos bens essenciais, insufladas por um culto de personalidade a Ceausescu, levaram à explosão social e às primeiras revoltas em Timisoara, perto da Hungria, de onde sopravam os ventos de mudança.

 

As autoridades reagiram com toda a dureza possível, alvejando os manifestantes, o que multiplicou a revolta. A 21 de Dezembro, o ditador convocou um aparatoso comício de apoio na capital, em frente ao Palácio do Povo, o enorme edifício que congregava os vários poderes, símbolo máximo daquele regime totalitário que não hesitou em destruir o centro histórico de Bucareste. Às primeiras palavras que correram na imensa praça fronteira, recebeu aplausos dos apoiantes, sobretudo da Securitate, a polícia política. A pouco e pouco, os manifestantes começaram a entoar gritos de protesto entre a multidão, e como uma bola de neve os apupos aumentaram, até o povo gritar em uníssono "Timisoara" e "abaixo o tirano". impotente, Ceausescu retirou-se do local e ordenou que as forças de segurança ripostassem. As tropas pretorianas leais ao regime dispararam sobre a multidão, espalhando o caos no centro da capital, mas as forças regulares não se moveram. a reacção apenas gerou mais revolta por parte da população, à qual se começaram a juntar unidades militares.

 

Fechado no seu "bunker" Ceausescu não se decidia a fugir pelos inúmeros subterrâneos do palácio, quando a situação piorou para o seu lado, e incapaz de aceitar a queda iminente ou sequer de negociar, decidiu fugir de helicóptero com a sua mulher, Elena, e dois ou três fieis. A fuga. no dia 22,  foi vista por todos e registada, mas ou por engano, ou por dificuldades mecânicas, o aparelho aterrou na cidade de Targoviste. Prisioneiro, o casal Ceausescu passou uma noite no calabouço, antes de enfrentar um julgamento militar sumário que acusou o ditador de tentativa de genocídio e de "roubar a alma da Roménia". Este ripostou com acusações aos traidores "fascistas e anti-nacionalistas". Lida a sentença de morte, um pelotão de fuzilamento levou para fora e metralhou Nicolae e Elena, que permaneceram juntos no fim, recordando Mussolini e Clara Pettaci. O fim dos Ceausescu foi proporcional ao regime de opressão, miséria e estalinismo que instituiu na Roménia. O anterior Conducator romeno, Ion Antonescu, líder de um governo aliado de Hitler, fora também ele fuzilado após a guerra. Agora, a mesma sorte cabia ao intitulado Conducator comunista.

 

Seguiu-se um governo nacional com figuras recicladas e vagamente opostas ao ex-ditador. a década de noventa seria conturbada e difícil e só recentemente o país obteve algumas melhorias sociais e económicas, o que lhe permitiu, com reservas, aderir à União Europeia em 2007. Quanto à herança de Ceausescu, basta ir ao centro de Bucareste para se avistar a sua marca mais visível.

 

 

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publicado às 15:46






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