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Hora de reparação moral

por Nuno Castelo-Branco, em 09.01.17

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Findou o período de espera, foram desaparecendo os imaginados obstáculos à urgente e imprescindível reparação moral que o país merece. Merece-o pela sua história secular e merece-o pelo necessário cumprimento de todas as cartas humanitárias a que o Estado internacionalmente se comprometeu.

Existe um muito relevante sector da sociedade que em silêncio tem assistido ao desfiar de décadas e visto morrer os seus entes queridos. Subitamente, em alguns momentos que todos compreenderão, assomam fúrias, faz-se a catarse contra quem, para o bem e para o mal, julgou poder assumir as responsabilidades pela liquidação de um património que não era apenas material, mas sobretudo, de uma certa consciência nacional que não se compraz com passageiras ventanias ditadas pelos apetites vindos de fora e julgados como perfeitamente utilizáveis para o desfasado refazer identitário de um povo visceralmente orgulhoso em toda a sua reconhecida humildade e que se se encontra hoje espalhado por todos os continentes. Essa reparação moral é absolutamente devida a brancos, a negros e mestiços de vários cruzamentos, a indianos e chineses, a índios, a cristãos, muçulmanos, hindus, animistas e outros. 

Muitos há que viram as suas famílias destroçadas e dispersas como folhas secas de outono. Os mais aventurados não conheceram ou assistiram à morte dos seus ceifados por catanas ou balas, por ébrios autos-da-fé avivados pelo combustível que faz mover praticamente todos os motores e interesses planetários. 

Portugal recebeu os frutos de uma colossal limpeza étnica e não consta ter o mundo dado conta disso. Num ruidoso silêncio chegaram e logo permaneceram relativamente expectantes de qualquer coisa que inicialmente até poderia ter sido uma forma de compensação pelo abrupto roubo, confisco ou destruição daquilo que para a imensa maioria eram parcas posses obtidas através do trabalho quotidiano. Poucos eram exploradores e mais escassos ainda eram os nomes ligados a grandes empresas que a passagem de testemunho do regime deposto provisoriamente alijou da preponderância económica e financeira, logo, da política da condução do Estado. 

Um ainda menor número retornou à terra que os viu nascer, a outrora Metrópole. Tal como em África e na Ásia, foram desde sempre leais a uma pátria ingrata e palidamente indiferente aos tormentos provocados de forma deliberada. Deliberada, pois a realização de um golpe de Estado que oportunamente foi baptizado como revolução, pressupunha a aceitação daquele sempre difícil dia seguinte, o da gestão de uma situação na qual todos colaboraram enquanto lhes foi conveniente.

Salvaram-se os que vieram, embora em boa parte reduzidos à mais confrangedora miséria material. Amontoaram-se naquele ..."demos-lhes tudo, até ficaram em hotéis de cinco estrelas, até no Ritz!" ou em roulottes emprestadas, acampados em tendas, patinhando décadas no lodaçal do Jamor, em pensões mais ou menos suspeitas, em casas degradadas. Quando puderam alimentar-se, comeram massa com massa, arroz com arroz, feijão quando havia e de vez em quando peixe, carne de frango e generosas rações de combate oferecidas pelo Real Exército da Suécia. Aturaram em silêncio todo o tipo de despautérios vindos de quem se julgava por cima. Mal vestidos e cabisbaixos, foram alvo da chacota geral, eram os tinhosos, tinhosos porque tinham isto e tinham aquilo e tudo perderam. 

Este país muito beneficiou com estes refugiados nacionais que o coloriram de norte a sul, inventaram profissões até então desconhecidas ou deixadas ao acaso. Não vieram para impor o que fosse, organizar atentados, guerrilha urbana ou exigir o impossível. Foram o sangue novo e vital de um organismo enfraquecido pela secular imobilidade social, pelo preconceito, estreiteza de horizontes, pela sacra má-língua e denúncia quadrilheira. 

Chegou a hora da imprescindível e incontornável reparação.

Exige-se que o Parlamento - à semelhança daquilo que ainda não há muito fez em relação aos judeus e cristãos-novos  que significaram afinal a grande maioria que jamais abandonou o país -, os três ramos das Forças Armadas que abandonaram muitas dezenas de milhar de seus camaradas de armas às mãos dos até há pouco inimigos, o governo e o próprio Chefe do Estado, apresentem em solene sessão um formal acto de reparação moral e a apresentação das devidas desculpas a todos aqueles, mesmo o que há muito se encontram no Além, foram ignominiosamente sacrificados à indiferença do oportunismo dos senhores que têm partilhado como casta, o poder.


É o mínimo. Não se pede a devolução de machambas, de uma imensidão de prédios, quintas, casas, fábricas, entrepostos, bancas de comércio e toda uma infindável quantidade de actividades que conformavam não apenas as vidas dos que tiveram a sorte de escapar para outros pontos do globo, mas também para aqueles que para sempre ficaram abandonados à miséria e prepotência que os noticiários batem com o ruído de tambores de guerra.

Exige-se, isso sim, aquele simples e muito mais difícil desculpem

Sem isso, nada feito, será impossível tapar com uma pesada pedra o imenso buraco de desfaçatez legislativa impossível de esconder, os actos de extorsão quando não de roubo descarado, ainda mais agravados por terem sido perpetrados por quem devia ter antes de tudo defendido os civis. É este o funeral que agora interessa e finalmente libertará as consciências de toda e qualquer reserva mental. Não se trata de vingança sobre a história consumada, mas sim de justiça moral. Será o regime finalmente capaz de tal grandeza?

Testemos então a sinceridade de quem comanda, vejamos então quem é quem. 

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publicado às 18:25

Um Anuário para a História

por Nuno Castelo-Branco, em 04.12.16

 

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Costumo percorrer com os olhos a vastíssima biblioteca do meu pai e é possível encontrar o que pretenda, por mais estranhos possam ser os temas. Em soma às muitas centenas de volumes que vieram de África, juntam-se milhares de outros adquiridos na Europa, surgindo como surpresa, o seu apego por obras que julgaríamos completamente afastadas da procura de um homem que antes de tudo se interessou pela grande e pequena História e respectivo anedotário relativamente picaresco, bem como pela literatura e aquela gastronomia que indelevelmente marca o ritmo da passagem dos séculos. 

Este espesso volume faz parte da história que um dia será contada e não acredito existirem muitos sobreviventes da ampla tiragem um dia feita pela Casa Bayly estabelecida em Lourenço Marques. Esta empresa tinha angariadores de assinaturas que garantiam a presença do nome de uma multidão de entidades e como seria previsível, não está completo. Falta uma miríade de empresas que pelos mais diversos motivos não quiseram pagar para aqui aparecerem, mas estas 1800 páginas são uma boa súmula daquilo que foi o Moçambique do início da década de setenta. Se a tudo isto ainda somarmos as anónimas iniciativas que abriam lojinhas-cantina mato fora, ainda teremos um quadro bastante impreciso daquilo que existiu. 

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Torna-se esmagadora uma pesquisa, mesmo que sumária e na diagonal. São tantas as empresas, são tão diversos os sectores de actividade, são de tal modo completos os serviços públicos presentes no então Estado de Moçambique que dir-se-ia estarmos a tratar de um país perfeitamente estruturado e capaz de de auto-governo e não de uma dependência política e ultramarina de uma nação europeia. 

Na agricultura e na pecuária, nas pescas, em praticamente todos os sectores da indústria e serviços, no comércio, turismo, assistência sanitária e escolar e mesmo a inopinada existência de uma Junta estatal da Energia Nuclear, os nomes sucedem-se, fazendo-me recordar alguns que eram visíveis em anúncios ou placards nas avenidas da capital moçambicana, ou em organogramas que ocasionalmente me passaram pela vista de adolescente.  

Em termos comparativos, este Anuário é o mais vasto entre aqueles até então publicados, pois nas estantes do meu pai encontro outros de décadas anteriores, sem dúvida mais modestos e pontilhados por sonantes nomes estrangeiros que a economia local fez com que deixassem de ser pertença de companhias majestáticas sediadas em Londres, Joanesburgo, Amesterdão ou Berlim. Folheando-os de vez em quando reconheço nomes de pessoas que conheci. Os portugueses foram nacionalizando essas actividades, normalizando-as no contexto local e sem que isso significasse o esbulho puro e simples daqueles que as detinham. Tornaram-nas parte integral da paisagem económica de uma Colónia que o deixou de ser para passar a ostentar o nome de Província e na fase final da soberania portuguesa, acabou como Estado, aquele degrau que precedia a natural independência a que desde muito cedo habituei os ouvidos nas conversas escutadas à mesa ou com as visitas que tínhamos em casa. Sim, falava-se da independência, mas muito longe do tipo de independência que aconteceu. Não se tratava daquilo que imediatamente alguns leitores porventura estarão a pensar, na independência paralela ao que sucedia na então Rodésia ou na África do Sul. Os portugueses dos anos sessenta e setenta jamais tolerariam algo de remotamente semelhante. O regime enviava de Lisboa para os bancos da escola a mensagem que literalmente falava  "do Minho a Timor" e isso era entendido a nível local como integração de todos. O caso da prática era outro assunto mais complexo e que requeria um curto espaço de tempo que tratando-se de história, significava umas poucas décadas, apenas uma geração. 

A administração portuguesa e as suas entidades locais conseguiram realizar uma obra impressionante que não se limitou aos centros urbanos. O interesse pelo país desbravou o interior, ali instalando a administração do Estado que construiu escolas primárias nas vilas que crescendo, em poucas décadas se transformaram em cidades como Tete, Quelimane, Nampula, Porto Amélia ou Vila Pery. As escolas secundárias e os liceus foram surgindo com o passar de poucas décadas e banalizaram-se. Alguns que se interessaram e amaram aqueles locais, mais tarde sobre a sua experiência escreveram algumas memórias, fazendo a história do que viram e ajudaram a criar

Politicamente este é um Anuário nefasto, pois em si contradiz praticamente tudo aquilo que convém fazer passar por verdadeiro e indiscutível. Habituados como estamos ao ... não fizeram nada durante quinhentos anos que afinal acabaram por ser pouco mais de noventa, este pesado volume fará as delícias dos historiadores que num futuro que considero possível já não se encontrar tão distante, dedicar-se-ão a realizar precisamente aquilo que jamais foi feito: a História. Estarão eles interessado em descortinar como se organizava a governação portuguesa em Moçambique? Bastar-lhes-á seguir o que existia e foi sendo acrescentado ao longo de decénios, confirmando aquilo que hoje todos sabem e preferem não reconhecer publicamente, ou seja, o colonialismo não é possível ser encarado como um todo, uma amálgama que anacronicamente irmane e unifique o correr de umas tantas gerações. Ainda há uns dias a RTP 2 passou um programa em que o objecto de interesse era o grande fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel e este fez exactamente o que honestamente não podia ser feito: a amálgama que facilmente induz ao engano, à re-invenção de uma história mais conveniente a quem detém o poder. O Moçambique em que nasci era certamente muito diferente daquele dos anos trinta em que os meus pais vieram ao mundo e este, por sua vez, completamente diverso do dia 15 de Setembro de 1916 em que em Lourenço Marques nasceu a minha avó, filha de uma natural da terra e neta de pioneiros ali estabelecidos logo após a delimitação das fronteiras saídas do Ultimatum.

Somos, todos nós, a nossa família, parte integrante da Associação dos Velhos Colonos de Moçambique e guardados ainda estão os canhotos comprovativos das quotas que nos davam acesso a todos os recintos da instituição, incluindo a piscina onde eu e os meus irmãos aprendemos a nadar. Era para nós um título de honra e por lá não era incomum verem-se outros colonos provenientes das mais diversas paragens do planeta, fossem eles amarelos do Extremo Oriente, ou aqueles genericamente reconhecidos por indianos, muitos no sentido mais lato do termo e que abrange gentes provenientes do Paquistão, Índia, do antigo Paquistão Oriental que ao tornar-se independente passou a ser conhecido por Bangla Desh, das Maurícias - as antigas Ilhas Mascarenhas dos séculos pós-descobertas - ou do Ceilão, não sendo invulgar alguns desses indianos terem como origem o Quénia, o Tanganica ou o rosário de antigas possessões da Coroa Britânica no Índico.

Éramos e considerávamos-nos simplesmente como luso-moçambicanos e assim foi até ao aproximar-se da primeira metade da década de setenta. 

As altas individualidades que Lisboa enviou a Lusaka para o encontro com Samora Machel e respectiva entourage, deveriam ter ido munidas com este catrapázio. Para além dos efusivos abraços e descaradamente paternalistas palmadinhas nas costas diante dos fotógrafos, de nada mais necessitavam para o cabal esclarecimento do que imperiosamente deveria ser feito, evitando-se em Moçambique o que aconteceu nas décadas anteriores em todo o continente africano. Em todo ele, sem excepção, do Magrebe ao Congo e Tanzânia. Simplesmente não estiveram à altura do momento. 

Servia este livro como aviso que ali não estava apenas uma fastidiosa lista de empresas de exploradores coloniais, mas sim a seiva vital de um país. Existiam milhões de vidas pendentes daquilo que este grosso volume encerrava e de toda esta fastidiosa lista de actividades dependiam para a sobrevivência, para a salvaguarda do ganha pão e das refeições garantidas, dos cuidados de saúde e da educação cada vez mais urgente num mundo em rápida transformação. Isto significava mercados cheios de produtos baratos fornecidos pelas machambas bem organizadas e produtivas, hospitais bem apetrechados com equipamento moderno e  pessoal competente, escolas, uma eficaz rede de saneamento básico, vacinação da população urbana e rural, defesa da vida selvagem, ou a permanência da indústria. 

Muito longe de ser um Mandela e muito distante de sequer ter penado aquilo que Mandela terá fisicamente ou psicologicamente passado, o Moisés da independência não foi alertado, não conseguiu ou quis entender o que significaria a deportação do pessoalmente odiado lastro humano colonial. Nisto e noutras excentricidades, está muito mais próximo de Idi Amin. Dizer isto é politicamente incorrecto? Talvez, mas neste caso não é nada que todos não tenham há muito interiorizado, talvez mesmo no politburo do partido dominante em Moçambique.

A impressionante e rápida saída de brancos, mestiços de vários cruzamentos, indianos, chineses e outros, como um raio fulminou num curtíssimo intervalo da história tudo aquilo que esta grande obra, precisamente o conteúdo das 1800 páginas deste livro, significava. Um país liquidado, esmagado em poucos meses e deixado à tremenda fome, incúria no campo da saúde e abandono económico, unicamente devido à incompetência e furor ideológico totalmente desadequado à realidade africana. Rapidamente passado a ruína comparativamente ao que até há pouco fora, tudo desapareceu como se um Apocalipse Moçambique tivesse sofrido sem culpa ou responsabilidade alguma. Mesmo os entusiastas iniciais, aqueles poucos que tentaram ficar para idealistamente construirem algo, fosse esse algo o homem novo ou a nova terra, também fugiram, não conseguiram enfrentar o visível fracasso no qual participaram. 

Aqui está uma boa parte da razão pela qual as notícias que de lá chegam nem sempre são aquelas que gostaríamos de ouvir.

Paciência, são estes afinal, os tais ventos da história. Há então que aceitar os factos consumados, mas nem por isso deixarmos de tentar entender o que se passou. É esta, a verdadeira História. 

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publicado às 19:55

El comandante

por Nuno Castelo-Branco, em 26.11.16

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publicado às 17:38

Tal como dantes...

por Nuno Castelo-Branco, em 16.11.16

 

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 ...os Estados Unidos da América são em termos internos um Estado de Direito e na esfera internacional, naquela que mais nos deveria importar, um império, talvez o mais poderoso, mesmo em termos comparativos, da História registada. 


Poderemos datar o advento imperial aquando da expansão para leste e em direcção às terras que devido à herança de Tordesilhas, teoricamente coube ao então recentemente criado México independente, para logo depois, exterminados os índios e consolidada a posição hegemónica na América do Norte, passarem os EUA decididamente à expansão ultramarina, fosse ela de forma muito directa - a Guerra Espano-Americana com o prévio preparar da sempre fácil histeria da opinião pública interna através dos artifícios mediáticos de Hearst e do seu rival amarelado Pulitzer - ou de forma enviesada através da despótica suserania sobre uma infinidade de Estados central e sul-americanos a que rapidamente foi dada a sintomática e bem merecida denominação de repúblicas das bananas. Em suma, aos our son of a bitch Trujillo e Baptista, sucederam-se os inevitáveis Castro, Noriega e vários tipos de Maduro.  

A lista de possessões coloniais adquiridas é longa e dispensa comentários, pois vão desde a Cuba protegida até ao 1º de Janeiro de 1959, às Filipinas, Hawai, Porto Rico e um rosário de ilhas estrategicamente colocadas no Pacífico, onde Midway é apenas mais uma entre outras. Por mero acidente da relação de mútuo interesse que decorre da Aliança Luso-Britânica, Portugal não sofreu no ocaso do século XIX o mesmo destino do seu vizinho espanhol e hoje os Açores ainda fazem parte do conjunto nacional, enquanto Cabo Verde e muito possivelmente Timor e Macau, viram chegar até ao final do século XX, a presença portuguesa que agora continua sob outra forma menos comprometedora para a reputação ditada por vendavais da história.

São estes, os factos.

 Tal como durante o período que antecedeu a primeira eleição do agora constitucionalmente resignado à saída Barack Obama, as eleições presidenciais americanas e o sistema aparentemente absurdo e inextricável de selecção de candidatos a gestores de equilíbrios dos lóbis locais, não me despertou grande interesse, pois tal como dantes, o princípio da ressalva imperial é alheio à personalidade e grupos que circundam o escolhido pelo bastante volúvel colégio eleitoral. A Administração permanente existe, é inamovível, não é eleita e decide na obscuridade dos gabinetes. 

Como Império, os Estados Unidos possuem interesses entre os quais o princípio do second to none é uma constante desde 1918, ano em que a passagem de testemunho foi patente aos olhos de uma Europa prostrada pela guerra que apenas beneficiou aquela potência transatlântica. Passaram então os EUA a estabelecer a aceitável forma da organização política, social, na cultura de massas, a ordem financeira e económica a nível planetário, apenas adaptando os seus ímpetos às situações criadas pela própria evolução do sistema internacional. Passaram assim por diversas fases, apenas sendo notável uma certa ausência no decorrer dos anos difíceis da Grande Depressão, quando internamente tiveram de enfrentar uma esmagadora crise social decorrente da implosão do sistema financeiro ditada pelo desvario da ganância, situação tornada insustentável pelas catastróficas consequências dos anos de seca - o chamado período da Dust Bowl - que agravam enormemente a penúria generalizada que apenas seria suprida pelo providencial desencadear da II Guerra Mundial. Daí à dominação planetária foi apenas uma questão de tempo, momento esse que chegou aos nossos dias.

America First!, o desabafo já escutado nos anos imediatamente anteriores a Pearl Harbour e que sob o patrocínio de C. Lindhberg, mobilizou uma boa parte da opinião pública americana, bem coberta pelos media.

America First! hoje novamente audível sob outro lema já ouvido há três décadas, o Great Again! um dia pronunciado por Reagan. Este Great Again! poderá muito significar para os americanos, mas não necessariamente para todos os demais que não se encontrando directamente subvencionados numa miríade de agências, empresas, think tanks e organizações sempre dispostas a servirem quem as sustenta - e aqui entra na equação a própria ONU -, normalmente se deixam hipnotizar por tudo o que a colossal eficiência da máquina cultural, no seu sentido mais amplo, difunde em termos globais. Em suma, o que é bom para eles, geralmente habituados ao let's kick some ass!, poderá não ser assim tão positivo para os demais. 

Vejamos então onde de imediato poderá o mundo obter algumas concessões da Administração Trump, concessões essas que possam em simultâneo beneficiar os americanos e de uma forma bastante directa e exclusivamente em termos estratégicos - e na paz social -, o cada vez mais Velho Continente.

1. Na Europa oriental rufam em surdina os tambores de um progressivo afastamento, pois nos últimos quatro anos os riscos de conflito aumentaram exponencialmente e hoje encontramo-nos na iminência do impensável, ou seja, um totalmente desnecessário e final confronto directo com uma Rússia que inegavelmente foi humilhada. Humilhada após a queda há muito aguardada do sistema concentracionário soviético, viu todos os antigos satélites desertarem e rapidamente aderirem à NATO, quando muitos esperavam que aqueles países, tradicionalmente palco das disputas germano-russas, fossem pelo menos neutralizados. Tal não sucedeu e para isso poderosamente contribuíram as novas autoridades que durante mais de meio século sofreram em silêncio os arbítrios e abusos das forças ocupantes no pós-guerra, confirmando também infinitos casos ocorridos no passado pré-1917: a Polónia, os  Bálticos e Balcãs orientais, rapidamente se abrigaram sob o guarda-chuva americano, não tendo por isso de procederem à rápida adequação das suas forças armadas às exigências impostas pelas novas doutrinas e realidades tecnológicas do sector militar. Se à questão militar passarmos a outros aspectos como os industriais, financeiros e económicos, o quadro da humilhação torna-se ainda mais notório, pois ainda há uma década a Rússia era encarada como um mero sucedâneo de um Lebensraum fornecedor de matérias primas e de mão de obra especializada e a preços sem concorrência. Bem cedo, como praticamente todas as capitais da Europa ocidental, Lisboa encheu-se de mecânicos, pedreiros, estucadores, pintores, electricistas e serventes provenientes do antigo bloco soviético. Mal pagos, relativamente mais instruídos do que nós próprios, sem papéis que legalizassem a sua situação e a tudo se sujeitando em troca da possibilidade de usufruírem da paz social, das escolas para os filhos, da assistência dos SNS, de um tecto de resguardo e refeições quentes na mesa. É a verdade que bem conhecemos e fingimos ignorar. 

O advento de uma classe empresarial directamente saída dos quadros do PCUS que de forma muito célere passou a entender na perfeição as artes e artimanhas do capitalismo mais selvagem, criou um cenário de aparente opulência que naquela parte do globo já não se via desde os tempos em que a aristocracia e o empresariado do império dos Romanov passava férias na Côte d'Azur, comprava e construía palacetes em Paris e fazia compras em Viena, Berlim e Londres. Iates espampanantes recheados de garrafas de champanhe e despidas beldades mais ou menos escusas, foram notícia durante alguns anos, juntando-se ainda ao rol de extravagâncias a compra de clubes de futebol, empresas de comunicação e forte jogatina no complicado sistema bolsista ocidental. Daí ao diz-que-diz das lendas do tráfico de armas, drogas e seres humanos foi apenas um passo, pois a opacidade de uma Rússia sempre desconhecida e talvez imerecidamente imaginada sempre sob o pior dos prismas, tem sido uma constante desde que Pedro o Grande lançou a primeira pedra que ergueria nas margens do Neva, a sua capital europeia.  

Urge fazer algo e de preferência, imediatamente.

Existem muito relevantes minorias russas que vivem nos Países Bálticos, minorias essas ali instaladas após o resultado de 1945 que significou antes do mais, a deslocação sem precedentes de populações inteiras no acanhado espaço continental europeu. Estaline recheou as novas conquistas com elementos populacionais que considerava essenciais à consolidação do poder russo naquela zona estratégica do Báltico que vai de Riga a uma Königsberg despojada da sua população germânica e rapidamente rebaptizada de Kalininegrado, agora transformada numa plataforma de mísseis. 

Não valerá a pena negar que algo escandalosamente escondido e bastante absurdo por lá vigora, desde o afastamento dos russos da participação cívica em lugares de relevo na administração, como nas forças armadas e até, pasmemos, na própria organização residencial que ali, de Riga a Tallin ou Vilnius, reproduz quase exactamente o sonhado e falhado Melting Pot que bastante teoricamente acontece além-Atlântico. Existe, mas adequado a umas poucas comunidades.
Este é, queiramos ou não, um argumento precioso para a propaganda justificativa das acções das autoridades do Kremlin, para mais resguardadas estas pela tradicional lealdade que os russos votam por regra da história, a quem comanda em Moscovo. A U.E.+NATO, têm clamorosamente falhado na salvaguarda dos direitos daquelas minorias e este é um problema aparentemente sem solução, dada a degradação da situação geral.

2. A Ucrânia, perdida a oportunidade de suceder-lhe precisamente o mesmo que durante meio século tornou a Finlândia numa zona neutra, mas agora com a vantagem de ambos os contendores partilharem grosso modo o figurino económico-social, tornou-se num azarado mundo de erros, crimes políticos, violência, caos financeiro e ruína económica, provocando o rápido irredentismo das suas minorias nacionais, sejam elas russas, polacas ou outras que ali vivam. Não se aprendeu grande coisa com algumas das causas dos dois conflitos mundiais.
A falaciosa "perda" da Crimeia, subtracção essa que deveria ter sucedido por mútuo acordo logo na data da independência ucraniana, acabou num facto consumado após a rápida reacção do Kremlin à sugestão de Sebastopol poder vir a ser absorvida pelo tentacular sistema de bases da NATO, leia-se, dos EUA. Às contingências militares propriamente ditas, junta-se o poderoso sentimento de ultraje nacional dos russos que sintomática e perigosamente é de forma ostensiva, ignorado no ocidente. 

Nem tudo está perdido, apesar do folclore mediático das Praças Maidan, das "revoluções coloridas" encenadas um pouco por todo o lado e organizadas exactamente pelos mesmos sectores. Isto propicia um fértil pasto para todo o tipo de teóricos da conspiração e o refúgio da opinião pública no medo.  

Talvez seja aconselhável a nova administração americana reconhecer os factos e estabelecer com os russos, com o regime de Putin - é assim que no ocidente são designados todos aqueles ordenamentos políticos que não correspondam exactamente ao pretendido -, um modus vivendi que salvaguarde a face de americanos e de russos, em simultâneo contentando a cada vez mais subalterna Europa e garantindo em troca de certas condições escritas em formal Tratado de parceria renovada, a paz no continente e a necessária neutralidade da Ucrânia como ponto de encontro entre o ocidente e a Rússia.

Vencidos os warmongers pelo voto no ainda recentemente constituído Colégio Eleitoral, podemos estar praticamente seguros de que Putin não atacará, pois não tem razões para o fazer.  Previsivelmente actuará em conformidade junto das suas coercivas milícias dispostas no terreno. O status quo territorial não é apenas desejável, como possível. Portugal, situado no centro da civilização ocidental que geográfica e culturalmente, no seu sentido mais amplo, abrange todo o espaço entre Los Angeles e o Estreito de Bering, poderá então vislumbrar com outra perspectiva o potencial da CPLP.  

3. No Próximo Oriente a situação é outra, ditada pela intrincada teia de interesses que opõem iranianos, sauditas, qataris, israelitas, grandes empresas e o Dep. de Estado+Pentágono dos EUA, os turcos e os russos, aos quais se juntam as reivindicações curdas, cristãs, iazidis e o absurdo e há muito esperado despertar de um claramente criminoso jihadismo de recorte neo-medieval. A consequência? A Europa tem de lidar com o "Caso Refugiados", uma torrente humana ininterrupta que vai esvaziando não apenas as zonas de guerra, como outras situadas a milhares de quilómetros e que pouco ou nada têm directamente a ver com o conflito que há décadas decorre entre as margens do Mediterrâneo oriental e o Eufrates. 

É este um cenário muito pior e mais perigoso que aquele descrito nos pontos 1. e 2. e que por si, devido ao evidente, claro e sempre politicamente correcto negado confronto de civilizações, é capaz de despoletar um embate directo num momento fortuito. Assad parece cada vez mais de pedra e cal, inamovível e inesperadamente para alguns, surge hoje como a parte essencial para o relativamente rápido resolver de um conflito que mercê dos erros crassos cometidos em Bagdade e Tripoli, tornou toda a Europa num instrumento inútil como força dissuasora e totalmente incapaz como entidade reactiva. Pior ainda, quebrou a espinha dorsal da até há pouco incondicional ou resignada solidariedade ocidental. O Brexit consiste apenas numa entre outras cada vez mais prováveis consequências. 

É uma evidência a oposição de praticamente todos os países da U.E. a uma guerra com os russos e aliás, dados os resultados eleitorais, o americano que trabalha, gosta de conduzir vistosos bólides e tem de pagar contas para sustentar a família, também não a deseja. Não estamos em tempos propícios a riscos, pois estes envolvem nada mais senão o Armagedão. 

Afastadas as intransigentemente sempre irascíveis Applebaum e os bem pagos tamborileiros da guerra, urge agora falar com Putin, urge falar directa ou indirectamente com Assad.

Fira-se o amor próprio em prol do interesse geral. Mas... amor próprio de quem?


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publicado às 17:42

Boa viagem… até à China

por Nuno Castelo-Branco, em 10.11.16

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A América dos "rédenéques", racistas, deploráveis, analfabetos, misóginos, homofóbicos, cretinos, imbecis, KKK, xenófobos, anti-islâmicos, anti-judaicos, anti-budistas, anti-hindus, anti-católicos, anti-hispânicos, preconceituosos e por aí fora. 

Pronto, nós todos, da esquerda e da direita europeia, já temos um excelente argumento para as manifs e depois, para desopilarmos, uma viagem de relaxamento até à China.

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publicado às 09:52

Make America Great (Britain) Again!

por Nuno Castelo-Branco, em 03.11.16

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publicado às 08:30

1983

por Nuno Castelo-Branco, em 14.10.16

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 Estávamos em 1983, na fase final da Guerra Fria. Não costumo falar das minhas experiências, mas neste caso abrirei uma excepção. Fui convidado pelo então deputado Borges de Carvalho, para participar num seminário da NATO a realizar-se em Pont-à-Mousson, nas cercanias de Nancy, numa abadia magnífica e adaptada para este tipo de encontros. Um serviço onde a gastronomia e civilidade francesa era acompanhada por um horário de trabalho intenso com professores e militares provenientes de alguns dos países-membro da coligação ocidental. Como colegas portugueses tive um sobrinho do presidente da A.R. de então e o actual primeiro-ministro António Costa. 


Naquele momento a NATO encontrava-se sob esmagadora pressão militar, política e mediática após uma fase de refluxo da presença do ocidente em todo o mundo, perda de influência à qual não foi estranha a derrota americana no Vietname e mais importante ainda, como então sublinhei a quem pacientemente quis ouvir-me, a catastrófica perda de todas as possessões de um dos países fundadores da Aliança Atlântica, deixando assim oaqueles que deveriam ter sido os interesses euro-americanos perigosamente fragilizados nas vias de acesso do grande comércio internacional marítimo, para além da evidente segurança militar que a existência de portos, costas e ilhas amigas representavam. Abertamente o afirmei a quem do outro lado do Atlântico ali chegou para um misto de doutrinação, aulas e talvez prospecção de futuros quadros de confiança. Nunca mais fui convidado para coisa alguma e muitos anos mais tarde percebi o porquê, mea culpa,  quando os outros dois portugueses, então muito mais parcos nas palavras, bem depressa chegaram aos lugares que pretenderam. Nestas reuniões aparentemente procuravam alguns yes, Sir! e a minha personalidade não lhes pareceu cumprir este requisito. 

O que lhes terei dito que tenha soado tão mal aos seus ouvidos? 

Começando por criticar rispidamente toda a política norte-americana quanto ao seu relacionamento institucional com um aliado formal como era, sempre foi e é Portugal, foi em silêncio que escutaram a minha longa lista de protestos plenamente justificados com números e factos e sempre em termos comparativos com as outras prioridades internacionais das administrações que teoricamente se sucederam na Casa Branca. A posição dos EUA na Indochina, os erros crassos, quando não abusos descarados, na relação americana com todos os países da zona, confirmando o fetiche soviético pelo dominó; o disparatado boicote do esforço de guerra português na guerra em África, precisamente em três frentes onde o ocidente poderia ter feito a diferença; o estranho caso da quase gratuita Base das Lajes, sempre em comparação com o despejar de biliões de dólares para sempre irremediavelmente perdidos em Subic Bay e Cam Rahn; a total falta de informações relevantes, obrigatoriamente no âmbito da aliança a fornecer a Portugal e bem pelo contrário, a passagem delas para o campo adversário por intermediários vizinhos dos portugueses. 

Em algumas conversas fora das salas, dois dos militares então presentes concordaram com praticamente tudo o que lhes dissera e encolhendo os ombros - não encontro imagem mais apropriada - disseram-me que não podiam corrigir o mal já feito e ultrapassado em quase uma década. O pior é que estes reconhecidos erros terão durado o tempo suficiente para serem corrigidos ou minorados, atendendo à evolução claramente negativa do conflito na Indochina e a duas consecutivas guerras no Médio Oriente, onde Israel em 1973 seria salvo in extremis, mercê de uma massiva ponte aérea na qual os Açores jogaram uma parte muito relevante, sem que por isso Washington sequer aconselhasse o seu preferencial aliado a moderar a retórica anti-portuguesa nas Nações Unidas. Retorquiu um deles que para o Pentágono, Portugal apenas era uma landing beach a saturar com bombas e mísseis antes do desembarque dos G.I. Assim mesmo, a seco e um tanto ou quanto já sem paciência para a repetição do reconhecimento dos apontados erros. 

Neste período cheio de incertezas, a Base das Lajes vai sendo notícia de forma discreta, não procurando - e bem - as autoridades de Lisboa agitar oceanos que apenas poderão muito prejudicar o nosso país no seu todo territorial. Tem alguém a mais pequena dúvida disso? A viagem de Costa à China não serviu apenas para o estreitamento de relações comerciais luso-chinesas, disso deveremos estar tão certos como o Sol despontar a leste todos os dias.

Existe um facto incontornável que pela sua perenidade de imediato deverá estar sempre presente a quem, seja quem for o partido que domine o poder em Lisboa, se encontre em qualquer tipo de negociações em relação à preciosa possessão portuguesa situada em pleno Atlântico norte: mesmo que os EUA retirem todo o pessoal que tem povoado a Base das Lajes, decerto Washington ali manterá um corneteiro e um soldado que ali diariamente hasteie a bandeira estrelada. Os símbolos conformam toda a importância que têm e neste caso, a Base é de facto um local privilegiado no preciso momento em que o alargamento do Canal do Panamá promete intensificar ainda mais as ligações marítimas do resto do mundo com a até hoje abastada Europa, agora, apesar da censura dos media, sob um ataque total proveniente do exterior. Poderão argumentar os portugueses e os seus hipotéticos convidados, venham eles de onde vierem, com  intenções meramente científicas ou comerciais, mas deverão sempre ter em conta que os americanos jamais admitirão um único corneteiro, para além do seu, naquelas ilhas. Muito menos ainda, aviões, navios, blindados, mísseis, soldados ou técnicos militares que sequer de longe possam representar uma passagem de testemunho. Esta é a realpolitik com que temos de nos conformar e se são totalmente desejáveis e imprescindíveis as novas relações de comércio e troca de conhecimentos entre Portugal, a China, a Índia, a Rússia, o Brasil e até outros países europeus que connosco ainda participam na bastante incerta U.E., a questão da posse militar do arquipélago açoriano é um escolho imenso, intransponível. Para além da praticamente segura perda dos Açores, o nosso país não pode ser um alvo de qualquer tipo de campanha hate ou ter Lisboa a servir de alvo como foi Belgrado. 

Hoje a NATO tal como existe é questionável, urge mesmo a sua rápida reforma após as colossais decepções decorrentes da queda do comunismo soviético. Há que avisar todos os nossos aliados acerca desta urgência incontornável e de preferência, numa reunião magna, diante do mundo.

Previa-se a anexação do território da zona soviética da Alemanha e a neutralização ao estilo finlandês dos países do Pacto de Varsóvia, outrora servos de Moscovo. Não foi isso o que aconteceu, para grande desilusão russa, preparada como estava para aceitar a retirada do território da RDA, mas que hoje vê com legítima inquietação a grotesca, aberrante tentativa de incluir a Ucrânia numa aliança que parece cada vez mais tentacular e devemos dizê-lo sem rebuços, unilateral e capa de desculpa para acções que apenas a um dos seus membros interessam. Muito legitimamente, os russos sentem-se ameaçados directamente e para isso bastará passarmos nós, os aliados ocidentais, as nossas vistas sobre a lista de bases ocidentais espalhadas de ocidente a leste e a sul da Rússia. Em política, a psique funciona e nalguns casos é mesmo um factor determinante.

A NATO surgiu com propósitos defensivos, até de garantia de progresso material e liberdade numa Europa destruída pela guerra e ódios seculares. Cumpriu plenamente o seu papel e obteve, graças à persistência e claras insuficiências e contradições internas do sistema soviético, uma vitória certamente esperada. Nos anos de 1989, 1990 e 1991 bateram-se palmas de alegria, cantaram-se hinos, unificou-se uma nação dividida arbitrariamente e num ápice desapareceram os Estados totalitários que oprimiam os próprios povos, mantendo-os numa abjecta sujeição a um suserano externo, fatalmente incompetente no que interessava - o conforto material, a liberdade de expressão e circulação -  e brutalmente impiedoso. 

Hoje começamos a ouvir ao longe o inconfundível rufar dos tambores da guerra. Num momento em que os russos nunca viajaram tanto, num momento em que os russos livremente lêem e escrevem tudo o que entendem, num momento em que os russos são uma sociedade de consumo muito exigente e valiosa para o conjunto europeu, num momento em que os russos investem, compram e viajam na Europa, estamos perante aquilo que durante os anos de chumbo que foi a Guerra Fria jamais sucedeu: a iminência de um conflito militar de larga escala, onde, queiram ou não queiram os mais optimistas, as armas nucleares serão usadas, mesmo que pontualmente. Não serão apenas utilizadas na Europa, mas também além Atlântico, ...precisamente onde mais lhes dói, segundo o dizer de um conhecido russo.  A Síria será então um pretexto tão ínfimo como o Caso Gleiwitz. 

Em 1939, o governo então presidido por Salazar encontrou-se perante o dilema de se situar entre a potência tutelar, o então enfraquecido Reino Unido que connosco fazia fronteiras na África e na Ásia e uma Alemanha plena de vigor e espírito expansionista. Salazar sabia que não podia quebrar com os ingleses como sempre prepotentes na chantagem sobre o nosso império e em simultâneo, também tinha a plena consciência do que poderia advir para Portugal ao antagonizar-se com o Reich.

Declarada a guerra a 3 de Setembro, o Presidente do Conselho foi à Assembleia Nacional e ali manifestou a fidelidade portuguesa à Velha Aliança e em simultâneo declarou a neutralidade. Pois é disso mesmo que os nossos aliados têm a imperiosa necessidade de recordar e que o então meu colega de três semanas, António Costa, hoje primeiro ministro, deverá, em caso de inopinada e impensável necessidade,  integralmente copiar. Mesmo morrendo, salvaremos a face em relação aos poucos que ficarem para contar a história. 




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publicado às 22:11

Um Homem decente, um amigo de Portugal

por Nuno Castelo-Branco, em 13.10.16

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Tal como os tailandeses, tenho um retrato dele à entrada de minha casa. Muitas vezes visitei a Tailândia, a última das quais no já longínquo ano de 2001. Daquele país apenas trouxe boas recordações, numa parte do mundo bem conhecida pelas más novas que de norte a sul e de oeste para leste desde há muito nos chegam, mercê de regimes espúrios e mortíferos conflitos invariavelmente engendrados noutras latitudes.


É um país de contrastes, tanto aqueles ditados pela sua geografia como os outros que se devem à multiplicidade cultural que tendo como base o Sião que a nossa velha história bem reconhece como sendo o equivalente à nossa aliada Inglaterra na Ásia, já no século XX e devido a imperiosas necessidades de afirmação externa e garantia da inviolabilidade de fronteiras, transformaram o antigo reino em Prathet Thai, o "país dos homens livres", a Tailândia. 

 

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Nunca tendo sido colónia de qualquer potência europeia ou sofrido longa ou directamente a suserania de outrem, o velho Sião é povoado por gente orgulhosa daquilo que a sua história representa. A enorme maioria pouco se impressiona com os modismos que varrem o planeta e abraçando com entusiasmo a modernidade material, aferra-se às suas tradições como garantia identitária que irmana budistas, muçulmanos  e cristãos em torno da instituição por todos olhada como suprema e muito dificilmente contestável: a Monarquia.

Golpes, contra-golpes, políticos eleitos ou auto-nomeados para logo após caírem no esquecimento, têm-se sucedido na gestão dos assuntos correntes. O país atravessou os difíceis anos da Guerra da Indochina, onde outras duas monarquias baquearam devido à intromissão de potências externas, ditando isto o eclodir de massacres, fomes endémicas, genocídio, miséria material e o arrasar de património para sempre perdido. Tal não sucedeu na Tailândia e embora a muitos isto possa parecer como mais um daqueles acasos da correlação de forças entre as super-potências, a verdade é outra, bem presente no vasto território que tive o prazer de tantas vezes visitar e onde durante meia dúzia de meses vivi, precisamente no cinquentenário da ascensão ao trono de Rama IX. 

Muito lhe deve o país. Para além da infindável lista de actividades que incansavelmente exerceu ao longo de mais de meio século - na agricultura e pescas, boa gestão dos solos, protecção da vida selvagem, irrigação, cultura e preservação das actividades tradicionais que como a seda afamaram o reino em termos internacionais, assistência aos órfãos, educação popular que faria cair o anafabetismo para os residuais 1% da população, na saúde popular e no combate à malária e à sida, na música, fotografia, museologia -, Bhumibol Adulyadej palmilhou a sua terra como nenhum outro, visitando de imprevisto os lugarejos mais longínquos e sentando-se no chão com os camponeses, ouvindo o que lhe tinham para dizer. Nunca alguém o terá visto a fazer o mesmo a qualquer um dos grandes deste mundo ou a um dos milhares de políticos que momentaneamente poderosos pareciam pôr e dispor dos destinos daquele reino. Pelo contrário, o mundo um dia assistiu atónito ao quase kaow-toei de dois militares desavindos, perante um monarca de semblante momentaneamente severo e que naquele momento defendeu diante de todos o seu povo. Há imagens que ficam e esta é talvez a mais capaz de impressionar os ocidentais. 

 

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É hoje um dia triste, não apenas para a Tailândia como para o resto do mundo num momento de incerteza geral. Quando nos chegam notícias que ininterruptamente ameaçam colocar ainda mais mediocridades absolutas em cargos de decisão que a todos afectam, o desaparecimento de Rama IX deveria por um momento fazer-nos pensar acerca daquilo que nos cerca.  A grandeza do homem é inegável, o mundo inteiro sabe o que ele significou e reconhece-o, tal como acabou de fazer do alto do seu púlpito na ONU, o também simbólico Ban Ki-moon.

Portugal é pela generalidade dos tailandeses olhado como uma potência histórica, a primeira e talvez única potência europeia que leal e abnegadamente tantos serviços lhe prestou, ali deixando vitais laços de sangue que ainda perduram. Por isso mesmo estranharei se o governo de Lisboa não agir em conformidade com o momento. Como acima disse, a Tailândia é para a nossa história na Ásia, um continente em ascensão, aquilo que para todos os portugueses significa a Inglaterra. Aja então com sageza e rapidamente. 


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publicado às 14:41

Taxismo de sempre

por Nuno Castelo-Branco, em 10.10.16

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Como não utente do serviço de taxis, tinha decidido nem sequer comentar a controvérsia que opõe os taxistas aos seus colegas da "Iubâr" ou da "Québifai". Rarissimamente mando parar um taxi, logo este é um tema que não me interessa minimamente. Contudo, no telejornal da uma, assisti às expectáveis e há muito previstas cenas de violência que não se limitou à farta verbosidade que o luso-calão encerra num dos infindáveis tomos acumulados ao longo de quase um milénio de história pátria.

Recordo apenas o primeiro contacto que tive com tal sector e por mais miraculoso que a muitos possa parecer,  aqui deixo a data desse encontro imediato: a escura e bastante tépida noite de 7 de Setembro de 1974.

Chegados a Lisboa devido à bastante aturada decisão paterna de antecipadamente auto-limparmos familiar e etnicamente Lourenço Marques, fomos viver para a aproximadamente meia dúzia de metros quadrados propiciados pela roulotte do primo Joaquim Dantas. Em Monsanto estávamos relativamente seguros numa Lisboa em pueril polvorosa.

Nos primeiros dias aproveitámos para visitar a parte da cidade histórica, hoje muito mutilada devido à febre do obra a obra que há décadas tomou de assalto as mentes de sucessivas vereações camarárias. Após um dia sem grande historial a registar e como àquelas horas nocturnas o machimbombo 43 já não funcionava, o meu pai decidiu abrir os cordões à bolsa e pcht! Taxi! Taxi!

- É para o Parque de Campismo de Monsanto...

E lá fomos sentados no banco de trás, acompanhados pela nossa mãe. Íamos conversando e ainda nada habituados aos até então desconhecidos termos como foleiro ou reinar - "rénar", no dizer geral -, pontilhámos a conversa com os ya, maningues, nice, tombazanas e outras palavras que tínhamos aprendido nas ruas e casas da nossa volatilizada cidade natal. Provavelmente o chauffeur moita-carrasco bigodudo e de boné estranhava, mas nada dizia, até que o rádio iniciou o debitar das notícias que precisamente naquele 7 de Setembro traziam ao conhecimento da então Metrópole, acontecimentos num território bem conhecido e por nós já interiorizado como para sempre distante. 

...graves acontecimentos (...) colonos em fúria (...) fascistas (...) Rádio Clube de Moçambique (...) assalto (...) forças reaccionárias (...) colonialistas (...) conluio com os sul-africanos (...) Lourenço Marques (...) MFA...

O meu pai gentilmente pediu ao motorista: 

- Desculpe-me, importa-se de aumentar o som do rádio?

- Eh pá, ó camarada, afinal d'adonde bócêzes são, pá?  

- Somos de LM, chegámos há uma semana e vivemos provisoriamente em Monsanto. 

- F-se!, Car...! Pqp!, no meu taxi uma família de fachos dum car...?! Os pretos deviam ter-vos cortado às postas seus fdp dum car...! 

Parou o radiofonizado calhambeque Mercedes "marreco" num profundo e doloroso gemido de travões gastos.

- Rua já, seus cabr... antes que eu chame os meus camaradas e vos f... a todos aqui mesmo nesse mato, seus fdp! Vão prá vossa terra, vão para a c... da vossa mãe!

O meu pai mandou-nos sair e voltando-se para o revolucionário de carrascão e caracoletas, perguntou-lhe com um sorriso:

- E como tenciona chamar os tais camaradas? 

E lá partiu ele, decerto furibundo e bufando, deixando-nos às escuras em pleno monte de Monsanto por onde deambulámos durante uma boa hora aos círculos, procurando a entrada de um parque de campismo que o meu pai julgava próximo. Na verdade estava e felizmente encontrámo-lo sem grandes delongas. Este episódio serviu-nos de aviso para o que aí viria. 

Já distante mas jamais esquecida esta tempestade de outros tempos, foi mais ou menos este o discorrer do discurso escutado que tenho como nota de rodapé da estória da minha família. Decerto não fomos os únicos, pois apostaria que qualquer um dos leitores terá a sua. Será ela a propósito de pretos? De ciganos? Ou será de estrangeiros Made in U.E. que invadem e roubam tudo o que é nosso

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publicado às 17:55

Vistos Gold

por Nuno Castelo-Branco, em 09.10.16

 

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Está o primeiro-ministro na China, procurando investimentos e a diversificação da nossa economia. Para além do óbvio significado do mercado chinês que é em termos numéricos o de maior potencial planetário, existem alguns sectores que poderiam interessar ao governo, aproveitando para cabalmente cumprir a sua alegada missão de protector da cultura nacional naquilo que é reconhecível em termos mundiais, ou seja, o património construído, a área da museologia e do restauro, elementos essenciais à consolidação do crescimento do sector do turismo.

O Visto Gold tem servido, é verdade, para o potenciar do sector betoneiro e banca que à míngua de grandes obras públicas do regime, teve então de forçosamente recorrer ao investimento propiciado por estrangeiros que pretendem possuir uma propriedade em Portugal. Se os europeus - alemães, franceses ou britânicos - têm grosso modo votado o seu interesse para a reabilitação de imóveis nas zonas históricas, outros interessam-se pelo sector imobiliário recentemente construído e até há pouco considerado como parte da bolha que eclodindo em 2008 nos EUA, bem depressa estourou noutras partes do mundo. Como dolorosamente sabemos e foi previsto mesmo antes daquele fatídico ano, Portugal infelizmente não esteve imune ao descalabro. 

O OGE tem de uma forma inusitada e pela primeira vez sido pasto para os mais desencontrados comentários, sugestões, diz-que-disse e  suposições acerca de medidas arrastadas para a dissecação nas redes sociais, jornais, rádio e televisão. Cremos então estar no pleno direito de intervir num Orçamento que, supomos, passa por estar totalmente aberto à participação de qualquer português. 

A acima citada questão dos Vistos Gold poderá então ser alargada não apenas ao sector imobiliário e do investimento na educação, mas forçosamente deverá estender-se à reabilitação do património num país que tendo uma história quase milenar, possui uma infindável lista de castelos, solares, igrejas, mosteiros, conventos e outros testemunhos mudos da nossa história, há muito atirados para a área nebulosa do abandono que prenuncia a total e irreversível ruína. Em alguns pontos do país, os proprietários de vastos casarões que pertencem há séculos à família, tudo têm feito  para as manterem, adaptando as propriedades àquilo que o cada vez mais exigente núcleo restrito do turismo de qualidade pretende. É por vezes um acto heróico que esbarra com dificuldades burocráticas de toda a ordem, mas não pode ou deve ser descurado, ignorado.
Se é seguro o escasso interesse, para não dizermos nulo, que devido à proverbial escassa educação este património desperta junto dos investidores nacionais, este poderá então concitar muito boas vontades, venham elas da China, da Rússia, dos EUA, do Brasil, Angola e qualquer outro país fora da U.E.

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A infindável lista de hipóteses - a Real Quinta de Caxias consiste num escandaloso exemplo demasiadamente flagrante - é bem conhecida e seria fastidioso enumerar os exemplos que carecem de urgente intervenção. Se em França o Palácio de Versalhes tem, digamos, um clube de Amigos de Versalhes que incansavelmente ali tem despejado enormes verbas que trouxeram aquele espaço imenso ao actual estado de decência e talvez seja a maior atracção do país, isto mesmo poderá com sucesso inspirar o governo português, alargando-se a concessão de vistos a quem resolva contribuir para a manutenção de inúmeros edifícios, colecções - o restauro cuidadoso de cada uma das preciosas e únicas carruagens do MNC, por exemplo - que até agora têm sido vítimas da incúria e destrato pelo bem conhecido e rotineiro problema: a falta de verba que paulatinamente os condena ao desinteresse geral por parte de quem manda. Do desinteresse estatal à demolição, trata-se apenas de uma questão de poucas décadas.


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publicado às 21:51

A república

por Nuno Castelo-Branco, em 05.10.16

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Diário de N. White Castle: 2 de Outubro de 1910, a chegada a Lisboa

Após uma breve viagem marítima sem história, cheguei esta manhã à capital portuguesa. Habituado à exiguidade territorial que os mapas mostram, jamais pensei encontrar uma cidade como Lisboa, mas sim um pequeno porto semelhante a tantos outros que já vira nas minhas meridionais deambulações em toda a bacia do Mediterrâneo. Esta cidade é diferente, beneficiando de uma entrada natural que só pode ser comparada ao Corno de Ouro da capital dos sultões. Tal como Constantinopla, Lisboa vista do mar parece incandescente, pois não podemos considerar a longa desembocadura do Tejo como um rio, dada a imensidão do potencial porto interior. A montante, deparamos com um espantoso mar interior a que deram o nome de Mar de Palha e que reflecte a luz solar com uma inaudita intensidade, surgindo a capital como uma miragem, onde a indefinição das formas lhe confere uma grandiosidade insuspeitada. Este imenso porto de refúgio, é uma das mais privilegiadas posições estratégicas do mundo, pois por esta costa passa todo o comércio que liga as metrópoles europeias ao Novo Mundo e às colónias em África e na Ásia. Conhecendo bem a nossa longa convivência com este país, compreende-se facilmente o vital interesse que representa para a Royal Navy, a manutenção desta maravilha natural em mãos amigas.
Desde a entrada daquilo a que os portugueses chamam a Barra, desfrutamos do privilégio de uma vista única da margem norte, pontilhada por casario ainda relativamente disperso e que num futuro que julgo não muito distante, acabará por unir a vila de Cascais à própria capital. Notam-se claros indícios do progresso material deste século, uma vez que tal como em qualquer uma das nossas cidades ribeirinhas, vislumbro muitas chaminés fumegantes, este mal necessário que a industrialização nos faz pagar para podermos auferir das apregoadas comodidades já indispensáveis. Infelizmente, neste caso parece não ter existido uma verdadeira preocupação em criar uma zona industrial, pois é notória a existência de fábricas espalhadas um pouco por toda a parte, mesmo aquela - que me disseram ser a do gás - construída mesmo diante de um dos principais monumentos do país, a Torre de Belém. O comandante disse-me que consta que a rainha Amélia muito tem admoestado consecutivos governos no sentido de ser desmantelada a dita fábrica, colocando-a noutro lado. Para grande irritação da soberana, a inércia e a falta de coragem para enfrentar os interesses económicos, vão mantendo a situação num impasse que visivelmente tem consequências desastrosas para a integridade desta construção com quatrocentos anos. Além disto, a rainha tem preenchido o país inteiro com exemplos da sua benemerência que vai muito além dos garden-party da alta sociedade que por regra aqui é na sua maioria ociosa. Pelo contrário, a sua obra concita algumas adesões de connoisseurs e parece imensa num país demasiadamente distraído com a baixa política. De hospitais a lactários, de sanatórios a creches e a institutos ou museus, muito Portugal lhe ficará a dever.

Após deixar a minha bagagem no Hotel Avenida, decidi apresentar-me na nossa Legação, situada na parte alta, num bairro bastante burguês denominado a Lapa. Pouco interessado nas ociosas tertúlias próprias do corpo diplomático, fui contudo praticamente coagido a voltar ao palacete nesta mesma noite. Realizar-se-á um jantar com alguns dos mais destacados homens de negócios ingleses estabelecidos em Portugal. Deixaram-me claro que o meu conhecimento da língua, será preciosa ajuda para o estabelecimento de conversas com algum interesse para a avaliação da situação política neste país. Não deixarão de estar presentes alguns portugueses, na sua maioria comerciantes, mas disseram-me que as expectativas vão todas no sentido de auscultar a opinião de alguns oficiais do exército. Vamos ver, todo este cheiro a pólvora e a conspiração começa a despertar a minha curiosidade.

A Baixa é talvez a zona mais animada, aí se situando o melhor comércio, bancos, casas de seguros e empresas de navegação. É espantosa a multidão nas ruas, pois dir-se-ia estarmos não num dia normal de trabalho, mas no reboliço próprio de festas populares. Bandos de ociosos à porta de cafés e de casas que vendem vinho e carvão, parecem discutir animadamente a razão das suas vidas, ou talvez apenas, a derradeira intriga ou boato que aqui alastra como fogo em palha seca. Já quando estivera em Goa, tivera a oportunidade de me inteirar da apetência que uma certa camada urbana tinha por historietas mirabolantes, geralmente desprovidas de qualquer veracidade, mas capazes de alimentar todo o tipo de sentimentos, desde o ódio mais feroz e irracional, até à compaixão que implica a lógica beatitude da criatura alvo da conversa. E o mais interessante, consiste no curioso facto de um beneficiado pelas palavras de louvor, ser no próprio dia e devido a um outro boato, passar a ser arrastado até às portas do inferno, onde, claro está, existem sempre uns pobres diabos capazes de unicamente se exprimir no calão mais grosseiro de que esta rica língua é capaz.

Muito a propósito, decidi entrar num café situado na Praça D. Pedro IV, local que como muitos outros possui duas denominações. Oficialmente, tem o nome do monarca luso-brasileiro, mas para o comum dos mortais, sempre foi e será o Rossio. Este café, o Gelo, é um local já meu conhecido apenas pelo nome, pois já há muito sabia que nas suas salas se tinham reunido os conspiradores republicanos que assassinaram o rei Carlos e o príncipe Luís Filipe. Discutia-se a alta voz e qualquer um podia escutar planos conspirativos, atoardas e o constante e impiedoso martelar de reputações. Dir-se-ia ser Portugal uma terra de milionários, pois os cafés encontram-se a abarrotar a qualquer hora do dia e fiquei a pensar com os meus botões, do que viverá toda esta gente que passa os seus dias diante de copos e garrafas? A cidade encontra-se razoavelmente limpa, nota-se uma certa prosperidade e os armazéns da zona do Chiado estão muito bem fornecidos de todas as novidades parisienses que parecem ser da preferência dos portugueses da capital. Tal como em Londres, Viena ou Paris, as equipagens rivalizam no luxo das carruagens abertas e as senhoras burguesas, geralmente acompanhadas por uma filha ou pela empregada, fazem a rotina diária das lojas, comprando mais um par de luvas ou um extravagante e emplumado chapéu para um hipotético grande dia de festa. Casas de chá mobiladas com esmero e nas quais podemos degustar deliciosas especialidades locais, oferecem o espectáculo da passagem de la mode parisiènne, tal como se verifica em qualquer outra cidade europeia. Lisboa possui várias estações de caminhos de ferro, de onde partem comboios para todas as regiões do país, existindo uma muito razoável cobertura da rede ferroviária que é moderna e segundo dizem, eficiente. O porto está praticamente sempre lotado de navios que dos confins do planeta, trazem das colónias os produtos destinados ao consumo interno e à exportação, adivinhando-se facilmente - se as condições políticas assim o permitirem - um futuro de progresso material que não deixará de beneficiar amplas camadas da população. O país é territorialmente pequeno, mas espantosamente, possui o terceiro maior Império colonial, exercendo a sua soberania sobre possessões banhadas por três oceanos e continentes. É certo que o facto de pertencer à sempre inconvenientemente considerada esfera de influência britânica, permite-lhe o luxo de exercer o domínio sobre territórios infinitamente mais valiosos que aqueles onde flutuam as bandeiras da Alemanha ou da Itália, por exemplo.

No café Gelo, discutiam-se animadamente as últimas novidade relativas ao mundo da política local e as responsabilidades sobre imaginárias desgraças recaíam alternada mas invariavelmente nas pessoas do rei Carlos ou Manuel, na rainha Amélia e claro está, nos padres, bem capazes, segundo esta gente, de todos os crimes que a mente mais retorcida pode imaginar. Seguros de verem em mim um estrangeiro disposto a escutá-los e que ainda por cima fala português, procuraram convencer-me acerca da justeza das suas ideias e projectos inconsistentes e recorrendo ao habitual argumento do Ultimatum, julgaram-me facilmente coagido pela timidez. Retorqui secamente que humilhação muito maior infligíramos à França em Fachoda, sem que por isso se pensasse seriamente derrubar o regime vigente naquele país. Mais acrescentei que isso provava a consistência de uma opinião pública que sabia distinguir o essencial daquilo que é perfeitamente negligenciável. Logo decorridos alguns minutos, pareceu-me que esta gente vive obcecada com sonhos de grandeza e com dogmas redentores de uma situação que afinal só se resolverá com persistência no trabalho, banco de escola, paz política e respeito pela hierarquia, coisa impossível de imaginar nestes ligeiros espíritos em teimosa efervescência. Poderia executar rapidamente um xeque-mate aos malcriados palradores, questionando-lhes acerca daquilo que consideram ser uma república, que tal como a Inglaterra, Portugal é e sempre foi. Creio que para os meus interlocutores, consiste num mero sucedâneo dos santinhos milagreiros que devotadamente adoravam na sua infância, esperando curas, alimentação farta e se possível, um bilhete premiado na lotaria. No fundo, para esta gente, a república é apenas um milagre, talvez tirado das profundezas de uma fé aparentemente renegada. Rapidamente cansado da colossal ignorância orgulhosamente assumida pelos revolucionários profissionais, decidi não perder mais tempo, pelo que polidamente me despedi, manifestando o interesse em ver o couraçado brasileiro S. Paulo que transporta o presidente Hermes da Fonseca que está de visita a este país. Maravilha técnica do engenho britânico, este navio e o seu irmão gémeo Minas Gerais, são decididamente peças essenciais na manutenção do status quo na sempre instável região do cone sul americano.

Descendo a Rua do Ouro - a oficialmente denominada Rua Áurea -, cheguei ao preciso local onde caíram varados pelas balas assassinas o rei Carlos e o seu herdeiro. As fachadas poente da magnífica Praça do Comércio - o Terreiro do Paço dos lisboetas e Black Horse Square entre os meus compatriotas -, ostentam as indeléveis marcas da chacina, pois a cantaria foi fortemente atingida durante o tiroteio daquela tarde de inverno. Fiquei a pensar se a versão que corre, a de um acto isolado de dois assassinos, pode ser sustentada. Não foram apenas eles, tenho a certeza.
Bordejada por árvores que oferecem protecção ao inclemente sol, omnipresente durante mais de metade do ano, esta praça possui uma magnífica estátua ao rei José I e evidentemente, no seu pedestal podemos olhar para o rosto severo e decidido do marquês de Pombal, o hábil ministro que conduziu os trabalhos de reconstrução da cidade destruída pelo cataclismo de 1755. O comércio que aqui se pratica é bastante diferente daquele que vimos na Baixa, pois no Terreiro encontramos vendedores ambulantes e gente que vem dos arrabaldes da cidade para vender os seus produtos hortícolas e animais de capoeira. Os preços são razoáveis para a nossa bolsa, mas continuo a interrogar-me acerca da inextricável capacidade de tantos portugueses em permanecerem vivos e de boa saúde, dada a bem visível inércia e fare niente que salta aos olhos em praticamente todas as ruas da capital.
É uma interrogação que não deixarei de colocar esta noite aos meus convivas na embaixada.

3 de Outubro de 1910

Exausto pelo longo jantar e com a mente toldada pelos vinhos e licores que acompanharam e que se seguiram ao repasto, regressei a pé ao Avenida, pois nesta cidade é ainda possível caminharmos distâncias que no mapa parecem grandes, mas que bem vistas as coisas, consistem invariavelmente nuns centos de jardas, ou no máximo, uma milha e meia. 

Tive a oportunidade de conhecer alguns dos mais influentes compatriotas estabelecidos neste país, assim como convidados portugueses que esperava muito diferentes daquela gente que conhecera há umas horas no Rossio. Triste ilusão, pois as fatiotas, gravatas e lustrosas cartolas, serviam apenas de disfarce para as mesmíssimas enraizadas certezas no nada. A vacuidade da argumentação era atroz e não consegui vislumbrar o menor indício de um projecto exequível e baseado em factos que lhe dariam viabilidade. Nada, nada, apenas grandes tiradas sobre a liberdade e a igualdade, não se esquecendo o costumeiro progresso social, sempre na boca de gente que tem assalariados a seu cargo, sem nada se preocupar com condições de trabalho ou direitos de quem lhes dá o sustento. Pelo contrário, pareceram-me estranhamente elitistas, pois tentando compreender à luz da experiência inglesa e alemã, aquilo que se passa no ainda bastante incipiente operariado português, retorquiram-me apontando a ineficiência dos socialistas que no seu douto parecer ..."andam conluiados com o rei"... sendo aqui substituídos na função de renovação da sociedade, por um partido republicano - o deles -  que pretendendo meramente alterar a face do regime, julga poder modificar como num passe de mágica, toda a situação do país. Inacreditável, mas absolutamente verdadeiro. À mesa, o mais linguarudo foi um conhecido comerciante proprietário de um grande armazém no Chiado que bramia todo o tipo de impropérios contra o regime que afinal lhe permitia manifestar-se de forma tão aberta e descuidada. Um outro conviva segredou-me que constava que a dita rubicunda criatura, estivera envolvida na conspiração regicida, pelo que tomei de imediato as minhas distâncias, sem antes deixar-lhe bem claro que em Paris seria preso por muito menos. Calou-se e desviou o olhar para o copo.  No entanto, o conviva que mais atenção me despertou, foi um oficial do exército, o coronel Cunha que por várias vezes increpou o exaltado comerciante épicier, no sentido de moderar o tom com que se referia a personalidades públicas da Corte e do Parlamento. O que não deixei de estranhar, foi a presença desta gente em ágapes da nossa Legação, sabendo-se que o Reino Unido cultiva as melhores relações com o governo português, além de os soberanos deste país se encontrarem entre os numerosos parentes da casa real britânica. Muito estranho, mesmo muito estranho. Porque será?

Questionando o dito coronel Cunha acerca da viabilidade de um golpe subversivo dos republicanos, ele olhou fixamente o seu adversário natural - o comerciante milionário - e afagou a espada, dizendo: "ainda há uns dias estive com S.M. e com o Duque de Wellington no Buçaco, na celebração do primeiro centenário da nossa vitória contra a França de Napoleão. El-Rei D. Manuel é o Chefe do Estado e por inerência, o comandante em chefe das forças armadas. Devemos-lhe a lealdade de camaradas de armas e neste caso, ainda lhe digo mais: devíamos ter tomado rapidamente uma atitude no dia do regicídio, pois o país inteiro conhece quem foram os responsáveis!" Dito isto, apontou com o queixo na direcção do estupefacto negociante que não conseguiu articular qualquer resposta. E continuando, foi dizendo ..."que se tentarem algo, desta vez vão ver como lhes dói, atiramos a matar!"

Julguei o regime perfeitamente seguro, pois este exército tem uma certa experiência de combate. Quem não se recorda das grandes vitórias obtidas ainda há pouco tempo em Angola e Moçambique? Além disso, as celebrações do Centenário das Invasões francesas, consistiram num vibrante testemunho de fidelidade dos militares à Casa de Bragança e ao regime constitucional. 

Terminado o jantar e a natural sequência de cigarros, brandy e Porto, manifestei visivelmente o meu cansaço, que plenamente se justificava pela viagem e longa caminhada que já fizera na cidade. Tive a infelicidade de ser forçado a aceitar a carruagem do comerciante que pressurosamente se ofereceu para me conduzir ao Avenida, quiçá tentando escusar-se da verborreia que abruptamente lhe interrompi. Pelo caminho voltou à carga e foi incessantemente palrando acerca das virtudes propiciadas pelo regime novo que ardentemente quer ver alvorecer em Portugal. Fala-me da liquidação da Igreja e de uma súbita modernização do tecido produtivo nacional. Segundo o seu infalível ponto de vista, a simples proclamação da república, susceptibilizará uma rápida queda dos preços, a instrução das massas e a consequente industrialização do país que passará a rivalizar com uma Bélgica ou uma Suíça. O delírio da propaganda - decerto eficaz no Gelo, mas que em mim, experiente como sou na análise da situação económica e social dos países que visito e onde tenho interesses -, produziu o efeito exactamente contrário. Este homem sonha com uma esquadra de couraçados que esmague a espanhola em poder e número. Num Portugal onde a escola é quase universalmente tomada por excentricidade de classe, julga possível alfabetizar o país inteiro em apenas alguns poucos anos e declara muito senhor de si, que os recursos do Estado - os impostos, quer dizer, o seu dinheiro - têm sido malbaratados pelo actual regime e são suficientes para servir de alavanca ao que ele designou por novo fontismo, isto é, um amplo programa de modernização das estruturas nacionais, desde o ensino aos transportes e à indústria. Conhecendo a dependência portuguesa relativamente ao exterior, interrogo-me se este homenzinho possui a mais ínfima ideia acerca dos problemas que levantou, pois sendo de difícil resolução em países mais poderosos, aqui, sem o regresso de um longuíssimo período de estabilidade, encontram-se mais longe que qualquer estrela do firmamento apenas vislumbrável por potente telescópio. 

Aliviado por me furtar ao diluviano discurso de inanidades e pétreas certezas, recolhi-me ao meu quarto, sem que antes me tivessem avisado na portaria, que  ..."qualquer coisa se está a passar". O que será agora? Mediante o pagamento de algumas moedas, fiquei ciente de que o porteiro está a par de tudo aquilo que de estranho se passa nas redondezas e desta forma, não deixará de me fornecer informações. 

 

Após o almoço, soube-se que um médico de loucos, um tal dr. Bombarda fora abatido por um dos seus doentes, mas já corria célere o boato apontando o dedo aos jesuítas que neste preciso momento, parecem ir ocupar o lugar que a sociedade durante séculos reservou aos filhos de Israel. É claro que diante do Gelo já pude verificar a concentração de todos os vadios do costume, em forte gritaria e clamando por sangrenta vingança. A certo momento, um dos mais exaltados berrou que era necessário ir à sede do partido republicano buscar armas e bombas. Não podia acreditar no que escutava. Que país é este onde se permite a transformação de uma sede partidária em arsenal de subversivos? Uma simples rusga policial teria decapitado o dito partido em apenas alguns minutos, pensei eu. Contudo, um numeroso bando lá foi em desalvorada correria em direcção ao Largo de S. Carlos, onde diante da Ópera, se situa a dita sede. Como curiosidade, devo acrescentar que concomitante a este largo, situa-se o próprio Governo Civil de Lisboa, local pejado de policias e funcionários governamentais que pelo que ouço, pretendem ignorar aquilo a que chamam de "picardias". Pretendem isso sim, acalmar os exaltados e segundo as suas preclaras cabeças decidiram, é melhor ignorar as provocações, porque ..."essas coisas morrem por si"...

No meio da grande confusão  e desta vez para minha satisfação, voltei a encontrar o comerciante que conhecera na Legação e que parecia estar plenamente ciente de tudo o que se passava. Mais, confessou-me com ar de altiva importância, que os republicanos escutavam todas as conversas telefónicas efectuadas pelo governo e pelo palácio real, pois algumas das telefonistas estavam incumbidas desse serviço de espionagem. É o deboche completo. Desta forma vim a saber  que o chefe do governo contactara telefonicamente a rainha Amélia, ausente  em Sintra, inteirando-a do que se passava na capital. O rei recebia o presidente brasileiro num banquete oficial em Belém e pensei que tudo isto não passava de mais um abortado devaneio dos amigos de alguns dos meus convivas de véspera. Esperava ver a todo o momento o exército a ocupar os pontos nevrálgicos da cidade, liquidando quaisquer intentos de desacato da ordem pública. Estranhamente, nada aconteceu. Fiquei também na posse da informação que dava como certo o refúgio dos chefes republicanos nos estabelecimentos de banhos de S. Paulo, ao Cais do Sodré. Toda esta bernarda parecia de antemão comprometida e decerto acabaria em rotundo fiasco. Num súbito impulso, lembrei-me que na véspera o coronel Cunha me oferecera o seu cartão, colocando-se à minha inteira disposição para aquilo que julgasse necessário. Dirigi-me ao local da sua residência, no Príncipe Real, onde me disseram que sua excelência estava de prevenção no quartel. Tranquilizado pelas palavras da esposa do oficial, resolvi retirar-me, convencido de que a manhã seguinte traria a esperada novidade do desvanecimento da combatividade revolucionária.

4 de Outubro de 1910

Durante a madrugada de hoje, não consegui adormecer devido ao tiroteio perfeitamente audível na Baixa. Subitamente, o pessoal do hotel decidiu fechar as portadas, evitando maçadas decorrentes de tiros perdidos. Sentimos o passo apressado dos militares da Guarda Municipal que ocupavam posições na Praça dos Restauradores, enquanto corriam boatos contraditórios acerca da adesão ou passividade dos regimentos aquartelados na capital. Tínhamos a perfeita consciência de que por muitas bombas artesanais que pudessem arremessar, os chamados carbonários e os "anarquistas" - eufemismo  pelos quais os republicanos se faziam tratar -, jamais poderiam conseguir qualquer resultado positivo face ás tropas de linha, bem armadas, organizadas e municiadas. O factor vital consistia na capacidade de decisão dos comandantes e pelo que ouvira da boca do coronel Cunha, a obediência à hierarquia era um facto. Desta forma, continuei seguro de uma rápida extinção do movimento subversivo que politicamente, teria de ter consequências na ordem interna. Julgava muito candidamente, ter agora o governo a oportunidade única de decretar a imediata expulsão da camarilha do directório do PRP que já há quase três décadas impedia o normal funcionamento das instituições. Muito a propósito, entabulei então conversa com um francês que há muito residia neste hotel e que para meu espanto, está plenamente convencido da inevitabilidade da derrota monárquica. Procurando  retorquir com o evidente carácter minoritário e local dos republicanos, respondeu-me exactamente aquilo que todos os estrangeiros consideravam um sinal evidente: no dia 1 de Fevereiro de 1908, sendo demitido João Franco das suas funções de presidente do Conselho de Ministros, consumara-se assim a queda do regime. Condescendera-se com os criminosos, o regicídio ficava impune, permitira-se o enxovalho público do novo rei, da sua família e da própria ordem constitucional. E voltando-se subitamente para mim declarou:

"Olhe que esta situação não é nova! Vivo neste país há quinze anos e o que tenho assistido durante todo este tempo, prova sobejamente tudo aquilo que lhe disse!" Dito isto, pediu-me para o acompanhar ao seu quarto, onde me mostrou alguns volumes com recortes de imprensa, cópias de actas de sessões parlamentares e uns quantos livrinhos  mal amanhados que me informou serem propaganda paga pelo PRP.

" - Está a ver esta colecção? Desde já lhe digo, cher ami, que é um autêntico libelo de acusação do criminoso processo de sabotagem deste Estado constitucional. Consiste num aterrador dilúvio de todo o tipo de infâmias inimagináveis além-fronteiras! Olhe e leia com atenção! O apelo ao crime  regicida "à moda sérvia" é constante. Por exemplo, aqui estão excertos de alguns discursos do António José de Almeida no Parlamento. Sabe quem é este sujeito, ainda por cima um médico? Acha isto possível em qualquer país civilizado? Em França, uns ditos destes dariam azo à imediata prisão dos atrevidos. Já viu em que termos esta gente se refere à rainha e ao resto da família? E o Costa, sabe quem é?"

Dito isto, acrescentou:  - "é uma das mais desprezíveis, cobardes e turvas criaturas que conheci em toda a minha vida. Homem capaz de todas as vilanias, de um egoísmo à prova de qualquer análise de foro psicológico. Acredite no que lhe digo. Esta gente não presta, é má, rancorosa, incompetente e tornará a vida deste país num inferno! Por exemplo, já ouviu falar deste exemplar de literatura de cordel? É o famoso " O Marquês da Bacalhoa" que arrastou até ao precipício, a reputação da rainha e da sua entourage. É difícil imaginarmos o grau de baixeza a que se recorre, tendo como objecto uma senhora que poucos meses antes da sangueira do 1º de Fevereiro e durante a sua visita a Londres, era a figura central na célebre foto de cabeças coroadas presentes no palácio de Buckingham. Rainha de um pequeno país, a sua reputação de um ideal de mulher do nosso tempo, honesta e de uma impressionante presença que apenas encontrava rival na czarina Alexandra, colocava-a sempre no centro das atenções gerais. O desvelo com que a imperatriz alemã a olhava, é revelador do respeito que a rainha Amélia merecia. O PRP tudo fez para amesquinhar a soberana e consumou o crime, fazendo publicar O Marquês da Bacalhoa. Coisa mais infame é difícil de conceber e claro está, tem a chancela do directório republicano, disso não existe hoje qualquer dúvida! Questiono-me quotidianamente acerca da atitude que as potências tomarão perante a quase certa vitória final destes bandidos e sempre lhe vou garantindo - rivalidades históricas à parte - que muito mal faz o governo de Londres em não intervir decididamente, pois o que está em causa, é também a segurança do flanco peninsular da nossa Entente Cordiale que no rei Carlos tinha um firme esteio. Imagino o desespero do rei Eduardo VII que cerceado na sua acção, pouco ou nada poderá decidir quanto aos seus familiares de Lisboa. Com este PRP no poder, não poderemos contar com um exército português sequer capaz de garantir a inviolabilidade das fronteiras das suas extensas colónias africanas. Veja bem o enorme perigo que isso representa para o Império Britânico. Terão enlouquecido em Westminster?!"

 

Questionei-o então, acerca da verdadeira situação que o país vive, pedindo para se abstrair um pouco da guerrilha da propaganda. Respondendo, foi dizendo ..."pede-me o impossível, pois aqui é impensável tomarem-se medidas sejam elas de que carácter forem. Vigora a política da terra queimada e na verdade, só a instauração de um novo modelo constitucional que exima o soberano do jogo partidário - à semelhança daquilo que acontece na Inglaterra - poderá tranquilizar os espíritos. O mais curioso é que a esmagadora maioria da população é disso mesmo que está à espera e o rei Manuel é de facto popular. No entanto, os partidos nada mudarão, pois a garantia do seu sustento são os rendosos lugares proporcionados pelo exercício do poder político. O que pensa você pretenderem os ditos republicanos que aliás têm sido muito beneficiados pelos denominados rotativos? Até hoje têm servido como uma arma de arremesso de ambos, na feroz disputa pelo governo e nada mais que isso! No plano social, Portugal, sendo um país de escassos recursos materiais, não está assim tão atrasado como parece à primeira vista.  Possui inteligências, institutos científicos e infra-estruturas bem construídas e recentes. Se você quiser, pode escolher hoje ir à Ópera, ao teatro de variedades que aqui se chama de revista ou tão só deleitar-se com uma representação clássica.  Existem boas livrarias com todas as novidades que do estrangeiro chegam. A imprensa é livre e se existe censura, esta é sempre a posteriori, quando o mal já está dito e feito. Sempre quero ver o que os ditos republicanos farão com a liberdades de imprensa de que o país ainda beneficia... tenho sérias e razoáveis dúvidas quanto a tudo isto, para nem sequer mencionar a questão eleitoral"...

 

Esmagado pelas inesperadas revelações, decidi questioná-lo acerca da possível reacção das forças armadas:

- "Olhe, essas também estão em dúvida, porque desde o assassinato do rei, a impunidade da propaganda nos quartéis, conduziu à progressiva deterioração do respeito pela hierarquia. Não tendo existido uma imediata resposta ao assassinato de D. Carlos, muitos oficiais encararam a contemporização da política pretensiosamente crismada de "acalmação", como uma rendição total. Dos militares, também nada de bom podemos esperar. Não se trata de uma questão de cobardia, mas sim de puro e simples laissez-faire, oportunismo, falta de sentido daquilo que verdadeiramente interessa e consequentemente, talvez aceitarão a nova situação sem se manifestarem... enfim, mais uma vergonhosa ignomínia! Juramentos a bandeiras, são coisas vistas com displicência. As forças armadas? Não passam de funcionários públicos muito zelosos da segurança dos seus postos."

 

Soubemos então do motim a bordo de alguns dos cruzadores da armada, pelo que considerámos tornar-se de hora a hora, mais crítica a situação das forças leais ao regime. Apanhadas entre dois fogos, a única solução seria tomar de assalto a posição dos revoltosos na Rotunda, situada no cimo da Avenida da Liberdade. Do directório do PRP nada se sabia, sendo muito provável mais uma das habituais fugas ou um seguro esconderijo enquanto espera o desenlace dos acontecimentos. A polícia poderia facilmente procurá-lo, pois Lisboa inteira conhece por boato o local onde se acoita: os Banhos de S. Paulo. A posição das unidades militares da área de Lisboa é totalmente desconhecida e suspeitámos que o silêncio indiciava a pura abstenção. Contudo, o resultado da luta ainda parecia incerto, dada a resistência oferecida pelas tropas realistas que acabaram por confinar os revoltosos à Rotunda. Já se mencionava o nome do conhecido e bravo africanista Paiva Couceiro, uma garantia de lealismo. Tudo parecia possível ou provável e claro está, a situação residia única e simplesmente na decisão dos militares em intervir, esmagando a sedição. O porteiro do hotel acabou finalmente por nos informar que um dos caudilhos republicanos, o almirante Reis, se tinha suicidado, ao que parece por julgar perdida a sua causa. 

Os períodos de intensa fuzilaria -com escassas baixas de parte a parte, há que afirmá-lo - alternavam com outros de aparente calma. Surpreendentemente, soubemos que ambos os adversários recebiam visitas de populares, como se de uma festa ou romaria se tratasse e com os apetecidos "comes e bebes" de acompanhamento. Aquele que por mero acaso vencesse, contaria com a imediata adesão das massas citadinas, sempre prontas a festejar o herói do momento, aspecto caricato que dava a esta situação, uma sonora nota de ópera bufa. 

Durante algumas horas, tentei telefonar para a nossa Legação, sem que tal fosse possível e assim, já a altas horas da noite, decidi ir uma vez mais a casa do coronel Cunha, procurando obter o máximo de informações credíveis. Tocando a sineta, mal pude acreditar quando o próprio me veio abrir a porta, apresentando-se despenteado, de barba por fazer e fardado de roupão. Da forma mais amistosa que lhe foi possível, convidou-me a entrar e pelo caminho até ao salão, foi dizendo que nada sabia do que se estava a passar.

- "E a sua unidade"?, perguntei-lhe incrédulo.

- "Lá deve estar, de portões fechados e aguardando os acontecimentos"...

- "Aguardando os acontecimentos?! Mas não era suposto V. Exa. encontrar-se neste preciso momento à frente do seu regimento, honrando o juramento que fez questão em reafirmar há apenas 48 horas?!"

Empalidecendo, o coronel Cunha balbuciou algumas palavras incompreensíveis e depois, de forma mais decidida, concluiu a nossa rápida entrevista, apontando-me o caminho da saída:

- "Sabe, o meu compromisso é para com o país e não com este ou aquele regime. Os juramentos são feitos a uma determinada situação de um momento preciso. Se amanhã tivermos de proferir um outro, paciência"...

e encolhendo os ombros, deixou cair mãos, dizendo ..."é a vida"...

 

5 de Outubro de 1910

 

Durante toda a madrugada troou o canhão e já nem sequer sabíamos se os estrondos provinham de granadas lançadas pela esquadra amotinada ou pelas peças de 75 colocadas desde a Rotunda até ao Torel, estas últimas bem perto dos Restauradores, onde ainda me encontrava.  Dada a trágica situação que passava a irmanar Lisboa com a Odessa do couraçado Potemkine, dei graças aos céus por ainda não termos vendido qualquer couraçado à marinha portuguesa. Imagino os estragos que neste momento estaria a provocar numa cidade submetida a um dilúvio de granadas de 12 polegadas! Quem estava no hotel e conhecia bem a situação, dizia que os sediciosos venceriam, dada a abstenção do grosso do exército que facilmente teria liquidado a triste aventura. Para dificultar as coisas às unidades combatentes fiéis à legalidade, começaram a escassear as munições, pois os tiros provenientes das suas linhas tornaram-se cada vez mais espaçados, até quase cessarem por completo.

 

Logo pela manhã, parece que um representante do Kaiser Guilherme em Lisboa, quis garantir a segurança dos seus concidadãos residentes na capital e cometeu a imprudência de se deslocar com uma bandeira branca à terra de ninguém que separava os dois grupos contendores. Isto foi interpretado como uma rendição das tropas fiéis, o que provocou de imediato uma enorme aglomeração de gente excitada com os acontecimentos e consequentemente, terminaram os combates. 

Decidi sair à rua para ver o que se passava e soube que tinham proclamado a república na Câmara Municipal, situada num largo adjacente à Praça do Comércio. Sabemos como psicologicamente funcionam as multidões, pois se a tropa tivesse cumprido o seu dever consagrado pelo juramento, neste preciso momento andariam pelas ruas bandos populares à caça dos traidores e decerto a sede do PRP seria já pasto das chamas. Mas como o resultado foi diferente, verifiquei de imediato aquilo que decerto será o modus vivendi futuro neste país. Dois padres que iam a passar no Rossio, estavam a ser violentamente sovados e de vestes despedaçadas, submetiam-se à vindicta de uma gentuça comandada por uns tipos de aspecto inclassificável e que de espingarda na mão, iam organizando grupos de acção punitiva.  Coisa estranha esta, uma vez que desde o fim da guerra civil há já mais de setenta anos, a Igreja passara a ser fortemente controlada pelo Estado e até bispos pertenciam a organizações maçónicas, integrando plenamente a sociedade política liberal. Em Portugal, o radicalismo anti-religioso do PRP decerto mergulhará o país no caos. Os sectores mais conservadores da Igreja estarão finalmente livres para o exercício das suas actividades, pois é isso mesmo o que significa a dita separação da Igreja e do Estado. No nosso país, a igreja anglicana encontra-se de tal forma submetida, que podemos até afirmar que exercemos uma espécie de política regalista, na qual o nosso rei assume as funções aqui reservadas ao próprio Papa! Que estúpidos, tacanhos e ignorantes são estes pretensos republicanos portugueses...

 

O resto, é o que se previa. Adesões de última hora, delírios dignos do carnaval e pasme-se, esta gente que agora comanda, vai apresentando a revolução como coisa ordeira e decente, pois à porta dos bancos colocaram rufias armados, não vão os populares lembrarem-se de roubar os bens dos donos da revolução, quase todos homens de cabedais e boas posses, latifundiários, banqueiros e agiotas. Grande revolução esta, que começa logo por ser proclamada - segundo me disseram -, por um conhecido grande proprietário rural, bon vivant ocioso e dado a coisas do frisson mondain, um tal Relvas! 

Já para o fim da tarde, conheci os nomes das novas autoridades no poder. Na Legação sabem bem quem eles são e junto a um senil com pretensões a literato que dá pelo nome de Braga, surge logo o tal facínora Costa de quem me falou Monsieur Peyrot. A estes surgem igualmente associados um entusiasta das ditaduras que se chama Basílio Teles, um trânsfuga das hostes monárquicas de nome Machado (e que segundo me disseram tem o curioso título de barão de Joane), e alguns mais, cuja insignificância não lhes dá qualquer direito a que retenha a identidade. Não me posso esquecer do tal grosseirão parlamentar, o médico dr. Almeida que todos sabem ser o coordenador da manufactura de bombas terroristas do partido que ajuda a dirigir. O director do hotel disse-me que este sujeito é aquilo a que vulgarmente se designa de demagogo, capaz de grandes tiradas oratórias junto da ralé, ao mesmo tempo que no Parlamento protagoniza episódios onde a linguagem escandalosa, a infâmia e o simples insulto, serviram sempre para agradar aos arrebanhados contingentes de populares que assistiam às sessões. Que regime sairá daqui, é coisa que até o maior idiota pode facilmente prever, porque esta gente não se encontra minimamente preparada, não tem a confiança das grandes potências, está envolvida em numerosos crimes de sangue e pior que tudo isto, durante anos lançou prodigamente ao solo, as sementes da anarquia, do ódio e da falta de respeito pelo outro e pela Lei. Prevejo um futuro infalivelmente manchado pela ruína, guerra civil e rebaixamento de Portugal no concerto das nações e desta certeza, ninguém me tira.

 

Infelizmente, fui involuntariamente obrigado a presenciar uma deplorável cena de escabrosa cobardia e oportunismo. Quando regressava ao hotel, vi passar o tal coronel Cunha já impecavelmente fardado e levado em ombros por populares, coisa que me fez de imediato recordar cenas semelhantes que presenciara há uns anos no México. O inepto oficial já não ostentava no boné, a coroa regulamentar do uniforme! Aderira de imediato à nova situação e fico a pensar naquelas palavras altivamente proferidas no jantar na nossa Legação, quando afagando o sabre de cerimónia - pois apenas para isso serve e o futuro decerto o confirmará -, dizia ..."atiraremos a matar!" Que vergonha, que miserável criatura e dizem-se eles os herdeiros daqueles que talharam pela espada e pelo sacrifício este país, levando a sua bandeira ao Brasil, Índia e Japão! Como é isto possível? São estes os homens que a Europa passou a admirar após as chamadas campanhas de pacificação em África? É a desonra, o total opróbrio e isto dias após um solene juramento! Como poderá no futuro este país confiar nos militares que há séculos guardam ciosamente a sua independência? Para a segurança da Inglaterra e a partir de hoje mesmo, julgo que o nosso Estado Maior deverá deixar de contar com estas forças armadas para o cumprimento dos compromissos inerentes à Aliança, pois provaram-no até à saciedade que não merecem a mínima confiança. O que seria o seu desempenho num campo de batalha numa futura grande guerra europeia?  Na verdade, não tendo manifestado num heróico impulso a sua indignação pelo vil assassinato do seu próprio Comandante-em-Chefe há apenas dois anos, deixaram de contar como força de confiança e respeitabilidade. São um bando de energúmenos uniformizados, apenas cientes do seu papel consumidor de recursos de um Estado que lhes dá cama, mesa e um totalmente imerecido estatuto social.

 

Foi esta a minha experiência durante os dias de uma revolução que não o é, pois não vejo qualquer viabilidade nos megalómanos projectos redentores propalados pelos seus próceres. Não terão os idolatrados couraçados, nem o tal "bacalhau a pataco". O pão não será praticamente gratuito e agora definitivamente no poder, os grandes interesses económicos farão sentir pesadamente a sua mão estranguladora dos direitos dos operários. Estou seguríssimo de uma futura e radical repressão nas ruas, de mais sangue, opressão da imprensa, fraude eleitoral, esbulhos e ataques à integridade pessoal de muitos daqueles que dentro em pouco se recordarão amargamente dos tempos em que eles próprios de tudo se serviram para espezinhar quem durante décadas lhes deu liberdade de expressão, paz social e progresso material. O tempo o dirá.

 

6 de Outubro de 1910

 

Os acontecimentos dos últimos dias, forçaram-me a tomar a drástica decisão de anular os restantes compromissos aprazados muito antes do início desta viagem. Era suposto visitar o Porto e as suas adegas, assim como Leixões e uma parte do Minho, onde tenho alguns amigos. Desisto. Tudo o que vi nestas últimas horas é demasiadamente angustiante e digo-o sem pestanejar, fez com que perdesse o respeito por este velho e fiel aliado que tantos serviços prestou à nossa pátria, sem que muitas vezes nós, ingleses, o reconhecêssemos. Agora é tarde, não ajudámos a quem muito devíamos e que neste momento de desgraça, ruma em direcção a Inglaterra, onde esperam encontrar abrigo.  Estou certo de que saberemos acolhê-los com a merecida dignidade e que por fim estejam a salvo destes energúmenos que agora em Portugal ditam a sua lei.

 

Um pouco por todo o lado surgem grupos perfeitamente identificados com o PRP e as suas ramificações carbonárias - ou será exactamente o inverso? - que procedem a depredações e violências de todo o tipo, encarniçando-se especialmente contra os edifícios religiosos e a propriedade de alguns destacados responsáveis do regime deposto. Os padres continuam a ser humilhantemente despidos das suas vestes em plena rua, são tosquiados como se fossem gado e sovados a murro, estalo ou bastonada, sob o olhar indiferente de uma Guarda Municipal ainda ontem derrotada pela própria inércia. Ardem conventos e claro está, os senhores do momento aproveitam para fazer mão baixa nos valiosos bens que encontram portas  adentro. Missais preciosos, iluminuras, incunábulos, tudo é roubado ou destruído. Após os saques, na calçada estão já em cinzas telas de mestres portugueses dos séculos XV ao XVIII e figuras religiosas de santos em talha são despedaçadas sem olhar, pelo menos, ao seu valor patrimonial. Outra nota absolutamente iníqua e revoltante, é o facto do surgimento de bandos armados que confiscam as bandeiras nacionais, ateando-lhes fogo em crepitosos autos-da-fé nos Restauradores e Rossio e tudo isto, sem que o pusilânime exército tome uma atitude. É a selvajaria mais infrene que campeia em toda a sua violência primitiva, no meio de dichotes e cantorias com as estrofes mais reles que possamos imaginar. As freiras são tratadas como se prostitutas fossem, sendo despojadas dos seus bens e postas na rua. É este o novo Portugal. Um pouco por todo o lado, meliantes armados de martelos, destroem as coroas que encimavam os escudos nacionais dos edifícios públicos e isto acontece, segundo alguns decentes transeuntes me disseram, para o costumeiro fingimento futuro de obra feita. Assim, dentro de algumas décadas, um povo estupidificado por uma pretensiosa elite de escroques, pensará que tudo aquilo que existe, tem a autoria dos santarrões adoradores da estrangeira Marianne. Simultaneamente, grupos de caceteiros invadem as residências de conhecidas figuras da sociedade lisboeta, forçando os atemorizados proprietários a fazer sumir sob panos negros, os brasões que durante séculos adornaram as fachadas. Parece aos olhos do mundo que o país morreu ou está de luto e sem disso ter a consciência, são os próprios cangalheiros que fazem a festa e se ufanam com o funeral das suas próprias vidas de homens livres. Vou partir, nada mais tenho para fazer aqui, num país que se rebaixou à condição de tugúrio mal frequentado. Até os cabecilhas do novo regime já assumiram sem pejo a sua herança de mau agouro, pois organizam-se procissões comandadas pelo directório republicano, que ao cemitério do Alto de S. João, situado nos arrabaldes da cidade, vão prestar homenagem aos regicidas de 1908. E nem é preciso procurar muito para encontrar a perfeita sintonia que impera naquelas hostes, uma vez que os retratos dos assassinos surgem nas lacrimosas pagelas profusamente distribuídas pelo partido, lado a lado dos mais conhecidos dirigentes, como o Costa, o Almeida ou o Bernardino. Estranhamente, fazem-me de imediato recordar uma certa espécie de gente que tive a ingrata oportunidade de observar na Sicília, quando da minha visita aos monumentos mais importantes da antiga Magna Graecia. O mesmo olhar turvo e reservado, o semblante raivoso e a arrogante aspereza nas atitudes, submetendo qualquer acto a senhas e contra-senhas.  São estes os grandes homens que querem governar Portugal e para confirmá-lo, já fizeram içar por todo o lado o miserável trapo do partido, pretendendo vê-lo consagrado como nova bandeira nacional. Chegarão a tanto?

 

A caminho do cais, continuam as mesmas cenas acima descritas e pasme-se, uma reedição tardia do Carnaval, mas desta vez, em Outubro. Surgem por todo o lado crianças com aspecto de macaquinhas de feira vestidas de ... república! Incrível mas absolutamente verdadeiro, mais parecendo viciosos duendes mascarados de carrascos de boné vermelho, tal o grotesco das figuras. Tudo isto é bastante ordinário e descoroçoante e passa-se já em pleno século XX! Atrasados, atrasados, o rei Carlos tinha razão quando afirmava que há males que de longe vêm. 

 

Agora, uma das primeiras atitudes das autoridades é rastejar perante o país que odiaram durante décadas. Suprema hipocrisia, protestam a sua fidelidade aos ingleses, fazem por esquecer quarenta anos de agravos e de suicida loucura que nos obrigou a um indesejável Ultimatum.  Suspeito que cairão em todo o tipo de torpezas para conseguirem o reconhecimento internacional que ninguém no seu perfeito juízo parece, por agora, disposto a conceder-lhes, tal a má reputação desta cambada.

 

Tendo finalmente embarcado para Portsmouth, fico a pensar como será este país dentro, digamos, de  cem anos? Terá conseguido esquecer toda esta violência, desperdício de energia e falta de respeito por si próprio e por uma história sem igual? Terá concedido de forma pacífica e ordeira a independência ao seu imenso império colonial que logicamente um dia se emancipará tal como a monarquia o soube fazer relativamente ao Brasil? Terá finalmente atingido o nível de desenvolvimento dos seus parceiros europeus de quem lenta mas inexoravelmente se ia aproximando? Consolidará uma democracia, ou passará por uma ininterrupta e mortífera série de revoluções, golpes de Estado, assassinatos de homens públicos, ruína financeira, corrupção e generalizada miséria?

 

Não acabará tudo isto pela instauração de uma ditadura que se eternizará no tempo e nos espíritos? 

 

Já a caminho da barra, olhei em direcção à popa e pela última vez vi Lisboa. Pareceu-me estranha. Já não era a mesma cidade refulgente de luz branca que tinha encontrado há apenas alguns dias. O sol poente tingia-a de uma luz avermelhada, como se um imenso incêndio a abrasasse. 

 

 

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publicado às 10:30

Lá na toca

por Nuno Castelo-Branco, em 01.10.16

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- Ó pá, tenho aqui uma exigência das gajas que o vai chatear ainda mais do que a mim!

- Conta lá!

- Então não é que agora querem que eu legisle quanto aos depósitos acima de 50 mil pacotes? A ser assim, a maior parte dos meus camaradas vai ficar a descoberto e pior ainda, danados! Está a ver o problema, não está?

- Olá, se estou, mas o que posso fazer para te dar mais uma mãozinha?

- Já discuti isso lá na c.p. Faremos assim: eu proponho, ou melhor, o governo propõe e você veta com uma desculpa esfarrapada que lhe venha à cabeça. Lembra-se da estória da vichyssoise? Invente mais ou menos uma do mesmo estilo, ahahahahahahahahaha. Depois logo se verá como pararão as modas. Dado os nossos índices de popularidade, as coisas acalmarão.

- Ah, isso é o que farei, não te rales, ahahahahahahahaha, elas espernearão um pouco para fazerem de conta nos media e quanto ao gajo do chinquilho, esse será mais moderado, logo arranjará qualquer coisa para salvar a face. É o que dá terem quase cem anos de experiência em truques, ahahahahahahahahahaha!

- Pois, mas o pior é se depois as gajas me exigirem que eu volte a apresentar o diploma naquela casa! Tá a ver a coisa?

- Resta-nos o Constitucional, não imagino os tipos deixarem passar uma coisa destas, acho que ficarão encalacrados. Imaginarão qualquer coisa como muito bem sabes. Deixa-os por minha conta, assim que saíres pego logo no telefone.

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publicado às 20:50

Sim, entre outras coisas...

por Nuno Castelo-Branco, em 24.09.16

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...também somos caçadores-recolectores

 

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publicado às 07:00

O Marquês da Bacalhoa

por Nuno Castelo-Branco, em 19.09.16

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 Foi obra saudada à época como um dos caboucos do Regicídio e da república de 1910, um gatilho em forma de escrita. A propósito da apresentação de mais uma edição buraco da fechadura, parece-me bastante curiosa a fúria a que por estes dias temos assistido.


Boa mensagem de regeneração das mentes é toda esta raiva, pois a vida privada dos agentes do poder não passa disso, apenas interessa aos mesmos.

Quanto ao Marquês da Bacalhoa, foi livro de encomenda e duplamente vergonhoso, pois não tendo um pingo de verdade, indelevelmente manchou a reputação dos dois titulares da Majestade. Na sua varanda que dava para uma ampla vista da Baía do Espírito Santo, em Lourenço Marques, o meu bisavô que ali se estabelecera misteriosamente logo após os acontecimentos de 1908, por vezes falava daquele passado já muito distante, insurgindo-se tardiamente contra os ..."actos que infelizmente tiveram trágicas consequências nas quais jamais pensámos. Matámos o melhor entre os melhores e hoje vivemos nisto". Todos compreendiam em silêncio. Tinha ele razão no mea culpa. 

Sintomaticamente foi o Marquês da Bacalhoa calorosamente recebido pela ínfima, desordeira, subversiva e ruidosa opinião pública que girava em torno de copázios de carrascão na Baixa de Lisboa, os mesmos que pouco depois destruíram o regime de então. 

Sinal dos tempos, pelo que se lê e escuta, os detentores directos e indirectos do poder instituído aprenderam a lição. 

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publicado às 01:05

Fachada poente a precisar de Ajuda

por Nuno Castelo-Branco, em 17.09.16

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 Ficou hoje a conhecer-se mais um dos muitos projectos apresentados para o remate da fachada poente daquele que é o maior e mais imponente edifício público da capital portuguesa.


Dispensando quaisquer comentários a respeito do gosto ou desgosto que os esboços mostraram, esta construção, mesmo com o previsível isco dos fundos do Turismo e da apresentação em exposição permanente das muito desfalcadas Jóias da Coroa, não pode ser iniciada sem a prévia consulta a quem mais interessa, ou seja, os habitantes de Lisboa.  

O Palácio da Ajuda não é uma construção da qual se possa dispor à la carte, não pode estar à diposição de um projecto de promoção pessoal, ou de qualquer partido Desde que se ergueu tem sido uma sede de  poder, seja ele o monárquico ou o republicano. Nele se pavoneiam vaidades na recepção do corpo diplomático e ali se inauguram presidências e governos, por muito efémeros que sejam. É um local emprestado pela nossa história, um eco de um passado relativamente glorioso. Aqueles brilhos dos adamascados e dourados, as pratas e porcelanas, as pinturas e tapeçarias, os bibelots assinados, os torneados do mobiliário daquela mescla de estilos, o bric-a-brac de Dª Maria Pia de Sabóia, impressiona os nacionais e os estrangeiros. Não é nenhuma novidade, aquela colecção marcou uma época e por milagre praticamente íntegra - apesar dos acontecimentos da 1ª república, da visita recolectora da aventureira com quem o infante D. Afonso se casou, da retirada de mobiliário e peças decorativas que o regime da 2ª república colocou em embaixadas -, é um cenário infinitamente superior em termos de prestígio e harmonia, a uma banal construção que qualquer um dos regimes que sucedeu ao ciclone de 1910, tenha erguido nas respectivas Expo. Das pedras lavradas e pinturas murais da Ajuda à bela pala de betão armado do antigo Pavilhão de Portugal, vai uma boa distância e os nossos senhores não hesitam na escolha do decor. Sejam então coerentes.

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 Poderá a entidade mais ansiosa, a Câmara Municipal, esgrimir argumentos a favor da "rápida conclusão de uma obra que já tarda e é urgente", mas estas atitudes em nada abonam quem decide e muito dependerá da confiança de uma população muito desconfiada por este inesperado inferno eleitoral de ciclovias, alargamento de passeios, demolições a eito e sem consulta, desrespeito pelo próprio inventário municipal e outras habituais habilidades comezinhas. Bem poderá então escudar-se atrás do MC e do Turismo, mas o protagonismo é totalmente seu, nada de manobras de ilusionismo. O protagonismo e o interesse.


O projecto existe há bastante mais de meio século e é da autoria do arquitecto Raul Lino que se manteve fiel à ínfima parte construída do risco original que a Ajuda teve nos finais do século XVIII e alvorada de oitocentos. O Palácio jamais foi concluído e será supérfluo inventariarmos as razões para tal incúria sobretudo devida às vicissitudes da política, às mudanças e de regime e à sempre latente penúria financeira. Anos após a sua concepção, Salazar, a braços com uma guerra em três frentes africanas e assoberbado pela construção da Ponte, não pôde dar andamento a este projecto que hoje, a ter sido concluído, já teria beneficiado da patine da passagem de meio século e muito provavelmente, com interiores a condizerem com a fachada. Seria parte da paisagem urbana. Não se fez, paciência, outros valores se levantaram, mesmo quando alguém teve a ideia de construir de raiz um Centro Cultural em Belém, nem sequer aproveitando o que já existia no alto do bairro lisboeta da Ajuda. Idem quanto ao Museu dos Coches, naquelas cíclicas, bastante oportunas para uns tantos e previsíveis derrapagens orçamentais que em muito lesaram o crédito e a respeitabilidade de quem decidiu e ordenou. Este é o país em que os cidadãos enviam cartas registadas aos governantes e estes, nada preocupados, nem sequer se dão ao trabalho de acusar a recepção. Foi o que sucedeu há perto de três décadas, quando do anúncio da construção do CCB e alguém lhes terá chamado a atenção para o aproveitamento da parte a reconstruir do Palácio da Ajuda. Pelos vistos, continuamos neste estranho caminho da surda arrogância. O mesmo se pode dizer a fundos esfumados, como aqueles deixados pela Sra. Reagan que também terá apreciado o potencial do edifício. 

Mais próximo de nós, ainda está o embaraço nacional acerca da retirada russa da exposição do Hermitage na Ajuda, pois consideraram o palácio na sua secção poente, impróprio para a apresentação das periódicas colecções imperiais. Não valerá a pena o recurso a subterfúgios lava-faces, pois foi isto mesmo o que aconteceu.

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 Este edifício não pode ser mais um passageiro pasto de modas e vaidades. Não pode, é campo interdito. Esperava-se a abertura de um concurso público e internacional, mas recorreu-se ao expediente já bem conhecido, da decisão sem dar cavaco. Fizeram mal, como se tornou costume. Mal, e, suspeitamos, de forma ilegal.

Bem vistos os factos, este anúncio de surpresa é mais um exercício de vanitas política embrulhada caprichosamente em argumentos apenas válidos, porque óbvios ao longo de mais de duzentos anos. O Palácio Real ou Nacional, como queiram, consiste num património que condensa a história de um século pleno de acontecimentos e que está recheado de uma inestimável colecção de época, embora, tal como as Jóias da Coroa, privada, como acima dissemos, de inúmeros elementos que a queda da Monarquia fez por vários meios sumir. Há que valorizá-lo e para isso podem e devem ser despendidas quantias necessárias que estimularão a criatividade, a arte de bem fazer, o labor dos artesãos nacionais e o interesse de uma miríade de pequenas e médias empresas de construção. A cultura não é despesa, por muitos fundos que nela se vertam sob supervisão e criteriosamente. Trata-se de um investimento e para mais, da garantia da identidade nacional que é pontilhada por um certo sentido de orgulho. 

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 Os decisores podem pensar o que entenderem acerca das suas excelsas personalidades, mas não vivem num exclusivo Olimpo. Desçam à terra e procedam então a uma consulta popular que decida a viabilidade do projecto de Raul Lino ou a alternativa hoje apresentada. Num país onde a palavra mais usada pelos agentes da política é democracia! democracia! democracia!, do que que têm medo os senhores da nossa situação?





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publicado às 19:16

Criminosamente imbecis

por Nuno Castelo-Branco, em 07.09.16

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 A marcação do terreno está feita há séculos e este país tem vivido razoavelmente com os factos que são parte de uma história que não se apaga. Quem aqui tem ao longo de muitas gerações demandado à procura de novas oportunidades em primeiro lugar decorrentes da segurança que genericamente é reconhecida como característica deste país, tem sido bem aceite e é integrada na sociedade sem problemas que são visíveis nas imediações europeias. E assim deverá continuar a ser, tal como a tradicional política externa. Enquanto Portugal pertencer ao espaço que as placas tectónicas impuseram, não existe qualquer outra possibilidade, embora haja que proceder às adaptações decorrentes do fim da política de chantagem que a posse de um império implicava. Por força de vontades estranhas aos portugueses, acabou o império da soberania territorial, restam-nos as ilhas atlânticas e a política de adequação da realidade onde surge a CPLP como o além-mar do futuro e a Europa até aos Urais a que sempre pertencemos e que por iniciativa própria levámos aos outros continentes.


Foi com estupor que verificámos ontem não ter a nomenklatura dominante nada ter entendido acerca do que para os mais distraídos é uma evidência. Portugal não tem sofrido ódios intestinos entre comunidades estabelecidas no seu território, devido precisamente à delimitação do terreno no qual a igreja católica é claramente dominante. Não vale a pena perderem tempo com a falaciosa e bastante marginal argumentação do declínio da presença nas missas dominicais, pois qualquer festividade religiosa, de norte a sul do país faz parte integrante da identidade deste povo, concita o ajuntamento de multidões bastante concorridas no apego às raízes, mesmo que muitos dos participantes apenas conheçam as orações Pai Nosso e Avé Maria. O Estado republicano na sua terceira versão, tem a supina sorte de bem conviver com a hierarquia religiosa, não se atrevendo até agora a cometer os roubos descarados, erros e abusos em Portugal inciados a partir do convencionado ano de 1834. Se excluirmos os exageros "revolucionários" de 1974-75, aliás pagos da pior forma no momento quase imediato, o regime tem convivido em paz com uma igreja bastante acomodada que ainda por cima supre as conhecidas deficiências estatais nos campos da assistência à velhice e à infância - lares, creches e infantários -, na mesa posta - as refeições distribuídas em cantinas, porta a porta, em plena rua nocturna ou através dos bancos alimentares pujantes de dinamismo que concita invejas passageiras e que são de extrema utilidade pública - e numa miríade de actividades onde até o acolhimento de migrantes ocupa posição de relevo nos santuários e conventos, recebendo pessoas que não compartilham a mesma fé e ali talvez consigam vislumbrar ou recordar o rol de disparates instigados ou aprendidos noutras paragens. A verdade é que sem esta igreja, o Estado dito laico nem de longe conseguiria cumprir aquilo que a própria Constituição indica como obrigatório. O PC, instituição quase tão antiga como a Causa Real, disso já se apercebeu e tem sido mais realista do que os chamados democratas do regime. 

Quer o cada vez mais maçónico Vera jardim retirar os crucifixos das escolas públicas. Quer, mas logo seguidamente coloca os ses da sua salvação na discutível avaliação da popularidade. A argumentação é válida em termos teóricos, pois fazendo parte da decoração prenhe de mensagens subliminares das paredes das escolas, apenas poderá ofender quem à escola chegue já industriado em casa. E se for apenas um entre trinta numa sala, esse imaginado ofendido? Far-lhe-ão a vontade? 

Cremos que os mais ofendidos são quem nem sequer tem qualquer direito a participar nas aulas, ou seja, a parentela "portuguesa de origem" eivada de loucuras ideológicas ultrapassadas pelos acontecimentos de há mais de duas gerações, sem qualquer interesse prático e estranhas à boa tranquilidade da sociedade. O triunfo da morte nacional já bem conhecida e almejada por sectores carregados de vários tipos de paranóia? A que propósito deveremos então submeter-nos aos ditames de uma meia dúzia de centenas de lunáticos?

Em Portugal, a igreja católica, acompanhada pelas forças armadas e pela instituição real, construiu o país que para o bem e para o mal ainda existe e tem, queiram ou não, alguns séculos pela frente. Tem satisfatoriamente suprido o Estado dito laico naquilo que a própria Constituição indica como deveres do mesmo e nem por isso são audíveis os protestos ou sequer as autoridades pensam em mudar as atitudes. A bem ver, nem se atrevem a ir muito longe.

Não procurem sarilhos onde eles não existem, nem sequer na imaginação dos próprios potenciais interessados que noutros parceiros europeus parecem ditar a lei. Os toques de sinos fazem parte da vida urbana e rural, assim como as procissões de norte a sul e insulares como a do Senhor Santo Cristo de que o Estado se serve para auto-promoção da tolerância - ali acorrendo e penitenciando-se publicamente todos os hierarcas do regime - e aproveitando para encher os cofres com benéficos impostos e dinamização da economia regional. Não se queixem então, sejam estes donos do Estado mais discretos e oportunistamente convivam com aquilo que a paz social lhes proporciona num país há pelo menos meio milénio habituado a conviver com outras gentes.

Os cada vez mais estranhos utentes do avental fora da cozinha deveriam por estes dias estar a organizar uma procissão de rastos até Fátima, de Lisboa saindo ajoelhados em agradecimento pela condescendendente hierarquia da igreja de quem são os principais beneficários. Consequentemente, façam de conta não entender os "novos tempos" e graciosamente resignem-se ao que aí está. E estará. 


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publicado às 09:26

Havaianas de praia

por Nuno Castelo-Branco, em 01.09.16

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É o que me ocorre sempre que vejo a tremular lá fora, em plena praça do Marquês de Pombal, a actual bandeira do Brasil. Enquanto esfrego as costas no duche, não posso deixar de sorrir. Vendo bem os factos ditados pela estética do merchandising, não passa de um belo logo de umas chinelas que uso em dias de praia. A legenda que acompanha o logo? Uma positivista pilhéria.

A Dª Dilma foi deposta por uma esquisita associação de malfeitores que são tão arrogantes, mentirosos e falsários como aquela em que o PT se tornou. Estão bem uns para os outros e uma rápida visualização acerca dos discursos no Congresso e no Senado, elucidam-nos cabalmente acerca daquilo que o regime brasileiro há muito é.

Foi "presidenta" de um país que durante décadas a fio, para não dizer um século inteiro, nada mais foi senão pasto de várias oligarquias, ou não fossem elas as herdeiras e legítimas sucessoras de escravocratas lesados, usuários de avental fora da cozinha, militares entre o jagunço e o coronel dono de fazenda e outros agora mais modernos, sempre em zig-zag de viagens de compras e negócios esquisitos na Europa e no norte da América. Exactamente os mesmos insensíveis a tudo aquilo que durante tanto tempo viram sem sequer se preocuparem com um futuro que inevitavelmente chegaria. Deixaram acumular as omnipresentes favelas como se de colmeias de doce mel se tratassem, cuidaram das suas vidinhas e nas recepções, entre uma champanhada e um quitute local, diziam o que bem lhes aprouvia diante dos serviçais escurinhos. Não vale a pena continuarmos, todos sabemos o que desde sempre esteve em causa.

Em 1889, o império desapareceu vítimado também por outras razões que agora não veem ao caso, por uma aliança da supracitada oligarquia, exactamente a mesma que continua em cena, mas com o pavlovianos updates do século. Alega agora a Dª Dilma com um típico caso de misoginia. É verdade, esse aspecto marginal contou como mais uma batata no saco de serapilheira que a república local é e sempre foi. 

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 Em 1889, uma das principais razões para a deposição do grande e impoluto homem que foi D. Pedro II, consistiu precisamente na falsa questão sucessória, pois aqueles garbosos bandidos bafos de onça não suportavam ter como Chefe de Estado uma mulher, mesmo sendo ela A Redentora


Misoginia, é verdade. Dª Dilma sabe e experimenta agora aquilo que possivelmente Dª. Isabel terá sentido e ao contrário da agora deposta, perdoou. 

Não vertamos uma lágrima por quem partiu e muito menos ainda, por quem se alçou ao cargo. 

A Dª Dilma tem sorte, fica com dois motoristas e um staff à disposição, para além de uma verba para o seu sustento. Melhor ainda, nem sequer foi exilada e abrem-lhe as portas a um hipotético regresso. Nada disso foi prodigalizado a quem foi obrigado a partir às tantas da manhã a bordo do Alagoas, uma família inteira embarcada às escondidas para que o povo chão não visse e não se revoltasse. Os bens da família imperial foram apropriados pelo "novo regime", os palácios do Estado vandalizados e despejados do seu conteúdo histórico, os móveis dispersos, os quadros, estatuária e bibelots divididos ou roubados, enfim, o que sobrou foi a hasta pública. Isso mesmo: hasta pública. 

É isto, o Brasil de hoje. Uma colossal hasta pública para uns tantos.

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publicado às 10:51

Mala diplomaticamente carregada de … Clearasil

por Nuno Castelo-Branco, em 21.08.16

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Era de prever, ontem mesmo, no jantar de aniversário do meu sobrinho Nuno, disse que ..."se fosse o embaixador iraquiano, mandaria de imediato os dois filhos seguir de carro para Madrid".  

Os meninos puseram-se ao fresco, provavelmente por via terrestre e não só beneficiando da imunidade diplomática concedida a toda a representação do seu país, como também, inevitavelmente, usufruindo das delícias do articulado de Schengen que também é, para além de uma infinidade de curiosidades, muito eficaz nestes casos.

Segundo fontes da PJ, terão alegremente partido para Madrid, onde com toda a normalidade tomaram um avião para o Eufrates. O que levariam na mala diplomática para além da roupinha e gadgets electrónicos? Croquetes para debicarem durante a longa viagem? Não.

A considerar pela foto que correu, carradas de tubos de Clearasil. Já podem então tratar do problema do acne com toda a tranquilidade. 

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publicado às 17:33

Descaramento e arrogância

por Nuno Castelo-Branco, em 02.08.16

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 1. Descaramento


Todos sabemos por experiência colectiva - como eles gostam de dizer - que quem manda, por regra mente. Mente descaradamente e a propósito de tudo e pior ainda, de todos. Falta à verdade de tudo o que lhe convém enviar à estratosfera numa espécie de nuvem chuvosa no Saara. Temos então a questão pendente da Real Quinta de Caxias, em péssima e sinistra hora doada pelo infeliz Rei D. Manuel II ao Estado, no mesmo lote em que para sempre se foi Queluz. Cento e oito anos passados, o desastre está à vista desarmada, as portas escancaradas e o interior devastado por ladrões e pelos seus colaboradores. Ao contrário do que ontem foi dito no telejornal, o espaço está completamente acessível há muitos meses e o estado do interior prova isto mesmo. Só lá não foi quem não quis. 

E quem são aqueles colaboradores? Precisamente  quem até há uns tempos usou e abusou de um espaço que lhe foi entregue bem cuidado, mobilado, decente e apresentável tal como demonstram as escassas fotos datadas de 1905. Tudo se perdeu para sempre. Painéis de azulejos setecentistas, madeiras de soalho, pinturas e forros, vidros, portas e portadas, tudo foi destruído, dir-se-ia uma imagem de um palácio na Europa Central de 1945. Alarme dado nas redes sociais, podem agora fazer as reportagens que bem entenderem, pois o espaço chegou ao ponto de ruptura sem remédio possível. Podem apresentar-se diante de jornalistas todos os recém-chegados especialistas que encontrarem e podem apresentar-nos militares uniformizados de porteiros de hotel de terceira categoria que ainda têm o topete de debitar diante dos microfones, a anunciada e rigorosa "lista de encargos exigida aos futuros proprietários". Sabemos que desavergonhadamente mentem "com todos os dentes que têm na boca", tomem bem conta disto. Querem ganhar dinheiro a todo o custo, quando simplesmente têm o dever moral de entregar  gratuitamente a Real Quinta a quem dela de imediato cuidaria: a Fundação da Casa de Bragança. 

Sim, falta de pudor e um total descaramento. 

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 2. Arrogância


Quem diria que passadas apenas algumas semanas, a conversa enchachada do sr. Juncker mudaria radicalmente, oferecendo agora a vital pasta da Segurança a um comissário britânico?

O que disse ele durante uns dias, valha-lhe Deus! O ódio chispava, as palavras saíam-lhe incontroladas pela boca fora, ofendia em pleno "parlamento" europeu, o mau perder era clamorosamente perceptível e agora, subitamente, tendo sido ele uma autêntica fraude na gerência luxemburguesa, é moralmente moche e   finalmente amochou.

A arrogância era afinal uma desesperada fita e atendendo bem à realidade dos factos que não têm discussão, não há na Europa país mais competente para dirigir situações relativas à Defesa e Segurança do que o Reino Unido. Não há, estamos ainda muito longe de termos um outro entre os vinte e sete que sequer remotamente se lhe compare. Habituem-se a isto em Bruxelas. 

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publicado às 22:19

Assinem esta petição

por Nuno Castelo-Branco, em 01.08.16

 

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Estamos todos cansados, fartos de sofrer em silêncio as habilidades, manhas, negociatas, imundícies que envolvem irmãos, primos, cunhados e gabinetes de todo o tipo de actividades especulatórias, desleixo e outras estultas acções por parte das sucessivas vereações - sejam elas de que coloração forem - que têm arruinado a cidade de Lisboa: bairros inteiros que para sempre desapareceram por vontade dos grupelhos conluiados que bem conhecemos, obra feita e logo obra refeita, cabeçudos que surgem em prédios de fachada anterior ao betão, eis o que o futuro reserva para uma Lisboa que passará pela infâmia e vergonha de perder todo e qualquer interesse que uma capital europeia deveria ter. Neste caso, nem sequer a oposição se salva, é parte integrante do esquema.

Não tenham dúvidas, esta destruição consiste mesmo uma intenção política e assim sendo, política deverá ser a resposta popular. 

Esta é uma petição urgente, pois sublinha uma certa e necessária revolta contra uma acção que longe de atender a dificuldades de tesouraria, visa tão só prosseguir a já demasiadamente longa campanha política contra tudo o que a nossa história significa. 

Se há dinheiro, muito mais dinheiro, para outras actividades pré-eleitorais, obrigatoriamente deverá o executivo municipal atender a este caso. Em conformidade, façam o favor de divulgar e assinar esta petição. Lisboa agradecerá. 

* Já tem 1500 assinaturas e teremos de atingir as 4.000 até ao próximo dia 15 de Agosto. Copiem o link e divulguem. 

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publicado às 13:42






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