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Estranhas Rotas.

por Nuno Resende, em 01.06.17

 Anúncio à «Rota do Anho Assado»

 

Um dos problemas históricos de Portugal tem sido o do desfasamento institucional entre o local e o central. Desde a fundação que o país oscila entre os pequenos poderes locais ou autárcicos e uma macrocefalia que desequilibra o crescimento homogéneo do território.

Quando se criaram em 1979 as Comissões de Coordenação Regional, hoje representadas nas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, pensou-se (e bem) dar expressão a uma necessidade de planeamento regional para equilibrar a tal bipolaridade de um país de dicotomias: norte/sul, centro/interior. Não se tratava, penso, de uma regionalização, tal qual foi discutida há alguns anos, mas de uma descentralização de capacidades que transformasse um imenso polvo burocrático, numa forma fluída de comunicação de proximidade.

A meu ver a regionalização, pelo contrário, iria constituir o mal de dois mundos já existentes: ou se reproduzia o centralismo de Lisboa em vários «Terreiros do Paço», ou se ampliaria o caciquismo municipalista à escala regional.

De qualquer forma as CCDR traziam na sua base o que era necessário: «serviços desconcentrados do Ministério das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente  […] dotados de autonomia administrativa e financeira, incumbidos de executar ao nível das respectivas áreas geográficas de actuação as políticas de ambiente, de ordenamento do território, de conservação da natureza e da biodiversidade, de utilização sustentável dos recursos naturais, de requalificação urbana, de planeamento estratégico regional […]. Vou parar por aqui a citação do decreto. A legislação em Portugal é pródiga. É pródiga em abundância, liberalidade, utopias e … em inaplicabilidade.

Passados 38 anos sobre a criação das CCRs e 14 sobre as CCDRs é possível verificar o estado de coisas. Ambas as instituições, absolutamente dependentes do poder político central, caíram numa sobreposição de funções, reduziram a estratégia à tentativa de equilíbrio entre poder local e agenda política, descurando o tal planeamento estratégio regional que importava aplicar verdadeiramente. É óbvio que sem uma profunda renovação da relação partidária com os poderes civis, tal organismo nunca deixará de funcionar aos sabores da cartilha do partido A ou B. E pior, estava bem de ver que sendo as CCRs simples braços dos polvos de Lisboa, era certo que colidiram com os municípios, onde se cruzam interesses políticos com individuais e onde impera a figura do coronel-autarca.

Cada vez mais o país parece uma manta de retalhos. Não aquela manta de retalhos bem cosida que nos apresentou o Estado Novo, com as suas províncias e juntas de turismo, que promoviam desde a minhota enfeitada de filigrana às termas de Entre os Rios ou à praia da Nazaré. Hoje o país é um tecido de cores esquizofrénicas, sem qualquer tipo de leitura homogénea e, pior, já não cosido, mas roto.

A prova disso são as Rotas e as designações genéricas de categorias de paisagem ou povoados (algumas delas claramente decalcadas do tempo de António Ferro). Há rotas para tudo: rotas para celebrar património, rotas para celebrar comida, rotas de vinho, rotas de escritores, rotas de minério, rotas sobre contrabando, etc. Há aldeias históricas, aldeias de Portugal, aldeias de xisto, etc, etc. E não é só o jargão que se repete, são os logótipos, os «slogans», as frases-feitas que acompanham as justificações para a criação de tudo isto. Dir-se-ia que quem ganhou com estes produtos foi o marketing e as agências de comunicação. E foi.

Se não vejamos o recente caso dos Caminhos de Fátima. Há 19 anos foi criado um logótipo para sinalizar os itinerários de peregrinação. Recentemente o Turismo de Portugal (o mesmo organismo que tem levado a cabo um processo de uniformização da imagem turística do país) lançou um projecto de criação de novas rotas e um novo símbolo para o Caminho. A Associação de Amigos dos Caminhos de Fátima conta e denuncia este caso, aqui.

Mas são inúmeros pelo país. O desenho de projectos subsidiados pelos fundos europeus, pretensamente destinados a suprir necessidades locais, parecem ser elaborados com base em interesses corporativos e partidário-políticos locais e centrais e menos num conhecimento efectivo do território – não obstante as frequentes menções a estudos, estatísticas e avaliações prévias. O resultado é uma absoluta desconexão entre passado e futuro, com produtos «turísticos» totalmente desconexos da realidade histórica, da verdadeira necessidade das pessoas que artificializam as ideias de paisagem e território num desenho gráfico bem apelativo, mas sem qualquer conteúdo - basta, aliás, ler os textos de plataformas digitais, roteiros e até alguns livros para perceber o alcance confrangedor daqueles textos....

E espanta-me que ninguém, até hoje, procure saber a origem e o custo de todo aquele desenho gráfico – certamente que teríamos resposta para justifica a maioria das rotas e «frases feitas» que hoje compõem a imagem turística de Portugal.

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publicado às 10:04

O Truque das Massas.

por Nuno Resende, em 19.04.17

O projecto chamado Truques da Imprensa Portuguesa é um caso curioso de Sockpuppets cujo objetivo é o de, entre outras coisa, desmascarar outros Sockpuppets. Estranho? Nem por isso. A príncipio tudo parece um caso de voluntariado: um grupo de amigos (e amigas?) junta-se para denunciar o que consideram ser os abusos da comunicação em Portugal: pretensas notícias falsas, artigos manipuladores, clickbaits, violação da vida privada, combate político «descarado», etc etc. A cada instante, através do Facebook, os anónimos autores do Truques elaborada cuidadosamente textos que recortam, analisam e condenam notícias, jornalistas e jornais. Mas não estamos a falar de frases soltas, ataques imediatos, daqueles com os leitores bombardeiam as caixas de comentários dos periódicos. Não. Estamos a falar de artigos complexos onde a informação não só é escalpelizada, mas relacionada com outros casos, alguns anteriores ao próprios «Truques». Por aqui se vê que, quer pela constância na publicação dos textos, quer pelo manancial de informação que veiculam, não estamos a falar de um grupo de amigos que se reune numa garagem para beber uns copos, comer uns percebes e mandar uns bitaites.
A regularidade e a mecanicidade com que varrem o panorama informativo, identificam alvos e os abatem é de um nível cirúrgico incontestável. Sobretudo se pensarmos que aqueles carolas estão ali por desporto, que têm os seus trabalhos, a sua vida pessoal e que o Truques é apenas uma espécie de destino robin hoodesco para salvar a pátria da nesfasta má comunicação social.
Na esfera daquele produto circulam perfis abertos e fechados. Os abertos são claramente leitores de boa vontade que fazem comentários sinceros e até inocentes sobre os casos que ali se apresentam. Todavia há um conjunto de perfis claramente falsos que, por exemplo, quando alguém ataca directamente as opiniões veiculadas pelos administradores anónimos aparece rapidamente, como um enxame, para rodear a presa e desfazê-la com argumentos, uns válidos, outros nem por isso - um exército de pequenos sock puppets.
Quando ali uma vez discordei e fiz valer o meu argumento, e visto que o meu perfil de facebook não tem uma foto de grande qualidade, rapidamente apareceu o autor de um dos perfis fechados a divulgar aspectos da minha vida profissional.
Não quero pensar que há partidos, empresas, lóbis o que quer que seja, por trás deste grupo de «amigos». De resto esta prática de controlo opinativo com contornos políticos teve larga difusão no Portugal comentadeiro - veja-se o caso dos Abrantes.
Mas espanta-me a facilidade como um perfil do Facebook ex nihilo gerido por anónimos, adquire uma tal credibilidade que facilmente transforma massas pretensamente críticas, em conjuntos de indivíduos inertes e seguidores.

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publicado às 19:28

Imprecações e canonizações.

por Nuno Resende, em 07.02.17

Ainda bem que deixei o Facebook antes da era Trump. Foram nove anos desperdiçados, mas não é grave se pensarmos que o mandato do novo presidente dos EUA transformou aquela plataforma numa ainda pior expressão do cinismo humano.
Nestes nove anos não me lembro de uma campanha tão enjoativa de prós e contras, com opiniões, vídeos humorísticos e promessas de imolação. O homem é feio, ignorante, um troglodita e um agiota sem escrúpulos, mas isso é a característica do político norte-americano comum. Ou acham que eles fizeram a América com bolo e cházinho?
Há aqui, claro, o factor comunicação social. Nunca os media se sentiram tão pouco confortáveis com a figura. O 4.º poder deixou de poder e isso é que é grave - muito mais que o atropelo dos direitos humanos, se pensarmos bem.
Mas se formos a ver ignorantes e imbecis eram já os Bushs. Feio e claramente pouco ético foi Clinton e se recuarmos no passado, poucas são as virtudes que encontramos nos mandantes da América. Devo recordar, aliás, que as bombas atómicas lançadas sobre Nagasaki e Hiroshima foram-no com o assentimento de um presidente norte-americano.
Enfim, a era do imediato, exige que se eleja e destitue um presidente no menor período de tempo. Não há tempo a perder. Nesse aspecto, devo admitir, o sistema republicano é muito útil, pois satisfaz as necessidades básicas da fisiologia humana. Se comemos, temos necessariamente que evacuar. E quanto a isso, a democracia não pode esperar.
Nós por cá não temos necessidade de destituir o presidente da república. Todo ele é doçura, é candura, é disponibilidade. Já não são só afectos, são horas de voluntariado, de apoio e de serviço aos pobres e carenciados. Nas redes sociais não se fala de outra coisa. Donas de casa querem beijá-lo, velhinhos ardem em desejo por um abraço, adolescentes anseiam por tirar selfies com ele. No entretanto, Marcelo lê, escreve e fala, fala muito. Cura leprosos, ressuscita mortos e anima a Geringonça.
No meio disto tudo, nem é o enjoo da colagem a um Sousa Martins, ou o vestir da farda de um Presidente-Rei.
É que, ao contrário de Trump, que quer fazer a América grande «outra vez», o senhor professor Doutor Marcelo, quer procurar o melhor no Portugal pequenito, recuperando aquela ideia salazarista de pobres, mas alegres.
São os dois rídículos, mas cada um à escala do seu país.

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publicado às 11:51

MAATua

por Nuno Resende, em 11.10.16

Desculpem voltar ao tema, mas não deixa de me preocupar a forma passiva como a nossa classe política e a sociedade que a escolheu, olha para questões como a da barragem do Tua.
O vale do Tua já foi destruído: não há qualquer hipótese de retomar a paisagem, o território tal qual era antes da barragem que a EDP e os seus apaniguados fizeram construir à revelia de alguns.
Durante o processo houve vozes dissonantes, mas sobretudo uma silenciosa apatia em relação ao Plano Nacional de Barragens e os seus encargos para o país que inclui aquele projecto. Da Esquerda à Direita houve sempre, na Assembleia da República, uma cumplicidade que, bem vista, resulta duma chantagem global do poder económico à partidocracia.
Parecer impossível fugir a um monstro tentacular como a EDP agora controlada por cérebros economicistas chineses. Esta subserviência, «começada» por Paulo Portas e continuada hoje por António Costa, numa espécie de longa vénia entre Direita e Esquerda (de resto, movimento fácil de executar devido à característica fisiológica do político cuja espinha é uma maleável cartilagem), trata de agradar não ao cidadão, mas ao empresário. Como é possível que a Esquerda hoje no Poder, o ignore?
Chega a ser ordinário e escandaloso a forma como do mais desconhecido deputado à mais alta figura da Nação, o doutor Marcelo Rebelo de Sousa, todos se prestam ao beija-mão do senhor Mexia e da sua empresa.
Que uma jornalista «opinion maker» como a Lurdes Ferreira venha hoje dizer que o MAAT em Lisboa, não é EDP até se percebe. Está no seu direito e é coerente defender quem a premeia ou a protege. Embora até uma criança perceba que o mecenato é um nome bonito para limpar a imagem (quem não se recorda que a indústria Tabaqueira foi até há bem pouco tempo patrocionadora da cultura portuguesa?).
Mas que o senhor Presidente da República Portuguesa, pretensamente defensor dos interesses dos portugueses (eleitores ou não) corte fitas na inauguração de um Museu (?) que parece ser, em Lisboa, a paga pela destruição de um bocado de terra em Trás-os-Montes, isso não se compreende.
Talvez eu esteja errado e, como dizia um amigo meu, se os transmontanos não se importaram que os políticos lhe roubassem terra, paisagem e património e se os lisboetas fazem fila para entrar num Museu construído com o dinheiro de muita especulação energética que lhe vai aos bolsos, quem sou eu para achar isto tudo uma perfeita canalhice?

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publicado às 17:09

A Tua Culpa.

por Nuno Resende, em 21.06.16

Só para que fique registado na História das infâmias deste país: ontem começou a encher a nova albufeira do Tua. Para quem não sabe - e me parece seja a maioria dos portugueses - o Tua é um afluente do rio Douro, que nasce a norte deste na região de Trás-os-Montes. Nesta região vive-se em crise há muitos séculos, subsiste-se, sobrevive-se. É pois terra que se vende por pouco, sobretudo quando o comprador é bem falante e os tutores pouco escrupulosos.

Ontem, 20 de Junho de 2016, governando um arco de poder à Esquerda, entre partidos que se dizem pró-ecologistas como o PEV, o BE, ou PAN cometeu-se um dos maiores crimes ambientais e paisagísticos na História de Portugal. Não houve «acampadas», boicotes, nem manifestações na Avenida da Liberdade, em Lisboa, ou nos Aliados - apenas acções isoladas de «românticos» que, como eu, acham que um pedaço de terra vale mais do que watts rentáveis e aquecimento central.

Com o silêncio da Comunicação Social, o conluio de toda a política Portuguesa, e a inércia burguesa que caracteriza a sociedade actual deste país deixamos que mais uma empresa dispussesse da nossa terra, da nossa água e dos nossos recursos para ganhar dinheiro.

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publicado às 11:20

Pensar dentro do rectângulo

por Nuno Resende, em 30.05.16

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De vez em quando vêm à baila jornalística uns não-assuntos que as redes sociais transformaram em causas. Há alguns meses atrás o caso Henrique Raposo vs. «alentejanos» completamente pífio (basta ler o livro atacado) e agora o súbito ataque ao cantor José Cid a propósito de um comentário por ele formulado num programa de televisão há 5 anos.
Não vamos sequer escalpelizar a indignação suspensa durante cinco anos, nem o teor das declarações que ouvidas no contexto são naturalmente infelizes mas de modo algum deselegantes dentro da conversa e no contexto do próprio programa. Não vale a pena, os comentadores encarregam-se disso. Mas o humor em Portugal sempre foi cru, cruel e crucificador, sem que alguém alguma vez se tenha realmente importado com isso.
O humor vulgar, aquele de barbearia, de táxi ou de café é mesquinho, implacável e francamente amoral. Desce aos lugares mais sórdidos da existência humana e quase nunca poupa quem quer que seja, reduzindo grandes e pequenos, honrados e menos honrados a matéria de cloaca.
Durante anos a fio tenho ouvido anedotas sobre alentejanos, impropérios sobre portuenses e lisboetas, observações lúbricas e pouco lisonjeadoras sobre tipos sociais, profissões e ofícios. E se recuarmos na genealogia da graçola xenófoba e chauvinista o país inteiro revolve-se em riso entre si e contra si.
Não é por nada que o Zé Povinho, indivíduo boçal e risonho que encena um gesto de insulto, se tornou o símbolo colectivo de Portugal.
Mas nesta história toda o mais absurdo não é indignarem-se com comentários imbecis - afinal as redes sociais são ao mesmo tempo palco e plateia. O mais absurdo é a forma como ainda se pensa o país segundo a bitola salazarista dos transmontanos, dos beirões, dos alentejanos, etcª.
Aquele mapa colorido das províncias que engalanava muitas salas de escola primária ainda faz as delícias desta gente.
Ao menos no Estado Novo ainda se cuidava de saber onde começavam e acabavam as províncias. Desconfio que hoje muitos transmontanos só o são por contágio. Nunca leram Torga, não sabem elencar os rios da região e estão a marimbar-se para a etnografia e a cultura popular que, aliás, foi sempre pouco gentil para os tipos de homens e mulheres que estavam para lá do Marão...

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publicado às 20:33

Dom Galaaz, o marcelino

por Nuno Resende, em 12.03.16

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 (Na foto e acreditar na comunicação social, «a multidão efusiva» para aplaudir o presidente Marcelo à saída da Câmara do Porto).

Há um cheiro a algodão doce no ar por onde o presidente Marcelo Rebelo de Sousa passa. A música ajuda e os carrosséis também, embora no Porto seja fácil agradar com são joões antecipados e um discurso sobre a liberdade. Os remediados ficam contentes com o bodo e a burguesia empola-se com o brio de ser taxada de liberal e democrata (embora liberalismo aqui queira dizer bons negócios de mercearia e democracia um passeio à Foz ao domingo).

Bem dizia aquele publicitário brasileiro que hoje em dia se vendia presidentes como pacotes de manteiga. Este foi o método de Marcelo: usar a televisão para untar os portugueses. Tudo bem barrado de banha ao seu estilo - falando sobre tudo e mais alguma coisa sem dizer algo concreto- e esperar que a carne assasse. Em 2015 estava no ponto: a classe política descridibilizada da Esquerda à Direita, um golpe de estado encanbeçado pelo líder do Partido Socialista e um Passos Coelho mais vazio do que um balão entre espinhos. Nem foi preciso grande esforço: os restantes candidatos trataram de, um por um, contribuir para que Marcelo não cansasse a voz.

Não é caso para gritar presidente-rei, porém. Embora as televisões que tanto ajudaram Marcelo a construir-se, adorem folguedos e apertões, posso garantir que não estava à frente da Câmara Municipal do Porto a multidão que as têvês se esforçaram por captar com planos picados e apertados. A foto acima é reveladora.

O estilo da presidência, Marcelo conhece-o bem: é o das monarquias. Quis festividades de coroação, dispersas, três dias de fogo de artíficio.

Mas Marcelo, apesar de católico, não é monárquico, nem é novato.

Andá cá há muitos anos e joga bem com Deus e com o diabo.

A Natália Correia conhecia-o bem, «o passarão» «Dom Galaaz»*

 

Veja-se o Natália Correia, “Cancioneiro Joco-Marcelino” , de 1989.

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publicado às 09:44

«Anda comigo ver os aviões...»

por Nuno Resende, em 03.03.16

Nunca uma letra de uma música se adequou tanto à polémica que grassa a norte. A norte, como quem diz. No Porto. Embora o discurso político mais recorrente dos ocupantes da cadeira do palácio da avenida dos Aliados seja a ideia de que o Porto é a capital do Norte, historicamente nunca o foi. Nem nunca o será, em abono da verdade, e esperemos que assim seja, para bem das liberdades locais e regionais do Minho, Douro e Trás-os-Montes
Provavelmente a única cidade-estado na História medieval e moderna portuguesa, o Porto foi sempre uma urbe com brio, consciente da sua qualidade de entreposto comercial e lugar de poder.
Naturalmente que o poder acarreta conflitos e o Porto nunca também foi espaço de paz, cidade de plácidos momentos. Fosse o Bispo, a câmara, o povo, os nobres ou os reis, sempre um espinho contribuía para sangrar o percurso histórico e comercial desta comunidade de burgueses.
Assim compreende-se que na esteira dos seus antecessores o presidente da actual cidade lance as suas farpas em várias direcções. Hoje não há reis nem nobres, o bispo já não detém o senhorio do velho couto e naus como as que daqui rumaram a Ceuta em 1415 não há.
Não há velas, mas há asas - as dos aviões que sulcam os céus da cidade num fernesim entre lá e cá, trazendo e levando já não especiarias, panos ou obras de arte, mas despejando gente que vem usufruir do exotismo da cidade - ainda que este seja hoje do género «gourmet», um género que se encontra em qualquer cidade do mundo ocidental.
Talvez assim se compreenda a polémica «Moreira-TAP». Já não preocupado com as questões aduaneiras do rio, as inspecções de saúde, ou os períodos de quarentena na margem esquerda do Douro, Rui Moreira aponta baterias à TAP esse reflexo de um país estado-novista que não existe.
Que a questão é estranha e inusitada é. Que eu me lembre e que os registos documentem, nunca um presidente de câmara se preocupou tanto com voos de longo curso, sobretudo quando os de low-cost que ligam o Porto aos subúrbios europeus é que lhe trouxeram fama e proveito*. Fama à cidade e proveito ao executivo camarário actual que à conta do lucro de empresas como a Ryanair ou a Easyjet tem vendido a ideia de um Porto-Pitoresco.Ponto.
Por isso que interessa que a TAP deixe de voar para o Porto ou que do Porto voe para o resto do Mundo? Não é o turista da Malásia ou da Argentina que vai usufruir de uma francesinha gourmet, numa «tasca gourmet», de uma rua gourmet da cidade-gourmet. De resto, quem vê mobilário Ikea vê-o num café do Porto ou em outra qualquer parte do mundo.
Não entendo, portanto, a fixação do senhor presidente Moreira nos defeitos empresariais da TAP.
Entenderia mais depressa se concentrasse esforços em contribuir para o melhoramentos dos transportes públicos de e para a cidade. A STCP presta um dos piores serviços desde a sua existência e as empresas públicas CP/REFER desinteressaram-se completamente na revitalização do património ferroviário a norte do país. Entenderia a exictação do senhor presidente se ele pedisse (exigisse!) a retoma da ligação ferroviária Porto-Salamanca, ou a duplicação e electrificação da linha do Minho até Espanha. Mas não consigo compreender a celeuma em relação à TAP.
Calculo contudo que o senhor presidente saiba o que faz, dada a taxa de popularidade de que usufrui nas redes sociais e que o torna num dos mais notáveis virtuais fazedores da história do Porto. Mas suspeito que o senhor Rui Moreira ande mais de avião do que eu ando de autocarro ou de comboio e tenhamos, portanto, uma visão diferente dos problemas da cidade onde ambos vivemos.

 

*Sobre aviões em geral, ou melhor, sobre aviõezinhos, há contudo alguma tradição no Porto - que radica a sua origem numa disputa por corridas daqueles aparelhos, patrocinada por uma reconhecida marca de bebidas energéticas.

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publicado às 17:46

Foge cão!

por Nuno Resende, em 11.06.15

Lamego é uma cidade muito bonita. Tive a honra de a habitar durante cerca de 2 anos e de já há quase 20 anos trabalhar com e sobre o seu património. Não vou discorrer sobre a natureza das suas gentes, como faziam os panegiristas do Estado Novo, para quem a mulher e o homem do interior, na sua aparente bonomia, suscitavam elogios paternalistas dos próceres e intelectuais daquele regime enquanto modelos da nação pobre mas honrada.
Contudo, não posso deixar de assinalar a resistência deste paternalismo nos políticos de hoje, nomeadamente na figura do Senhor Presidente da República, que no seu discurso do 10 de Junho, dirigido em Lamego ao país e a muitos lamecenses, se referiu à «experiência destas terras do interior» como uma «lição para o país». Já não saliento, sequer, a forma distante, desapegada e quase depreciativa com que o nosso Chefe de Estado se dirigiu à região que o acolheu, mas à permanência daquele tópico saudosista do Estado Novo sobre a força e a honradez das gentes do interior. Aquelas gentes, daquelas terras, por oposição a um litoral (leia-se capital) ilustrado(a) e culto(a).
Fez-me pena o discurso e pena a reacção dos ouvintes e participantes. Pena pela incapacidade de um homem fazer-se líder inquestionável de um país democrático e democrata que, não puxando pelos seus galões patrióticos, já deu gente bem mais capaz; e pena por cada um dos que, em Lamego do dia 10 de Junho de 2015 ouviram e bateram palmas a um discurso que os diminuía ao tamanho de um rato.
Durante a monarquia constitucional ouvia-se e lia-se a crítica às benesses, mercês, títulos e comendas distribuídos, segundo os mais republicanos, a torto e direito, sem justificação e ou pena pelo erário público que as premiava a tença.
A República Portuguesa através do seu presidente distribuiu hoje comendas e medalhas, também sem justificação aparente em alguns casos, e recebe o silêncio de uns e palmas de outros.
Parece que antes de 1910 queria fazer-se crer a opinião pública que até os cães que recebiam as mercês. Hoje que os cães já são quase gente, quem as recebe?

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publicado às 15:17

Por falar em ideias novas...

por Nuno Resende, em 02.06.15

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 Folheto informativo do Secretariado de Propaganda Nacional sobre o concurso «A Aldeia mais Portuguesa de Portugal», 1938

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 Nova imagem logótipa do Porto criada pela Whitestudio (c) para a Câmara Municipal daquela cidade.

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publicado às 11:28

O Porto por uma lata.

por Nuno Resende, em 27.05.15

 Imagem via Notícias ao Minuto

 

Quem é ou mora no Porto há pelo menos 30 anos, como eu, assistiu às notáveis transformações da cidade. Desde uma Foz ainda longínqua, a uma marginal marítima abandonada e decadente, até à consagração da cidade (ainda suja e com problema sociais por resolver no Centro Histórico) enquanto Património da Humanidade, o percurso tem sido fulgurante.

Como em todas as cidades ou como, aliás, na história do país, o Porto ruma entre as marés das modas e dos devaneios político-partidários e entre questiúnculas de uns e outros (dos arremessos urbanísticos de Fernando Gomes, às mãos-pelos-pés do eng. Nuno Cardoso, passando pela longa «fantasia Rui Riesca») chegamos, hoje, ao Apogeu.

Se a História é cíclica, o Porto está em 2015 como estava em 1415, nas vésperas da conquista de Ceuta, quando investiu do bolso a abertura do mediterrâneo aos seus desejos expansionistas comerciais. Mas, volvidos 500 anos, o projecto é outro e o Porto não sai do sítio. Hoje vem cá a Europa.

E a Europa vem às mancheias. Não, não se deve à governação provinciana dos últimos 30 anos, com as suas arremetidas pequeninas a Lisboa, coladas à estratégia futeboleira, nem ao fraquinho investimento na promoção turística (ou da imagem que hoje se quer vender com um PONTO). Não. Deve-se a investimento externo, nomeadamente aos voos baratuchos (low-cost como a gíria bem falante lhes chama) que há pouco menos de 10 anos despejam na cidade por mês milhares de forasteiros.

Ora, naturalmente que o encanto da cidade, que muitos têm tentado estragar desde o ano da Capital Europeia da Cultura, em 2001, é motivo mais do que suficiente para este tipo de pontes aéreas. Mas eu e certamente muitos dos meus correligionários portuenses já percebemos que ao aumento exponencial do fluxo de turistas (aproveitado pelo actual executivo para justificar os bons anos de governação «independente») não se seguiu um correspondente incremento dos serviços: os transportes (STCP e Metro) estão de rastos; o trânsito é um caos (desde os anos 80 que não se assistia a estrangulamentos como os de hoje nas Pontes e nas vias supostamente rápidas) e, de repente, parece que uma fábrica do IKEA explodiu em plena baixa, tal é a repetição nauseabunda do mobiliário daquela empresa em todos os bares, hotéis e cafés que, de há 5 anos a esta parte, têm matado o comércio tradicional.

Tudo isto é abundantemente vendido como imagem de turismo, futuro e progresso pela actual edilidade. Mas o facto é que se vende gato por lebre. Depois da azia popularucha dos carros de corrida ou dos aviõezinhos, a que a cidade entregou o nome por alguns trocos, um festim cultural de duvidosa qualidade tem acometido a agenda do Porto. Há um ano repleto de encontros, sessões, inaugurações com nomes estrangeirados, parangonas - e…nenhum conteúdo - numa sucessão de eventos que se resume a recepções e copos d’água para classe média e média-alta beberem - desesperadas que são por festas e copos. Depois há o São João das Fontainhas e da Boavista revisitados no modo «carrinhos de choque e rodas gigantes» mas hoje com vestes intelectuais. E dizem que vem aí a «cidade líquida»….

Eu votei Rui Moreira. E considerei que a mudança se fazia na cidade das mudanças, pela alteração do paradigma Circo e Festa, pelo da promoção integral de uma cidade (perdoem-me a parvoíce da inocência) onde a liberdade e o brio eram fundamentais para preservar o nunca foi nem será a naçom parola – mas uma urbe consciente do seu papel histórico de lugar cívico. Enganei-me logo quando a cidade entregou a pouca dignidade que tinha aos representantes das Repúblicas «Populares» da China e de Angola.

Reflecti porém que tinha dado para outro peditório: dei o meu voto para a criação um Olimpo, com os seus Apolos a beberricar ambrósia e a tirar selfies para as redes sociais.

E o «povo» do Porto? O «povo» que beba Coca-Cola, que agora até traz a imagem de um certo «Porto»

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publicado às 16:10

Não discutimos a pátria (nem o futebol)

por Nuno Resende, em 19.05.15

«Não se discute Deus e a sua virtude; não se discute a Pátria e a Nação» - disse António de Oliveira Salazar. Talvez não tenha acrescentado o futebol, por pudor. Acrescentemo-lo agora a propósito das recentes comemorações benfiquistas.

O futebol é uma prática desportiva. Até aqui tudo bem. O desporto é uma característica que distingue a humanidade da sua biologia animal: hoje o Homem já não precisa de caçar para alimentar-se, nutrir-se e manter-se em forma para evitar ser caçado. Apesar disso no presente o Homem pode existir sem que isso implique mover-se.

Mas o futebol, ao contrário de muitas outras práticas desportivas, saiu, há muito tempo, fora das quatro linhas, tornando-se um espectáculo de massas, consubstanciado com o recurso a um vasto conjunto de artifícios, em grande parte motivados pelo luxo, pelos excessos e pelo desejo de poder – coisas que o comum dos mortais deseja como as pegas desejam os objectos brilhantes e que topam no seu longínquo voo.

O futebol não é, por isso, apenas, uma prática desportiva. A sua organização em equipas torna os seus fãs ou adeptos em milícias que visam enaltecer, proteger e defender (se preciso até à morte) uma pequena oligarquia de jogadores que vive acima das possibilidades do comum dos humanos. Mesmo nas equipas menos bem pagas, o clubismo transforma-se numa expressão longínqua da antiga vida em tribo. Sem necessidade de alianças para caçar e defender-se das grandes presas pré-históricas o Homem moderno usa o futebol como forma de catarse e exercícios de violência mantendo assim os níveis de epinefrina capazes de aguentarem a sua virilidade em pé.

Claramente difundido em algumas sociedades ocidentais (sub ou sobredesenvolvidas – o índice de desenvolvimento económico não é para aqui chamado como muitos argumentam) o futebol constitui, assim, a mais clara expressão de um comportamento hominídeo primitivo que articula a expressão violenta da subsistência com a sustentação de uma rivalidade inter geracional e rácica.

Toda esta conversa pseudo-sociológica e intelectual serve para resumir que há décadas que o futebol significa, mais do desporto: significa dinheiro, violência e absoluto desrespeito pela convivência entre indivíduos. Que se faça de um momento de violência um discurso pró ou contra agressores ou agredidos, nem sequer é ridículo. É escusado.

Devia, isso sim, discutir-se o futebol, o seu papel educacional e pedagógico enquanto desporto. Isso e só. Tudo o resto tem contribuído para a transformação da sociedade numa enorme massa uniforme de unanimismos. De facto não há assunto, pelo menos em Portugal, tão consensual como o futebol. Nem a democracia é tão consensual quando se trata de defender a imagem de um futebolista ou de um treinador. E isso é preocupante. Talvez assim se justifique que da Esquerda à Direita, todos os políticos, quando entrevistados introduzam o tópico do futebol como uma expressão de clubismo ou amizade saudável.

Mas o que se tem visto ao longo do último século é tudo menos saudável: além de uma excessiva participação estadual nos grandes clubes, a comunicação social aproveita-se daquele desporto em detrimento de outros assuntos, bem mais prementes do ponto de vista cívico.

Enquanto o futebol for assunto tabu dificilmente avançaremos do grau civilizacional onde estamos e que conduzem às imagens degradantes que as televisões, jornais e redes sociais têm repetido ad nauseam.

É que violência não é só a física e corporal…

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publicado às 15:11

Viva o 10 de Junho e a Restauração?

por Nuno Resende, em 12.06.14

 

 

Estive recentemente em Castelo Branco. Cidade do interior sobre a qual tinha vaga e longínqua impressão não muito distante da Guarda onde a presidência da república foi já por duas vezes comemorar o dia de Portugal. Fui e gostei. A mesma luz raiana das cidades da estremadura o vagaroso tempo dolente estimulado pelo clima agreste e serenado por alamadas frondosas. À parte uns arremedos progressistas, fruto da mentalidade «autarquista» que nos anos 1980-90 semeou o país de mamarrachos, rotundas e vielas asfaltadas, Castelo Branco parece uma cidade congelada na década de 1970. Dir-se-ia que à primavera marcelista não houve verão quente da urbanização. E assim, dolente como o calor que se fazia sentir, percorri as ruas de uma cidade repartida entre o traçado medieval e a expressão de um vago progresso estado novista.


Mas o que realmente me chamou a atenção em Castelo Branco, para além do facto de ser a pátria do grande Amado Lusitano, foi um par de estruturas ligadas à arte. Nâo me refiro ao recém inaugurado Centro de Cultura Contemporânea (a designação é feliz, pois farta já a denominação museu) que se impõe mais como objecto do que como edifício. De resto, este tipo de empreendimento ganharia muto mais em assumir-se como obra de arte e menos como repositório da mesma. Note-se que nem cheguei a entrar naquela inusitada estrutura por lhe não encontrar a porta de acesso. Foi melhor assim. O que primeiro me chamou a atenção foi realmente o Museu Cargaleiro.


Oculto no velho traçado medievo o conjunto de espaços ocupados pelo museu acaba por impor-se como um dos locais a não perder na cidade. Sempre me fascinou a obra de Cargaleiro pela capacidade de criar a partir da cultura portuguesa, um género artístico legível fora das nossas portas. Desde sempre me deliciei com as estações de metro de Lisboa, onde a cor, palavras e as figuras de Manuel Cargaleiro entretêm na monotonia e no ramram da viagem mecânica.


Fui a Castelo Branco, sem pensar em Cargaleiro e isso perturbou-me à medida que percorria as salas do museu. Como é possível que nós portugueses, acorramos a Amsterdão, Paris, Madrid e Londres para apreciarmos grandes nomes internacionais e não sejamos capazes de propositadamente vencermos a interioridade nacional para procurarmos a obra de Cargaleiro? Aliás, como é possível que o Museu Nacional de Arte Antiga ceda à pressão de alugar parte do protagonismo do Prado num tempo em que uma viagem low cost Porto-Madrid ou Lisboa-Madrid custa menos que um bilhete de comboio e uma entrada na exposição e que, como museu nacional, não se preocupe em promover ou descobrir novos ou velhos talentos da arte portuguesa?


Esta distância entre o que temos e o quanto dependemos dos outros não é uma questão de orçamentos de estado, empréstimos externos ou servilismo partidário. É hábito.

 

E quando se fala na necessidade de criar riqueza, geralmente esquece-se que estamos a matar a galinha dos ovos de ouro: a criatividade. Não é por acaso que criar e criatividade têm a mesma raíz. Continuamos a recursar a capacidade de nos renovamos criativamente com o que temos, como o fizeram e fazem António Nobre, Forjaz Sampaio, António Variações, Carlos Paião, Agostinho da Silva, Paula Rêgo, João César Monteiro, João Botelho e outros tantos a quem o destino (fado) português rejeitou no imediato.


Renovar-se e recriar-se não é o mesmo que pintar galos de barcelos com os tons do arco-íris ou fazer esculturas com tachos de alumínio ou rendas de croché - isso não é recriação, nem talento, tão-só e apenas laivos de imaginação e oportunismo.


Reinventar a cultura portuguesa, para o que de resto já contribui em parte da nossa geração modernista é, em primeiro lugar, entendê-la, depois absorvê-la e finalmente apresentá-la numa leitura universal que nunca pode ser a-histórica. O nosso presente é o nosso passado e é impossível fugir-lhe.


Quando aprendermos a gostar de nós, pode ser que o novo Brasil ou esteja em Castelo Branco. Sem grandes discursos ou comendas. Infelizmente para isso não é só regime que precisa de mudar, são os homens que o gerem.

P.S. Terão reparado com certeza que tendo referido um par de estruturas, apenas me referi a uma, o Museu Cargaleiro. A outra é o belíssimo jardim do Paço Episcopal, sinal de tempos em que Portugal não tinha interior, nem litoral. Apenas centros culturais de gente com bom gosto e visão.

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publicado às 19:10






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