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Tal como dantes...

por Nuno Castelo-Branco, em 16.11.16

 

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 ...os Estados Unidos da América são em termos internos um Estado de Direito e na esfera internacional, naquela que mais nos deveria importar, um império, talvez o mais poderoso, mesmo em termos comparativos, da História registada. 


Poderemos datar o advento imperial aquando da expansão para leste e em direcção às terras que devido à herança de Tordesilhas, teoricamente coube ao então recentemente criado México independente, para logo depois, exterminados os índios e consolidada a posição hegemónica na América do Norte, passarem os EUA decididamente à expansão ultramarina, fosse ela de forma muito directa - a Guerra Espano-Americana com o prévio preparar da sempre fácil histeria da opinião pública interna através dos artifícios mediáticos de Hearst e do seu rival amarelado Pulitzer - ou de forma enviesada através da despótica suserania sobre uma infinidade de Estados central e sul-americanos a que rapidamente foi dada a sintomática e bem merecida denominação de repúblicas das bananas. Em suma, aos our son of a bitch Trujillo e Baptista, sucederam-se os inevitáveis Castro, Noriega e vários tipos de Maduro.  

A lista de possessões coloniais adquiridas é longa e dispensa comentários, pois vão desde a Cuba protegida até ao 1º de Janeiro de 1959, às Filipinas, Hawai, Porto Rico e um rosário de ilhas estrategicamente colocadas no Pacífico, onde Midway é apenas mais uma entre outras. Por mero acidente da relação de mútuo interesse que decorre da Aliança Luso-Britânica, Portugal não sofreu no ocaso do século XIX o mesmo destino do seu vizinho espanhol e hoje os Açores ainda fazem parte do conjunto nacional, enquanto Cabo Verde e muito possivelmente Timor e Macau, viram chegar até ao final do século XX, a presença portuguesa que agora continua sob outra forma menos comprometedora para a reputação ditada por vendavais da história.

São estes, os factos.

 Tal como durante o período que antecedeu a primeira eleição do agora constitucionalmente resignado à saída Barack Obama, as eleições presidenciais americanas e o sistema aparentemente absurdo e inextricável de selecção de candidatos a gestores de equilíbrios dos lóbis locais, não me despertou grande interesse, pois tal como dantes, o princípio da ressalva imperial é alheio à personalidade e grupos que circundam o escolhido pelo bastante volúvel colégio eleitoral. A Administração permanente existe, é inamovível, não é eleita e decide na obscuridade dos gabinetes. 

Como Império, os Estados Unidos possuem interesses entre os quais o princípio do second to none é uma constante desde 1918, ano em que a passagem de testemunho foi patente aos olhos de uma Europa prostrada pela guerra que apenas beneficiou aquela potência transatlântica. Passaram então os EUA a estabelecer a aceitável forma da organização política, social, na cultura de massas, a ordem financeira e económica a nível planetário, apenas adaptando os seus ímpetos às situações criadas pela própria evolução do sistema internacional. Passaram assim por diversas fases, apenas sendo notável uma certa ausência no decorrer dos anos difíceis da Grande Depressão, quando internamente tiveram de enfrentar uma esmagadora crise social decorrente da implosão do sistema financeiro ditada pelo desvario da ganância, situação tornada insustentável pelas catastróficas consequências dos anos de seca - o chamado período da Dust Bowl - que agravam enormemente a penúria generalizada que apenas seria suprida pelo providencial desencadear da II Guerra Mundial. Daí à dominação planetária foi apenas uma questão de tempo, momento esse que chegou aos nossos dias.

America First!, o desabafo já escutado nos anos imediatamente anteriores a Pearl Harbour e que sob o patrocínio de C. Lindhberg, mobilizou uma boa parte da opinião pública americana, bem coberta pelos media.

America First! hoje novamente audível sob outro lema já ouvido há três décadas, o Great Again! um dia pronunciado por Reagan. Este Great Again! poderá muito significar para os americanos, mas não necessariamente para todos os demais que não se encontrando directamente subvencionados numa miríade de agências, empresas, think tanks e organizações sempre dispostas a servirem quem as sustenta - e aqui entra na equação a própria ONU -, normalmente se deixam hipnotizar por tudo o que a colossal eficiência da máquina cultural, no seu sentido mais amplo, difunde em termos globais. Em suma, o que é bom para eles, geralmente habituados ao let's kick some ass!, poderá não ser assim tão positivo para os demais. 

Vejamos então onde de imediato poderá o mundo obter algumas concessões da Administração Trump, concessões essas que possam em simultâneo beneficiar os americanos e de uma forma bastante directa e exclusivamente em termos estratégicos - e na paz social -, o cada vez mais Velho Continente.

1. Na Europa oriental rufam em surdina os tambores de um progressivo afastamento, pois nos últimos quatro anos os riscos de conflito aumentaram exponencialmente e hoje encontramo-nos na iminência do impensável, ou seja, um totalmente desnecessário e final confronto directo com uma Rússia que inegavelmente foi humilhada. Humilhada após a queda há muito aguardada do sistema concentracionário soviético, viu todos os antigos satélites desertarem e rapidamente aderirem à NATO, quando muitos esperavam que aqueles países, tradicionalmente palco das disputas germano-russas, fossem pelo menos neutralizados. Tal não sucedeu e para isso poderosamente contribuíram as novas autoridades que durante mais de meio século sofreram em silêncio os arbítrios e abusos das forças ocupantes no pós-guerra, confirmando também infinitos casos ocorridos no passado pré-1917: a Polónia, os  Bálticos e Balcãs orientais, rapidamente se abrigaram sob o guarda-chuva americano, não tendo por isso de procederem à rápida adequação das suas forças armadas às exigências impostas pelas novas doutrinas e realidades tecnológicas do sector militar. Se à questão militar passarmos a outros aspectos como os industriais, financeiros e económicos, o quadro da humilhação torna-se ainda mais notório, pois ainda há uma década a Rússia era encarada como um mero sucedâneo de um Lebensraum fornecedor de matérias primas e de mão de obra especializada e a preços sem concorrência. Bem cedo, como praticamente todas as capitais da Europa ocidental, Lisboa encheu-se de mecânicos, pedreiros, estucadores, pintores, electricistas e serventes provenientes do antigo bloco soviético. Mal pagos, relativamente mais instruídos do que nós próprios, sem papéis que legalizassem a sua situação e a tudo se sujeitando em troca da possibilidade de usufruírem da paz social, das escolas para os filhos, da assistência dos SNS, de um tecto de resguardo e refeições quentes na mesa. É a verdade que bem conhecemos e fingimos ignorar. 

O advento de uma classe empresarial directamente saída dos quadros do PCUS que de forma muito célere passou a entender na perfeição as artes e artimanhas do capitalismo mais selvagem, criou um cenário de aparente opulência que naquela parte do globo já não se via desde os tempos em que a aristocracia e o empresariado do império dos Romanov passava férias na Côte d'Azur, comprava e construía palacetes em Paris e fazia compras em Viena, Berlim e Londres. Iates espampanantes recheados de garrafas de champanhe e despidas beldades mais ou menos escusas, foram notícia durante alguns anos, juntando-se ainda ao rol de extravagâncias a compra de clubes de futebol, empresas de comunicação e forte jogatina no complicado sistema bolsista ocidental. Daí ao diz-que-diz das lendas do tráfico de armas, drogas e seres humanos foi apenas um passo, pois a opacidade de uma Rússia sempre desconhecida e talvez imerecidamente imaginada sempre sob o pior dos prismas, tem sido uma constante desde que Pedro o Grande lançou a primeira pedra que ergueria nas margens do Neva, a sua capital europeia.  

Urge fazer algo e de preferência, imediatamente.

Existem muito relevantes minorias russas que vivem nos Países Bálticos, minorias essas ali instaladas após o resultado de 1945 que significou antes do mais, a deslocação sem precedentes de populações inteiras no acanhado espaço continental europeu. Estaline recheou as novas conquistas com elementos populacionais que considerava essenciais à consolidação do poder russo naquela zona estratégica do Báltico que vai de Riga a uma Königsberg despojada da sua população germânica e rapidamente rebaptizada de Kalininegrado, agora transformada numa plataforma de mísseis. 

Não valerá a pena negar que algo escandalosamente escondido e bastante absurdo por lá vigora, desde o afastamento dos russos da participação cívica em lugares de relevo na administração, como nas forças armadas e até, pasmemos, na própria organização residencial que ali, de Riga a Tallin ou Vilnius, reproduz quase exactamente o sonhado e falhado Melting Pot que bastante teoricamente acontece além-Atlântico. Existe, mas adequado a umas poucas comunidades.
Este é, queiramos ou não, um argumento precioso para a propaganda justificativa das acções das autoridades do Kremlin, para mais resguardadas estas pela tradicional lealdade que os russos votam por regra da história, a quem comanda em Moscovo. A U.E.+NATO, têm clamorosamente falhado na salvaguarda dos direitos daquelas minorias e este é um problema aparentemente sem solução, dada a degradação da situação geral.

2. A Ucrânia, perdida a oportunidade de suceder-lhe precisamente o mesmo que durante meio século tornou a Finlândia numa zona neutra, mas agora com a vantagem de ambos os contendores partilharem grosso modo o figurino económico-social, tornou-se num azarado mundo de erros, crimes políticos, violência, caos financeiro e ruína económica, provocando o rápido irredentismo das suas minorias nacionais, sejam elas russas, polacas ou outras que ali vivam. Não se aprendeu grande coisa com algumas das causas dos dois conflitos mundiais.
A falaciosa "perda" da Crimeia, subtracção essa que deveria ter sucedido por mútuo acordo logo na data da independência ucraniana, acabou num facto consumado após a rápida reacção do Kremlin à sugestão de Sebastopol poder vir a ser absorvida pelo tentacular sistema de bases da NATO, leia-se, dos EUA. Às contingências militares propriamente ditas, junta-se o poderoso sentimento de ultraje nacional dos russos que sintomática e perigosamente é de forma ostensiva, ignorado no ocidente. 

Nem tudo está perdido, apesar do folclore mediático das Praças Maidan, das "revoluções coloridas" encenadas um pouco por todo o lado e organizadas exactamente pelos mesmos sectores. Isto propicia um fértil pasto para todo o tipo de teóricos da conspiração e o refúgio da opinião pública no medo.  

Talvez seja aconselhável a nova administração americana reconhecer os factos e estabelecer com os russos, com o regime de Putin - é assim que no ocidente são designados todos aqueles ordenamentos políticos que não correspondam exactamente ao pretendido -, um modus vivendi que salvaguarde a face de americanos e de russos, em simultâneo contentando a cada vez mais subalterna Europa e garantindo em troca de certas condições escritas em formal Tratado de parceria renovada, a paz no continente e a necessária neutralidade da Ucrânia como ponto de encontro entre o ocidente e a Rússia.

Vencidos os warmongers pelo voto no ainda recentemente constituído Colégio Eleitoral, podemos estar praticamente seguros de que Putin não atacará, pois não tem razões para o fazer.  Previsivelmente actuará em conformidade junto das suas coercivas milícias dispostas no terreno. O status quo territorial não é apenas desejável, como possível. Portugal, situado no centro da civilização ocidental que geográfica e culturalmente, no seu sentido mais amplo, abrange todo o espaço entre Los Angeles e o Estreito de Bering, poderá então vislumbrar com outra perspectiva o potencial da CPLP.  

3. No Próximo Oriente a situação é outra, ditada pela intrincada teia de interesses que opõem iranianos, sauditas, qataris, israelitas, grandes empresas e o Dep. de Estado+Pentágono dos EUA, os turcos e os russos, aos quais se juntam as reivindicações curdas, cristãs, iazidis e o absurdo e há muito esperado despertar de um claramente criminoso jihadismo de recorte neo-medieval. A consequência? A Europa tem de lidar com o "Caso Refugiados", uma torrente humana ininterrupta que vai esvaziando não apenas as zonas de guerra, como outras situadas a milhares de quilómetros e que pouco ou nada têm directamente a ver com o conflito que há décadas decorre entre as margens do Mediterrâneo oriental e o Eufrates. 

É este um cenário muito pior e mais perigoso que aquele descrito nos pontos 1. e 2. e que por si, devido ao evidente, claro e sempre politicamente correcto negado confronto de civilizações, é capaz de despoletar um embate directo num momento fortuito. Assad parece cada vez mais de pedra e cal, inamovível e inesperadamente para alguns, surge hoje como a parte essencial para o relativamente rápido resolver de um conflito que mercê dos erros crassos cometidos em Bagdade e Tripoli, tornou toda a Europa num instrumento inútil como força dissuasora e totalmente incapaz como entidade reactiva. Pior ainda, quebrou a espinha dorsal da até há pouco incondicional ou resignada solidariedade ocidental. O Brexit consiste apenas numa entre outras cada vez mais prováveis consequências. 

É uma evidência a oposição de praticamente todos os países da U.E. a uma guerra com os russos e aliás, dados os resultados eleitorais, o americano que trabalha, gosta de conduzir vistosos bólides e tem de pagar contas para sustentar a família, também não a deseja. Não estamos em tempos propícios a riscos, pois estes envolvem nada mais senão o Armagedão. 

Afastadas as intransigentemente sempre irascíveis Applebaum e os bem pagos tamborileiros da guerra, urge agora falar com Putin, urge falar directa ou indirectamente com Assad.

Fira-se o amor próprio em prol do interesse geral. Mas... amor próprio de quem?


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publicado às 17:42

Novas realidades, as velhas certezas

por Nuno Castelo-Branco, em 27.01.15

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Contrariamente ao que muitos pretendiam, o caso ucraniano  parece ter passado para um plano muito secundário nas preocupações da imensa maioria dos europeus. Sem de forma alguma questionar-se a independência da Ucrânia, a situação tem evoluído para um estado de ponto morto sem grandes avanços ou recuos por parte de qualquer um dos contendores.  Esta é a situação que agora mais interessa ao Kremlin, para já assoberbado com problemas económicos e pressões das facções que se digladiam em torno de V. Putin.

No ocidente, poucos quiseram entender quais os limites que deveríamos impor à nossa Aliança no superior interesse da paz na Europa e na evidente necessidade de podermos contar com a colaboração russa noutras áreas geográficas que constituem a vizinhança próxima e ameaçadoramente instável, ou seja, todo o Magrebe, a zona do Suez e o Médio Oriente. De nada serviram as advertências passíveis de retirar de qualquer manual básico de história, fazendo-se pouco ou nenhum caso de eventos que para o bem e para o mal, continuam muito presentes na psique russa. A natural sugestão de uma finlandização da Ucrânia - ou seja, a progressiva adopção de uma economia e de um tipo de organização política do Estado - que a aproximasse da UE, em simultaneidade com uma certa neutralização que tranquilizaria Moscovo, foi loucamente ignorada no quadro dos principais decisores na Aliança Atlântica. Cometeram-se flagrantes erros, concederam-se demasiados incentivos ou informais garantias a responsáveis políticos como Sikorski - e inacreditável audiência à sua sempre enervada cônjuge em ambicionado tirocínio para a Secretaria de Estado -, num plano tal, que muitos apontaram de imediato um recôndito desejo de revisionismo de fronteiras. Tal será possível, mas apenas com o recurso ao desencadear de uma guerra muito diferente daquela que temos em Donetsk e Lugansk. É impossível encontrar qualquer consenso europeu para uma catástrofe desta dimensão.

A ninguém passa despercebida a evocação do período imediato a 1919, com tudo o que isso significa em termos de reordenamento territorial e demarcação de áreas de influência, quando não de reservada e ainda não ostensivamente declarada reivindicação de novas fronteiras. Parece ser avisado o recurso à tentativa de uma visão mais alargada deste problema artificialmente criado logo após a liquidação da aventura soviética, quando as fronteiras foram delineadas segundo o risco arbitrariamente imposto pelo caído regime de Lenine, Trotsky, Estaline, Kruschev e Brezhnev. Ficções que serviram para formalmente garantirem uma aparência de realidades nacionais nas Nações Unidas, foram herdadas por novos Estados internamente pouco coerentes e com situações económicas agravadas pela implosão daquilo que foi o frágil mercado interno soviético. O episódio da Crimeia, já consumado e sem retorno, é apenas o exemplo mais flagrante, podendo lobrigar-se outros na zona do Cáucaso ou nas imediações da fronteira romena. O cerne de toda a questão pode resumir-se ao alinhamento da vasta região que se chama Ucrânia - não se esquecendo a Moldávia - num dos potenciais blocos em presença, ou seja, a UE e apêndice NATO, ou o regresso à esfera de influência russa. Sabe-se que o Kremlin condescenderia com uma finlandização que até proporcionaria claras vantagens políticas e económicas, afastada que estaria a ameaça militar e a ofensa a patrióticos brios desde sempre cultivados pelos russos, seja qual for o regime vigente. 

 

Na Europa, há quem tenha entendido serem os EUA o essencial elo - tem sido esta a realidade - que pode manter a pressão sobre Moscovo, conhecendo-se também a cada vez maior relutância de algumas potencias continentais - França, Alemanha e agora, ainda num plano secundário, a Polónia - no enveredar de uma declarada política de confronto directo que de antemão significa graves prejuízos para os interesses económicos e de segurança geral. Ao longo dos últimos vinte anos, os americanos têm-se paulatinamente distanciado dos assuntos europeus, apenas intervindo na ilusória esperança de poderem manter a omnipresença saída de 1945, com o recurso a avanços pontuais na criação ou resolução de crises na Europa balcânica e de leste.  Apenas um exemplo? A crise jugoslava que se desenrolaria ao longo de anos e culminaria no Kosovo. Todos já percebemos serem outras as prioridades que a ascensão da China impõe, embora a zona de segurança próxima da Europa - Cáucaso e Médio Oriente - signifique algo mais que perímetros defensivos de índole meramente militar. A verdade é outra, verdade esta que não escapa a regra económica e o reordenamento do (des)equilíbriio de forças na região onde a Turquia e o Irão passaram a ser agentes activos e muito interessados. O reconhecimento disto? Após a catastrófica queda do regime do Xá Reza Pahlavi e o resvalar do Irão para a colecção de inimigos sagrados, temos a progressiva abertura da administração Obama a um relacionamento com Teerão, ao abjecto regime dos aiatolás, logo se seguindo outras aproximações entre as quais a de Portugal - um Estado naturalmente satélite de Washington - é apenas um, entre outros exemplos. 

A crise do Euro e das dívidas soberanas, fez estremecer a já aparentemente consolidada relação de forças na Europa, com o bastante perceptível volver das atenções alemãs para leste, para a sua tradicional zona de influência forçosamente a partilhar com a Rússia fornecedora de matérias primas e de um mercado continental que ultrapassa a Sibéria e chega ao Mar do Sul da China. Apesar do patético e inútil alarido tablóide contra Merkel - imaginemos então o que seria, se em vez de Merkel tivéssemos um dirigente da categoria de Schmidt, por exemplo -, os alemães vão tentando manter a construção europeia que herdaram do período anterior à queda do Muro. Por muito que isto desagrade aos garimpeiros da mina da culpabilidade real ou imaginada, esta é a verdade. Contudo, os apressados alargamentos que consumaram a agora periclitante União, não foram de molde a conceder mais consistência ao mercado e muito menos ainda, à moeda única outrora insistentemente exigida por uma França aterrada pela reunificação da Alemanha. Atrás dos alemães que agora praticamente desarmados, não podem ser acusados de belicismo, estão praticamente todos os países da Europa central, do norte e do leste, todos eles interessados na tranquilidade e satus quo das fronteiras, ciosos pelo cuidar da economia e não descurando o fornecimento de matérias-primas onde a energia tem a parte de leão. A perspectiva de bons negócios para o longo prazo, dita a progressiva alteração das políticas daqueles Estados pertencentes a uma UE aparentemente em rápido processo de disfunção, sendo cada vez mais evidentes os interesses divergentes entre o norte e o sul, assim como entre o leste e o oeste. 

 

O regime de Putin é avesso às conhecidas realidades  políticas e sociais para cá do Óder? É, mas agora, pela primeira vez desde há cem anos, nunca os russos compraram e consumiram tanto, viajaram, leram, livremente viram e fizeram tanto teatro e cinema sem "licença do Partido". Sobretudo, estes russos investiram de tal forma, que dissiparam muitos dos receios quanto a invasões protagonizadas por tanques ou Spetsnaz caídos do céu. Putin obteve assim alguma condescendência na zona do Danúbio e talvez, nas margens do Egeu onde decerto poderá envidar  esforços para um aumentar da sua influência em países onde a ortodoxia - no laicizado ocidente europeu, o factor religioso é escassamente considerado, um tremendo erro de cálculo dos decisores políticos - consiste num factor muito importante. Além de tudo isto, os europeus estão extremamente receosos daquilo que ocorre no norte de África e no Levante, conscientes do que hoje significam as importantes comunidades muçulmanas que sem qualquer dúvida, mantêm-se bastante silenciosas ou discretas quanto à condenação das barbaridades que quotidianamente nos chegam pelos noticiários. Se se trata de receio pela pressão moral e física de minorias activistas, ou de um resignado contentamento por aquilo que pode ser considerado como um certo revanchismo relativo ao bem patente naufrágio civilizacional do islão ao longo dos últimos seis séculos, isso não podemos garantir.

Putin apresenta-se a muitos como um aliado natural, tal como outrora o autocrata Nicolau II foi ansiosamente aguardado como o salvador militar - o mito do Rolo Compressor russo - da laica e republicana França de Poincaré, Clemenceau e Ribot. Sabe-se que o sucesso no Marne em boa parte se deveu à invasão da Prússia Oriental no verão de 1914, tal como o resultado de Verdun teve muito a ver com as operações russas na Galícia austríaca. Mais tarde, Estaline apresentar-se-ia a leste, como o mais plausível aliado das ultra-capitalistas potências anglo-saxónicas muito lestas no apagar das memórias sangrentas da implantação do regime soviético, das fomes induzidas e massacres conducentes ao Holodomor, das Grandes Purgas e do Pacto de 31 de Agosto de 1939. A lealdade ocidental para com a Polónia, não impediu o ocultar da conhecida verdade - desde 1943-44 - acerca de Katyn, um pequeno pormenor no vasto panorama oferecido pela gestão de interesses contraditórios entre as potências aliadas e o poderoso José Estaline.

 

Chegou ao fim, o já longo período de transição pós-Queda do Muro. 

 

Pelos vistos, nesta Europa do início do século XXI, mais que nunca ameaçada interna e externamente, os russos bem depressa passarão a ser encarados como incontornáveis - desejados ou não desejados - parceiros. Aqui está o primeiro dado, aquele que sendo tão evidente, relevante e para alguns desagradável, parece contudo invisível para quem pretende manter a equação impossível: manter a hegemonia na Europa, dela se retirando e estabelecendo-se noutras paragens. O caso da Base das Lajes é neste contexto, apenas mais um entre inúmeros exemplos.  

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publicado às 14:35

Expliquem-me

por Nuno Castelo-Branco, em 06.08.14

Estúpido e burro como sou, há coisas que não entendo e por isso peço desculpas, necessitando de esclarecimentos:

1. Conhecendo-se há muito tempo os indícios de algo de bastante estranho estar a acontecer nos círculos do financiamento da "economia" - bastava andarmos atentos às obras e demolições na cidade de Lisboa, dando alguma atenção aos cartazes dos financiadores -, porque deixaram tudo isto arrastar-se num mundo onde o dinheiro é meramente virtual, uma convenção? Num país que não possui moeda própria - e que tem parte daquilo que ainda é real, as "bacocas reservas" auríferas, guardadas além-atlântico -, não seria isto essencial para decuplicar os procedimentos de fiscalização?

 

Expliquem-me.

2. A lentidão ou ineficácia da fiscalização, poderá também ter algumas justificações políticas. É infalível, fazendo suspeitar acerca de uma intencionalidade.
O centro do poder europeu - comissão, banco central, etc - está ansioso pelo reforço das suas atribuições, enfraquecendo o poder dos Estados e logo, dos instrumentos capazes de manter alguns resquícios da soberania: bancos, instituições locais - o ataque concertado à coroa espanhola não foi mero acaso de conjuntura -, desestabilização política em certas regiões.
Esta crise provocada pelo mesmo centro europeu, conduzirá a uma maior exigência de padronização e da clássica espiral a que temos assistido desde Maastricht. Não faltarão agora ainda mais argumentos para esse nivelar do sistema bancário, outorga de poderes soberanos a Bruxelas e porque não? a "mutualização" de recursos com um grande potencial económico (a zona económica exlusiva marítima, por exemplo), etc.  Estarei a exagerar?

Expliquem-me.  

3. Cinco mil milhões custará o "Novo Banco"? 

Já estou como D. João V quando lhe disseram quanto custaria o carrilhão de Mafra:

- "QUE BARATO! Quero dois!"

Há uns meses e apesar de muita gente considerar a CGD como o banco ideal para futuros negócios e inovações da moda, as autoridades anunciaram a criação de mais um ...banco, isto é, mais burocracia, despesa, jobs for the old boys, desperdício e falta de racionalidade. Já que o "BES/Bem-bom" vai ser vendido a preço de saldo e dado o seu propalado papel na economia, porque razão há-de ir parar ao depósito do Santander ou do ? Não haverá por cá um aglomerado de "patrióticos banqueiros" que se coliguem para adquirir a coisa? (1) A CGD que ajude, gostem os "europeus" ou não gostem. Há que desobedecer a essa gente, embora sob o prisma da UE, a coisa possa ser considerada "ilegal". Vão declarar-nos guerra? Claro que não. Nada acontecerá, se excluirmos meia dúzia de grunhidos da gente do costume.

 

(1) O noticiário diz que alguns bancos nacionais aumentam o valor da proposta de intervenção no "banco bom". A ver vamos se os eurocratas do nosso regime não torpedeiam a coisa. 

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publicado às 21:10

Uma porta nada sublime...

por Nuno Castelo-Branco, em 21.03.14

...foi franqueada pelo incensado senhor Erdogan. Farto de ver o seu nome enlameado pela catadupa de alegações em torno de assuntos bastante turvos, já se esqueceu daquilo que durante anos tentou fazer passar como verdade insofismável: o seu movimento islamita era coisa talhada "à imagem dos democrata-cristãos europeus". Por outras palavras, ali teríamos uma tardia imitação de Adenauer, De Gasperi, ou, dadas as suspeições que se avolumam acerca de intuitos de expansão da influência regional, um Helmuth Kohl. 

 

Tudo tem servido para justificar a apresentação da candidatura turca à U.E. Há uns anos, Kadhafi dizia que a Turquia seria o Cavalo de Tróia muçulmano na Europa, mas para a gente com as circunvoluções cerebrais minadas por cifrões, taxas cambiais, empreendedorismo, "liberdade de circulação de pessoas e bens" e outros argumentos a que nos habituámos, o Sr. Erdogan representa "a legítima herança do Império Romano do Oriente".  Está-se mesmo a ver. Os problemas nas margens do Mar Negro continuarão durante mais algum tempo e a ninguém estranhará uma coordenação turco-americana naquela região, coisa já bastante visível no norte da Síria. Quanto à Europa, há quem pouco se interesse com o médio prazo, pois o que importa é o mercado, o bazar.

 

Já podemos imaginá-lo a emular o grande sultão Mehmet II, entrando a cavalo em Santa Sofia. Para adequar a imagem aos nossos dias, a Erdogan bastaria chegar de Mercedes ao Reichstag, fazendo substituir a águia pelo crescente na tricolor alemã. Coisa impossível, claro.

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publicado às 09:49

Estórias ucranianas

por Nuno Castelo-Branco, em 24.02.14

 

1941, os alemães entram na Ucrânia

 

É verdadeiramente cataclísmica, a torrente de disparates que por estes dias é possível lermos e ouvirmos a propósito dos acontecimentos ucranianos. Reage-se sempre segundo as impressões transmitidas pela televisão, numa eterna recriação dos gloriosos dias que em boa hora derrubaram Ceausescu e com ele, toda a restante tralha que durante décadas esmagou a Europa central e oriental.

 

Este é um caso muito diferente, implicando para uns tantos, o quase imediato el dorado dos bons negócios que simultaneamente arruínam aqueles que aparentemente seriam os primeiros interessados numa idílica adesão europeia. No outro campo, o do status quo, estão os russos, bem cientes às suas próprias custas, daquilo que potencialmente significa uma Ucrânia aberta a forças que um dia poderão ser hostis. Se a isto juntarmos a difícil gestão de um país que pende entre o ocidente e o leste e a não menos importante alínea do controlo da energia que passa pela Ucrânia em direcção à Europa central, temos então um quadro ainda mais complexo. 

Há setenta e três anos, muitos dos soldados da Wehrmacht, cuidadosamente camuflados nas imediações da fronteira delimitada pelo pacto Germano-Soviético de 23 de Agosto de 1939, estavam piamente convencidos de fazerem parte de um corpo expedicionário que iria ocupar a Ucrânia arrendada por Estaline à Alemanha. Os soviéticos eram pródigos na ajuda material concedida ao Reich, justificavam todas as acções militares - Escandinávia, Bélgica, Holanda, Grécia - até então decididas por Berlim e eram bons anfitriões dos seus mais recentes aliados. Assim sendo, nem para os soldados alemães, nem para o Kremlin, existia qualquer justificação para o desencadear da guerra.

 

O conflito tornou-se num facto e os russos não esqueceram. A questão que naqueles dias de tórrido verão de 1941 se colocava a muitos dos dirigentes de Moscovo, era esta:

 

- E se tivéssemos perdido a Ucrânia em 1920?

 

 Este artigo é esclarecedor acerca do que verdadeiramente está em causa. 

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publicado às 19:36

Uma história às avessas: o fracassado neo-Zollverein (2)

por Nuno Castelo-Branco, em 02.04.13

Ainda sob a hipnose da carta do agora também "politicamente retornado Peneda", Daniel Oliveira apressou-se numa incansável repetição de argumentos que todos conhecem e alguns aceitam* como verdades absolutas. No entanto, aquilo que o jornalista do sr. Balsemão quer fazer crer, surge como mais uma variável da bonecada que o caleidoscópio proporciona. Pese as piedosas considerações que pouco ocultam, se quisermos resumir os seus desejos numa frase que fez escola, esta poderá ser ..."a Alemanha deve pagar", naquele sonoro, ríspido e tresloucado sentido que Clemenceau lhe conferiu. Ameaça-se com uma Alemanha agarrada aos fantasmas da guerra. Pois sim, mas com que exército? Com que força aérea e marinha? Tal seria possível, se os quase desarmados teutões se servissem de ingleses e franceses como seus mercenários de serviço.

 

Em primeiro lugar, o post de DO fala de ressentimento, mas há que considerá-lo como consequente de múltiplos factores e não apenas como mais uma das sequelas da II Guerra Mundial. Historicamente, a Europa ocidental jamais se habituou à ideia da existência de um Estado alemão unificado, considerando o nome Alemanha como mera designação geográfica com alguns contornos revivalistas do Império que um dia Roma conseguiu erguer. Aquilo que considera como uma realidade quanto à Itália, é mais difícil de reconhecer quando se pensa na Alemanha. Francisco I e Luís XIV procuraram obter a coroa imperial, confortável símbolo que lhes permitiria a subjugação dos territórios a ocidente do Reno, a chamada "fronteira natural" da França. Através da invasão, retalhe e usurpação, Napoleão I conseguiu o domínio dos territórios alemães que grosso modo conformariam a futura República Federal da Alemanha, correspondendo os limites do império francês, àquilo que mais tarde seria a primeira CEE dos seis. Ao invés daquilo que muitos julgam como verdade absoluta, o alvorecer da consciência nacional alemã - e não estamos a tratar do Estado - verifica-se de forma perceptível no rescaldo da Guerra dos Trinta Anos e os conflitos seguintes - Sucessão de Espanha, da Áustria, Guerra dos Sete Anos - apenas confirmariam a tendência para a simplificação do mapa de um império que significava uma mera formalidade. A ascensão da Prússia sob forte influência cultural francesa, pressupôs uma inicial expansão para leste, numa cooperação com austríacos e russos, sacrificando-se a Polónia. Mais para sudeste, a ideia de Europa terminava nos confins do império dos Habsburgo, fronteiriços com os domínios do sultão nos Balcãs. A aventura bonapartista e o seu cortejo de abusos, depredações e rasgar de todas as regras aceites de diplomacia, obrigaram a aproximação da Prússia a ocidente, consagrando-se assim os desígnios dos patriotas alemães que na potência do norte, viam um formidável obstáculo à ocupação francesa de territórios até 1806 pertencentes ao extinto Sacro Império. A Alemanha fora composta por centenas de minúsculos Estados e em cada um deles existia aquilo que o legitimava e dava vida, enfim, a soberania. Uma corte, um pequeno exército, a hierarquia religiosa, teatros, orquestras e artistas protegidos, sem descurar as escolas e o funcionamento de departamentos estatais que na diplomacia garantiam a sobrevivência dos principados no difícil concerto internacional. Durante séculos, a Alemanha era o campo de batalha europeu. A proliferação de "cortes na aldeia" - Catarina II provinha de uma destas micro realidades políticas - talvez tenha consistido num dos primordiais factores para o emergir da supremacia germânica após a vitória de 1871, estando todas as regiões habituadas às luzes do momento histórico que noutros âmbitos políticos mais vastos se limitavam aos grandes centros urbanos, quando não apenas às capitais. Os palradores de salão, jocosamente acusam a Alemanha de ser provinciana, inconscientes do facto desse provincianismo ser uma das razões da sua grandeza e poder. O Zollverein consistiu na pedra angular da unificação dos Estados do norte, deixando-se a especificidade austríaca e os seus domínios da Europa central, como um sonhado exemplo que Viena significava para a civilização de territórios atrasados e durante séculos subtraídos à Europa. 

 

Hoje, os alemães já ultrapassam os noventa milhões e segundo DO, têm "dificuldades de convívio com os seus vizinhos europeus". Conhecendo-se a verdade acerca do desencadear das duas guerras mundiais - e daquela outra que lhes daria origem, declarada pela França em 1870 -, talvez fosse mais avisado considerar como verdade, a necessária partilha da incompreensão e das dificuldades no encarar do outro. Fazendo tábua rasa do Princípio das Nacionalidades e dos 14 Pontos de Wilson, em 1919 os franceses tentaram arrebatar a Renânia em Versalhes, apenas não o conseguindo devido à firme oposição anglo-americana. As brutais intervenções no Ruhr, a catastrófica e usurária política de reparações, a absurda cláusula da Culpa Exclusiva que significava o total cercear da soberania - obrigando a todo o tipo de ardis que contornassem os interditos -, o confisco de recursos industriais e o eterno pagamento de indemnizações, causou o ressentimento alemão que o articulista apresenta invertido no texto do Expresso. Os franceses bem podiam ter dado ouvidos a Coudenhove-Kalergi e não o fizeram por arrogância, preconceito e obsessão fetichista anti-católica. De facto, o peso da influência cultural francesa na Alemanha era imenso - o próprio Kaiser Guilherme II fazia alarde do seu absoluto domínio da língua de Racine - e podemos afirmar que consistiu num dos pilares do longo processo que conduziu à inevitável unificação. Aliás, uma das razões para a evidente colaboração francesa durante os anos da II Guerra Mundial, deveu-se a esse fascínio que a cultura francesa exerceu sobre as elites alemãs, sendo o embaixador Otto Abetz um dos mais abnegados defensores dessa aproximação entre os dois países. A quantidade de artistas franceses em digressão e promovidos pela Alemanha, será hoje uma nota incómoda de registo, mas nem por isso um sinal bem claro de uma certa ideia de Europa que Berlim divulgava. Para Hitler, a cidade de Paris e a sua monumentalidade era o modelo e os franceses sabiam-no, não havia como negar. 


Na Alemanha, a eficácia das suas escolas técnicas e o imediato reflexo na construção de uma indústria moderna e poderosa, o sistema federal que até 1918 continuou a garantir polos culturais e de ciência espalhados em todo o território, enfim, aquela pulverização de reduzidos potentados, daria origem a um gigante que conseguiu de facto aquilo que o Sacro Império apenas significara de jure. A França ainda não aceitou uma evidência que já conta cento e cinquenta anos!

 

Patrocinado pelo violento revanchismo de Clemenceau, Versalhes destruiu o sistema federal sobre o qual se erguera o II Reich, para sempre desaparecendo reinos e principados com uma certa autonomia e que eram internacionalmente reconhecidos. 

 

Os doze anos de hitlerismo consistem num buraco negro na história alemã, para alguns uma colossal força que é capaz de confiscar qualquer tipo de discernimento na análise dos problemas que se levantam na Europa. A queda do império soviético apenas veio confirmar a existência dos Estados-nação, até então subalternizados pela imperiosa necessidade de prosperidade que garantisse a prevalência do sistema democrático-liberal e a cooperação entre a Europa ocidental e os EUA. Embora afastando-se os aspectos mais odiosos do Plano Morgenthau, não existiu qualquer sério intuito de generosidade para com a Alemanha vencida em 1945. A indústria foi copiosamente desmantelada - o que acabaria por se tornar numa vantagem modernizadora daquela que se lhe seguiria -, as forças armadas foram limitadas e abastecidas pelos EUA - libertando-se preciosos fundos para a reconstrução -, o país viu-se impedido de intervir plenamente na arena internacional - outra vantagem que traria imediatos reflexos económicos -, e no plano político, a Alemanha Ocidental, a região do antigo Reich que tinha sido menos permeável ao NSDAP, integrava-se no sistema ocidental, contrastando com a reminiscência prussiana da RDA tutelada por Moscovo. Se podemos considerar como um dado aquilo que DO denomina de generosidade, então os alemães também foram muito generosos. Patrocinaram o ingresso da Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda na CEE, não discutindo montantes e dando total cobertura política a estes países até então afastados da Comunidade. Para a consecução dos males que hoje nos atingem, os alemães infelizmente fecharam os olhos aos erros, descarados desvios e má gestão do dinheiro que entregaram a estes países. Todo o desenvolvimento material que ocorreu após a adesão de Portugal, deveu-se sobretudo à ajuda alemã, quando ainda temos bem presentes as reticências, quando não oposição, da França - a PAC é um monumento à injustiça da extorsão e beneficio de apenas uns tantos - e de outros países a este alargamento a sul. Se o PC recebia o gordíssimo "óbulo internacionalista"  proveniente de Moscovo, o PS, o PSD e o CDS foram durante anos subsidiados com enormes quantidades de fundos provenientes dos partidos-irmãos sediados em Bona. No Portugal pós-Abril, a Alemanha consistiu num factor determinante para o estabelecimento do regime de 1976 e apesar daquilo que hoje possa intempestivamente dizer, Mário Soares conhece bem os factos, porque foi politicamente um dos grandes beneficiários. Se é certo que os homens  daquele momento pareciam de uma dimensão bem diversa daqueles que hoje temos, há que sublinhar a verdade destes serem criaturas produzidas pelo sistema de práticas e valores  estabelecidos pelos pretéritos. 

 

Daniel Oliveira evoca um sugestivo "baú de esquecimento (...) as responsabilidades de muitos muitos alemães por um dos maiores crimes que a humanidade até hoje conheceu." A afirmação típica de muitos daqueles que sem o saberem são apologistas de Morgenthau, peca por disparate absoluto, pois a questão em referência tem sido um permanente tema no cinema, media, literatura e escolas da Europa do pós-guerra. Tem mesmo servido para uma deliberada chantagem moral sobre todos os alemães, principalmente aqueles nascidos após 1945. O que alguns não querem reconhecer, é estarem perante uma Alemanha muito diferente daquela - até em termos de presença estrangeira no seu território - que querem imaginar similar à dos tempos da meninice dos seus pais e avós. Não podendo apontar senão  risíveis representações políticas do extremismo que exautoram - ao invés do que se passa em França, na Bélgica, Holanda, Suécia, Finlândia, Grécia, Dinamarca, etc -, os irritados articulistas não entendem o que significa a ideia de uma Europa idealmente unificada. Pretendem sintetizar o impossível, ou seja, anexando a Alemanha ao projecto europeu, mas pretendendo submetê-la ao estatuto impossível de uma Hungria, Roménia ou na melhor das hipóteses, de uma Polónia renascida. Dir-se-ia que talvez ainda delirem com a Alemanha geográfica anterior a 1806. Não compreendem o que significa a sua situação central no continente, não concebem o poder de criação e atracção de riqueza de uma população numerosa e bastante razoavelmente educada e gostem ou não gostem, totalmente contaminada pelos princípios demo-liberais que com dificuldade são aceites em muitos países hoje em dificuldades. Só existirá "uma Europa próspera e cooperante", se em paralelo existir uma Alemanha forte, estável e sobretudo, rica. Acusar os bastante discutíveis líderes alemães - não são piores ou melhores que aqueles que vemos no Reino Unido, na Suécia, Polónia, Holanda ou Finlândia - de populismo, insensatez ou estupidez, poderá proporcionar aos diversos Daniéis Oliveiras, um curioso exercício mental acerca do que poderemos então dizer daquilo que da esquerda extrema à direita temos em Portugal, Espanha, Itália, França, Grécia, Roménia, Bélgica, Roménia, Irlanda ou Bulgária. Em matéria de defesa do interesse nacional, talvez tivéssemos ficado melhor servidos com uma edição nacional de Merkel, em vez de Soares, Cavaco, Guterres, Barroso, Sócrates, etc.


O que se verifica em muita prosa que em hora de apertada fome vai surgindo, é a larvar xenofobia parida pelo ressentimento perante o sucesso alheio. Wolfgang Schäuble terá sido "politicamente infeliz", mas é certeiro na imagem. Continuar a sonhar com o "príncipio Mitterrand" da divisão e subalternização alemã à categoria de inesgotável caixa registadora à disposição de Zapateros, Barrosos, Sócrates, Sarkozis ou Berlusconis de várias nacionalidades - Louçã quer o mesmo -, é insistir no erro e na fuga às realidades. Perante os factos, podemos até comparar este esbulho em forma de "mutualização" que agora acenam, ao confisco perpetrado pelo III Reich nos territórios ocupados.

 

Se o projecto federal europeu é coisa que interesse a Portugal, essa já será uma outra discussão. Sabemos que o interesse nacional se encontra sobretudo noutras latitudes, mas este reconhecimento não impede que consideremos a verdade dos factos. 

 

*Na imagem, uma velha obra (1913) de propaganda encomendada por Paris e que compila todas as superstições e "infalíveis certezas" ainda hoje inconscientemente utilizadas nos media. Comprei-a  há uns vinte e cinco anos por 50$00. Na Feira da Ladra, claro.

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publicado às 14:11

Chipre: vigarices internacionalistas

por Nuno Castelo-Branco, em 26.03.13

 

Existe um pequeno pormenor habilmente varrido para debaixo do capacho de entrada da crise cipriota. O Partido Progressista dos Trabalhadores (uma espécie de CDU, enfim, o PC local), tem estado no poder desde há alguns anos, mais precisamente durante os momentos fulcrais da adesão de Chipre à UE e correspondentes enxurradas monetárias vindas da nomenklatura russa. O que terão os camaradas portugueses a dizer acerca deste tipo de internacionalismo? A verdade é que este Partido AKEL*, é um dos mais velhos irmãozinhos do PC, perdão, da "CDU". Ou para estas coisas já não se reconhece a família que também se herda?

 

* O leitor zeca marreca oportunamente lembrou tratar-se de um lambda, assim  AKEA deverá ser escrito AKEL em caracteres latinos. O nosso agradecimento ao leitor do PCP. Quanto ao facto de aqui termos deixado a exótica sigla CDU - uma omnipresente recordação alemã -, tal se deve à necessária mudança de nome eleitoral do PC. Já foi FEPU, passou a APU e estamos na fase CDU. O caso cipriota mostra que o PC local transitou calmamente sobre as brasas plutocráticas que herdou devido aos "laços históricos" com os componentes da extinta URSS, aceitando os factos consumados. Neste caso, até alegremente prosseguiu na senda do progresso, como sempre. 

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publicado às 13:33

Bacalhau "químico"

por Nuno Castelo-Branco, em 31.01.13

O borrabotismo bruxelês decidiu preocupar-se com mais um dos extraordinários "vícios da sociedade portuguesa": o degusto do bacalhau. As piicas sumidades pretendem agora aditivar o apetitoso peixe, encharcando-o com polifosfatos. Só o nome da coisa é capaz de provocar calafrios, mas os indústriais alemães, suecos, holandeses - claro, estes não podiam faltar -, finlandeses e dinamarqueses, querem garantir o perfeito escoamento dos seus pouco apetecíveis venenos alimentares.

 

E pensarmos que após a Restauração os holandeses pretendiam anexar a península de Setúbal, almejando os benefícios da produção das salinas locais!

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publicado às 12:12

Do Correio Alentejo, 19.11.2012:

 

«Aeroporto de Beja pode receber projecto de desmantelamento de aviões


O aeroporto de Beja pode vir a receber um projecto de desmantelamento de aeronaves em fim de vida e consequente valorização de peças e sistemas aeronáuticos, promovido pela AeroNeo em parceria com a multinacional suíça JetLease – Geneva no âmbito do processo "GreenParts 95". (...)

De acordo com os promotores do projecto, o conceito "GreenParts 95" é "único" e integra "todas as fases sucessivas de desmantelamento e reciclagem de uma aeronave, ainda operacional, até ao seu desaparecimento total", sendo que as peças de valor "poderão representar até 95% do valor comercial dos activos desmantelados e a sua revenda ou aluguer assegurarão o retorno do investimento". (...)

Para tal são necessários locais "secos e com sol", o que na Europa só é possível de encontrar em Portugal e Espanha.»

 

Era para complementar o Aeroporto de Faro, devido ao seu congestionamento. Era para complementar o Aeroporto de Lisboa, devido ao seu congestionamento. Era para servir o "hinterland" espanhol. Era para servir o porto de Sines. Era para servir o turismo no Algarve, no Alqueva, e no Litoral Alentejano. Era para servir de "hub" na rota entre a Europa e a América do Sul. Era para movimentar carga aérea na rota entre a Europa e a América do Sul. Era para escoar produtos derivados de pescado produzidos em Sines (a última fábrica de conservas em Sines fechou há cerca de vinte anos). Era para movimentar carga aérea do "hinterland" espanhol. Era para servir as companhias low-cost que voam para o congestionado Aeroporto de Lisboa. Era para servir de estacionamento temporário para os aviões das companhias que voam para os congestionados aeroportos de Lisboa e de Faro. Era para.. Era para...

 

E agora vai, finalmente, servir para alguma coisa: sucateiro de aviões. Afinal de contas, é uma infraestrutura perfeitamente capacitada para este tipo de projecto: é seco e ao sol.

 

De Bruxelas, que aprovou tudo isto e financiou a 70%, não se ouve uma palavra.

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publicado às 03:35

Contra-bluff grego

por João Quaresma, em 23.08.12

«A Grécia está disposta a vender algumas ilhas desabitadas para ajudar as suas finanças públicas. A revelação foi feita pelo primeiro-ministro grego Antonis Samaras numa entrevista ao jornal francês Le Monde. Samaras deve encontrar-se amanhã com a Chanceler alemã e no dia seguinte com o presidente francês num esforço titânico para tentar conseguir concessões para o seu país, a braços com uma situação económica desesperada.

Antonis Samaras disse que o investimento é a chave para reviver a economia grega e que os planos de privatização incluem a venda de caminhos-de-ferro e de uma parte da costa da Ática

Interrogado sobre se Atenas estaria disposta a vender também algumas das suas ilhas desabitadas o chefe do executivo grego respondeu pela afirmativa: “Desde que isso não coloque problemas em termos de segurança nacional, algumas dessas ilhotas podem ter uma utilização comercial”. “A maior parte dessas ilhas são desabitadas, e situam-se no meio de um arquipélago, explicou Samaras, sem no entanto entrar em pormenores ou explicar se o governo estará a considerar desfazer-se das ilhas a título permanente.
Atenas não quer vender ilhas "ao desbarato"
“Não se trata de nenhuma forma de as vender ao desbarato, mas sim de transformar terreno que não está a ser utilizado em capital que pode ser usado para gerar lucro, a um preço justo” sublinhou.»

 

Os alemães ameaçam a Grécia de expulsão do Euro, e a Grécia ameaça vender ilhas. Não interessa à Alemanha ou à UE expulsar a Grécia do Euro, da mesma maneira como não interessa a ninguém que a Grécia venda ilhas que poderiam servir como bases navais e aéreas, por exemplo, à China ou à Rússia. Pelo que esta ameaça não deverá passar de contra-bluff. Quanto mais não seja porque as forças armadas gregas muito simplesmente não consentiriam nisso.

 

Mas é muito grave que um país chegue a esta situação, em que os governantes falam na possibilidade de vender território. Sobretudo para nós, em Portugal. É que se por cá não temos ilhas desabitadas que possam ser vendidas, em contrapartida nunca faltaram patifes nem traidores, prontos a adoptar qualquer esquema por mais ignóbil que seja. Cá poderia não ser bluff, e o facto de os territórios serem habitados não ser um obstáculo.

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publicado às 19:31

A crise europeia. Dois países: a Grécia e Portugal (1)

por Nuno Castelo-Branco, em 18.08.12

 

O título do post, resume o conteúdo. Obcecados alguns dos Estados europeus com as suas astronómicas dívidas, correm sérios rumores que parecem garantir a existência de um chamado Plano B para a sobrevivência do Euro. Num artigo (ver abaixo, na íntegra), The Economist longamente apresenta os dois cenários possíveis, entre os quais uma expulsão em massa satisfaria as necessidades imediatas dos países do chamado núcleo duro da moeda única. Persistindo no erro que tem varrido a Europa na última década, a leitura do artigo apenas nos apresenta aspectos relacionados com a dívida e finanças, pouco falando de economia e totalmente ignorando aquele aspecto fundamental e hoje em dia inatingível pelas cúpulas dirigentes europeias: a política.

 

Para o que mais nos importa de imediato, apresentemos então dois casos bastante distintos como a Grécia e Portugal. Não nos referindo especificamente às agruras e misérias da dívida, salientamos então os ignorados aspectos políticos que a situação geográfica destes dois Estados implicam. 

 

1. A Grécia.

A situação parece ser insolúvel e de quase certeiro vaticinar de falência do todo. Por mais planos e cabazes de dinheiro vertidos nos cofres de Atenas, o resultado parece ser aquele que todos há muito adivinharam. Os gregos não percebem a austeridade, não a aceitam, nem estão dispostos a deixar para trás os sonhos de telenovela dos últimos vinte e cinco anos. Simplesmente, as condições políticas da Grécia impelem à rejeição de qualquer modelo de austeridade e a Europa deveria ter em conta o conturbado século passado, onde uma guerra civil por quase todos os estrangeiros esquecida ou minimizada, serve ainda como pano de fundo ao confronto das várias famílias políticas daquele país balcânico. Para agravar a situação, a ascensão turca e o incontido desejo do restaurar de uma hegemonia perdida, coloca a Grécia numa posição central na luta pelo domínio regional. Sendo um membro da NATO , o país dos helenos foi ao longo das décadas da Guerra Fria, um dos pilares do controlo ocidental - leia-se norte-americano - do acesso russo ao Mediterrâneo e Médio Oriente, garantindo uma longa hegemonia da Aliança Atlântica e aquele indisfarçável sentimento de cerco de que o poderosamente armado regime soviético de forma inglória se queixava. 


A situação é hoje muito diferente e os recentes acontecimentos no Norte de África e no Médio Oriente, aconselhariam um repensar da estratégia norte-americana, aparentemente encantada com a fortaleza turca que por mais imaginação que possamos ter, é abertamente detestada por todos os vizinhos. Oa americanos fazem girar o seu pensamento em torno de negócios imediatos relacionados com a especulação e a garantia do acesso à energia e matérias primas. Não se prendem aqueles vizinhos rancores, com os aspectos da mais recente evolução interna da Turquia, mas de facto, tal se deve à própria origem e estabelecimento do Estado turco às portas da Europa. Assim sendo, é uma antiga história que tem 1453 como convencional marco e que depois conheceria outras etapas que trouxeram a bandeira vermelha com o crescente branco até às portas de Viena e às Colunas de Hércules. Em suma, quinhentos anos deixaram profundas recordações de humilhações, prepotência e rivalidades que bastas vezes se traduziram em conflitos militares.

Bem ao contrário dos pré-púberes imediatistas políticos dos nossos dias, vinte gerações pesam sobre uma importantíssima região do planeta e os EUA poderiam esforçar-se por não ignorarem com a contumácia displicência, certezas enraizadas e antigos preconceitos ciclicamente revisitados. A verdade é que desaparecido o mundo bipolar, a poderosa América acabou por ter sido a patrocinadora deste outro em que ainda vivemos, onde a China e a Rússia parecem regressar à estilhaçada amizade dos anos 50, afectuosamente enlaçantes dos dois grandes países do comunismo de Estaline e Mao. Vizinhos que partilham uma fronteira longuíssima e potencializadora de uma catástrofe militar, chineses e russos confluem em aspectos essenciais que se radicam, sobretudo, na luta pelo enfraquecimento da potência americana e em sentido lato, ocidental. É esta na sua essência, a válvula de escape encontrada. A Rússia sente-se europeia, se a Europa se tornar em definitivo, num espaço não hostil e acomodado à hegemonia - julgada pelos russos como natural - da grande potência continental, reconhecendo-se assim de forma implícita, as esquecidas teorias de Haushofer. Restar-nos-á saber se na Alemanha ainda persistem vestígios do pressuposto da massa continental euro-asiática que controlaria o mundo. Se assim for, o Plano B consistirá no primeiro passo para o fim daquela Alemanha que há perto de setenta anos enveredou pelo atlantismo. A possibilidade parece absurda, dado o facto de a Rússia dos nossos dias, ser um Estado muito diferente daquele que há uns cem anos era formado por uma massa de camponeses submetidos e por uns tantos centros urbanos onde brilhavam as luzes da cultura ocidental. Conhecidos os cada vez mais pitorescos aspectos da permeabilidade da economia, finança e da segurança americana, a questão europeia, cada vez mais abstrusa e passível de rápido controlo através do estrangulamento propiciado pelas dificuldades do acesso à energia, decerto surgirá  como objecto a utilizar para a obtenção de certos fins. Criar todas as condições para a colocação em prática do Plano B de exclusão da Grécia e dos outros quatro Estados em dificuldades, significará a irreversível satelização do para já resgatado núcleo duro do Euro. Notemos que a Europa não existe como potência militar e muito menos ainda, como entidade política coerente. Não existe nem poderá existir como tal, entendendo-se aquele essencial sentido de unidade que os sempre chamados "precursores norte-americanos," apresentam como exemplo histórico. 

 

A exclusão da Grécia do espaço Euro, inevitavelmente trará gravosas consequências políticas, entre as quais avulta o seu posicionamento na relação de forças daquilo a que outrora chamávamos de blocos político-militares. Sem sequer ter verdadeiramente encetado aquele caminho de reformas e cortes a que os portugueses já se habituaram, os gregos poderão impor a uma classe política condicionada pela rua, opções que alterarão o mapa geoestratégico daquela região. O sólido estabelecimento russo - e chinês - nos portos helénicos, o afluir de caudais financeiros provenientes das mesmas paragens e a satisfação de necessidades imediatas da Grécia, não poderão ser evitados após o ultrapassar daquela linha divisória que a pertença ou não ao Euro significa.  Há poucos anos, a intervenção americana no Iraque reacendeu os apetites turcos quanto às regiões do norte daquele estraçalhado arremedo de país e isto não apenas devido à cobiça pelos recursos económicos propiciados por aquela província - Mossul e área circundante -, mas também, pela enésima tentativa de resolução forçada do problema curdo e das rivalidades com a Síria e o Irão. Uma Turquia demasiadamente próxima de Washington, implica o simétrico afastamento de Atenas e uma rápida procura de novas alianças que conjurem a ameaça, principalmente quando esta agora se reveste de argumentos religiosos persistentemente prosseguidos pelo poder instalado em Ancara. Durante demasiado tempo, os europeus continuaram a encarar a Turquia sob o prisma da velha Cosntantinopla dos sultões e dos dourados da herança do Império Romano do Oriente. Nada de mais errado, pois o conceito que os próprios turcos fazem do seu país e nação, é infinitamente mais lato que aquele apresentado nos mapas que delimitam fronteiras e esperadas influências. O relacionamento com Israel, até há pouco apresentado como exemplar, fatalmente deteriora-se, devendo-se este ocaso, às implicações da progressiva aproximação do Estado turco aos fundamentos religiosos que um dia lhe garantiram a hegemonia no Islão. Até nisso os norte-americanos se equivocam na escolha aparentemente já decidida, garantindo de antemão, um  crescendo da conflituosidade entre turcos e israelitas. Como optará então a administração americana?  Há quem suspeite do entusiasmo dos EUA por uma adesão turca à U.E., como primeiro argumento e trampolim para um outro alargamento a Israel. Uma loucura que definitivamente arruinaria um projecto europeu que há uns vinte anos, para efeitos práticos deixou de o ser. 


Regressando à situação grega, o aspecto essencial consiste na total desarticulação existente do outrora relativamente sólido espaço euro-atlântico que hoje parece definitivamente abalado. A fuga da Grécia ao temperado controlo europeu, significará também um rápido afastamento em relação às alianças tradicionais e os russos poderão mesmo apresentar como recurso mobilizador de novas boas vontades, a ortodoxia  que um dia mobilizou os Balcãs orientais na luta contra a Sublime Porta. Se isso simultaneamente significar a quebra do sonho de uma Europa onde todos se "pareçam ricos como os alemães", tal não parecerá pecha ou irreparável desastre, pois a actual situação já colocou os gregos perante realidades que há muito teimavam em ignorar. Novas formas de desenvolvimento - neste caso podíamos dizer adaptação - da economia, também trarão outras novidades no campo da organização política, onde poderá despontar uma democracia à russa


Não estamos no plano das suposições, mas em Berlim, Paris e Bruxelas, a razão parece não prevalecer sobre a mensagem eleitoral a difundir pelos próximos noticiários. 


(continua)


 


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publicado às 20:14

Para lambe-botas, lambe-botas e meio

por Nuno Castelo-Branco, em 27.02.12

 

"No país do lambe-botas"

 

Num normalizado artigo de encher pneus em que requenta a sua expressa opinião do costume, o balsemado valentão-anti-cobardes Daniel Oliveira espuma por Passos Coelho não ter aderido ao documento glosado por David Cameron. Em boa verdade, muito daquilo que lá está escrito poderia ser suficiente para o governo português assinar de cruz, como aliás habitualmente tem feito desde há mais de trinta anos. Mas simplesmente não pode agora fazê-lo de ânimo leve. Porquê?

 

O sistema  que pariu e tem mantido os danieisioliveiras, é precisamente aquele que hoje se encontra em apuros e sob o fogo cerrado dos mesmos eternamente irados danieisoliveiras. É o esquema do subsídio à farta para o mau cinema votado às moscas, para os grupos teatrais do rebola no chão e bate na lata, o subsídio para resmas e resmas de ilegíveis opúsculos de e para amigos, das fundações e gabinetes de comparsas, BPN, BPP, PPP, etc. O dinheiro acabou e isso parece insuportável, urgindo recorrer à chantagem para que o caudal volte ao leito a que se habituaram. Tarde demais, é impossível.

 

O país faliu, aderindo sem sequer poder manifestar-se em referendo, a uma Europa que lhe tirou as ferramentas capazes de garantir uma frágil mas até então segura subsistência. O articulista deverá compreender de uma vez por todas que a loucura consumista acabou e não se vislumbra qualquer tipo de data para uma "retoma" do vício.  Os danieisoliveiras quiseram o Euro e puderam fazer figura de compinchas ricos com "ar de estrangeiros", viajaram, foram aos music-hall em Londres, andaram em solidárias marchas aqui e ali, viram exposições de parafusos como arte e tostaram o lombo em resorts caribenhos. Acham piada ao Castro, jamais o atacam porque pareceria mal - até porque gostam de charutadas - e admiradores dos tempos em que os russos ocupavam metade da Europa e tinham apontados SS-20 a Lisboa, Porto e Setúbal - nunca organizaram uma única "manifestação popular e pacifista" contra o facto -, estes danieisoliveiras andam com gorgolejos intestinais pelos negócios que Portugal tem celebrado com os ex-camaradas do MPLA. Há uns quinze anos, arremetiam contra a UNITA, um terrível bicharão pago pela CIA, no MPLA de J.E. dos Santos encontrando o "lídimo representante" do povo angolano. O comunismo foi pelo Futungo de Belas varrido do mapa, levantaram-se as tendas dos negócios, a filha do ex-camarada desfrizou a cabeleira e por Lisboa se passeia burguesmente em compras. Aqui está mais um inimigo de classe, mesmo que essa classe seja precisamente a dos danieisoliveiras.

 

Portugal é hoje um país oportunista na cena internacional? É sem dúvida e estará por muito tempo condenado a sê-lo, mercê do desastre a que o actual regime o conduziu, destruindo a sua estrutura económica, desvairando as suas finanças, chocando no ninho trupes de vigaristas de Estado e desviando a sua segura e tradicional política externa, para uma aventura europeia sem nexo. Os danieisoliveiras odeiam a Alemanha que é precisamente quem garante alguma coerência a essa Europa que calcularam radiosamente unida e "em igualdade". Mas será possível a possível, tratando-se de uma união entre desiguais? O espírito parasita do "viver à conta" num sistema em os convivas preguiçosamente se despiolham mutuamente, alastra então do microcosmos português onde o subsidiozinho enche algumas ávidas barrigas, para a imaginada grande política internacional dentro da U.E. Assim sendo, a "Alemanha deve pagar", um velho refrão de outros tempos e que serviu para o que se sabe e a geração dos pais dos danieisoliveiras estrangeiros teve de suportar sob um dilúvio de bombas. 

 

Diz agora o sempre indignadamente iracundo escriba que ..."a marca do que somos, como Nação, fica para sempre. Se os outros não se lembrarem, lembrar-nos-emos nós. Não é por acaso que somos um povo com tão baixa autoestima. Há tanto tempo que, como País, não fazemos nada de que nos possamos orgulhar."

 

Nisto tem razão e à gente do esquema dele o devemos: Portugal tornou-se num malcheiroso mierdero

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publicado às 11:24

Mãos largas em cofres alheios

por Nuno Castelo-Branco, em 15.02.12

Cá estão os brados generosos à cata do dinheiro dos outros. É claro que compreendemos bem o que se está a passar na Grécia, tal como também não são totalmente desconhecidos, os motivos pelos quais aquele país se encontra numa situação idêntica à portuguesa.

 

A lista de pantagruélicos indignados é aquela que se espera e espantosamente tende a perfeitamente coincidir com os artistas que fecharam os olhos ou colaboraram com todas as artimanhas daquela plutocracia tão fingidamente detestada. O povo grego "em luta  contra o cortejo de sacrifícios que lhe tem sido imposto", resume-se a uns tantos milhares de radicais que em Atenas queimam prédios, lojas e o património que podem destruir ou quando lhes é possível, roubar. Os restantes gregos, uns tantos milhões que igualam o nosso número, ficam-se pelo maioritário silêncio resignado, naquela surda surpresa pela política imposta pelos mesmíssimos "mãos-largas" que a tudo recorreram para o enriquecimento ilícito, distribuindo uns óbulos pelos crédulos. Conhecem-se os nomes de casta e o apelido Papandreu é bem familiar aos nossos choramingueiros aflitos de Lisboa e arredores, com ele decerto partilhando "ideais" comuns. Entre os signatários da cartinha portuguesa, passam os vultos de afamados negociantes de causas para proveito próprio, algumas das quais situadas naquela parte do mundo onde "não existe pecado", a sul do equador. Tal como na Grécia, em Portugal instalaram o sistema da destruição maciça da indústria e da agricultura, estabelecendo loucas engenharias financeiras, prestidigitações de serviços, betonismo pesca-comissões e outras habilidades que deram sumiço aos dinheiros estruturais, uma espécie de somatório dos fumos da Índia e do ouro brasileiro. 

 

Não nos iludamos com estes manifestos de solidariedade que são antes de tudo, um ataque preventivo àquilo que suspeitam poder ocorrer nas suas proximidades. Este cavalheirame não suporta ser desautorizado "via U.E." Não quer qualquer escândalo em termos internacionais, uma vez que o que se passa dentro de portas lhe é relativamente indiferente, tendo espalhado as suas pequenas comissões de censura muito hábeis na gestão dos previsíveis danos. O que verdadeiramente os preocupa na Grécia e em Portugal,  é “a crescente fractura entre os cidadãos e o poder político".  Em suma, temem pela própria barriga.

 

Imaginemos o que significaria a condenação da brilhante 3ª República à bancarrota? A quem poderiam estes indignados de banquete imputar as culpas, a não ser precisamente apontando o dedo à plutocracia com quem se mancomunaram e a quem pediram milhares de milhão ao longo do último quarto de século?

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publicado às 18:44

Uma verdade bastante incómoda...

por Nuno Castelo-Branco, em 14.02.12

...para alguns, pois há outros que não se cansam de a divulgar.

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publicado às 18:33

Agora, Schäuble

por Nuno Castelo-Branco, em 09.02.12

Sem dúvida uma personalidade muito mais relevante que o socialista Sr. Schultz, o Ministro alemão parece estar consciente acerca da situação e até nos atrevemos a sugerir que as imediatas reacções portuguesas às palavras do Presidente do Parlamento Europeu, tiveram o seu efeito.

 

Desde já, muito bem fez o governo português em ter marcado o nosso terreno na diplomacia. Dizemos isto acerca governo, como diríamos de qualquer outro, pois esta é a nossa política nacional. 

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publicado às 21:07

Tarde piaste

por Nuno Castelo-Branco, em 09.02.12

Sim de facto criticou o 1º Ministro e abusivamente interferiu na política externa portuguesa. Não houve qualquer má interpretação, não nos insulte ainda mais, tomando-nos por parvos. Agora, feita a asneira, mais vale calar-se de uma vez por todas ou fazer o mesmo que o Sr. Gerhard Schröder, solicitando um rendoso cargo na secção de gás da esquisita democracia do Sr. Vladimir Putin.

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publicado às 19:25

Os alemães irritados? Óptimo!

por Nuno Castelo-Branco, em 09.02.12

O Sr. Schulz proferiu umas tantas sandices a respeito da política externa portuguesa. Sabendo-se algo acerca da constante correria dos agentes de Berlim em direcção a todos os cantos do planeta, o caso português é diferente. A Alemanha pode exportar os seus produtos e até apostar na suicidária venda da sua tecnologia de ponta. Está no seu direito e esta é a sua política. Há até quem lhes possa recordar o precioso treino e oferta de tecnologia ao exército soviético que nos anos vinte e trinta, forjaria as armas e as tácticas que fariam os panzer russos tomar Berlim. Sendo a Alemanha um país recente e que não possui raízes fora do hinterland centro-europeu, necessariamente terá uma política bastante diferente daquela que o antigo Portugal pluricontinental poderá prosseguir.

 

"É evidente que para os alemães e restantes tribos europeias jamais tocadas pelo génio de Roma, a dimensão do mundo é diminuta: uns bantustões na Boémia, uns kimbos na Polónia, umas senzalas na Morávia, uns Xipamanines na Hungria, mais meia dúzia de kraal na Eslovénia e uns hotentotes nas faldas dos Cárpatos."

 

Passos Coelho esteve em Angola, tal como Sócrates visitou a Venezuela, o Brasil e vários países dos PALOP. É a política externa que nos interessa, libertando este país do acanhamento imposto pelas amarras apressadamente tecidas em troca de umas tantas auto-estradas e dinheiros que se volatilizaram nos bolsos de uns tantos "convivas da Europa de cá".

 

Há cem anos, os republicanos derrubaram o regime que foi por eles acusado de submeter Portugal à Inglaterra. Naquela época, perto de 30% do nosso comércio era feito com os britânicos. Hoje a situação é bem diversa e se avaliarmos os dados disponíveis, facilmente verificaremos estarmos perante um cataclismo que faz perigar a própria existência do país, atado e bem atado a um vizinho poderoso e cuja estabilidade poderá ser posta em causa por um qualquer motivo fortuito. Os indicadores percentuais do nosso comércio com o antigo Ultramar, Brasil incluído, são ridículos, vergonhosos. Há que reforçá-los, mesmo que isso desagrade aos atrevidos auto-nomeados tutores.

 

As viagens a Angola, Brasil, países asiáticos e a todo o espaço da CPLP - sem descurarmos outras paragens -, mostram aos arrogantes donos da U.E., o nosso interesse por um mundo aberto, há séculos por nós visitado e que jamais deveríamos ter abandonado.

 

Uma vez mais, os alemães regressam ao princípio da Festung Europa. Quando a nós se refere, tome em boa nota o Sr. Schulz, de não estar a falar da Croácia, Hungria, Finlândia, Rep. Checa, Dinamarca, Áustria e outros. Bastar-lhe-á olhar para um mapa e talvez perceberá o que está em causa. A U.E. - ou melhor, os alemães - estão irritados? Bom sinal.

 

Sigamos em frente.

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publicado às 10:42

Começou a "campanha da Hungria"

por Nuno Castelo-Branco, em 11.01.12

Após os blitz lançados sobre os "referendos não" da Dinamarca e Irlanda - quem se recorda? -, teve agora início, o ataque à Hungria. Argumenta-se com alíneas referentes a questões de dinheiro, regulamentação bancária e aspectos do foro jurídico, mas sendo estes os pretextos, a verdade é outra: a soberania. A Hungria votou em massa na actual maioria e as consequências reflectiram-se na Constituição. Não se imagina o que esta pressão de Bruxelas, ou melhor, de Berlim e Paris poderão ocasionar, mas é quase certa a resistência. Em muito pior situação estavam os húngaros em 1956 e só a tiro de canhão o Império da altura - não era a CEE/UE, mas a URSS - impôs o que queria, ou seja, a submissão.

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publicado às 18:18

No, no, NO!

por Nuno Castelo-Branco, em 26.12.11

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publicado às 22:29

Curto-circuito brasileiro (infelizmente)

por Nuno Castelo-Branco, em 22.12.11

Nesta luta pela sobrevivência, o governo português optou por apostar nos chineses, em detrimento do Brasil.  Para já, o único resultado positivo respeita à esfera da política, porque economicamente, muitos agentes há que vêem com alguma circunspecção, o papel que empresas do Império do Meio desempenham noutras "anexadas" em períodos de dificuldades destas últimas: conquista de poder económico e logo, a quase infalível pressão política que não deixará de se fazer sentir. Mais ainda, é observado o corriqueiro processo de obtenção de know-how e a sua transferência para Oriente, dando início ao descurar dos interesses vitais das empresas adquiridas. Veremos se com a EDP se passará o mesmo, mas neste caso, há que contar com outra realidade, a do mundo lusófono. Assim, a situação parecerá mais equilibrada, não sendo de estranhar se proximamente assistirmos à conjugação de políticas entre a China e alguns dos países da CPLP, às quais Portugal não deverá escapar. 

 

De facto, a Alemanha é a grande derrotada na contenda. Derrota económica e sobretudo politica, num momento em que a rispidez do ein befehl ist ein befehl, parece ser a norma adoptada pelo directório composto por alemães e seus assistentes franceses. A boa notícia consiste também em mais um escolho aos impulsos tendentes a forçar um federalismo que mais não é, senão uma clara "provincialização" dos "Estados secundários", sempre em detrimento dos interesses particulares que ainda justificam os resquícios da soberania. A oligarquia possidente, vem agora na pessoa do Sr. Paulo Rangel, despudoradamente reivindicar um certo decisionismo discricionário e em claro detrimento da vontade dos povos, consagrando aquele princípio do referendo "repete até ao sim" que deu início ao total descrédito daquilo que se chama União Europeia. Por outras palavras, de Berlim e via Bruxelas, estamos perante uma espécie de reformulação daquela política olivarista da "União de Armas" que no nosso país despoletaria o movimento do 1º de Dezembro de 1640.

 

Teria sido mais desejável a aquisição da EDP pelos brasileiros, não apenas por razões económicas e de proximidade - capaz de gerar outros resultados dentro da CPLP -, como também e sobretudo, políticas. Simplesmente, parece existir no Brasil e entre uma certa camada dirigente - principalmente da parte dos "recém-chegados de duas gerações" da Alemanha, Itália e de outros tantos países fornecedores de contingentes migratórios - que se estende das empresas às academias, uma clara má vontade ou declarado preconceito em relação a Portugal e aos portugueses. Se tal não é significativo entre o homem comum escolarizado, verifica-se, no entanto, uma acérrima oposição a tudo o que de Portugal chegue, estejam esses brasileiros em locais de decisão nas universidades americanas, ou nos círculos culturais ou empresariais locais, de Macau, Angola, Moçambique ou até, pasme-se, em Timor. Muito trabalho há a fazer por parte das autoridades políticas de Brasília, agora pertencentes a um sector político pouco propenso a sonhos de padronização Made in USA que eram apanágio de uma certa Direita local. A impressão que fica, é que dada a exiguidade portuguesa, os brasileiros tendem pura e simplesmente a olhar-nos por cima do ombro, ignorando-nos. Erro crasso, pois a situação geográfica portuguesa e a posse - mesmo que teórica - do amplo espaço do Atlântico Norte que vai de Lisboa até bem para lá da última nesga de terra açoriana, deveria fazê-los reconsiderar. Se a isto somarmos a ainda presença portuguesa na U.E., o interesse chinês e de outros "emergentes" - condição que o Brasil reivindica - nas grandes rotas comerciais que ainda são aquelas que o Atlântico retém e aspecto fundamental, a desejável articulação em todo este espaço através de uma coordenação de esforços entre o nosso país, o Brasil e Angola - com os arquipélagos portugueses e os outros que outrora fizeram parte do Ultramar -, temos um quadro onde é possível desenhar uma outra realidade. Não se trata apenas wishful thinking ou de salvar a soberania portuguesa, embora este seja um ponto obviamente interessante para o sucesso do processo de expansão da economia brasileira.

 

Dito isto, veremos quais serão as imediatas consequências desta vitória chinesa. Não nos admiremos muito se dentro de pouco tempo, a "eterna promessa Sines" não conhecerá novos desenvolvimentos e se a sempre anunciada ligação ferroviária à Europa não será uma prenda chinesa.

 

Adenda: pese a desconfiança - como aqui dissemos, os chineses não se livram facilmente da fama de "seca-economias" - que já várias vezes manifestámos acerca  da política de penetração chinesa, há que reconhecer que neste caso, o governo agiu bem. Enganou os "politólogos" de serviço, fez tábua rasa do propalado princípio de submissão a tudo aquilo que a Alemanha deseja e o processo EDP foi limpo, preenchendo todos os critérios exigidos pela credibilidade. O Brasil não conseguiu o que timidamente aparentou querer. Conseguir enganar uma opinião pública unanimemente formatada para "decisões inevitáveis", é obra. O que irá acontecer ao sr. Mexia?

 

Um nosso leitor deixou na caixa de comentários, um desabafo acerca do "latente antigermanismo" patente neste blog. Pelo contrário, há entre os colaboradores do E.S. admiradores confessos da Alemanha e entre eles me incluo. Isso não nos impede de verificar a falta de habilidade política de que enfermam muitas das actuais autoridades germânicas, esquecendo-se do facto de não estarem a lidar com uma novidade nacional recente de apenas uns, digamos... 500 anos. Portugal tem as suas fraquezas, mas a generalidade dos seus nacionais é extremamente orgulhosa quando quer e essa erupção pode ser súbita e violenta. Sabendo que jamais declarámos guerra à Alemanha ou participámos na exploração da sua população por duas vezes derrotada nos últimos 90 anos e tendo ainda a consciência de que Portugal excedeu em muito as obrigações que o estatuto de neutral lhe conferia, aos alemães restaria uma réstia de bom senso, evitando melindrar um povo que contra eles não nutre qualquer tipo de preconceito. De facto, a geração dos pais da sra. Merkel, bastas vezes matou a fome com produtos Made in Portugal, apesar do enorme alarido que a Grã-Bretanha e os EUA faziam junto do Palácio das Necessidades. Até podemos recordar a Chancelaria de Berlim, de um evento ocorrido em Maio de 1945, quando Portugal cumpriu escrupulosamente as necessárias obrigações protocolares, colocando a sua bandeira a meia haste. 

Os alemães não se recordam, paciência, mas nós ainda temos bem presentes aquelas palavras que o embaixador francês em Roma, André-François Poncet dirigiu ao embaraçado Conde Ciano, no dia 10 de Junho de 1940, dia da declaração de guerra da Itália:

 

-"Os alemães são patrões duros e isso vão os senhores aprender à vossa custa".

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