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Paris, início dos anos 90

por Nuno Castelo-Branco, em 23.04.17

 

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 Devido a afazeres profissionais, durante um certo período tive de visitar Paris bastas vezes e foram tantas que praticamente dividia a residência entre Lisboa e aquela capital. Era um penoso dever bastante agradável numa cidade que cumpria fielmente todos os lugares comuns das luzes cintilantes, quilómetros de museus, vitrinas opulentas e tudo o mais que se sabe.


Ficava então instalado no XVIéme, nas imediações do Trocadero, uma zona a abarrotar de celebridades, gente de pasta, uns tantos exilados voluntários ou não como a grandiosa Xabanu Farah Diba ou a esquiva Marlene Dietrich. Era este o ambiente. O apartamento? Intermitentemente vazio e pertencente a uns amigos, claro.

Naquele prédio sito nas imediações da G. Mandel, imperava uma imponente porteira cuja nacionalidade facilmente se adivinha, pois isto também fazia então parte integral dos já citados lugares comuns acima apontados. Era uma belíssima alentejana alta, bem torneada, lábios e peitorais protuberantemente carnudos e com um não sei quê de Amália fisicamente muito mais dotada. Nunca, jamais a vi de bata e ar tristonho e pelo contrário saía à rua impecavelmente vestida, bem ciente de saber sempre ser notada. Para cúmulo da felicidade era orgulhosa, altiva e apenas ficava naquele meio sorriso bem educado que não dava azo a confianças. Inacreditavelmente não tinha aquele sotaque típico que tão bem caracteriza as nossas elites caseiras em todas as suas pretensões cosmopolitas. Ia todas as semanas ao teatro, lia, visitava exposições e comigo jamais soltou boca fora qualquer galicismo. Nunca. 

Como se sabe, aquela zona de Paris é pródiga em blondasses naturais ou químicas, umas que já viram melhores dias e outras que mesmo o passar dos anos em nada mudam o aspecto geral bastante razoável. Naturalmente corteses e friamente distantes, davam-se a ares não se sabe bem de quê e viviam recolhidas nos seus não-afazeres quotidianos. Era o caso daquele prédio onde a luso-majestática Maria Antonieta ditava a sua lei que em boa verdade era timidamente obedecida por todos. Os residentes resmungavam pela surdina e abandonado o átrio, os decibéis dos latidos iam subindo à medida que galgavam as escadas, afastando-se da despótica Senhora que fazia sombra a todas as outras. A Antonieta abertamente se ria e virando-se para mim, disparava com um esgar desdenhoso:

- Estás a ver, é assim que devem ser tratados, é metê-los a todos nas suas tocas! Pffffff...era só o que mais me faltava!

E passava adiante, falando das suas saudades do nosso país que ainda imaginava ser o seu. Nunca me atrevi a dizer-lhe que de facto a França, ou melhor, o ambiente que ali existia muito fizera por ela e como inteligente pessoa que era, nem sequer disso dava conta, tudo aquilo que mostrava tornou-se numa naturalidade que advinha da sua forte personalidade rica e multifacetada.

Um dia, chegando a meio da manhã, deparei com esta Senhora numa acalorada discussão com uma pequena e rechonchuda blondasse do edifício, uma verdadeira doméstica burguesa sem qualquer tipo de chamariz e bastante vulgar na expressão portuguesa do termo. Não sei qual teria sido a origem da disputa, mas a certa altura a famosa ditadora da portaria acabou com o assunto de forma lapidar, vincando bem cada palavra:

- Est ce que vous savez mon nom, Madame? Ma-ri-e An-toi-ne-tte, Ma-ri-e Ant-toi-ne-tte! ICI, LA REINE C'EST MOI!

Clac! (porta fechada com estrondo na cara da pequena bourgeoise atrevida)

E era mesmo a rainha do prédio, batia todas as outras por KO absoluto. 

Guardo para mim as desconfianças, mas o que terá ela decidido para hoje? 


 

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publicado às 09:05

Masoquismo, batatas fritas e DBRS

por Nuno Castelo-Branco, em 22.04.17

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Masoquismo, uma palavra que de imediato suscita pavor e gozo, dependendo de quem e do momento. Existe um masoquismo de massas, sejam estas as ligadas aos eventos desportivos entre os quais o futebol cobra a parte de leão, ou mais prosaicamente, às massas da politica partidária. Não vale a pena falarmos no caso que infalivelmente nos entra porta adentro todos os santos dias por via dos infindáveis telejornais e subsequentes mesas redondas onde se tratam afazeres tão urgentes como entorses, transferências, hooliganismo disfarçado em claques e outras  virtudes próprias do tema.

Ontem, numa das numerosas tascas do Oeiras Parque, três fulanos  vestidos à Regisconta perguntaram-nos se connosco podiam partilhar a correnteza de mesas. Como apenas ocupávamos três dos oito lugares disponíveis, com um aceno confirmámos os seus desejos. Transportando as suas bandejas repletas já não sei bem com o quê, bem depressa soltaram a língua diante do ecrã de televisão que transmitia notícias inaudíveis mas perfeitamente compreensíveis porque anunciadas através de legendas.

Logo se despoletou um tema para a conversa, o caso agência de rating DBRS. Entre eles iam dizendo que no melhor dos casos a dita instituição baixaria a classificação portuguesa, mas, segundo lá sabiam, isso era improvável devido à caução que o BCE tem directamente dado à compra da dívida pública. Habituados ao mundo dos números, trocaram argumentos imperceptíveis para a minha pobre e ignara cabeça nada habituada aos sortilégios da finança e economia virtual. 

Bem depressa ficámos cientes do que se tratava. Era mesmo a famigerada clubite que neste país há muito grassa como um grande e inextinguível incêndio de verão. Tudo é fake - era este o termo usado -, desde os números apresentados de forma relativamente discreta ou solene, até às declarações de inevitável oportunismo político que o poder central europeu paulatinamente vai fazendo de vez em quando. Se não o faz é porque algo vai mal, se o faz isso se deve ao interesse do próprio, extraordinariamente preocupado com o que está a suceder na Europa.

Uns doutores, estes tipos.

Sentaram-se à nossa mesa, logo pareceu-me estar no pleno direito de intervir e não me ocorre ter servido de bom digestivo. Indo directo ao assunto, questionei-os acerca da redoma em que hipoteticamente viverão, pois coisas há que não deixam de afectar toda a gente. Debalde, porque bem depressa fizeram descobrir a razão de toda aquela ira acumulada entre batatas fritas, molhos multicolores e tudo o mais que mastigavam. Era o clube, a cor partidária, uma maleita que tomou conta das mais desvairadas mentes de não menos desvairadas gentes. Repetiram tintim por tintim, tudo aquilo que os seus três ou quatro muito teóricos adversários disseram ao longo de quatro anos de ajustamento do esquema em que gostosamente participam, mas ao invés, agora repetindo ipsis verbis aquele cansativamente obsessivo chorrilho de irritados disparates que ouvimos um dia das escancaradas bocas de Catarinas e afins. Estão ao mesmo nível e fiz questão de delicadamente lhes fazer ver isso mesmo. 

- Não me diga que é comunista?

- Nunca fui. Por acaso parece-me insólito que ainda não tenham percebido estarem aqueles dois apêndices totalmente mergulhados no vosso próprio esquema.

- Como?

- Participam em tudo, é vê-los a discutir juros, bancos, seguradoras, políticas empresariais, fundos, empresas e empreendedorismo, ratings e ao mesmo tempo as greves são mitigadas deliberadamente por receio daquilo que umas eleições possam significar para eles próprios, ainda há um ano cheios de prosápia e agora totalmente dependentes do primeiro-ministro....

- ...que chegou ao poder da forma que se sabe, não é?

- De forma abrupta mas não ilegal e através da Constituição que o vosso próprio partido votou favoravelmente. O que querem? Não fariam o mesmo?

- Mas foi o anterior governo quem ganhou as eleições!

- Foi, é verdade, mas isso não lhe permitiu encontrar uma maioria em S. Bento e pelos vistos não há no vosso partido nenhum político assim tão perspicaz, apesar do longo historial de quarenta anos. Aliás, nunca houve.

A conversa de tasca prosseguiu neste sentido que inevitavelmente nos conduz a um beco sem saída. São paixões e estas nem sequer seriam assim tão nocivas se não significassem a estranha situação que normalmente noutros casos urgentemente requereriam não um serviço de um psicólogo, mas sim uma urgente intervenção psiquiátrica. 

- Deviam pelo contrário mostrar orgulho pelo trabalho infernal que o vosso governo teve, contando mesmo com as doses cavalares que ministrou sem grande necessidade. Quem quer participar neste tipo de jogo, submete-se a regras e elas foram descritas numa forma bastante compreensível que o agente nomeado pelo vosso próprio partido rubricou. Agora não se podem queixar, pois estes resultados que hoje são anunciados não se devem a milagres, são algumas consequências daquilo que anteriormente foi feito. É isto o que deveriam estar a dizer. 

- Por isso mesmo, o povo devia reconhecer que...

- ...o povo, isto é, eu, os meus colegas e os senhores, deveríamos todos  querer que tudo corresse no melhor dos mundos e de preferência que ninguém desse por nós. Mais ainda, deveríamos todos ser indiferentes à cor do momento, sabem bem que nada é eterno. 

Estas conversas passatempo dão nisto e ainda tive de desabafar que a única vez em que tinha ardentemente desejado o insucesso de um governo, teria sido mesmo muito antes do nascimento de qualquer um daqueles convivas bem apessoados, mais precisamente durante aquele turvo e turbulento período a que se denominou "o gonçalvismo". Não faziam a menor ideia do que lhes estava a falar, não sabiam de quem e do que se tratava e tive de sumariamente lhes explicar. Para seu grande espanto disse-lhes quem compunha a coisa, a tríade civil de que o seu partido fez parte.

Pelos vistos não valia a pena e mais não avancei. Levantei-me e desejei-lhes um bom fim de semana recheado de lampiões e lagartos, o tal mais do que essencial e precioso L&L das nossas vidas. 


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publicado às 08:24

É bom que assim seja

por Nuno Castelo-Branco, em 20.04.17

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 Segundo notícias hoje sumariamente divulgadas, o governo anda a tratar do assunto relativo ao milhão de portugueses* que têm desde há muito penado na Venezuela. Dizem as nossas autoridades que em caso de emergência existirá uma Força de Intervenção militar apta a intervir no resgate Ora, isto coloca desde já algumas questões, entre as quais o desembarque num país ainda teoricamente soberano. Concordemos ou não com a intervenção, é mesmo o aspecto mais problemático, a menos que subitamente a Venezuela atinja o nada invejável estatuto da Somália.


A reportagem foi moderada e os intervenientes desta vez cuidadosamente filtrados, impedindo-se assim os percalços decorrentes da exposição de há umas semanas, quando os luso-venezuelanos refugiados em Espanha, nada reservadamente exautoravam a inércia das nossas autoridades. Vistos os factos, talvez tenha servido de aviso e rapidamente procuram agora corrigir os modos de actuação. Tudo isto era de prever e já há alguns anos poderiam ter encetado preparativos para qualquer contingência. Existem outros casos semelhantes  que também convém acautelar.

Contam agora com o Brasil - contactos e acordos discretos, diz-se -, país fronteiriço da Venezuela e que por mero acaso da história tem profundos laços com Portugal. O que se torna mais difícil de acreditar é na abertura da fronteira brasileira a uma imensa vaga de refugiados que ali se apresentem para futura evacuação. Para onde, isso será outro caso. 

*Consolemo-nos com algo incontornável: dado o que tem desde há uns anos sucedido no sudeste da Europa, o governo português decerto poderá contar com caudalosos fundos de auxílio para a integração desta vaga de desesperados aqui, em França, na Alemanha, Suécia e outros locais. Fogem da violência? Sim. Fogem do livre arbítrio? Claro. Fogem da miséria? Certo. Fogem de uma não declarada guerra civil? Evidentemente. 

Ficaremos então a saber o que valem as palavras. 

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publicado às 18:52

Uma questão de tempo

por Nuno Castelo-Branco, em 15.04.17

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 1. O Caso Estado islâmico. Chamemos-lhe pelo nome que livremente escolheu, pois há nove séculos Portugal também foi auto-proclamado e nem por isso deixou de ser assim conhecido oficialmente até 1910, momento em que passou a ser documentalmente baptizado como República Portuguesa.

O Observador interessa-me apenas rotineiramente, tal como qualquer outro membro mediático. Neste caso Alberto Gonçalves diz aquilo que todos já reparámos e preferimos esconder para não nos apontarem o dedo com fobias de todos os tipos e feitios. Tem razão, digam o que quiserem.

2. A Venezuela e o Observador que anda vesgo.
Bem, aqui as matizes são evidentes, dada a história do país desde a sua independência, mas naquilo que mais nos deveria interessar, nem uma palavra. E o que nos deve interessar? A legítima posição de "egoísmo nacional" na questão dos portugueses e dos luso-descendentes na Venezuela, coisa que devido ao desleixo, incompetência, desinteresse aparente, ineficácia e sobretudo, desconfia-se muito justamente, do calculismo quanto a previsíveis alterações no mapa eleitoral, é totalmente descurada pelo MNE de Lisboa. Pagaremos bem cara a inércia, pois a grossa vaga atingirá as nossas costas, trata-se apenas de uma questão de tempo. Em suma, adivinha-se mais uma catástrofe que emporcalhará a nossa reputação.

Nossa? Não, a deles, a das nossas autoridades que todos os artifícios encontram para não agirem consentaneamente com o que é diariamente apresentado nos noticiários. 

Aquela gente está desesperada - tem muita, muita, imensa fome, é roubada à luz do dia, espancada e violentada pelas multidões tão desesperadas quanto ela própria e pelos decretos do regime. Não é propriamente equiparável à miserável turbamulta, na qual a minha família se incluiu, que a Portugal e para grande contragosto do poder então instituído, obrigatoriamente aportou há quarenta e tal anos.

Por enquanto, não é equiparável. E porquê? 

Porque neste momento, boa parte dos "portugueses da Venezuela" poderia aqui ser muito rápida, discreta e razoavelmente integrada, bastando para isso um planeamento aturado que implicaria a abertura de créditos e a previsível revitalização da banca, comércio, indústria e agricultura. Isto já deveria estar a ser preparado desde a morte de H. Chávez, mas o "regime de Lisboa" - não é assim que gostam de designar os outros? - preferiu fazer de conta e dedicar-se à contabilidade e habilidades dos negócios, fosse quem fosse quem exercesse o poder a partir de S. Bento.  
Subitamente deixaria de existir a "premente carência demográfica e as consequentes dificuldades da segurança social do futuro próximo", cata-vento/chamariz para certas coisas que todos sabem ou adivinham. 

Paciência, esta é mais uma imbecilidade crassa do esquema vigente, de todo ele, desde a esquerda à direita parlamentar. Não perderemos por esperar.

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publicado às 17:44

Verbrecher element

por Nuno Castelo-Branco, em 13.04.17

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 Dizem estar sob custódia e a propósito do crime de anteontem, um reconhecido jihadista que todos temos  a pavorosa impressão de  ter visionado em numerosos vídeos do E.I., protagonizando cenas indescritíveis que a escabrosa e ilegal censura oficial prefere não divulgar. Ao contrário da cada vez mais insuportável praxis do politicamente correcto, deveremos todos ver as imagens com atenção, ficando assim cientes da solução final que nos estará destinada no caso da sua vitória na Europa. As suas faces estão por todo o lado, são perfeitamente reconhecíveis e os até agora considerados competentes serviços de informação sabem bem quem são.

O que se exige? Uma punição absoluta, eliminando-os do nosso convívio. Ousam regressar porque nos consideram timoratos, relaxados e alvos fáceis. Disso se gabam abertamente. Ora deseganemo-los de uma vez por todas e tornemos a posição bem clara: não há entre nós, na Europa, um único lugar para eles.   


Dado o que até aos nossos dias de forma ultrajante tem ocorrido com o evidente simulacro de justiça vigente na há muito chantageada Alemanha, não é justificável a manutenção das actuais leis da protecção da nacionalidade e de tudo o que o estatuto de nacional do país X ou Y significa.  Ainda há escassos dias uma irresponsável do governo sueco ousou sugerir o "início de preparativos para a reintegração social de todos aqueles que alegremente partiram para o Próximo Oriente". Impossível, é uma posição grotesca a roçar o crime.

São estes verbrecher element plenamente reconhecíveis não apenas através das imagens em que sorridentes surgiam ao lado das suas desgraçadas vítimas cortadas em pedaços ou abertamente escravizadas, como também - e isto é equivalente - pela opção consciente e livremente tomada. São um colectivo, logo colectivamente devem ser responsabilizados. Todos, sem hipótese de qualquer excepção.

Nenhum deles desconhecia o que estava a acontecer nos territórios dominados pelo Estado Islâmico. Todos, todos eles tomaram prévio conhecimento dos atentados aos direitos humanos, dos assassínios genocidas, do espezinhar dos elementares direitos das vítimas chacinadas. Eram voluntários, ansiosamente queriam participar nos crimes e partiram. Todos eles sabiam da existência de inacreditáveis torturas prévias à infalível execução com requintes de malvadez. Todos eles usaram e abusaram do poder que transitoriamente tiveram. Todos eles participaram ou gostosamente assistiram às queimadas humanas em levas da morte, às execuções sumárias, ao despenhamentos do alto de edifícios, afogamentos, degolas em praças ou matadouros, ou ao mais prosaico e secundário destruir de património. Regozijaram-se com a existência de mercados de escravos.

Ainda na Europa e diante dos ecrãs dos seus computadores, riram abertamente perante todas as atrocidades cometidas em nome não se sabe bem do quê e de que sacra-inexistência. Uma leitura na diagonal das mensagens trocadas a cada ocorrência trágica, confirmam o acima descrito. Não têm nem poderão alguma vez ter a menor hipótese de escapar impunemente.

Em suma, devem pagar pelos seus crimes e de uma forma radical, pesadamente.

Sob pena de enfrentarem a curto prazo aquilo que todos pensam como séria probabilidade, os governos ocidentais não podem dar-se ao luxo de exigir aos seus concidadãos ultrajados, mais o vergonhoso e aviltante sacrifício de não só os ter dentro de portas, como ainda serem obrigados a sustentar o seu parasitismo em prisões confortáveis e onde espalharão ainda mais os venenosos ensinamentos que lhes foram prodigalizados através de teclados e excitadas oras. Não!

A democracia significa o pleno acatar do Estado de Direito - em suma, aquilo que somos e queremos - por eles rejeitado. 

Não vertamos uma única lágrima pelos facínoras e voluntários companheiros de caminho, estejam eles aqui a opinar de forma mais ou menos ostensiva, ou lá, no Próximo Oriente. Devem permanecer onde estão, para onde para sempre partiram. Para sempre, em termos temporais signifique isto o que significar.  

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publicado às 17:40

…aceitação preventiva

por Nuno Castelo-Branco, em 12.04.17

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 A propósito do turra que há uns dias resolveu atropelar pessoas numa movimentada rua de Estocolmo, o noticiário de ontem dizia textualmente que ..."reconheceu ser o autor do atentado* e aceitou a prisão preventiva".


Aceitou? Que alívio, ficamos todos tranquilizados quanto à decente solidez da justiça sueca

*Atentado, não ousaram dizer crime. 

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publicado às 07:56

Tem razão

por Nuno Castelo-Branco, em 10.04.17

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 Na cimeira dos sulistas, o primeiro-ministro disse algumas coisas a que não prestei qualquer atenção, ou seja, os normais fait-divers que sempre ocorrem nestas situações e no seguimento dos discursos dos restantes convivas, subitamente recauchutados em entusiastas neo-vassalos da até agora odiada neo-administração norte-americana.


Costa declarou peremptoriamente que o Brexit deve ser seguido de forma atenta e o Reino Unido deve manter o seu histórico lugar de ...mais forte aliado do resto da Europa, diga-se para quem leu as entrelinhas, do nosso país. Se os outros assim não o entendem, paciência, tanto pior.

Vertam os caudais de fundos que verterem, subornem quem subornarem, a saramaguenta jangada de pedra não passa de uma estorieta para adormecer. O resto, o que nos importa, é conversa muito mais séria e interessante para a nossa sobrevivência nacional. 

Neste caso Costa tem razão, nem sequer poderia cogitar noutras possibilidades demasiadamente arriscadas.

Passemos então a outros assuntos e bem vistos os factos dos últimos 700 anos, como agora se usa dizer, o primeiro-ministro traçou aos outros convivas a linha vermelha. 

 

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publicado às 22:25

Intragável carrascão

por Nuno Castelo-Branco, em 26.03.17

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Não vale a pena dizer seja o que for acerca deste inacreditável assunto, pelo menos no que se refere à questão do ghetto que a CML populista e ansiosamente quer criar no centro da capital. É isso mesmo, cedendo radicalmente ao populismo parece bem, trata-se de um futuro ghetto, à semelhança daquilo que se vê noutras localidades da Europa. Dentro de anos veremos o belo resultado de tudo isto, espero equivocar-me e no caso bastante improvável de tudo correr bem, então nada me custará "dar a mão à palmatória". Não consigo ser suficientemente pretensioso e arrogante para superioridades faz de conta e não sou pago para isso.


Passando sobre este assunto desagradável e que acicata desvairadas reacções por parte de desvairadas gentes, parece-me uma desfaçatez imperdoável a alegação populisto-salgalhada-medinesca da questão pecuniária pretensamente exagerada, quando sabemos muito bem o que os interesses pertencentes a certa gente estão a fazer em toda a Baixa, transformando-a numa espécie de "parque temático" reservado ao turismo. Gabarolices de lado como a que ontem tive de ver no Espaços & Casas num canal televisivo qualquer, a verdade é que ainda ousam fazer gala do vertiginoso aumento dos preços em alta não apenas na venda de imóveis em Lisboa, como no arrendamento. A Alfama já foi praticamente evacuada, a Madragoa vai pelo mesmo caminho e ainda resta a Mouraria ou o Bairro Alto.

Uns estafermos, para não lhes chamar algo que macule a hipotética honorabilidade das progenitoras.

* Desde já participo nem sequer tencionar em perder tempo a deslocar-me à secção de voto nas próximas autárquicas. Tirando o patético e chupista absurdo belenense, sempre votei em todas as eleições, fossem elas parlamentares ou para as autarquias.
Não tenho a menor confiança nos já anunciados intérpretes de gente e apenas suspiro por Ribeiro Telles não ter hoje uns sessenta anos.

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publicado às 19:23

Que nojo, que gentuça!

por Nuno Castelo-Branco, em 17.03.17

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1. Os balbuciares bem dignos deste agente 00-Zero. Uma escabrosa oralidade digna da taberna do carrascão, umas tantas considerações infamantes para quem as pronuncia, recheadas de arrogantes aldrabices descaradas. É o mínimo a dizer acerca das excelsas declarações proferidas por aquele que foi o escuso Venerando do esquema vigente. Afinal, pelas próprias palavras confirma o retrato que dele Paula Rego magistralmente executou: um patético homenzinho.


"Farto"e "à rasca", exactamente o que dele poderia agora, hoje mesmo, Portugal inteiro dizer.
Escarafunchando bem, tudo se resume a isto: a famosa embaixada de banqueiros que dele sacou a dissolução parlamentar para logo ele poder alçar aquele que seria um dia conhecido por Sr. Quarenta e Quatro, foi certamente a despoletadora da troika que para nossa vergonha nacional uma vez mais chegou, atacando os bolsos e pior ainda, as consciências e a honorabibilidade de todos. Ganharam os banqueiros, ganharam os famélicos especuladores.

Uma asquerosa vergonha absoluta, este sujeitaço chorão. Um vómito. 

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2. Angela Merkel na WH ( Casa Branca e não WH das matrículas dos veículos da Wehrmacht).

O que dela durante anos disseram? "Nazi", "safada", "sopeira", "vacarrona", "besta", egoísta", "megera", "coirão", "aprendiz de ditadora", "esmifra-pobres" e sabemos nós o que mais. 

O que dizem dela agora precisamente os mesmos? "Grande estadista", "mulher decidida", "espantosa visionária" e por aí fora. A que se deverá esta súbita viragem no opinionismo?

A resposta é simples: congratulam-na exactamente pelo maior erro da sua já longa e torturosa carreira política iniciada na defunta RDA dos radiosos futuros. Que erro? Esse mesmo em que estão a pensar.

Entretanto lá foi ela apressadamente falar com Trump. Para disfarçar, alguma NATO e muita nata de negócios em perigo, a Mercedes, Audi e BMW que o digam. Estas três empresas, entre muitas outras. O resto é paisagem. 

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publicado às 21:01

Portugal dos Pequerruchos

por Nuno Castelo-Branco, em 17.03.17

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1. A Holanda
É espantosa a capacidade do contorcionismo demonstrado não apenas por políticos, mas também pelos comentadores Gouda que se revezam no pivotismo televisivo. O mais recente motivo? As eleições holandesas. Afinal o dies irae não se confirmou, ou melhor, confirmou-se através de outros actores mais apresentáveis e penteadinhos, logo, mais tragáveis. 

"Grande alívio", "motivo de esperança", "um bom dia para a Europa" foram alguns entre dúzias de outros desabafos berrados por agentes de informação com semblantes crispados pela emoção. Isto a propósito de Rutte, uma espécie salvífica do sistema, alguém que pelos ditos e feitos faz a refúgio-retornada Dra. Cristas parecer-se com uma crosta pequeno burguesa cheia de desviacionismos de classe. Por outras palavras, excitadamente acabaram por saudar a vitória de uma espécie de encarte que no Portugal de 1979/80 equivaleria ao PDC. Assim sendo, resta a Rutte encontrar os seus compagnons de route, ou seja, o MIRN e a FN, mas neste caso, com socas de madeira. 

A única coisa positiva? Uma boa vingançazinha, o arrasar do partido daquele caracolinhos de nome impronunciável que preside ao auto-proclamado Eurogrup(inh)o, esse mesmo que prazeirosamente nos tornou a vida num inferno. 

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2. Ainda os acontecimentos na Nova (Portugalidade e Universidade)
Inacreditável o afogueamento da nomenklatuGa a propósito do tema que inopinadamente varreu o país na última semana. Dir-se-ia ser a NP um perigosamente colossal movimento revolucionário de massas que terá até motivado uma reunião do inefável e omnipresente patrão Balsemão com o reitor. Não se limitou ao palratório, o Fürher dos media colocou de imediato os seus moleques a escrever em tudo o que é página em branco. Deu-lhes para isto, quando todos pensavam serem eles muitíssimo mais espertos e profissionais. 

Espiolhando os factos, até parece que querem agora encontrar uma espécie de Columbine português e para o evitar postam a PSP nos recintos, perdão, nos "campus" universitários. Uma maçada para o erário público, um alívio para os automobilistas. 

Os parabéns devem ser endereçados à cada vez mais simpática Nova Portugalidade que conseguiu com um tiro de pólvora seca, derrubar uma espécie de Linha Maginot. 

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publicado às 08:21

Império Romano (Germânico)

por Nuno Castelo-Branco, em 10.03.17

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 O Manuel Freire dizia que …não há machado que corte, a raíz ao pensamento"

Pois não, não há e passando isto aos alemães, nossos amigos, aliados e sponsors, cujo país se tornou por vontade própria num merecido mega-saco de boxe, as notícias são veiculadas de uma forma muito imaginativa e quiçá, divertida. Os alemães, nossos amigos, aliados e sponsors pensam, logo existem. 

Por exemplo, ontem aconteceu "aquilo" em Dusseldórfia e como foi então identificado o meliante? Para além do tradicional problema mental que o coloca mais ou menos (felizmente muitíssimo menos!, ufa...) ao nível de Béria, Himmler, Iezhov e outros malandretes da história, disse-se que provinha de um território "da antiga Jugoslávia", entidade agora tão geográfica como América, Ásia, África, Oceânia ou Europa e que terá há muito desaparecido dos mapas políticos. 

Claro…mas, caros aliados e sponsors alemães, assim não dá, não pode ser e como facilmente detectámos a insinuação logo à primeira, parece-nos que têm de ter ainda mais imaginação! Em suma, sejam mais ousados e inventivos.

Nós, portugueses estamos treinadíssimos para este tipo de coisas e no tempo dos nossos pais e avós ou bisavós - ena, ena, já lá vão algumas gerações -, quando nas revistas do Parque Mayer alguém cantarolava qualquer coisa a respeito de Santo António, toda a gente percebia a quem se referia. Era o que se chamava "ler as entrelinhas" e desta forma os portugueses tornaram-se peritos no decifrar de enigmas, as tais indirectas por vezes demasiadamente óbvias. Burricos eram então os distraídos do lápis azul, artefacto que não pode nem deve ser confundido com lápis lazúli. Se não vos agrada este conselho dos vossos amigos aliados e sponsorizados portugueses, sempre podem pedir auxílio indicativo aos russos, ainda mais peritos em contornar esse tipo de dificuldades. Sob 30 graus negativos e na bicha para a garrafinha de leite, sempre arranjavam uma piada muito indirecta que logo pela manhã era contada no metropolitano moscovita, um monumento de engenho e arte.  

Para a próxima, os nossos amigos, aliados e sponsors alemães talvez consigam ainda ser ainda mais politicamente correctos e fazerem um comunicado com este teor:

- "um atacante proveniente de um antigo território do Império Romano, fez isto e mais aquilo. Era um louco comprovado" 

Sempre fica mais abrangente e todos compreenderão. 

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publicado às 16:52

Álvaro Santos Pereira

por Nuno Castelo-Branco, em 08.02.17

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Em quarenta e tal anos de esquema vigente, não me recordo de ninguém "governamental" que sequer de longe possa ser comparado em termos de lisura e coragem de dizer o que deve ser dito. 

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publicado às 20:32

The Delagoa Bay World

por Nuno Castelo-Branco, em 03.02.17

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 Os meus mais calorosos agradecimentos ao António Botelho de Melo, alguém que infelizmente não tive a oportunidade de ter conhecido em Lourenço Marques. Aqui fica uma sugestão para uma visita ao seu maravilhoso blog. 

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publicado às 14:30

Casa de loucos

por Nuno Castelo-Branco, em 03.02.17

9685389_133199795469.jpg   O_conselheiro_João_Franco,_último_presidente_do_

 

 Antes de empossar qualquer um dos seus Presidentes do Conselho de Ministros, D. Carlos I chamava-lhes sempre a atenção para algo que para ele, o monarca, era inamovível para os interesses de Portugal:


- Nunca percas de vista de podermos estar mal com todo o mundo, menos com a Inglaterra e o Brasil.

Tinha razão e o regime dos seus ostensivos e reconhecidos assassinos bem depressa veria esta evidência que nem à própria geografia escapa. Rapidamente esqueceram tudo aquilo que tinham berrado em correrias nas calçadas de Lisboa e "as torpes e ignominiosas baixezas" que apontaram ao penúltimo Rei de Portugal no que se refere a uma alegada subserviência aos interesses de Londres, foram multiplicados centos de vezes, algumas delas raiando a vergonha e o patético. Eis a realpolitik nacional.

Nada terá entretanto mudado, pois como nestas páginas já há uns anos foi escrito, o Brasil estendeu-se à CPLP e o Reino Unido - que deve mesmo continuar a ser o nosso aliado militar preferencial na Europa - é inevitavelmente acrescentado com os Estados Unidos da América, com quem, aliás, fazemos fronteira no meio do Atlântico. Gostemos ou não, esta é a realidade.

Portugal tem razões de queixa em relação aos americanos? Tem e muitas que nem sequer valerá a pena recordar, apenas tendo como baliza a história que invariavelmente muito nos prejudicou. Ora, isto não impede minimamente o sentido de compartilha do mesmo espaço em que um oceano tem servido como auto-estrada de segurança para quem vai cruzar os dois hemisférios em qualquer um dos sentidos. Dado aquilo que já é normal  na conjuntura europeia, o não beliscar destas relações até é uma oportunidade que Portugal deverá de imediato aproveitar. Nas relações internacionais não existem casamentos por amor. 

Faz algum sentido o que desde esta manhã tem ocorrido na sede da representação eleitoral do país? Não, nenhum sentido. O que por lá se tem dito, entremeia a dose cavalar de ignorante estupidez com a arrogância de quem diz o que não deve nem pode. Só lá falta aparecer o actual residente de Belém para o quadro ficar miseravelmente completo.

Uma tristeza sermos forçados a reconhecer que  aquela gente e o seu esquema vigente não têm remédio. 

 

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publicado às 12:51

Jornal do Incrível

por Nuno Castelo-Branco, em 29.01.17

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1.

Era previsível, sendo o Estado português uma entidade lenta, pesadona, desleixada e de uma larvar inépcia. Deixaram e ainda deixam passar a oportunidade aqui avisada há anos e os portugueses que são vítima de perseguições, roubos, agressões e assassinatos na Venezuela, escolhem Espanha para reconstruir as suas vidas. Não chegam a Madrid com intuitos de auferir fundos, subsídios ou esmolas, mas vêm com vontade de inovar e criar novos postos de trabalho que sobretudo beneficiarão os locais. São aos milhares e chegam de forma discreta, ordeira e com passagens pagas pelo próprio bolso. 

O que falhou então, para que os consulados portugueses naquele país sul-americano continuem tal como dantes, como se nada tivesse acontecido? O que falhou para que a oportuna TAP subitamente tivesse elevado os preços Caracas-Lisboa a alturas estratosféricas? Será inconsciência, incompetência, passa-culpas, desinteresse ou haverá algo mais para além disto? As más-línguas até poderão inventar um dia destes que se trata de temor de alteração do mapa eleitoral. Vendo bem os factos como se apresentam e atendendo ao que até estes dias se tem confirmado, até será uma hipótese a considerar, pois quem de lá vem, à Europa chega devidamente vacinado.

2.
Qual é o primeiro dever de qualquer dirigente? Defender os seus concidadãos, o seu país.
Admiram-se? Se sim, porquê? Não viram os videos - este que aqui fica foi criteriosamente escolhido pela moderação - no youtube, não viram durante meses a fio os telejornais relatando atrocidades que subitamente sumiram devido à censura? Acreditam verdadeiramente que tudo aquilo não passa de obra de uns tantos marginais e que "de nenhum modo corresponde à vontade da maioria"? Maioria silenciosa? Sim, alguém consegue ouvi-los? 
A moratória americana quanto a uns, significa a abertura a outros que até agora tinham a vida dificultada ao máximo pela anterior administração. Mais do que qualquer outro grupo, precisam de urgente protecção. O recentemente empossado disse-o sem rebuços, como é do seu timbre. Todos entenderam. Desagrada-lhes? Possivelmente. Têm uma solução ocidental e muito em voga nas terras do Tio Sam: mudem de religião, desentrapem-se física e mentalmente e aprendam o que significa a resignação cristã.

3.
Mais de cem milhões de assassinados, escravizados, espancados, roubados e violentados depois, eis que em Portugal iniciam a celebração daquilo que para eles foi, é e para sempre será um farol de libertação. 

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publicado às 09:01

Hora de reparação moral

por Nuno Castelo-Branco, em 09.01.17

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Findou o período de espera, foram desaparecendo os imaginados obstáculos à urgente e imprescindível reparação moral que o país merece. Merece-o pela sua história secular e merece-o pelo necessário cumprimento de todas as cartas humanitárias a que o Estado internacionalmente se comprometeu.

Existe um muito relevante sector da sociedade que em silêncio tem assistido ao desfiar de décadas e visto morrer os seus entes queridos. Subitamente, em alguns momentos que todos compreenderão, assomam fúrias, faz-se a catarse contra quem, para o bem e para o mal, julgou poder assumir as responsabilidades pela liquidação de um património que não era apenas material, mas sobretudo, de uma certa consciência nacional que não se compraz com passageiras ventanias ditadas pelos apetites vindos de fora e julgados como perfeitamente utilizáveis para o desfasado refazer identitário de um povo visceralmente orgulhoso em toda a sua reconhecida humildade e que se se encontra hoje espalhado por todos os continentes. Essa reparação moral é absolutamente devida a brancos, a negros e mestiços de vários cruzamentos, a indianos e chineses, a índios, a cristãos, muçulmanos, hindus, animistas e outros. 

Muitos há que viram as suas famílias destroçadas e dispersas como folhas secas de outono. Os mais aventurados não conheceram ou assistiram à morte dos seus ceifados por catanas ou balas, por ébrios autos-da-fé avivados pelo combustível que faz mover praticamente todos os motores e interesses planetários. 

Portugal recebeu os frutos de uma colossal limpeza étnica e não consta ter o mundo dado conta disso. Num ruidoso silêncio chegaram e logo permaneceram relativamente expectantes de qualquer coisa que inicialmente até poderia ter sido uma forma de compensação pelo abrupto roubo, confisco ou destruição daquilo que para a imensa maioria eram parcas posses obtidas através do trabalho quotidiano. Poucos eram exploradores e mais escassos ainda eram os nomes ligados a grandes empresas que a passagem de testemunho do regime deposto provisoriamente alijou da preponderância económica e financeira, logo, da política da condução do Estado. 

Um ainda menor número retornou à terra que os viu nascer, a outrora Metrópole. Tal como em África e na Ásia, foram desde sempre leais a uma pátria ingrata e palidamente indiferente aos tormentos provocados de forma deliberada. Deliberada, pois a realização de um golpe de Estado que oportunamente foi baptizado como revolução, pressupunha a aceitação daquele sempre difícil dia seguinte, o da gestão de uma situação na qual todos colaboraram enquanto lhes foi conveniente.

Salvaram-se os que vieram, embora em boa parte reduzidos à mais confrangedora miséria material. Amontoaram-se naquele ..."demos-lhes tudo, até ficaram em hotéis de cinco estrelas, até no Ritz!" ou em roulottes emprestadas, acampados em tendas, patinhando décadas no lodaçal do Jamor, em pensões mais ou menos suspeitas, em casas degradadas. Quando puderam alimentar-se, comeram massa com massa, arroz com arroz, feijão quando havia e de vez em quando peixe, carne de frango e generosas rações de combate oferecidas pelo Real Exército da Suécia. Aturaram em silêncio todo o tipo de despautérios vindos de quem se julgava por cima. Mal vestidos e cabisbaixos, foram alvo da chacota geral, eram os tinhosos, tinhosos porque tinham isto e tinham aquilo e tudo perderam. 

Este país muito beneficiou com estes refugiados nacionais que o coloriram de norte a sul, inventaram profissões até então desconhecidas ou deixadas ao acaso. Não vieram para impor o que fosse, organizar atentados, guerrilha urbana ou exigir o impossível. Foram o sangue novo e vital de um organismo enfraquecido pela secular imobilidade social, pelo preconceito, estreiteza de horizontes, pela sacra má-língua e denúncia quadrilheira. 

Chegou a hora da imprescindível e incontornável reparação.

Exige-se que o Parlamento - à semelhança daquilo que ainda não há muito fez em relação aos judeus e cristãos-novos  que significaram afinal a grande maioria que jamais abandonou o país -, os três ramos das Forças Armadas que abandonaram muitas dezenas de milhar de seus camaradas de armas às mãos dos até há pouco inimigos, o governo e o próprio Chefe do Estado, apresentem em solene sessão um formal acto de reparação moral e a apresentação das devidas desculpas a todos aqueles, mesmo o que há muito se encontram no Além, foram ignominiosamente sacrificados à indiferença do oportunismo dos senhores que têm partilhado como casta, o poder.


É o mínimo. Não se pede a devolução de machambas, de uma imensidão de prédios, quintas, casas, fábricas, entrepostos, bancas de comércio e toda uma infindável quantidade de actividades que conformavam não apenas as vidas dos que tiveram a sorte de escapar para outros pontos do globo, mas também para aqueles que para sempre ficaram abandonados à miséria e prepotência que os noticiários batem com o ruído de tambores de guerra.

Exige-se, isso sim, aquele simples e muito mais difícil desculpem

Sem isso, nada feito, será impossível tapar com uma pesada pedra o imenso buraco de desfaçatez legislativa impossível de esconder, os actos de extorsão quando não de roubo descarado, ainda mais agravados por terem sido perpetrados por quem devia ter antes de tudo defendido os civis. É este o funeral que agora interessa e finalmente libertará as consciências de toda e qualquer reserva mental. Não se trata de vingança sobre a história consumada, mas sim de justiça moral. Será o regime finalmente capaz de tal grandeza?

Testemos então a sinceridade de quem comanda, vejamos então quem é quem. 

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publicado às 18:25

Um Anuário para a História

por Nuno Castelo-Branco, em 04.12.16

 

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Costumo percorrer com os olhos a vastíssima biblioteca do meu pai e é possível encontrar o que pretenda, por mais estranhos possam ser os temas. Em soma às muitas centenas de volumes que vieram de África, juntam-se milhares de outros adquiridos na Europa, surgindo como surpresa, o seu apego por obras que julgaríamos completamente afastadas da procura de um homem que antes de tudo se interessou pela grande e pequena História e respectivo anedotário relativamente picaresco, bem como pela literatura e aquela gastronomia que indelevelmente marca o ritmo da passagem dos séculos. 

Este espesso volume faz parte da história que um dia será contada e não acredito existirem muitos sobreviventes da ampla tiragem um dia feita pela Casa Bayly estabelecida em Lourenço Marques. Esta empresa tinha angariadores de assinaturas que garantiam a presença do nome de uma multidão de entidades e como seria previsível, não está completo. Falta uma miríade de empresas que pelos mais diversos motivos não quiseram pagar para aqui aparecerem, mas estas 1800 páginas são uma boa súmula daquilo que foi o Moçambique do início da década de setenta. Se a tudo isto ainda somarmos as anónimas iniciativas que abriam lojinhas-cantina mato fora, ainda teremos um quadro bastante impreciso daquilo que existiu. 

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Torna-se esmagadora uma pesquisa, mesmo que sumária e na diagonal. São tantas as empresas, são tão diversos os sectores de actividade, são de tal modo completos os serviços públicos presentes no então Estado de Moçambique que dir-se-ia estarmos a tratar de um país perfeitamente estruturado e capaz de de auto-governo e não de uma dependência política e ultramarina de uma nação europeia. 

Na agricultura e na pecuária, nas pescas, em praticamente todos os sectores da indústria e serviços, no comércio, turismo, assistência sanitária e escolar e mesmo a inopinada existência de uma Junta estatal da Energia Nuclear, os nomes sucedem-se, fazendo-me recordar alguns que eram visíveis em anúncios ou placards nas avenidas da capital moçambicana, ou em organogramas que ocasionalmente me passaram pela vista de adolescente.  

Em termos comparativos, este Anuário é o mais vasto entre aqueles até então publicados, pois nas estantes do meu pai encontro outros de décadas anteriores, sem dúvida mais modestos e pontilhados por sonantes nomes estrangeiros que a economia local fez com que deixassem de ser pertença de companhias majestáticas sediadas em Londres, Joanesburgo, Amesterdão ou Berlim. Folheando-os de vez em quando reconheço nomes de pessoas que conheci. Os portugueses foram nacionalizando essas actividades, normalizando-as no contexto local e sem que isso significasse o esbulho puro e simples daqueles que as detinham. Tornaram-nas parte integral da paisagem económica de uma Colónia que o deixou de ser para passar a ostentar o nome de Província e na fase final da soberania portuguesa, acabou como Estado, aquele degrau que precedia a natural independência a que desde muito cedo habituei os ouvidos nas conversas escutadas à mesa ou com as visitas que tínhamos em casa. Sim, falava-se da independência, mas muito longe do tipo de independência que aconteceu. Não se tratava daquilo que imediatamente alguns leitores porventura estarão a pensar, na independência paralela ao que sucedia na então Rodésia ou na África do Sul. Os portugueses dos anos sessenta e setenta jamais tolerariam algo de remotamente semelhante. O regime enviava de Lisboa para os bancos da escola a mensagem que literalmente falava  "do Minho a Timor" e isso era entendido a nível local como integração de todos. O caso da prática era outro assunto mais complexo e que requeria um curto espaço de tempo que tratando-se de história, significava umas poucas décadas, apenas uma geração. 

A administração portuguesa e as suas entidades locais conseguiram realizar uma obra impressionante que não se limitou aos centros urbanos. O interesse pelo país desbravou o interior, ali instalando a administração do Estado que construiu escolas primárias nas vilas que crescendo, em poucas décadas se transformaram em cidades como Tete, Quelimane, Nampula, Porto Amélia ou Vila Pery. As escolas secundárias e os liceus foram surgindo com o passar de poucas décadas e banalizaram-se. Alguns que se interessaram e amaram aqueles locais, mais tarde sobre a sua experiência escreveram algumas memórias, fazendo a história do que viram e ajudaram a criar

Politicamente este é um Anuário nefasto, pois em si contradiz praticamente tudo aquilo que convém fazer passar por verdadeiro e indiscutível. Habituados como estamos ao ... não fizeram nada durante quinhentos anos que afinal acabaram por ser pouco mais de noventa, este pesado volume fará as delícias dos historiadores que num futuro que considero possível já não se encontrar tão distante, dedicar-se-ão a realizar precisamente aquilo que jamais foi feito: a História. Estarão eles interessado em descortinar como se organizava a governação portuguesa em Moçambique? Bastar-lhes-á seguir o que existia e foi sendo acrescentado ao longo de decénios, confirmando aquilo que hoje todos sabem e preferem não reconhecer publicamente, ou seja, o colonialismo não é possível ser encarado como um todo, uma amálgama que anacronicamente irmane e unifique o correr de umas tantas gerações. Ainda há uns dias a RTP 2 passou um programa em que o objecto de interesse era o grande fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel e este fez exactamente o que honestamente não podia ser feito: a amálgama que facilmente induz ao engano, à re-invenção de uma história mais conveniente a quem detém o poder. O Moçambique em que nasci era certamente muito diferente daquele dos anos trinta em que os meus pais vieram ao mundo e este, por sua vez, completamente diverso do dia 15 de Setembro de 1916 em que em Lourenço Marques nasceu a minha avó, filha de uma natural da terra e neta de pioneiros ali estabelecidos logo após a delimitação das fronteiras saídas do Ultimatum.

Somos, todos nós, a nossa família, parte integrante da Associação dos Velhos Colonos de Moçambique e guardados ainda estão os canhotos comprovativos das quotas que nos davam acesso a todos os recintos da instituição, incluindo a piscina onde eu e os meus irmãos aprendemos a nadar. Era para nós um título de honra e por lá não era incomum verem-se outros colonos provenientes das mais diversas paragens do planeta, fossem eles amarelos do Extremo Oriente, ou aqueles genericamente reconhecidos por indianos, muitos no sentido mais lato do termo e que abrange gentes provenientes do Paquistão, Índia, do antigo Paquistão Oriental que ao tornar-se independente passou a ser conhecido por Bangla Desh, das Maurícias - as antigas Ilhas Mascarenhas dos séculos pós-descobertas - ou do Ceilão, não sendo invulgar alguns desses indianos terem como origem o Quénia, o Tanganica ou o rosário de antigas possessões da Coroa Britânica no Índico.

Éramos e considerávamos-nos simplesmente como luso-moçambicanos e assim foi até ao aproximar-se da primeira metade da década de setenta. 

As altas individualidades que Lisboa enviou a Lusaka para o encontro com Samora Machel e respectiva entourage, deveriam ter ido munidas com este catrapázio. Para além dos efusivos abraços e descaradamente paternalistas palmadinhas nas costas diante dos fotógrafos, de nada mais necessitavam para o cabal esclarecimento do que imperiosamente deveria ser feito, evitando-se em Moçambique o que aconteceu nas décadas anteriores em todo o continente africano. Em todo ele, sem excepção, do Magrebe ao Congo e Tanzânia. Simplesmente não estiveram à altura do momento. 

Servia este livro como aviso que ali não estava apenas uma fastidiosa lista de empresas de exploradores coloniais, mas sim a seiva vital de um país. Existiam milhões de vidas pendentes daquilo que este grosso volume encerrava e de toda esta fastidiosa lista de actividades dependiam para a sobrevivência, para a salvaguarda do ganha pão e das refeições garantidas, dos cuidados de saúde e da educação cada vez mais urgente num mundo em rápida transformação. Isto significava mercados cheios de produtos baratos fornecidos pelas machambas bem organizadas e produtivas, hospitais bem apetrechados com equipamento moderno e  pessoal competente, escolas, uma eficaz rede de saneamento básico, vacinação da população urbana e rural, defesa da vida selvagem, ou a permanência da indústria. 

Muito longe de ser um Mandela e muito distante de sequer ter penado aquilo que Mandela terá fisicamente ou psicologicamente passado, o Moisés da independência não foi alertado, não conseguiu ou quis entender o que significaria a deportação do pessoalmente odiado lastro humano colonial. Nisto e noutras excentricidades, está muito mais próximo de Idi Amin. Dizer isto é politicamente incorrecto? Talvez, mas neste caso não é nada que todos não tenham há muito interiorizado, talvez mesmo no politburo do partido dominante em Moçambique.

A impressionante e rápida saída de brancos, mestiços de vários cruzamentos, indianos, chineses e outros, como um raio fulminou num curtíssimo intervalo da história tudo aquilo que esta grande obra, precisamente o conteúdo das 1800 páginas deste livro, significava. Um país liquidado, esmagado em poucos meses e deixado à tremenda fome, incúria no campo da saúde e abandono económico, unicamente devido à incompetência e furor ideológico totalmente desadequado à realidade africana. Rapidamente passado a ruína comparativamente ao que até há pouco fora, tudo desapareceu como se um Apocalipse Moçambique tivesse sofrido sem culpa ou responsabilidade alguma. Mesmo os entusiastas iniciais, aqueles poucos que tentaram ficar para idealistamente construirem algo, fosse esse algo o homem novo ou a nova terra, também fugiram, não conseguiram enfrentar o visível fracasso no qual participaram. 

Aqui está uma boa parte da razão pela qual as notícias que de lá chegam nem sempre são aquelas que gostaríamos de ouvir.

Paciência, são estes afinal, os tais ventos da história. Há então que aceitar os factos consumados, mas nem por isso deixarmos de tentar entender o que se passou. É esta, a verdadeira História. 

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publicado às 19:55

El comandante

por Nuno Castelo-Branco, em 26.11.16

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publicado às 17:38

Tal como dantes...

por Nuno Castelo-Branco, em 16.11.16

 

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 ...os Estados Unidos da América são em termos internos um Estado de Direito e na esfera internacional, naquela que mais nos deveria importar, um império, talvez o mais poderoso, mesmo em termos comparativos, da História registada. 


Poderemos datar o advento imperial aquando da expansão para leste e em direcção às terras que devido à herança de Tordesilhas, teoricamente coube ao então recentemente criado México independente, para logo depois, exterminados os índios e consolidada a posição hegemónica na América do Norte, passarem os EUA decididamente à expansão ultramarina, fosse ela de forma muito directa - a Guerra Espano-Americana com o prévio preparar da sempre fácil histeria da opinião pública interna através dos artifícios mediáticos de Hearst e do seu rival amarelado Pulitzer - ou de forma enviesada através da despótica suserania sobre uma infinidade de Estados central e sul-americanos a que rapidamente foi dada a sintomática e bem merecida denominação de repúblicas das bananas. Em suma, aos our son of a bitch Trujillo e Baptista, sucederam-se os inevitáveis Castro, Noriega e vários tipos de Maduro.  

A lista de possessões coloniais adquiridas é longa e dispensa comentários, pois vão desde a Cuba protegida até ao 1º de Janeiro de 1959, às Filipinas, Hawai, Porto Rico e um rosário de ilhas estrategicamente colocadas no Pacífico, onde Midway é apenas mais uma entre outras. Por mero acidente da relação de mútuo interesse que decorre da Aliança Luso-Britânica, Portugal não sofreu no ocaso do século XIX o mesmo destino do seu vizinho espanhol e hoje os Açores ainda fazem parte do conjunto nacional, enquanto Cabo Verde e muito possivelmente Timor e Macau, viram chegar até ao final do século XX, a presença portuguesa que agora continua sob outra forma menos comprometedora para a reputação ditada por vendavais da história.

São estes, os factos.

 Tal como durante o período que antecedeu a primeira eleição do agora constitucionalmente resignado à saída Barack Obama, as eleições presidenciais americanas e o sistema aparentemente absurdo e inextricável de selecção de candidatos a gestores de equilíbrios dos lóbis locais, não me despertou grande interesse, pois tal como dantes, o princípio da ressalva imperial é alheio à personalidade e grupos que circundam o escolhido pelo bastante volúvel colégio eleitoral. A Administração permanente existe, é inamovível, não é eleita e decide na obscuridade dos gabinetes. 

Como Império, os Estados Unidos possuem interesses entre os quais o princípio do second to none é uma constante desde 1918, ano em que a passagem de testemunho foi patente aos olhos de uma Europa prostrada pela guerra que apenas beneficiou aquela potência transatlântica. Passaram então os EUA a estabelecer a aceitável forma da organização política, social, na cultura de massas, a ordem financeira e económica a nível planetário, apenas adaptando os seus ímpetos às situações criadas pela própria evolução do sistema internacional. Passaram assim por diversas fases, apenas sendo notável uma certa ausência no decorrer dos anos difíceis da Grande Depressão, quando internamente tiveram de enfrentar uma esmagadora crise social decorrente da implosão do sistema financeiro ditada pelo desvario da ganância, situação tornada insustentável pelas catastróficas consequências dos anos de seca - o chamado período da Dust Bowl - que agravam enormemente a penúria generalizada que apenas seria suprida pelo providencial desencadear da II Guerra Mundial. Daí à dominação planetária foi apenas uma questão de tempo, momento esse que chegou aos nossos dias.

America First!, o desabafo já escutado nos anos imediatamente anteriores a Pearl Harbour e que sob o patrocínio de C. Lindhberg, mobilizou uma boa parte da opinião pública americana, bem coberta pelos media.

America First! hoje novamente audível sob outro lema já ouvido há três décadas, o Great Again! um dia pronunciado por Reagan. Este Great Again! poderá muito significar para os americanos, mas não necessariamente para todos os demais que não se encontrando directamente subvencionados numa miríade de agências, empresas, think tanks e organizações sempre dispostas a servirem quem as sustenta - e aqui entra na equação a própria ONU -, normalmente se deixam hipnotizar por tudo o que a colossal eficiência da máquina cultural, no seu sentido mais amplo, difunde em termos globais. Em suma, o que é bom para eles, geralmente habituados ao let's kick some ass!, poderá não ser assim tão positivo para os demais. 

Vejamos então onde de imediato poderá o mundo obter algumas concessões da Administração Trump, concessões essas que possam em simultâneo beneficiar os americanos e de uma forma bastante directa e exclusivamente em termos estratégicos - e na paz social -, o cada vez mais Velho Continente.

1. Na Europa oriental rufam em surdina os tambores de um progressivo afastamento, pois nos últimos quatro anos os riscos de conflito aumentaram exponencialmente e hoje encontramo-nos na iminência do impensável, ou seja, um totalmente desnecessário e final confronto directo com uma Rússia que inegavelmente foi humilhada. Humilhada após a queda há muito aguardada do sistema concentracionário soviético, viu todos os antigos satélites desertarem e rapidamente aderirem à NATO, quando muitos esperavam que aqueles países, tradicionalmente palco das disputas germano-russas, fossem pelo menos neutralizados. Tal não sucedeu e para isso poderosamente contribuíram as novas autoridades que durante mais de meio século sofreram em silêncio os arbítrios e abusos das forças ocupantes no pós-guerra, confirmando também infinitos casos ocorridos no passado pré-1917: a Polónia, os  Bálticos e Balcãs orientais, rapidamente se abrigaram sob o guarda-chuva americano, não tendo por isso de procederem à rápida adequação das suas forças armadas às exigências impostas pelas novas doutrinas e realidades tecnológicas do sector militar. Se à questão militar passarmos a outros aspectos como os industriais, financeiros e económicos, o quadro da humilhação torna-se ainda mais notório, pois ainda há uma década a Rússia era encarada como um mero sucedâneo de um Lebensraum fornecedor de matérias primas e de mão de obra especializada e a preços sem concorrência. Bem cedo, como praticamente todas as capitais da Europa ocidental, Lisboa encheu-se de mecânicos, pedreiros, estucadores, pintores, electricistas e serventes provenientes do antigo bloco soviético. Mal pagos, relativamente mais instruídos do que nós próprios, sem papéis que legalizassem a sua situação e a tudo se sujeitando em troca da possibilidade de usufruírem da paz social, das escolas para os filhos, da assistência dos SNS, de um tecto de resguardo e refeições quentes na mesa. É a verdade que bem conhecemos e fingimos ignorar. 

O advento de uma classe empresarial directamente saída dos quadros do PCUS que de forma muito célere passou a entender na perfeição as artes e artimanhas do capitalismo mais selvagem, criou um cenário de aparente opulência que naquela parte do globo já não se via desde os tempos em que a aristocracia e o empresariado do império dos Romanov passava férias na Côte d'Azur, comprava e construía palacetes em Paris e fazia compras em Viena, Berlim e Londres. Iates espampanantes recheados de garrafas de champanhe e despidas beldades mais ou menos escusas, foram notícia durante alguns anos, juntando-se ainda ao rol de extravagâncias a compra de clubes de futebol, empresas de comunicação e forte jogatina no complicado sistema bolsista ocidental. Daí ao diz-que-diz das lendas do tráfico de armas, drogas e seres humanos foi apenas um passo, pois a opacidade de uma Rússia sempre desconhecida e talvez imerecidamente imaginada sempre sob o pior dos prismas, tem sido uma constante desde que Pedro o Grande lançou a primeira pedra que ergueria nas margens do Neva, a sua capital europeia.  

Urge fazer algo e de preferência, imediatamente.

Existem muito relevantes minorias russas que vivem nos Países Bálticos, minorias essas ali instaladas após o resultado de 1945 que significou antes do mais, a deslocação sem precedentes de populações inteiras no acanhado espaço continental europeu. Estaline recheou as novas conquistas com elementos populacionais que considerava essenciais à consolidação do poder russo naquela zona estratégica do Báltico que vai de Riga a uma Königsberg despojada da sua população germânica e rapidamente rebaptizada de Kalininegrado, agora transformada numa plataforma de mísseis. 

Não valerá a pena negar que algo escandalosamente escondido e bastante absurdo por lá vigora, desde o afastamento dos russos da participação cívica em lugares de relevo na administração, como nas forças armadas e até, pasmemos, na própria organização residencial que ali, de Riga a Tallin ou Vilnius, reproduz quase exactamente o sonhado e falhado Melting Pot que bastante teoricamente acontece além-Atlântico. Existe, mas adequado a umas poucas comunidades.
Este é, queiramos ou não, um argumento precioso para a propaganda justificativa das acções das autoridades do Kremlin, para mais resguardadas estas pela tradicional lealdade que os russos votam por regra da história, a quem comanda em Moscovo. A U.E.+NATO, têm clamorosamente falhado na salvaguarda dos direitos daquelas minorias e este é um problema aparentemente sem solução, dada a degradação da situação geral.

2. A Ucrânia, perdida a oportunidade de suceder-lhe precisamente o mesmo que durante meio século tornou a Finlândia numa zona neutra, mas agora com a vantagem de ambos os contendores partilharem grosso modo o figurino económico-social, tornou-se num azarado mundo de erros, crimes políticos, violência, caos financeiro e ruína económica, provocando o rápido irredentismo das suas minorias nacionais, sejam elas russas, polacas ou outras que ali vivam. Não se aprendeu grande coisa com algumas das causas dos dois conflitos mundiais.
A falaciosa "perda" da Crimeia, subtracção essa que deveria ter sucedido por mútuo acordo logo na data da independência ucraniana, acabou num facto consumado após a rápida reacção do Kremlin à sugestão de Sebastopol poder vir a ser absorvida pelo tentacular sistema de bases da NATO, leia-se, dos EUA. Às contingências militares propriamente ditas, junta-se o poderoso sentimento de ultraje nacional dos russos que sintomática e perigosamente é de forma ostensiva, ignorado no ocidente. 

Nem tudo está perdido, apesar do folclore mediático das Praças Maidan, das "revoluções coloridas" encenadas um pouco por todo o lado e organizadas exactamente pelos mesmos sectores. Isto propicia um fértil pasto para todo o tipo de teóricos da conspiração e o refúgio da opinião pública no medo.  

Talvez seja aconselhável a nova administração americana reconhecer os factos e estabelecer com os russos, com o regime de Putin - é assim que no ocidente são designados todos aqueles ordenamentos políticos que não correspondam exactamente ao pretendido -, um modus vivendi que salvaguarde a face de americanos e de russos, em simultâneo contentando a cada vez mais subalterna Europa e garantindo em troca de certas condições escritas em formal Tratado de parceria renovada, a paz no continente e a necessária neutralidade da Ucrânia como ponto de encontro entre o ocidente e a Rússia.

Vencidos os warmongers pelo voto no ainda recentemente constituído Colégio Eleitoral, podemos estar praticamente seguros de que Putin não atacará, pois não tem razões para o fazer.  Previsivelmente actuará em conformidade junto das suas coercivas milícias dispostas no terreno. O status quo territorial não é apenas desejável, como possível. Portugal, situado no centro da civilização ocidental que geográfica e culturalmente, no seu sentido mais amplo, abrange todo o espaço entre Los Angeles e o Estreito de Bering, poderá então vislumbrar com outra perspectiva o potencial da CPLP.  

3. No Próximo Oriente a situação é outra, ditada pela intrincada teia de interesses que opõem iranianos, sauditas, qataris, israelitas, grandes empresas e o Dep. de Estado+Pentágono dos EUA, os turcos e os russos, aos quais se juntam as reivindicações curdas, cristãs, iazidis e o absurdo e há muito esperado despertar de um claramente criminoso jihadismo de recorte neo-medieval. A consequência? A Europa tem de lidar com o "Caso Refugiados", uma torrente humana ininterrupta que vai esvaziando não apenas as zonas de guerra, como outras situadas a milhares de quilómetros e que pouco ou nada têm directamente a ver com o conflito que há décadas decorre entre as margens do Mediterrâneo oriental e o Eufrates. 

É este um cenário muito pior e mais perigoso que aquele descrito nos pontos 1. e 2. e que por si, devido ao evidente, claro e sempre politicamente correcto negado confronto de civilizações, é capaz de despoletar um embate directo num momento fortuito. Assad parece cada vez mais de pedra e cal, inamovível e inesperadamente para alguns, surge hoje como a parte essencial para o relativamente rápido resolver de um conflito que mercê dos erros crassos cometidos em Bagdade e Tripoli, tornou toda a Europa num instrumento inútil como força dissuasora e totalmente incapaz como entidade reactiva. Pior ainda, quebrou a espinha dorsal da até há pouco incondicional ou resignada solidariedade ocidental. O Brexit consiste apenas numa entre outras cada vez mais prováveis consequências. 

É uma evidência a oposição de praticamente todos os países da U.E. a uma guerra com os russos e aliás, dados os resultados eleitorais, o americano que trabalha, gosta de conduzir vistosos bólides e tem de pagar contas para sustentar a família, também não a deseja. Não estamos em tempos propícios a riscos, pois estes envolvem nada mais senão o Armagedão. 

Afastadas as intransigentemente sempre irascíveis Applebaum e os bem pagos tamborileiros da guerra, urge agora falar com Putin, urge falar directa ou indirectamente com Assad.

Fira-se o amor próprio em prol do interesse geral. Mas... amor próprio de quem?


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publicado às 17:42

Boa viagem… até à China

por Nuno Castelo-Branco, em 10.11.16

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A América dos "rédenéques", racistas, deploráveis, analfabetos, misóginos, homofóbicos, cretinos, imbecis, KKK, xenófobos, anti-islâmicos, anti-judaicos, anti-budistas, anti-hindus, anti-católicos, anti-hispânicos, preconceituosos e por aí fora. 

Pronto, nós todos, da esquerda e da direita europeia, já temos um excelente argumento para as manifs e depois, para desopilarmos, uma viagem de relaxamento até à China.

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publicado às 09:52






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