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Hugh Hefner foi um político de vulto. Nunca dormiu com os adversários. Nunca se deitou na cama de interesses alheios. Soube alimentar as expectativas de tantos seguidores erectos perante o magistério das suas promessas, da ilusão. O fundador da Playboy foi um verdadeiro democrata. Procurou repartir o entusiasmo pessoal pelo comum dos mortais - mas não era socialista. O monopólio das mulheres era a sua igreja. A revolução sexual de muitos países foi atrasada devido ao poder de censura dos seus regimes. Portugal não foi excepção. Mas temos de ter algum cuidado com a nova estirpe de moralismo de género que parece ter assolado o país. Para muitos Hefner foi o promotor da ideia de mulher-objecto, o anfitrião da sexualidade comercial desconexa das emoçoes, dos afectos, do amor.  Não concordo. Nos EUA, o papel da publicação é inegável. A América sempre teve a tendência para os dilemas do pudor, o mamilo que se mostra ou não, o sexo explícito no filme prontamente rasurado pela brigada de costumes. Enfim, Hefner soube ler a textura sociológica daquele país e construiu um modelo de negócio baseado na líbido. A revista Gina, o erotismo de um Vilhena ou as loiças das Caldas da Rainha, nunca conseguiram alcançar o estatuto mainstream, e o salto indutivo, de "quando a fome é muita", levou a que o processo descambasse para os compêndios de teor pornográfico, sem arte, sem escola. No caso da Playboy, Hefner foi a doce flor num jardim de rosas entesadas. Hugh foi o menino na loja de brinquedos sem hora de fecho. Mas a Playboy é mais ampla no seu rol de consequências e efeitos secundários. As indústrias de entretenimento e lazer, o sector das farmacéuticas, a moda e o design, souberam aproveitar o fenómeno de um modo estrutural e continuado. Os media construíram novelas, filmes e enredos sublinhando o glamour das curvas sensuais. Tornaram a linguagem directa, sem rodeios. A pílula e os comprimidos azuis vendidos mundo fora também podem agradecer à Playboy - fizeram milhões e fizeram milhões de gente feliz à p()la do imaginário de Hefner. Foram tantos os que foram como os que vieram...abraçar esta religião. Os designers de moda, aproveitando a tendência para destapar, reinventaram modos de expor a nádega e sugerir o sexo protuberante. Enfim, todos nós temos uma pequena dívida para com Hugh Hefner. Mesmo os clientes de outras sortes sexuais puderam exprimir a sua contra-libido, as suas preferências. Na fase final da sua caminhada enquanto editor, Hefner soube, mais uma vez, ler o mundo em que vivia. O advento da pornografia acessível pela via digital, e sem restrições, quase que matava a ideia da sugestão de "o que está por detrás do sorriso maroto?", quase que aniquilava o flirt dos derradeiros românticos encostados ao bar de um hotel, quase que desbastava a linda flor colhida de um imaginário toldado pelo excessivo aquecimento da genitália onde impera o tendão e cada vez menos o lirismo. Hugh Hefner merece o prémio móvel da paz e amor. Mexeu com muito. Não existe político que lhe chegue às virilhas. Prometem, mas não cumprem. Hefner nada jurou, mas tantas das suas preces foram cumpridas.

 

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publicado às 08:51

Estado Sentido - a autarquia dos Blogs

por John Wolf, em 28.09.17

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Já temos fregueses! Agora queremos a autarquia!  Vote no blog Estado Sentido!

                                                                                                                                                           

 

(insira o boletim ali ao canto ---->)

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publicado às 20:46

Da libertação sexual ao erotismo como obra de arte

por Samuel de Paiva Pires, em 24.11.12

 

Mario Vargas Llosa, A Civilização do Espectáculo:

 

«A suposta libertação do sexo, um dos traços mais marcantes da modernidade nas sociedades ocidentais, dentro da qual se inscreve esta ideia de dar aulas de masturbação nas escolas, talvez consiga abolir centos preconceitos parvos sobre o onanismo. Em boa hora. Mas também poderá contribuir para desferir outra punhalada no erotismo e, talvez acabe com ele. Quem é que sairia a ganhar? Não os libertários nem os libertinos, mas sim os puritanos e as Igrejas. E continuaria o delírio e a futilização do amor que caracterizam a civilização contemporânea no mundo ocidental.»

 

(...)

 

O sexo só é saudável e normal entre os animais. Foi-o entre os bípedes quando ainda não éramos totalmente humanos, quando o sexo era em nós alívio do instinto e pouco mais do que isso, uma descarga física de energia que garantia a reprodução. A desanimalização da espécie foi um longo e complicado processo e nele teve papel decisivo o que Karl Popper chama «o mundo terceiro», o da cultura e da invenção, o lento aparecimento do indivíduo soberano, a sua emancipação da tribo, com tendências, disposições, desígnios, anseios, desejos, que o diferenciavam dos outros e o constituíam como ser único e intransferível. O sexo desempenhou um papel de destaque na criação do indivíduo e, como mostrou Sigmund Freud, nesse domínio, o mais recôndito da soberania individual, forjam-se as características distintivas de cada personalidade, o que nos é próprio e nos torna diferentes dos outros. Esse é um domínio privado e secreto e deveríamos procurar que continue a sê-lo se não quisermos tapar uma das fontes mais intensas do prazer e da criatividade, isto é, da civilização.

 

Georges Bataille não se enganava quando alertou contra os riscos de uma permissividade desenfreada em matéria sexual. O desaparecimento dos preconceitos, algo libertador, efectivamente, não pode significar a abolição dos rituais, o mistério, as formas e a discrição graças aos quais o sexo se civilizou e humanizou. Com sexo público, são e normal, a vida tornar-se-ia mais aborrecida, medíocre e violenta do que é.

 

Há muitas formas de definir o erotismo, mas, talvez, a principal seja chamar-lhe a desanimalização do amor físico, a sua conversão, ao longo do tempo e graças ao progresso da liberdade e da influência da cultura na vida privada, da mera satisfação de uma pulsão instintiva numa ocupação criativa e partilhada que prolonga e sublima o prazer físico rodeando-o de uma encenação e uns refinamentos que o convertem em obra de arte.»

 

Leitura complementar: O mito do individualismo extremo do nosso tempoA insustentável leveza da literatura do nosso tempoA banalização da políticaDa arte modernaDo erro da equivalência entre culturas à difusão da inculturaDa proliferação de Igrejas à substituição da religião pela alta cultura e aos escapismos contemporâneos.

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publicado às 00:47

 

(Anne Hathaway. Porque nada melhor que uma mulher bonita para ilustrar este post)

 

Sendo, entre outras coisas, conhecido pela crítica que faz às noções de beleza vigentes nos mais variados domínios, em Beauty Roger Scruton sistematiza magistralmente a sua abordagem kantiana ao conceito de beleza. Rejeitando o relativismo da apreciação estética, considerando que a beleza é um valor universal ancorado na racionalidade humana, Scruton crê que é possível educar o gosto de forma a poder apreciar a beleza e fundamentar esta apreciação na razão. À primeira vista, esta posição pode parecer cair num racionalismo exagerado, mas quem conhece o trabalho de Scruton sabe que não é de todo o caso. A verdade é que, embora a contemporânea corrupção das artes nos leve a celebrar o que é feio, como Scruton não se cansa de assinalar, e esta crise fomentada pelo relativismo intelectual e moral se verifique essencialmente nas Ciências Sociais e Humanas, desde Platão que a beleza se encontra na companhia da verdade e da bondade, sendo estes valores o trio que se constitui como centro das preocupações da Filosofia. Partindo desta concepção, o que Scruton faz é recuperar duas ideias de Kant: sendo a apreciação estética individual e, portanto, subjectiva, não deixa de ser passível de ser debatida com terceiros – e daí a possibilidade de se educar o gosto ; e a verdadeira apreciação da beleza é aquela que tem uma perspectiva de interesse desinteressado, sendo um fim em si mesma.

 

É nesta segunda ideia que me quero focar. Scruton afirma que não «avaliamos a beleza de algo apenas pela sua utilidade, mas também pelo que as coisas são em si próprias – ou mais plausivelmente, pela forma como aparecem em si próprias. (…) Quando o nosso interesse é inteiramente tomado por uma coisa, como ela aparece na nossa percepção, e independentemente de qualquer uso que se lhe possa dar, então podemos começar a falar da sua beleza.»1 Desta forma, «consideramos algo belo quando obtemos prazer em contemplá-lo como um objecto individual, por si próprio, e na sua forma apresentada. (…) Estar interessado na beleza é colocar todos os interesses de lado, de modo a atender à coisa em si própria.»2 É isto que é um interesse desinteressado, contrário à abordagem interessada que pressupõe tratar algo ou alguém como um meio para satisfazer os nossos interesses.

 

Feitos os considerandos anteriores, permitam-me procurar aplicá-los a duas situações: a música e a beleza feminina.  

 

Não me recordo onde foi que li ou ouvi que a diferença entre estar apaixonado e não estar é que quando se está a música faz sentido. A ideia parece estar correcta, à primeira vista. Não é preciso realizar um apurado estudo estatístico para chegarmos à noção de que a esmagadora maioria das músicas trata da temática do amor. O que acontece quando estamos apaixonados e ouvimos determinadas músicas é que estas ficam associadas a certos momentos e à pessoa a quem o nosso amor se dirige. Quer o sentimento seja correspondido ou não, quer as músicas nos apareçam por acaso ou sejamos nós a procurar ouvi-las deliberadamente, as composições e as letras parecem feitas de propósito para nós. Quer seja a alegria ou a tristeza que nos invada, parecem realmente fazer sentido. Mas este sentido não decorre da apreciação da música como fim em si mesma. Decorre da condição do sujeito que realiza a apreciação, o que significa que esta tem um contexto do qual o sujeito não se consegue desligar e que não serve o propósito de efectuar uma mais correcta apreciação do valor estético do objecto visado. Por outro lado, quando não estamos apaixonados, por estranho que isto possa parecer a muitos indivíduos, estamos em condições de poder apreciar de forma mais verdadeira – porque inteiramente desprovida de interesse – a beleza de uma música. Não há, contudo, como escapar à temática do amor. Se o tentássemos fazer, provavelmente acabávamos a ouvir uma diminuta porção de toda a música jamais realizada. Mas mesmo que pudéssemos escapar a esta temática, por que o haveríamos de fazer? Juntamente com a verdade, a bondade e a beleza, o amor também se constituiu desde a Antiguidade Clássica como temática de eleição dos filósofos, dado que se encontra inscrito na natureza humana e é provavelmente o sentimento mais poderoso que qualquer ser humano pode sentir. Mesmo quando não estamos apaixonados, ou sonhamos em estar ou queremos não cair nesta condição. O amor define-nos, e define em parte a forma como vemos e estamos no mundo.

 

Isto significa também que o amor está ligado à apreciação da beleza. Dado que o amor se revela na concretização do desejo sexual erótico individualizado, tendo precisamente a ver com a intencionalidade da emoção sexual dirigida a um sujeito corporizado e não apenas a um corpo, importa salientar que, citando novamente Scruton, “De acordo com Platão, o desejo sexual, na sua forma comum, envolve um desejo de possuir o que é mortal e transitório, e uma consequente escravização ao aspecto menor da alma, o aspecto que está imerso no imediatismo sensual e nas coisas deste mundo. O amor pela beleza é realmente um sinal para nos libertarmos deste apego sensorial, e de começarmos a ascensão da alma em direcção ao mundo das ideias, para aí participarmos na versão divina da reprodução, que é a compreensão e a transmissão de verdades eternas.»3 Quando os nossos sentidos estão despertos, quando procuramos a beleza como fim em si mesma, por vezes, embora raramente, deparamo-nos com uma mulher que nos deixa com uma sensação de verdadeira admiração por si, sem que tal envolva um interesse sexual. Nestes momentos, percebemos realmente o dilema entre os nossos desejos e instintos primários e o nosso eu mais racional. Prevalecendo o segundo, abre-se a porta a todo o um novo tipo de sensações. Chega a tratar-se, quanto muito, caso conheçamos a pessoa e, portanto, esta não seja meramente uma estranha que se nos atravessa na rua, de um amor platónico – a sublimação do amor erótico, dirigido a algo mais elevado que é o prazer da contemplação de algo belo. Não contém, nem poderia, o desejo sexual, porque tal seria conspurcar um objecto que para nós se torna sagrado.

 

Quando existe desejo sexual, quando se trata da mais comum forma de amor, abre-se a porta à eventualidade de sermos invadidos por sensações bem menos tranquilizantes que as referidas no parágrafo anterior. Fernando Pessoa escreveu que todas as cartas de amor são ridículas. E são-no porque ainda antes de serem escritas têm um propósito definido – conquistar a outra pessoa – que advém de algo tão forte que chega a escravizar quem escreve a carta. Quando o eu irracional, primário e movido pelo desejo, se sobrepõe ao eu racional, o resultado é quase sempre desastroso, ridículo e piroso. Numa carta de amor, é-o necessariamente porque a carta é um mero instrumento que visa a conquista do outro, que é objectificado com vista a satisfazer as necessidades emocionais e sexuais de quem escreve. Amar é um egoísmo totalitário e avassalador. Quando não se está inebriado por este tipo de sentimentos, apreciar a beleza de alguém como fim em si mesmo reveste-se de uma natureza completamente diferente. E se por acaso o nosso espírito o decidir declarar à visada, a sensação de o fazer e após o fazer é completamente diferente. É algo verdadeiramente genuíno e que conforta a alma daqueles que estão despertos para a beleza que se encontra neste mundo. Afinal, o que poderá ser mais poético do que a beleza pela beleza?

 

Como escreveu Wilde, “Aqueles que encontram belas significações nas coisas belas são cultos. Para esses há esperança. São os eleitos aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.”



1 - Roger Scruton, Beauty, Oxford,Oxford University Press, 2009, p. 17.

2 - Ibid., p. 26.

3 - Ibid., p. 41.

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publicado às 02:35

Sintomas da decadência Ocidental

por Samuel de Paiva Pires, em 31.07.12

Jack Donovan, Everyone a Harlot:


«People used to have decent aspirations. They wanted to have families. They wanted to do good work. They wanted to be good citizens, good Christians, good people. Now everyone wants to be a player and a porn star. Everyone wants to be the kind of monkey that all of the other monkeys wants to rub up against.


We call this matrilineal hump-fest "progress," and seek our moral redemption in recycling.


Sex may be natural, and it sure is fun, but it's just a part of life. A society that over-emphasizes sex to the point where it seems like the only thing in life that means anything is grotesque and degraded, and for most people it delivers more emptiness than ecstasy.


In healthy patriarchies, men push themselves to earn the respect and admiration of other men. They work to prove their strength, courage and competence to each other. Men pride themselves on their reputation for mastery of their bodies, their actions, and their environment. They want to be known for what they can do, not just how well or who they can screw. And they sure as hell don't waste their time trying to figure out what they can do to bedazzle bimbos.»

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publicado às 14:24

Afinal já consegui perceber o problema

por Samuel de Paiva Pires, em 11.04.12

O problema, para a Leonor Barros, a Ana Vidigal  e outros é, afinal, o facto de José António Saraiva ser capaz de utilizar os seus olhos e o seu cérebro para operar duas acções humanas: observar e classificar. Passam ao lado do argumento central e que realmente importa no texto de JAS. Se o problema é a classificação derivada da observação e descrição, deixem-me então contar-lhes uma observação que me fizeram no início da primeira noite que fui a um bar gay. Dois gays olharam-me de alto a baixo, viraram-se para mim e afirmaram categoricamente: "Você é hetero, não é gay." Sorri e pronto. Qual é o problema? Todos os dias passo algum tempo no Chiado e, sentando-me numa qualquer esplanada ou nos Armazéns a jantar, consigo dizer quem é gay com um alto grau de probabilidade de acertar. E quem disser que o não consegue, ou está a mentir ou deve andar de olhos fechados e sem utilizar o cérebro. Todos classificamos os outros, mesmo que o façamos inconscientemente e sem o exteriorizar. Aliás, se há pessoas que refinam apuradamente esta capacidade são precisamente os gays. Não há mal nenhum nisso, é uma característica humana e que nos distingue dos animais.

 

Entretanto, recomenda-se especialmente aos que andam sempre com a tolerância na ponta da língua que leiam um artigo que José António Saraiva escreveu há uns meses e que é mais do que apropriado: Uma polícia do pensamento?

 

Adenda: Quando escrevi "é uma característica humana e que nos distingue dos animais", estava a pensar em classificação em termos do que comummente se chama tribos urbanas, mesmo pertencendo às mesmas espécie e comunidade. Alertado pelo Filipe Faria, rectifico salientando que a capacidade para definir grupos instintivamente está também presente nos animais.

 

Leitura complementar: O falhanço mental da brigada do politicamente correcto ou ainda o artigo de José António Saraiva sobre a homossexualidade contestatária; A homossexualidade como revolta contra o niilismo modernoEu, retrógrado, curvo-me perante os adiantados mentaisTodas as diferenças de opinião são também epistemológicas e metodológicas

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publicado às 14:00

A homossexualidade falsa vista por quem trabalha com ela

por Samuel de Paiva Pires, em 11.04.12

Na caixa de comentários, Abel Matos Santos:

 

«Como profissional de saúde que trabalha, também, com adolescentes, posso afirmar categoricamente que assistimos a um fenómeno absolutamente assustador, onde muitos adolescentes e jovens adultos que não são homossexuais se envolvem em práticas homossexuais pela pressão dos pares, por estar na moda e pela pressão social, tendo muitos desenvolvido problemas emocionais graves que os leva, entre outras coisas, a automutilações, depressões e suícidio. JAS tem toda a razão no seu artigo! Venham as ILGAS e os arautos dos homossexuais contestar, mas a realidade impoe-se sempre a ideologia.»

 

Leitura complementar: O falhanço mental da brigada do politicamente correcto ou ainda o artigo de José António Saraiva sobre a homossexualidade contestatáriaA homossexualidade como revolta contra o niilismo modernoEu, retrógrado, curvo-me perante os adiantados mentaisTodas as diferenças de opinião são também epistemológicas e metodológicas

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publicado às 00:55

(imagem daqui)

 

1 - A esmagadora maioria das reacções ao artigo de José António Saraiva são bem reveladoras do maniqueísmo que grassa em muitas mentes, incapazes de ver o mundo em tons de cinzento – que é como ele realmente é –, concentrando-se no acessório (a descrição que JAS faz do rapaz que encontrou no elevador) para ofender aqueles que não apreciam e deixando o essencial de lado, talvez porque tenham consciência que as suas reacções manifestamente exageradas escondem aquilo que lá no fundo sabem ou que pelo menos vislumbram como até podendo ser verdadeiro mas com que não querem confrontar-se por poder colocar em causa os dogmas em que acreditam: que, na verdade, JAS tem razão quando diz que há muitos homossexuais que não são realmente homossexuais mas sim mentes fracas que em face do niilismo moderno encontram na orientação sexual uma forma de afirmação e/ou revolta, sendo, acrescento eu, produtos da ideologia de género que faz crer que a orientação sexual pode ser uma escolha consciente e racional, o que é falso.

 

2 – Note-se que não se trata de uma contestação geracional num sentido colectivista, isto é, organizado e com propósitos bem definidos (como o foram as lutas estudantis que JAS refere) mas, num contexto de isolamento individual e alienação, sendo a sexualidade uma vertente da afirmação da personalidade, pode funcionar este processo quase espontaneamente como forma de revolta não se sabe bem contra o quê, em virtude do niilismo, do vazio de significado e propósito, acabando alguns indivíduos por se reconhecer nesse tipo de comportamento, tornando-o uma moda e atraindo mais indivíduos para esse estilo de vida. Conheço alguns casos que me parecem estar perfeitamente enquadrados nisto, daí dizer que o ponto central do artigo merece ser explorado. É interessante do ponto de vista sociológico, porque acaba por ser um fenómeno que vem a ter alguma visibilidade (no Chiado é mais do que evidente) e também do ponto de vista da psique, podendo servir para percebermos melhor os tempos em que vivemos. É primeiramente uma revolta individual, e só depois pode ou não ter efeitos nas esferas sociais e/ou política. Quando o que vários indivíduos fazem se torna uma tendência crescente e facilmente observável na sociedade, e se eu ao observá-la conseguir perceber qual o substrato filosófico que lhes dá sustentação prática (e este é o do neo-marxismo) e se eu conseguir provar que esse substrato está errado, como eu consigo com o neo-marxismo, então eu tenho o dever de o dizer/escrever, se quiser intervir criticamente na sociedade onde vivo.

 

3 – Tomando como dado adquirido que a orientação sexual é genética, isto não equivale a dizer que seja uma doença. A nossa personalidade, da qual faz parte a orientação sexual, é fruto da combinação de factores genéticos/biológicos, que nos são transmitidos pelos pais, e de factores sociais/ambientais. O que acho é que há uma transmissão genética, e há vários estudos que apontam nesse sentido, um dos quais bastante recente (2008), sendo este um debate já bem velhinho. Não estou a fazer nenhum juízo de valor ou a criticar. Pelo contrário, estou a dizer que é natural e que não é uma doença, uma fase ou uma escolha. Por outro lado, a ideologia de género é que inventou as muy politicamente correctas possibilidades de escolha do género e orientação sexual, que acabam, essas sim, muitas vezes por originar perturbações mentais. Não há contra-senso porque, tal como JAS, o que digo é que há gays que o são realmente, e depois há estes que acham que são e/ou que podem estar tão confundidos que nem sabem o que são (a ideologia de género faz muito por isso). Talvez um dia a ciência nos auxilie sobre isto. Mas por ora, tudo isto serve também para ilustrar que, sem fazer juízos de valor sobre o que é uma verdadeira orientação sexual, mas sim sobre processos sociais e individuais que advêm de teorias falsas que se desenvolvem e propagam num contexto niilista e relativista, é saudável sairmos dos redis do politicamente correcto e questionarmos aquilo sobre o que nem a ciência ainda nos deu respostas conclusivas.

 

4 - A incapacidade de muitos indivíduos para questionar as ideias pré-concebidas, politicamente correctas, que professam como um credo (provavelmente sem saber de onde provêm), e de discutir civilizadamente um qualquer tema, por mais delicado que seja, como este é, é claramente mais um sintoma do falhanço moral e educacional da sociedade portuguesa. Sem uma formação sólida nas humanidades e que fuja aos cânones do neo-marxismo, não admira que muita gente seja incapaz de perceber que generalizações são explicações de princípio, gerais, com um certo grau de verificação, mas com excepções que evidentemente servem para as confirmar como tendências.  É por isso que as estatísticas nunca são reais. Só a irregularidade da realidade é real, como escreveu Jung. E esta diz respeito a cada indivíduo, um ser único e irrepetível, pelo que ninguém obviamente diz que "todos os homossexuais são-no porque escolhem ser" ou "todos os homossexuais são-no porque querem revoltar-se contra os pais ou a sociedade" ou "todos os homossexuais são-no porque está na moda". Quando perceberem que aquilo que qualquer pensador social ou intelectual público minimamente credível faz é colocar hipóteses sobre comportamentos individuais, e que não sendo o mundo a preto e branco, podem verificar-se até em combinações várias, mas não deixam de ser hipóteses e especulações úteis para tentar entender a sociedade em que vivemos, mesmo com as excepções que confirmam a regra, talvez nessa altura o debate público em Portugal possa ser menos acrimonioso.  

 

5 – Como muitos recusam o que decorre dos pontos anteriores, enveredam pelo campo mais fácil, o do insulto, apelidando José António Saraiva ou quem com ele concorde de homofóbicos, como já hoje fizeram comigo, quando não partem para outros mimos. Claro que o facto de lidar com diversos gays ou ir a bares gays sem qualquer problema não deve obstar à minha homofobia. Deve ser um tipo especial de homofobia. Mas daquela que muitos gays têm, ao saberem perfeitamente que aquilo que aqui escrevi corresponde em grande medida à realidade que facilmente observamos em Lisboa. Para finalizar, praticamente só vi virgens ofendidas e histéricas que partiram logo para o insulto. Tentar analisar o que já por várias vezes salientei como um válido ponto central e debater civilizadamente é coisa que não assiste às mentes cheias de certezas absolutas. Entretanto, se começassem por ler isto e isto, podia ser que aprendessem qualquer coisa e conseguissem ir um bocadinho além do “que texto nojento”, “este gajo é um nojo”, “este gajo é homofóbico”, “este gajo anda a galar meninos de 17 anos” e outros mimos muito sofisticados.

 

Leitura complementar: A homossexualidade como revolta contra o niilismo modernoEu, retrógrado, curvo-me perante os adiantados mentaisTodas as diferenças de opinião são também epistemológicas e metodológicas

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publicado às 22:23

Eu, retrógrado, curvo-me perante os adiantados mentais

por Samuel de Paiva Pires, em 10.04.12

Em reacção ao meu pequeno post de ontem, João Quadros, no Twitter, referiu-se a este dizendo que "há blogs no século XVIII!!!". Não sei bem se era um insulto ou um elogio, pois poucos séculos existiram tão ricos em desenvolvimentos intelectuais, políticos e sociais como o XVIII. Entretanto, o camarada Francisco Silva, que alinha pelo mesmo diapasão que o escriba anterior, produziu um texto onde pouco mais faz que insultar José António Saraiva, sem nada acrescentar à discussão do ponto central do artigo, que, como escrevi aqui, parece-me digno de ser explorado e debatido. Mas, para que os adiantados mentais dos nossos tempos se dêem ao trabalho de o fazer sem começarem num pranto, quais progressistas virgens ofendidas, têm que tentar sair dos redis do politicamente correcto. Cá os espero, se quiserem dar-se ao trabalho. Podem começar, por exemplo, por estes dois artigos da Slate e os estudos a que se referem. Sintam-se bem-vindos ao século XXI.

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publicado às 10:10

A homossexualidade como revolta contra o niilismo moderno

por Samuel de Paiva Pires, em 10.04.12

Não costumo apreciar José António Saraiva, mas daquilo que me é dado observar do que me rodeia, acho que o ponto central do artigo merece ser explorado. Creio, como o autor, que a orientação homossexual é genética. Mas que se vê muita gente a enveredar por aí como se fosse uma escolha (a ideologia de género e a Escola de Frankfurt ajudam a perceber porque muita gente pensa que pode fazer essa escolha), e como forma de constestação/revolta, também me parece verdade. Que isso tenha efeitos nefastos na psique individual é apenas natural, e o caso Renato Seabra é só um exemplo do que pode acontecer ao tentarmos alterar a nossa natureza.

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publicado às 00:20

Máximas para a vida

por Samuel de Paiva Pires, em 26.09.11

 

(daqui)

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publicado às 18:42

Esperma e défice

por Nuno Castelo-Branco, em 20.04.11

Aqui está mais uma matéria a considerar pela famosa troika, vulgarmente conhecida por FMI.

 

Por cá, habituaram-se a que tudo seja "à  borla". A última polémica provem da maternidade Alfredo da Costa e há alguns minutos, o telejornal da SIC Notícias, dizia existir um grande mal estar pela decisão de pedir o pagamento pelo fornecimento de esperma a casais inférteis. 

 

O dito sortido de esperma chega directamente de clínicas catalãs, especializadas neste tipo de ordenha e cada unidade, monta até aos 350€, fazendo empalidecer qualquer bandeirada cobrada por outro bem conhecido sector de actividade (de luxo, diga-se). Os estatais adquirentes portugueses, pagam o produto e aplicam-no a quem dele necessite. Um bom negócio para os fornecedores, até porque matéria prima não faltará, espantando apenas, o porquê de não existir por cá quem o faça. Resta-nos saber se os prestimosos catalães ofertam a semente, ou se também cobram pelo serviço. Isto leva-nos a várias considerações, algumas delas bem susceptíveis de equívocos ou pelo menos, de umas gargalhadas de boca escancarada.

 

Lá se vai o ADN de Afonso Henriques. Já temos os Seats que chegam da Catalunha e agora, esperma pago pelos contribuintes e que  alguns pretendem receber gratuitamente. Com um bocadinho de surrealista lata, ainda poderão vir um dia dizer que o filho é "primo" de Salvador Dali.

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publicado às 15:13

O Avante Sex Festival este ano chega mais cedo

por Samuel de Paiva Pires, em 11.03.11

 

Há uns meses, escrevi um texto sobre o Avante, por muitos lido, divulgado e criticado. Neste, entre várias outras coisas, critiquei aqueles que, não sendo comunistas, também contribuem para o PCP através da participação nesse ajuntamento colectivo, desculpando-se muitos com o "vou lá só pelo convívio" e coisas do género. Acaba, portanto, por ser uma festa com pessoas de todos os quadrantes políticos.

 

Ora, este ano o Avante chega mais cedo. A preceder todos os festivais musicais de Verão e festas partidárias, eis que no Sábado, 12 de Março, iremos assistir a uma gigantesca libertação de libido e adrenalina, da esquerda à direita. Le Bon e Freud explicaram como se comportam as massas, descrevendo os processos psicológicos que ocorrem nos indivíduos que as compõem. Resumidamente, o que acontece é uma perda de discernimento e da vontade própria individual, dissolvendo-se os indivíduos numa massa, acabando estes por regredir até um estado mental primitivo onde predomina o inconsciente, que permite aceitar sem entraves as ideias que passam dos líderes para a massa. Freud explica este processo pela regressão da libido, em que cada indivíduo acaba por estar relacionado com os outros através de laços libidinais. A massa adquire desta forma um sentimento de invencibilidade, precisamente pela regressão mental que ocorre, sendo extremamente sugestionável, pelo que tão facilmente pode ser heróica quanto criminosa.

 

Posto isto, o que me parece é que Sábado irá ocorrer uma grande festarola, com efeitos semelhantes a uma vitória do Benfica no campeonato, que vai deixar muita gente contente. Ora vejamos:

 

1) Será uma iniciativa que estimulará a economia: operadores de transportes públicos e gasolineiras vão ter uma facturação acrescida ao normal; tipografias, serigrafias e empresas de publicidade já estarão a ter uma facturação elevada com a produção de panfletos, t-shirts, bandeiras e afins; cafés, restaurantes e tascas vão ganhar imenso com a venda de cervejas durante a manifestação e de jantares a seguir a esta; os bares do Bairro Alto, Cais do Sodré e Santos vão ter uma noite em cheio, assim como as discotecas; pensões e hotéis também sofrerão um aumento de reservas.

 

2) Os jovens contestatários vão libertar a sua adrenalina e libido, quer pela participação na manifestação, quer pelas actividades sexuais que acontecerão a seguir a esta;

 

3) Membros do BE, PCP, PNR e outros grupos que se têm colado a esta manifestação, vão também libertar as suas frustrações e sentimentos revolucionários, na senda de Marx, Lenine, Trotsky ou Hitler e Mussolini, tendo como recompensa a sensação de fidelidade aos seus líderes ideológicos;

 

4) A PSP e o SIS vão encarar isto como um treino em que colocarão em prática muitos dos seus instrumentos e técnicas, oleando as respectivas máquinas e deixando os respectivos funcionários com um sentimento de dever cumprido pela imposição da sua autoridade;

 

5) José Sócrates vai inventar umas medidas quaisquer e dizer que as manifestações fazem parte da festa da democracia; Cavaco Silva vai continuar a ladainha de incentivo à contestação por parte dos jovens; os bloquistas e comunistas que verdadeiramente estão por trás da manifestação sentir-se-ão realizados, ao mesmo tempo que não percebem que a aparente contestação é uma forma de reforço da legitimidade do regime e dos governantes actuais.

 

6) Por último, e talvez o ponto mais importante no meio desta parvoíce toda: Lisboa e Porto vão ser as capitais europeias do sexo. No fundo, a quebra de adrenalina no fim da manifestação será compensada com a libido libertada posteriormente, acordando toda a gente com um rasgado sorriso e uma sensação de que realmente revolucionaram alguma coisa, quando tudo permanecerá na mesma. 

 

 

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publicado às 01:10

 

«Habitantes armados com paus a enxotarem nudistas ou outros sem paus a puxarem-nos pelas pernas e a metê-los à força dentro de água. Uma luta por 300 metros de praia pode dar nisto. Em 2007, 300 pessoas munidas de paus invadiram a praia da Estela, na Póvoa de Varzim, para expulsar os naturistas. Este Verão, os populares voltaram a ser protagonistas de agressões, acusando os naturistas de se servirem da praia para práticas sexuais.»

 

Jornal i

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publicado às 13:04

Amor Líquido na era da Modernidade do Estado Educador Sexual

por Samuel de Paiva Pires, em 28.06.10

Eu que sou terminantemente contra a imposição da obrigatoriedade das aulas de educação sexual - mais uma vez se coarcta a liberdade de escolha dos pais - dei por mim a ler um autor que talvez não fizesse mal aos que de forma muito progressista vão conseguindo banalizar ainda mais aqueles que são alguns dos instintos e actos que de forma mais acentuada caracterizam o ser humano: Zygmunt Bauman, sociólogo que cunhou o conceito de modernidade líquida, considerando que na época em que vivemos tudo é efémero e a vida um amontoado de escolhas fragmentadas e diversos projectos que vamos encetando consoante as circunstâncias e contextos em permanente mudança acelerada. É também o autor de um interessante livro onde aplica o mesmo conceito às relações humanas. Para Bauman, os laços humanos padecem, na actualidade, de uma imensa fragilidade derivada de duas forças contraditórias que levam os indivíduos a criar laços, ao mesmo tempo que os pretendem manter flexíveis. Desta forma, considera que a modernidade líquida, e passo a citar a contracapa, "ameaça a capacidade de amar e os crescentes níveis de insegurança, tanto nas relações amorosas como nas familiares, e até no convívio social com estranhos".

 

 

Aqui fica uma breve passagem de Amor Líquido, editado pela Relógio D'Água, com o subtítulo Sobre a fragilidade dos laços humanos, (páginas 66 e 67) :

 

«Como que antecipando o padrão que iria prevalecer na nossa época, Erich Fromm tentou explicar a atracção do «sexo em si» (do sexo «pelo sexo», praticado separadamente das suas funções ortodoxas), referindo-se à sua qualidade como uma (enganosa) resposta ao desejo, demasiadamente humano, de «fusão total» por meio de uma «ilusão de união».

 

União - porque é exactamente o que homens e mulheres procuram ardentemente no seu desespero de escapar à solidão de que já sofrem ou que temem estar por vir. Ilusão - porque a união alcançada no breve instante do clímax orgástico «deixa os estranhos tão distantes um do outro como estavam antes», de tal modo que «sentem o seu estranhamento de maneira ainda mais acentuada». Neste papel, o orgasm sexual «assume uma função que o torna não muito diferente do alcoolismo e do vício em drogas». Tal como estes, ele é intenso - mas «transitório e periódico».

 

A união é ilusória e, no final, - a experiência tende a ser frustrante, diz Fromm, por ser separada do amor (ou seja, permitam-me explicar, do tipo de relacionamento fürsein: de um compromisso intencionalmente duradouro e indefinido para o bem-estar do parceiro). Na visão de Fromm, o sexo só pode ser um instrumento de fusão genuína - em vez de uma efémera, dúbia e, em última instância, autodestrutiva impressão de fusão - graças à sua conjunção com o amar. Qualquer que seja a capacidade geradora de fusão que o sexo possa ter, ela vem da sua «camaradagem com o amor».

 

Desde que Fromm escreveu sobre a questão, o isolamento do sexo em relação a outros domínios da vida tem avançado mais do que nunca.

 

Hoje o sexo é a própria síntese, talvez o silencioso/secreto arquétipo, daquele «relacionamento puro» (um paradoxo, com certeza: os relacionamentos humanos tendem a preencher, infestar a modificar todos os recessos e frestas, por mais remotos, do Lebenswelt, de modo que podem ser tudo menos «puros») que, como indica Anthony Giddens, se tornou o modelo alvo/ideal predominante da parceria humana. Agora espera-se que o sexo seja auto-sustentável e auto-suficiente, que se «mantenha sobre os próprios pés», para ser julgado unicamente pela satisfação que possa trazer por si mesmo (ainda que, em regra, ela seja interrompida bem antes da expectativa gerada pelos media). Não admira que também tenha crescido enormemente a sua capacidade de gerar frustração e de exacerbar a própria sensação de estrangulamento que se esperava que curasse. A vitória do sexo na grande guerra da independência tem sido, na melhor das circunstâncias, uma vitória de Pirro. Os remédios maravilhosos parecem produzir moléstias e sofrimentos não menos numerosos e comprovadamente mais agudos do que aqueles que prometiam curar.

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publicado às 00:33

"As mulheres são o que são"

por Samuel de Paiva Pires, em 17.05.09

"Roubo" à Eugénia de Vasconcellos o seu postal n.º 49 da magnífica série "As mulheres são o que são". Que continue a presentear-nos diariamente com a belíssima prosa a que já nos habituou:

 

 

As mulheres trocam tudo. Especialmente trocam quando desligam o coração do corpo: impossível cirurgia. Porque a fazem? Querem um amor livre de sofrimento como um iogurte livre de açúcar? Não há. Vão para a cama com um homem, têm um orgasmo e acham que se apaixonaram. Se têm o azar de ser sexualmente compatíveis com esse homem, porque as anteriores experiências do sexo os deixaram a ambos no mesmo patamar performativo, acham que amam, que é a mística da pele ou as feromonas ou outra merda qualquer sentimental e zoológica. Se a isto se junta alguma proximidade de referentes académicos e sociais é, seria se eles deixassem, a predestinação, como não deixam, o drama de ter e perder! Viram a luz, pela vigésima vez, mas já esqueceram as outras dezanove... Os homens têm, no sexo como na linguagem, um coração mais escorreito, menos rasteiro. Andam mais próximo da verdade. Sexo é sexo. É desejo e posse todo o tempo em que o desejo de posse durar. Se é bom, melhor, demora mais do a ao z. Mas não lhe chamam amor por causa disso. Claro que todo aquele maluquedo de serem o senhor irresistível número x/2009 os envaidece. Isto é um desencontro horrível: elas engolem dicionários à procura do brilho da palavra que, enquanto os ofusque, as enalteça, eles andam à procura do primeiro, tão simples, gosto de ti. Em tudo o que é genuíno, do amor à arte, há, não a elaboração, mas o despojamento da carne em espírito vivo.

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publicado às 01:30

Porque posso ser simultaneamente liberal e conservador...

por Samuel de Paiva Pires, em 19.08.08

...vou-me dar ao luxo de escrever este post. Já estou um pouco cansado de dois tipos de programas na televisão portuguesa, aos quais evidentemente não assisto, mas cuja existência me exaspera. Em primeiro lugar, aquelas tertúlias de mal dizentes que integram os programas da manhã e da tarde onde se dedicam a perorar acerca da vida de terceiros, porque como bom liberal individualista acho completamente ridícula tamanha exposição pública dos alegados vips e, pior ainda, a desfaçatez com que outros se prestam a comentar de forma moralista e/ou insinuante sobre as vidas desses. É nojento, no mínimo.

 

Em segundo lugar, e o que ocupará o resto deste post, aquela novela terceiro mundista e de baixo nível intitulada Morangos com Açúcar, porque de cada vez que faço zapping, ou quando em casa de alguém que assiste a tal fenómeno de embrutecimento do espírito, entre as 7 e as 8 da noite, hora de refeição em muitos lares portugueses, normalmente deparo-me com alguma cena de sexo implícito, parecendo-me até que por ora grande parte do enredo, se é que se pode dizer que aquilo tenha algum enredo, roda à volta de sexo e da imagem social. Quando assisto por breves minutos aos diálogos e às mensagens que são passadas nesta série quase corro imediatamente a ler um livro para recuperar da abrupta estupidificação sofrida.

 

Chamem-me conservador, dentro do quadro maior liberal em que ainda julgo inserir-me, mas se alguns poderão arguir que cabe aos pais impedir que os filhos, especialmente crianças e adolescentes, assistam a este tipo de programas (refiro-me agora apenas aos Morangos com Açúcar), a mim parece-me que ao Estado português que frequentemente intervém em tantas áreas onde não devia, caberia a principal responsabilidade de definir o tipo de conteúdos adequados aos diversos horários no que aos canais de televisão de sinal aberto diz respeito, ainda que sejam de índole privada.

 

Estou longe de ser um moralista, muito pelo contrário, abomino moralismos que normalmente me soam a falsidade, mas acho que este tipo de programas passam uma mensagem completamente distorcida da realidade, para além de me parecer que os produtores padecem da falta de uma dose de bom senso, especialmente tendo em consideração a exposição a que as crianças estão sujeitas às horas de emissão da série.

 

É óbvio que nos dias que correm as crianças têm acesso a tudo e mais alguma coisa, seja pela televisão, revistas, livros, internet. Já há 10 anos atrás, quando eu tinha 11 anos, tinha acesso a imensa informação principalmente através da internet, que na altura ainda muito pouca gente tinha. Ainda para mais se tiverem acesso a algum serviço de tv por cabo ou satélite, facilmente acederão por exemplo a pornografia gratuitamente, tal como através da internet. Mas esses são serviços pagos, não são serviços públicos como as televisões de sinal aberto, repito, ainda que privadas, se prestam a ser, que desempenham um grande papel de influência em muitas mentes ainda em processo de formação pessoal e social.

 

É que para mim a democracia, especialmente se aliada ao conceito liberal como será normal nos países ditos Ocidentais, traz consigo um conceito muito mais importante, o da responsabilidade. E actualmente parece que muitos acham que podem fazer o que lhes apetece impunemente, ninguém se dá sequer como responsável pelos seus próprios actos, e muitos dos que deveriam dar exemplos de responsabilidade preferem demitir-se dessa, sem que sejam extraídas consequências das suas acções ou omissões.

 

A democracia e o liberalismo não implicam a selvajaria e a desresponsabilização, muito pelo contrário, implicam sim que cada qual seja responsável perante os outros e que haja um mínimo de regras básicas de coexistência em sociedade, os tais referenciais ou quadros de valores que muitos dizem que o liberalismo não tem, esquecendo-se da ética protestante ou daqueles para quem o catolicismo não tem qualquer incompatibilidade com o liberalismo, ou ainda os que preferem um conjunto de regras baseado em valores inscritos num qualquer contrato social que podem nem estar necessariamente relacionados com qualquer ética religiosa.

 

Infelizmente vivemos num regime dominado pela ditadura intelectual e cultural da esquerda, onde muitos ainda acham que o 25 de Abril foi feito para sermos todos absolutamente livres ao ponto de fazermos o que nos dá na real gana, numa espécie de analogia ao rousseauniano bom selvagem, ao passo que simultaneamente temos vindo a deixar na gaveta aquele príncipio geral do direito e do próprio liberalismo de que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros.

 

E felizmente eu ainda tenho a liberdade de não ter que assistir a cenas de sexo implícito ou afins quando estou a jantar. Já que uns se demitem da responsabilidade que naturalmente lhes cabe a montante, outros têm por obrigação que a assumir a jusante, depois de verem a sua liberdade devidamente violada pelo excesso de liberdade dos outros. Mas quantos, especialmente os que são pais, estão dispostos a fazê-lo, ou se preocupam sequer? Pensem agora nas gerações que aí vêm, a mim já me vão "preocupando", os que têm menos 2,3,4 anos que eu, uma imensidão de gente preocupada exclusivamente com a imagem e possuindo principalmente uma visão distorcida acerca das relações sexuais que este tipo de programas lhes tem vindo a transmitir.

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publicado às 04:09






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