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Centro de Saúde da Lapa

por Nuno Castelo-Branco, em 02.03.15

Era aflitivo ver este casal que tudo tentava para obter o acesso a um Centro de Saúde. Com residência na zona do Príncipe Real, a inscrição foi rejeitada devido à sobrelotação de utentes no C.S. Cais do Sodré (1). 

São ucranianos, residindo ele em Portugal há seis anos e sem que até hoje alguém lhe concedesse um contrato/inscrição na S.S. Trabalha a recibos verdes e acumulam-se os episódios de "colocação à experiência" durante meses infindos. Devido aos problemas russo-ucranianos, já há quase seis meses trouxe de Kherson a sua mulher. Está grávida, na primeira fase da gestação. Até hoje ninguém a quis atender, deambulando de centro em centro, esmagada pela exigência deste e daquele papel que não era possível obter senão com a apresentação de um outro qualquer.

 

Decidi acompanhá-los ao C.S. do Cais Sodré e após indicações da simpática funcionária, dirigimo-nos ao C. S. da Lapa, na Rua de S. Ciro. Após uma espera de pouco mais de cinco minutos, tivemos a oportunidade de conhecer um modelo de funcionária pública. Conhecedora dos trâmites legais e inteirando-se da situação da Yelena, prontamente resolveu o caso, marcando para esta tarde a primeira consulta. Rapidez, saber fazer, delicadeza e boa educação extrema, salientando-se ainda a compreensão dos problemas de gente que até então lhe era completamente estranha. Se Portugal contasse com este tipo de serviço público em cada departamento do Estado, boa parte dos dramas nacionais não existiriam. 

 

O Centro de Saúde da Lapa merece o nosso reconhecimento, até porque facilmente concluí acerca da existência de outras Anas Fernandes de serviço ao mesmo balcão, significando isto um perfeito trabalho de equipa. Em conformidade solicitei o Livro de Reclamações, nele deixando um louvor. Trata-se da mais elementar justiça.  

(1) Orgulhosamente em exposição na sala de atendimento do C.S. do Cais Sodré, está uma grande fotografia da visita da Rainha D. Amélia  ao mesmo local, quando ali funionava a SLAT de que foi fundadora e benemérita. Cercada por uma multidão de populares, o grande vulto da soberana recebe as homenagens de quem, mesmo tendo passado 35 anos desde a catástrofe de 1910, jamais a esquecera. Afinal, existe mesmo um outro Portugal. 

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publicado às 15:34

Portugal, uma enorme fotocópia

por John Wolf, em 11.02.15

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É perigoso viver em Portugal. Muito perigoso - o país anda entretido com as fotocópias de Sócrates e o corte de relações institucionais entre o Sporting e o Benfica. Enquanto isso a Europa vive a maior crise desde que há memória. A vingança da Austeridade e a promessa de que a Merkel seria esmagada alimentou excessos nos discursos e novas figuras de estilo na Europa. Tsipras e Varoufakis, sem dúvida que serviram para agitar as águas instransigentes da política, mas não passam de marionetas de um esquema maior. O dia de hoje pode também figurar na história, mas não pelas razões que os gregos invocam. A Grécia bem pode ameaçar arrastar ao fundo uns quantos colaboradores se as suas exigências não forem cumpridas. Mas não é bem assim. Os mercados já começaram a descontar a "inexistência" da Grécia no quadro europeu. Os ânimos exaltados do duo grego serão rebaixados pela determinação dos políticos dos centros de decisão que não desejam uma hecatombe com efeito de dominó, o que em última instância deitaria a perder o grande sacrifício de alguns, entre os quais Portugal. Se derem despacho ao requerimento dos gregos a coisa muda logo de figura. Seria como entregar argumentos válidos a outros demandantes. Portugal não é a Grécia, nem precisa de ser a Irlanda. Certamente terão de passar alguns anos para que Portugal perceba que os caminhos trilhados pelos outros não servem as suas causas. Como já havia escrito, da escolha múltipla a decisão efectiva é um pequeno passo. Se a Grécia abandonar o Euro (e subsequentemente a União Europeia) é porque já terá alinhavado um novo arranjo de lealdade política e dinheiro fresco. O outro berbicacho em que Portugal está metido (mas que acha que não está metido), chama-se "conflito na Ucrânia". Esse outro tira-teimas pode muito bem ser mais nefasto do que muitos julgam. Mas querem lá saber. Afinal Portugal é um país à beira-mar plantado. Imaginem só se estivesse bom tempo. Ainda seria pior. Estaria tudo na praia.

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publicado às 09:33

Passa a massa, Merkel!

por John Wolf, em 06.02.15

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Não é preciso ler a obra de Niall Ferguson - A Ascensão do Dinheiro -, para saber que os pressupostos do crédito estão a ser postos em causa no âmago da União Europeia (UE). Sem percorrer esse perigoso caminho das compensações históricas* que são devidas ou não, e que não pouparia nenhuma nação à face da terra, o que resultar do conflito que opõe a Grécia à Alemanha pode destravar por completo a já de si ténue relação entre dinheiro e Ética.  Se vingar a tése do perdão, certamente que uma extensa fila de faltosos procurarão tratamento idêntico - situação essa contraditoriamente inexequível. O crédito (como quem diz a crença que os outros depositam em nós) precede a existência física de dinheiro - o bom nome é a divisa maior, mas apenas se valida através da sua extensão material. Se esse fundamento deontológico que se encontra por detrás da construção monetária das nossas sociedades falhar, como podemos esperar que não mine todo um sistema de transacções? Como podemos aceitar que a excepção à regra se venha a tornar a norma? São considerações desta natureza que podem corromper um dos valores mais importantes do acervo existencial humano: a confiança. Não pretendo com esta linha de argumentação libertar os credores do seu sentido de responsabilidade no contexto de um projecto europeu alegadamente inclusivo e nivelador de diferenças. Culpados? Sóis todos vós europeus por terem concebido um modelo sistémico deficiente. Em nome de uma grande "entidade económica europeia concorrencial" os visionários foram ambiciosamente incompetentes. Avançaram a causa dos negócios, mas omitiram a federação do espírito das nações. Esqueceram-se dos pilares de justiça e segurança social, e prescindiram de uma efectiva Política Externa e de Segurança ComumA Grécia, assim como o conflito na Ucrânia, servem, de um modo cáustico, para expor as grandes lacunas da UE.  Se os lideres europeus tiverem a visão e a ousadia requeridas, a grande reforma poderia ser posta em marcha na construção de uma nova ordem na Europa. Mas não é disso que se trata. Quer a Alemanha quer a Grécia estão a defender os respectivos interesses nacionais. Merkel e Tsipras estão, efectivamente, empatados: querem salvar a sua pele e pouco mais. A tal união - essa não passa do papel, da massa.

 

*Compensações históricas possíveis:

EUA ao Iraque, à Nicarágua e ao Afeganistão.

Portugal a Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde

França à Argélia e à Líbia

Etc a etc, etc e etc

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publicado às 13:52

A grande ilusão europeia

por John Wolf, em 31.01.15

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Quando vejo a histeria a tomar conta dos povos, recordo-me dos filmes históricos dos anos 30 do século passado. Quando vejo povos derreados pela verga da indignidade económica e social, penso no sofrimento incomensurável de famílias inteiras. Quando vejo expressões de pura demagogia a tomar conta dos discursos de políticos, sinto que as nossas sociedades correm grandes perigos. Quando observo a bandeira da libertação ser hasteada, penso como será a nova ordem proposta pelos mercenários. Quando comprovo como nações inteiras podem ser postas ao serviço de interesses ideológicos, deixo de acreditar na pureza da Democracia. Quando testemunho a facilidade com que se arrebanha gente, penso em colunas militares. Quando sinto a prevalência do dinheiro na retórica inflamada, sei que a alma humana foi vendida. Quando registo a facilidade com que se desonra a palavra, conheço o valor de um aperto de mão. Quando nem preciso de olhar para ver, sei que já embarcaram num caminho de difícil retorno. 

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publicado às 20:02

Extrapolações a partir de Tsipras

por John Wolf, em 29.01.15

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A crise europeia acabou, e o emprego vai crescer exponencialmente em todos os Estados-membro da União Europeia.

A Dívida Grega vai ser perdoada e a Troika vai conceder um bónus de 500 mil milhões de euros aos helénicos por terem tido uma ideia tão boa.

A Austeridade vai acabar dentro de 10 minutos e cada cidadão europeu vai receber um cheque de 500 euros para estoirar no Carnaval com a garantia de que receberá outro no Natal.

A Rússia vai retirar-se da Ucrânia e compensar aquele país pelos danos causados e oferecer  gás natural durante 20 anos.

O Estado Islâmico vai converter-se em centro ecuménico de reflexão e paz.

Os EUA vão deixar a Rússia desmontar a NATO.

A União Europeia vai ter, a partir de amanhã, uma União Fiscal e uma Política Externa e de Segurança Comum.

Portugal vai ser salvo por um novo partido de inspiração tsiprarista fundado por António Costa, Mário Soares e José Sócrates.

Os ataques terroristas, tal como acontece com as greves, deverão ser marcados com antecedência mínima de 24 horas pelas uniões sindicais que representam os suicídas.

As receitas da venda de armas dos EUA, França, Reino Unido e Alemanha vão reverter integralmente para a Cruz Vermelha, a Amnístia Internacional e o Banco Alimentar contra a Fome, que cessarão de existir e tornar-se -ão desnecessários.

O Euro irá ser adoptado por todos os países africanos descarrilando o Dólar Americano como moeda de referência no comércio internacional.

Todas as Empresas Privadas portuguesas serão nacionalizadas para compensar a Privatização da TAP e a perda de controlo sobre a PT.

Os bancos vão passar a ter filiais dentro da casa de cada família portuguesa para pôr em prática soluções de poupança e oferecer salários aos reformados e delinquentes.

As semanas laborais vão ser sujeitas a uma reforma humanitária que implicará não mais de 15 horas semanais de trabalho.

As dívidas vão passar a ser entendidas como um valor positivo civilizacional e promovidas no programa curricular das escolas.

Os partidos políticos da Extrema Direita e da Extrema Esquerda vão deixar de existir para dar destaque a uma força moderada nascida a partir de uma sociedade civil que não sabe o significado de ideologia.

E por último, eu deixarei de ter ideias tão realistas quanto estas e outras que me escapam de um modo tão flagrante...

 

 

 

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publicado às 10:31

Novas realidades, as velhas certezas

por Nuno Castelo-Branco, em 27.01.15

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Contrariamente ao que muitos pretendiam, o caso ucraniano  parece ter passado para um plano muito secundário nas preocupações da imensa maioria dos europeus. Sem de forma alguma questionar-se a independência da Ucrânia, a situação tem evoluído para um estado de ponto morto sem grandes avanços ou recuos por parte de qualquer um dos contendores.  Esta é a situação que agora mais interessa ao Kremlin, para já assoberbado com problemas económicos e pressões das facções que se digladiam em torno de V. Putin.

No ocidente, poucos quiseram entender quais os limites que deveríamos impor à nossa Aliança no superior interesse da paz na Europa e na evidente necessidade de podermos contar com a colaboração russa noutras áreas geográficas que constituem a vizinhança próxima e ameaçadoramente instável, ou seja, todo o Magrebe, a zona do Suez e o Médio Oriente. De nada serviram as advertências passíveis de retirar de qualquer manual básico de história, fazendo-se pouco ou nenhum caso de eventos que para o bem e para o mal, continuam muito presentes na psique russa. A natural sugestão de uma finlandização da Ucrânia - ou seja, a progressiva adopção de uma economia e de um tipo de organização política do Estado - que a aproximasse da UE, em simultaneidade com uma certa neutralização que tranquilizaria Moscovo, foi loucamente ignorada no quadro dos principais decisores na Aliança Atlântica. Cometeram-se flagrantes erros, concederam-se demasiados incentivos ou informais garantias a responsáveis políticos como Sikorski - e inacreditável audiência à sua sempre enervada cônjuge em ambicionado tirocínio para a Secretaria de Estado -, num plano tal, que muitos apontaram de imediato um recôndito desejo de revisionismo de fronteiras. Tal será possível, mas apenas com o recurso ao desencadear de uma guerra muito diferente daquela que temos em Donetsk e Lugansk. É impossível encontrar qualquer consenso europeu para uma catástrofe desta dimensão.

A ninguém passa despercebida a evocação do período imediato a 1919, com tudo o que isso significa em termos de reordenamento territorial e demarcação de áreas de influência, quando não de reservada e ainda não ostensivamente declarada reivindicação de novas fronteiras. Parece ser avisado o recurso à tentativa de uma visão mais alargada deste problema artificialmente criado logo após a liquidação da aventura soviética, quando as fronteiras foram delineadas segundo o risco arbitrariamente imposto pelo caído regime de Lenine, Trotsky, Estaline, Kruschev e Brezhnev. Ficções que serviram para formalmente garantirem uma aparência de realidades nacionais nas Nações Unidas, foram herdadas por novos Estados internamente pouco coerentes e com situações económicas agravadas pela implosão daquilo que foi o frágil mercado interno soviético. O episódio da Crimeia, já consumado e sem retorno, é apenas o exemplo mais flagrante, podendo lobrigar-se outros na zona do Cáucaso ou nas imediações da fronteira romena. O cerne de toda a questão pode resumir-se ao alinhamento da vasta região que se chama Ucrânia - não se esquecendo a Moldávia - num dos potenciais blocos em presença, ou seja, a UE e apêndice NATO, ou o regresso à esfera de influência russa. Sabe-se que o Kremlin condescenderia com uma finlandização que até proporcionaria claras vantagens políticas e económicas, afastada que estaria a ameaça militar e a ofensa a patrióticos brios desde sempre cultivados pelos russos, seja qual for o regime vigente. 

 

Na Europa, há quem tenha entendido serem os EUA o essencial elo - tem sido esta a realidade - que pode manter a pressão sobre Moscovo, conhecendo-se também a cada vez maior relutância de algumas potencias continentais - França, Alemanha e agora, ainda num plano secundário, a Polónia - no enveredar de uma declarada política de confronto directo que de antemão significa graves prejuízos para os interesses económicos e de segurança geral. Ao longo dos últimos vinte anos, os americanos têm-se paulatinamente distanciado dos assuntos europeus, apenas intervindo na ilusória esperança de poderem manter a omnipresença saída de 1945, com o recurso a avanços pontuais na criação ou resolução de crises na Europa balcânica e de leste.  Apenas um exemplo? A crise jugoslava que se desenrolaria ao longo de anos e culminaria no Kosovo. Todos já percebemos serem outras as prioridades que a ascensão da China impõe, embora a zona de segurança próxima da Europa - Cáucaso e Médio Oriente - signifique algo mais que perímetros defensivos de índole meramente militar. A verdade é outra, verdade esta que não escapa a regra económica e o reordenamento do (des)equilíbriio de forças na região onde a Turquia e o Irão passaram a ser agentes activos e muito interessados. O reconhecimento disto? Após a catastrófica queda do regime do Xá Reza Pahlavi e o resvalar do Irão para a colecção de inimigos sagrados, temos a progressiva abertura da administração Obama a um relacionamento com Teerão, ao abjecto regime dos aiatolás, logo se seguindo outras aproximações entre as quais a de Portugal - um Estado naturalmente satélite de Washington - é apenas um, entre outros exemplos. 

A crise do Euro e das dívidas soberanas, fez estremecer a já aparentemente consolidada relação de forças na Europa, com o bastante perceptível volver das atenções alemãs para leste, para a sua tradicional zona de influência forçosamente a partilhar com a Rússia fornecedora de matérias primas e de um mercado continental que ultrapassa a Sibéria e chega ao Mar do Sul da China. Apesar do patético e inútil alarido tablóide contra Merkel - imaginemos então o que seria, se em vez de Merkel tivéssemos um dirigente da categoria de Schmidt, por exemplo -, os alemães vão tentando manter a construção europeia que herdaram do período anterior à queda do Muro. Por muito que isto desagrade aos garimpeiros da mina da culpabilidade real ou imaginada, esta é a verdade. Contudo, os apressados alargamentos que consumaram a agora periclitante União, não foram de molde a conceder mais consistência ao mercado e muito menos ainda, à moeda única outrora insistentemente exigida por uma França aterrada pela reunificação da Alemanha. Atrás dos alemães que agora praticamente desarmados, não podem ser acusados de belicismo, estão praticamente todos os países da Europa central, do norte e do leste, todos eles interessados na tranquilidade e satus quo das fronteiras, ciosos pelo cuidar da economia e não descurando o fornecimento de matérias-primas onde a energia tem a parte de leão. A perspectiva de bons negócios para o longo prazo, dita a progressiva alteração das políticas daqueles Estados pertencentes a uma UE aparentemente em rápido processo de disfunção, sendo cada vez mais evidentes os interesses divergentes entre o norte e o sul, assim como entre o leste e o oeste. 

 

O regime de Putin é avesso às conhecidas realidades  políticas e sociais para cá do Óder? É, mas agora, pela primeira vez desde há cem anos, nunca os russos compraram e consumiram tanto, viajaram, leram, livremente viram e fizeram tanto teatro e cinema sem "licença do Partido". Sobretudo, estes russos investiram de tal forma, que dissiparam muitos dos receios quanto a invasões protagonizadas por tanques ou Spetsnaz caídos do céu. Putin obteve assim alguma condescendência na zona do Danúbio e talvez, nas margens do Egeu onde decerto poderá envidar  esforços para um aumentar da sua influência em países onde a ortodoxia - no laicizado ocidente europeu, o factor religioso é escassamente considerado, um tremendo erro de cálculo dos decisores políticos - consiste num factor muito importante. Além de tudo isto, os europeus estão extremamente receosos daquilo que ocorre no norte de África e no Levante, conscientes do que hoje significam as importantes comunidades muçulmanas que sem qualquer dúvida, mantêm-se bastante silenciosas ou discretas quanto à condenação das barbaridades que quotidianamente nos chegam pelos noticiários. Se se trata de receio pela pressão moral e física de minorias activistas, ou de um resignado contentamento por aquilo que pode ser considerado como um certo revanchismo relativo ao bem patente naufrágio civilizacional do islão ao longo dos últimos seis séculos, isso não podemos garantir.

Putin apresenta-se a muitos como um aliado natural, tal como outrora o autocrata Nicolau II foi ansiosamente aguardado como o salvador militar - o mito do Rolo Compressor russo - da laica e republicana França de Poincaré, Clemenceau e Ribot. Sabe-se que o sucesso no Marne em boa parte se deveu à invasão da Prússia Oriental no verão de 1914, tal como o resultado de Verdun teve muito a ver com as operações russas na Galícia austríaca. Mais tarde, Estaline apresentar-se-ia a leste, como o mais plausível aliado das ultra-capitalistas potências anglo-saxónicas muito lestas no apagar das memórias sangrentas da implantação do regime soviético, das fomes induzidas e massacres conducentes ao Holodomor, das Grandes Purgas e do Pacto de 31 de Agosto de 1939. A lealdade ocidental para com a Polónia, não impediu o ocultar da conhecida verdade - desde 1943-44 - acerca de Katyn, um pequeno pormenor no vasto panorama oferecido pela gestão de interesses contraditórios entre as potências aliadas e o poderoso José Estaline.

 

Chegou ao fim, o já longo período de transição pós-Queda do Muro. 

 

Pelos vistos, nesta Europa do início do século XXI, mais que nunca ameaçada interna e externamente, os russos bem depressa passarão a ser encarados como incontornáveis - desejados ou não desejados - parceiros. Aqui está o primeiro dado, aquele que sendo tão evidente, relevante e para alguns desagradável, parece contudo invisível para quem pretende manter a equação impossível: manter a hegemonia na Europa, dela se retirando e estabelecendo-se noutras paragens. O caso da Base das Lajes é neste contexto, apenas mais um entre inúmeros exemplos.  

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publicado às 14:35

Na fronteira da estepe

por Nuno Castelo-Branco, em 20.11.14

 

1. Um ataque preventivo?

Foi com surpresa que nos primeiros dias da invasão de Junho de 1941, o Alto Comando da Wehrmacht foi recebendo relatórios da frente de combate, interessando-se especialmente pela quantidade de material destruído ou capturado ao Exército Vermelho. Centenas de milhar de homens aprisionados ou postos fora de combate, milhares de aviões abatidos ou pregados ao solo dos aeródromos militares, a inacreditável quantidade de peças de artilharia com que os alemães depararam e sobretudo, uma contabilidade final de perto de 17.000 veículos blindados que se amontoavam nas imediações da linha de demarcação estabelecida em Setembro de 1939, após a ocupação da Polónia por exércitos alemães e soviéticos.

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Dispositivo dos exércitos alemães e soviéticos em 22 de Junho de 1941 


A tradicional doutrina militar russa tem como norma a defesa em profundidade e desde os tempos de Pedro o Grande,  esta foi uma constante repetida ao longo de mais de dois séculos. A campanha napoleónica conheceu o calcinante pó que em turbilhões fustigava os seus regimentos durante a longa e penosa caminhada em direcção a Moscovo, para logo depois ser essa poeira substituída por outros torvelinhos, desta vez gelados, mortíferos. Durante a Guerra da Crimeia os Aliados não fizeram grande figura, tendo os russos conseguido empastelar uma invasão em grande escala. Décadas depois, os exércitos do Czar Nicolau II, apesar da clara inferioridade material, puderam ceder todo o território que hoje pertence à Polónia, aos Países Bálticos e uma boa parte da Ucrânia, sem que isso significasse o colapso da essencial segunda frente que queiram ou não queiram reconhecer os Aliados ocidentais, foi determinante para o resultado final da guerra. 

 

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A frente sudeste em 21 de Junho de 1941 

O que estaria então Estaline a preparar naquele distante ano de 1941? A concentração de efectivos de toda a ordem indiciava algo muito diferente de um dispositivo meramente defensivo, apesar de alguns poderem argumentar com a desorganização causada pelas Grandes Purgas que quase eliminaram a cúpula e o poder combativo do Exército Vermelho.  Acreditar na inocência daquela gigantesca concentração de meios, seria cultivar o sonolento prazer de imaginarmos o Alto Comando soviético ter infantilmente errado no gizar do seu dispositivo guarda-fronteiras. Parece uma impossibilidade, verificados os acontecimentos no início do verão de 1941.

A história foi e ainda é naturalmente contada pelos vencedores da IIGM, mas não será absurdo considerar a hipótese de Estaline ter apenas sido ultrapassado pela belicosidade do Führer. De facto, a comoção pela fulminante queda da França e a rápida passagem de todo o espaço balcânico para o controlo do Eixo - não esquecendo o realinhamento da Hungria, Roménia e Bulgária com a Alemanha -, levou Estaline a considerar a guerra como inevitável e a concentração de meios nas fronteiras é o melhor indício da intenção de uma guerra preventiva, somando-se às suas declarações nos conciliábulos do governo soviético e nos discursos proferidos no abrigado secretismo do Comité Central do PCUS. A verdade é que Hitler surpreendeu o seu parceiro do Pacto de 23 de Agosto de 1941, enquanto o Vozd  aguardava a consolidação do seu dispositivo ofensivo para o início das hostilidades. Pouco tempo antes, os oficiais soviéticos de visita ao Reich, com desagrado comentavam o equipamento blindado que os seus congéneres alemães apresentavam para vistoria, declarando estarem os oficiais do Panzer Amt a esconder os modelos mais recentes. Quando as fábricas russas já  produziam grandes quantidades de blindados KV e T-34, a visão dos Panzer III e IV suscitavam a incredulidade, dada a notória inferioridade em relação ao equipamento que a URSS produzia em segredo. Para o oficialato russo, os seus congéneres alemães estavam a ser desleais. ocultando o que de mais valioso e moderno estavam a construir e a fornecer aos depósitos militares da Wehrmacht. Aquilo que os soviéticos tão bem sabiam fazer, claramente julgavam recíproco do outro lado da fronteira política e ideológica. Deste modo, muitos são os elementos que indiciam uma decisão soviética para um  desencadear do conflito para um momento daquele mesmo ano de 41. A posição estratégica era de facto muito favorável, pois à posse da Ucrânia ocidental e de parte da Rússia Branca arrebatadas à Polónia, somava-se a clara vantagem obtida com a anexação dos três Países Bálticos, não podendo nós esquecer a Moldávia, anexada após um violento Ultimatum entregue em Bucareste. Se é hoje difícil imaginar-se o que teria resultado de um antecipado ataque russo a ocidente, não será abusivo considerarmos as dificuldades que teria causado  aos alemães. 

 

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20-11-2014, Putin inaugura no Kremlin, a estátua homenageando Alexandre I. A mensagem é clara.

 

2. Uma fronteira de segurança?

Não existe hoje qualquer concentração militar que seja comparável à existente em 1941. Os meios e doutrinas militares são muito distintos, a tecnologia é outra e a situação política é, apesar dos recentes acontecimentos, de paz europeia. Serve este longo intróito para abordar o problema que para os militares e políticos russos é uma fronteira que consideram desadequada aos seus esquemas defensivos em profundidade. Se atendermos às realidades que as cartas geográficas agora comprovam, a Rússia encontra-se grosso modo, na situação em que o Tratado de Brest-Litovsk a deixou após a rendição bolchevista de 1918, com a agravante de agora ter no seu flanco sul, ameaças que seriam impensáveis há cem anos, às quais se acresce a poderosa China - actualmente um aliado de circunstância - e a miríade de países que de tão instáveis, são um elemento a considerar. Inevitavelmente, a Rússia consiste num claro objectivo do expansionismo doe extremismo islamita, ou por outras palavras, um assunto que a toda a Europa interessa.

É muito difícil imaginarmos hoje, uma concentração militar russa  tão vasta e potente como aquela conseguida por Estaline na Primavera de 1941, ou a outra, por nós bem conhecida e que na Europa central se manteve até ao início dos anos 90 do século XX. É bem notório o estado de impreparação do exército russo para qualquer aventura de largo espectro, encontrando-se nestes dias numa fase de reorganização e reequipamento. Exército, marinha e força aérea são incomparavelmente inferiores aos correspondentes dos seus possíveis adversários norte-americanos e não sendo este um aspecto desconhecido ou desconsiderado pelos nossos aliados, talvez possa servir de justificação para muitas das atitudes que se têm sucedido nos últimos anos. É certa a suposição de na última década ter a Rússia investido muito na defesa anti-aérea, colocando em campo novos e sofisticados sistemas de mísseis que aparentemente poderiam contrabalançar a supremacia das forças aéreas da NATO, ou mais propriamente, a USAF.  Isto não significa uma suficiente força dissuasora de um ataque vindo do ocidente. Não é descabida a ilusão perigosa de um conflito clássico sem a utilização de armas nucleares tácticas, sendo este um puro  exercício de wishful thinking. As armas existem e serão utilizadas, mesmo que de forma limitada, num caso de desespero. Daí à escalada - mesmo que também limitada a alguns secundários alvos além-Atlântico - vai um passo que dependerá de qualquer imponderável. Qualquer diplomata russo declara-o sem qualquer pejo e não podemos contar com qualquer alegação de bluff, pois este é o pior cenário possível de apresentar aos países componentes da Aliança Atlântica. Por outro lado, o subir da parada ocidental vem assegurar indefinidamente a sobrevivência do governo de Putin, estando hoje todos os russos colocados perante a quase intimação de um Unconditional  Surrender sem guerra, quase um émulo daquele outro saído da Conferência de Casablanca e que tão nefastos efeitos provocou no seio da oposição interna alemã. Má política, ignorância crassa, ignóbil arrogância e sobretudo, péssima propaganda engendrada e difundida urbi et orbi pelo nosso próprio campo.

As colossais e desastrosas derrotas em Minsk, Brest, Smolensk, Kiev/Briansk-Viazma e a certeza dos Panzer a pouco mais de 30Km de Moscovo, eis o inesquecível legado daqueles meses de 1941. É esta uma obsessão dos militares e políticos russos. Se a independência dos Países Bálticos pode para muitos russos ter sido considerada como inevitável e até aceitável, a perda da Ucrânia e de metade do Cáucaso consistiu num desastre que apenas poderia ser limitado, se aqueles territórios fossem pelo menos neutralizados. Parece ser esta última, a posição que um antigo secretário de Estado da dimensão de Kissinger, queria apontar como apropriada a uma política ditada pela consideração das realidades. A psicologia também deverá ser indissociável da condução dos negócios públicos e nisto os russos não fogem à regra. Tem sido clara a apresentação de argumentos tendentes a confirmar a suposição de insegurançarussa , nisto copiando-se num arremedo de interpretação a própria da Doutrina de Monroe, algo que há mais de um século os nossos aliados correctamente têm apresentado em relação ao chamado hemisfério ocidental. Um caso? O dos Mísseis de Cuba, ao qual e com alguma boa vontade poderemos juntar Granada e a Nicarágua-Contras. Se a isto somarmos o orgulho ferido de uma superpotência que jamais o deixou de ser - nem que pelo argumento da sua dimensão, posição geográfica, amontoado de recursos económicos e poder militar -, temos então um quadro bastante completo que na sua complexidade, deverá ser cuidadosamente  encarado pelos potenciais adversários. Ao longo de décadas, o ocidente tem fornecido aos russos todos os argumentos que hoje prodigamente utilizam em benefício da sua aparentemente errática política externa. Não é errática, é intencional e mais a ocidente, a Alemanha sabe-o. Pior ainda, a nossa própria actividade em certas áreas do globo, parece contradizer os interesses ocidentais quando considerados a longo prazo. Isto é tão válido para o âmbito europeu, como para as zonas mais próximas dos países integrantes da NATO, como o Médio Oriente, o Mediterrâneo Oriental e o norte de África. Avoluma-se a suspeita da intenção de um indefinido alastrar da Aliança Atlântica que hoje em dia, consultando os seus componentes, deixou de justificar o nome com que foi baptizada em 1949. A certeza que fica, é a de um expansionismo ilimitado sob a condução dos EUA. Mesmo que esta seja uma falácia que com algum esforço poderá ser eliminada com argumentos mais ou menos poderosos, a sensação geral é mesmo essa, servindo os aliados europeus como simples  instrumentos justificativos do claro unilateralismo que do outro lado, Putin aproveita para denunciar. Os ostensiva e deliberadamente mal armados alemães, outrora firmes aliados dos EUA, parecem cada vez menos dispostos a consentir numa política geral que lhes parece perigosamente irreflectida, principalmente quando é dada uma crescente e demasiadamente audível voz a países ainda bastante traumatizados pela ocupação e controlo soviético decorrente da divisão do mundo - aliás consentida, quando não claramente patrocinada pelos EUA em Teerão, Ialta e Potsdam -  consagrada em 1945. Assim, Berlim tem-nos servido aquilo que mais lhe convém, ou seja, um sistemático duche escocês em que no final, o frio tenderá a preponderar. Digam o que entenderem dizer os especialistas nestas matérias, os haushoferianos continuam bem activos e há que contar com eles.  A situação na Hungria - onde previsivelmente ocorrerão aquele tipo de espontaneidades que já vimos em Kiev -, na Bulgária e na claramente pró-russa Sérvia, demonstram claras fissuras na Europa central e oriental. Como será então possível colmatá-las, essa é uma questão que carece de resposta. Bem feitas as contas e chegada a hora H, talvez poucos estarão dispostos a alinhar numa aventura com as consequências que antevemos. Talvez restem a Polónia, os Bálticos e o por enquanto indefectível Reino Unido. A tradicionalmente cínica e calculista política externa norte-americana, tem perfeitas correspondentes nas suas homologas europeias, sobejamente treinadas por muitos séculos onde as rivalidades entre os estados engendravam alianças que logo se desfaziam consoante a oportunidade de cada momento. Em matéria de cinismo, estamos então entre iguais, quanto a isso não cultivem os nossos aliados e os nossos potenciais adversários, qualquer tipo de ilusões. 

Map_of_NATO_countries.png

 

3. Até onde poderemos expandir a NATO?

Será hoje a NATO a mesma organização que desde o seu nascimento em 1949, passou quatro longas e penosas décadas de progressiva consolidação, para logo depois se expandir em direcção ao subitamente escalavrado núcleo do seu temível adversário do leste? Não, não é. O  interesse de segurança de países tão diferentes como o Reino Unido, a França, a Alemanha ou mesmo Portugal, não corresponderá por estes dias, exactamente àquele existente durante o prolongado período do pós-guerra. Liquidado o sovietismo e afastadas as dezenas de milhar de tanques russos concentrados entre o Báltico e os Sudetas, a percepção dos perigos é outra e as mais facilmente identificáveis ameaças situam-se noutro âmbito geográfico, fora da Europa. 

Acreditem ou não os observadores ocidentais, os russos de 2014 são incomparavelmente mais livres do que aquela massa bisonha e amorfa dos anos de decadência do concentracionário e despótico regime de Brezhnev e dos seus ineptos sucessores. Os russos lêem, viajam, compram, organizam-se e contestam como (ainda) podem. Parece  bastante evidente a aprovação em larga medida, da política do Kremlin que à maioria se apresenta como de segurança nacional. O apelo de Putin é hoje tão válido como o discurso de Nicolau II em 1914, ou a evocação de Suvorov e Kutuzov que  no Outono de 1941, o desesperado José Estaline ousou fazer do alto do Mausoléu de Lenine. Não será um disparate considerarmos a veracidade dos números que indicam um claro apoio conferido à autoridade de Putin, pois apesar do desagrado pela omnipotência da oligarquia e pelas evidentes disparidades verificadas na sociedade, o sentimento popular relativo aos grandes interesses da Rússia imperial, permanecem tão sólidos como aqueles existentes precisamente há cem anos, quando a expensas da segurança do seu trono e das dilatadas fronteiras do seu império, o Czar rapidamente se decidiu pela Entente.  Se os norte-americanos e os seus incondicionais não conseguem entender os factos, então a situação poderá tornar-se extremamente perigosa e isto mesmo os porta-vozes do Kremlin não se coíbem de afirmar, sem sequer um pestanejar que denuncie hesitação. O valetudinário Kissinger dos grandes erros e abusos dos anos setenta - o golpe chinês é uma outra história -, parece estar muito lúcido, intelectualmente amesquinhando aqueles que nas chancelarias dos negócios estrangeiros ocidentais, teimam em permanecer em negação perante todas as evidências. 

Até onde pretenderão estender a NATO? À Finlândia sobranceira a S. Petersburgo? Às teimosamente neutrais Suécia, Áustria e Suíça? À Arménia e Geórgia? Ao Chipre, Israel e Jordânia? Com muito mais propriedade, porque não a Marrocos, um país porta de entrada no Mediterrâneo, no Atlântico Norte e fundamental para segurança do flanco sul?

Em suma, ao ocidente poderia convir um final delinear dos limites securitários a que se propõe - precisamente aquilo que também se exige a Putin, ou melhor, à Rússia -, talvez não fugindo ao traçado ocidental das antigas fronteiras europeias da URSS de 1938 - ou o chamado Cordão Sanitário do período de entre-as-guerras -, neste âmbito podendo-se até incluir uma Ucrânia neutralizada. Contudo, para profundo descontentamento dos russos e de cada vez mais europeus preocupados com aventureirismos e jactâncias sem sentido, não é esta a nossa politica geral, insistindo-se no querermos mais, mais e cada vez mais. 

Pagaremos bem cara a irreflexão, pois inevitavelmente abrir-se-ão insanáveis brechas na sempre desejável Aliança Atlântica. A quem atribuir então a responsabilidade? A resposta parece bastante óbvia. 

 

 

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publicado às 17:20

Se a moda pega...

por Pedro Quartin Graça, em 17.09.14

 

Na Ucrânia é assim...

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publicado às 17:32

No, Sir!

por Nuno Castelo-Branco, em 13.09.14

 

Andamos todos amnésicos de uma história que a maioria dos actualmente vivos não conheceu, mas sem dúvida bastante documentada e à disposição da sua descoberta por quem nela se interessar. Se o pós-II Guerra Mundial foi registado por milhares de documentários para sempre testemunhando a miséria e o sofrimento, imaginemos então o que seríamos forçados a passar, no caso de sobrevivermos, após um conflito entre os EUA e a Rússia. 

 

Nestas danças da chuva que em tan-tans e círculos anuncia a mobilização, há que recorrer a expressões em inglês, pois consiste numa boa forma de vincarmos bem  a urgência da situação. Por muito que tentemos resistir ao patético sacrifício, este é o mundo em que vivemos.

Ninguém conhece concretamente quais os objectivos russos, pois a queda da União Soviética implicou a rápida desagregação do império construído pelos Romanov e ciosamente conservado pelos seus sucessores do PCUS. O estabelecimento da Comunidade de Estados Independentes, poderá ter parecido como um anúncio de uma correspondente russa da Doutrina de Monroe, mas a realidade da volátil política internacional nos anos noventa, bem depressa implicou o total ignorar dessa clara delimitação de uma esfera de interessas. Logo foram surgindo bases aliadas em territórios outrora integrantes do império russo-soviético, assim como convites endereçados a alguns dos novos Estados - algo até agora sem efeito -,  fazendo-os crer nas inegáveis vantagens de pertença à NATO. Conhecem-se bem as dificuldades vividas na Rússia pós-comunista, também não sendo estranhas as notícias acerca da crescente frustração local perante o ostensivo desprezar dos seus interesses, por parte de um ocidente que inicialmente se apresentava como um horizonte de esperança. Não valerá a pena repetirmos a longa lista de eventos que progressivamente foram separando os parceiros do desanuviamento, hoje em quase aberta hostilidade.

 

No verão de 1939, o ministro Ciano visitou o seu homólogo alemão. Ribbentrop recebeu-o em casa e numa conversa no jardim, o italiano, confundido pelas evasivas e manobras de diversão do seu colega, perguntou-lhe frontalmente:

- Mas afinal o que querem vocês? O Corredor? Dantzig?

 

Olhando-o friamente, Ribbentrop foi lapidar:

- Wir wollen den Krieg!

 

O governo do Reich queria a guerra e não se contentaria com qualquer reedição de Munique. Um ano antes, Mussolini tinha impedido Hitler de atacar a Checoslováquia e tal contratempo não se repetiria.

 

A quem se aplica hoje a expressarão Wir wollen den Krieg? A John Kerry, a Sergei Lavrov ou a ambos? Se esta suposição poderá ser abusiva e anacronicamente transportada para os nossos dias, ficamos tão confundidos como o ministro dos Negócios Estrangeiros da Itália, não sabendo apontar o dedo a quem verdadeiramente pretenderá despoletar um conflito. Os sinais parecem de difícil destrinça e o subir da parada uma constante, aplicando-se tanto a americanos como aos russos. Além de serem conhecidas as dificuldades internas que Putin parece estar a enfrentar - cercado por falcões ao estilo de Jirinovski e correspondentes relíquias do infelizmente mal-soterrado passado comunista -, também teremos então de atender ao democrático rufar de tambores cujo eco nos chega do lado de lá do Atlântico. Passando sobre o grotesco de certas pretensões que visavam transformar Sebastopol numa espécie de Subic Bay do Mar Negro, a verdade é que ainda poucos de nós entenderam até onde os nossos aliados pretendem chegar, quando anunciam a colocação de forças militares num possível cenário de conflito, a tal deterrence force da salvação. Ninguém acredita na eficácia da criação de um dispositivo militar na Polónia, um dos países da NATO, pois tal exercício de segurança seria naturalmente encarado pelo possível contendor. Algo de muito diferente será a presença de forças militares da Aliança dentro do próprio território ucraniano, seja essa presença devida a um súbito impulso justificado por garantias a caridosamente concedermos - sim, somos aliados na NATO -, seja ela decorrente de um daqueles habituais pedidos de assistência hipoteticamente enviados a partir de Kiev.  Se querem a guerra, então esta é a melhor forma de a obterem: coloquem tanques, soldados, canhões, mísseis e aviões na Ucrânia e de preferência, utilizem-nos nos combates contra os rebeldes.

 

Há quem pense poder iniciar um conflito de forma controlada, nem por isso temendo o epíteto de warmonger. É praticamente inevitável o rápido descambar para uma escalada envolvendo armamente táctico nuclear, relegando as trocas de granadas entre os Abrahms e os T-90, para a condição de algo bastante irrisório, previsível e rotineiro. Mesmo sendo esta uma infeliz eventualidade talvez já considerada pela gente do Pentágono e do correspondente edifício ministerial russo, há sempre que contarmos com a esperança do lamentável incidente se circunscrever ao espaço europeu, deixando a parte mais importante da aliança fora do raio de acção retaliatório. Por muito pueril que tal coisa nos possa parecer, é mesmo um wishful thinking despreocupadamente cultivado. Aparentemente, a Sra. Palin pode hoje ser considerada como uma genial visionária digna de todos os encómios. Dadas as circunstâncias, a dita personagem  poderia mesmo ser a directa candidata a sucessora republicana de Obama. Para os mais entusiastas pelo início de uma Operação Barbarossa 2, o actual mapa proporciona-lhes o ponto de partida numa frente tal como ela surgia nos inícios de 1943. Dali a Kursk, é apenas um salto. 

 

Não é necessário ou desejável qualquer mútuo appeasement, mas tão só o conhecimento de quais os limites pretendidos por russos e americanos. Quem hoje poderá indicá-los de forma concreta e credível? Ninguém. Quanto aos europeus que aparentemente beneficiaram do estiolar dos seus deveres de auto-defesa, russos e americanos arriscam-se seriamente a não encontrarem simpatizantes ou alinhados numa Europa sumamente preocupada consigo própria e por aquilo que vai acontecendo a sul.

 

Já não estamos nos tempos do "Yes, Sir!"

 

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publicado às 14:37

O mundo infantil das primárias

por John Wolf, em 12.09.14

Enquanto uns realizam testes primários, outros demonstram ao mundo o valor da ausência da palavra. Enquanto uns discutem IVAs e restaurantes, outros redesenham mapas de continentes. Enquantos uns estão à janela, outros organizam respostas concretas a ameaças substantivas. Enquanto uns falam de traições, outros dão facadas. Enquanto uns estão focados em si, outros sabem que deixaram de ter importância. Enquanto uns angariam simpatizantes, outros inscrevem combatentes. Enquanto uns pensam em tachos, outros aumentam a pressão da panela. Enquanto uns dormem, outros estão acordados. Enquantos uns são o que são, outros nem isso conseguem ser.

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publicado às 14:26

 

  • O interesse nacional nem sempre é do interesse das populações.
  • O interesse nacional é sempre invocado.
  • O interesse nacional é uma prerrogativa do governo.
  • A projecção de poder e o interesse nacional são quase a mesma coisa.
  • A percepção é tão ou mais importante do que a realidade.
  • As percepções constroem-se para validar ou negar os factos.
  • A produção de percepções não é um exclusivo dos governos.
  • Os média antecipam-se ou estão atrasados em relação aos factos.
  • Os média nunca estão em sintonia/sincronia com os acontecimentos.
  • Os média são uma extensão dos actores políticos.
  • A propaganda é um conflito continuado e praticado por todas as partes envolvidas.
  • O status quo ou a estabilidade são construções ilusórias.
  • A ameaça do uso de força implica ciclicamente o seu uso para se validar.
  • A contenção é a mesma coisa que a ameaça do uso de força.
  • A ameaça do uso de força e a cooperação não estão a grande distância uma da outra.
  • A força das ideologias foi sendo substituída por outras formas de crença.
  • Domínio territorial e ocupação efectiva encontram-se no mesmo plano de importância de outros modos de expressão de poder imaterial.
  • A geopolítica também é movida por dimensões psicológicas como a memória colectiva e sentimentos como o rancor.
  • É mais fácil a fundamentação da decisão política baseando-se na história do que tentar a construção de novos modelos.
  • A linguagem do passado serve apenas uma parte da narrativa do presente.
  • As ameaças pequenas não são diminutas, são efectivas e potenciais.
  • As respostas dadas são sempre grosseiras, ou seja, nunca são do grau adequado.
  • A iniciativa política é apenas a extensão de um corolário.
  • Os corolários ou os axiomas são contradições genéticas, ou seja, a intuição e o instinto, são igualmente importantes na construção de modelos tendencialmente racionais.
  • As intervenções militares, de natureza quase sempre temporária, procuram desalinhar construções políticas de cariz mais duradouro.
  • É possível interpretar factos que ainda não aconteceram.
  • A ética é retrospectiva, mas eminentemente prospectiva.
  • A ideia de ordem nem sempre é legalista ou de natureza ética.
  • As aspirações filosóficas e existenciais do homem talvez sejam as mais difíceis de satisfazer.
  • O materialismo das nossas sociedades produz assimetrias desejadas.
  • As democracias já foram beligerantes entre si.
  • A auto-determinação dos povos nem sempre é um meio para justificar os fins.
  • O auto-existencialismo das nações pode ser acordado e estimulado para fins diversos.
  • Não existem mentiras em geopolítica: é tudo uma questão de timing.

(a continuar)

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publicado às 08:16

Ucrânia e o vazio português

por John Wolf, em 04.09.14

Não sei que nome dar ao fenómeno. Mas parece haver um desligamento preocupante entre o que se passa em Portugal e o que está a acontecer lá para para as bandas da Ucrânia. Existe um plano de contingência para o caso de um conflito armado ocorrer e que envolva um dos países fundadores da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO)? Refiro-me a Portugal como é óbvio. Quais os impactos expectáveis para a economia portuguesa? Que implicações militares, tácticas e logísticas se reservam para Portugal? Existe alguma plataforma de coordenação no plano interno por forma a oferecer uma resposta tendencialmente racional? Será Portugal um porto seguro para células do Estado Islâmico que queiram ampliar o seu espectro de actuação? Mesmo que estejam a decorrer movimentações nos bastidores da administração e processos de brainstorming que procurem o elencar de cenários possíveis, existe uma dimensão que não deve ser alienada: o modo de envolver a sociedade civil na tomada de consciência da gravidade da situação. As televisões nacionais, assim como os outros meios de comunicação social, também contribuem para uma apatia generalizada. Não cumprem os requisitos mínimos de jornalismo sério que deve servir para acordar a sociedade civil e pôr em marcha processos intelectuais. Mas há mais que nos deve preocupar. Seria expectável, face ao grau de emergência em que nos encontramos, que pudéssemos contar com o desempenho competente dos nossos lideres e das organizações que zelam pela defesa nacional e a segurança interna. Qual a posição portuguesa a defender na Cimeira da NATO, mesmo que esta ainda não tenha a sua própria fórmula definida? Ao não haver comunicação, e partilha da relevância deste momento histórico (na intensidade que se exige), Portugal corre ainda maiores riscos. Os impactos negativos que um possível conflito europeu provocará, devem ser salvaguardados sem demoras. É de uma tristeza atroz que não haja noção dos tempos que estamos a viver. Os actuais governantes, assim como os putativos lideres, têm a obrigação de estabelecer a ligação entre os desafios económico-sociais nacionais e o quadro geopolítico internacional. A abordagem ao sistema internacional não pode ser realizada de um modo primário. Portugal partilha fronteiras com a Rússia, a Ucrânia, os EUA e a NATO. Portugal não é uma ilha remota, afastada das decisões tomadas pelos grandes senhores. Quanto às primárias que ocupam os escaparates da política nacional, nem sequer lhes dedico uma linha. São crianças que se encontram a uma distância enorme do mundo real. São peixes que não nadam no aquário. Nada.

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publicado às 09:54

O longo telegrama de Putin

por John Wolf, em 03.09.14

Coloquem no mesmo saco Realpolitik, estratégia, processos de tomada de decisão, política externa, propaganda, comunicação, poder económico, capacidade bélica, a história imperial da Rússia, a ex-superpotência União Soviética, o controlo dos média, os métodos políticos não convencionais,  a repressão política interna, a condição geopolítica hibrída europeia-euro-asiática do país em causa, uma oligarquia, a Esquerda, a Direita, Capitalismo,  Socialismo e Comunismo, e agitem muito bem, e terão o campeão de pesos-pesados de seu nome Putin. Não pensem por um instante que estamos a lidar com um louco que acordou para aí virado. Não se deixem enganar pela pausa forçada sobre as potências ocidentais e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Para começar a entender Putin, há que pensar como Putin. Para poder antecipar a Rússia, há que saber antecipar a sua antecipação. Para quem se deixa levar pelo brinde de um cessar-fogo acordado a escassas horas do início da cimeira da NATO (que amanhã tem início no País de Gales), relembro que Putin é hábil na transferência do ónus da questão. A NATO que já vinha preparando uma linha dura de resposta à Rússia e as suas incursões ucranianas (e outras que decerto se seguirão), pode vir a ser vislumbrada como a má da fita nesta história. No jogo de espelhos e percepções, Putin passa de agressor a vítima - a campeão da paz alcançada com a Ucrânia e a destinatário da mensagem agressora da NATO. A formulação da política externa dos EUA, e por arrasto dos países nucleares da União Europeia, parece não aproveitar lições dadas há décadas. Não peço um conselho de sábios, mas um George Kennan dos anos noventa aos dias de hoje teria dado algum jeito. No longo telegrama enviado do seu posto diplomático de Moscovo em 1946, Kennan refere a urgência da contenção dos desígnios expansionistas da União Soviética. Embora a história não se repita, a mesma pode ser alvo de desejos revisionistas (ou revanchistas ). Putin desenhou uma estratégia que vai muito para além da estância balnear da Crimeia ou do último reduto de Kiev. Os lideres ocidentais, que partilham o património atlântico e uma parte da história, se desejam efectivamente tirar o tapete por debaixo dos pés de Putin, devem pensar com grande avanço sobre os intentos russos. Devem estar adiantados no tabuleiro. Devem desejar o melhor, mas esperar o pior. Devem esboçar diversos cenários que envolvam resquícios de dominós em queda, porque a pequena paragem que Putin se nos oferece, não serve para inverter a direcção da sua marcha. Servirá apenas para deslocar o ângulo de vista de algo, que para alguns constitui um problema, mas que para outros será a única solução.

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publicado às 14:49

Sir Neville Henderson

por Nuno Castelo-Branco, em 28.08.14

 

O caos que parece instalado na Europa oriental, consiste numa boa oportunidade para um revisitar de eventos ocorridos há mais de sete décadas e nos quais alguns procuram encontrar algumas semelhanças, agitando a necessária propaganda mediática de horário FOX/CNN. É possível traçar uma linha paralela entre os procedimentos e factos  que se acumulam com o passar das últimas semanas, mas aquela sugestão de um ponto de encontro numa diagonal política, é totalmente abusivo, porque absurdo. Na aparência semelhantes, as situações conformam adversários muito afastados daqueles actores que nos finais dos anos trinta conduziram a Europa a uma guerra. A própria posição da Rússia é hoje bem diversa daquela ocupada pela URSS de Estaline e quanto ao poderoso capítulo da informação à disposição do escrutínio das opiniões públicas, a realidade é incomparável. Quanto à hegemonia ocidental, essa terminou em 1945.

 

 

von Neurath

 

Sir Neville Henderson foi durante dois anos, o embaixador do Reino Unido em Berlim. Como seria conveniente a uma grande potência, a sua nomeação não decorreu apenas da necessidade do natural preenchimento do lugar que a sua longa carreira de diplomata impunha, mas também por ser um conhecedor não apenas da língua alemã, mas também de influentes sectores da sociedade do Reich. Ao longo da sua interessante obra "Dois anos com Hitler" *, dá-nos a conhecer as profundas dicotomias existentes entre os perenes funcionários da administração alemã que já provinham dos tempos do Império caído em 1918 e aqueles outros que alçados ao poder em Janeiro de 1933, vieram desorganizar o que há muito se considerava como regras elementares e geralmente aceites da conduta entre Estados. Deverão alguns apontar as notas de um certo snobismo de classe que o diplomata vai desfiando a propósito de figuras como Goering, von Papen, o marechal Hindenburg, os amigos von Neurath e Weizsäcker e o outro lado, o dos adventícios do regime - o bem informado Goebbels, Himmler e o incompetente Ribbentrop à cabeça dos demais - que compunham o círculo de próximos do Führer. Henderson não poupa nos epítetos, mas um dos aspectos mais surpreendentes deste seu testemunho, consistirá na evidência do texto não parecer ter sido reformulado após os acontecimentos do verão de 1939. Considerado como um appeaser, Henderson correspondia ao pulsar da imensa maioria da opinião pública ocidental, fosse ela britânica, americana, francesa, belga, italiana ou dos países nórdicos. Era comummente aceite a grave distorsão de uma paz concebida através da imposição daquilo a que oportunamente foi designado como Diktat, paz essa tão diferente de uma outra celebrada um século antes e conseguida após a derrota e queda de Bonaparte. Sir Neville concede crédito às evidentes contradições estabelecidas pelos vários textos condicionantes estabelecidos na zona da Grande Paris, genérica e erradamente designados por Tratado Versalhes: Versalhes, St. Germain, Trianon, Neully e Sévres. Nos anos vinte, as perturbações verificadas na Checoslováquia, Hungria, Polónia, Roménia e Jugoslávia - não esquecendo o desrespeito relativo à vontade austríaca, a Deutschösterreich, quanto ao seu ingresso na Alemanha -, conduziram a Europa à premente necessidade da manutenção, mesmo que provisória, de um status quo territorial que por sinal correspondia perfeitamente ao termo Armistício. A verdade é que sem qualquer negociação, a Versalhes não podia  ser atribuída a categoria de uma Paz outrora aposta aos acordos da Vestefália, Pirinéus, Amiens ou Viena. Desta forma era tacitamente aceite uma situação cujo carácter provisório apenas adiava as alterações que num período pretendidamente longínquo, inevitavelmente chegariam. 

 

 

Ribbentrop, Estaline e Molotov, 23 de Agosto de 1939

 

Quais foram então os aspectos que mais chocaram um diplomata da velha escola - afinal, a única concebível - quando chegado à Alemanha, iniciou os seus serviços no sentido da defesa dos interesses britânicos, obviamente coincidentes com os da maioria dos países vizinhos do Reich? Em primeiro lugar, o modus operandi do novo titular dos Negócios Estrangeiros que por infelicidade substituiu Neurath. Hitler lobrigava em Ribbentrop um "novo Bismarck", quando a quase todos saltava à vista a evidência de o novo ministro representar  o posto do homem de Estado que foi o Chanceler de Ferro. No dito jocoso de H. Goering, ..."Ribbentrop conhece a França através do cognac e a Grã-Bretanha pelo whisky". Sendo a Alemanha uma grande potência - e ainda hoje  aufere desse estatuto - a sua diplomacia e a correspondente acção do seu governo não podia escapar ao crivo dos procedimentos normais que garantiam a fiabilidade junto dos interlocutores, por muito desconfiados que estes estivessem desde a ascensão de Hitler à Chancelaria. A partir de 1937, Berlim enveredaria por um tipo de política impulsiva e de clara chantagem militar prontamente seguida pelos vizinhos soviéticos e em boa parte ditada por considerações ideológicas às quais o oportunismo imprimia uma tal marca que tornava impossível qualquer negociação atempada e a necessária base de confiança para a mesma. A Áustria e os Sudetas quiseram fazer parte da Alemanha do pós-Grande Guerra? Sim, não era uma suposição, tratou-se de uma vontade impedida pelos interesses regionais da França e dos belicosos novos Estados saídos de partes do império austro-húngaro, nomeadamente a Checoslováquia, a Polónia, a Roménia e a Jugoslávia. O Princípio das Nacionalidades que servira como catalisador do discurso anti-Impérios Centrais, foi assim desacreditado pelos paladinos do mesmo, oferecendo no decorrer dos dificílimos anos vinte e trinta, poderosos argumentos aos revisionistas de fronteiras, fossem eles alemães, húngaros, soviéticos, italianos ou até, os largamente beneficiados polacos. 

 

A execração do appeasement tem então início já no seu período final, precisamente aquele coincidente com o processo de anexação da Áustria e na vincada opinião de Henderson, após a Noite de Cristal. Não foi aquela absorção o móbil para o levantar de oposições nos parlamentos e imprensa dos países ocidentais - Churchill começou a ser mais escutado e seguido -, mas sim a fórmula sob a qual foi o Anschluss (1938) conseguido. Pesando as possibilidades e perante a ameaça que Schushnigg representava quanto a uma restauração dos Habsburgos - algo que poderia irreversivelmente alterar a correlação de forças em presença, dada a situação da Hungria e os problemas nacionais na Checoslováquia -, os acontecimentos foram deliberadamente precipitados. Verificada a situação desastrosa em que se encontrava económica e socialmente a Áustria, é bastante provável que a celebração de um imediato plebiscito tivesse consagrado a vitória dos integracionistas, mas a agenda de afirmação do nacional-socialismo, impeliu o governo alemão à política do tudo ou nada que fatalmente conduziria à guerra. O Ja ou o Nein a manifestar no boletim plebiscitário, foram opções após o facto consumado. Hitler pretendia tornar bem nítido o império da sua vontade, fazendo passar a mensagem de tudo lhe ser permitido, porque razoável e de direito, enroupando a política externa numa confusa Babel de racialismo e de Lebensraum. Aplicava-se então um sucedâneo da política leninista da salamização, exigindo-se sempre mais e mais, estando a informação interna cuidadosamente organizada para a identificação do inimigo de um dado momento. Mesmo os sacrossantos fundamentos nacional-socialistas de união do todo nacional alemão, ficaram destruídos com a incorporação dos checos da Boémia-Morávia, quebrando qualquer hipótese de reedição da até então imparável política de apaziguamento. 

 

 Emil Hacha e Hitler, Berlim, 14 de Março de 1939

 

Os encontros entre Hitler e Schuschigg e mais tarde, com Emil Hacha, ultrapassaram os limites do mais ténue decoro. As conferências celebradas entre o Führer e os representantes da França (Daladier) e da Grã-Bretanha (Chamberlain), também foram exemplos do advento da grosseira guerrilha psicológica à mesa das negociações diplomáticas, sendo estilhaçadas todas as normas de conduta até então vigentes. A má fé onde o capricho e o rasgar de documentos recentes parecia ser a regra, desvaneceram todas as ilusões quanto a um acordo geral que conformasse as partes e salvasse a periclitante paz do Armistício.

 

Sir Neville Henderson falhou a sua missão em Berlim. Falhou porque ao contrário dos diplomatas que vinham dos tempos do Kaiser e de Weimar, teve como interlocutor um arauto do programa do Partido que nos postulados do Mein Kampf conhecia o único rumo possível. Sabe-se que naquele momento, a rainha Isabel, mãe da actual monarca, aconselhava os políticos britânicos a lerem o livro escrito por Hitler, pois não fazê-lo consistia num tremendo erro, ignorando-se assim um detalhado programa político que estava a ser paulatinamente cumprido. Este é um daqueles aspectos  tardiamente apercebidos por Sir Neville e que no teoricamente arqui-inimigo de Hitler, o mundo soviético, encontrava perfeito correspondente quanto à submissão a imaginadas infalibilidades que à época se traduziam na acção do Komintern. Logo isto se confirmaria no pacto de 23 de Agosto de 1939, no ataque russo à Polónia (Setembro de 1939), na guerra de espoliação feita à Finlândia (1939), na invasão e anexação da Estónia, Letónia e Lituânia (1940) e no Ultimatum enviado a Bucareste, conduzindo ao forçado abandono romeno da Moldávia e da Bucovina (1940).

 

Miguel I, rei da Roménia

 

Este tipo de política alicerçada  em factos consumados, mais tarde virar-se-ia contra os próprios interessados nas mesmas e se quisermos um bom exemplo, o golpe executado pelo rei Miguel I em 23 de Agosto de 1944 - exactamente cinco anos após a assinatura do Pacto Germano-Soviético - , subtrairia ao Eixo aquele que tinha na Roménia, o seu aliado militar mais forte. O problema da continuidade de procedimentos estranhos à tradicional compostura nas relações entre Estados, verificar-se-ia como uma constante nos anos subsequentes à guerra e uma vez mais na Roménia se repetiram episódios muito próximos das ameaças e coacção moral outrora impostas ao presidente Hacha. Ainda hoje, decorridas sete décadas, Miguel I de Hohenzollern continua a mostrar aos seus convidados - Putin entre eles -, a marca deixada na secretária do palácio Elisabeta pela coronha da pistola de Groza, actuando a mando de Vichinsky. Enviado por Estaline e Molotov a Bucareste, aquele que ficara famoso durante a purga de 1936-38, conseguira assim a imediata abdicação do monarca. 

 

Chamberlain, Henderson e Hitler em Munique, 30 de Setembro de 1938

 

 O que é então possível encontrarmos nesta obra, como referências a acontecimentos que nos são temporalmente próximos? Antes das situações a comparar - ao contrário daquilo que a sra. Clinton quer fazer crer, o caso dos Sudetas não pode ser equiparável à Crimeia, a Donetsk e a Lugansk - , talvez seja prudente avaliarmos os métodos utilizados pela generalidade das chancelarias envolvidas no caso ucraniano, sejam as ocidentais, seja a de Moscovo. Todo o processo tem radicado em erros que se vão acumulando de forma aparentemente irreparável, desde aqueles cometidos aquando da implosão da União Soviética - o aceitar das artificiais fronteiras das ex-pretensas repúblicas componentes da URSS -, até à cegueira manifestada perante os interesses em campo. A nenhum ocidental deveria passar despercebida a necessidade de manutenção da sensação de segurança de um país que não deixou de ser um império, ou seja, a Rússia. Tal não foi feito, desaproveitando-se a colossal oportunidade apresentada no início da década de noventa. Liquidado o comunismo, logo surgiu uma miríade de bases militares no próprio espaço que compusera a URSS e ainda, ao contrário das expectativas dos mais pró-ocidentais agentes políticos e militares russos, alargámos a NATO aos Países Bálticos e a todos aqueles que outrora tinham pertencido ao Pacto de Varsóvia. Dada a necessidade de garantir a independência daqueles Estados existentes em 1939, poderíamos ter ficado por aqui, mas não foi esta a opção que se impunha. Tal como uma U.E. em indefinido alargamento, o mesmo ocorre com a NATO. Ainda há pouco meses, o almirante Stavridis declarava a necessidade de Sebastopol passar a pertencer ao  rosário  de bases navais ao serviço da US Navy, quando a situação da Rússia já é bem diversa daquele caos que diante de todos se apresentava há quinze, vinte anos. A desnuclearização da Ucrânia - e a sua independência - também tiveram um preço tacitamente aceite por ambos os campos, numa daquelas clássicas manobras da diplomacia da confiança que nos últimos anos foi escaqueirada em múltiplos cenários vizinhos, desde o Iraque até aos Balcãs e ao norte de África. 

 

 S. Lavrov e J. Kerry

 

Perdido parece estar o tempo em que os titulares dos negócios Estrangeiros eram internacionalmente conhecidos. Durante muitos anos era normal os ministros continuarem no cargo, servindo chefes de governo oriundos de partidos diferentes. Era este o caso Hans Dietrich Genscher que passou por vários governos do SPD e acabou servindo o democrata-cristão da reunificação alemã, o chanceler Helmut Kohl. Tudo mudou e nem sempre para melhor. Fica então, a estranha sensação de o Ocidente não saber com quem está, ou pretende fazer política na Rússia. S. Lavrov não é propriamente uma réplica dos descartáveis Kerry, Ashton ou Fabius. Mesmo que o regime russo correspondesse aos que naturalmente vigoram para aquém do Vístula, jamais a Rússia poderia deixar de ser encarada como uma entidade que  junto do seu povo, nunca perdeu a condição de superpotência. Foi, ainda é e será um império. Aqui está um dos erros, entre uma infinidade de outros, dos nossos inconscientes aprendizes de Ribbentrop -  no seguimento das mirabolantes descobertas químicas  de G. W. Bush, conhecerá o sr. Kerry este nome?  -, sabendo-se que como interlocutores têm, na melhor das hipóteses um S. Lavrov e o bastante condicionado V. Putin. Com quem pretende o Ocidente dialogar? A política do querer mais e mais, do tudo ou nada, encontra a resposta correspondente numa direcção política sob o fogo de múltiplos interesses, desde os saudosistas representados pelo fanado Partido Comunista e respectiva gerontocracia militar, até aos febris nacionalistas entre os quais V. Jirinovsky não passará de um, entre muitos. Há ainda que contar com a condicionante representada pela formação de mentalidades ao longo de décadas cultivadas pelo desaparecido hiper-nacionalista regime soviético da Grande Rússia, sob o disfarce de um edílico e jamais confirmado internacionalismo. Infelizmente, é agora óbvia a falta de interesse que para o Ocidente representaria uma Ucrânia neutral, mesmo que internamente organizada segundo o contentamento das minorias russas que também a compõem. 

 

Não existe qualquer benefício a retirar de uma política de appeasement, seja ela em benefício do bloco NATO, ou da Rússia. Há que iniciar um processo muito diferente dos procedimentos habituais, pois a segurança da Europa - e dos EUA - está em risco. Chegámos a um ponto de difícil retorno, pois nem sequer a evidência da necessidade de uma apertada cooperação da NATO com a Rússia nos cenários de conflito próximo, será suficiente para limitar os desastrosos efeitos que parecem sem remédio. É por isso mesmo aconselhável, a leitura do testemunho de Sir Neville Henderson. 

 

* Deux ans avec Hitler, Sir Neville Henderson, 1940, Flammarion, Paris

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publicado às 22:00

Há setenta anos, em Moscovo. Ontem, na Ucrânia oriental

por Nuno Castelo-Branco, em 25.08.14

 

"Os garotos apupavam, assobiavam e, mesmo, lançavam objectos à passagem dos alemães; mas os adultos intervinham imediatamente. Os homens mantinham um silêncio feroz. No entanto, numerosas mulheres, sobretudo as mais velhas, manifestavam compaixão (algumas exibiam, mesmo, lágrimas nos olhos) perante aqueles Fritz tão mal vestidos. Recordo-me de ter ouvido uma velha murmurar: "são como os nossos pobres rapazes... roje pugnali na vainou (também eles foram mandados para a guerra)"

Alexander Werth, correspondente do Sunday Times em Moscovo, in "A Rússia na Guerra. De Estalinegrado a Berlim", Paris, Stock, 1965, p. 203

 

***

 

Há setenta anos e após a catástrofe alemã da Rússia Branca, Estaline fez desfilar 57.600 prisioneiros da Wehrmacht, encaminhando-os depois para o degredo e matadouro siberiano de onde apenas um escassíssimo punhado regressaria dez anos após o fim da II Guerra Mundial. Foi um triunfo à romana com aqueles que seriam prontamente escravizados e abatidos. Desonrando a sua vitória, o ditador soviético organizou um espectáculo que Hitler jamais ousara encenar em Berlim, mesmo quando nos anos anteriores os alemães tinham capturado milhões de soldados polacos, franceses, belgas, holandeses, jugoslavos e gregos (1939, 1940,1941) e apenas numa batalha de cerco, mais de 600.000 prisioneiros capturados ao Exército Vermelho (batalha de Viazma-Briansk).

 

Quando há duas décadas a Ucrânia se separou da Rússia, os seus dirigentes preferiram arriscar-se à repetição dos mesmos erros cometidos em 1919. Como se o exemplo da Checoslováquia - ao qual se acrescentava o da Polónia e da Jugoslávia - não tivesse bastado (aglutinando checos, alemães, eslovacos, húngaros, polacos e ucranianos), Kiev aceitou fronteiras muito dilatadas, herdando-as das convenções dos tempos tempos soviéticos onde o mero pro forma ditava a lei. O resultado está à vista.

 

Ontem os russos patrocinaram uma exibição deplorável, fazendo desfilar diante do bronzeo mamarracho de Lenine - miraculosamente ainda de pé na praça do mesmo nome -, prisioneiros do exército ucraniano. Ao contrário dos mais comedidos espectadores da parada ocorrida na Moscovo do verão de 1944 - onde, como o video demonstra, também eram visíveis alguns dos habituais sorrisos imbecis de oficiais norte-americanos -, os cativos foram vergonhosamente insultados e agredidos por gente dos sete aos setenta e sete anos de idade. Ao contrário dos alemães em 1944, os ucranianos caminharam amarrados! O espectáculo foi cuidadosamente copiado do precedente, nem sequer faltando os camiões lava-estradas. Escandaloso. 

 

As imagens transmitidas pelos noticiários não oferecem a menor dúvida. Pior ainda, as autoridades russas atreveram-se mesmo a declarar que não se tratou de qualquer humilhação. Por muita compreensão que se manifeste quanto aos legítimos interesses de segurança da Rússia - uma incontornável cooperante do ocidente -, há que colocar uma questão: dado o que ontem se viu, até onde poderá Moscovo chegar? Irá, tal como Estaline fez, utilizar vagões de mercadorias para deslocar os prisioneiros para o destino do costume?

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publicado às 15:30

O Ocidente e Putin

por Samuel de Paiva Pires, em 15.04.14

Daniel Altman:

 

"Recently Angela Merkel, the German chancellor, suggested that Putin was living in a world of his own, divorced from reality. The opposite is true. Putin is a rational actor who steadily pursues his interests, which are well known to the world at large. Appealing to morality, international law, or any other arbiter of behavior other than pure pragmatism is unlikely to succeed with him. Yet by the same token, his straightforward approach makes him the easiest sort of opponent for a similarly minded strategist. He must be surprised that the West still performs so badly against him."

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publicado às 13:02

A tarde dos Facas Longas

por Nuno Castelo-Branco, em 26.03.14

 

As novas autoridades ucranianas não perderam tempo e serviram-se dos bem conhecidos expedientes de outras eras, eliminando um elemento incómodo. O Sector Direito, uma espécie de S.A. local tinha sido a tropa de choque que muito contribuíra para o render da guarda em Kiev, instalando no poder os novos parceiros de Washington, Bruxelas e NATO. Serviço feito, o embaraço ocidental saltava à vista, tal como notório era o franzir de sobrolho em Moscovo. Fosse de que maneira fosse, urgia um sinal de boa vontade. O caso Sector Direito incomodava os ocidentais, mas já desponta outro que poderá ser muito mais relevante. 

 

Não usaram um drone, a envenenada ponta de um "guarda-chuva búlgaro", ou uma toxina num hambúrguer. Escolhendo a bala, o governo optou por um eficaz e espectacular "método à antiga", já experimentado em Ernest Röhm, Iezhov e Béria. 

A Ucrânia teve ontem a sua tarde das Facas Longas. 

 

 

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publicado às 09:21

Boa noite e boa sorte

por Salvador Cunha, em 25.03.14

Antes de mais quero agradecer ao Samuel pelo simpático convite para me juntar à equipa do Estado Sentido. Espero que enquanto aqui estiver possa trazer contributos interessantes, vocês saber-me-ão dizer se o consegui.

 

Não é a minha primeira experiência na blogosfera, mas para já fiquemos por aqui. Como o Samuel disse trabalho na área de comunicação, embora, neste momento, não esteja ligado à comunicação política, mas sim, empresarial. Nos próximos tempos irei andar aos encontrões e apalpadelas, à procura do meu estilo, espaço e tempo.

 

Espero que tenham paciência e que caso queiram rebater algo, façam-no na certeza de que só vale a pena partir para uma discussão se estivermos dispostos a mudar de opinião. Prometo fazer o mesmo. Não responderei a comentários anónimos.

 

Para começar queria chamar a atenção para um pormenor interessante que li no outro dia, sobre a crise na Ucrânia. Não é de todo o mais relevante aqui, nem procura ser um ponto de partida para qualquer teoria que explique os acontecimentos que dominam a agenda mediática, mas interessou-me...

 

Falo de comunicação num lugar aparentemente improvável, a Praça Maidan. Segundo um trabalho bem interessante do Público, uma das prioridades de quem lutou contra o anterior governo ucraniano é a criação de um gabinete de relações públicas.

 

«Michailo reconhece: “A nossa prioridade agora é criar um departamento de Relações Públicas, para controlarmos o que se diz nos media. Isto é uma guerra da informação. E nós perdemos a guerra da informação com Putin”.»

 

Os acontecimentos na Crimeia foram rápidos a desviar atenções da Maidan, impondo-se na ordem do dia por si próprios, mas também pelo facto daquela ter conseguido o que se tornou no seu objectivo primeiro- a destituição do Presidente Viktor Ianukovitch.

 

Um “departamento” de Relações Públicas pode ser sem dúvida uma boa ideia embora duvide da sua utilidade dado o timming. Porém como se pode ler na mesma peça do Público «a Maidan não está satisfeita com o Governo. E uma segunda vaga da revolução pode começar a qualquer momento.»

 

Se assim for, fará certamente sentido (e julgo que abrirá um precedente), embora duvide que se consiga “controlar” os media. Se nem na “ordem” se consegue, muito menos na “subversão”. Para além de que, dificilmente uma hipotética “segunda vaga" da revolução” seja mais moderada que a primeira o que só iria prejudicar as almas bem-intencionadas. Nesse caso a percepção (não partilhada por mim) de que, a mudança de poder, e tudo o que esta desencadeou se deveu à acção da extrema-direita, será demasiado forte para ser contrariada por qualquer gabinete de relações públicas. Mas boa sorte!

 

 

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publicado às 22:07

Setenta anos depois

por Nuno Castelo-Branco, em 23.03.14

 

No país que se situa nas imediações das Berlengas, eles parecem sempre muito justamente irritados com os casos de corrupção que se tornaram na imagem do regime. Vociferam contra os banqueiros e políticos a soldo, apontam exemplos suficientes para a compilação de vários almanaques de falcatruas, apresentam-se como autarcas exemplares. Paradoxalmente, consideram os eventos posteriores a 1989, como calamidades que destruíram um mundo idílico.

 

Desde o primeiro momento do arriar da bandeira vermelha nas sedes de governo de todas as capitais do leste europeu, ocorreu algo de inesperado. Miraculosamente brotou uma infindável safra de desapiedados capitalistas, apossando-se das empresas que a propaganda dizia serem propriedade do povo. Os sicofantas do PCUS souberam recauchutar-se e o dinheiro apareceu como a chuva de outono. Sabiam-na toda, desde as formas como coagir o mercado, até às manobras bolsistas, transferências de capital, subornos, coacção moral e física, compras a eito no ocidente e claro está, a garimpagem de esconderijos para o seu dinheiro de questionável proveniência. No campo político, logo aqueles países assistiram a virulentos nacionalismos que ameaçaram a ordem internacional e sobretudo, emergiram organizações que em nada ficavam a dever àquelas que nos anos quarenta se apresentaram como co-beligerantes na cruzada nacional-socialista contra Estaline. Existe um país onde a comparação pode e deve ser feita como bom exemplo das estranhas lições e práticas ministradas pelos obedientes seguidores de Moscovo. Na Alemanha, bastar-nos-á consultar os resultados das sucessivas eleições locais ou nacionais ocorridas desde a reunificação, para ficarmos cientes das enormes diferenças quanto à receptividade da mensagem dos herdeiros do III Reich. No território da antiga RDA, os camisas castanhas são incomparavelmente mais representativos, enquanto na zona ocidental consistem num episódio residual.

 

Sabemos o que se passa na Polónia, na Hungria, nos países bálticos, nos territórios da desaparecida Jugoslávia e na Roménia. Na própria pátria-mãe do comunismo, as últimas semanas têm-nos mostrado discursos oficiais carregados de antifascismo, mas a verdade é outra. Pululam os grupos de vigilantes, os Sieg Heil fazem parte dos pregões urbanos e se são agora secundarizados pelos media, tal se deve aos acontecimentos ucranianos. Mais a ocidente, na Ucrânia, todos vimos quem tomou parte muito activa no derrube do governo de Ianukovich e também conhecemos a origem e significado daquela bandeira preta e vermelha que flutua sobre os edifícios de Kiev. Dir-se-ia que a gente de Bruxelas foi acometida de loucura colectiva, envolvendo-se neste imbróglio demasiadamente paralelo aos acontecimentos imediatamente anteriores ao assassinato do arquiduque Francisco Fernando. 

 

Mais de sete décadas de regime soviético, uma sangrenta guerra russo-alemã - com participação finlandesa, eslovaca, italiana, croata, húngara, rexista belga, voluntária francesa, etc - e o resultado do regime do PCUS está à vista. 

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publicado às 10:27

Há cem anos

por Nuno Castelo-Branco, em 14.03.14

Rugiam os jornais em Paris, acicatados pelas lojas. De uma vez por todas, era necessário liquidar o mostrengo a beira Danúbio. Onde falharam os Valois, os Bourbons, os Orleães os Bonapartes e duas repúblicas, uma coligação mundial ditaria a lei. Impunha-se a destruição daquela "Babel de povos engaiolados" pela dinastia que um dia saíra de um lugarejo suíço e ousara imaginar um AEIOU que quase se estendera a todo o mundo conhecido. Numa Londres apesar de tudo mais condescendente para com este bloco essencial ao equilíbrio europeu, o império K und K era olhado de forma mais pragmática. Uns anos mais tarde, durante o cacofónico concerto do troar dos canhões, apenas a necessidade da manutenção de uma Entente instável, acabou por fazer com que os britânicos permitissem a derrocada exigida pelos tradicionais inimigos dos Habsburgos. Para cúmulo, era um império católico.

 

Vinda a paz, os mais severos apologistas do princípio das nacionalidades, os franceses e os norte-americanos, logo se dedicaram ao amalgamar de várias massas estatais que em tudo pareciam caricaturas da Áustria-Hungria. A Checoslováquia abarrotava de alemães, de húngaros e ucranianos, não esquecendo um retalho polaco, Teschen. A Jugoslávia seguiu o mesmo caminho, tal como a Polónia e a Roménia. 


A queda do império austro-húngaro representou um colossal desastre para a Europa. Bismarck afirmara que quem tivesse Praga, era dono e senhor de toda a Europa central e bem vistos os factos ocorridos após 1919, podemos incluir toda aquela zona que vai do Vístula, até à fronteira búlgaro-grega. Se alguém disso tiver qualquer dúvida, rememorie tudo o que se passou na Europa durante o período de entre as guerras - hegemonia alemã - e após 1945, quando os T-34 de Estaline ali se instalaram durante quase meio século.

Travadas e perdidas duas guerras mundiais, a fraqueza deste autoproclamado continente que dominara o orbe, impeliu povos e dirigentes a acordarem num modus vivendi que mantivesse a paz e sobretudo, afastasse a hegemonia que agora chegava do leste. Subitamente, toda a Europa ocidental informalmente se tornou numa grande Áustria-Hungria que para espanto de todos, funcionava, era rica, pacífica e um iman de atracção para quem neste bloco ainda não entrara. O próprio sucessor dinástico do Kaiser de Viena, o recentemente falecido  arquiduque Otão de Habsburgo (1912-2011), foi dos primeiros a erguer a bandeira da União, mantendo-se fiel à divisa Viribus Unitis

 

Liquidado o colosso soviético, regressaram em força os princípios outrora descuidadamente enunciados pelo presidente Wilson, ressalvando-se, para provisória tranquilidade geral, um ou dois casos excepcionais. A Jugoslávia logo seguiu o caminho que há muito lhe estava destinado e a Checoslováquia também se normalizou, desaparecendo dos mapas. Ficou a Ucrânia, exactamente com as mesmas fronteiras que o Soviete Supremo lhe concedera. Curiosamente, nos mapas surge com uma configuração parecida com a do desaparecido império austro-húngaro e os seus seiscentos mil quilómetros quadrados quase coincidem com a área ocupada  pela velha monarquia dualista. País da sua periferia, a Ucrânia servia aos russos de Estado tampão, um neutralizado trilho de negócios a percorrer em direcção a ocidente. Como irmãos eslavos, contavam com uma certa solidariedade da antiga Pequena Rússia dos tempos de Nicolau II. Era assim conhecida a Ucrânia nas antigas cartas polítcas europeias, tal como sem qualquer pontilhado surgia nos mapas a Rússia Branca, hoje uma realidade estatal que toma o nome russo de Bielorrúsia. Biela, branca, Rússia Branca, Bielorrúsia. 

 

Em Bruxelas e em Washington, temos zelosos vigilantes da liberdade dos povos. A partilha da Jugoslávia consistiu no primeiro passo das liberdades de conveniente figurino, tal como poucos anos depois aconteceria com a minúscula sobrevivente Sérvia, obrigada a abrir mão do Kosovo. Afinal de contas, os kosovares-albaneses também tinham "todo o direito de dispor do seu futuro". Era esta a lei ditada pela Comissão Europeia e pelo Departamento de Estado d'além-Atlântico.

 

O que foi válido para croatas, eslovenos, bósnios, eslovacos e kosovares, de forma alguma terá qualquer similitude em relação às hordas orientais para além do Prut e do Dniester. A intangibilidade de fronteiras é aqui coisa sacrossanta, tal como relíquia a venerar é o celestial calhau ciosamente guardado na Caaba. 

 

Nada disto é razoável, a menos que finalmente, decorrendo cem anos desde que uma encasacada turbamulta decidiu a futura destruição de um país que em si resumia a ideia de Europa Unida, Bruxelas venha agora reabilitar a memória daqueles regimentos de alemães, húngaros, italianos, croatas, eslovenos, bósnios, romenos, polacos checos e ucranianos que seguindo para as frentes a sul, norte e leste, se ofereceram à metralha dos nacionalismos.

 

Chegou a Primavera e a Madeira apresta-se a receber a habitual enxurrada de turistas. Bem podem agora Merkel, Hollande, Obama e as restantes euro-insignificâncias atreladas irem em procissão até à funchalense Igreja do Monte, depositando uma enorme coroa de flores homenageando Carlos I. Têm um bom pretexto: ao contrário dos nossos duvidosos líderes, este Kaiser já foi santificado por Roma. 

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