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Make me normal again

por John Wolf, em 21.01.17

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Não é preciso ser cidadão norte-americano para sentir os efeitos de uma presidência nos EUA. Mas é preciso ser cidadão norte-americano (como eu) para sentir os EUA. Por mais que opinem e produzam statements a propósito da eleição de Donald Trump, há vários estereótipos que devem ser rejeitados. A ideia de que eventuais desvios aos princípios que se encontram na fundação da federação americana, e que consubstanciam o genuíno espírito da nação, serão tolerados, sem agravo ou consequência, por largos espectros da população, pela inteligência académica ou pelas grandes corporações de Wall Street. Estamos apreensivos em relação à inauguração de uma nova modalidade, porque nada disto é inédito, mas também não é exclusivo. Se realizarem a sobreposição de slides, verão, sem grandes equívocos, que Theresa May não é uma versão de Donald Trump. May, declama a sua pauta, uma palavra similar embora com variantes de discurso. Em todo o caso, trata-se de um slogan nacionalista e patriota, carregado de sentimento anti-imigração - Make Britain great again. O que está em causa essencialmente é um quadro mental de previsibilidade a que estávamos habituados. Fomos doutrinados durante tantos mandatos políticos que existe uma convenção estável, imutável. Fomos treinados a viver na sombra das consternações que seriam tratadas pelos lideres e representantes partidários. Recebemos em troca amostras de grandes promessas que se esfumaram em metas por alcançar. Aqui e agora, here and now, registamos o inverso. O juramento totalitário à partida, à cabeça. Um conjunto de absolutismos de tudo ou nada, sim ou não, you´re in or get the hell out. Há muito que vinha observando a patologia civil dos EUA - a ideia de autosuficiência intelectual. A ideia de que os outros são dispensáveis. O isolacionismo, implícito na narrativa, é apenas uma extensão natural da genética política, económica e social, construída no país que é a maior amálgama de nações extraviadas do mundo. Agora imaginem o sentimento de indefinição que se atravessa no meu ser. Para todos os efeitos, bons e maus, eu sou um cidadão dos EUA.

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publicado às 11:41

Davos, Costa e a doce Lagarde

por John Wolf, em 19.01.17

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O que temos. Temos um primeiro-ministro que acredita nas doces palavras de Christiane Lagarde. Aconchegado em Davos, António Costa parece estar a fazer um roadshow das virtudes económicas de Portugal. Fala do tom de voz alterado e simpático da senhora do FMI que agora só diz maravilhas de Portugal. Faz fé na boa-vontade e no lirismo da directora-geral do FMI, como se isso fosse garantia do que quer que seja. Deveria, em vez disso, apanhar Mario Draghi e agradecer a continuação da operação de compra do BCE, no mercado de títulos do tesouro. Gostava de ver o caderno de encargos do governo da república portuguesa no que toca a atrair investimento estrangeiro. Qual a estratégia a médio/longo prazo? Que plano existe para transformar a economia de um país fortemente dependente do sector dos Serviços e do Turismo em algo mais substantivo. Se alguém tivesse que fazer um desenho de Portugal e da sua economia teria certamente algumas dificuldades. Não se percebe  qual o peso da economia marginal? Não se sabem ao certo as virtudes financeiras do Processo Marquês e como isso contribuiu para o desenvolvimento do país. São pastas com alguma importância que não foram levadas na bagagem para a estância dos bilionários neo-liberais-bilderbergianos de um sistema capitalista roto e perto de uma ruptura dramática. Em todo o caso - nothing really matters. A mudança, desejada ou não, chega amanhã para plantar tumulto no pobre espírito de pequenos ou grandes ladrões. Isto vai abanar. Há muito que estava para abanar. E Costa reza como se fosse um aprendiz de mezinhas. Sonha com o deficit abaixo dos 2,4% como se fosse um sinal de transcendência, de verdade.

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publicado às 20:06

TSUNAMIGO

por John Wolf, em 17.01.17

 

 

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Jerónimo de Sousa, o místico, saiu da caverna para explicar aos jornalistas e ex-jornalistas que a aparição de coligação que Passos Coelho avistou, de facto não passa de uma miragem. Diz ele, ao bater o pé na trave e a foice no martelo, que os comunistas não são nada tsunamigos dos socialistas e que o maremoto dessa taxa descendente representa uma no cravo dos propósitos da Esquerda unida. Com tanta prosápia, com tamanha logística de quem é quem, e para onde caminhamos, Jerónimo de Sousa fere o orgulho geringoncial. Resta saber se os comunistas são mais social-democratas do que os passistas são marxistas. Devo dizer que aprecio estas saladas místicas temperadas por galheteiros ideológicos de candeias às avessas. Quanto a Marcelo Rebelo de Sousa, o presidencialista-pop, não me restam grandes dúvidas. Tudo fará para salvar o orgulho do Rato. Não sei exactamente qual Senhor serve o presidente da república. Uma coisa é certa, amor de povo é valioso. Afecto das massas não se enjeita. Resta saber quem paga a taluda da bandeira do salário mínimo a qualquer custo. Pessoalmente acho que o BES, a CGD e o Banif deveriam pagar o aumento da tarifa mensal com os fundos de salvamento que receberam a troco de sabe-se lá do quê. Assim vamos nesta assembleia de lideres mítricos, de barretes enfiados e pegas de caras ou coroas. Qualquer dia Catarina Martins será agraciada com a ordem de São Caetano por ser coerente e disciplinada. O acordo da Geringonça existe no papel, mas não passa disso mesmo. Vira o dístico e troca o mesmo pelo seu oposto. A maré está baixa e as calças estão pelos joelhos.

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publicado às 14:46

Geringonça is so 2015

por John Wolf, em 16.01.17

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O Partido Socialista (PS) está a ter dificuldades em engolir em seco. Não está a conseguir encaixar o que se está a passar e a Ana Catarina Mendes Pedroso é o exemplo vivo de alguém que ainda não entendeu as transformações em curso no nosso mundo. Sempre existiram bons e maus comunistas, péssimos e excelentes social-democratas ou medianos e magníficos socialistas. A Taxa Social Única simplesmente não serve de bitola do que quer que seja. Em causa está a natureza parcelar da Política. São causas avulso que permitem distinguir uns de outros. Ora assumir de antemão a vontade de outrém roça a sobranceria autoritária. Sempre dei o braço a torcer e aplaudi a iniciativa do homem livre, desprovido de ensinamentos de mestres e ideologias caducas. Não se podem erguer muros em torno de reservas oportunistas. Até parece que a concertação social é uma invenção do Largo do Rato e da Esquerda. Errado. Desde sempre, desde Chicago, se quisermos, as negociações entre trabalhadores e patrões, assalariados e pagadores, decorreram, tratando essencialmente de matérias validadas intrinsecamente e não por ditames ideológicos. O Partido Social Democrata ou o Bloco de Esquerda, para todos os efeitos, podem e devem quebrar a "alegada disciplina ideológica" que o PS reclama como regra de ouro. Isso faz vibrar a democracia. Existem social-democratas comunas, como existem socialistas de extrema-direita, mas não significa que sejam nem peixe nem carne. Se não querem ver com olhos de ver, então estão metidos em grandes sarilhos. A NATO já não é a NATO, a União Europeia já não é a União Europeia, a Presidência dos EUA já não é a Presidência dos EUA, mas o PS continua igual a si. Geringonças há muitas. Depende da perspectiva.

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publicado às 09:15

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Mariana Mortágua acerta em metade da sua afirmação: "A dívida é insustentável. A única coisa a fazer é reestruturar". A doutora tem razão em relação à primeira parte. A dívida vai determinar o berro governativo. É curioso que a doutora não discrimine adequadamente os itens. A dívida de que fala é a dívida pública (mas também existe uma privada, e deveras substantiva). E aqui entramos em contradição conceptual no que diz respeito à nacionalização do Novo Banco. Não existe já um banco público de seu nome Caixa Geral de Depósitos (CGD)? Como é que um Estado, que não se aguenta nas canetas, pode pôr às costas mais um banco? E tornamos ao primeiro axioma - a dívida, com um Novo Banco de Depósitos, ainda mais insustentável se torna. Não existe à face da terra nenhum banco público que aja exclusivamente de acordo com o interesse público. Não sei em que mundo vive a doutora. A própria CGD, se fosse o apanágio do interesse nacional, não poria à venda fundos de investimento controlados por gigantes especuladores semelhantes à Lone Star. E há mais nuances absurdas que andam a dar a volta à cabeça da doutora. Não sei de que reestruturação de dívida fala, mas no mundo real de investidores, Estados e governos, são entidades financeiras privadas que arcam com o peso de alargamento de prazos, embora possa parecer uma operação clean em que "entidades públicas" pagam - não é nada disso, nada mesmo. Em última instância é o aforrista privado que paga. Os governos apenas emprestam a sua falsa aura de salvadores da pátria. A reestruturação não é um jogo de soma-zero. Existe um mercado especulativo que vive desses processos. O problema da doutora é ver o mundo de um modo fantasiado, inquinado e pleno de vícios ideológicos, quando o universo já não funciona de acordo com teses que andou a defender na escolinha.

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publicado às 13:38

quatro ponto dois dois sete de oxigénio

por John Wolf, em 11.01.17

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Uma emissão de dívida a 10 anos acima dos 4% nunca pode ser considerada um sucesso - "ter corrido bem". Por que razão deveríamos confiar em analistas e corretores de bolsa? Esses profissionais vivem da volatilidade, respiram especulação e irradiam a ideia de atalho económico - dinheiro fácil. Não são estes os médicos que devem ser consultados. Aliás, nem sequer são médicos. Tentam, a todo o custo, com SIVs (special investment vehicles) e outras receitas, alavancar ganhos e ignorar perdas. Os seus clientes são na maior parte dos casos uns borra-botas com ambições de Gordon Gekko, mas que não passam de tristes com carteiras compostas por títulos nacionais que "dizem conhecer melhor" e que por essa razão parva "confiam mais". No entanto, a concorrência do mercado de títulos de dívida é feroz. Não vejo porque razão um investidor no seu perfeito juízo arriscaria emprestar dinheiro à geringonça. Existem destinos de investimento mais sensatos, mais conservadores e mais rentáveis. E falo da Europa. Com tanta coisa boa ao dispor do freguês na mercearia, por que raio iria eu comprar títulos de DÍVIDA portuguesa? Prefiro olhar para titulos de CRESCIMENTO de pequenas, médias ou grandes empresas. Só um louco - como o Banco Central Europeu -, é que compra batatas podres. Mas cada um sabe de si, mesmo que aqueles que vos governam não tenham a mínima ideia do que andam a fazer. Chamem-lhe oxigénio, chamem. Génios.

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publicado às 19:03

Marcelo, déficit emocional e populismo

por John Wolf, em 09.01.17

 

 

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Em plenos dias de emoções à flor da pele, afectos e vazios, parece-me apropriado pensarmos o caso Marcelo Rebelo de Sousa de um modo mais expressivo. O presidente da República Portuguesa parece padecer de uma espécie de déficit emocional. Apenas deste modo se explica a sua incessante necessidade de ser amado a torto e a direito, de norte a sul pelos ares de gente e as gentes dos mares. O seu estado roça a condição psicótica e acarreta sérias consequências para o serviço político que se espera de um chefe de Estado. Por seu turno, o comportamento obsessivo-compulsivo do sujeito não vive a solo. É uma nação inteira falha de afectos que leva em ombros este estado de transe. São os recepientes dos abraços também responsáveis pelos fundamentos desta premissa psico-emocional registada em forma de beijos e selfies. Embora Marcelo possa parecer neutralizar polaridades, ao integrar a gama completa de sabores ideológicos, em abono da objectividade, a sua acção preenche os requisitos da construção populista. E é esse o perigo da sua toada de normalização - empresta a aura benigna, pacífica. Aos poucos, Marcelo vai-se desprovendo de espinha dorsal, vai perdendo o respeito político de actores de todos os quadrantes. A dada altura do realismo pragmático que o ultrapassará, o presidente terá de tomar a posição incómoda e inequívoca. Numa fase madura e de dor governativa, Marcelo terá de trair o guião de consensos e entendimentos que escreve. E Marcelo terá de virar a casaca se pretende sobreviver e alimentar a ideia de crédito institucional e presidencial. Marcelo procura em vida aquilo que Soares está a receber nesta sua hora. A mais alta homenagem, a tábua rasa de considerações supletivas, positivas. Para se ser amado em política não se pode amar desalmadamente. Lidamos, para todos os efeitos práticos e questionáveis, com um caso maníaco.

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publicado às 09:43

4%

por John Wolf, em 05.01.17

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Enquanto esperamos por uma selfie de Marcelo e Maria Leal, entretemo-nos com os 4%. A agência de rating DBRS já tinha avisado que esse valor dava direito a castigo, mas há mais. Em plena crise de títulos de dívida portuguesa a 10 anos, a agência canadiana também está atenta a outros agravos. Hoje, dia 5 de Janeiro de 2017, publicam um press-release dedicado à Caixa Geral de Depósitos (CGD), mas não consigo chegar ao ficheiro. Deve haver um hacker russo a soldo de uma parte interessada, a ver se impede ainda mais derrames e escorregadelas. Ou seja, a DBRS, embora atenta quase em exclusivo aos títulos de dívida, não conseguirá evitar meter ao barulho das suas considerações o cangalho CGD. Enfim, adiante. A beleza do título de dívida reside no seguinte: não há manipulação que o valha. O governo de António Costa pode bater o pé as vezes que quiser - o spread já lá vai. E há mais factos pouco abonatórios para este estado de arte. O Banco Central Europeu vai começar a tirar a teta da mama de países com dificuldades de liquidez. Em abril reduzirá o caudal de apoio expresso na compra de títulos de dívida. Porém, existem ainda mais ventos a soprar nesse sentido de contenção e bons modos. Os indicadores respeitantes à inflação na Zona Euro sugerem a necessidade de fechar a torneira, se não totalmente, pelo menos gradualmente - aos pingos. Depois temos o outro lado do Atlântico onde a Reserva Federal, à luz de bons resultados económicos, irá também encarecer o acesso ao dólar americano, e essa condição irá atormentar ainda mais o Euro já abalroada pela valorização da sua congénere. Os tempos Centênicos e Cósticos não estão nada fáceis. A tal toalha atirada por Sócrates e Teixeira dos Santos naquela noite suada de São Bento pode tornar a ser arremessada. De repente.

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publicado às 19:27

Geringonça exibe filme de 2011

por John Wolf, em 04.01.17

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É impressão minha? Ou já vimos este filme antes? Começam a nascer por todo o lado os mesmos sintomas que conduziram ao dramático descalabro do glorioso mandato socratino. Basta ligar a caixa que mudou o mundo, e mesmo que apenas se colem aos canais do regime, já não passa em branco a azáfama e o caos do Serviço Nacional de Saúde - nada parece funcionar. Depois, um pouco em segundo plano, como se nada fosse, as taxas de juro da dívida que têm regressado ao olimpo da ruptura iminente, têm sido abafadas pela novela quixotesca que opõe Domingues ao governo da Caixa Geral de Depósitos. Mas como cereja em cima do bolo-podre de consternações, desprovido de má-lingua propagandista, lá aparece o raio dos números das pensões mais baixas, das gasolinas mais caras ou do IUC mais a doer. No entanto, estes ingredientes dizem respeito ao quintal cá de casa. Enquanto tiram teimas de geringonça, o Banco Central Europeu (BCE) prepara uma canelada que far-se-á sentir em Abril, mês dos cravas. O BCE iniciará então a redução do seu programa de compra de títulos de dívida de países em apuros da Zona Euro. Passará de 80 mil milhões de euros mensais para 60 mil milhões, pelo que Portugal sentirá efectivamente os efeitos da referida redução. Não sei que bode-expiatório têm programado para chocalhar as hostes, mas prevejo "medidas excepcionais" e "justificações governativas" para o reforço e ampliação do conceito de austeridade, que aliás, em abono da verdade, não se foi com o estalar de dedos demagógicos da geringonça. Entretanto, como as más crónicas superarão as favoráveis, Costa deve seguir o modelo turco com ainda mais afinidade e rigor, e realizar a purga de vozes dissonantes dos meios de comunicação social. Quanto aos bloggers chatos, como eu, mandar-nos calar é mais difícil.

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publicado às 20:52

A velha-bloquista do Restelo

por John Wolf, em 03.01.17

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O governo de sua geringonça está metido num berbicacho. O BE e o PCP não apoiam as parcerias público-privado (PPP) do sector hospitalar. O Hospital de Braga que acaba de ganhar o pódio dos prestadores de serviços de saúde, é, como todos sabemos, uma entidade gerida pelo Grupo José de Mello através de concessão pública. A operação contratualizada, mais do que bem sucedida, permitiu uma economia de escala na ordem dos 40 milhões de euros anuais, sem comprometer a grande qualidade dos tratamentos concedidos aos utentes do serviço nacional de saúde.  Mas a ideologia é uma coisa tramada, e a Catarina Martins não desarma à luz das evidências de eficiência administrativa. A bloquista, com a mesma cara de fado que se lhe conhece, afirma que tudo fará para impedir novas e futuras PPP. Não é preciso ser teimosa como a mula para perceber que a mula está enganada. São bloqueios mentais de governantes deste calibre que comprometem nações inteiras. Mas permitam-me um disclaimer elogioso - Portugal tem dos melhores serviços nacionais de saúde do mundo, e o mesmo se pode dizer em relação ao sector privado. O problema não reside nas competências individuais, no saber, na capacidade de gestão, na ciência ou na inovação. O desafio é de outra natureza. O problema resume-se a uma patologia crónica de difícil trato - os lideres eleitos democraticamente, ou arrastados para geringonçais, deixam muito a desejar. E isso é bem pior do que ser uma mera velha do Restelo.

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publicado às 20:09

O sucesso da Segurança Social

por John Wolf, em 02.01.17

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Imaginem por uns instantes que eram a Catarina Martins. Não estariam a bradar aos céus e a invocar a violação da confidencialidade e o sigilo dos cidadãos? Não entendo como a Segurança Social (SS) possa publicar a lista de devedores e na mesma toada anunciar o seu fracasso na captação das ditas - ou seja, as dívidas à SS efectivamente aumentam. A disseminação do nome de indivíduos e entidades devedores não parece ter surtido efeito dissuasor. Aquela lista afixada, para quem quiser saber, apenas normalizou os processos comportamentais negativos. Reintegra na sociedade portuguesa prevaricadores firmados na praça. Ou seja, se aparece o nome de fulano, então não é assim tão mau que apareça o nome de sicrano. Faria sentido, na base bilateral e exclusiva, ter acesso a essa informação. O fumo denso da geometria variável das dívidas à segurança social serve para camuflar crimes de colarinho branco. Onde está a lista de delinquentes bancários? Onde está a lista de fornecedores que ficaram a arder com o cliente que deu à sola? Esta lista da SS não tem efeito prático algum. Se vasculharmos com algum cuidado na extensa lista lá encontraremos um nome amigo e de certeza um outro governante histórico. Mas ninguém vai de cana ao contrário do que acontece em democracias mais reforçadas.

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publicado às 16:30

Ainda acreditam no ano novo?

por John Wolf, em 01.01.17

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Ainda acreditam nessa história do Ano Novo? 2017 não passa de um estágio temporal em segunda mão. O governo de geringonça também não é novo - é mais de terceira mão. A presidência dos EUA, essa sim, é nova, original. O que se passou em Istambul, ainda não havíamos escutados as 12 badaladas, serviu para varrer as incongruências da natureza humana, ingénua e carregada de esperança festiva perigosamente naive. A tensão pré-orgásmica que conduz à falsa percepção de mudança não tem cura. Chamem-me de cínico, mas já começamos a ter idade para deixar de ir em cantigas. Vamos a factos domésticos em primeiro lugar. Os portugueses acordaram dia 1 de Janeiro de 2017 com uma diminuição efectiva do seu rendimento disponível. A fórmula do engano e decepção parece ser a mantra de governação, com o apoio de jornaleiros amigos - "nem todos os aumentos são maus" - bonito, linda esta afirmação. Como sempre, as estatísticas e os velhos servem para justificar as decisões mais bicudas - a população portuguesa está a envelhecer. Agora elevem ao quadrado a mensagem de serenidade e paz interior, e vejam como estamos mesmo preparados para um mundo cada vez mais hardcore - Guterres não é o Papa. Enquanto rezam as praxes de estabilidade social e harmonia governativa, as rodas da realidade não abrandam. Não seria maravilhoso se o mundo dependesse das belas intenções de expressionistas como António Costa? Estes governantes tardam em entender a inversão. As excepções passaram a norma. O calendário dos anos vindouros estará marcado por incidentes que carecem de antecedentes, de validação. Este ano não pode servir de alibi e como uma declaração de que a tempestade já lá vai. Eventos como o Brexit ainda não aconteceram. 2016 apenas serviu para reservar lugares na agenda. E são muitos os passageiros. Temos o comboio regional das autárquicas. Temos o TGV das eleições francesas. Temos o canal da Mancha do Brexit efectivo. Temos as socas duras das eleições holandesas. Enfim, teremos muito com que nos entreter para além dos eventos espontâneos, terroristas ou nem por isso. A noite de ontem bem me pareceu mais contida, mais calma. Sinto no ar um certo conformismo das gentes, mas sinto que os últimos da fila são os primeiros dos diversos governos que polvilham aquilo que ainda resta de um projecto europeu. Os governos, seja qual for a sua procedência, correm riscos. Mas serão aqueles que mais prometem e menos cumprem que sentirão a corda a apertar. E depois dizem que a culpa é da ideologia, do extremismo, uma coisa vinda do passado, de um outro ano novo qualquer.

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publicado às 19:31

Passagens de presidentes e de anos

por John Wolf, em 30.12.16

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Não é apenas o bode expiatório Correio da Manhã a partilhar essa possibilidade. O jornal Sol também interpreta o protocolo de Estado - a morte de um ex-Presidente da República pode significar o cancelamento de festejos de passagem de ano se for decretado o luto nacional. Este género de especulação mórbida não deve ser considerado jornalismo. Este estilo de reportagem, que não se restringe ao sol e à manhã é, no mínimo, despudorado. Não confundamos as preferências ideológicas, políticas ou partidárias de cada um, com o que está em causa. Entramos no domínio dos totolotos, das apostas múltiplas e do mau gosto por antecipação - o nível é baixo. Já basta o Dr. Barata aparecer à porta da Cruz Vermelha para tornar os portugueses reféns de instabilidade emocional e portadores de confusão mental, para agora sermos testemunhas de elaborações bizarras promovidas pelos meios de comunicação social. Estranho que a família próxima e afectiva de Mário Soares não tenha rogado ao país privacidade e decoro, mas de certa forma esse é o preço que parece estar disposta a pagar. A transformação da "hospitalidade" em espectáculo nacional, a cobertura e a sucessão de entrevistas de actores de todo o espectro político também demonstra uma certa miséria moral. Pensava que o homem privado ao menos o pudesse ser na sua hora. Dispensava este post mártir.

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publicado às 18:19

Gado, Galamba e retratos

por John Wolf, em 28.12.16

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João Galamba é apreciador de pintura. Não sei se é impressionista ou nem por isso, mas pede a Maria Luís Albuquerque que se retrate nas suas declarações. A sua linguagem de artista confirma a sua infantilidade precoce. Neste tira-teimas a ex-ministra das finanças Maria Luís Albuquerque não deve ser tida nem achada. A pergunta: quem é o pintor mais falsificado em Portugal (?), vem mesmo a calhar. Em todo o caso, o governo de sua geringonça não se livra de uma Cargaleira de trabalhos. Quer Sequeira ou não, as contas de merceeiro de bairro não interessam no que diz respeito à obra-prima macroeconómica. É mais aguarela. Basta um molha-toldos de um Brexit para o desenho ficar borrado. Basta um deslize mais acentuado da crise bancária em Itália para haver réplicas e contrafacções de chatices maiores. Pese embora uma certa favorabilidade das contabilidades da casa, Portugal está a caminhar sobre areias movediças. Quero ver Portugal na CES, na CES!  (Concertação Económica e Social) parece ser a cantiga do momento - é aqui onde decorre a faena principal.  A bravura ganadeira do rabujador do Partido Socialista Santos Silva também deve ser re-retratada por Galamba numa sessão de pinturas avulso. O invocador de reses disse tudo e deixou escapar a bandeirilha. Serão os funcionários públicos que em última instância terão de suportar os fardos, as farpas. Será o salário mínimo a ficar aquém da palete de intenções. E serão os patrões que terão de sentir o alívio neo-liberal para continuar a bombar. E lá se vai o ideário de Esquerda com uma demão de guache, gauche. Em todo o caso, e para não nos desviarmos do essencial das belas-artes, é óbvio que medidas extraordinárias e irrepetíveis terão de ser contempladas. Um orçamento de Estado, e as respectivas contas que decorrem do mesmo, são uma imensa manada de trabalhos. E há sempre desvarios. Desvairados que julgam que não.

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publicado às 17:30

A grande fila ética

por John Wolf, em 27.12.16

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A boa vontade e a generosidade de tantos portugueses que nem sequer conhecemos é posta em causa pelas batatas podres ensacadas nas nossas sociedades. Não me refiro a comunidades (onde as forças agregadoras são superiores às de desagregação - lede Ferdinand Tönnies). Essas já deram o berro. Quando vou ao Pingo Doce ou à mercearia do bairro, lá aparece a D. Hermínia, que do alto dos seus 80 anos não ousa pedir que lhe concedam facilidades - aguenta-se na fila com a aura de estertor. Por seu turno, o Telmo que deixou o carro a trabalhar e que tem o filho doente e que perdeu as chaves e que  tem a mesma mazela antiga na coxa e que não tem tempo, serve-se desta mesma ficção para defraudar as Donas Hermínias deste mundo. Mas há mais. Há o jovem arrumador que ostenta a única Cergal do mundo ainda fresquinha e que se faz ao tapete rolante da moça-caixa que se sente intimidada pela picada de toxicodependente. Mas isto não tem a ver com classes ou carteira profissional. Como se chama aquele rapaz que lançou aquela triste rede de lojas (?) chamada Amo-te Chiado ou o raio que o parta? Qualquer coisa Pedro Ramos Serranos, ou Ramos da Serra. Há um bom par de anos, a dita celebridade corta-me o caminho e apodera-se do funcionário da FNAC que me atendia justificando o impropério como um: tenho uma pergunta rápida. O problema que se nos apresenta é mais complexo e não se restringe aos idosos, aos deficientes ou grávidas. De um modo geral a procura da vantagem está enraizada na psique colectiva. Acho muito bem que sevícias financeiras sirvam para disciplinar os mais incautos. Quantas vezes não assisti ao insulto, prenho de ofensas, à grávida na fila do supermercado que leu correctamente o placard de fila prioritária? Triste sina esta que confirma o descalabro moral  e que implica a mão castigadora de uma entidade alegadamente sem doutrina de fé. A ideologia política não serve de grande coisa para alavancar alibis e razões. O critério diz respeito à essência humana, à alma  - à lama. Qualquer dia, quando o aperto for a sério, ninguém acredita. E borramo-nos todos.

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publicado às 20:10

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Hoje é dia 26 de Dezembro. O Natal já lá vai. Não quis fragilizar ainda mais o meu estado de espírito nesta quadra de celebração, por isso apenas hoje deitei os olhos à mensagem de Natal de António Costa. Amigos, não o façam. Não percam 5 preciosos minutos das vossas vidas. Isto é mesmo mau. Sacrifiquei-me em vosso nome e vi o filme - espero não ter ficado contaminado. Há quem afirme que António Costa é o derradeiro animal político, o último grito de acutilância e mestria empática, mas estão totalmente enganados. Está tudo errado. É tudo mau. O discurso do primeiro-ministro assemelha-se ao de um vendedor de canal por cabo. As frases do guião que passam em teleponto não poderiam ter sido mais sórdidas e cavernosas. O homem não dá uma para a caixa da substância, mas até poderia acontecer narrar estrofes vazias e fazê-lo com arte retórica. Não é isso que acontece. A melodia da comunicação foi substituída por uma cassete semelhante àquelas metidas por regimes jurássicos. Isto não é nada. Isto não é digno de Portugal nem dos jardins de infância todos somados. Uma criança que veja este teledisco fica com tendências destrutivas, com vontade de ir à fuça do educador de infância. Nesta emissão encontramos vestígios bafientos de um regime invalidado há décadas, sintomas de sevícias ideológicas e sinais claros de sobranceria partidária. Ainda faltam alguns dias para o final de 2016, mas pior era difícil. RIP, George Michael.

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publicado às 18:31

União de facto de Fernando Pessoa

por John Wolf, em 22.12.16

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Tenho de ter alguma atenção. Os amigos são amigos dos seus amigos, e não necessariamente amigos da ética e dos valores que devem nortear as nossas sociedades. Não faço parte do clube dos amigos Disney. Não andei a dar palmadinhas nas costas e a obter favores de proximidade. Estou à vontade. Sou um bastardo dessas sortes de salão, um desfiliado da amizade de décadas de grémio. O que diria Fernando Pessoa da união de facto dos 38 consagrados que se inscrevem na pauta em defesa do bom nome de Inês Pedrosa? Não teço comentários sobre o desempenho da escritora nem sobre a direcção da casa Fernando Pessoa. Não é isso que está em causa. Bastou-me mencionar a "possibilidade" de Marcelo Rebelo de Sousa puxar cordelinhos para prolongar a excepcionalidade da Cornucópia e seu mentor, para que prontamente fosse designado de "achinquilhador". Prontamente atiraram-me à cara que desconhecia os 43 anos de arte e saber. Não quero ver a lista de desassossego dos macróbios da terra para não ficar ainda mais enojado. Reporto-me aos factos. Houve favorecimento de um companheiro? Houve dinheiros atribuídos em virtude de "contratos" que não obedeciam ao normativo vigente? Houve lesados directos por não terem tido às mesmas condições de acesso a um expectável concurso? Em vez de buscarem o silêncio e a penitência, os 38 artistas que fazem parte do casamento, são homónimos da mesma prevaricação. Nada em Pessoa é insignificante. Nem essa nuance burocrática. E ele avisou-nos em tempos idos, em vida e depois de desfalecido. De pouco serviu.

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publicado às 19:55

Aí vêm os bancos americanos!

por John Wolf, em 21.12.16

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Podíamos viver sem bancos? Podíamos viver sem crédito? Podíamos viver sem títulos de dívida? Podíamos viver sem resgates do FMI? Perguntem a Catarina Martins, a Mariana Mortágua, ou ao guru que as conduziu pelos caminhos da verdade - Francisco Louçã. Releio o académico anarco-esquerdista norte-americano David Graeber e o seu pensamento expresso na obra-  Dívida, os primeiros 5000 anos -, a resposta é inequívoca: não. Não, o crédito sempre existiu. O dinheiro sempre foi desigual e para mal dos pecados europeus, na grande competição planetária de instituições financeiras, os EUA estão a dar uma ripada na Europa. Os bancos europeus, se fossem equipas de futebol, estariam bem mais próximas da Liga de Honra do que aqueles lugares que dão acesso aos grandes prémios da UEFA. O Barclays é um brexitário financeiro e o Deutsche Bank tem de pagar uma multa às autoridades americanas - pouca coisa, uns 6 a 7 mil milhões de USD ou Euros (sim, a paridade está bem perto). Nem vou mencionar o banco-barraca CGD por ser irrelevante neste campeonato. O que eu vejo ou prevejo é o seguinte. A administração Trump vai agitar as águas da "normalidade" e tirar partido da letárgica "tradição" europeia. Bastou o pequeno sopro do fechar da torneira de liquidez por parte da Reserva Federal para o dólar americano galgar a marca psicológica dos 1.04 face ao Euro. E isto tem consequências para este cantinho à beira-mar plantado. Os títulos de dívida dos Estados-membros da Europa dependem em larga escala da procura exterior e, no contexto da crise, foi o BCE que substituiu os agentes do mercado que foram incapazes de produzir a procura requerida dos títulos em causa. Se o dólar fortalecer ainda mais significa que a compra de títulos de dívida expressos em Euros se torna mais em conta para essa divisa e, por analogia ao Japão que detém grande parte da dívida dos EUA, a dívida europeia passará a estar nas mãos de entidades bem longe dos centros de decisão europeus. Sim, a UE tornar-se-á refém de bancos de além-mar e arredores. Mas há mais. Os commodities, como o petróleo ou o cobre, são expressos em USD o que dificultará o trabalho de governos de mãos largas que são obrigados a obter dólares para deitar a mão a energia ou vigas de ferro. Eu sei que estou a dar uma grande volta neste texto, mas ainda não percebi, à luz destas singelas considerações, como António Costa e a sua escola irão pagar as extravagâncias anunciadas para a década e para o ano de 2017. Foi o primeiro-ministro que anunciou há dias que o sector da construção precisa de levar um empurrão. E nós sabemos que o chefe do executivo não está a pensar num New Deal à Trump. Está a pensar no sistema político. Está a revalidar a chave socialista que permite enfrentar as tormentas. Foi o sector da construção que aguentou os socialistas em diversos mandatos, mas fez descambar as contas cada vez que houve um seu governo. Foram os lanços e sub-lanços de estradas que inquinaram as contas. Foram as auto-estradas para nenhures que comprometeram orçamentos de Estados. Foram elefantes brancos e outras bestas dispensáveis que descarrilaram Portugal. Enfim, todos sabem o que foi e como foi. Mas ao fim e ao cabo, com  todas estas extravagâncias, perde-se algo de essencial. A genuína ideia de empreendimento, de geração de dinâmicas económicas, a  noção de retorno e acima de tudo justiça social. Assim não funciona. E isto aplica-se a projectos de ordem diversa. Não excluo a Cornucópia e afins. São bons exemplos de erros de intransigência e incompetência em gestão de empresas. Há dias brinquei com a ideia de um Teatro Haitong ou uma Fundação das Artes Altice, mas não estava a brincar. A imagem é boa e serve. Portugal deve rapidamente pensar uma estratégia duradoura. No entanto, o país padece de um problema grave - a falta de visão. E nessa obscuridão lá aparece um velho projecto sacado da mesma gaveta de promessas e avarias. E que tal um novo aeroporto? E lá surge uma OTA de cara lavada para fazer mexer o sector das construtoras. É assim que funciona. Dizem que é teatro. Mas sai sempre caro. Não acreditem. Dinheiro não cai dos céus. E daqui a nada quando os bancos Wachovia ou a Wells Fargo abrirem sucursais na Lapa e no Intendente não roguem pragas ao Durão Barroso e à Goldman Sachs. O cozinhado é da casa. A receita tem dono.

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publicado às 15:28

Turcos, Russos e Berlinenses

por John Wolf, em 19.12.16

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O assassinato do Embaixador Russo Karlov em Ancara deve ser interpretado à luz dos interesses comuns da Rússia e Turquia. São mais os pontos convergentes entre os dois Estados do que aqueles que os separam. Os regimes de ambos os países dependem em larga escala da justificação excêntrica. Quer Putin quer Erdogan poderão validar de um modo ainda mais intenso o modus operandi dos seus aparelhos. O alibi terrorista "externo" serve convenientemente a escalada de sistemas de controlo interno, a repressão dos media, os ataques aos inimigos que alegadamente polvilham destinos como Alepo, o reforço do apoio a um regime análogo como aquele de Assad na Síria, mas sobretudo uma certa eternização dos pressupostos de política interna e externa russa e turca.  Desenganem-se aqueles que realizam a leitura deste ataque terrorista à luz de um conflito entre os Estados formais - entre a Turquia e a Rússia. Os dois Estados, simbioticamente, saberão extrair dividendos deste evento. Erdogan poderá invocar a necessidade de uma ainda maior limpeza das forças de segurança interna e incrementar o seu processo de saneamento. Quase simultaneamente o ataque terrorista no mercado de Berlim parece obedecer a uma lógica de oportunidade e não tanto de premeditação. O primeiro evento envolvendo o Embaixador Russo em Ancara serviu para "ligar" as antenas dos media internacional, e à boleia desse facto, os actores envolvidos em Berlim terão aproveitado a deixa. A Turquia que já havia plantado sérias dúvidas em relação a uma putativa pertença à União Europeia, aproveitará este evento para se distanciar ainda mais das instituições europeias que têm demonstrado grande ineficácia no que diz respeito ao grande desafio migratório, e a montante ou jusante, o drama sírio. A Rússia tem a sua agenda determinada há já algum tempo, e estes trágicos acontecimentos em nada descarrilam os seus processos. Isto não acaba aqui. Nunca acabou. Nem terminará. Este é o nosso mundo.

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publicado às 20:26

A cornucópia de Marcelo

por John Wolf, em 18.12.16

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Antes que me atirem dardos; a seguinte manifestação de opinião nada tem a ver com a qualidade ou a substância da missão da companhia teatral a Cornucópia. Tem mais a ver com Marcelo e algumas dúvidas existenciais. O Presidente da República Portuguesa tem de decidir se quer ser um mero agente da sociedade civil ou se um digno titular do cargo público que ocupa. Não pode misturar as peças. Não pode confundir os distintos teatros de operações. E não pode vestir qualquer farda a seu bel prazer. Por mais afectos que nutra pelo seu amigo Luís Miguel Cintra, Marcelo simplesmente não pode fazer uso de prerrogativas institucionais disfarçadas de informalidade e convívio para alavancar soluções que dizem respeito ao putativo ministério da cultura. Mas há mais. Se vai a uma tem de ir todas. Tem de ir às companhias teatrais de norte a sul do país, que com igual empenho e devoção, quantas vezes pro bono, servem a mesmíssima causa e que também se encontram em situação precária, senão terminal. Eu sei que o estatuto de Deus conta muito em Portugal. Que Luís Miguel Cintra é um monstro da cultura e que deve ser protegido custe o que custar. Nada de mais errado. O princípio que parece estar a ser posto em prática põe em causa algumas nuances ideológicas. A saber; que o dinheiro da maioria dos contribuintes deva servir causas parcelares, por vezes despropositadas intelectualmente ou culturalmente, de certos agentes, porque a cultura não é "mensurável" em termos de investimento ou retorno financeiro. O que está ser chorado não é muito diferente da missa do salvamento de bancos privados, a título de exemplo, e sem adiantar mais em analogias.  Do lado das cornucópias do país também há críticas a realizar. Os encenadores e directores de companhia não podem assumir cargos de gestão. Não é essa a sua missão. Devem concentrar-se naquilo que sabem fazer. Ou seja, no fogo-cruzado de razões e lamentações que já vai no ar, convém realizar a destrinça entre o efémero e o essencial. Portugal não detém uma visão sustentável e de longo prazo no que diz respeito às artes e letras, e os sucessivos governos ainda estão contaminados com a ideia doutrinamente carregada de que o Estado deve, "a fundo perdido", subvencionar as artes e os devaneios intelectuais que o pobre do cidadão comum mal consegue assimilar. Assim não se educa um povo, e confirmamos assim, que existe aqui alguma perversão. Uma certa intenção tácita em manter o fosso entre as Óperas e os festivais onde deambulam meritoriamente, e dentro do seu género, espécies como Tony Carreira e afins. A discussão é longa e relevante, mas na maior parte das vezes infrutífera. Hoje Cornucópia, amanhã a Barraca. Abana tudo, no fim.

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publicado às 13:35






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