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Sarampos e dictomias portuguesas

por John Wolf, em 19.04.17

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Há várias décadas que venho observando por esse mundo fora a simplificação apaixonada, a redução de equações complexas a tábuas rasas de tudo ou nada, certo ou errado, preto ou branco, sim ou não. Portugal até oferece aos seus tele-espectadores um programa conceptualmente ridículo - Prós e Contras -, um exercício que dispõe em campos opostos partes de um mesmo universo de considerações. A "vacinação ou não vacinação" já deve fazer parte do alinhamento básico da Fátima Campos Ferreira que munir-se-á de um Adalberto, um George e uns tantos hippies requisitados ao Bloco de Esquerda para a próxima emissão daquele formato. São radicalizações extremadas desta natureza que fuzilam as excepções de que é feita a humanidade. Qual bem maior qual interesse público versus ego existencial alternativo, privado.  Não é assim que funciona. O mundo não é visceralmente vegetariano nem augustamente carnívoro - à terça há frango, ao domingo percebes. Vejamos então onde nos conduz esta nova discussão de contemplações. Se o sarampo bate aos pontos Torremolinos. Se Tires arremessa Marcelo para o promontório uber-moralista do certo ou errado. Nesta hora de constrição epidémica, e com a fé como pano de fundo, relativizemos  Einstein. Somos pequenos. E geralmente erramos. Quase sempre.

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publicado às 21:01

Dos táxis imundos de Lisboa

por John Wolf, em 23.01.15

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Uma vez que nos encontramos em plena época de caça ao veículo que tenha nascido antes de 1996, gostaria de lançar outro mote respeitante à poluição, à saúde dos utentes - dos passageiros, entenda-se. Convido-vos a deixar as virtudes do carro particular na garagem mais próxima e a entrar no primeiro táxi que conseguirem parar. Hoje mesmo fí-lo, e mais uma vez fui confrontado com uma lixeira em andamento. Mas vamos por partes. Comecemos pelo factor humano. O condutor deste táxi para além de praticar uma modalidade de pára-arranca indutor de vómitos, descurará, e provavelmente desde sempre, a sua higiéne pessoal. O hálito projectado pelo espelho retrovisor tresandava a uma misto de urina e feijoada transmontana. Os assentos de tecido húmido decadente estavam literalmente ensopados em imundice pegada esquecida por uma catadupa de passageiros de perfume duvidoso. Os tapetes de borracha que beijavam as solas dos meus botins, corroídos pelo bicho da marcha - de certeza que as minhas solas apanharam uma doença qualquer. As pegas das portas com resquícios de corrimentos de vária espécie - não perguntem de que género que eu não respondo. Enfim, um martírio do princípio ao fim da viagem. António Costa bem pode estar preocupado com questões de aparência do parque automóvel da cidade de Lisboa e brincar às "capitais modernas", mas o autarca-mor não tem a mínima ideia do que falo. Não anda de táxi. Quer lá saber. Para quando um regulamento "a sério" da Câmara Municipal de Lisboa respeitante às condições que os táxis e seus condutores devem observar? Para quando uma brigada de intervenção para proteger a saúde pública? Isto é uma vergonha. Ah, falta apenas um detalhe. Sim, o taxista tinha o tal mindinho para esgravatar o ouvido e sacar cêra para fabrico, quem sabe, de uma vela de santuário - Santo António.

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publicado às 17:36

CSI Legionella

por John Wolf, em 11.11.14

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Em Portugal quase nunca há explicação, apuramento de responsabilidades e respectivas sanções. O jornal Expresso rende-se à evidência, imprime a redundância. Enquanto isso, vidas são sacrificadas, pessoas são atiradas para a pobreza, crimes e mais crimes são praticados - "se calhar nunca se vai saber qual a causa deste surto". O mesmo se passa com o BES e uma série de outros casos hediondo-trágicos da novela lusa. Quase sempre fica tudo demolhado, em mágoas de bacalhau, na antecâmara da dúvida crónica. O surto de Legionella não nasce por obra e graça de Nosso Senhor. As tais colunas de refrigeração, de que falam em código tecnológico georgiano, pertencem a alguém, fazem parte, segundo consta, de uma alegada unidade industrial. Se é esse o caso, e dada a incidência geográfica do flagelo, uma equipa de investigadores forense, da Divisão de Investigação e Acção Penal, já deveria estar trajada à CSI, a vasculhar os silos fabris, a abrir ficheiros alusivos a águas paradas. As mortes têm assinatura. As mortes, muy provavelmente, resultam de incúria humana, de desleixo, incompetência, quiçá, absentismo de alguidar. Agora não me venham com essa história usada vezes sem conta em epidemias a montante e a jusante - casa pia, caso isto, caso aquilo. Que muitos querem calar. Pio calado.

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publicado às 09:00

Bimby do estado da nação

por John Wolf, em 27.12.13

Ouvi bem? Ou terei cera nos ouvidos? - A Câmara Municipal de Lisboa pede aos digníssimos moradores o favor de guardar o lixo nas suas casas. Será que estão doidos? Conseguem imaginar o que será armazenar os sacos de lixo na sala de estar, na banheira, ou debaixo do divã, durante quase uma semana. Estamos a falar de uma greve que tem data prevista para terminar no dia 5 de Janeiro de 2014. É no mínimo curioso que os responsáveis políticos, assim como os parceiros do turismo de Portugal, estejam mais preocupados com a péssima imagem que os visitantes estrangeiros levam para os seus países, directamente da Praça do Comércio, do que com as questões de saúde pública que irão afligir os residentes da capital. Mais uma vez as prioridades estão invertidas, e, aproveito a ocasião, para fazer uma pequena referência à Bimby. Esta contribui ou não para a geração de ainda mais lixo? Ou será que é uma ferramenta ecológica? Pode e deve servir enquanto imagem de rigor e eficiência, como bandeira de um partido político? Como podem ver, não sei se foi o Natal que me deu a volta à cabeça, ou se é o Ano Novo que aí vem, mas esta caldeirada de temas e ecopontos, gera, no mínimo, náuseas e vómitos. Sugiro máscaras "à japonesa" para os maus odores, e já agora uma venda de burro, para não ferirmos ainda mais a vista com a novela sórdida em que se reciclou Portugal. Porque o resto, como o serviço mínimo de dignidade, há muito que foi pelo cano. 

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publicado às 16:11

Portugal, um país psicotropical

por John Wolf, em 24.09.13

O ser humano, quando exposto a níveis exagerados de adversidades, procura sempre compensar essa carga negativa de inputs e afastá-los do seu espectro, da sua visão. Numa primeira fase, que não deixa de ser crítica, a negação é a reacção natural. A melhor forma de não emprestar força a algo que está a acontecer diante dos nossos olhos, é fingir que não se vê - fazer de conta que não existe. Essa constitui a primeira fase de integração inconsciente da crise. O cidadão que lentamente se vê privado da sua condição material e social, procura seguir em frente fazendo uso de mecanismos de substituição que garantam a manutenção da sua aparência e configuração iniciais. Finda essa fase, contornada de maneira engenhosa, mas desprovida de sustento, entramos numa fase de efectivo abandono do estatuto. De repente o cidadão, consciente da sua mudança, rejeita a "nova" configuração existencial. O meio envolvente que havia sido subjugado pelas capacidades individuais ou colectivas, passa a deter uma posição dominante e a imprimir um curso de acção indesejado. O descalabro económico e social, intenso na sua expressão, já não pode ser compensado com artefactos, e se torna efectivamente algo físico, sentido na pele e pela alma das pessoas. Nesse estádio avançado de tomada de consciência da perda, a depressão é uma consequência natural e, o indivíduo diminuído procura um modo de desligamento do eco-sistema social e político, e da ordem afectiva e emocional. Quando uma nação se encontra nesse estado de decadência, a única solução parece ser acelerar o processo de afastamento da realidade. Lamentavelmente, julgo que um extenso número de cidadãos deste amargurado país, já se encontra em processo de abandono, assumindo a perda irreparável como destino final. O mais recente relatório sobre o consumo de psicotrópicos em Portugal indicia um problema muito mais grave que extravasa as noções convencionais de um serviço nacional de saúde, já de si em desfalecimento acelerado. Os utilizadores de substâncias promotoras de alheamento social e emocional, terão de ser entendidos de acordo com outro conceito, próximo da doença colectiva e da náusea de um povo. À falta de receitas médicas, os indivíduos procurarão diversos modos de auto-medicação, de auto-ajuda ou auto-destruição - os suicídios inscrevem-se nesta categoria. A administração de agentes de acalmia ou euforia escapam a uma tabela convencional. Por um lado, teremos os utentes diagnosticados que já percorreram um caminho receituário longo e, por outro lado, teremos camadas jovens da população, que sentindo um desalento precoce em relação ao futuro, enveredam por práticas que estão de acordo com o seu posicionamento cultural - é aqui que entra a marijuana, o haxixe e mais tarde as drogas mais duras. Não falei da bebida, esse perturbador crónico do equilíbrio das sociedades porque precede esta crise em particular, mas convém sublinhar que o problema do consumo do álcool se tem vindo a agravar e não o contrário. A "guerra" que esta crise representa e que arrastou os portugueses para o campo de batalha pela sobrevivência (entre outros povos da Europa e do Mundo), gerará situações pós-traumáticas que terão de ser tratadas sem mais demoras. Esta devastação que corrói a textura das mulheres e homens deste país, tem de ser tratada em sede de pensamento sobre o futuro de Portugal. O conceito tradicional de veterano de guerra está a ser destronado por outra maleita com expressão negativa equivalente - a colonização das doenças mentais e do foro psicológico. Os comprimidos que estão a ser ingeridos de um modo acelerado são um indicador de uma malaise muito mais grave, e cujos efeitos far-se-ão sentir nas décadas que se seguem. O preço a pagar é elevadíssimo e não existe uma receita simples de retoma económica que possa apagar os danos causados às pessoas. O resgate que Portugal vai requerer não se pode resumir a mais uma tranche avultada de dinheiros. Estamos a lidar com vidas humanas e algo que não pode ser reposto com facilidade - falo de esperança -, um bem cada vez mais raro. 

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publicado às 20:39

"Olhe, é capaz de ser um tumor na sua bexiga"...

por Nuno Castelo-Branco, em 16.08.12

Um ano aziago, este de 2012. Como se não bastasse o catastrófico estado de saúde do meu pai, há perto de um mês foi a minha mãe fazer um exame de rotina. Após uma ecografia à bexiga, o relatório redigido em habitual mediquês, garantia a existência de uma "massa" na parede do dito órgão. Foi explicado que a dita "massa-deve-ser" um tumor. Assim, a minha mãe foi recambiada pela médica pública para o Hospital dos Lusíadas - estão a perceber, não estão? - onde de imediato quiseram operá-la. Em suma, uma mulher de setenta e nove anos, pronta e escorreita para a faca e crrespondente pecúlio compensador e, claro está, convenientemente direccionada para uma das tais famosas PPP. Prudente, a minha irmã encetou contactos com alguns médicos conhecidos que aconselharam quais os passos mais indicados a encetar e assim, no Centro de Saúde de Paço d'Arcos, facilmente consegui obter a marcação de uma rápida consulta no local mais apto para proceder aos necessários exames: o IPO. 

 

Hoje, pela hora do almoço, chegou a explicação. Quando dos primeiros exames, o enchimento da bexiga fora feito por via oral. Em suma, garrafa de Luso à boca e o resultado logo viria. Hoje, semanas decorridas e após a repetição dos exames no IPO a conclusão foi bem diferente. O atencioso e competente médico, desconfiado como estava e aconselhado pela prudência, repetiu-os em conformidade com aquilo que nestes casos é exigido. A bexiga foi cheia por outra via, a directa. O resultado? Paredes da bexiga em excelente estado, não existe qualquer "massa", qualquer "tumor" que urja remover. A tal "massa" que surgira no primeiro exame, era apenas um... espaço vazio na bexiga semi-cheia de água! 

 

Ficámos radiantes, o alívio foi imenso e voltei para casa descansado. Após algumas menos preocupadas horas, surgiu-me uma dúvida. Como é possível serem desta forma anunciadas desgraças a pacientes, sem que os médicos estejam absolutamente seguros do diagnóstico? Vê-se assim que pouco lhes importarão os traumas causados ao "doente quase-quase à beira túmulo", mas que afinal se encontra de perfeita saúde. Muito menos ainda, alguns serralheiros de estetoscópio, capitosamente se borrifarão para o resto de uma família já esmagada pela situação do patriarca da mesma.

 

Claro que estamos em Portugal. Claro que não existem responsabilidades, pois tudo está bem quando a coisa acaba bem. Não é?

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publicado às 23:27

Declarando desde já que não sou fumador, sobre as medidas do governo para restringir a oferta de tabaco e dissuadir os fumadores de continuarem com esse vício (que só diz respeito a cada invidíduo, não ao estado), ler o João Campos:

 

«1. Acabar com as máquinas automáticas de venda de tabaco. Disparate - se nos cafés e nos restaurantes o tabaco se voltar a vender "em mão", nem por isso deixa de ser mais difícil para os miúdos arranjarem tabaco (se o objectivo for esse). De resto, quem quiser realmente fumar continua a procurar tabaco - e, em último caso, há sempre o contrabando (que tem a vantagem de provavelmente ser mais barato). Se é possível comprar haxixe em plena Rua Augusta durante a tarde, não há-de ser muito difícil comprar um volume de Marlboro algures.

 

(...)

 

Enfim, mas é o tabaco - a desculpa (esfarrapada) da saúde pública perdoa muita coisa a muita gente (que não vai gostar nada quando a ofensiva chegar ao vinho, ao café, à carne vermelha). Quem vai perder com isto vai ser, justamente a tasquinha lá do bairro. Não vale a pena frequentá-la com a mesma regularidade quando for proibido fumar naquele espaço - o Benfica posso ver em casa, e, de resto, sai mais barato fazer café em casa, tal como comprar minis ou whisky no supermercado. E sempre se pode fumar à vontade (pelo menos por enquanto - há-de chegar o dia).»

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publicado às 16:11






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