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1640

por Nuno Castelo-Branco, em 23.09.17

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Liga-se a televisão ou liga-se o feicebuque e o tema do momento é sempre o mesmo: Catalunha, explodindo excitações infantis acerca de algo que a esmagadora maioria não conhece e reacciona com aquele típico porque sim ou porque não. Uma das parvoíces mais propaladas remete-nos a 1640, quando no contexto da longa e desastrosa Guerra dos 30 Anos, a elite da Catalunha resolveu separar-se de Espanha. Aos catalães "devemos a  independência", aos catalães isto, aos catalães aquilo, é um chorrilho incessante de ignorância que nos entope os ouvidos. Nada disto seria muito importante se fosse apenas dito por aquelas doutas cabeçorras até aqui partisans do "open your borders", subitamente caídos de joelhos perante o deslumbramento de "mais uma revolução", por muito burguesa e xenófoba que seja. E é mesmo: xenófoba, egoísta e burguesa.

A verdade é simples e bem diversa. Ainda durante a primeira metade do século XVII o declínio militar, político e económico de Espanha era evidente, apesar da União de Armas engendrada por Olivares. Ao contrário do condado de Barcelona e zonas anexas, partes da já simbólica coroa de Aragão, Portugal era um reino distinto, o outro elemento de uma união dual que lhe garantia moeda, bandeira, alfândegas, forças armadas e um império colonial autónomo. Os inimigos tinham-se tornado nos mesmos, pois as emergentes potências marítimas - Inglaterra, Holanda e até um certo ponto a França -, tinham no Portugal dos Áustrias um alvo preferencial, enfraquecido pela ausência de uma Corte própria capaz de participar nos meandros internacionais da diplomacia e arranjos geopolíticos. A situação era deveras má, fosse a interna ou aquela existente nas possessões do Atlântico ou no Índico. Portugal era  oportunamente atacado e contra os portugueses teciam-se as mais desmioladas estórias de difamação, apontando aos lusos a estranha tendência para se miscigenarem "com animais", ou seja, negros, indianos, índios ou extremo-orientais asiáticos. Após os auspiciosos acontecimentos de 1640 escrever-se-iam páginas e  páginas de justificações neste preciso sentido,  destinadas sobretudo a uma Europa espantada pela guerra de autêntico extermínio que os holandeses, por exemplo, faziam a um país recentemente libertado da tutela da Casa de Áustria.

Vamos então às vantagens óbvias que a Restauração implicava para os jogos geoestratégicos de então:

1. O controlo das vias marítimas.
Basta-nos olhar para o mapa e a situação portuguesa de hoje é precisamente a mesma daqueles tempos. Portugal situa-se a meio caminho da ligação do Mediterrâneo com o Mar do Norte e Báltico; Portugal é uma costa fronteira às ligações marítimas da Europa e das suas então possessões coloniais nas Américas, África e Ásia. mesmo sequer sem contar com o seu vasto património ultramarino, convinha Portugal não estar dependente de Madrid e do seu vasto império sul e centro americano.

2. A posição privilegiada do porto de Lisboa, onde desembarcavam artigos trazidos pelos intermediários portugueses que aqui faziam negócios com as potências, umas mais relevantes do que outras e todas elas desejosas da obtenção de porcelanas, perfumes, pedras preciosas, marfim, panos, especiarias, açúcar, madeiras e outros artefactos coloniais. Se Portugal pudesse servir de recolector, talvez fosse mais lucrativo aos nórdicos limitarem-se a abastecer os seus navios comerciais numa Lisboa livre das limitações que a pertença à União Ibérica significava.

3. Havia interesse internacional na emancipação nacional, aliás desde sempre desejada pela grande maioria dos portugueses de todos os extractos, fossem eles o do povo miúdo, burguesia mercantil ou orgulhosa nobreza da então desaparecida Corte. A pertença das possessões portuguesas à mesma dinastia reinante em Castela, Aragão - a Espanha propriamente dita -, Nápoles, Sicília, Milanado, Franco-Condado e Países Baixos espanhóis, tornava mais difícil equilíbrio europeu, num momento em que as conclusões da Paz da Vestefália ainda pareciam distantes, conclusões essas que durante mais de um século e meio definiriam as  relações internacionais nos seus múltiplos aspectos, aliás alguns deles ainda bem presentes nos nossos tempos. O rei de Espanha - Castela, Aragão e a Navarra peninsular - era também rei de Portugal, um território distinto e como tal reconhecido em Tomar por Filipe II, tornado I de Portugal.

A Restauração viria, fosse ela desencadeada no 1º de Dezembro ou mais tarde, fruto do interesse internacional. Em 1701 rebenta a Guerra da Sucessão de Espanha e ao contrário da revolta catalã anterior que sintomaticamente logo proclamou Luís XIII como seu soberano e  tornando-se assim num mero apêndice da mais vasta política de guerras anti-Casa de Áustria veiculada por Richelieu, em Portugal voltou-se rapidamente à legitimidade usurpada nas Cortes de Tomar, quando a Duquesa de Bragança foi espoliada pelo seu primo Filipe II. Era ela a herdeira legal e legítima, disso não existe a menor dúvida. Assim sendo, em termos jurídicos a questão nem sequer poderia colocar-se, apenas prevalecendo o poder da força militar e do dinheiro que provisoriamente comprou consciências e lealdades.

Em 1701 defrontava-se a Casa de Áustria com a Casa de Bourbon, ambas com direitos legais evidentes ao trono espanhol. Enquanto a parte substancial de Espanha alegremente acolheu os ímpetos reformistas da nova dinastia vinda de Versalhes, a Catalunha - e não Aragão de quem dependia -, proclamou o arquiduque Carlos, o futuro imperador Carlos VI com um entusiasmo tal que bem depressa fez esquecer a revolta que alguns, hoje e em Portugal, apontam como salvadora da nossa Restauração: Carlos era um Áustria como Filipe IV. Se a Restauração tivesse fracassado e o rol de confrontos militares fosse diferente do que aquele registado pela história, politicamente o caso português continuaria em aberto não apenas por questões internas, mas sobretudo pelo interesse externo. Porquê? Porque sem dúvida, anos mais tarde e na conclusão do conflito que partilhou o património espanhol na Europa, existe uma clara evidência do território português e as depauperadas dependências coloniais que ainda nos restassem seriam outorgadas ao esbulhado Carlos de Habsburgo, ou até, quem sabe?, à Casa de Bragança. Não podemos agora saber o que teria ocorrido aquando da morte de Carlos II de Espanha, mas é quase certo que em Lisboa o assunto seria tratado de outra forma do que o aguardar de ordens. As potências assim o exigiriam e a oportunidade era demasiadamente tentadora para não ser levada avante. O equilíbrio europeu assim o exigia e com ele, o controlo das vias marítimas.

Agora o caso é bem diverso. Temos uma historicamente rara e excelente relação com Madrid e com Espanha partilhamos a fronteira, os principais rios que nascendo no seu interior desembocam no litoral português, assim como as vias de acesso terrestre à Europa. Partilhamos a garantia da segurança no flanco sudoeste europeu. A Espanha é o nosso principal cliente e o nosso primeiro fornecedor. Com Espanha participamos em varias instituições internacionais, sejam elas a U.E., a NATO ou a Ibero-América.

A verdade? A última coisa que quereremos é um conflito interno no nosso único vizinho e não se arrisca muito quando se afirma ser para Portugal desejável uma Espanha unida, em paz e também muito próspera. Desejar o contrário é uma sandice dos entusiastas do "one world, open your borders", exactamente os mesmos que agora desejam mais uma fronteira ainda para mais instável e não reconhecida ou um potencial emirato a longo prazo. Pensarem que os espanhóis, todos eles, sejam eles os castelhanos, galegos ou outros aceitarão encolhidos uma secessão catalã sem uma resposta à medida do desafio, é lamentável, denotando uma inconsciência perante as realidades.

Não nos convém, é tudo e mais importante ainda, nem sequer convém aos próprios catalães, já senhores de uma vasta autonomia, bandeira, hino e outros  aspectos essenciais ao seu desmedido orgulho, tão amplo e exclusivo como o dos próprios castelhanos.

Para a nossa tranquilidade, o mapa da península deverá continuar a ser aquele  que conhecemos desde o século XVIII: Portugal, Espanha, Andorra e uma possessão britânica, Gibraltar.

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publicado às 20:00

Deir ez-Zor

por Nuno Castelo-Branco, em 18.09.17

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Dado o que se sabe acerca da evacuação de terroristas sanguinários por aparelhos de uma potência nossa aliada, esperemos então que sejam recolocados o mais para leste possível, na Ásia Central, o baixo ventre da Rússia contíguo por felicidade da geografia, à China. Apostemos então nesta cada vez mais visível hipótese, já praticamente uma certeza.

Muito pior para nós será se se decidirem pelo Magrebe que como se sabe, "vive oprimido na mais vergonhosa opressão". Não perderemos por esperar.

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publicado às 21:48

Os Bisontes

por Nuno Castelo-Branco, em 15.09.17

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Confirma-se o dito popular ..."querer é poder". O Estado quis e facilmente pôde.

 

Um Bisonte aterrou em Figo Maduro, segundo se diz. Com ele traz perto de setenta portugueses resgatados da destruição provocada pelo furacão Irma. O Estado fez o que lhe competia e ainda por cima aproveita a oportunidade e martela-nos hora a hora com a gesta salvadora. Debulhados em lágrimas, os familiares esperam-nos e o caso fica resolvido e sem memória futura.

 

Ficámos a saber que é possível proceder a um resgate, dependendo da vontade política. Quantos C-130 tem a Força Aérea Portuguesa para organizar uma ponte aérea que comece desde já a evacuar os milhares de portugueses e luso-descendentes desesperados que definham na Venezuela? 

 

A Força Aérea que dê o exemplo e envie alguém a S. Bento para exigir este serviço. Comecem pelos doentes, idosos, mulheres e crianças. Os homens mais jovens e escorreitos ficarão no fim da bicha.

Ou neste caso o Estado pode mas não quer?

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publicado às 06:48

A Lisboa do esquema vigente

por Nuno Castelo-Branco, em 30.08.17

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Há precisamente 43 anos, a 31 de Agosto de 1974, pela primeira vez vi a Lisboa que conhecia através de centos de imagens que os meus pais me mostraram sem que jamais cá tivessem estado. Identificava facilmente as zonas e logo passámos semanas a percorrê-las a pé, num turismo gostosamente forçado que recolhia a altas horas da noite ao refúgio na roulotte do primo Joaquim Dantas, estacionada no parque de Campismo de Monsanto, 5m2 à medida de 1m2 por pessoa do nosso agregado familiar.

Era ainda uma magnífica cidade, com áreas relativamente bem delimitadas pelo percurso da história de um país que contando com centenas de anos, nem por isso deixou de seguir, por vez tardiamente, os padrões aceites e vigentes no resto da Europa ocidental e central. Existia a cidade do Iluminismo, a de uma reconstrução admiravelmente conseguida. Sobreviviam poucos vestígios anteriores, tanto medievais como da Renascença que chegando aqui relativamente atrasada - e boa parte dela desapareceu em 1755 -, talvez em boa parte tenha coincidido com a união ibérica. Logo se seguiu a Lisboa burguesa num tímido imitar dos Boulevards da rectílinia e plana Paris, estendendo-se as novas ruas e bairros desde o início da Avenida até ao Campo Grande. A cidade republicana, essa limitava-se quase exclusivamente ao que a 2ª república em escassos anos, dado o volume que ainda ocupa, ergueu e expensas de proprietários obrigados a ceder posses, terrenos votados ao abandono e algum património do Estado. É mesmo aquela que grosso modo compreende a vasta área que vai da Praça do Chile aos Olivais, incluindo as artérias adjacentes à Avenida de Roma e todos os bairros ditos sociais que foram sendo ocupados por vários estratos relativamente afectos - ou naquele portuguesíssimo assim-assim - ao regime vigente.

Em 1974, poucos meses decorridos após o golpe de Estado, a cidade estava imunda, coberta de dizeres materialmente inócuos mas tremendamente violentos de morra! isto, morra! aquilo, alternando o forro de cartazes até aos terceiros andares, com os borrões de tinta passada à brocha que nem sequer pouparam monumentos. Uns tantos magníficos murais do MRPP, compunham o todo e sobressaíam, é mesmo verdade.

Lisboa ainda tinha e oferecia a oportunidade a quem quisesse vê-la para além dos passageiros estragos. Imponentes edifícios burgueses oitocentistas cobertos de ornamentos e arrebiques, grandes cafés de época, enormes teatros e aquela certa homogeneidade de áreas que contavam uma história, um certo tempo.

Tudo desapareceu, inclusivamente a fauna humana que então fervilhava e era espessa na Baixa, espessa nas Avenidas Novas, espessa nos locais onde facilmente eram catados turistas de ocasião. Foi a Lisboa que vi aos 15 anos de idade, uma cidade que se apercebia para além de um segundo do tempo da sua existência.

Dei-me esta noite ao voluntário trato de polé de assistir a uma espécie de debate televisivo em que se digladiaram todos os candidatos a presidir à edilidade da capital portuguesa. Um desastre que apenas confirmou as minhas suposições há muito tempo enraizadas após a passagem de décadas como pedestre e interessado não apenas no fachadismo, mas também voltando a minha curiosidade para a organização interior dos espaços que também desfiavam a história dos seus residentes, dependendo da ampulheta que marca o tempo e das condições propiciadas pelo mesmo.

Todos bem sabemos que os problemas da cidade já nos chegam após muitas décadas de depredações, quiçá podendo nós situar como marco a destruição calamitosa da Praça da Figueira e do Martim Moniz que lhe é contíguo. A partir daí, o camartelo tomou força e fúria e trepou pela Avenida acima, arrasando, mutilando e desfazendo belas realizações que um dia mereceram o Prémio Valmor, talvez o único prémio mundial que garante a futura demolição do galardoado. Para sempre desapareceram prédios de arrendamento, palacetes, igrejas e tantos, tantos outros exemplos daquilo que significava uma cidade relativamente europeia, pois a modéstia nacional não concentra a monumentalidade de capitais imperiais como Viena, Paris, Roma ou a Berlim também para sempre desaparecida com a terraplanagem final de 1945. Pouco se preservou e aquilo que sobra é adulterado, pladurizado, aluminizado e dotado de modernices brilhantes à luz led. Vingam os cabeçudos onde os arquitetos sem C teimam em deixar marca tão indelével e malcheirosa como o líquido aspergido pelo muito mais simpático e relevante cãozinho que fareja para logo alçar a perna. Desta forma vão vingando uns desgraçados monos aqui e ali e damo-nos, pobres coitados, a olhar para um das dezenas de Herons Castilho e exclamarmos ..."pelo menos salvou-se uma parte da fachada!" Muitos conhecem-no pelo Frankenstein da Rua Braamcamp.

Pensei que iam falar da verdadeira razão da explosão incontrolável do muito necessário e bem-vindo turismo para este ensolarado Portugal, turistas esses empurrados por aquilo que os candidatos fazem de conta não perceber e têm em reserva mental, ou seja, a segurança. Não merecendo sequer a pena tecerem-se considerações a respeito das razões de uma tranquilidade durante passeios neste país que lhes é estrangeiro e que todos entendemos perfeitamente, politicamente tornou-se incorrecto mencionar ou identificar a causa desta súbita irrupção de forasteiros que antes preferiam o Egipto, o Próximo Oriente ou um dos países do Magrebe. Preferiam e suspeito intimamente ainda preferirem no recôndito dos seus cérebros à procura de aventuras exóticas. Portugal era uma fraca piada que poucos sequer tentavam conhecer através de fotografias, em suma, não interessava. 

Esperaria que pelo menos alguém ousasse falar da escandalosa depredação de património arquitectónico, miseravelmente substituído por construções horrendas, vulgares e sem qualquer interesse que num futuro bem próximo não concitarão a menor curiosidade ou estima. Não prestam nem sequer em qualidade estética que decorre de qualquer novidade. Copia-se em pequenino e mau a roçar o rasca, eis a situação.
Resolvidas as questões de instabilidade em certas áreas bem próximas da Europa, podemos ter a certeza deste turismo de massas desaparecer e oportunistamente deveremos desde já implorar a todas as alminhas do purgatório para que a criminosa violência por lá continue por muitos e bons anos. É o ponto a que chegámos.

A verdade é que o Esquema Vigente tornou-se tão retorcido, que a principal vereação da edilidade, a do urbanismo, tornou-se, alegadamente, numa ampla coutada de um conluio de certos fundos imobiliários adstritos a uma suspeitosa banca e em claro conúbio com as construtoras mais ou menos amigas. O resultado está à vista e podemos estar certos de que não sobejará pedra sobre pedra, cingindo-se a Lisboa que interessa a bem pouco das construções sobreviventes entre a Rotunda e o Tejo. A isto resumir-se-á a capital de Portugal.

O cúmulo da desfaçatez que me fez decidir a ir uma vez mais à secção de voto para depositar um X de alto a baixo? Ousaram mencionar a grande e muito necessária obra do Palácio "nacional" da Ajuda "não concluído desde há 200 anos". Ainda se gabam todos aqueles pobres tolinhos de olhinhos em alvo, como se de uma suprema e final conquista se tratasse. Bem vistos os factos, esta menção à Ajuda resume a total incapacidade e míngua mental de um bando de cinco paraquedistas da políticazinha.

 

É mesmo uma desgraça Ribeiro Telles não ter hoje 50 anos.

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publicado às 22:28

A propósito...

por Nuno Castelo-Branco, em 28.08.17

....como é que param as modas quanto aos retornados da Venezuela?

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publicado às 16:46

Finalmente, alguma acção visível

por Nuno Castelo-Branco, em 29.07.17

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 O governo, bem, há que dizê-lo, resolveu tornar mais visível o programa de acolhimento de refugiados da Venezuela. Mais vale tarde do que nunca, é o que se diz nestes casos.

Nem teria sequer outra opção, apenas cumpre aquilo a que se comprometeu constitucionalmente. Basta agora convencerem quem para Portugal queira vir, a estabelecer-se no continente onde existem mais capacidades de integração, mais oferta e espaço.

Criem-se então as condições, as linhas de crédito, os alojamentos a obrigatoriamente serem cedidos pela banca intervencionada pelo Estado - possui milhares de casas em carteira -, as escolas para os filhos e os médicos de família. A questão da saúde será talvez a mais urgente.

Talvez assim mitiguem o opróbrio que sobre o esquema vigente caiu após certas coisas das quais foi e ainda é o único responsável. Em suma, uma forma indirecta de pedir desculpas a quem, mesmo passadas algumas décadas, ainda não se esqueceu.
Organize o governo uma campanha de angariação de boas vontades a título gratuito e logo verão os voluntários que se apresentarão. Aqui estará um deles.

* Não se esqueçam de accionar as linhas de auxílio gizadas em Bruxelas para este fim que é precisamente idêntico a outros.

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publicado às 08:23

De novo, a mesma história

por Nuno Castelo-Branco, em 24.07.17

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 Repete-se conto por conto, família a família, desgraça a desgraça. Sem uma única novidade, eis que desfilam caras que podem credivelmente repetir outras de há umas tantas décadas ainda filmadas a preto e branco. Os arquivos contêm quilómetros de filmes guardados e impossíveis de mostrar pela crua violência. Percebe-se a razão para tal desfaçatez. Agora ainda podem fazê-lo de forma mitigada, mas a sociedade e a tecnologia disponível são diferentes e a primeira, mais atenta, envergonhada e miraculosamente dada a causas, dispõe dos meios que para supremo azar de quem pode ordenar, desta vez não deixará passar em claro.

O governo estará a fazer o que todos deveríamos esperar? Talvez, concedamos então o privilégio da incógnita, mas conhecendo a natureza dos políticos do regime, todos eles e sem excepção numa assentada, é cada vez mais duvidoso, para não dizer impossível. Sabemos que o caso Venezuela é melindroso, requer gigantescas cautelas e exige ainda mais cuidados do que o precedente que abrangia uma série de territórios portugueses espalhados por três continentes, cujo abandono apenas pode ser imputado a Lisboa e à sua desnecessária e abusiva rendição incondicional.

A Venezuela é um Estado soberano e facilmente poderá retaliar da pior maneira, bastando para isso o descarado e cada vez mais carnavalesco aprendiz de ditador fazer um daqueles discursos atabalhoados que nem o próprio Chávez ousaria. Soltará facilmente o ódio homicida pelas calles e isso o MNE sabe tão bem quanto a generalidade dos cada vez mais aterrorizados interessados.

Anda este blog a avisar esta certeza há pelo menos dois anos. Urgia fazer os inevitáveis preparativos, mas o encolher de ombros foi a norma, preferindo-se outras prioridades relativamente ingratas, como o país comprovou e eles sabem que nós sabemos.

Avisos sem resultado aparente, embora tenhamos tomado conhecimento de alguns textos passarem pelas secretarias de Estado correspondentes a este tipo de assuntos desagradáveis.

Já não podem ocultar sem escândalo público. Pelo que ouvimos hoje no telejornal da SIC que se deu ao extenuante e inglório trabalho de conceder meia hora de atenção a uns tantos casos relativamente felizes quando comparados com outros, podemos então imaginar o que estará vergonhosamente escondido, as imagens de gente idosa e semi esfarrapada a vaguear pelas ruas madeirenses e a suplicar por uma malga de sopa, numa recriação da famosa cena do filme Oliver Twist dos anos sessenta e o bem conhecido, please Sir, I want some more! Se a SIC transmitiu esta reportagem, é porque se trata de um problema piramidal, imenso e esmagador.

Paradoxalmente ou não, o número de pobres coitados vai diminuindo na contabilidade conta-cabeças por conveniência. Há uns tempos eram um milhão, agora apenas metade ou ainda menos. Parabéns pelo esforço, é o que nos é possível resmungar em incontida revolta.

Já vimos disto antes e agora, em pleno século XXI e perfeitamente conhecidos os factos que nos chegaram em fracção mitigada, repetem ponto por ponto o que sucedeu. O mesmo deixa andar, os mesmos terrores ideológicos retirados de cartilhas que superficialmente conhecem através de umas tantas citações, os mesmos delíquios laxistas e entre outras torpezas, a mesma extrema cautela para não ofender quem deve ser chamado à atenção que nem por sombras merece.

Já vimos disto, na verdade. A história repete-se, contrariando os insuportavelmente arrogantes partisans easy jet-set burgueses do politicamente correcto, provavelmente mais preocupados com as suas férias de verão num resort qualquer. Nem lhes passa pela cabeça o facto de estarem a ser aquilo que desbocada e alegadamente mais detestam: gente má e cruel.

O próximo assunto que se segue? O dossier África do Sul.

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publicado às 22:24

Sim, vê-la, mas muito discretamente

por Nuno Castelo-Branco, em 22.07.17

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 No melhor, mais decente, interessante e menos visto canal da tv portuguesa, uma série alemã que num misto de disfarce e embaraço, nos mostra aquilo que todos sabemos e fazemos de conta ignorar para não ofender. Quando virem um episódio, entenderão porquê. 

Weissensee na RTP 2

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publicado às 22:13

Ceci n'est pas un bouchon

por Nuno Castelo-Branco, em 20.07.17

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 ...mas sim hálitos vinhosos e barrigas morcelosas. 

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publicado às 16:47

Rédea curta

por Nuno Castelo-Branco, em 19.07.17

 

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 Não se trata de um tema de campanha e muito menos uma arma de arremesso político. A calma é o que se aconselha quanto a este melindroso dossier da evacuação de nacionais estabelecidos na Venezuela. Estrondeia nas redes sociais um coro de indignações por aquilo que sucedeu num organismo qualquer da U.E. a propósito do voto português quanto ao  notoriamente incapaz Maduro de Caracas. Por muita razão que os nossos comparsas europeus tenham, não atendem aos mesmos problemas enfrentados pelas autoridades de Lisboa, sejam elas de que partido forem. O que têm os portugueses em perspectiva? O número que uma vez mais se aproxima  do milhão. Não estamos a falar de moedas ou de apostas, mas sim de pessoas que urge proteger.


A verdade é que o regime não pode nem deve falhar onde fracassou clamorosa e voluntariamente em 1974/76. Não pode, seria mesmo uma afronta ao interesse nacional.

Queremos então acreditar de tudo estar a ser feito para precaver uma catástrofe e assim, os assuntos que são simulltaneamente políticos e humanitários, deverão ser tratados de forma discreta. Contudo existem alguns indícios preocupantes, como os milhares já arribados à Madeira e deixados à guarda do governo regional, parte integrante da estrutura do Estado de direito que é Portugal. Não se vislumbram campanhas organizadoras ou recolectoras de fundos, os dizeres na imprensa são praticamente inexistentes, não se vê um único programa nos canais televisivos nacionais. Dir-se-ia nada estar a acontecer.

A palavra é dura e neste caso politicamente feia, mas real: refugiados.

Neste momento deveria o governo de Lisboa apresentar um plano de contingência em Bruxelas que aos refugiados da Venezuela fossem pelo menos concedidas as mesmas condições de integração como as oralmente garantidas aos que à Europa chegam de outras paragens. Está isto a ser feito? Não parece, é duvidoso e este caso deve ser tomado de rédea curta. Mantenhamos então a vigilância.



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publicado às 13:29

Trump em Paris

por Nuno Castelo-Branco, em 14.07.17

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 Não era assim "tão absoluto", votou negativamente naquele Conselho em que o governo francês resolveu ajudar os rebeldes.

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publicado às 08:04

Macumbas camarárias?

por Nuno Castelo-Branco, em 01.07.17

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É uma visão repetitiva, mês após mês. Naquela zona a intervencionar entre a R. Luciano Cordeiro, Largo das Palmeiras e Rua de Andaluz, existem sete edifícios com "projecto aprovado", coisa que mais não quer dizer senão o inapelável e completo arrasar. Serão substituídos por uma magnífica novidade de lataria, betão, pladures e outras modernidades a que a vereação do urbanismo nos tem habituado. Lá se vão cantarias, madeiras, estuques e aquele dispensável aspecto urbano do final de oitocentos e virar de página para o século XX.

Sabe-se que o projecto terá sido muito naturalmente aprovado, obedecendo aos critérios demolicionistas que há muitas décadas assaltaram todas as vereações da CML. Este não foi excepção, mas... algo aconteceu. Como e o quê? Não se sabe, mas imagina-se.

A vizinhança anda entre o incomodada e o divertida com esta cena de ovos vergonhosamente desperdiçados, pois os noticiários são pródigos em feitiços, bruxarias e macumbas, umas à beira mar, outras terra adentro como é este o caso. Ficamos então sem saber se deve ser este sortilégio abençoado e seguir em frente impedindo a destruição irreparável dos sete magníficos edifícios que fazem parte da história desta cidade, ou pelo contrário, se este "desamarrar" de licenças deve continuar a encontrar todos os escolhos possíveis.

Dado o que se adivinha, até às eleições não teremos novidades.

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publicado às 08:24

O esquema vigente

por Nuno Castelo-Branco, em 30.06.17

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Em 1975 o país fervilhava de paixões e sedição descarada. Subitamente desapareceu então uma boa quantidade de equipamento de campanha, neste caso as G-3 que tinham prestado os seus bons ofícios em todas as frentes no Ultramar. Logo houve quem pronunciasse a copcónica tolice de estarem as armas em boas mãos. Sabia-se de imediato ao que se referia, pois dado o contexto, tudo era de prever, como aquele assassinato à porta do RAL 1 foi um marco de tudo aquilo que mais tarde se passou.

Agora desapareceu nada misteriosamente uma quantidade muito mais importante de armas de guerra, entre elas os pouco ou nada temíveis lança-granadas que aqui e ali vamos vendo em filmes de acção, seja ela fictícia à Rambo 21 com sequelas previstas, ou bem real nos telejornais que nos contam muito ao de leve e com apertada censura, do que tem ocorrido em todo o Próximo Oriente. Felizmente podemos ficar todos bastante tranquilizados, pois não desapareceram facas de degola, mas à falta delas, umas tantas inofensivas granadas ofensivas e milhares de munições de praticamente inócuo calibre 9mm, incapazes de perfurar um tanque Leopard II A6, valha-nos Nosso Senhor. Do mal o menos e tal como malissimamente parece estar a ser sugerido, encolhamos então os ombros e sigamos em frente, até porque factos semelhantes têm ocorrido noutros conhecidos países da NATO.

Provavelmente a poderosa cerca de arame farpado foi estoicamente trabalhada de modo a abrir uma brecha tão grande como a frente do Mosela e o talhe de foice das Ardenas em 1940. Provavelmente o detector de presença - existia? -, foi sabiamente avariado há uns anos sem que disso alguém tivesse dado conta. Provavelmente a vídeo vigilância estava desactivada devido a uma falta de cassetes vhs. Provavelmente eram conhecidas as rotinas das patrulhas e como estas eram feitas. Tudo provável e alegadamente, tal como o esquema vigente há muito nos habituou para o que quer que seja e as Forças Armadas com os seus mais altos representantes, poderem uma vez mais fazerem a carantonha moita-carrasco.

É praticamente certo de que jamais teremos novidades acerca deste negligenciável assunto de início de verão, a tal silly season.

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publicado às 18:10

Basil Bazaroff

por Nuno Castelo-Branco, em 15.06.17

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 Era uma personagem de Tintim, surgindo na aventura O Ídolo Roubado. Baseou-se em Basil Azaroff, um escroque internacional negociante de armas que pertenceu à Vickers-Armstrong, tornando-se conhecido por ter acicatado guerras para conseguir bons contratos com ambos os contendores.

Assim parece estar agora a acontecer com a administração Trump, ainda há pouco conseguindo um multimilionário contrato com os repugnantes sauditas, para agora fazer exactamente o mesmo com o felizmente não menos repugnante mas segregado Qatar. Temos guerra garantida? Remotamente talvez, se os fornecimentos se limitarem a material pesado - artilharia, tanques relativamente ultrapassados como o Abrams, aviões F-15, etc - e não passível de uso, conhecendo-se a timidez que grassa naquelas fileiras sempre à cata de bandidos úteis por encomenda. Esta parafernália limitar-se-á a martelar as avenidas destinadas às paradas e logo seguirem para os habituais depósitos para o necessário processo de enferrujamento. Bom para ambos os lados, especialmente para a indústria de armamentos americana e respectivos operários a quem o presidente muito prometeu para ser eleito. Foi eleito e agora cumpre o prometido. Nada que os precedentes não tenham feito, sabemos bem, mas agora está sob o foco das redes sociais e media.

Outro caso seria virmos a saber que as encomendas também incluirão material mais ligeiro como jeeps, transmissões, granadas, explosivos, mísseis anti-carro e anti-aéreos portáteis, metralhadoras, instrumentos de visão nocturna, etc. Vão parar directamente às mãos dos amigos de McCain.

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publicado às 19:29

10 de Junho

por Nuno Castelo-Branco, em 12.06.17

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 A continuidade histórica foi retomada e um bom exemplo foi o simbólico desfraldar de todas as bandeiras que foram, são e para sempre serão portuguesas. Para despeito de alguns que ainda são demasiados, foi isso mesmo o que os mais altos órgãos do Estado finalmente assumiram. Portugal não surgiu em 1385, 1640, 1810, 1820, 1834, 1910, 1926 ou 1974. Assume assim integralmente todo o seu passado quase milenar.

Agora, falando ainda mais a sério, aqui fica a necessária opinião acerca da dupla que foi ao Brasil comemorar não uma mera festa nacional que nem sequer é o dia da independência do Estado, mas sim a Portugalidade em tudo o que o termo encerra no seu todo pluricontinental, como um quase esquecido comunicado um dia infelizmente rezou em vão. 

O 10 de Junho estendeu-se a países extra-europeus e isso é positivo. Os portugueses e respectiva descendência que por lá vivem e trabalham têm sido olhados como meros utensílios arrecada-divisas e este aspecto não é apenas algo imputável a este regime que deles tem abusado, pois o abusivo costume verifica-se desde há muito. Na história dos nossos trisavós, foram evidentes os sobressaltos quando a Metrópole se viu atingida por esta ou aquela quebra da moeda ou crise económica e financeira além Atlântico. Já era tempo de vermos nos nossos compatriotas não apenas o que tradicionalmente a abstenção total que grassava nos gabinetes de Lisboa impediu de considerar, ou seja, valiosos agentes fora de portas, servindo não apenas os nossos interesses da exportação de produtos portugueses, mas sim como força de influência.

 
Não estando em causa as personagens, ficaram então os princípios que há umas décadas andam demasiadamente perdidos nas brumas da memória. Estávamos habituados a cimeiras onde fazíamos a vez do parceiro novo rico mas à conta e infalivelmente obediente, é verdade,. Estas resumiam-se a paragens e lugares que se tornaram muito comuns, limitando-se ao espaço físico dos 28, perdão, 27 convivas continentais. Tudo se resumia afinal a acatar directivas engendradas não se sabe bem em que gabinete no estrangeiro. Obedecia-se e em suma, a nossa política externa deixou de ser nossa.

Nada pôde ser mais errado - e desnecessário, como se comprova -, pois significou a voluntária renúncia a uma política externa portuguesa que como agora se vê, gostem ou não gostem os restantes rotativos que inevitavelmente regressarão um dia ao poder,  reemerge. Viagens de trabalho à China, Índia, África lusófona e Brasil, eis o caminho tradicional agora retomado e essencial à preservação da nossa identidade. O outro projecto? Um complemento de conjuntura da geopolítica. Pouco importando aquele que ocupe o cadeirão governamental, esta é mesmo uma obrigação nacional, dado todos supormos a insistência deste país em querer continuar a existir.

Os bons momentos, sempre passageiros ao longo desta já longa história, podem e devem ser aproveitados. Com alguma audácia até a aliança luso-britânica será revivida, pois com a atenção que o assunto obviamente merece, facilmente verificaremos que tal é do total interesse de ambos os comprometidos na mesma. Poderemos vir a ser-lhes muito úteis, disso não existe a menor dúvida e tudo se conjuga para esta suposição. Regimes chegaram e mais tarde partiram, o princípio e o interesse comum permaneceu. O resto? Que espere ou se conforme.

Contemos então com a desejável reserva mental, desfaçatez, oportunismo, hipocrisia e visão para além da mercearia de quem está ao leme, pois é disso mesmo que se trata e Portugal precisa: olhar para o mar, mais realismo e muito menos sonoros princípios de vacuidade afrancesada. Isso que fique então reservado para os infinitos palratórios de eurogrupos e afins, porque o fazer de conta é parte integral dos bons políticos que infelizmente têm escasseado. Como luso-africano de quarta geração e que em nenhum clubezinho de interesses  está inscrito para além do ginásio, rejubilo.

Sim, do Minho a Timor. Porquê? Têm alguma dúvida? Aproveitemos então.

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publicado às 13:45

Nojentos e sem disfarce

por Nuno Castelo-Branco, em 08.06.17

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 Há actos que tudo dizem sem o proferir de uma só palavra.

Hoje, na Austrália, foi pedido um minuto de silêncio em memória das vítimas da acção terrorista há pouco ocorrida em Londres. Enquanto o público e a selecção australiana de futebol cumpriam o solicitado, os sauditas olimpicamente desprezaram a sugestão e da forma  mais ostensiva passearam pelo relvado, como se não tivessem entendido. Afinal entenderam e explicaram-se com um desinteressado ..."isso não faz parte da nossa cultura". Sabemos que não e também temos a certeza de ser a nossa civilização algo muito confortavelmente incómoda e por isso mesmo não podemos nem queremos ceder. Nem nisto, nem num oceano de outras coisas.

Note-se que para nossa vergonha e humilhação, a Arábia Saudita é por interpostas alianças, nosso comparsa internacional.

É mesmo a assunção do orgulho pelo crime, um escarro lançado à nossa cara. Se algum dos politicamente correctos que por aí pululam em delíquios de aprazado colaboracionismo ainda duvidam do mal, aí está ele.

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publicado às 21:26

Flores de Maio ou corvina ao jantar

por Nuno Castelo-Branco, em 08.06.17

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 Uma graçola à portuguesa e sem qualquer efeito, como é costume. Outra coisa não poderemos dizer acerca do opinionismo que grassa nos media nacionais, como sempre a onanistamente torcerem muitas excitações por causas indetermináveis mas consentâneas com o quanto pior, melhor. Apostam nas pulsões que corroem este pobre país desde há décadas e quanto a isso, a melhor resposta advém precisamente das autoridades que por aqui vão exercendo o poder, não se comprometendo nem com hard-Brexit ou com a escolha antecipada do vitorioso de logo à noite.

Invoca o governo a relação muito especial de Portugal com o Reino Unido - ou seja, a Velha Aliança que pelos vistos ainda vale algo -, o que significa precisamente o contrário daquilo que Bruxelas deseja e os media internos querem.

Assim sendo e por rotineira prudência, também apostaria todas as fichas na casa da roleta que tem inscrita a palavra May. Isto apesar da bizarria de algumas propostas saídas da sua boca, entre estas a que garante terem os mortos de continuar a pagar através do que deixam em herança, os serviços que lhes foram prestados quando ainda viviam. Esta é uma excentricidade gananciosa que subitamente transforma os tories em competidores directos da extorsão comunista que vê na propriedade privada* um mal a liquidar.

*A propósito e desde já antecipando ditos habituais, para além do carro com matrícula de 2008, não possuo absolutamente nada.

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publicado às 20:03

António Barreto diz o essencial acerca da Venezuela

por Nuno Castelo-Branco, em 06.06.17

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 Finalmente alguém com voz se atreve a escrever sobre este assunto que o governo teme. É justo dizer que nisto está irmanado com praticamente toda a oposição. Decidiram que não lhes convém o ruído e diplomaticamente falando, têm razão, razão essa que logo se espatifa quando depois fazem afirmações disparatadas perante os jornalistas. Como já se disse, repetem os mesmos pueris argumentos e sugestões feitas a outros portugueses, noutros tempos e noutras paragens. As mesmas rimas, as mesmas desculpas, os mesmos argumentos que a ninguém convence, dir-se-ia um copy-paste perfeito. Não resultará e deverão enfrentar o problema que lhes estourou nas mãos.

De uma coisa podemos estar certos: a enxurrada acontecerá e pior, foram avisados e nada ou pouco fizeram.

O texto de António Barreto

"O que se passa na Venezuela é, a todos os títulos, grave. Sob o domínio de uma ditadura demagógica e populista, um país rico encontra-se falido, dá sinais de caos e miséria, em permanente revolução e à beira de uma perigosa insurreição. O seu governo é imprevisível e goza de uma grande tolerância internacional, talvez por ser uma ditadura esquerdista e tropical, que destruiu, em pouco mais de quinze anos, um país moderno e em desenvolvimento, apesar de muito desigual. Os primeiros anos de ditadura serviram para uma radical distribuição de riqueza e uma diminuição da pobreza, facilitadas pelas receitas do petróleo, cujas reservas estão entre as mais vastas do mundo. A política americana em relação à Venezuela pecou várias vezes por interferência. A quebra de proventos com o petróleo e a política dos governos de Chávez e Maduro são as causas essenciais da actual desordem.

 

 Há muitas décadas, os emigrantes portugueses elegeram a Venezuela como um dos países de destino favoritos. Talvez sejam hoje quase 500 000, ninguém sabe ao certo, mas este número deve incluir muitos de segunda geração. Parece que haverá quase 200 000 pessoas inscritas nos consulados. É muita gente. Com a evolução da situação actual, muitos vão querer regressar a Portugal. Não se sabe quantos. Mas o país precisa de estar pronto para que regressem muitos. Mais vale estar preparado a mais do que a menos. A Madeira é a principal origem de emigrantes para a Venezuela. Será também o principal ponto para retorno.

 

Já regressaram à Madeira, em poucos meses, cerca de mil. Ao todo, em dois ou três anos, perto de quatro mil. Mais de 800 já se inscreveram nos centros de emprego. Muitos procuram casa. E lugar nas escolas para os filhos. O governo da República tem a estrita obrigação de fazer tudo e mais alguma coisa. Directamente e através do governo regional. As instituições europeias têm a obrigação de apoiar estes refugiados que não podem ser penalizados pelo facto de não serem africanos ou asiáticos.


Tanto quanto sei, o governo regional está a fazer o que pode. Se está, muito bem. Mas deve ser pouco. Tem de ter o apoio do governo da República, assim como das instituições europeias. Se portugueses regressarem da Venezuela, serão, a muitos títulos, refugiados. Mais ainda, serão também retornados. Sobre estes, temos obrigação de saber aquilo de que falamos. Não é possível imaginar que os portugueses da Venezuela sejam tratados como foram muitos retornados das colónias, em 1975, nem como muitos refugiados muçulmanos e africanos que hoje chegam à Europa. Convém não esquecer que não é apenas à Madeira que aqueles emigrantes estão a regressar, é a Portugal!

 

O governo não deve falar alto. Deve estar calado. E ser discreto. E não fazer demagogia. Mas deve estar pronto e mostrar aos portugueses de lá que está preparado. O governo não deve fazer barulho a mais sobre este problema. Um secretário de Estado foi a Caracas e tratou do assunto com cuidado? Muito bem. Há dispositivos de segurança que começam a estar preparados, para as viagens e os transportes? Há sistemas prontos a funcionar para a saúde, os cuidados de emergência, a habitação e as primeiras necessidades? Há cuidados para crianças e idosos? Há sistemas imaginados para rapidamente ajudar quem pode trabalhar? Há apoios para apoiar quem quiser criar empresas? Há uma boa articulação, sem política de permeio, entre o governo da República, o governo regional e as instituições europeias?

 

O facto de a ditadura venezuelana ser de esquerda não deve embaraçar o governo português. O facto de os portugueses da Venezuela não serem muçulmanos não deve inibir o governo. Esses mesmos factos não deveriam impedir a imprensa de estar mais atenta. A discrição, em todo este tema, obriga o governo e as autoridades, não os privados nem os jornalistas. O que, neste caso, se fizer a mais, com ruído excessivo e exibicionismo, será criminoso. Tanto como se não se fizer nada nem o suficiente."

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publicado às 09:35

Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais nº 2

por Nuno Castelo-Branco, em 03.06.17

1.2.-Patrimonio-Palacio-Sotto-Mayor-Carlos-Valadas

Lembro-se como se hoje tivesse sido. 

Num dia daquele já bastante distante ano de 1975, o meu pai* disse-me para ir com ele ao Palácio Sottomayor, onde, pelo que se sabia, existia alguma boa vontade para com as pessoas que forçadamente tinham vindo para a até então - e ainda o era em Timor - Metrópole. No Rossio corria o boato que garantia um staff  composto por gente alheia às foices, martelos, estrelas e patinhas de galinha (MDP/CDE). Assim constava e por regra parece que assim acontecia. A minha companhia talvez servisse como um arremedo de chantagem moral.


Aquele belo edifício servia então como entreposto de roupas destinadas aos retornados. Os grandes salões dourados num brilho fanado já tinham vivido melhores dias e estavam atulhados com arranha-tectos de caixas contendo roupas. Mal se vendo em toda a sua sumptuosidade, essa grandeza de outrora, décadas mais tarde miraculosamente escaparia a uma fortuita decisão de demolição com o fim de ali se erguer um daqueles mamarrachos de betão que nas cercanias a CML permitiu brotar como cogumelos venenosos. 


Estava-se em plena pródiga época de cunhas que noutros regimes foram denominadas de empenhos. O meu pai conseguira esgueirar-se entre as apertadas malhas dos controleiros da Intersindical, ou  seja, do bastante impertinente PC e satélites de serviço e mediante um amigo de pseudónimo Valente Cunha, lá conseguira o lugar de professor de História no Liceu D. Manuel I, em Alcochete. Diariamente deslocava-se no 43 até às imediações do Terreiro do Paço, onde iniciava a sua odisseia de várias horas entre idas Tejo acima e regressos tardios ao parque de campismo de Monsanto. Obteve já nem sei através de quem, mais uma muito empenhada cunha que talvez propiciasse o contorno das regras impostas pelo governo da troika PS/PPD/PC + MFA de Vasco Gonçalves, normas essas que de uma eficaz penada eximiram o Estado da contabilização de muitos milhares de pessoas que num ápice deixaram de entrar nas contas do ábaco do desastre e mais importante ainda, nas ajudas a conceder. Já tínhamos ido ao IARN que então funcionava para as bandas do Museu de Arte Antiga e ali foi-nos friamente esclarecido que ..."pela Lei o senhor e a sua família, chegando a 31 de Agosto de 1974, não podem solicitar ajuda".


Chegados ao Palácio Sottomayor, tivemos o supremo azar de sermos recebido por uma bastante iracunda activista com a patinha de galinha à lapela, numa época em que era de bom tom separar as águas, fosse no machimbombo (autocarro verde da Carris), no eléctrico ou metropolitano. Usava-se o símbolo do partido bem visível no casaco, vestido ou camisa, como se se tratasse de um precioso broche de pedrarias cuidadosa e requintadamente lapidadas por aquele Leitão que durante tanto tempo bem servira a Coroa. Os apressadamente aggiornados ou preocupados por serem ainda mais visíveis, preferiam o grande autocolante e tal como como acontecia com os banhos e cuecas, dele faziam a muda semanalmente, dependendo da data da próxima manif ou greve aprazada. Olhava-se de soslaio para o lado e no caso do efémero vizinho de viagem cumprir grosso modo o politicamente correcto da época, até se metiam ambos em simpática cavaqueira. O pior é se aquele com quem era forçado a empernar ostentava algo que lhe fosse desagradável, um daqueles inimigos de classe, mesmo que este usasse umas calças esfarrapadas. Logo os olhos chispavam de ódio e os mais afoitos deixavam cair uma ou outra provocação que prontamente tinha resposta. 

- Então digam lá "ó quéque" vêm? (ó quéque? Huuuuuuum, soava a falso e isso confirmou-se uns tempos depois**)

- Bom, nós estamos a viver no parque de campismo de Monsanto...

Interrompendo abruptamente,

- Ouça lá, nós instalámos toda esta gente em pensões e hotéis (gesto circular, abrangendo toda a sala), não amandámos (sic) ninguém aboletar-se em campismos! (voz em crescendo de decibéis)

- Eu sei, mas tenho cá um primo que nos emprestou uma roulotte...

- Olhe, sorte a vossa e azar do seu primo que a receberá de volta toda escangalhada, se é que alguma vez a terá! (risota)

- Minha senhora, vim aqui para obter roupas de inverno para os meus filhos. 

- Então dê-m'aí a senha e diga lá em que data chegou para eu apontar aqui no livro de entregas! Despache-se!, não vê que tenho mais que fazer? (voz bem audível para todos os que ali também estavam à espera da esmola)

- Chegámos a Lisboa no dia 31 de Agosto de 1974...

Virando-se para trás e rindo desbragadamente em direcção às colaboradoras que estavam a tomar notas:

- Olha-m'estes, por 24 horas não têm direito à ponta de um corno! Da'donde (sic) é que você desencantou esta senha? (gritos)

Tendo tentado e não conseguindo o que queria, o meu pai desatou num para mim até então desconhecido embrulho oral, um hilariante mas refinado atoalhado revisteiro de escárnio e maldizer, profusamente entrapado com o mais barroco calão que existia à época na Alfama. Recuso-me terminantemente a publicá-lo.

No meio do gargalhar geral daqueles subitamente encantados vencidos da vida que, alguns deles resignadamente humilhados e de chancas rotas mas percebendo o alcance dos tortuosos ditos vagamente camilianos, também aguardavam a sua vez de ordálio, a patinha de galinha quedou-se muda de espanto.

Estrondeou uma prolongada erupção de risos krakatoanos e antes que chegasse o Copcon pertencente ao famoso tolo, dali saímos lestamente sem olhar para trás. O pior é que o visado galináceo de broche esmaltado não terá compreendido a maior porção do alcance do improvisado número digno do que  melhor se concebia na Comédie Française, ficando apenas plenamente ciente da ínfima parte reservada ao léxico da Alfama pré-airbnb. Tanto pior.


- Gostaste? Esquece o que ouviste e vamos para casa. 

Era este o Portugal de outros tempos. Não me esquecerei nem quero ou tenho sequer o direito de olvidar este e outros episódios até ao último dos meus dias, tenham lá a santa paciência. Esquecer é uma condenação certa à repetição e pelo que se ouve no telejornal, isto é precisamente o que está a suceder, martelando-se tintim por tintim, aquilo que os pais deles disseram e pior ainda, fizeram naquela época. 

Já transformado o Palácio Sottomayor na propriedade de uma entidade bancária (?) e numa parte daquele grandioso espaço funcionando uma Embaixada de um país contíguo da Venezuela, ali não pode o governo instalar qualquer renovado IARN, Algo deve ser disposto urgentemente e sobretudo recheado com pessoal mais simpático e preferencialmente sem sucedâneas  patinhas de galinha à lapela.

Uma sugestão? Falem com a Isabel Jonet, pessoa mais do que apta para este tipo de já históricas maçadas e imprevistos há muito avisados. 

 

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 Gostei tanto do episódio que uns anos depois, passando numa banca de propaganda do PC que durante anos existiu no Rossio, comprei à irmã gémea do Brezhnev - se não era, parecia - esta bela patinha de galinha que ainda conservo na minha tralha referente ao PREC. Tenho mais exemplares, muitos mais. 


* Ao longo da sua vida na antiga Metrópole, o meu pai jamais votou em qualquer partido da direita.  
Enquanto o Arq. Ribeiro Telles presidiu ao Directório do PPM foi um eleitor fiel, considerando-o como o único partido com um projecto interessante e com garantias de propiciar um futuro melhor e mais equilibrado, embora sem megalomanias para este país. Dizia mesmo que era a única organização revolucionária portuguesa, olhando de soslaio e com um certo desprezo para os demais que se alavancavam, segundo ele abusiva e pateticamente, a essa duvidosa condição. A partir dos anos 80 insistia uma e mais uma e outra vez no voto PS num agora é que é, naquela bem conhecida e inexplicável fórmula de "PS à PS", uma espécie de dito do recorte "Benfica à Benfica". Nunca nos conseguiu dizer o que isso significava e ficou sempre uma genérica impressão familiar de simpatia pela sigla. Para além do CNC, nunca se inscreveu em entidade alguma.

** Confirmou-se uns tempos mais tarde, em 1980, quando com um grupinho de amigos fui lanchar ao Vá-Vá. Reconhecia-a de imediato e sentando-me numa mesa bem próxima, ouvi-a discorrer sem populeirices forçadas. Era uma burgesa dos arrabaldes perpendiculares da Av. de Roma, precisamente daquela casta mazinha e disposta a todo o tipo de camaleonismos, dependendo estes de cada momento. A propósito, já não ostentava a patinha de galinha









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publicado às 09:00

Pastéis e selfies de Belém

por Nuno Castelo-Branco, em 02.06.17

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Quando é que o sempre excitado afectuoso vai distribuir afectados afectos à pobre e desvairada gente que silenciosa e discretamente todos os dias e aos magotes chega ao aeroporto do Funchal? Já que está nos Açores, aproveite para fazer uma voltinha e aterre na Madeira, pois dentro de momentos terá mesmo de fazê-lo remediadamente aqui bem perto, na Portela.

Não, não vale a pena dizer que são apenas "turistas como quaisquer outros", ansiosos visitantes do busto que nem de longe faz lembrar o Cristiano Ronaldo.

Alguns deles são refugiados, perdão, retornados e talvez pela segunda vez nas suas vidas, irra!

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publicado às 11:31






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