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Enquanto o pau vai e vem

por Nuno Ferreira, em 01.06.14

Seguro tenta provar que, enquanto o pau vai e vem, as costas folgam. Ainda não foi desta que conseguiu contrariar esta máxima, contudo, segundo as previsões mais fidedignas do seu futuro, continuam a escassear costas para tanto pau.

 

Seguro, arriscando não ir a jogo, jogou forte no Vimeiro com a promessa de primárias abertas a simpatizantes, bem como a apresentação, na Assembleia da República, de uma proposta de revisão do sistema eleitoral para as próximas legislativas, a introdução de incompatibilidades entre o exercício do mandato de deputado e cargos públicos, a introdução de círculos uninominais e a redução do plenário a 180 deputados (não concordo com esta última, pois diminui a representação do território e a representatividade parlamentar das minorias políticas). Fraco é o náufrago que nada faz, no pico da tempestade, para se manter à tona da água lusa, tentando surpreender aqueles que lhe tiraram todas as medidas para o caixão político. Aparentemente, estamos em presença de um Seguro novo, renascido das cinzas das duas vitórias eleitorais consecutivas, o que pode ajudar a aceitarmos como verdadeiro o dito que dá conta que o seguro morreu de velho, mas desgraçadamente os episódios da novela continuam a disfarçar as ilusões dos que ocupam, como eu, um lugar numa das bancadas da arena política.

 

Nestas ocasiões de patins em linha, é comum presentearem com gracejos e troças aqueles que cumpriram, bem ou mal, a sua missão. Os olhos, ainda assim, são os nossos melhores aliados na hora de nos defendermos de maltratos. É um facto. Não. Não temos olhos nas costas. A nossa natureza é demasiadamente humana. É bom não esquecer que nem todos os olhos, incluindo os mais rasgados, são um dado explicitamente confiável. É ali na transição entre o que deixamos ver e as imagens do observador que o bicho pega. E, em política, quando o bicho pega, o melhor é abrir alas ao senhor que se segue. Costa, sem grande surpresa, já disse que não vai recuar. Não é por nada, mas desconfio sempre que alguém ou um animal, ferido de morte, recua. O recuo, na maior parte das vezes, serve para ganhar balanço. No que toca a balanços desta natureza, a investida é sempre mais forte. Por isso, não vale a pena gastar muita cera com imagens de folgar as costas porque o pau foi-se. Na verdade, nem o pau se foi nem as costas estão ainda em condições de retornarem à sua posição cordata.

 

Imagino que Costa, a esta hora, tem, no cantinho da sala, um monte de cacos indefinidos resultante de tremendos esforços ininterruptos de interpretação sobre as propostas de Seguro no Vimeiro. O problema maior é a sua total ignorância nas artes de assalto ao poder, mas isso não o impede de manter uma postura de estado de inconsciência contemplativa (contemplativa em relação ao monte de cacos, evidentemente). Aparentemente, já não se sente, no ar, aquela ameaça assustadora de mais uma vitória de Pirro, e ainda bem. Tudo seria mais fácil se este não fosse o tempo de se ser, em termos absolutos, isto ou aquilo e, na semana seguinte, o seu exacto contrário. Mas, em política, o impossível não é definitivamente uma miragem.

 

Dizem que o andor, nestas coisas dos reajustamentos tóxicos na liderança partidária, nunca chega a sair verdadeiramente, pese embora os desembaraçados mordomos afirmem, através de parábolas, que o carregam folgadamente. Por muito que se esforce, Seguro não sente ainda o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. É bom que invente desculpas quando se aperceba da sua pequenez política em relação à grandiosa sombra mediática de Costa. E que o silêncio ruidoso o continue a abraçar, sem preliminares, convidando-o a piscar alternadamente, em especial nas selfies, os olhos ao sol. Não é seguramente mais imperfeito do que os outros. Os seus atributos, até ontem, eram descaradamente sedutores para afastarem os pensamentos que quebrassem o seu estado de imobilidade quase perfeita. Dar um passo estava fora de questão, não queria, legitimamente, ficar de repente longe do púlpito de cimento. Ainda assim, só os pombos o impediam de viver sem angústias.

 

Ainda tive, por questões de higiene pública, uma leve esperança de que as divergências intrapartidárias seriam, desta vez, resolvidas entre quatro paredes. Devia ser estritamente proibido servir a agonia política como prato principal. Os ciúmes secretos e os vícios impossíveis jamais poderiam alcançar a luz do dia. Resta-me a consolação de me manter suficientemente distante para levar a sério o que resta deste jogo. Nem sei se a táctica de desempenhar o papel de imbecil vai adiantar alguma coisa. É que agora faltam poucas ocasiões para proclamar, a cada mergulho no lamaçal, a especialidade em sumidade, mesmo que o prémio seja recolher vários nomes do extremo oriente da escala das palavras proibidas. Não basta, em tom de reconforto, convocar o facto de pertencer a uma família de lutadores, isso, efectivamente, não atenua os tremores e não é por se ser, à falta de melhor ditado, ferreiro que o espeto tem de continuar a ser desgraçadamente de pau.

 

Depois dos radares mais desalinhados terem detectado o fervilhar clandestino da máquina, falta apostar numa estratégia que abafe o som da tralha partidária que, sem decoro, nos avisa da sua passagem. No fundo, os actores principais não passam de braços. E como braços que são, só lhes é permitido ter pensamento impróprio. Gostava de estar redondamente enganado.

 

«Até o velho instinto da conservação cede ao novo instinto da notoriedade: e existe tal manganão, que ante um funeral convertido em apoteose pela abundância das coroas, dos coches e dos prantos oratórios, lambe os beiços, pensativo, e deseja ser o morto» [Eça: A Correspondência de Fradique Mendes - Carta a Bento S.].

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publicado às 13:12

Num tempo de relações [...]

por Nuno Ferreira, em 29.05.14

[...] sociais caracterizadas pela necessidade forte de libertação do cansaço dos contactos episódicos e superficiais, é com algum distanciado interesse que assisto aos episódios de faca e alguidar da mais recente novela do Largo do Rato. O argumentista ainda não revelou o final, e ainda bem. Contudo, já deu para perceber que a vindima ainda mal começou, mas alguns já começaram, aqui e ali, a lavar os cestos. No fundo, não o do cesto, os mensageiros, de ambos os lados da contenda, tratam agora do arejamento do terreno que receberá, a breve trecho, a semente de uma velha esperança. Não estranho, pois, que comecem a limpar os canais comunicantes, desviando o curso dos acontecimentos em benefício próprio e, como não poderia deixar de ser, impróprio para consumo. Nunca ofereci grande resistência à tese que diz: a fertilidade do campo da ilusão, em termos absolutos, é directamente desproporcional à distância em relação aos actos eleitorais.

 

Depois das eleições, como temos assistido, a versão de Seguro e de Costa, e do seu exacto contrário, é outra. Já todos tomámos consciência, espero eu, de que a inteligência, em recessão política, é impagável. Ainda não sabemos se Seguro vai estender a mão a quem lhe pôs orelhas de burro e o mandou, para um cantinho da sala, resolver problemas de soma zero. Já todos sabemos quanto vale, em votos, Seguro. E uma garantia do governo, também! O grau de ruído da maioria silenciosa também já foi medido no Domingo. Agora, não me digam que não há razões suficientes para que um dos Antónios se deixe assaltar tranquilamente pelo sentimento detestável de desobediência à consciência, aquela que, segundo Fernando Pessoa, se transforma, sem alaridos, em prodígio da inconsciência. O que lhes vale é serem optimistas.

 

Em todas as novelas há casamentos, com passarinhos a cantar melodias, úteis para arrefecer o ímpeto de acordar. Mesmo assim, acredito que, mais cedo ou mais tarde, o argumentista revelará, sem grande esforço, os erros possíveis de confessar. Acho mesmo que, desta vez, invocará desculpas, por esfarrapar, de forma a não satisfazer aqueles que fazem veniazonas e juras de amor cego, deixando escapar, uma e outra vez, a hora do seu encontro com as meias verdades da política. Começa a ser evidente que Portugal são eles. Sim, eles, os que julgam não existir espaço social nem fosso entre a imagem cândida (quase celeste) das métricas políticas e o comportamento real dos que ainda têm carne e osso. Não é de agora, mas inclinam-se sempre, para apanhar balanço, de encontro ao pendor mais favorável em relação à atitude de não forjar mentalidades, acotovelando os seus pares com o objectivo de se fazer notar no ritual do beija-mão.

 

O que eu gostava mesmo era de saber como se chama aquela coisa que faz correrias, sem se abafar, entre os pólos da identidade real - aquela que é reconhecida depois de subtraído o desinteresse e adicionado o reconhecimento - e a identidade virtual, aquela que reivindicamos, embora possa, aos olhos dos outros, não passar mais do que uma reles cópia de antigas novelas.

 

Bem, por hoje basta. Vou ali, antes que a noite pinte totalmente o dia, provar, por videoconferência, que o António, enquanto António, segundo a lógica da batata, mantém acesa a esperança que, embora morto, vive. E o outro António, o António que não aqueceu o lugar e não levou com o olho do furacão em cima, acordou, sem beijo, a Bela Adormecida que temos, uns mais que outros, dentro de nós.

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publicado às 20:36

Esta tara de [...]

por Nuno Ferreira, em 27.05.14

[...] tentar encontrar lógicas de acção em tudo é sempre, pelo menos para mim, muito divertida. Gosto em particular de descobrir as tácticas de influência dos vendedores. Começam, quase sempre, por usar a táctica da persuasão racional, tentando convencer-nos, através de argumentos lógicos e evidências factuais, que aquilo que vendem é o melhor que o mercado algum dia produziu. Evidentemente, coloco as minhas questões, acrescentando meticulosamente mais uma camada de dados sobre os factos cardapiamente apresentados. Lanço, por outras palavras, alguns seixos rolados, de tamanho médio, para a engrenagem. Perante tal cenário de guerra argumentativa, o vendedor, depois de dar um passo atrás para ganhar balanço, lança-se a mim com a táctica do elogio, isto é, opta por expressa-se favoravelmente antes de lhe perguntar o que quer que seja. Silencio-me e aguardo pela próxima investida. Ainda com algumas pinceladas da táctica de persuasão racional, o gelo é quebrado com a aposta numa espécie de táctica, mais implícita que explícita, de troca de favores e recompensas, tentando coligar-se a mim quando decidi usar ingenuamente o argumento: "Antes de tomar alguma decisão, vou consultar o agregado familiar". Aqui, o vendedor abre completamente o jogo e "ensina-me", tintim por tintim, a melhor maneira de persuadir o dito, ou seja, fez de mim o seu representante legítimo, confiando, aparentemente, na minha capacidade de defender uma fantástica proposta. Mas não é tudo, deixou o seu contacto e quer, usando a táctica de consulta, participar, à distância, na tomada de decisão. Termina com um último conselho que, segundo ele, costuma resultar, o uso da táctica emocional que consiste no envolvimento entusiástico através do apelo a valores como o da poupança. Não vou, obviamente, dar o meu melhor.

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publicado às 20:14

Nas eleições de Domingo participaram 33,91% dos 9 677 954 convocados, contabilizaram-se 144 832 (4,41%) votos em branco e 100 484 (3,06%) votos nulos. A grande maioria, 6 396 410 (66,09%), não votou, contribuindo, assim, para a maior abstenção desde que há democracia em Portugal. Há a registar ainda o facto de que 26,44% dos convocados terem votado em partidos [10,66% (1 032 143) no PS, 9,40% (909 283) na AP, 4,30% (416 102) na CDU, 2,42% (234 516) no MPT, 1,55% (149 546) no BE e 1,89% em outros partidos] e a soma de votos em branco com os votos nulos representar, à data, 7,47% (145 316), isto quer dizer que, para além de ser a quarta força “mais votada”, apenas 1,5% dos portugueses manifestou na urna o seu descontentamento em relação à oferta democrática oriunda dos partidos. É claro que não corroboro com a leitura que dá conta que toda a abstenção (66,09%) é fruto da indiferença pura e dura face ao desenrolar dos acontecimentos aqui e na Europa, haverá, sem dúvida, nesse número redondo uma percentagem de portugueses que demonstrou a sua indignação não votando.  

 

Quem não votou, ou quem votou em branco ou nulo (73,56% dos portugueses) não quis com isso mandar, além de outras, àquela parte a classe política? Não quis com isso dizer que as máquinas partidárias montadas esgotam-se no processo de endeusamento do líder e na gestão eleitoral dos acontecimentos, com vista à conquista ou à conservação do poder legislativo e governativo? Não quis dizer com isso que de representantes livres do Povo eleitor, os deputados nacionais passam a delegados políticos do partido e subordinados a um mandato imperativo desse partido? Não quis com isso dizer que está farto das ameaças à separação de poderes? Não quis dizer com isso que está pelos cabelos com a tentação de controlo da Comunicação Social e da gestão do clientelismo da Administração Pública e, consequentemente, a extensão desta à Sociedade Civil? Não quis dizer com isso que urge fazer avançar a democracia em todas as suas facetas e dimensões? Não quis dizer com isso que é urgente conferir um carácter ético e educativo à participação democrática, faltando apostar seriamente na melhoria da qualidade da oferta de candidatos em que os eleitores possam depositar toda a sua confiança? Não sei se estamos condenados à liberdade ou se as regras que mobilizamos na nossa acção/inacção individual são ou não princípios universais, o que é certo é que decidir não decidir é também - a par de decidir, negar ou afirmar outra decisão - uma forma de decisão. Há sempre bons e maus motivos para decidir e para não decidir, mas ninguém decide, bem ou mal, por nós. Há quem, ainda assim, se queixe sempre das circunstâncias para decidir não decidir, mas, de facto, até ver, a realidade despida de circunstâncias não existe! E as circunstâncias são mais claras hoje. A falta de legitimidade do regime vai ganhando corpo.

 

Estou curioso por saber como reagirá o sistema. Será que levará a bom porto a ideia de que a abstenção combate-se com o voto obrigatório, como acontece em apenas 24 países (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai, República Democrática do Congo, Egipto, Grécia, Líbano, Líbia, Nauru, Tailândia, Bélgica, Austrália, Luxemburgo e Singapura)?  Antes de pensarmos em colocar a carroça da obrigatoriedade do voto à frente dos bois, há que mudar as regras do jogo democrático (leis eleitorais, entenda-se) e criar um meio concorrencial aos partidos que os obrigue a fazer coincidir, internamente, a retórica democrática com a acção, bem como desdobrar-se em esforços para melhorar a qualidade da sua oferta. Com a actual lei eleitoral, não há consequências efectivas para os votos em branco e votos nulos, isto é, o desagrado do votante em relação à oferta democrática não é oficialmente tido nem achado. Até fecharia os olhos ao voto obrigatório só para ver até que ponto a abstenção se transformaria em votos em branco e nulos. Com suficiente honestidade intelectual se conclui que é necessário mudar a lei eleitoral, de forma a incorporar um sistema de listas abertas que permita votar também em pessoas. O deputado nacional, com a lei actual, deve responsabilidades a quem o ordenou na lista, normalmente um grupo constituído por cinco ou seis pessoas, todavia não foi o nosso voto que o ordenou. É triste, mas não votamos em pessoas, e elas, como é óbvio, não sentem responsabilidade alguma perante o eleitorado. Este sistema eleitoral não permite impedir que determinado candidato mal-amado seja eleito, em especial aquele candidato mal-amado que surge nos primeiros lugares da lista. Não é difícil de imaginar como é uma missão impossível, com a actual lei eleitoral, impedir que seja eleito um Palito, ou afim, que apareça como cabeça de lista pelo círculo eleitoral de Alguidares de Baixo. E se queremos votar no último da lista por merecer a nossa confiança, não nos deixam. Há ainda outra coisita que não compreendo muito bem. De facto, um independente não pode ser, como tal, candidato às eleições legislativas, tem de entrar obrigatoriamente no parlamento com a bênção partidária, contudo, paradoxalmente, pode gozar plenamente desse estatuto no exercício do seu mandato, rompendo, por exemplo, com a disciplina de voto parlamentar.

 

Num cenário de défice de legitimidade, vou estar muito atento às reacções no tubo de ensaio democrático, em especial à forma como os partidos irão organizar, desta vez, a hipocrisia. Tenho para mim que fraca é a organização/instituição que não responde favoravelmente a esta ou aquela demanda sem colocar em causa, mesmo quando a coruja dorme, a sua legitimidade. E quando, por razões clientelares, a pressão está ao rubro ou há um défice de legitimidade, então o discurso oficial costuma sofrer um apertado controlo. Veremos. Porém, já deu para perceber que a falta de espelhos e a abundância de inconsistências não é o contexto perfeito na hora de reforçar a legitimidade e procurar obter recursos e apoio onde os há.

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publicado às 18:41

É fruta do tempo tentar ver […]

por Nuno Ferreira, em 20.05.14

 

[…] a tal luz ao fundo do túnel, por isso obrigo-me a inúmeras leituras, incluindo aquelas que me passam - parágrafo sim, parágrafo não - rasteiras. É sempre bom fazer o exercício de apropriação de matérias que, à partida, não nos seduzem, como a economia, salvo erro. Ele há coisa pior que ser acusado de não compreender as vicissitudes da pós-crise por falta de conhecimentos básicos em economia? Não. Isto é, de facto, pior do que falecer. Até hoje, julgava que o ocultismo era o meu forte. Pronto, confessei. Mas, estou sempre a tempo de me impedirem de cair, uma e outra vez, no engano, e ainda bem. Já deu para perceber que, na sociedade em que morremos, continuam a persistir actividades (in)conscientes – como, por exemplo, não perceber nada de economia avançada - que não casam com os critérios de asseio que alguns economistas, em especial os do economês, vendem, como se de sopa para pobres de espírito se tratasse, na praça pública. Não precisei, até agora, de espreitar por de  trás da fachada, supostamente impoluta, para concluir que há ingredientes excessivamente utilizados no caldo comentarista diário. A economia é um deles, chega a ser enjoativo reduzir a realidade a este denominador incomum (para mim, evidentemente). Não se cansam de dizer que a economia é tudo, e por ser tudo, só lhe resta o calvário de percorrer, com os mordomos do economês à ilharga, a trajectória ascendente do nada (do meu, obviamente).

 

Há algum tempo atrás, estive tentado a dar meia volta e circular em sentido contrário, convidando-me a abandonar o país. De facto, depressa percebi que, se continuasse por cá, teria de acomodar o meu olhar à escassa iluminação e à falta de horizonte(s). Não me fiz, à falta de melhor opinião, favor nenhum. Tanto mais que o regime vai arrumando as suas pedras no xadrez, não demonstrando, até ver, uma patética e irremediável falta de talento. Ainda assim, tento afastar tudo o que corrói os sentidos e agiganto-me da forma mais paralítica que consigo. Não recuso, momento antes de chegar além do infinito, a vontade infatigável que me tornará cego e surdo perante as métricas algorítmicas do teatro político e do crescimento desalmado do PIB. É claro que amiúde sinto o ar de estatueta descer-me à face, e, nesses empedernidos momentos, não faço a mínima ideia que ombro escolher para encostar o meu quebradiço rosto. Quase que me transformo, para mim próprio, na pior pessoa que posso imaginar. Com algum esforço lá consigo, finalmente, alienar-me de mim e projectar o meu olhar para nenhures. Até já pensei em selecionar as lágrimas mais vistosas e as palavras que melhor casam com a técnica do desentendimento, procurando a condescendência maternal que os olhos dos meus colegas de ofício deixam, através do canto olho, fugir.

 

Dou muita importância à economia, em especial à do sonho. De facto, não sou de revelar os meus sonhos, mas hoje, só por ser hoje, abro uma excepção. Na noite que passou, consegui juntar, coisa fácil nestes dias, os moralistas protestantes Mandeville, Smith e Quesnay e os comunitaristas Hobbes, Locke e Rousseau. Mandeville abriu as hostilidades com a fábula das abelhas, gerando um zumzum tal, que obrigou o homem da mão invisível a defender a tese de que o homem não é um insecto, mas sim egoísta por natureza, que a sociedade é um grande mercado e que o papel do Estado deve limitar-se à protecção do espaço público onde decorre o jogo do mercado. Quesnay parecia encontrar-se numa outra dimensão, pois só conseguia dizer duas palavras ligadas por um tracinho: Laissez-faire. Hobbes foi o primeiro a abandonar o meu sonho, o seu discurso autoritário sobre o contrato social recebeu inúmeros apupos. Por sua vez, o contratualista Locke foi corrido ao pontapé logo que tentou misturar democracia com oligarquia-liberal. Rousseau, depois de encostado à parede pelos gorilas de serviço, lá confessou o que o anjo lhe disse num dos seus sonhos de menino: vai e faz um contrato social, mas não te esqueças, em momento algum, que o contrato deve assentar na participação igualitária. Abriram a porta e expulsaram também Rousseau do meu sonho. Dizem, as boas línguas, que foi do confronto entre os moralistas e os comunitaristas que nasceu o primado da economia sobre a política. A economia passou a controlar a ordem social e a ordem política, de forma a não constituírem obstáculos à liberdade da economia. Ao longe, não muito longe, já se ouviam os passos pesados de Bastiat, Spencer, Hayek, Friedman e Nozick, defensores do estado microscópico e amigos de Mandeville. Smith sabia que brevemente chegariam os seus moderados amigos Turgot, Condorcet, Constant, Jeferson e De Tocqueville, úteis para o ajudarem a defender a ideia de que o estado deve prover as necessidades da sociedade, caso o jogo do mercado não satisfaça em algum domínio social. Não posso confirmar, mas julgo ter visto o fantasma de Gaspar – ou tudo o que ele representa - a pairar, tentando explicar a quebra das receitas através da técnica do híper-empirismo reactivo: à soma de factos, subtraía qualquer insuspeita interpretação, resultando, em vez da soma positiva, a nula que, pé ante pé, ia desconstruindo a verdade dos outros através da sua. Os desconstruídos, finalmente, perceberam o quanto serviram de parcelas na sua equação elevada à enésima impotência. Aconselhei-o, salvo erro, a estudar afincadamente as técnicas da camuflagem, úteis para a idealização, mas completamente inúteis para uma cicatrização bem-sucedida. Se não me engano, também lhe disse para deixar, após arrombar o cofre das suas superstições, de vigiar, da sua torre, através de binóculos, aqueles que são obrigados a esconder voluntariamente os seus pensamentos mais radiculares. Como diria o outro, não um outro qualquer, "saber dormir [sonhar] não é pequena arte; é necessário estar desperto todo um dia para o conseguir" (FN).

 

Fico-me por aqui. Em nota de rodapé, gostava ainda de acrescentar que quem comunica, no limite, terá sempre uma espécie de direito tácito de negar que quisesse transmitir alguma coisa para além do que escreveu; da mesma forma, o leitor pode atirar à cara do comunicador a fatídica acusação de ter transmitido, através das suas entrelinhas, algo completamente inaceitável. O contrário também é verdade, o leitor tem o direito tácito de não reagir aos sinais do comunicador, como resultado da aplicação da estratégia do assobiar-para-o-lado, neutralizando, através do silêncio, tudo o que acabou de ler.

 

Bem, eu sou o Nuno e este é o meu primeiro “post” aqui no Estado Sentido. Obrigado, Samuel, pelo convite.

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publicado às 19:55






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