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Procedimento por elogios excessivos

por John Wolf, em 22.05.17

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Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente de todos os Portugueses + a Geringonça, alargou o âmbito do elogio respeitante à saída do Procedimento por Défice Excessivo (PDE). Afinal o governo anterior também tem direito a uma fatia do bolo, e a apagar uma vela. Mas o problema não reside nos festejos, nos globos de ouro, nas sandálias do Beauté, ou na alcatifa vermelha de políticas de mais ou menos Esquerda. O espinho que parece ter causado mais comichão é a simplificação que João Salgueiro cravou nos pressupostos da glória económica dos indicadores. Diz o especialista que foi o Turismo que se mexeu e roubou o lugar às indústrias, à economia dita clássica. Sem dúvida que a febre turística é responsável por uma grande quota-parte do sucesso. Mas existem perigos. Estarão recordados do primeiro boom turístico-imobiliário que desfigurou a pacata Armação de Pêra e que cicatrizou Quarteira? Pois bem. Assistimos a uma segunda vaga que comporta alguns desafios. Portugal encontra-se na fase hélio da bolha - é só facturar. São restaurantes e hóteis, tuk-tuks e programas de lazer, festivais de música, certames da bolota, mostras da rolha, mas o cidadão-residente, aquele que fica depois das festas acabarem, não está a participar no lado lúdico do espectáculo. Como o incremento do lado da oferta é superado pela procura, a equação é linear e tem um nome: inflação. O conceito Inatel, de turismo para o povo, deixou de existir. Pergunte-se a um idoso, com a reforma que se conhece, se vai para fora cá dentro. Não me parece. E é aí que a questão se torna problemática. O governo descobriu a galinha de ovos de ouro, mas à semelhança de tantas aventuras históricas de exploração económica (coloniais se quisermos), geralmente os processos descambam. Agora querem mexer no sector para o hiperbolizar ainda mais. A saída do PDE pode alimentar fantasias que estão na origem da ruína primeira que conduziu a sevícias da União Europeia, do FMI e do BCE. Por outras palavras, ao fazerem passar a ideia celebratória de vitória no festival da canção política, podem contribuir para que haja ainda mais extravagâncias. Os resultados do Turismo são óptimos. A ver se não estragam a coisa.

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publicado às 17:35

Wild Orange

por John Wolf, em 03.03.17

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Afigura-se-nos difícil estabelecer um template credível, um modelo operativo que revele algum teor de previsibilidade. Por algum motivo o processo eleitoral holandês tem sido tratado como um jogo de uma liga secundária de interesses. Os olhos postos em Fillon, Macron e Le Pen, a cabeça virada a Brexit, confirma o grande desarranjo europeu. A União Europeia (UE) e os seus ilustres comissários e presidentes de conselho fingem que nada se passa e que os valores nucleares da arquitectura comunitária nunca poderão ser postos em causa por lideres de nações com pouco mais de 8 milhões de habitantes. O valor de face atribuído à geringonça pela UE é semelhante àquele atribuído ao holandês Geert Wilders. Mas os políticos europeus estão equivocados. Não estamos num jogo de soma-zero, em que a saída do Reino Unido da UE se poderá colmatar com a entrada de outros. Ideologicamente, passa-se quase a mesma coisa, semelhante engano. Uma tirada à Esquerda não anula um tiro em cheio à Direita. Contudo convém levar em conta as razões politicamente invocadas. Assistimos, efectivamente, ao fim do espectro ideológico tal e qual como o conhecíamos. Assistimos à caducidade do paradigma de construção política convencional. São sobretudo subtilezas de posicionamento que não têm sido apreendidas no decurso da presente revolução em curso. Podemos confirmar um certo hibridismo volátil, no modo como os pretensos neo-lideres procuram sustentar os seus projectos fazendo uso de elementos materiais e simbólicos de todos os campos ideológicos. Trump, numa óptica analítica, foi ao rancho dos democratas aprovisionar-se das suas ferramentas e, com algum talento, converteu as suas deficiências em força. Nessa medida, e invertendo a extrapolação, a geringonça, se quiser sonhar com alguma continuidade efectiva e honrar a estabilidade vendida por Marcelo, terá, na sua expressão política, de integrar obejctivos de outros terrenos políticos e partidários - sejam adversários  ou concorrentes. No jogo de puxa e empurra, a CGD ou a saga das Offshores são apenas divisas de um conceito de representatividade e disputa de poder mais alargado. O mesmo terá de acontecer nos EUA. Trump, invariavelmente, terá de acomodar os anseios do Congresso, por forma a credibilizar a sua acção. A UE, que tem evitado a federalização do seu projecto, não tem ao seu dispor efectivos organismos de checks and balances - tem sanções e procedimentos por défice excessivo, de índole técnica e financeira, mas, na substância e no espírito do projecto europeu, existe muito pouco que pode fazer. A multiculturalidade não é apenas uma máxima que se aplica aos povos.  A UE alicerçou a sua construção na ideia de diversidade ideológica e política. O que acontecer na Holanda no dia 15 de Março produzirá o mesmo eco de sempre, a relativização da urgência dos dramas que assolam a Europa. Qualquer devaneio do mainstream, perpetrado pela Holanda, será tratado com a mesma indiferença. A laranja, por mais selvagem que seja, não interessa muito aos mercados, à economia, ao dinheiro de quem aposta no melhor retorno possível para o seu investimento. E as casas de apostas têm falhado redondamente.

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publicado às 20:46

Geringonça, por quem os sinos dobram

por John Wolf, em 07.12.16

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Onde é que eu ia? Ah, muito bem. Já sei. Distraí-me com a Caixa Geral de Depósitos, o desastre aéreo na Colômbia  o apuramento para os oitavos, a meia de elástico da Tadeu e as promoções do Pingo Doce. De maneiras que é assim. Os italianos de Nápoles não foram simpáticos, mas os italianos de Itália também não estão a ajudar - Referendo para que te quero. Antes de começarem a bater no Commerzbank e a chamar nomes aos alemães, lembrem-se que foi inaugurada a época natalícia, que entramos em pleno na época de paz, embustes e promessas grandiosas para o ano que vem. O Banco Central Europeu (BCE) já sabe o que António Costa tem vindo a negar: Portugal é candidato a um dos lugares cimeiros da crise europeia. Daí que Draghi e companhia já tenham ameaçado manter a compra de títulos de dívida nos estados-membro em apuros ao ritmo de 80 mil milhões de euros até ao final de Setembro de 2017. Ou seja, o mercado já está a descontar a crise europeia que parece passar ao lado da geringonça. O timing para se estar no sector da banca não poderia ser melhor para patrões e para detentores de acções de instituições financeiras. O dinheiro fresco ficcionado pelo BCE vai directamente para a toxicodepêndencia monetária de países como Portugal, embora tenha sido pensado para o cliente italiano (não se esqueçam da Grécia). Depois temos as outras autárquicas de arrumação política-monetária - o Brexit efectivo que causará mossas nos planos bi-quinquenais de Costa. E não há nada que se possa fazer para barrar o que se passa para além da Mancha. Que fique esclarecido: as obras de Medina nas artérias de Lisboa não são investimento. Não geram produtividade. São florzinhas de estufa. Os putativos ciclistas que farão uso das vias verdes que estão a ser plantadas, baixarão o colesterol, mas não serão um alívio para o Serviço Nacional de Saúde. Há taquicardias que não podem ser evitadas. Invistam fortemente no Natal.

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publicado às 11:57

Roteiro de viagens de Trump à Europa

por John Wolf, em 14.11.16

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A eleição de Trump abriu uma brecha no sistema político por onde alegadamente dizem entrar luz. Temos em mãos um roteiro de viagens que oferece caminhos alternativos, uns mais difíceis do que outros. Designemos as coisas de um modo correcto. A direita conservadora está no poder nos EUA, enquanto a Europa se encontra em processo de reconfiguração. Mas existem semelhanças e distinções flagrantes. A bandeira da imigração é um dos pilares indiscutíveis de sustentação das propostas políticas de um lado e de outro do lago. Ou seja, uma entidade excêntrica não estadual está a determinar as agendas domésticas. A campanha de Trump assentou na premissa de que a cada Estado deve corresponder um conceito de população estanque, não sujeito a negociações. Durante o período de instigação de paixões territoriais, o termo nação não foi convocado. Porque a nação americana não existe no sentido clássico, tradicional. Porque sugerir o debate do significado de nação seria reavaliar o ADN dos EUA. A América é a amálgama incerta. Os EUA são a perfeita expressão de volatilidade cultural, da chegada de forasteiros com expressão muito mais intensa do que a sua eventual partida. Todos observam com atenção a definição do programa de governação de Trump, usando enquanto bitola o programa de campanha eleitoral. Se o primeiro for uma fotocópia do segundo, sem tirar nem pôr, a direita europeia que se encontra na fila de espera do poder, deve replicar a disciplina ideológica, não cedendo em campanha perante as exigências de detractores políticos. Por seu turno, se houver maleabilidade ideológica de Trump, e cedências de discurso que coincidam com acção concreta, a direita europeia vê uma parte do seu tapete tirado por debaixo dos pés. Teremos a breve trecho uma amostra de posicionamento que pode servir de guia para ambições maiores. Em Dezembro a Áustria terá um processo eleitoral presidencial que eventualmente terá sofrido o desgaste e os efeitos de contágio da experiência americana. E em menos de um ano a Itália, a França, a Holanda e a Alemanha serão expostas a influências cumulativas que incluem o processo americano, assim como aquelas produzidas no próprio espaço da União Europeia (UE). Ou seja, o concerto de eleições europeias, embora dependente do tabuleiro americano, joga a sua própria partida endémica. A Europa, embora tenha ou possa vir a ter a tentação de responsabilizar os republicanos americanos e o povo dos EUA pelas alterações políticas em curso, terá de confrontar as várias nuances ideológicas que configuram a UE. A tarefa de Trump é relativamente mais fácil do que aquela que a alegada UE tem de enfrentar. A federação dos EUA é, para todos os efeitos, uma superficie soberana contínua. A UE é uma colecção de Estados soberanos que desejarão manter os seu respectivos perfis político-ideológicos. Em função dos resultados das eleições na Áustria ou em França, os Portugueses ou os Espanhóis quererão demonstrar inequivocamente que não são uma coisa nem outra, que são diferentes. Contudo, esse eventual distanciamento não significa necessariamente um afastamento ideológico. Significa que cada país-membro da União Europeia ainda quer ter a paternidade sobre os destinos do seu Estado. E isso pode significar um aceleramento do processo de desmontagem da UE ou um alinhamento ideológico questionável para dizer o mínimo.

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publicado às 09:50

O lápis azul do Orçamento de Estado

por John Wolf, em 25.10.16

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Desde quando é que o Partido Socialista decide o que é útil e o que é fútil? Os alegados pais da democracia libertária de Abril não querem mostrar as cartas do seu jogo. Recusam mostrar as estimativas de execução orçamental por entenderem que estas podem denunciar de morte as suas opções administrativas. Não era este o governo-maravilha que tinha um plano quinquenal ao quadrado, uma visão para a década? O checks and balances na sua plenitude também implica a total transparência dos números do Estado. O modesto cidadão comum não tem o direito de saber de que modo o seu dinheiro é gerido? Será que Portugal está a inverter a sua abertura de espírito e a tender para regimes políticos questionáveis? Mas esta história leva água no bico. Se a geringonça pretende esconder um mais que provável descalabro, não tem nada a temer. A Grécia acaba de ver aprovado mais um pacote adocicado de ajuda. Mas Ilusão e decepção parece ser o modo operativo. Querem convencer-me que não fizeram o due diligence  adequado (expressão cara, esta) em relação ao adjunto de António Costa. A saga dos engenheiros da tanga parece não ter fim para os lados do Rato. Mas não nos afastemos do essencial. O Orçamento de Estado, na versão lápis azul da geringonça, pretende escamotear a verdade. E a verdade é a seguinte: os impostos sobem em toda a linha. Mas não convém que se saiba.

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publicado às 09:33

Centeno pica o ponto da austeridade

por John Wolf, em 19.10.16

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Os políticos europeus andam equívocados há algum tempo. Desde que meteram na cabeça a ideia de Austeridade, não existe nada que os possa demover das suas convicções. Não é que os Estados Unidos da América (EUA) sejam desprovidos de falhas graves, mas neste capítulo dão cartas. Trabalham mais do que os europeus. Trabalham mais horas do que os italianos e os portugueses, mas assemelham-se aos suiços e alemães. E isso tem uma explicação clara. A carga fiscal muito menos acentuada, do que aquela montada em tantos países europeus, funciona como um incentivo ao trabalho. A ausência de reformas e pensões substanciais nos EUA também obriga a esforço adicional - penso na carga de trabalhos em que Portugal está metido com as centenas de milhares de funcionários públicos a que tem de dar de mamar. Os sindicatos europeus inventados para proteger os trabalhadores também contribuíram para um certo estado de alma perdulário. Sinto muitas vezes em Portugal, nos vários domínios profissionais em que me movimento, que existe uma certa falta de entusiasmo - um "estou a trabalhar para aquecer". E é isso que este Orçamento (e os restantes) ajuda a eternizar. Ao desgastarem os contribuintes corroiem a natureza intrínseca do empreendedorismo, da livre iniciativa, mancham a alma voluntariosa do indivíduo que acredita que pode mudar o mundo. E é curioso que o Web Summit esteja prestes a começar em Portugal. Aqueles visionários atracam em Lisboa porque a recepção será maravilhosa e as condições ideais, mas atentemos ao seguinte. Os criadores que aí vêm foram gerados em países com um software mental e fiscal adequado. Não sei se o impacto da cimeira será notável. Para os que vêm é apenas uma escala de um processo de desenvolvimento maior. Investir em Portugal? Perguntem ao Centeno e ao Costa.

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publicado às 09:42

E se Marcelo fosse primeiro-ministro?

por John Wolf, em 28.09.16

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E se Marcelo Rebelo de Sousa fosse primeiro-ministro por um dia? O exercício é interessante. Nessas 24 horas teríamos de encontrar uma actividade de tempos livres para António Costa. Adiante. O que o Presidente da República afirma deve ser levado à letra. Fala de Sócrates e desse ano fatídico de 2011, do microfone na lapela, e o "estou bem assim? ou assim, mais para a esquerda?" - resgate à vista. Marcelo, que está uns furos intelectuais acima de Costa ou Mortágua, não está a ver as coisas de uma torre de marfim. Ele sabe que um país não pode desenrascar-se à pala do turismo. A cerimónia ejaculatória sobre o crescimento do sector assenta nalgumas contradições monetário-ideológicas. Se esses estrangeiros que andam a estragar a calçada portuguesa não tivessem acumulado riqueza não estariam aqui a gastar as suas poupanças. Se esses bifes ou boches tivessem vergonha na cara deixavam-se ficar por Bradford ou Dusseldorf. Mas esse estado de arte de passeio dos alegres pode acabar bruscamente. Basta uma crise Deutsche Bank, bastam sanções a Portugal, basta um ataque terrorista. E de repente teremos uma mercado de tuk-tuks usados interessante. Marcelo sabe, talvez melhor do que os associados em governo, que as vistas não podem ser sazonais. Parece ser um facto histórico inegável desde o tempo dos Descobrimentos existir uma certa predisposição comportamental. A riqueza nacional afinal não é nacional. Não tem cidadania. É refugiada. Vem de fora. Ora são especiarias, ora é o ouro. E mudam-se os tempos, mas o "chip" parece ser semelhante. A ver se cai algo lá de fora. Chamam-lhe turismo.

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publicado às 08:04

 

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Mariana Mortágua procura uma editora para sua nova obra - Dicionário de Ultra-liberais de Esquerda. A académica propõe reinventar a roda fiscal, os eixos da economia e o porta-luvas das poupanças. Com tanto entusiasmo pôs a carroça à frente do PS, mas espetou-se na primeira curva. O que declama não faz sentido. O que enuncia lembra a loucura. O que defende nem sequer é defensável. A confusão que vai naquela cabeça faz-nos temer certos desfechos. Entramos no domínio da irracionalidade pura. Mas ainda mais gritante será o modo como o Bloco de Esquerda (BE) compromete o seu património de correligionários que fez depósitos de fé na ideia de justiça económica e social. Ora o que propõe Mortágua fere de morte a ideia de poupança, de sustentabilidade, de trabalho e o conceito de esperança que deve acompanhar cada cidadão no seu processo de crescimento. Resta saber se a fiscalidade de furto a que se propõe se inscreve nas medidas de ajustamento negociadas com o Partido Socialista (PS). Naquela noite quente de desfecho eleitoral repartido, será que o PS aceitou tudo e mais alguma coisa do guião para cativar o poder? Ou será que isto não fazia parte do combinado? Em todo o caso, face à elevação da fasquia radical, o PS ficou encostado à parede. Ou alinha nestas loucuras ou perde a credencial atribuída pelo BE. No meio deste marasmo, lentamente vislumbramos a consolidação de um partido mais conservador, mais comedido. O Partido Comunista Português (PCP), se for inteligente, pode e deve capitalizar nas eleições autárquicas que se avizinham. Não tem muitas mais hipóteses. Colocar-se ainda mais à Esquerda do BE parece impossível. A régua ideológica fundamentalista acaba ali. Depois cai-se no abismo. A senhora Mortágua ainda não percebeu quais são as virtudes democráticas do capitalismo. São as transferências voluntárias de riqueza que fazem bem ao espírito da nação. São os projectos edificados por capitalistas privados que estão na base da livre expressão. Não existe construção imaterial, a não ser aquela de ordem filosófica. A realidade baseia-se nessa premissa. O BE deve rever os seus preconceitos. O BE deve repensar a sua doutrina. O BE quer acabar com a livre circulação de capitais? Não conhece os pilares da arquitectura da União Europeia? Já faltou mais para algo terrível acontecer. Quando as ideias não existem e os partidos são bens de consumo rápido, não há nada a fazer. Alguém deve ser internado. O país está a ficar louco com tanta asneira.

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publicado às 08:34

A secretária de Passos Coelho

por John Wolf, em 11.09.16

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Ana Catarina Pedroso não consegue tirar o governo anterior da cabeça. A secretária-geral-adjunta do Partido Socialista (PS) parece uma contabilista do passado. Mas em vez de apresentar o balancete directamente ao ministro alemão das Finanças Wolfgang Schäuble, julga que Passos Coelho ainda exerce um cargo de governação - que pode dar ou receber recados. E não é o papel da oposição oferecer as soluções a quem manda. Não senhor. Pensava que havia poder de fogo intelectual suficiente no cabaz agregador do PS, Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português para encontrar as soluções económicas e sociais do país. Sentimos no ar um nervoso em crescendo em relação às autárquicas. As câmaras e juntinhas são um bicho que desequilibra os planos à malta. Não é a Maria Luís Albuquerque que é candidata à Câmara Municipal de Almada ou Lisboa. Por isso, o PS deve dirigir os seus agravos a quem realmente tem responsabilidades políticas. A liga dos oprimidos do sul (Grécia, Portugal, Espanha...) deveria reunir e pensar uma "geringonça de periferia" se não se sente confortável com as ajudas da União Europeia e as intervenções do Banco Central Europeu. Sabemos muito bem que é ao nível autárquico que a porca torce o rabo. É nos conselhos do concelho que os favores se ganham e perdem, que as empresas municipais distribuem benesses pelos amigos. Essencialmente é isso que está em causa nesta tirada do "penosamente destrutivo".

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publicado às 13:14

Terrorismus Continuum

por John Wolf, em 22.07.16

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Os governos democraticamente eleitos do mundo ocidental tardam em enfrentar a dura realidade dos factos. O terrorismo já não equivale a incidentes esporádicos que se dissipam num calendário alargado de ocorrências e datas. Os ataques perpetrados em Paris, em Bruxelas, em Londres ou Munique fazem parte da mesma linha de continuidade. As teorias organizacionais, construídas sobre a premissa da existência de células e hierarquias, já não servem para antecipar ou retrospectivamente dissecar os contornos dos ataques. A questão da genealogia ideológica também se secundariza perante a emergência securitária. Por mais que queiram evitar a solução musculada na Europa civilizada, os lideres de sociedades livres em breve terão de encarar o destacamento de forças militares permanentes nas ruas das cidades, a colocação de forças especiais em pontos nevrálgicos das urbes. Não mencionei uma vez sequer a dimensão dos refugiados, dos fundamentos religiosos ou dos conceitos subjacentes ao auto-proclamado Estado Islâmico. Refiro, sem valorações adicionais, o desafio de ordem e segurança que deve ser abraçado a todo o custo. O declínio da capacidade de projecção de poder dos adversários em terras distantes significa a disseminação de esforços fragmentados, mas altamente letais, no encalce próximo da tranquilidade europeia. O 11 de Setembro, intensamente sofisticado do ponto de vista conceptual e operacional, migrou para propostas de terrorismo de fabrico artesanal. Será com os meios disponíveis que os golpes serão desferidos. Os defensores das liberdades e garantias ainda não entenderam que em nome dos mais altos valores de liberdade, o combate implica o arrestar limitado de algumas prerrogativas consensualmente aceites enquanto intocáveis. A Europa está em guerra, mas tarda em admití-lo. Os terroristas de Bruxelas e Paris também elegem lideres. Chegamos a um ponto insustentável que transcende birras fratricidas entre a Esquerda e a Direita, pacifistas e belicistas. Chegou a hora de uma união de facto. A convergência política e efectiva para derrotar os atavismos internos. Chegou o momento da Europa.

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publicado às 22:12

O Brexit ganha o Euro 2016

por John Wolf, em 20.06.16

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Não tenho os dotes culinários de Fernando Santos. Nem sei cozinhar resultados. Por isso não me aventuro na casa de "abostas" do vai ou fica. Refiro-me ao Brexit, naturalmente. Nos últimos meses temos sido contaminados com inquéritos e mais inquéritos de opinião, com o esgrimir de argumentos nacionalistas ou europeístas, com a exposição dos males e benefícios do rompimento britânico ou com revisitação da história europeia e as virtudes da paz Kantiana. Tudo isto, e muito mais, tem contribuído para o não esclarecimento da questão. E faz sentido que assim seja. A identidade da Europa é essa mesma. O continente sempre foi um palco de tensões, de dissidências e aparentes entendimentos. Ou seja, quer adoptemos uma visão Hobbesiana ou Hobsbawmiana, seremos invariavelmente servidos pelo magistério cultural que reforça uma certa visão determinista. Em última instância, não existe um evento singular capaz de descarrilar a "civilização" europeia da sua tendência para sobreviver à sua própria condição. E esse estado crónico extravasa os parâmetros construtivistas da Comunidade Europeia, dos Tratados Europeus e da União Europeia. Os britânicos, que sempre foram talentosos na defesa do seu interesse nacional, souberam alimentar a falange independentista promovida pelo Brexit. O elencar dos perigos resultantes da saída não são equiparáveis às contingências de uma permanência. Nem devem ser relacionados. A separação de correntes políticas e económicas, a permanência ou a saída, são no meu entender, uma falsa dicotomia. Os britânicos, ao longo das últimas décadas de pertença à União Europeia, demonstraram que é possível estar dentro sem efectivamente estar. E se nos servirmos da mesma bitola de posicionamento estratégico, serão igualmente hábeis a se imiscuirem na condução dos trabalhos da Comissão Europeia e outras instituições, estando fora da estrutura, a 20 milhas do continente europeu. Por outras palavras, a condição britânica é incontornável. Os britânicos não vão a parte alguma. O Brexit até pode vencer o Euro 2016.

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publicado às 10:38

Vacas e tetas salariais

por John Wolf, em 08.06.16

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O mero facto de se discutir o fim do tecto salarial dos administradores da Caixa Geral de Depósitos é uma ofensa para milhões de portugueses que ainda não se levantaram do chão. Mas vamos por partes. Quando a Comissão Europeia aperta os calos da geringonça e ameaça com sanções, a União Europeia é uma madrasta terrível, mas quando o Banco Central Europeu recomenda uma revisão da regra de equiparação de remunerações de gestores a União Europeia já é boazinha. Já sabemos o que acontece à malta que se deita com uns e outros. Já bastava a promiscuidade com os da casa, para agora o Partido Socialista equiparar-se a uma trabalhadora de esquina. São quatro mil milhões de tetas que os portugueses vão ter de mamar. A comissão parlamentar de inquérito à CGD dispensa-se. No comment.

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publicado às 22:14

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WTF se está a passar? O orçamento de Estado de 2016 foi aprovado à revelia da derradeira palavra de quem efectivamente o viabiliza? Ou seja, a Comissão Europeia, que estende a mão com o dinheiro dos contribuintes dos países-membro da União Europeia? Porque é disso mesmo que se trata. Uma visão económica e financeira que decorre de um projecto de integração, onde uns sustentam outros, sucessivamente e alternadamente. António Costa, pelos vistos tem outros planos que não quer partilhar. Decretou a independência de Portugal em apenas seis horas. Age como se fosse suiço, semi-catalão, quando na verdade, Portugal, objectivamente, apenas funciona com o aval da União Europeia e as suas instituições. Este acto de rebelião do governo apenas faria sentido se os socialistas estivessem dispostos a colocar em cima da mesa algo mais ousado, uma coisa semelhante a um Brexit. Se é a soberania nacional que está em causa, este conjunto de governadores deveria produzir um outro género de comunicado. O selo de aprovação do Orçamento de Estado de 2016 não tem grande interesse lá para os lados de Bruxelas. Agora corre para Berlim para ver se pega, provavalmente lançando uma ameaça bacoca à cara de Merkel, para poder regressar herói, e depois dizer às televisões que pelo menos tentou - são 950 milhões de falsas intenções que vai ter de arcar. Fim da conversa.

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publicado às 18:22

O perigo de governos míopes

por John Wolf, em 27.01.16

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De nada serve o Tratado de Methuen assinado entre Portugal e Inglaterra  - o governo de António Costa tem a obrigação de delinear uma série de planos B para a eventualidade de uma saída britânica do Euro e muito mais que consta da ementa do quadro internacional. Mas os políticos, na sua generalidade, apenas conseguem ver um palmo à frente do seu nariz, obviando uma visão panorâmica e integrativa de diversos factores de risco. A saber; (aquele que acabo de referir - o Brexit), a crise dos refugiados, a obliteração do enunciado pelo tratado de Schengen e o seu impacto nos assuntos internos da União Europeia nos planos social e económico, a desaceleração da economia chinesa, o efeito cada vez mais minguado do programa de estímulo financeiro lançado pelo Banco Central Europeu, as ameaças terroristas convertidas em actos pelo Estado Islâmico em distintos endereços do espaço da UE, a quebra acentuada e continuada do preço do crude, as implicações da política externa da Rússia no que diz respeito à ruptura de equilíbrios já de si frágeis (no contexto do (des)intervencionismo americano), a (des)democratização da Húngria e da Polónia com efeitos nefastos e contagiantes no demais espaço da UE, a possibilidade de uma vitória presidencial de Donald Trump e a implementação de uma política externa intensamente agressiva, o conflito sírio e as suas ramificações no espaço do Médio Oriente, designadamente no que concerne à relação entre o Irão e a Arábia Saudita, a iminência de mais uma crise financeira com impacto acentuado, numa primeira fase, nos mercados bolsistas, e num segundo momento na economia real dos países desenvolvidos; as crises em diversos países emergentes como por exemplo o Brasil, e por último, num plano doméstico, mas não menos importante, a desagregação do actual governo de Esquerda colado a cuspo, e apoiado em acordos frágeis e de conjuntura que não produzem propostas que merecem a aprovação da Comissão Europeia. Enfim, o que está em cima da mesa é de facto incontornável, seja qual for o governo em funções. Acontece que António Costa e o seu tesoureiro Mário Centeno estimam os seus extraordinários resultados baseando-se no princípio de ceteris paribus, quando é precisamente o oposto que sucede. A realidade é um difícil alvo em movimento. E não me parece que este governo tenha a visão panóptica para sequer equacionar o sarilho em que está metido. Agarrem-se à cadeira. Não tenham dúvidas. Isto vai estoirar. Lá e cá.

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publicado às 18:53

 

Trinta anos volvidos sobre a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE) foi a política doméstica que menos evoluiu. O arranque das vinhas, a construção de uma rede notável de autoestradas, os fundos comunitários e a chegada da divisa Euro, alteraram a paisagem geofísica do país, mas o padrão da política manteve-se, os mesmos vícios de comportamento mantêm-se e os partidos políticos não souberam acomodar a profunda mudança de mentalidade que a cedência de uma parte da soberania implica. Importa tomar nota que o número de detractores em relação ao projecto europeu tem vindo a crescer, e, embora pese o esforço da ficção idealista dos proponentes de Bruxelas, a União Europeia (UE), filha da CEE, enfrenta enormes desafios - endémicos na sua grande maioria. O palavreado da ocasião comemorativa, projectado por António Costa, cai numa espécie de vácuo ideológico da Europa. A revolução parlamentar levada a cabo pelos socialistas e os partidos intrinsecamente anti-integração, é apresentada como a bandeira de salvação da UE. O processo democrático supranacional, na acepção de António Costa, deve significar realizar o bypass às instituições europeias, para forjar soluções que escapam ao consagrado em tratados. Nem por uma vez sequer, o primado constitucional da UE é referido. António Costa lança postulados para o ar como se não existisse um Tratado da União Europeia. Não está mal vista a sua visão a partir dos cidadãos, mas depreendemos das suas palavras que o primeiro-ministro socialista sublinha as virtudes da Esquerda, quando, face aos factos incontornáveis da realidade política, é a Direita europeia (perigosa em muitos casos) que conhece a sua ascensão. Se levarmos à letra a alegada sinceridade política de Costa, quando este refere o primado do espírito dos povos, não devemos obviar o atestado político e as credencias que este concede à Direita destruidora dos princípios fundamentais da Europa trans-ideológica. Enfim, a Ode à Alegria de Beethoven não me parece ser a banda sonora mais adequada, assim como enaltecer os feitos integrativos de Mário Soares, que deve ser tido também como um dos concessionários de boa parte da soberania nacional. António Costa refere uma alternativa credível para a reafirmação da Europa, como se esta já não estivesse em marcha. Não foi a visão de Mário Soares que conduziu Portugal à adesão à CEE - ele que fique com o troféu do 25 de Abril. Foi o eixo de Berlim-Paris que abarbatou Portugal. Foi o Parlamento Europeu que minguou Portugal. E foi um comissário português que serviu os interesses alheios. Em suma, foram tantos e tão diversos que subscreveram o presente estado da arte em que se encontra este país. 30 anos deu para tanto e tão pouco.

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publicado às 19:50

O orçamento que salvou Portugal

por John Wolf, em 03.01.16

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Sabemos, lamentavelmente, que estamos na presença de alguém com um nível intelectual e cultural questionável, quando escutamos a seguinte afirmação: (este) "orçamento vai reverter empobrecimento". António Costa parece não saber que um orçamento é uma mera ferramenta operativa, e pouco mais. Se fosse estadista, saberia beber em fontes mais profundas. Saberia iniciar um processo de refundação das premissas que enquadram sociedades. Se fosse um pensador pensaria para além dos benefícios de um alicate que serve para reparar o arame da vedação gasta. Existe algo muito familiar na toada deste governo socialista. Algo ironicamente semelhante a regimes que os socialistas tanto abominam, por se perfilarem como sendo os defensores da individualidade que caracteriza os espíritos livres. Regressamos ao registo cómodo da ideologia do conforto. Ao agradar das hostes para que estas se tornem estáticas e não perturbem o reset da canalização do Estado, assente no corporativismo partidário, claramente dependente de obras públicas, fundos comunitários e a quase total desregulação dos meios para atingir esses fins duvidosos. António Costa não pode oferecer mais. Não leu muito, certamente. Mas escutou os versos de um poeta menor, quando outros maiores poderiam ter servido de provocação. Sérgio Godinho certamente que prefereria não ter sido requisitado à força toda para este frete populista. Contudo, é essa a matriz cultural de onde provém Costa. Não é capaz de pensar Portugal para além do seu quintal de amizades. A neuro-política - disciplina instável que acabo de cunhar-, serviria para investigar as propriedades dualistas que Descartes "angariou", e para determinar os obstáculos cognitivos que o primeiro-ministro enfrenta na leitura da relação entre o corpo (país) e a mente (governo). Infelizmente, os atributos que assistem o seu conceito de desenvolvimento, assentam em elementos operativos pueris. Da história não rezam os orçamentos. 

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publicado às 17:55

As bandeiras francesas do intervencionismo

por John Wolf, em 16.11.15

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Os ataques terroristas de Paris de 13 de Novembro intensificam o debate em torno de uma questão fundamental respeitante à Democracia; de que forma governos conseguirão encontrar o equilíbrio entre a dimensão securitária dos Estados e o respeito pelas liberdades e garantias dos indivíduos? Os Estados Unidos da América (EUA), que provaram o desgosto intenso do 11 de Setembro de 2001, têm, desde essa data, vindo a incrementar o seu nível de controlo sobre o movimento de pessoas e capitais por forma a diminuir as probabilidades de semelhantes ataques terroristas. A União Europeia, que têm sido "vegetariana" no desenvolvimento de uma genuína Política Externa e de Segurança Comum, vê-se agora obrigada a implementar medidas "excepcionais". Os EUA, acusados historicamente de "intervencionistas sem convite", continuam a ser um aliado ideológico da Europa, mas  a administração Obama tem sido "abstencionista", e, há poucos dias, Hillary Clinton afirmou que a questão síria seria sobretudo um desafio a ser enfrentado pelos actores "locais", pela Europa. A França, que está a ser a ponta de lança dos ataques ao Estado Islâmico, fá-lo consciente dos monstros que já está a libertar no seu país. A França parece disposta a fazer o sacrifício por uma causa maior que as suas fronteiras. As bandeiras francesas içadas nas redes sociais, e em particular no Facebook, correspondem deste modo, não apenas ao lirismo da solidariedade para como as vítimas dos ataques de Paris, mas à aceitação de que a França é o "war maker and taker" da Europa - os franceses são cada vez mais os americanos da Europa. Os mesmos individuos que cantam a marselhesa por efeito de contágio e simpatia, devem ter a consciência de que se colocam ao lado da nação europeia que está efectivamente a projectar o seu poder militar e de um modo intenso. Os cidadãos da Europa já não podem ser selectivos na escolha de apenas uma parte de uma equação geopolítica. Ao abraçarem a França, assinam por baixo na petição, autorizam que essa república batalhe em vosso nome. A União Europeia vive mais um momento de verdade, de vida, e efectivamente morte, no seu próprio quintal. 

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publicado às 09:22

Greek refer end? um...I wonder.

por John Wolf, em 04.07.15

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Tsipras e Varoufakis assumiram que o conceito de liberdade e dignidade lhes pertencia. Interpretaram de um modo ruinoso a vontade do povo grego. Declararam unir um país, mas a escassas horas de um Referendo histórico com impacto para os demais cidadãos da Europa, a Grécia está efectivamente dividida. Amanhã saberemos se estes governantes são autores de um memorando conducente a pânico, caos, quiçá guerra civil. Numa óptica de custos/benefícios para o cidadão helénico saem perdedores. Se era este o modo de forçar a alteração do status quo da União Europeia, serão bem sucedidos, mas à custa de prestações de forasteiros, o desgaste de nações distantes. Serão os membros da União Europeia a suportar a mudança induzida por catalisadores positivos ou de ruptura. A teoria de jogo, o dilema de prisioneiros, ou qualquer outro mindgame que tenham elegido como instrumento de aquisição de vantagens económicas e políticas, parte de um pressuposto eticamente questionável - a ideia de que o sacríficio alheio deve ser promovido para granjear vantagens domésticas. Quando Tsipras invoca a Europa unida e solidária, fá-lo de um modo teórico e abstracto. Enuncia princípios, mas lança dissensão na sua própria casa. Ou seja, nem filosoficamente oferece um bom exemplo.  Ao fim e ao cabo das tormentas do povo grego e de cinco meses de negociações, sabemos que a Grécia irá necessitar de pelo menos 50 mil milhões de euros para continuar a sobreviver e porventura reclamar ainda mais. Há alguns dias houve quem tivesse comparado a Grécia à União Soviética no limiar do descalabro desta. Em dose hiper-concentrada, a Grécia do Syriza, qual bolchevique anão, é uma espécie quase soviética a caminho do descalabro ideológico. Os soviéticos em 1992 já estavam a viver dias de controlo de capitais, falta de alimentos, enquanto emergiam actores da penumbra sinistra da sociedade. Foi nesse ambiente de ruptura que nasceram oligarcas e capitalistas com um particular sentido democrático. A Grécia, berço dos Estoicos entre outros, quer emular-se na invenção filosófica. Mas convém relembrar que a racionalidade e a ética não caminham necessariamente de mãos dadas. O povo sabe-o. E o Referendo reflictirá a verdade. A verdade será o que acontecer e não o que foi prometido.

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publicado às 12:24

Tsipras pode agradecer ao Multibanco

por John Wolf, em 28.06.15

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Podem agradecer às caixas Multibanco não haver tiros, mortes e sangue nas ruas de Atenas e outras cidades gregas. Se não fossem as ditas caixas, decerto que a fúria da falência iminente transbordaria para outras formas de levantamento - não vai a bem, vai a mal. A tecnologia, já com décadas de existência, está a servir de válvula de escape para milhões de gregos ávidos por lançar a mão às suas poupanças. No entanto, amanhã a história será outra. E no dia seguinte outra ainda. Uma corrida aos bancos não é uma maratona. 

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publicado às 13:42

Grécia e o grande conflito europeu

por John Wolf, em 28.06.15

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A ruptura negocial de Tsipras com os parceiros europeus remete o drama grego para outro patamar de preocupações. Será no plano interno daquele país que os verdadeiros perigos serão expostos num primeiro momento. A toada nacional-esquerdista, imbuída de patriotismo helénico, poderá facilmente descambar para um Estado fascista. Se o povo grego votar em Referendo a aceitação do pacote de ajuda que arrasta mais Austeridade, Tsipras deve, democraticamente, se demitir, mas tenho sérias dúvidas que o faça dado o seu perfil de intransigência. A partir desse momento vislumbram-se alguns cenários mais drásticos. A saber; um golpe militar com a instituição de um regime de coronéis; a convocação contrariada de eleições em virtude da dissolução do governo e a ascensão de uma força nacionalista; a eclosão de um conflito armado com um vizinho regional com o apoio logístico e ideológico da Rússia; um ou vários assassinatos políticos; ataques terroristas de falanges políticas gregas dispostas a acentuar a dissensão interna e intimidar a comunidade internacional. No entanto, as instituições convencionais da política europeia restringem-se a consternações de ordem económica e financeira e os media insistem que é a política que move as diversas partes envolvidas. Enquanto pensam em controlar os danos decorrentes da corrida aos bancos a que já assistimos fora do horário normal de expediente, outras ramificações devem ser tidas em conta de um modo muito sério. A União Europeia para além de estar a braços com uma crise económica, social e financeira de um dos seus estados-membro, terá de encarar desafios de ordem geopolítica para os quais não está devidamente apetrechado. A Política Externa de Segurança Comum é um dos outros pilares da construção europeia que carece de uma estrutura sólida e eficaz no seio das consternações externas de uma Europa comum. Por essa razão, a opção transatlântica ainda merece grande consideração. Os EUA jogam desse modo na sombra do tabuleiro da política europeia. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) deve, face aos desenvolvimentos da situação na Grécia, pensar nas implicações decorrentes do agravamento da crise europeia. Embora haja uma tendência inata, resultante da paz longa do pós-segunda Guerra Mundial, para pensar na normalização do quadro de relações, a verdade é que ao longo da história da humanidade, a estabilidade política e económica tem sido a excepção e não a norma. Tempos difíceis aproximam-se a passos largos e de nada serve deitar as culpas a uns ou a outros. A história é isto mesmo. Irrascível, mas explicada por modelos racionais.

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publicado às 08:03






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