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Entrevista a Samuel de Paiva Pires (não editada)

por Francisco Costa, em 19.01.13

No seguimento do Ateliê de Imprensa que estou a frequentar no CENJOR (Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas), aproveitando o módulo destinado à entrevista, decidi conversar com o Samuel tendo como finalidade trocar algumas impressões acerca de todo o processo que nestes últimos dias o próprio decidiu partilhar. Falo, claro está, da denúncia pública de como é gasto - distribuído - o dinheiro público.

 

Apesar da amizade que nos une, a imparcialidade das perguntas foi algo que desde logo orientou o meu pensamento quando escrevi o guião da entrevista. Tentei focar o máximo de aspectos que possam ser relacionados com a denúncia efectuada, assim como procurei descobrir se esta situação não se trataria de um capricho ou ajuste de contas do Samuel apenas por não lhe ter sido atribuída a bolsa. As respostas são bem elucidativas de que este não é o caso, de modo que é bastante fácil estabelecer a separação homem/causa.

 

Posto isto, por agora deixo aqui a entrevista por extenso, não editada, com a promessa de um novo post com a sua versão final. Acima de tudo, a situação deve ser partilhada e este trabalho não é mais do que a confirmação de que o assunto merece honras de investigação jornalística.

 

 

 

Entrada. Mestre em Ciência Política, concluído em 2011 após a licenciatura em Relações Internacionais, desde muito cedo que Samuel de Paiva Pires acalenta o desejo de enveredar por uma carreira académica. A pretensão de efectuar o doutoramento no estrangeiro, que obriga a um avultado investimento financeiro, levou-o a candidatar-se a uma Bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Percorreu o trilho da burocracia três vezes. Três vezes esbarrou na resposta negativa. Perante as suspeitas de favorecimentos e discriminação de alguns candidatos, considera que estes equívocos podem gerar mais casos de má gestão de dinheiros públicos.

 

 

Samuel, o seu historial de candidaturas a bolsas da FCT é já algo extenso. Vai na sua terceira candidatura e viu novamente as suas intenções goradas...

 

“Quem espera sempre alcança”, “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, “a esperança é a última coisa a morrer”, são apenas alguns ditados populares que facilmente ilustram o estado de espírito de alguém que sempre fez da persistência uma virtude cardinal, acreditando na verdade do ensinamento de que nos tornamos naquilo com que sonhamos e na ideia de que é sempre possível melhorarmos individualmente. Se é verdade que na primeira candidatura ainda não reuniria os requisitos suficientes para me ser concedida a bolsa, não deixa também de ser verdade que ao longo de 3 anos realizei um percurso no sentido de reunir precisamente estes requisitos, pensando que à terceira seria de vez, conquanto a avaliação das candidaturas decorresse de forma imparcial e justa. Mas se até mesmo os santos perdem a paciência, quanto mais um comum mortal que se vê recorrentemente prejudicado no acesso a fundos públicos para o desenvolvimento educacional e científico distribuídos por quem, infelizmente, montou e/ou faz parte de uma rede neo-feudal subsidiocrática que nem mesmo em face de uma conjuntura de degenerescência e descrédito das instituições públicas deixa de se considerar na posição de lamber os restos em favor de certos e determinados feudos, revelando à saciedade como aqui e agora ainda faz escola o velhinho princípio de que “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não sabe da arte”.

 

 

Que aspectos devem, na sua opinião, ser colocados em evidência quando refere que há suspeitas de favorecimento de uns candidatos em detrimento de outros?

 

Desde logo o facto, que já não é novo e é até bastante conhecido no meio académico lusitano, de que existe um claro favorecimentos de candidatos que tenham estudado ou pretendam estudar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa ou no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e simultaneamente uma discriminação sistemática dos estudantes do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, que tem sido apenas contrariada por muito poucos casos. No ano de 2011, estes mesmos factos levaram a que eu tivesse sido contactado por professores e deputados no sentido de providenciar elementos quanto ao meu caso e ajudasse a reunir informação relativamente a outros casos, que seriam utilizados para confrontar o Presidente da FCT numa audiência na Assembleia da República. Esta audiência não chegou a acontecer. Entre os factos mais comuns nas candidaturas dos vários candidatos do ISCSP, é de destacar a persistência de erros de cariz administrativo grosseiros que acabam por prejudicar os candidatos, como por exemplo, não ser atribuída a pontuação devida pelo candidato fazer parte de um centro de estudos, ou não ser considerado o facto de o candidato ter várias comunicações e publicações ou ainda o não ser tida em consideração a conclusão do mestrado. Por outro lado, não é despiciendo referir que, este ano, em 12 bolsas atribuídas, 9 foram para candidatos da FCSH. Há, no mínimo, suspeitas que consubstanciam a necessidade de uma averiguação ou inquérito por quem de direito.

 

 

Denuncia esta situação mas confessa, na nota que deixou no blog Estado Sentido (http://estadosentido.blogs.sapo.pt/) que, apesar das suspeitas de favorecimento, não recorreu da decisão e não pretende avançar para tribunal. O que o leva a tomar esta decisão?

 

Para além da reclamação que enviei ao cuidado do Presidente da FCT, que se encontra a aguardar resposta há já dois meses, a decisão era ainda passível de recurso no sistema informático da FCT, através de um processo burocrático que se divide em duas fases, uma primeira, a Audiência Prévia, em que são analisadas queixas quanto a erros administrativos, e uma segunda, o Recurso, em que são analisadas questões científicas. Acontece que é necessário apresentar uma reclamação na primeira, mesmo que não se tenha qualquer queixa quanto a questões administrativas, para poder depois apresentar o recurso. Não só isto me parece não fazer grande sentido, como o facto de se ter tornado insustentável permanecer em Inglaterra, tendo que desistir do doutoramento, tornou irrelevante o recurso, embora não deixe de reclamar e denunciar a situação. Ademais, o facto de ainda nem terem sido comunicados os resultados da Audiência Prévia, não havendo sequer uma previsão de prazos para tal por parte da FCT, é ilustrativo quanto baste de como este processo kafkiano potencia o desespero de qualquer reclamante. Quanto a recorrer a tribunais, tal como escrevi no texto da denúncia, não só já não acredito na justiça portuguesa como não pretendo enveredar por uma batalha perdida à partida e que me faria despender imensos recursos (tempo, dinheiro e disponibilidade mental).

 

 

Sente que pode ser acusado de estar a levantar falsas suspeitas apenas por ter visto o seu pedido de bolsa rejeitado três vezes e, dessa forma, sentir-se injustiçado com os factores de avaliação?

 

Não, não sinto que possa ser acusado de levantar falsas suspeitas, até porque como já referi, estes factos e casos idênticos são mais que conhecidos e comentados no meio académico português. O problema é que o sentimento de impunidade de uns quantos e o silêncio dos demais que compactuam com esta paz podre banalizaram esta distribuição indevida de dinheiros públicos na área da investigação científica. Quanto aos factores de avaliação, estou em crer que até são adequados, mas enquanto o Mérito do Candidato e as Condições de Acolhimento são factores objectivos, o Mérito do Projecto é um factor subjectivo que permite a manipulação a que fui sujeito.

 

 

Afirma que os critérios se adequam aos méritos dos candidatos, mas que outros aspectos poderiam ser escrutinados na atribuição de bolsas?

 

Como referi na resposta anterior, creio que os critérios são adequados. Só não são é muitas vezes cumpridos, quer quanto aos factores objectivos – quando ocorrem erros administrativos grosseiros – quer quanto aos subjectivos, sujeitos a uma manipulação que pura e simplesmente não é fiscalizada. Por outro lado, creio que os resultados deveriam ser públicos (apenas quem se candidate a um concurso consegue aceder à lista de candidatos e respectivas pontuações finais), bem como os projectos submetidos pelos respectivos candidatos. Seria talvez o bastante para diminuir o tal sentimento de impunidade por parte dos avaliadores, que mencionei na resposta anterior.

 

 

Quando declara ter sido adulterada a atribuição de dinheiros públicos, não considera estar a ser demasiado tendencioso ao afirmar que neste ano ser-lhe-ia atribuída uma bolsa, 'conquanto a avaliação decorresse de forma imparcial e justa'?

 

A experiência decorrente das candidaturas anteriores, que me fez reforçar a candidatura deste ano nos pontos em que anteriormente havia tido classificações mais reduzidas, bem como a noção clara de que o projecto que submeti este ano é qualitativamente muito superior, a todos os níveis, ao submetido anteriormente, levaram-me a crer que me seria atribuída a bolsa, e fizeram-me acreditar que, agora que sabia que teria a pontuação máxima nos factores objectivos, a FCT não seria capaz de algo tão escandaloso como prejudicar-me deliberadamente na pontuação atribuída ao projecto. A verdade é que o fizeram. Confesso que fui demasiado ingénuo ao acreditar que a FCT agiria, finalmente, de forma correcta, e não como a instituição que na academia portuguesa é conhecida por ser uma prepotente rede de interesses instalados com contornos que só agora começam a ser revelados na praça pública.

 

 

Que razões o levam a assumir declaradamente que o último dos seus projectos é, passo a citar, 'de longe muito melhor' do que qualquer um dos anteriores?

 

Conforme escrevi no blog e na carta enviada ao Presidente da FCT, o primeiro projecto, que obteve as classificações de 4,1 e 3,8 nas candidaturas de 2010 e 2011 respectivamente, foi elaborado entre 2008 e 2009, quando ainda estava a finalizar a licenciatura. Embora tenha tido qualidade suficiente para me garantir a entrada em várias universidades britânicas, tendo eu optado pela de Durham, não tem a qualidade do projecto que submeti este ano, e que a minha orientadora em Durham também considera ter uma qualidade superior – tendo esta escrito ao Presidente da FCT precisamente neste sentido. Este novo projecto foi escrito no início do ano de 2012, já depois de ter terminado o mestrado, que muito contribuiu para o amadurecimento intelectual que originou este projecto, que decorre das leituras que fiz para a dissertação de mestrado e de uma parte desta. Devo também referir que o novo projecto foi alvo de contribuições e revisões de vários professores de referência da Ciência Política em Portugal, desde logo o Professor José Adelino Maltez, meu orientador da dissertação de mestrado e também orientador em Portugal do meu projecto de doutoramento. Os dois projectos estão disponíveis online, com os links no texto publicado no blog. Mesmo qualquer pessoa que não seja da área da Ciência Política consegue comparar os dois projectos e perceber como o segundo é muito melhor que o primeiro. E só para finalizar a resposta a esta questão, permita-me terminá-la com duas perguntas: i) que sentido faz que no Mérito do Candidato eu tenha melhorado a pontuação ao longo das 3 candidaturas, atingindo a classificação máxima nesta candidatura de 2012 (5 valores), mas tenha piorado na classificação do projecto, e ii) não será estranho que me tenha sido atribuída uma classificação tão penalizadora, de 2 valores, no novo projecto, o que significaria que este teria uma qualidade medíocre, quando se tivesse a pontuação de 3 valores já me seria atribuída a bolsa, sendo ainda de salientar que dados os próprios critérios objectivos da FCT no que diz respeito aos outros dois factores (Mérito do Candidato e Condições do Acolhimento), não tinham como não me dar classificação máxima nestes, pelo que restava apenas manipular a classificação do projecto para me prejudicar?

 

 

A concluir, apesar de não ter, para já, intenções neste processo para além da denúncia, que impacto espera que esta declaração pública assuma?

 

Em O Homem Revoltado, Albert Camus escreveu que “um rebelde é um homem que diz não”, que se revolta contra uma situação que não pode mais suportar, assinalando que a revolta surge do espectáculo do irracional a par com uma condição injusta e incompreensível. E escreve ainda o autor francês que embora um acto de revolta tenha normalmente uma origem individualista, mina a própria concepção individual, porquanto um indivíduo está disposto a sacrificar-se por um bem comum que não lhe diz apenas respeito a ele, mas também à humanidade ou pelo menos, acrescento eu, à comunidade de que faz parte. Como português que quer contribuir para que Portugal possa ter um ambiente mais respirável, acredito que temos que fazer retornar ao centro do nosso contrato social uma há muito perdida noção de justiça, embora creia que isto não se faz de um dia para o outro, mas sim com pequenos actos, que podemos praticar diariamente. Basta que passemos a dizer não, que deixemos de compactuar com a paz podre da mediocridade, da corrupção e da falta de transparência, e que passemos a fiscalizar mais e melhor as instituições públicas. Basta, talvez, e para finalizar, que percebamos o que La Boétie nos transmitiu no seu Discurso sobre a servidão voluntária – que não há que ter medo –, inspirado no qual o Professor José Adelino Maltez ensina que “Na “servitude volontaire” o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá.” 17.01

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publicado às 15:26

Da farsa de Inês Pereira, a Política e o Poder

por Francisco Costa, em 06.12.12
“Mais quero asno que me carregue que cavalo que me derrube”. Assim escreveu Gil Vicente, provocado por quem duvidava das suas qualidades de autor de tão cáusticos autos. Intemporal, permanece hoje esta valiosa lição, uma resposta curta e sintética para definir as figuras que lideram o nosso país, que tentam toldar pensamentos e são barreiras ao progresso, em função do poder que têm em mãos. Que lhes caiu em mãos.

O poder - o seu exercício e os seus limites - constitui a essência da política. E o Estado é a personificação máxima do poder. Tenho isto como dado adquirido. Nele podemos encontrar a suprema acumulação de recursos: o monopólio da força, o dinheiro público, a capacidade para estabelecer as regras do jogo, a faculdade de conceder postos e poderes subalternos, extensas redes para mudar opiniões e crenças, e o apoio de grandes organizações como o exército, o sistema educativo, as finanças públicas ou até mesmo a burocracia. Poderes esses que são encarados como recursos que estão à disposição dos governantes, ao lado de fortes sistemas de legitimação que levam à obediência (ou assim se espera). Pode o meu raciocínio estar errado, mas nesta ordem de ideias é lógico que uma tal concentração de poder desperte todo o tipo de cobiças e medos. A definição de figuras de poder – soberano, governante - e figuras de subordinação – súbditos, cidadãos – converte-se, mais do que num debate de Filosofia prática, num combate de vida ou morte.

Como era de esperar, ao falar de poder e sentimentos adjacentes, apareceu uma peculiar figura de poder: o líder. Nem todas as pessoas têm capacidade de liderar. O conceito de líder não corresponde simplesmente à pessoa que detém o poder. Tem de possuir, além disso, uma especial capacidade de mobilização emocional. Como definido por Goleman, «a liderança tem que ver com a gestão das emoções». E atendendo a esta conjugação de emoções, costumam descrever-se vários tipo de liderança. O tipo visionário, que será sempre mais mobilizador, o «vendedor de esperanças» que Napoleão apregoava; o organizador, capaz de estabelecer as linhas de orientação segundo o aproveitamento dos recursos; o democrático e afiliativo, capaz de agregar ideias, limar arestas e ser o ponto de encontro de todos os outros elementos; e ainda o autoritário, que decide rápida e incisivamente, extremamente necessário quando, em situações críticas, tem de ser eliminar o receio e a incerteza. Escusado será dizer que tão forte e bem sucedido é o líder quanto maior é a capacidade para utilizar, com sabedoria, todos os estilos, porque cada um é necessário no momento próprio. Pode fazer falta ser democrático antes de decidir, e autoritário no modo de impor o cumprimento de uma decisão tomada.

As chamadas «teorias situacionistas» da liderança insistem neste ponto: cada situação requer uma liderança adequada. E eu insisto igualmente: Passos Coelho e Cavaco Silva não se adequam nem ao perfil de líderes, muito menos se adequam a tão delicada situação. São fracos, vulneráveis, desamparados que nunca se converterão em dominantes. Os verdadeiros cavalos de Inês Pereira, demasiado pretensiosos para encarnarem o papel de asnos e carregarem os destinos do país por outros caminhos. São e serão sempre farsas.

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publicado às 11:59

O País de Ricardo Araújo Pereira

por Francisco Costa, em 11.10.12

Quando, pela manhã, saio de casa com o meu tempo totalmente cronometrado, há apenas dois dados que posso tomar como adquiridos: a certeza de que o autocarro que me interessa apanhar é o 738 com destino à Quinta de Barros e que o rádio do transporte público vai estar sintonizado na Rádio Comercial, porque a religião assim o obriga. Confuso estará o leitor que tem por hábito ouvir a missa na sinfonia ambulante, mas não tema pelos seus pecados, a emissora católica nacional continua a ser a Renascença. Falo de um novo tipo de devoção, a devoção que por estes dias se presta em Portugal a um dos cérebros por excelência do escárnio e comentário jocoso: Ricardo Araújo Pereira.

 

Com maior ou menor pontualidade, quinze minutos depois das oito é a hora a que os fiéis seguidores se preparam para ouvir a “Mixórdia de Temáticas”. Em colaboração com os colegas de estação, Araújo Pereira disserta, inventa, cria e recria situações que afectam o quotidiano dos portugueses. A forma leviana como as aborda leva a que, uma hora depois e posteriormente cerca das sete da tarde, a repetição das peripécias sejam já um dos assuntos mais badalados e discutidos do dia, servindo inúmeras vezes como argumento para aliviar alguma tensão ou como mera forma de gerar o riso entre um grupo de pessoas.

 

O riso, principalmente, mas não só – igualmente o consenso. Não há neste momento, em Portugal, quem não saiba quem é Ricardo Araújo Pereira e, por conseguinte, se torne seu fã, siga a sua lavoura e reproduza as suas opiniões. O que se torna uma tarefa bastante fácil, atendendo a que o seu trabalho se estende a outras áreas, como a escrita (crónica “Boca do Inferno”, na Revista Visão) ou a diversas aparições televisivas, tanto em anúncios publicitários como pelos inúmeros convites que lhe são endereçados dos mais variados programas de comentário e opinião.

 

A sua presença é uma constante. Trabalho não lhe falta. E, há que assumir, ao mesmo ele parece não se negar. É necessária uma grande dose de inspiração, criatividade e muito esforço para conseguir acudir a tantos altares. De forma involuntária, assumo, Ricardo Araújo Pereira é hoje um dos símbolos críticos mais consensuais do nosso país, capaz de se fazer entender em todas as classes sociais e ganhando um peso considerável na formulação da chamada «opinião pública», sendo um dos poucos que torna caduca a expressão «mais vale cair em graça do que ser engraçado» por conseguir açambarcar ambas as qualidades.

 

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publicado às 22:57

Estamos entregues

por Francisco Costa, em 30.09.12

Quando, a 7 de Setembro, Passos Coelho decidiu apresentar novas medidas de austeridade meia-hora antes do jogo da selecção nacional, o Samuel, adaptando uma célebre interrogação de Salazar sobre os diplomatas e o Minitério dos Negócios Estrangeiros, questionou se eles iriam para Primeiro-Ministro porque são assim ou se são assim porque vão para Primeiro-Ministro. Pasmado fico hoje com o facto de ter de reformular esta questão. Não nos podemos cingir apenas ao primeiro-ministro quando toda uma corja discorre constantemente um chorrilho de disparates, arrogâncias e devaneios de bradar aos céus.

 

Mais no Facebook do que aqui no blog, mas sobretudo em conversas com os meus colegas, tenho-me limitado a dar a minha opinião sobre as variadas temáticas do quotidiano político, social e económico do país, mas sempre sem forçar uma posição, sem me tornar intransigente. Porque só os casmurros não mudam de opinião, é um facto, mas sobretudo porque o que hoje é verdade não é amanhã que será mentira – já ontem o era. A informação e consequente contra chegam-nos a uma velocidade tal que é quase impossível seguir o curso de todo este folclore. Ainda assim, mais por necessidade e hábito do que por obrigação, acompanho o comentário que se tem feito por estas bandas, tendo chegado o momento em que a minha disponibilidade me permitiu escrever alguma coisa. Talvez disponibilidade a tenha tido antes, é certo, mas determinadas intervenções no dia de ontem foram, para mim, o culminar de um ciclo de observação e tentativa de absorção e entendimento, com alguma condescendência à mistura, do que a classe política e empresarial anda a perpetuar no país – o que se tornou, modéstia de lado, um exercício muito complicado, pois é notório que nem o governo sabe o que faz. 

 

Estamos pois, definitivamente, entregues. Entregues a uma coligação governamental que necessita de um órgão superior, com o seu crivo de independência e num patamar superior da intendência, que supostamente deve coordenar, controlar e encontrar convergência nas políticas dos dois partidos que formam o Governo. O arrufo conjungal necessitou de marcar na agenda consultas periódicas na terapia de casais o que, apesar de pouco recomendável, até pode ser aceite como uma maneira de evitar o descalabro de uma política comum, num esforço a dois para que a união resulte, sendo que, pese embora a graciosidade envolvente a toda metáfora, os destinos do país e dos portugueses seja aquilo que realmente deveria merecer a atenção de quem governa. E eis que na primeira reunião para afinar as agulhas o tema central da ordem de trabalhos são as eleições autárquicas, com a definição das autarquias em que os dois partidos irão concorrer coligados. É um importante primeiro passo, poderão dizer-me, que depois deste sim virá o concertar de posições, estratégias e medidas que digam realmente respeito ao quotidiano do comum cidadão português. Mas a imagem que passou foi a de que, de uma maneira ou de outra, a discussão se terá centrado em nomes, cargos, disposição dos candidatos nas listas. Mais do mesmo. Porque este governo demonstra uma descoordenação clara, sem uma linha de comunicação comum aos seus vários membros, muitos deles uns autênticos corpos estranhos sem habilidade política que dificilmente se irá remediar, pois tem quase todo o país contra si, incluindo grande uma parte que o suportava em termos eleitorais.

 

Daí que eu afirme, sem ponta de remorso, que estamos entregues. Estamos entregues a um Primeiro-Ministro que, mesmo anunciando a entrada do FMI em Portugal, parecia gozar de uma certa margem de manobra por, inicialmente, tudo ter tentado para apresentar uma postura política que fosse diferente do seu antecessor. Ultrapassado que foi, muito rapidamente, o seu estado de graça, esta possibilidade demorou tanto tempo a gorar-se como os cabelos de Passos Coelho a tornarem-se grisalhos – num ápice, passamos de um Governo com confiança para um grupo elitista em total descrédito. Algo que me pergunto vezes sem conta, provavelmente por ser uma das áreas que maior interesse tem para mim, é o porquê de em Portugal pura e simplesmente não existir consultadoria política. A bem saber, obviamente que ela existe (gabinetes de acessoria, markentig e comunicação são algo que não falta, é um facto); mas então eu pergunto-me qual o tipo de formação que esta gente tem ou que género de autores lhes são dados para estudar, pois em que mundo é que um gabinete de consultadoria dá aval a que o Primeiro-Ministro, depois do anúncio de novas medidas de austeridade, venha, enquanto chefe de governo, escrever uma nota no Facebook que, para além de patética e ridícula, chega a roçar a cobardia. É mau demais para ser verdade, dirão alguns; revelador do carácter do Primeiro-Ministro, concluirão outros. Mas este é apenas, como muito bem tem sido desenvolvido aqui no blog, o reflexo das juventudes partidárias e da (falta de) noção dos elementos básicos da ciência política junto de quem recruta militantes para as suas secções. É uma selecção feita à bruta, por números, que apenas trará vantagens ao pastor que concentrar mais ovelhas no seu rebanho. Aprendizes de Maquiavel que nem sequer o leram, como o Samuel apontou magistralmente.

 

Entregues estamos. A uma bicharada que constantemente vilipendia o país. Por vezes através de maneiras tão cruéis que fica difícil escapar ao seu rasto. Vitor Gaspar, um nome que regressou ao país com o prestígio internacional, cá dentro nesta cozinha interna, carrega contra os portugueses. Lá fora, tece elogios aos seus concidadãos. Pelo meio vai adormecendo os mais conformados com a sua voz monocórdica, que parece que não ser afectada por nada nem ninguém. Mas Vitor Gaspar sabe pouco de história – algo que é comum a toda a classe política e dirigente do país por estes dias. Ao destacar a tolerância e maturidade das manifestações, parece estar totalmente alheio da realidade e confiante que os brandos costumes o irão salvar. Talvez por não saber de História, permitam-me que recupere um episódio ilustrativo de como podem agir os portugueses mesmo em situações limite. Nas guerras liberais no Séc. XIX quando se deu a invasão do Porto e os Miguelistas foram derrotados, em acto de desespero/vingança incendiaram os armazéns do Vinho do Porto, que, na época, representavam a nossa única exportação e fonte de receita em divisas. Exemplo extremista e desfasado da realidade? O curso dos protestos assim parece não indicar. Mas a Gaspar pouco lhe importa, como podemos denotar pelo ar cada vez mais arrogante com que responde cada vez que é interpelado.

 

Não fosse o anteriormente descrito suficiente e, caros leitores, estamos totalmente domados e entregues a Miguel Relvas. Se o fenómeno da sua licenciatura nunca cairá no esquecimento da opinião pública mas percorria por estes dias o caminho da ‘brejeirice’ e mero escárnio, voltou ontem ao meu ideário quando o ouvi pronunciar, sustentando que a UE “deixou de ter o tempo do seu lado”, que “é na eficácia dos governos que reside em grande medida a adesão dos povos à democracia representativa”. Miguel Relvas apelou à capacidade de liderança da Europa face à “crescente impaciência das restantes economias mundiais e à volatilidade dos mercados financeiros”. O ministro considerou que a UE “precisa que os fortes continuem fortes, mas precisa igualmente que os mais fracos passem também a ser fortes”. Um alerta claro para a os perigos da falta de confiança das populações nos políticos do Velho Continente. Ora, eu não queria ter de assinar por baixo na lista de visitantes deste lugar comum, mas ser Miguel Relvas a pronunciar esta sentença é de um nível tão baixo que nem trinta cambalhotas consecutivas me deixariam tão zonzo e abananado. Para isto, uma só definição – gozar connosco à cara podre.

 

Assim como é um pagode completo que António Borges, consultor do executivo para as privatizações, venha crucificar aqueles que criticaram as alterações que o Governo queria introduzir na taxa social única (TSU), brindando-os com o mimo de que são “ignorantes”. “Não passariam no primeiro ano do meu curso na faculdade”, acrescentou. Isto vindo de alguém que, em Novembro de 2011, o Fundo Monetário Internacional (FMI) demitiu de director do seu departamento europeu, 'por razões pessoais'". Segundo dá a entender o autor de ‘O Banco - Como a Goldman Sachs dirige o Mundo’, Marc Roche, na introdução da versão portuguesa do seu livro, a razão de Borges ter sido dispensado do FMI, ao fim de um ano, poderá estar ligada "ao facto de ter sido também, durante oito anos (2000-2008), um dos dirigentes do GS International". Mas Marc Roche vai mais longe. "Com efeito, o papel do banco americano na maquilhagem das contas gregas em 2002-2003 poderia não ser estranho àquilo que aparece como uma destituição". "Por outro lado, a nacionalidade portuguesa do interessado jogou contra ele no momento em que os investidores - FMI, Comissão Europeia e BCE - davam a sua ajuda em troca de medidas de rigor draconianas". Borges, que a par de Mario Draghi, actualmente presidente do Banco Central Europeu, e Mario Monti, primeiro-ministro italiano, são alguns dos alvos desta investigação à Goldman Sachs, é a cabeça das privatizações em Portugal, o que segundo este jornalista de investigação financeira, "não deveria estar em posição de escolher os bancos na privatização porque sempre existe - algures - um Alumni da GS". Teorias da conspiração postas de lado, o Professor Adelino Maltez rapidamente se adiantou aos demais e postou no seu Facebook uma pérola. Recuperou uma entrevista de Borges ao Público, datada de 2008, onde o mesmo era confiante em afirmar que a crise financeira não iria provocar recessão, apenas abrandamento. Ao mesmo tempo, já defendia a privatização da Caixa, o que só demonstra que esta jogada de bastidores foi e está alicerçada em bases muito claras para os eus protagonistas, que de quando em vez irrompem do silêncio e tranquilidade do seu dia-a-dia para agitarem as águas, com o único intuito de fazer chegar a água ao seu moinho.

 

Por fim, estamos entregues a um Presidente da República que rapidamente se apressou a concluir que não estamos perante nenhuma crise política. O Conselho de Estado que por ele foi convocado é, uma vez mais, elucidativo de que estamos entregues a um conjunto de supostos notáveis a quem eu nem pediria conselhos sobre que roupa vestir no dia de amanhã. No restante das suas intervenções, Cavaco Silva parece totalmente alheio ao facto de ser presença comum na política nacional há mais de 25 anos, agindo com uma leviandade tal e uma sobranceria que me deixam a pensar que ele acredita piamente que não tem qualquer culpa no cartório.

 

Caros leitores, avançando a passos largos para uma conclusão, peço desculpa pela extensão deste post; como anteriormente afirmei, foi um longo período onde nada escrevi e, como tal, a regularidade desejada não foi atingida. Tendo vingando agora essas sensações, resta-me frisar que, ao repetir várias vezes que estamos entregues, não pretendo afirmar que foi de livre e espontânea vontade que nos entregámos. Aliás, pelo que bem sabemos da essência de ser português, nunca nos iremos entregar. A minha repetição do ‘estamos entregues’ tenta apenas transportar para o plano físico o que muitos de nós sentimos: o grupo com maior poder de influência e tomada de decisão no nosso país e que em muito define o nosso futuro, não presta.

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publicado às 14:57

Estudos complexos com resultados improváveis

por Francisco Costa, em 22.08.12

Saiu a cena por estes dias o resultado de um estudo que comprovou, por incrível que possa parecer, que grande parte dos estudantes universitários ou recém-licenciados portugueses tem em mente emigrar quando a sua formação neste cantinho à beira-mar plantado estiver finalizada. Devo confessar que fiquei incrédulo perante tamanha revelação. Desde logo me veio à memória uma outra recente investigação de um grupo de peritos que decidiu anunciar com pompa e circunstância que Portugal é, hoje em dia, uma democracia com algumas falhas – o que é realmente surpreendente, pois eu julgava que éramos uma falha com alguma democracia.

 

O estudo, realizado por várias associações académicas e de estudantes, conclui que «69 por cento» dos universitários inquiridos tem intenções de emigrar após concluírem os seus ciclos de estudos. Os dados recolhidos relevam uma percentagem preocupante – e não me refiro à preciosidade associada à precisão destes 69 por cento - de estudantes com intenções de emigrar após concluírem os seus ciclos de estudos, essencialmente em busca de melhores condições laborais. Os resultados do inquérito são relativos à «Mobilidade Profissional e à Internacionalização do Emprego Jovem».

 

O resultado preliminar do estudo realizado a nível nacional por associações académicas e de estudantes revela que a Europa é o «destino preferencial» dos jovens qualificados com intenções de emigrar, tal como indica a Federação Académica do Porto (FAP – e não, isto não é uma associação inventada para a conotação ser associada aos prévios 69 por cento).

 

A maior parte dos inquiridos considerou ainda que «não existem mecanismos informativos sobre os diversos países europeus» e que isso significa que há uma «barreira» à internacionalização do emprego. O que desde logo constitui um novo ponto de lógica em toda esta história – quero emigrar para arranjar trabalho, mas não tenho a mínima informação das condições a que estou sujeito.

 

As alterações socioeconómicas resultantes da crise financeira e do ajustamento orçamental que está a acontecer em Portugal são as razões apontadas pelos universitários inquiridos.

 

Em suma, o que deve ser subtraído de toda esta equação é o puro e simples resultado de que este estudo, tão útil como minucioso, opta por focar a temática da emigração entre os jovens estudantes de forma muito intensa, clara e encontrando novas justificações para um fenómeno nada improvável e que não faria parte do imaginário de nenhum jovem minimamente consciente das graves dificuldades que o país atravessa. Assim sendo, presto aqui a minha homenagem e deixo um grande bem haja a estes investigadores e estudiosos que dedicam o seu precioso tempo a cuidar de tais matérias e a chegarem a brilhantes e complexas conclusões que o mais simplório ser humano dificilmente descortinaria.

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publicado às 22:46

Elogio a Cristiano

por Francisco Costa, em 14.08.12
Não se tem por hábito nesta casa escrever em futebolês. Mas como incorro na possibilidade de estar novamente a quebrar alguns dos cânones a que o Estado Sentido tem habituado os leitores, não posso perder a oportunidade de dissertar hoje, quando se completam dez anos sobre o início da sua carreira profissional, sobre Cristiano Ronaldo.

Por muitos considerado arrogante e prepotente, tenho sobre o madeirense a ideia exactamente oposta. Tenho mesmo em crer que Cristiano Ronaldo é humilde e de uma modéstia nunca antes vista. No lugar do craque, chegado ao patamar em que está fruto de tanto trabalho individual e uma incrível força de vontade, eu apenas reavivava a figura do arauto para proclamar solenemente a minha entrada em cena nos diversos locais que decidisse frequentar.

Como outrora Ricardo Araújo Pereira de forma tão perspicaz referiu, o nome foi a única vantagem com que Cristiano Ronaldo nasceu. ‘É um nome que indica ao seu proprietário a carreira que deve seguir. Um nome psicotécnico: um arquitecto Cristiano Ronaldo sabe que nunca vencerá o Pritzker, e um engenheiro Cristiano Ronaldo nunca será quadro de topo da Mota-Engil - a menos que tenha sido ministro das Obras Públicas, mas infelizmente o cargo de ministro também está vedado a Cristianos Ronaldos, como é óbvio’. Assim sendo, quando um miúdo recebe o nome de Cristiano Ronaldo, pode começar a engraxar as chuteiras: já sabe que vai ser jogador de futebol.

E tudo o resto foi conseguido por ele. Graças exclusivamente ao seu esforço, conseguiu ser considerado o melhor do mundo no seu ofício. É isso que faz dele humilde. No lugar dele (volto a assumir tal desígnio) ultrapassados os obstáculos que enfrentou e as perdas com que teve de lidar (a morte do pai nunca deve ser olvidada), chegado ao topo do Mundo, eu teria mandado fazer um cartaz, com luzes a piscar incessantemente, igual aos dos vendedores de farturas nas feiras populares, com os dizeres "Deixem passar o Maior", com a respetiva seta fluorescente a apontar para mim. Arranjava alguém para andar sempre atrás de mim com ele (ajudando a criar mais um posto de trabalho e assim parecer um tipo preocupado com os problemas do mundo dito ‘vulgar’) e nunca saía de casa sem ele.

Além de todas estas concretizações pessoais, recordo que Ronaldo tem 27 anos. E, ao que parece, decidiu dedicar-se em exclusivo a uma mulher apenas quando tem milhares atrás dele. Ora todos sabemos que qualquer rapaz normal de 27 anos que já tivesse ganho o suficiente para nunca mais precisar de mexer uma palha na vida faria uma curta interrupção sabática de 50 anos no futebol para se dedicar em exclusivo às estrangeiras e ao álcool. Como muitos antes dele tiveram o discernimento de fazer – Paul Gascoigne à cabeça. Mas eis que entre o forrobodó e o trabalho, Cristiano Ronaldo optou por meter na cabeça que vai bater todos os recordes anteriormente estabelecidos pelos melhores jogadores da história. E, azar do azares para todos aqueles que não gostam do madeirense, está no caminho certo para o conseguir.

E, depois de tudo isto, há ainda o eterno duelo com Messi. E há ainda a eterna questão de que irá sempre perfazer melhores exibições nos clubes que representa do que na selecção nacional. Mas, no fim de tudo, eterno apenas Cristiano Ronaldo ficará, pois perdurará durante muito tempo como um grande ícone do desporto nacional.

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publicado às 23:06

De derrota em derrota, rumo à vitória final

por Francisco Costa, em 08.08.12

Referiu (e bem) o Nuno Castelo-Branco que a faena da semana pertence ao Samuel. Não funciona o Estado Sentido da mesma maneira que o desenrolar de uma sempre popular tourada. Ainda assim, que me permitam a comparação: a lide foi iniciada, as inúmeras farpas espetadas, a estocada final está preparada. O Grupo de Forcados está nitidamente a mais e, como tal, segundas e terceiras ajudas são desde logo dispensadas. Em breve o toiro será retirado da praça, mas prontamente será substituido por um novo e portentoso exemplar, pronto a investir com ainda mais força e irracionalidade nesta arena blogosférica contra o nosso cavaleiro.

 

Apesar de assistir ao longe a todo esta espectáculo, tenho pretendido escrever algo que viesse a servir como contributo para a contenda. E nada melhor que uma colherada de patusquice pessoal acerca de toda a discussão – mas uma colher de chá, bem pequena, porque o contributo não pode ser excessivo. E bater em defuntos nunca foi algo que me desse especial prazer.

 

Deixo aqui apenas duas ou três questões que, a meu ver, merecem reflexão após tamanha algazarra. A começar, o tom de insulto implícito nesta verdadeira arruaça. No meio de tanta argumentação e contra-argumentação, devo confessar que apreciei bastante o facto de ainda haver espaço de um dos lados da barricada para o recurso a uma das técnicas mais ancestrais no que ao ‘bate-boca’ diz respeito – a repetição do que o oponente referiu. Ah, que saudades tinha eu de um ‘Quem diz é quem é’!, aqui em versão‘vou-alterar-o-que-escreveste-de-modo-a-parecer-que-sou-intelectualmente-superior-mas-afinal-é-porque-não-tenho-mais-argumentos-para-te-rebater’.

 

Em continuação, penso que no meio da troca de galhardetes, os intervenientes se estão a esquecer do mais importante – o real conceito de liberdade. E no que a isto diz respeito, há sempre um pataroco (eu) que se sente mensageiro da verdadeira palavra do Senhor e assume a missão de prevenir os outros para um perigo que só ele não ignora: "É preciso não confundir liberdade com libertinagem." Ainda assim, devo confessar que, pessoalmente, nunca fiz essa confusão. É como a pouca vergonha e o forrobodó: parecem exactamente o mesmo mas há uma ténue linha de decência que os separa. A mesma que diferencia uma argumentação fundamentada do historicismo das certezas futuras – ou profecias comunistas, se assim preferirem.

 

Para finalizar, caro Samuel, dirijo-te este último parágrafo. Como já alguém escreveu na caixa de comentários do Aventar mas não teve a verborreia necessária para concretizar, tu és aquilo a que os mais renomados e conceituados estetas das palavras designam como um ‘choninhas’. Bates, rebates, voltas a bater e não te cansas. Como te invejo. A tua capacidade de responder e comprovar que 1+1 são 2 perante contra ofensivas onde a mesma operação perfaz um total de 375 só me faz pensar que ainda tenho muito por onde aprender. Mas que ninguém duvide que uma das lições básicas deste tipo de confrontos eu já tenho mais do que assimilada – por muito que argumentes, nunca irás vencer. E quando julgas que tens a vitória na mão, a derrota já está mais do que consumada. Até porque neste tipo de situações, já dizia o outro, é sempre de derrota em derrota, rumo à vitória final!

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publicado às 22:50

Educação a Granel

por Francisco Costa, em 03.08.12

Quis o destino que, por obra e graça de espíritos muito pouco santos, me visse eu obrigado a passar o mês de Agosto de 2012 a trabalhar no complexo comercial abastecedor do luxuoso Resort Pine Cliffs – sim, o mesmo onde José Sócrates se viu obrigado a gastar uns dias de descanso enquanto o FMI entrava em Portugal. E como eu o compreendo – enquanto a Troika trabalhava para salvar um país do abismo a que o seu socialismo nos conduziu, o verdadeiro estadista sofreu da repentina necessidade de sentir as mãos de uma imigrante da Europa de Leste a massajar-lhe as costas.

 

É então que, dia após dia, me vejo obrigado a lidar com as pessoas que ocupam as luxuosas suites do Resort. O que se afigura normal, porque uma boa dona-de-casa gosta de comprar a título próprio os produtos que fazem falta na sua despensa e não deixa em mãos alheias a hipótese de regatear o preço dos legumes, muito menos perde a oportunidade de comparar a relação marca/qualidade/preço dos enlatados.

 

Ainda assim, o que me leva a escrever após mais uma cansativa jornada de trabalho, são as irritantes formas de tratamento de que sou alvo. Correspondendo à educação que me foi dada, expressões como ‘obrigado’, ‘com licença’ e ‘se faz favor’ saem-me da boca com uma facilidade irracional. Como tal, admito ficar atónito quando os meus colegas me acusam de ser ‘demasiado bem educado’. E dou por mim a pensar o que significará este ‘demasiado bem educado’, passando a viver o mesmo sentimento de exclusão que o puto gordo dos nossos tempos de escola que, invariavelmente, ficava à baliza nas partidas de futebol.

 

Vem ainda a questão do nome. Melhor, a questão de como sou tratado. “Menino”, “rapaz”, “rapazinho” ou um mero “olha desculpa” incorrem numa frequência equivalente às necessidades dos clientes. Nenhuma delas me causa espécie. Engraçado é como as pessoas, quando se apercebem que a minha fluência de discurso, alteram o tom de voz com que primeiramente me interpelaram. Deixo de ser o moço dos recados para passar a ser o respeitado empregado.

 

Tudo isto se sucede a um ritmo tal que mal tenho tempo para digerir e dissecar tais acções e as consequentes reacções. Até porque, ao mesmo tempo, todo um novo fenómeno sociológico toma lugar na minha agenda. É incrível reparar no hábito, quase automático, de uma pessoa que esteja de férias e não seja da família, ou seja, um convidado por ser amigo do filho ou da filha, nas alturas em que faz cerimónia, tudo o que responde ao pai ou à mãe do amigo acaba em "tio". "Deixe estar, tio". "Não é preciso tio". "Diga, tio?”. "Obrigado, tio." Bem sei que parece algo digno das mais altas instâncias da educação. Porém, não posso deixar de notar o tom de impessoalidade que está implícito.

 

Que me desculpem os mais acérrimos defensores de uma outra teorização, mas tenho para mim que educação é, acima de tudo, a soma líquida dos valores que nos são transmitidos em casa. A forma como os colocamos em prática noutros locais e a facilidade ou dificuldade com que resolvemos os obstáculos que se apresentam no nosso caminho fora de um habitat mais natural – ou seja, na “rua” – apenas nos ajuda a perceber as adaptações de que teremos de ser vítimas para, mais do que vivermos, sobrevivermos. Pois que me venham com histórias que é na rua que se aprende a lei da vida, irei responder que sem o suporte educacional básico dificilmente incorreremos noutro tipo de tratamento que não o da mesquinhez e desprezo. Até porque educação ainda não se vende a granel. Para mal de muitos. 

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publicado às 23:48

Post de partida

por Francisco Costa, em 31.07.12

Decidi iniciar a minha escrita no Estado Sentido seguindo as linhas conceptuais ditas normais para estas ocasiões. Como tal, começo por escrevinhar os traços orientadores do meu primeiro post. Não me posso esquecer dos agradecimentos. Procurarei não ser rude ou dar uma imagem errada de quem sou. Persisto na ideia de que não posso olvidar uma pose humilde e condizente com os meus valores. E é então que dou por mim a perceber que todos estes preparativos assumem um paralelismo metafórico interpretado pela figura do Professor Cavaco Silva: não falam, não têm vida própria - mas aborrece-me só de pensar neles.

 

Não é a minha estreia na blogosfera, devo confessar. As tentativas de criar um blog estável, contínuo e de continuada escrita foram como a obra de Randa Haines – filhos de um Deus menor, perdidos por entre leituras, esquecidos entre horas a fio de estudo e, claro está, vilipendiados até à exaustão. Espero agora conseguir encontrar o fio à meada.

 

Ao meu caríssimo Samuel de Paiva Pires, deixo uma palavra de agradecimento pelo convite que me decidiu endereçar. Tenha sido por ver em mim as competências necessárias para cumprir tais desígnios, quiçá por achar que seria um desafio estimulante para um cérebro que não se deixou formatar pela academia ou talvez ainda pelo efeito que as cervejas que nos acompanhavam no momento do convite tiveram sobre ele, a verdade é que se afigurou impossível recusar tamanha oportunidade.

 

Aos restantes Conselheiros, um obrigado pelas mensagens de boas-vindas. Nunca é de mais reforçar a honra que é para mim integrar esta trupe, que nada tem de circense, mas que por artes de escrita mágicas se tornou num dos locais onde a opinião crítica sobrevive graças em toda a sua essência.

 

Aos nossos leitores e restantes seguidores, apenas suplico que me concedam uma margem de manobra equivalente à que se costuma dar à pessoa menos vistosa num grupo de gente bonita – porque no final de contas, eu esforço-me e até sou simpático.

 

Prometo assiduidade na escrita, sátira nas palavras. ‘Mais um pouco de Sol – e eu era brasa’, escreveu Mário de Sá-Carneiro num dos seus diversos poemas. Só espero ser um fiel seguidor desta doutrina e incendiar os ânimos da blogosfera com as minhas opiniões.

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publicado às 22:30






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