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As Cidades

por Nuno Gonçalo Poças, em 09.06.17

A grande maioria veio do campo. Do Alentejo, de Trás-os-Montes, das Beiras. Do pé descalço, da sardinha para três, do piolho. Fugiram da brutalidade da charrua e do arado, do destino miserável e da vida de criadagem. Eles queriam a burguesia, elas não queriam servir. Invadiram as fábricas, os portos, as empresas, as funções públicas. No Barreiro, em Loures, na Amadora, em Almada, em São Domingos de Rana, em Odivelas. O salto foi tão grande que hoje os filhos do êxodo rural só conhecem a vida dos avós se tiverem de facto curiosidade. Licenciaram-se, viajaram, quiseram abandonar os subúrbios dos seus pais e olham como turistas para as terras dos avós. Os pais vão-se reformando. Com vontade de regressar à terra, onde a custo construíram uma casa. Não voltam para ajudar os filhos. O reformado suburbano, nas suas calças vincadas e na sua camisa de manga curta aos quadrados, na sua bata e no seu camiseiro florido, está desamparado e amolecido - eles nas praças a jogar cartas ao ponto, a procurar os jornais gratuitos nos balcões da Caixa Geral de Depósitos, elas na praça, ao peixe, e na cozinha, a fazer tudo para que o mundo não pare. Muitos, já avós, ainda trabalham. São as centenas de milhares de carros que enchem Lisboa de manhã. Que entopem a ponte, o IC19, a A5. Que enchem os barcos, os comboios, os autocarros. Tudo em greve, tudo com perturbações, com atrasos, com mau cheiro, com o ar grave e zangado de quem tem pressa, de quem perde duas horas por dia, muitos dias por ano, muitos anos na vida, neste ramerrame infinito. Os salários, em média nos oitocentos euros, não esticam e fogem quase na totalidade até à primeira semana do mês. Paga a renda, paga a água, paga o gás, paga a luz, paga o telefone, paga o passe, paga o condomínio, paga a prestação disto e daquilo, paga a escola, paga a creche, paga o lar, paga o supermercado, paga os tempos livres, paga os tempos menos livres, paga o tempo, paga a vida. Levantam-se cedo, chegam tarde. E é difícil encontrar creches e escolas e transportes, e o autocarro não veio, o metro não funciona, o trânsito não dá saúde, e o passe é caro e a gasolina também, e a vida que está tão má. Voltar à província, por uma razão que não seja o bucolismo do regresso pacífico de quem espera pela morte, está fora de questão. Talvez por medo, talvez porque muitas vezes ainda vive o passado da terra dura, da esteva e da giesta. Mais depressa vão os filhos e os netos, graças a Deus ignorantes, meus ricos meninos, dar cor e futuro a uma grande parte do País que só agora parece querer deixar de estar espiritual e geograficamente morto. A Lisboazinha já pouco tem de fadistas e de prostitutas de um conto de réis. Pouco se ouve o sotaque realmente lisboeta, do bairro, da viela, de quem carrega nos 'ch' e de quem abre as vogais, como quem diz 'chóriço'. Toda modelada pela pronúncia da televisão, pelo charme de quem conhece o estrangeiro e sabe que isto já não fica atrás de ninguém, a nova Lisboazinha, que já não é aquela Lisboazinha yuppie, de um yuppie com as calças com más bainhas, dos anos 90. Mas continua a ser feita por toda aquela multidão muda, que só parece buzinar, que se acotovela nos transportes, que fala entre si mas que teme os modernos e mais ainda os modernaços. Nas repartições, nas cadeias de comida rápida, nas limpezas, nas forças de segurança, nas secretarias. O País real, como lhe chamam, está lá longe, nas serras e nas planícies. Mas está, em grande parte, aqui à porta, logo depois do Campo Grande, a recolher tabuleiros nos centros comerciais. O País real, caramba, somos nós. Estamos é todos, os mais e os menos auto-julgados evoluídos, os do centro e os da periferia, todos, todos, a fazer de conta que não existimos ou que existimos de outra maneira. Que somos outra coisa qualquer para, sobretudo nesta altura, inglês ver. Como se não tivéssemos todos andado em baloiços de pneu, como se não tivéssemos todos, os da minha geração, comido pão com tuli-creme. Como se isto tivesse deixado de ser uma terra encantadora mas dura. Acho que o Rodrigo Leão explicou isto tudo sem usar uma palavra quando compôs 'As Cidades'.

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publicado às 23:37

O que faz falta

por Nuno Gonçalo Poças, em 26.05.17

Não sei em que fase da vida nos podemos dar ao luxo de dizer que ainda somos do tempo em que. Não me sinto nesse direito, apesar de muitas vezes apelar ao meu tempo. No meu tempo isto, no meu tempo aquilo. No meu tempo, com grande probabilidade, aconteciam imensas coisas que se reproduzem, talvez de outras formas, neste tempo que não sendo já o meu, na verdade ainda o é. No meu tempo, por exemplo, ensinavam-nos provérbios. Que devagar se vai ao longe. Que depressa e bem não há quem. Que quem espera sempre alcança. Neste tempo, que é, na verdade, o nosso, já ninguém quer ir longe porque ninguém tem disponibilidade para ir devagar. Neste tempo que é tão nosso, se não há quem consiga depressa e bem, há pressa em encontrar quem o faça. E hoje, afinal, quem espera só se cansa. Começamos nas tarefas diárias, no trabalho, na velocidade dos carros, na rapidez da comunicação. É aqui que ser “do tempo em que” nós dá alguma autoridade moral, mesmo que de autoridade tenha muito pouco e de moral ainda menos. Sou do tempo em que nem toda a gente tinha telefone em casa e muito menos telemóvel. Telefonar a alguém e não obter resposta tinha um só significado: não está em casa. Hoje, se não nos atendem o telemóvel ao segundo toque, o coração palpita. O outro morreu. Ou, pior, o outro não quer falar connosco. Se não nos respondem a um email em cinco minutos, ligamos a pedir respostas e justificações. Atrasamo-nos mais porque estamos a uma mensagem escrita de dizer que estamos atrasados. Saímos mais tarde de casa porque os carros e a sua velocidade compensam o tempo perdido. É tudo cada vez mais rápido, mas temos cada vez menos tempo – e eu estou a tentar fazer com que isto não se pareça com um texto de psicologia reles e barata. O tempo é um recurso escasso, na linguagem dos economistas. O tempo passa a correr. E fico a olhar para o ponteiro dos segundos, na sua lentidão, e um minuto parece uma eternidade. É tudo uma treta. O tempo é escasso, mas não passa a correr. Passamos nós a correr por ele, dirá um treinador mental dos novos tempos que nos fará comer melhor, viver melhor, respirar melhor. Para sermos mais felizes, seja lá isso o que for. Como é que se é feliz a fazer contas, a analisar resultados, sempre preocupado com o sucesso físico e mental, com o sucesso profissional e social? É pouco inteligente, essa coisa da pressa – ou o prazer da velocidade é uma coisa de cretinos, como dizia Nelson Rodrigues. Para quando é que queres isto? Para ontem. Os prazos, as agendas, tudo organizado, tudo controlado com aplicações e plataformas que nos permitem não perder tempo. É que não há tempo a perder, dizem. O raio é que não há. Como é que uma coisa tão luxuosa como o tempo não se deita a perder? Os luxos não são para gozar? Neste tempo, que é o meu e que é o nosso, em que nos queixamos das perdas de tempo, em que lamentamos não saber lidar com a velocidade da comunicação, em que parecemos todos alienados, acelerados, ansiosos, deprimidos, o diabo, o que nos faz falta já não é, como no tempo em que havia tempo, animar a malta. É abrandar a malta.

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publicado às 14:29

Comfort food

por Nuno Gonçalo Poças, em 15.05.17

Os livros de auto-ajuda não se tornam um sucesso porque são objectivamente úteis. A livralhada romântica de cordel - dos Biancas e dos Sabrinas aos Chagas Freitas - não vendem porque são genialidades literárias. O trendy, o gourmet, o lifestyle não são o norte da bússola porque as pessoas estão mais delicadas ou sofisticadas. Estes fenómenos servem para nos satisfazermos social e psicologicamente. São a masturbação cool em formato de hambúrguer com rúcula que usámos para esquecer a crise. Mais do que os dados e os indicadores económicos, mais do que a realidade, o lado psicológico da crise foi, talvez, o que mais nos levou ao tapete. Não resultarão, ao que parece, como não resultam as fórmulas "ama-te", "acredita", "vence" ou "limpa o teu corpo". Não será por acaso que, ao mesmo tempo que começámos a beber gin copos com jardins botânicos lá dentro, aumentámos o consumo de anti-depressivos. Faltava-nos qualquer coisa. Primeiro, que se afastasse a nuvem negra dos "tempos difíceis". E isso fez-se com o optimismo pateta de Marcelo Rebelo de Sousa e com a falta de vergonha (nos jornais costuma ler-se "habilidade") de António Costa. Depois os números, mais ou menos sustentáveis, vieram. O défice baixava, o crescimento aguentava-se, as exportações subiam. E os sindicatos não faziam greve. O País estava em "paz social". Este fim-de-semana alguém partilhava uma imagem de Cavaco Silva e Passos Coelho que dizia "já repararam como tudo isto só aconteceu depois de eles terem ido embora?". Isto é absurdo, sim, mas explica tudo o resto. É "comfort food", como agora se diz. Depois da vitória no Europeu de futebol, continuámos sedentos de mais coisas que nos mobilizassem enquanto comunidade, enquanto tribo, enquanto povo; de coisas que nos fizessem disparar a adrenalina e a capacidade de nos comovermos. E o Papa veio a Portugal. Canonizou mais dois portugueses. O Benfica ganhou pela primeira vez quatro campeonatos seguidos. E Portugal ganhou pela primeira vez a Eurovisão. Falou-se em regresso ao Salazarismo e aos três F, como se os três F não fossem muito maiores que o Salazarismo. Como se não tivessem sobrevivido nas pessoas. Importa, na verdade, muito pouco que a dívida continue a crescer, que as contas públicas não sejam sustentáveis, que o Governo esteja a satisfazer todos os lóbis. Todos nós fazemos parte de um lóbi. Estamos todos satisfeitos. Vai correr mal, mas que se lixe. Agora estamos a mostrar que somos capazes de fazer coisas, como na bola. A vingar décadas de noites miseráveis de derrotas, como na Eurovisão. A ver num artigo qualquer num jornal estrangeiro o reconhecimento da nossa grandeza porque nos gabaram os pastéis e as esplanadas. Isto tudo pode ser um circo, se quiserem. Mas parece que o pão é razoável, chega perfeitamente. Podem vir os economistas explicar o contrário. Quem é que, nestes meses, nestes anos, parece querer ouvir falar em números, naquela linguagem que, na realidade, poucos percebem? Portugal está de férias há meses e foi sair à noite este fim-de-semana. Quem é que, no seu perfeito juízo, quer deixar de estar de férias? Como é que se cria uma alternativa às férias? Como é que se explica a alguém que tinha fome e está a comer que é bem capaz de vomitar daqui a pouco? Não se explica. Perceber este fim-de-semana é perceber que a oposição, em Portugal, também está a precisar de ganhar um torneio qualquer, sob pena de ser expulsa do campeonato.

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publicado às 11:27

Deixem Fátima em paz

por Nuno Gonçalo Poças, em 13.05.17

Tinha cerca de oito anos quando fui pela primeira vez a Fátima, com um grupo de catequese, a bordo de um autocarro, com uma mochila cheia de comida e algum dinheiro para recordações. Não trouxe de lá nada de relevante, excepto as recordações que era suposto trazer. Depois disso, fui a Fátima praticamente todos os anos, e de lá já não trazia nem lembranças. A adolescência é a adolescência: a idade em que se acredita em tudo, ou em que não se acredita em nada. Eu preferi a segunda. Lembro-me de, ainda criança, me emocionar na missa. De olhar para o Cristo crucificado e ver Nele o homem que tinha morrido por todos nós – incluindo por mim. Com a adolescência, além de ter perdido a capacidade de me emocionar na missa, perdi a esperança na Igreja, em Deus, nos homens. Não sei se não cheguei a perder a esperança em mim, ao contrário do Cristo crucificado que anos antes me fazia chorar. Não me sinto menos católico por isto. Por ter duvidado, por ter sido herege, por ter pecado inúmeras vezes, por não querer saber. Voltei a abrir o coração para Deus, arrependi-me e, em consequência da minha natureza humana, continuei a pecar e a arrepender-me. Ao longo de todos estes anos nunca deixei de olhar com curiosidade e admiração para os peregrinos de Fátima, para todos aqueles que, de joelhos, rezavam à volta da Capelinha das Aparições, dando voltas sem cessar. Hoje volto a vê-los com os meus olhos. Os olhos de quem peca, de quem sofre, de quem tem esperança, de quem tem fé. Os olhos de quem não está sozinho. Haverá muitos motivos que levam as pessoas a Fátima. Haverá até muitos motivos que levam as pessoas a ter fé. Ou muitas razões que levam as pessoas a gostar do Papa Francisco. Há quem olhe para Nossa Senhora, para Cristo, para Deus, como uma superstição, uma fezada. Há, de certeza, muito desespero e uma grande necessidade de sentir que não se está sozinho. Através de Maria chegamos a Cristo; no silêncio do Santuário está também o silêncio de Deus que acompanha quem ali vai. Nestes dias, tenho notado nas elites urbanas algum incómodo com as celebrações do centenário das aparições. A esquerda ateia, claro, não as tolera porque não tolera nada. A direita ateia também não gosta porque vê nas celebrações o comunitarismo e a solidariedade que o seu egocentrismo e o seu individualismo desprezam – e a emoção e a espiritualidade que acham perfeitamente substituível por dinheiro, procurando socialismo em tudo o que não percebe. E alguma direita beata – cheia de jejuns e missas e nojo por quem não tem vinte valores no quadro de honra da perfeição moral – não perde tempo a criticar tudo o que tem envolvido as celebrações porque tem a raiva ao Papa Francisco que os fariseus tinham a Cristo. Os portugueses, ricos ou pobres, mais ou menos instruídos, estão em Fátima, física ou espiritualmente. Estão a emocionar-se juntos, a dar as mãos, a arrepender-se. Com a consciência de que todos somos pecadores, lado a lado com um Papa que nos acolhe a todos sem distinção. Cem anos depois, Fátima resiste: não por causa das lembranças que de lá trouxe um dia, mas porque eu, e muitos, a temos no coração. Deixem-nos em paz.

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publicado às 12:15

Condenados à esperança

por Nuno Gonçalo Poças, em 30.01.17

Em Salvador, na Bahía, um taxista perguntava-me coisas sobre Portugal, o “País original”. Tinha visto um documentário na televisão brasileira sobre a “terra dos portuga” e apanhou-me ali a jeito, mesmo ao lado dele, de calção, alpercatas e t-shirt, para tirar umas coisas a limpo. Queria saber, porque não tinha percebido, qual era o nosso motor económico. Queria mesmo. Engasguei-me. Tentei mudar o rumo da conversa e fazer com que o ponto da vergonha fosse o Brasil corrupto e não o Portugal para o qual me falta sempre um adjectivo. O baiano não se deixou intimidar. Queixou-se do PT, das trapalhadas de Lula e Dilma, da desilusão que Aécio tinha sido para ele, que o apoiou, do golpe, da corrupção por todo o lado. Assumiu a sua vergonha e voltou à carga. Em que se sustenta afinal a economia portuguesa? Enchi-me de coragem e disse-lhe que o turismo estava em expansão. Que as exportações não sei quê. Que os têxteis isto, o horto-frutícola aquilo, mas que ainda é deficitário. Que a cortiça e o vinho e tal, tudo a andar. Depois apercebi-me do ridículo que estava a ser e fui directo. Sabe o que é Portugal, senhor? É igual ao Brasil, mas mais pequeno e com menos crime. Rimos. “Eles falam que somos irmãos, mas o portuga é que é o pai, viu? O filho não podia dar certo.” Depois perguntou-me se somos mesmo dez milhões. Disse-lhe que sim, mais coisa menos coisa. E o baiano riu alto. Tinha visto na televisão que somos sempre dez milhões e gritou-me, às gargalhadas, se nós não temos filhos. Engasguei-me outra vez. E balbuciei-lhe qualquer coisa como “nós tínhamos mais filhos antes, já fomos menos de dez milhões”. E o baiano retorquiu: todo o europeu fala que ter filho sai caro, mas todos na Europa tinham mais filhos quando eram mais pobres.” Saímos do Pelourinho. Na via rápida apanhamos fila. O taxista, ainda convencido da superioridade civilizacional portuguesa, afirmou, cheio de certezas, que nós não tínhamos trânsito. E eu respondi-lhe como quem anuncia o trânsito na rádio: trânsito demorado no Eixo Norte-Sul, no IC19, na A5, no túnel do Marquês, na saída para as Amoreiras, na curva do Palácio, no IC20, na A2, na Ponte Vasco da Gama, no Nó de Francos, na Ponte da Arrábida, na A4, na Via de Cintura Interna. O taxista ria-se. E, para desanuviar, lembrou-se de um bolinho que tinha visto no tal documentário. Uma coisa assim redondinha, meio amarela, meio queimada. Um pastel de nata. É isso, pastel de nata. Ninguém diria que aquilo é um pastel. Tem nata? Tem nata. Dizem que é uma especialidade. É, é. Há quem coma com canela, mas eu prefiro sem nada. E a massa é folhada, tem que estar bem crocante. Estaladiça, sabe? E o recheio não pode estar demasiado duro, não pode ser muito cozido, tem de escorrer para os dedos. Isso parece delicioso. O baiano estava louco. Mas nós temos mais. Pastéis de Tentúgal, pudim de Abade de Priscos, travesseiros de Sintra, queijadas, tigeladas, jesuítas, setubalenses. E bolos? E pratos? Portugal é rei na cozinha, baiano do Diabo, queres que te cite só os melhores pratos tradicionais? Não sei se tenho tempo para isso. E o taxista, rindo, quis explicar definitivamente por que razão os portugueses vivem melhor que os brasileiros: quando há trânsito, os portugueses não se zangam porque chegam a casa, comem um desses docinhos redondinhos, meio amarelos, e tudo passa. E nessa altura eu senti que o Brasil é o país irmão que nós merecemos. Vem tudo, como sempre, numa frase curtinha do Millôr Fernandes: o Brasil está condenado à esperança. Portugal também.

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publicado às 11:23

O americano médio e os totós

por Nuno Gonçalo Poças, em 09.11.16

Tim Newark escreveu, algures em Maio deste ano, um artigo no Telegraph que me ficou mais ou menos na memória. Dizia que Donald Trump estava a dar um banho de realidade à elite geek. Ontem acabámos de ter essa certeza, mas a elite intelectual ainda não está a perceber bem a coisa. A vitória de Trump não é (só) racismo. É, por um lado, o retrato de um País real que está a sofrer na pele as consequências da revolução digital. Esta auto-proclamada revolução está a ser feita pela elite dos totós e pela alta finança contra as pessoas de carne e osso. Contra trabalhadores, operários, gente normal que tinha uma vida normal e deixou de ter. E é, por outro lado, o retrato de um eleitorado que está farto de conversa da treta, do politicamente correcto e de uma comunicação social que é feita para as elites financeiras, políticas e totós, e que esquece o homem comum. Claro que há racismo. Claro que há ignorância. Mas também há muita desilusão. E há muita gente que está tão farta e que se vê com tão poucas soluções diferentes, que está disposta a apoiar o impensável. No Reino Unido foram 17 milhões. Nos Estados Unidos é o que se vê. Na Primavera, em França, logo veremos. Isto, na verdade, não é causa de nada. São só consequências. O que é mais triste é o facto de não termos soluções. Quem podia estar a assumir um discurso de coesão social, de liberdade, contra o politicamente correcto, pela democracia e contra o "us against them" está absolutamente perdido. Continuam a fazer política como fizeram nos últimos 30 anos. A dizer as mesmas coisas. A fazer as mesmas coisas. E continuam a esquecer que todos os países têm uma esmagadora maioria de gente que é real - não está numa app - e que está a ver a sua vida e o seu pequeno mundo a ruir. A comunicação social continua afastada desta gente, mais preocupada com o futuro da inteligência artificial e com as maravilhas da tecnologia, sem que ninguém pense em maneiras de conciliar este fenómeno com as necessidades das pessoas de carne e osso. Lamentem-se para aí. Têm toda a razão - e eu faço o mesmo. Mas quando forem ao Web Summit lembrem-se disto: há uma larga maioria de gente que não cabe no mundo geek e evoluído que vos está a ganhar uma raiva imensa. E o Pedro Dias, que se entregou, hein?

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publicado às 11:24

Não importa que os socialistas tenham governado como governaram entre 2005 e 2011. Porque a esse argumento responde-se não com factos, mas com Durão Barroso e Santana Lopes. Não importa que os socialistas tenham governado como governaram, apesar dos tempos favoráveis, entre 1995 e 2001. A essa evidência responde-se com o fantasma de Cavaco Silva e com a psicologia do "pai do monstro". Não importa que José Sócrates tenha chamado a troika, que tenha negociado (mal) o memorando, que tenha sido o seu Governo a inaugurar a "austeridade" ou que se tenha demitido para não ter de governar em condições que não lhe permitiriam a manipulação psicológica dos portugueses. Porque a esse facto responde-se com a "austeridade má", com os "incentivos à emigração", com o retrato de um País em ruínas. Não importa que o Primeiro-ministro, os membros do Governo e os Deputados da maioria que o suporta mintam todos os dias. Várias vezes, para que ninguém consiga ter tempo de as fazer evidenciar. Não importa que António Costa governe como quem lidera uma associação de estudantes. Nada importa, na verdade. Porque resulta. A psicologia da crise só pesa nos ombros da direita. Houve gente que nunca teve cortes nas pensões ou nos salários que berrou contra a austeridade da direita, passe o pleonasmo, e do "neoliberalismo". Há um mar de gente que não paga IRS que lamenta ter de pagar a crise. Há quem se queixe com razão, claro. Mas hoje queixamo-nos menos. Estamos a ressacar. Não se destrói a narrativa da da "reposição de rendimentos" com factos. Mesmo que as estatísticas, os dados, os números, não batam certo. Nada importa, na verdade. Nós não queremos sair do Euro, mas também fugimos a sete pés das "reformas estruturais". Queremos estar assim, que estamos bem. Não queremos que se combatam os interesses instalados, as corporações, os que vivem encostados à enorme sombra do Estado, porque todos nós somos interesses instalados, todos somos corporações, todos vivemos à sombra do Estado. Não somos um País de comércio - somos um País que, por acaso, também tem comércio. Não somos um País de livre iniciativa - somos um País em que, por mera sorte, existe gente que tem iniciativa e que não espera nada do Estado a não ser que não chateie. Não queremos programas liberais. Queremos que nos deixem sossegados. Do povo às elites lisboetas, só queremos que nos deixem sossegados. A nós e às nossas negociatas. Aos nossos direitos. Não importa perguntar por Arménio Carlos, por Mário Nogueira, por Bagão Félix, por Manuela Ferreira Leite. Eles não voltam tão cedo. Estamos sossegados, a recuperar rendimentos, a gozar a paz social. Não, ninguém quer saber que custos tem essa paz social. Ninguém quer saber se o Metro não anda, se os autocarros da Carris não cumprem horários. Estamos em paz social. Não queremos sequer ouvir falar no que aí pode vir. Novo resgate? O caraças, pá. Logo se vê. Deixa andar, que assim está bom. Se não estiver, olha, logo se vê. Eles é que sabem. O remédio que têm aqueles que, como eu, olham para tudo isto com olhos de bicho assustado e incrédulo, é também deixar andar. Ir dizendo, por descargo de consciência, que o Rei vai nu. Protestar, e tal, sim. Alertar para as incoerências, para as mentiras, sim. Mas que tenhamos a certeza de que grande parte do País não quer saber disso para nada. Não há programa reformista que consiga convencer eleitores. E logo agora, que se percebeu que a direita só volta a governar se tiver maioria absoluta. O que há a fazer é esperar. E poupar. Deixar uns dinheiros de lado, não vá isto dar para o torto. E ir "fazendo oposição" - aquela coisa que, à direita, se assemelha a dar murros nas ondas. Não vale a pena continuarmos a achar que vivemos noutro País. Não vivemos.

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publicado às 15:04

PUEC - O Processo Uberizicionário em Curso

por Nuno Gonçalo Poças, em 12.10.16

Eu, apesar de ter uma simpatia estética pelo taxista, não tenho nada contra a Über. Acho lindamente que haja concorrência, que cada um utilize o que quiser e tal, sim senhor. Mas, como já se disse por aí, esta questão não tem nada que ver com ambientadores para carros, motoristas lavados ou carros limpos. Os taxistas, graças à suprema incapacidade do líder da ANTRAL e à boçalidade daqueles que falaram pela classe, não souberam conquistar a simpatia da opinião pública (ou da opinião publicada de Lisboa, incluindo redes sociais). Porque se agarraram à questão corporativa, porque deram a entender que não querem concorrência alguma. Porque um deles resolveu citar Getúlio Vargas e falar de meninas violadas. E, com isto, ajudaram a alimentar a fama de grunho no taxismo e a criar a ideia falsa de que todos os motoristas da Über saíram directos de um episódio da Família Bellamy. Nem oito, nem oitenta e oito.

Enquanto a comunicação social se agarrava ao grotesco Jorge Máximo para que todos se indignassem (ah, a indignação, sempre ela) com os não menos indignados taxistas, um dos profissionais da bandeirada disse à SIC uma coisa tão acertada que nem ele deve ter tido noção da luz na escuridão que significou. "Vocês, jornalistas, deviam estar a nosso favor, que qualquer dia são vocês". Qualquer coisa como isto. E tem razão.

Este fenómeno da "uberização" está a chegar-nos sob o manto do moderno, do trendy, dentro daquela lógica geracional que diz que podemos todos trabalhar com um tablet numa praia no Hawai e ser para lá de felizes, nós e as nossas parceiras sexuais, o nosso gato e o nosso perfil no Instagram. Exactamente a mesma lógica que está por trás do "não sei o que são turistas a mais", quando as cidades pelo mundo fora começam a perder identidade e a tornar-se museus de pedra para fotografar e postar, com cada vez menos pessoas da terra e mais instagrammers vindos de todo o lado do mundo que se estão bem a borrifar para a cultura de povos inteiros.

A "uberização" é uma coisa gira porque, dizem, é um fenómeno de "partilha". Claro. Esta nova economia fancy não quer saber de lucros, quer partilhar - mesmo que uns legitimamente enriqueçam e os outros acabem a contar trocos. Rui Bento, o director da Über em Portugal, diz que representa apenas uma aplicação que quer ligar pessoas - as que se querem deslocar e as que as querem transportar. Eu gostava de acreditar neste lálálá mas não consigo. E esta coisa da economia do futuro, sem patrões e sem trabalhadores, só feita de "parcerias" parece-me um belo lálálá. A menos que alguém acredite, por exemplo, que o Continente e o Pingo Doce foram criados para "ligar" produtores e consumidores, os que querem comer e os que lhes querem dar de comer, esta economia "da partilha" é cantiga do bandido. É capitalismo, sim. Não estão a inventar nada. Estão só a dar-lhe um novo rosto. É gente que cria modelos de negócio e que ganha dinheiro com isso. E que cria "parcerias" com pessoas que precisam de ganhar dinheiro para viver. Sem regras, sem lei. Gente mal paga, que terá de trabalhar cada vez mais horas e a quem venderão a ilusão do "empreendedorismo". A "uberização" não tem nada de errado. Traz concorrência, mais oferta, mais soluções para satisfazer o consumidor. Mas pode não trazer grandes notícias à maioria de nós.

Mas, como em todas as questões, já não há meio termo. Ou estás com os táxis ou estás com a Über. Ou queres correr com os portugueses de Lisboa e encher isto de turistas ou queres encher Lisboa de fadistas e peixeiros e correr com todos os turistas. Ou queres um mercado completamente estatizado ou queres a selva. Eu peço desculpa, mas este maniqueísmo incomoda-me. Eu acredito no mercado livre, mas não gosto de viver na selva. E parece que não há quem represente este sentimento que, julgo eu, é comum a grande parte dos portugueses. Se à esquerda só há quem veja no Estado a solução para tudo, à direita parece que cada vez se gosta mais do salve-se quem puder. A verdade é que descobrir bom senso é hoje mais difícil que encontrar um taxista lavadinho.

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publicado às 10:46

A intelectual pornográfica

por Nuno Gonçalo Poças, em 29.09.16

Nos últimos dias, como forma de anunciar o Salão Erótico de Barcelona, foi posto a circular um vídeo que, neste momento, conta com mais de um milhão de visualizações e partilhas pelas redes sociais e pelos órgãos de comunicação social de vários países.

A RTP (que, não vá alguém esquecer-se, todos pagamos) partilhou o vídeo na rede e, através de um texto da jornalista Joana Martins, esclareceu que «num vídeo com 1:30 são referidas todas as incongruências do povo espanhol».

Curioso, fui ver o tal vídeo à espera de ficar pasmado com a coragem de quem denunciava «um País hipócrita». Ao longo dos tais noventa segundos, uma actriz pornográfica dá-nos a conhecer o País que temos aqui ao lado e que, não fosse ela, continuaríamos a desconhecer por completo. O texto é o seguinte: «Chamo-me Amarna Millner. Sou actriz pornográfica e nasci num País hipócrita, em que os que me chamam puta são os mesmo que se masturbam com os meus vídeos. Um país que ama a vida mas que permite que se mate em nome da arte. Um país indignado com a corrupção, mas que continua a votar em ladrões. Um país em que se salvam os mesmos bancos que desalojam milhares de famílias. Um país que se diz laico, mas que oferece medalhas a virgens. Um país que trata os que emigram como heróis e os imigrantes como lixo. Um país em que os que se supõem guardiães da moral podem ser os mais perigosos. Um país onde a prostituição não é legal, mas em que anualmente cresce o número de clientes. Um país que se crê aberto e tolerante, mas um árbitro recebe ameaças de morte por ser gay. Sim, vivemos num país asquerosamente hipócrita, mas não nos rendemos».

Como não ficar estarrecido? Não se pode afundar já Espanha? Como é que um País hipócrita ainda existe? Como é que o Boaventura Sousa Santos nunca se deu ao trabalho de resumir num vídeo tão curto as nossas hipocrisias, que são tão parecidas? Por que é que podíamos ter vídeos tão simples em que os intelectuais porno se manifestavam e andamos a ouvi-los diariamente nas televisões, a lê-los nos jornais e a estudá-los nas universidades? Por que é que a Armarna está vestida? Talvez porque a hipocrisia de Espanha, denunciada de forma tão corajosa por Armarna Miller (ou por quem a pôs a falar), não seja assim tão grande. Vejamos:

  1. «Nasci num País hipócrita, em que os que me chamam puta são os mesmos que se masturbam com os meus vídeos.» Nós também vivemos num País hipócrita. Querem ver? Os que chamam ‘atrasado mental’ a um concorrente da Casa dos Segredos são os mesmos que veem o programa. Os que chamam ‘cabrão’ a um incendiário são os mesmos que passam horas a assistir a incêndios em directo na televisão. Claro que é errado chamar nomes a uma actriz pornográfica. Mas a verdade é que os que se masturbam com os vídeos dela são quem, na verdade, lhe paga o salário. Que lhe chamem nomes é feio, sim. Mas se compararmos a quantidade de gente que chama ‘puta’ a actrizes porno com a que chama ‘mentirosos’ a advogados, percebemos que eu estou claramente em vantagem. E com o meu trabalho ninguém se masturba – julgo eu. Isto não é um País hipócrita, Armarna. É a vida. As pessoas chamam nomes umas às outras. É por isso que precisamos de leis. E de guardiães da moral, já agora.
  2. «Um país que ama a vida mas que permite que se mate em nome da arte.» A intelectualidade pornográfica acha hipócrita que as pessoas tenham mais apreço pela vida de um ser humano recém-nascido que pela de um touro. Não chego mesmo a perceber, pelo texto, se há algum problema em amar a vida ou se o problema é só com matar em nome da arte. A propósito, Armarna, sabes como se chama aquela enfermeira que teve ébola e que viu o Excalibur ser abatido?
  3. «Um país indignado com a corrupção, mas que continua a votar em ladrões.» É uma chatice, eu percebo. Mas o voto livre não é sinal de hipocrisia, Armarna. No limite, é sinal de ignorância ou de comodismo.
  4. «Um país que se diz laico, mas que oferece medalhas a virgens.» Eu contextualizo: Carolina Marín foi a primeira não-asiática a ganhar uma medalha de ouro em badminton. A proeza deu-se este ano, no Rio de Janeiro, e, no regresso a Espanha, a atleta foi a um Santuário, em Almonte, e ofereceu a medalha que tinha ganho à Virgem do Rocio. Armarna não gostou, porque Espanha é laica. Em primeiro lugar, é o Estado espanhol que é laico. Isto significa que o Estado e a Igreja são coisas diferentes, que não se confundem. Não significa que as pessoas que vivem nesse Estado tenham de ser ateias. Hipocrisia é dizer que um Estado é laico quando o que se quer dizer é que todos os religiosos (excepto, julgo eu, os muçulmanos) deviam estar pendurados com uma corda ao pescoço.
  5. «Um país que trata os que emigram como heróis e os imigrantes como lixo.» Vejamos a dimensão da hipocrisia espanhola: segundo o MIPEX de 2015 (o Índex de Políticas de Integração de Migrantes), Espanha é o 10.º melhor País a acolher imigrantes, à frente de países como a Holanda, o Luxemburgo, a Dinamarca, a Itália, o Reino Unido, a França, a Irlanda, a Áustria, a Grécia, a Suíça ou o Japão. Se isto é tratar os imigrantes como lixo, imagine-se a dimensão da hipocrisia na ancestral Holanda.
  6. «Um país em que os que se supõem guardiães da moral podem ser os mais perigosos.» A mensagem aqui é clara e não visa alertar para qualquer alegada hipocrisia: o que interessa é fazer passar a ideia de que os padres da Igreja Católica são pedófilos. Não é por acaso que é filmado um actor a abanar uma batina com as cuecas à mostra. Não se denuncia hipocrisia nenhuma. O que se faz é condenar uma religião pelos seus abusos, depois de o próprio Papa já ter lamentado os casos de pedofilia que ocorreram com membros da Igreja.
  7. «Um país que se crê aberto e tolerante, mas um árbitro recebe ameaças de morte por ser gay.» É verdade que um árbitro espanhol recebeu ameaças de morte por causa da sua homossexualidade. Também é verdade que a sociedade espanhola e estrangeira se uniu para defender o tal árbitro. O comportamento de uns é usado para fundamentar uma alegada hipocrisia de um país com mais de 46 milhões de habitantes.

Na verdade, o vídeo de Armarna Millner é mais que publicidade ao Salão Erótico. É campanha ideológica de relativismo moral e cultural, de ateísmo militante, de progressismo totalitário. A revista Sábado diz que a actriz porno «arrasou a hipocrisia da sociedade espanhola». Em Espanha já ninguém deve dormir, tal foi a dimensão do arraso.

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publicado às 17:37

Obrigado, Mortáguas

por Nuno Gonçalo Poças, em 22.09.16

Em 1961, Palma Inácio, Camilo Mortágua e outros personagens que a história rapidamente fez esquecer, desviavam o “Mouzinho de Albuquerque”, um avião da TAP que cumpria a rota Casablanca-Lisboa. O aparelho devia ter aterrado na capital perto das 11 horas, mas acabou por ser utilizado pelos piratas do ar para fazer distribuir mais de 100 mil panfletos revolucionários sobre várias cidades do País. O terrorismo aéreo fez escola em Portugal muito antes de Bin Laden.

No mesmo ano, o mesmo Camilo Mortágua, desta vez sob o comando de Henrique Galvão, tomou de assalto o paquete Santa Maria, onde viajavam 600 turistas a caminho de Miami, e desviou-o para o Brasil. A verdade é que a “Santa Liberdade” não olhava a meios para atingir os seus fins. A nobre missão fora preparada por Galvão e Humberto Delgado, o antigo apoiante da Alemanha nazi, antigo Procurador à Câmara Corporativa no Estado Novo e antigo Chefe da Missão Militar junto da NATO, nomeado por Salazar, nesta altura já mais preocupado em desviar navios.

Já em 1967, a dupla Palma Inácio e Camilo Mortágua (também com a companhia de mais umas personalidades que o tempo tem feito o favor de ignorar) resolveu assaltar a sucursal do Banco de Portugal na Figueira da Foz, de onde roubou mais de 29 milhões de escudos – qualquer coisa como 10 milhões de euros, a preços de hoje. Porque as revoluções não se fazem com filantropos.

Já depois do 25 de Abril, Camilo Mortágua liderou, com Wilson Filipe, a ocupação da Herdade da Torre Bela, a maior área agrícola murada do País. Desta ocupação resultou um documentário realizado pelo alemão Thomas Harlan, um cineasta de extrema-esquerda, que se deu ao trabalho de filmar o quotidiano da “revolução”, sumptuosamente instalado nos aposentos do Duque de Lafões, o real proprietário da Herdade. Graças a essas imagens, temos hoje a possibilidade de olhar para 1975 e perceber o que temos hoje.

Um oficial do Exército em revolução conferiu legalidade à ocupação e ao sonho de Mortágua e Wilson: «Eu acho que, de maneira nenhuma, podem estar ou devem estar à espera que legalmente saia um decreto a dizer que vocês podem ocupar. Vocês ocupam e a lei há-de vir, pá».

Para a história – muito graças às filmagens e à divulgação permitida pelas novas tecnologias – ficou um marcante episódio que envolveu Wilson Filipe e um trabalhador. O “revolucionário” explicava-lhe o caminho para a riqueza através do socialismo. O outro, mais inteligente, só via naquilo uma forma de esbulho e não abdicava da enxada.

A Herdade da Torre Bela era (e é) associada ao 1% da população portuguesa. Ocupar aquilo que era de tão poucos, e que tinham tanto, não tinha outro objectivo para além da redistribuição. O que era de tão poucos passaria a ser de todos. O Duque de Lafões estava a acumular em excesso, pelo que era necessário redistribuir pelos que pouco ou nada tinham.

Nenhuma daquela gente ficou menos pobre com a ocupação. Camilo Mortágua, em 1978, acabaria por aviar a trouxa e seguir a sua vida, reconhecendo o fracasso que fora a experiência. Não funcionou. O Duque de Lafões tinha ficado sem a Torre Bela; os ocupantes continuavam com o que tinham antes da ocupação. Camilo Mortágua, em 2005, afirmou ao Correio da Manhã que “não é possível fazer vingar uma experiência numa sociedade que caminha noutro sentido”. A experiência estava a vingar, a sociedade é que não estava a seguir a mesma linha. Mariana Mortágua, a filha do terrorista que a comunicação social continua a tratar como um “revolucionário romântico”, preocupa-se por estar “a dizer coisas que as pessoas não entendem”. Ninguém percebe os Mortágua. Nem mesmo quando se está a falar só de 1%. Dos ricos. Dessa gente que tudo tem. E que é preciso arruinar.

Recentemente, em 2011, Camilo Mortágua dizia ter “muito receio que à juventude de hoje não tenhamos sido capazes de transmitir a experiência do passado”. Como sempre, acredito que também aqui estava errado. Nós aprendemos com a experiência do passado. Tal como as gentes do passado aprenderam com essas experiências. O País, na sua grande maioria, percebeu que é a quem tem muito que se exige que contribua mais. Mas também percebeu que não se lhes deve exigir ao ponto de ficarmos sem eles, porque não ganhamos nada com isso. Percebemos que o roubo ao 1% significaria, mais tarde ou mais cedo, o roubo aos 99%. Até ao dia em que tudo fosse do Estado. Em que tudo fosse da Revolução – assim, com maiúscula.

Mariana Mortágua aprendeu com o pai. O resto do País também.

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publicado às 21:24

A moral e o dinheiro

por Nuno Gonçalo Poças, em 08.06.16

É verdade que a esquerda intelectual (perdoe-se a redundância) não gosta do capitalismo e odeia o lucro. Primeiro, porque são intelectuais e os intelectuais sabem mais que todas as outras pessoas juntas. O intelectual, ainda para mais de esquerda, sabe mais que um empresário, por exemplo. E sabe perfeitamente o que é melhor para cada um de nós. E o lucro é detestável, na medida em que a esquerda intelectual vê em tudo um conflito entre opressores e oprimidos, entre explorados e exploradores, e não consegue enquadrar determinados factos da realidade social. Para a esquerda, uma derrota nunca é uma derrota. A vitória de alguém é sempre conquistada graças a um roubo a outrem. É a transferência deste para aquele. O ganho de um é obrigatoriamente a perda de outro. Roger Scruton, em “As Vantagens do Pessimismo”, desconstrói esta argumentação melhor do que eu alguma vez faria, e Ludwig von Mises, em “Acção Humana”, mostra-nos o caminho.

Na economia de mercado, tudo aquilo que é comprado e vendido em termos de moeda tem o seu preço estabelecido em dinheiro. É natural que se consiga determina, monetariamente, quanto ganhou ou perdeu um indivíduo e tal não significa que isso tenha sido conquistado à custa de outro. Mais, esta constatação não nos permite avaliar o aumento ou a diminuição de satisfação dos indivíduos. De facto, lucro procuramos todos. Lucro financeiro, lucro social, lucro pessoal. O lucro não é perigoso. Pelo contrário, é o que nos move a todos. O lucro é, no fim de contas, a satisfação. Perigosa é a obsessão pelo lucro económico. A incapacidade de olhar a meios para atingir esse lucro. A sociedade ocidental tem os olhos postos no consumo, no dinheiro, no trabalho, na renda. O objectivo final é poder comprar e ter coisas. Para tanto, é preciso ter dinheiro. E para ter dinheiro é preciso trabalhar.

Não me interpretem mal. Eu gosto de ter coisas, gosto de ganhar dinheiro e gosto de trabalhar. Mas também me julgo capaz de viver com menos e de ter menos coisas, se viver com muito e ter muitas coisas me roubar coisas imateriais que considero essenciais. Não caio no erro de considerar que o dinheiro é dispensável, que o trabalho é todo igual ou que consumir é abominável. Mas acredito no bom senso e na modéstia.

A história é antiga, mas ouvi-a recentemente pela voz do P. Carlos Azevedo Mendes. Conta-se que um professor universitário levou para a sala de aula alguns objectos com os quais pretendia apresentar aos seus alunos uma experiência que se assemelhava à vida de cada um. Os objectos eram: pedras grandes, pedras pequenas, areia, água e uma garrafa de vidro com boca grande. No início da aula, colocou uma pedra grande dentro da garrafa e perguntou aos alunos se ainda cabiam mais. Face à resposta positiva, foi enchendo a garrafa com as pedras grandes até que não coubesse mais. Depois, foi deitando pedras pequenas e areia na garrafa, que lá cabiam nos intervalos das pedras grandes. No fim, despejou a água dentro da garrafa. Coube tudo. E perguntou aos alunos o que significava aquilo. Um aluno respondeu que há sempre tempo para tudo, mesmo quando achamos que temos tempo para mais, conseguimos sempre arranjar mais algum. E o professor esclareceu: o que lhes queria, de facto, demonstrar era que, na vida, algumas coisas devem ter prioridade; que se tivesse primeiro enchido a garrafa com água e depois com areia, já não restaria espaço para as pedras grandes ou, se restasse, a água transbordaria. E o leitor pergunta agora: e o trabalho? E o dinheiro? São água e areia. Se as nossas prioridades não forem o trabalho e o dinheiro, cabe tudo nas nossas vidas.

O que tem isto a ver com o capitalismo e o lucro? Tudo. O capitalismo e o lucro não têm nada de errado. Nada. Mas sem moral, sem dignidade e sem fecundidade, não há capitalismo algum. Fica só a selva.

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publicado às 18:00

Parem de tocar a sineta

por Nuno Gonçalo Poças, em 03.06.16

Um indignado é aquele que demonstra indignação, isto é, um sentimento de fúria ou desprezo provocado por algo considerado ofensivo, injusto ou incorrecto. Ao indignado, segundo as correntes regras de vida, responderá sempre uma desculpa, um baixar de olhos, uma mão a bater no peito em sinal de arrependimento. E, logo de seguida, nova indignação.

Uma pesquisa rápida no Google por "indignação e redes sociais" indica-nos, só em língua portuguesa, 508.000 resultados, maioritariamente vindos de ligações de páginas de media ou similares, o que exclui desde logo toda a densa floresta que são as redes sociais. Tudo serve para a indignação transformada em desporto nacional. Da cadela de Maria João Bastos a casos de violação no Brasil; das afirmações de José Cid sobre trasmontanos numa entrevista de paródia aos escritos de Henrique Raposo sobre algarvios ou alentejanos; de José Rodrigues dos Santos à Marta Melro, que desconheço quem seja, mas que foi ontem alvo de uma "onda de indignação nas redes sociais" por ter chamado "anjinho" a um animal e que hoje já se veio mostrar "de luto pelos humanos".

A indignação, no mar de informação em que vivemos, não conhece distinções. A indignação contra a morte de um animal de estimação pode ser tão ou mais dura que a indignação causada por uma violação. Vargas Llosa tem razão quando diz que desapareceu uma instituição que, no passado, cumpria uma importante função na vida cultural e política: a crítica. Nas redes sociais, acarinhadas por um jornalismo preguiçoso, não há valoração de informação, não há uma distinção clara entre o essencial e o secundário.

A imprensa podia estar a desempenhar esse papel, mas, indolentemente, não está. Os jornais, instrumentos fundamentais ao exercício das liberdades, estão a alimentar uma sociedade onde impera a censura, já não pela mão do Estado, mas pela mão de cidadãos ávidos por um escândalo, desejosos de ter algo que defender com unhas e dentes, pouco tolerantes a opiniões diferentes. Pouco tolerantes, até, ao humor. Porque o humor ofende – e nós não temos capacidade para tolerar a ofensa – e a liberdade tem limites – e nós temos os nossos limites cada vez mais apertados.

Pavlov treinou cães para que estes salivassem sem comida por perto. Sempre que os cães eram alimentados, Pavlov tocava uma sineta. Com o tempo, os cães passaram a salivar só de ouvir a sineta, mesmo não tendo comida. Naturalmente, isto não significaria que os cães salivassem eternamente sempre que ouvissem uma sineta – o reflexo não é infinito. O que nós estamos a precisar, neste momento, é que parem de tocar a nossa sineta.

 

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publicado às 15:30

Prevenir pelo exemplo

por Nuno Gonçalo Poças, em 27.05.16

Segundo o Relatório Anual de Segurança Interna, mais de 26.700 pessoas foram vítimas de violência doméstica em 2015. Nesse contexto, foram assassinadas 29 mulheres. Um estudo da União de Mulheres Alternativa e Resposta concluiu que mais de um quarto dos jovens considera normal a violência psicológica, cerca de um terço dos rapazes julga legítimo pressionar a companheira a ter relações sexuais e um número diminuto mas revelador entende que o recurso à violência física é natural, desde que não deixe marcas.

Estes números não são de hoje, os estudos não são da semana passada, as mulheres não foram assassinadas ontem, nem esta crónica vem sequer no seguimento daquele programa televisivo em que a Deputada Catarina Martins foi filmada a tentar proteger uma fictícia vítima de violência no namoro. Nem mesmo apesar desse programa o tema está na ordem do dia. Mas devia.

Ainda somos o País onde se acha que "ela estava a pedi-las", que "o coitado estava com os copos" ou que "ele não é violento, tem só um feitio especial e é um bocadinho ciumento". É muito aquela coisa da "coutada do macho ibérico", legitimada por um tribunal há uns anos. Ainda temos tendência para desculpar a violência. Para arranjar desculpas "sociológicas" para a bordoada.

Não sei se há – ou se pode sequer haver – algum lado politicamente correcto neste assunto. É verdade que o recurso a expressões como “femicídio” me parece ligeiramente absurdo, sim. Mas não é politicamente correcto dizer que as mulheres são as principais vítimas de violência doméstica. É verdade. A mais pura das verdades. Mais absurdo que utilizar a expressão “femicídio” é vir reivindicar para os homens uma igualdade que, nesta matéria em concreto, não existe. Elas são mais vítimas que nós, ponto final.

Também não sei se vale sequer a pena teorizar sobre as raízes do mal ou tentar associar este tipo de comportamentos a determinado grau de escolaridade, a certo nível de literacia ou a problemas geracionais. Não creio mesmo que valha a pena. Afirmar que a violência doméstica é uma realidade rural é contrariar os dados – o maior número de vítimas é proveniente da Área Metropolitana de Lisboa. Também não é uma realidade directamente relacionada com o alcoolismo ou com parcos rendimentos. Será, talvez, uma realidade histórica, no caso das vítimas mais velhas, de domínio do macho sobre a fêmea equiparada a coisa móvel; será, também talvez, uma realidade de uma nova geração habituada a reivindicar direitos e que não conhece o respeito, a responsabilidade e o cavalheirismo. Não sei. Há quem diga que o cavalheirismo é coisa do passado. Mas os do passado também se prestam à pancada.

Parece-me, enfim, desnecessário (tentar) teorizar sobre as causas do fenómeno. Mais importante será educar os que já vieram ao mundo e aqueles que estão para vir. Ensinar-lhes o valor do respeito pelos mais velhos, da cordialidade e do bom senso. Explicar a quem ainda pode aprender que os homens e as mulheres se respeitam. E ter especial atenção com os rapazes. Os novos pais deviam ensinar, através do exemplo, que a mãe, a avó, as tias, as sobrinhas, se tratam com respeito e amor. Mesmo que elas sejam umas chatas – ou, aqui e ali, umas bestas. É também por aqui que se previne a violência doméstica. Pela estabilidade familiar, pelo amor fraternal entre marido e mulher, pelo exemplo que os filhos vêem em casa. Um filho que aprende em casa, com o pai, como se trata uma mulher, dificilmente será um agressor no futuro. Um filho que vê no pai um exemplo de dedicação e de respeito para com a sua própria mãe, seguirá esse exemplo. É só preciso que os pais tratem as suas mulheres da forma como elas merecem ser tratadas: com a certeza absoluta de que elas são, na maioria dos casos, melhores que nós em tudo, com a excepção que a abertura de frascos constitui.

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publicado às 18:24

Saloiaria

por Nuno Gonçalo Poças, em 20.05.16

Viver já não é aquilo que deve ser. Não é um prazer ou uma tristeza. Não é um conjunto de experiências quotidianas, de alegrias e de privações, de sabores e de emoções. Não. Viver agora é seguir o lifestyle. Sair do trabalho e, em vez de mudar de roupa, trocar o outfit de casual friday por um workout e correr para os braços do personal trainer que nos espera no health club. Transpirar muito numa aula de crossfit, de TRX ou num bootcamp - aquelas coisas que antigamente os rapazes faziam enquanto cumpriam serviço militar - por umas dezenas de euros mensais. Para relaxar, o melhor é deixar de comer iogurtes e passar a comer froyos. Poupamo-nos ao slunch, que já foi um lanche ajantarado, para termos mais fome no dia a seguir à hora do brunch, que já foi um pequeno-almoço reforçado. Os outfits, esses, vão mudando à medida das exigências do dress code. É aí que percebemos que o black tie, o vintage cool, o garden chic, o hippe chic e o casual chic - que não é o mesmo que o outfit de casual friday - nos deixam dúvidas. O melhor é optar por um mix. Fazer uma daquelas coisas que toda a gente sempre fez (misturar peças mais caras com outras mais baratas) e explicar ao mundo que se fez um chiquíssimo high-low. Depois o melhor é não ir a terraços, mas a um terrace ou a um rooftop e aproveitar aquela sunset party ou aquela gin sunset party num ambiente chill out, para não maçar. Enquanto não se janta, vai-se a um winebar ter um chat com outros winelovers. Depois há que experimentar uma hamburgueria, uma pregaria, uma bifanaria ou uma outra qualquer porcaria. Se não houver healthfood, bom, bom, é ir ter uma experiência de livecooking ou de foodporn. E passar o fim-de-semana num charm hotel. Ou pagar duzentos euros por noite para ter a fantástica experiência – antigamente exclusiva de sem-abrigos e agora mais democratizada e cara – que é dormir ao relento. Com tudo isto, gastar um salário. Comprar experiências, para viver o que não se vive genuinamente. E usar a rede social mais próxima para fazer dela uma revista cor-de-rosa democratizada. Onde todas as vidas sorriem. Onde todos são felizes. E modernos. E fashion. E trendy. Não, meus caros, nós não somos mais cosmopolitas do que os nossos pais que vieram para Lisboa directamente do sopé da serra. Podemos ter viajado mais, podemos ter estudado mais, podemos saber mais coisas que eles. Mas não estamos a inventar nada. Estamos só a dar um ar novo a um mar de coisas que existem há décadas. E isto não é nada fantástico. Não é amazing, nem top. É, no máximo, um novo-riquismo desavergonhado, passe o pleonasmo. Uma saloiice que já não usa lenço na cabeça mas que é, ainda assim, uma saloiice.

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publicado às 14:53

O mexilhão a caminho do socialismo

por Nuno Gonçalo Poças, em 11.05.16

Imagine-se que um particular abre uma escola numa área geográfica onde o Estado não tem nenhuma escola. Como não havia oferta estatal, o Estado financiava essa escola privada de forma a que os alunos sem condições económicas a pudessem frequentar. Esta escola, propriedade de um privado, não seria, na verdade, menos que uma verdadeira escola pública, isto é, que presta serviço público, sob propriedade e gestão privadas. E isto, na República Portuguesa a caminho da sociedade socialista, é impensável.

Imagine-se, então, que o Estado, face a esta loucura que é ter um privado a prestar serviço público, resolve multiplicar o esforço dos contribuintes e ordena a construção de uma escola do Estado na mesma zona. Multiplica-se, assim, ainda mais o esforço de quem paga impostos, na medida em que, além do custo da construção, acresce a despesa com salários e com custos de manutenção do edifício. E o Estado, sempre a caminho do socialismo, enceta uma luta contra o particular que ali investiu e que se encontrava a prestar serviço público.

Imagine-se agora que as populações daquela localidade preferiam a escola particular à escola estatal. De um lado, um plano curricular atractivo, uma série de actividades extracurriculares, melhores condições, melhores professores, melhores contínuos.

Aquilo a que estamos a assistir é a uma guerra ideológica contra o privado, levada a cabo, por um lado, por dirigentes partidários e governantes cujos filhos estudam no ensino particular, e, por outro lado, por dirigentes sindicais que vêem a sua esfera de poder atacada com a existência de escolas com contrato de associação. Significa isto que o debate a que estamos a assistir reduz-se a isto: quem manda no Ministério da Educação é a FENPROF (e é assim há décadas) e o ódio ao privado vem daqueles que, recorrendo ao privado, são incapazes de aceitar que um qualquer cidadão, sem capacidades económicas, possa recorrer ao mesmo privado.

Não temos de imaginar nada, porque os factos são claros. Este país a-caminho-do-socialismo, sempre refém dos sindicatos e do seu poder, é incapaz de aceitar a prestação de serviço público por privados, ainda que essa prestação de serviço público se revele mais barata para o contribuinte, se mostre mais apta a satisfazer as necessidades das famílias e dos alunos, se exiba mais livre de grupos de pressão, focando-se naquilo que é realmente mais importante: a satisfação das necessidades das pessoas.

Com este Governo é assim em tudo. O consumidor perde sempre para o reforço dos grupos de pressão. Perde para os táxis, a quem o Governo ofereceu 17 milhões de euros dos contribuintes; perde para a FENPROF, a quem o Governo se prepara para oferecer um exercício de poder mais alargado. O consumidor perde sempre.

Se ao anterior Governo se apontava a falha de favorecer os grandes grupos económicos, é tempo de apontar a este Governo a falha de favorecer os grandes, médios e pequenos grupos de poder. E, como se sabe na Soeiro Pereira Gomes, no Rato e na cabeça de Catarina Martins, o poder vale muito mais que o dinheiro.

A guerra ideológica a que estamos a assistir não é mais do que isto: favorecer grupos de poder contra os direitos do consumidor e contra a prestação do serviço público de forma não centralizada. Pelo caminho, uns ferros na Igreja Católica – como não podia deixar de ser. Do outro lado da barricada, claro, fica sempre o mexilhão.

 

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publicado às 16:09

Solteiros e bons rapazes

por Nuno Gonçalo Poças, em 05.05.16

É vê-los, do Saldanha à Avenida da Liberdade. Uma massa uniformizada de proletários de fato e gravata, de sapatos compensados e blazer, barbas aparadas, cabelos arranjados, que entra nas consultoras e nas sociedades, de smartphone em punho, fazendo rolar o ecrã com os polegares, de auscultadores nos ouvidos. Trabalham de manhã, almoçam nos restaurantes ou nos doentios centros comerciais da zona, trabalham à tarde, jantam nos mesmos centros comerciais, trabalham à noite, saem tarde, esgotados, bebem um copo com os amigos, publicam fotografias nas redes sociais. No dia seguinte tudo se repete. Quem quer sair às seis da tarde, pede autorização ao superior hierárquico com uma semana de antecedência – mesmo sabendo que essa autorização pode ser alterada em cima da hora. Não há motivos que os façam não trabalhar. O trabalho é essencial. Vem sempre primeiro.

Tens a tua mãe doente? Sim, está muito bem, mas como não és médico tens aqui um prazo urgentíssimo, que já devia estar feito há dias, se o trabalho fosse devidamente organizado, e que vais ter de ficar a despachar até à meia-noite. O teu irmão casa-se amanhã? Pois, então que seja muito feliz, mas como quem se casa não és tu, tens de vir trabalhar amanhã, porque temos aqui um closing muito urgente e tu és indispensável. Ai amanhã é sábado? Pois, pá, mas isto o trabalho não conhece dias da semana. É no trabalho que uma pessoa se realiza, pá. O teu irmão que não fosse um imbecil – não se casasse, tivesse ido trabalhar. A tua mulher está a ter o vosso primeiro filho? Sim, claro, os filhos são uma grande coisa, claro, mas tens de sair imediatamente do hospital e vir para o escritório, que estamos aqui aflitos com uma coisa muito mais urgente. O quê, a tua mulher está em casa com um recém-nascido e a empresa não lhe está a pagar salário? Isto realmente há gente má no mundo. Ainda bem que nós te damos a oportunidade de trabalhar nesta fantástica empresa, rapaz, onde podes trabalhar umas parcas 12 horas por dia e onde ainda te damos o privilégio de levar trabalho para casa, para que possas chegar ao teu sofá à uma da madrugada e responder a emails. O que seria de ti sem nós. Alguém tem de pagar contas, não é, filho? Não te sentes feliz com esta oportunidade que te demos de gozar dois dias de licença de paternidade? Pudeste trabalhar em casa, descansado. Isto é um favor que te fazemos, rapaz, tudo por um bom salário, por bons prémios que te vamos dar, pela progressão idílica que estás a ter nesta empresa. Precisas de sair mais cedo porque o teu filho está doente? Mas tu queres uma mulher para quê, afinal? Podias ter uma vida muito melhor se não te tivesses casado. Se não tivesses filhos. Agora que tens filhos e mulher, para que raio queres tu ir para casa com um filho doente? Para cuidar dele? Casasses melhor. E tu, mulher que se queria evoluída, por que diabo me pedes tu férias quando te demos o privilégio de ficar três meses em casa a ganhar 50% do salário e a trabalhar todos os dias, logo depois do parto? Para que raio engravidaste tu, mulher do século passado?

Enquanto houver, numa grande parte do tecido empresarial urbano, a apologia dos solteiros – que não engravidam, que não têm compromissos pessoais que não possam desmarcar, que não casam, que não descansam; enquanto houver, numa grande parte do tecido proletário-chique das grandes cidades, a aceitação desse paradigma; enquanto houver gente que aceita ficar no trabalho até às oito da noite, quando está a ler jornais desde as seis, porque “é mesmo assim”; enquanto houver gente que acha que o trabalho é a única coisa que as realiza pessoalmente; enquanto houver gente que só encontra felicidade, para lá do trabalho, em fotografias de paisagens ou de pratos de comida que possa publicar nas redes sociais; enquanto houver situações profissionais híbridas, entre o contrato de trabalho e a profissão liberal, que não conferem nem liberdade, nem regras; enquanto houver tudo isto, não há políticas de natalidade que nos valham.

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publicado às 14:50

Quando chegares à Velha Europa, amor

por Nuno Gonçalo Poças, em 28.04.16

Praga, Abril de 2016. Uma das cidades europeias que menos danos sofreu durante as duas Guerras Mundiais, grande centro cultural do Velho Continente, terra de Kafka e de Dvorák, postal de arquitectura conservadora, resiste imóvel e impávida ao frio primaveril e ao vento que sopra forte nos edifícios. Os turistas passeiam, fotografam o relógio astronómico sem especiais cuidados com carteiristas, insignificantes delinquentes num País que vive a paz e o cosmopolitismo europeu. De repente, um quiosque improvisado ostenta bandeiras da Ucrânia e da NATO, caricaturas de Vladimir Putin e frases que são bombas-relógio. "Putin, hands off Ukraine". "Putin is the Devil". Os rostos dos manifestantes não são pacíficos. O Secretário-Geral da NATO, depois de reunir com representantes da Rússia, anunciava o caminho feliz das negociações: há esperança num futuro pacífico. Nas ruas da Europa Central, fora dos circuitos turísticos, sente-se o contrário. Sente-se o fio de pólvora. E da paz podre.

Enquanto os líderes europeus negoceiam, os povos falam como podem. Como em 1991. Há 25 anos, enquanto os líderes da Europa comunitária se sentavam para elaborar o Tratado de Maastricht, rebentava a luta pela independência na Eslovénia e na Croácia. E o Tratado que anunciava paz e prosperidade para todo o sempre na Europa acabaria por ser assinado no ano seguinte, de braço dado com o início da guerra na Bósnia. Passados 25 anos, a União Europeia não tem mãos a medir com tantas crises. A moeda única, os refugiados, a Síria, a Ucrânia e a omnipresente Rússia, a quem o Velho Continente ofereceu um gás metafórico em 2008, na Geórgia. A união da União, por outro lado, vai sendo ameaçada pelo Reino Unido, mas permanece. Mas Espanha tem a Catalunha. E a Bélgica, pacemaker das Comunidades, vive permanentemente sob a ameaça da secessão. A unidade europeia assegura-se pelo paradoxo que é ter medo do passado e amnésia.

A União Europeia, Nobel da Paz em 2012, anuncia-se como o garante da paz e da estabilidade no Continente, um papel assumido desde 1992, conquistado graças à queda da União Soviética e ao desinteresse americano, e perdido em 2008, graças aos conflitos na Ossétia do Sul e à crise financeira internacional. E os europeus do pós-Segunda Guerra, em negação, vão acreditando na resolução dos problemas. No regresso do crescimento económico, na resolução dos conflitos militares e migratórios que temos por temporários. E continuam a fingir que a Alemanha tem capacidade para manter a União.

Em 2016, em Praga como em Kiev ou em Sarajevo, a Europa aquece, num lume brando que nos vai fazendo ferver. Até ao dia em que Franz Ferdinand deixe de ser só uma banda charmosa de escoceses para passar a ser o nome do arquiduque assassinado em 1914 que devemos relembrar. Até ao dia em que a Alemanha entre na sua própria crise económica. Até ao dia em que os conflitos internos dos Estados-membros se tornem mais do que referendos. Até lá, Barack Obama vai pedindo à Europa que permaneça "forte e unida", como um tonto pede a um careca que se penteie.

Quando chegares à Velha Europa, amor, tira uma foto com um bom compositor, como na canção. É o que podemos ir fazendo para manter as aparências.

 

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publicado às 16:10

Para lá do canal do Panamá

por Nuno Gonçalo Poças, em 08.04.16

Alguns sectores liberais foram rápidos a criticar a existência de infernos fiscais para justificar a honestidade de quem recorre a offshores para não pagar impostos. Mas não, a história dos papéis do Panamá não é a simples demonstração de que se cobram demasiados impostos em determinados países. Claro que há gente que legitimamente leva o seu dinheiro para paraísos fiscais porque, de facto, nos seus países se cobram impostos absurdamente elevados. É óbvio que a competitividade fiscal se conquista e que o capital só permanece se a percentagem dos rendimentos cobrada pelo Estado for razoável - isto é, baixa. É nessa medida que só há paraísos fiscais por comparação. A Holanda ou a Suiça, por exemplo, são paraísos fiscais em comparação com Portugal. Não precisamos de ir para ilhas de areia branca e mar transparente para descobrir paraísos fiscais. Onde há impostos baixos há mais liberdade, há mais respeito pela propriedade privada, há mais investimento, há maior capacidade de gerar riqueza, há mais igualdade de oportunidades, há mais elevador social. Isto não é condenável. Querer não perder rendimento é racional e legítimo. Mas esse é só o lado claro do "Panama Papers". Existem lados negros que não podem ser ignorados. E se não percebemos que esses lados negros existem, então é sinal de que o capitalismo é um sistema moralmente falido. E que quem ganhará com isso serão precisamente os seus adversários. É por isso que é urgente recentrar o capitalismo, recuperar padrões morais dentro de um quadro de economia de mercado.

Em primeiro lugar, a opacidade e o obscurantismo dos offshores não se justificam com a existência de infernos fiscais. Os impostos elevados e injustos não se resolvem com sociedades veículo, com directores fiduciários, com esquemas pouco claros e transparentes elaborados na penumbra e nas zonas cinzentas do Direito.

Em segundo lugar, aquilo que se vai percebendo é que esta zona de ninguém jurídica serve, em grande medida, para processos de lavagem de dinheiro, de branqueamento de capitais, de saneamento de casos de corrupção, de fraude, de tráfico de estupefacientes e de armas. Há de tudo. Desde o sentimento egoísta mais positivo, que é o de não perder rendimentos, à simples lavagem de rendimentos obtidos de forma ilícita, há de tudo. Mas a argumentação que purifica o offshore não é compatível com a sobrevivência de um capitalismo transparente, legítimo e que ainda é a única forma de assegurar condições de bem-estar social a uma grande maioria da população mundial.

Em terceiro lugar, existe também nesta história um problema de disparidade de rendimentos. A argumentação que purifica o offshore é a mesma que desculpa a desigualdade absurda de salários. Alguns sectores têm santificado os salários milionários de presidentes de grandes empresas com o fundamento mais simples de que essas empresas são privadas, que a responsabilidade dos seus CEO é muito grande, que a margem de lucros potencia e dá cobertura moral ao facto de o CEO auferir anualmente milhões de euros enquanto os seus trabalhadores ganham pouco mais que o salário mínimo. Este argumento roça a racionalidade. Mas aprofunda o sentimento de injustiça, fomenta a luta de classes, gera ódios sociais. A sensação, na maioria das populações do mundo capitalista, é a de que não existe de facto igualdade de direitos. E esta desigualdade é sentida também quanto ao mundo dos offshores. O trabalhador do salário mínimo não sente, legitimamente, qualquer igualdade de direitos, quando o dono da sua empresa ganha milhões de vezes mais o seu salário e que coloca esse rendimento fora da alçada do Estado e da máquina fiscal a que o trabalhador não consegue escapar. Também é por aqui que o capitalismo morre. Porque as pessoas podem começar a preferir o Estado à liberdade. Sobretudo quando a liberdade é exercida desta forma.

Se o socialismo julga que os homens são iguais nas suas necessidades e que, por isso mesmo, tudo lhes deve ser concedido na exacta medida das suas necessidades (o que, na verdade e segundo os casos conhecidos, acaba sempre em cenários de miséria generalizada), o liberalismo puro julga-os iguais em direitos. É disto que se trata, no fundo. E é verdade que os homens devem ser iguais em direitos e em oportunidades de forma a que tenham todos os mesmos meios de ascender social e materialmente. Mas esta igualdade e esta ascensão precisam de um centro moral. Se as escolhas devem ser feitas pelos indivíduos e não pelo Estado, na medida em que são os indivíduos que determinam mais acertadamente o que é melhor para as suas próprias vidas, não se descure que essas escolhas devem ser pautadas por padrões morais. O homem já egoísta por natureza. É esse egoísmo que nos permite alcançar uma série de resultados positivos na nossa vida. Mas querer transformar esse egoísmo natural no padrão (a)moral que prevalece é que me parece profundamente errado. O capitalismo salva-se por aí. Não é pela anarquia, pelo salve-se quem puder. É pela moralização do dinheiro. Pela transparência. E, acima de tudo, por uma direita política que defenda as liberdades, o capitalismo e o mercado, mas que também se bata pela moral, pela transparência e que defenda uma coisa tão simples: só porque se pode fazer, não quer dizer que seja legítimo.

 

 

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publicado às 11:20

Em linha recta

por Nuno Gonçalo Poças, em 31.03.16

Vargas Llosa, em ‘A civilização do espectáculo’, diz que Tolstoi, Joyce e Faulkner escreviam livros que pretendiam derrotar a morte, que sobrevivessem a eles próprios, ao passo que as telenovelas brasileiras, os filmes de Hollywood ou os espectáculos da Shakira não pretendem durar mais que o tempo da sua apresentação. Desaparecem, dão lugar a outros produtos de enorme sucesso e efemeridade. Para Llosa, hoje a cultura é diversão, e o que não é divertido não é cultura. Mas, décadas antes, já T. S. Eliot nos falava dos ‘homens ocos’ (“We are the hollow men / We are the stuffed men / Leaning together / Headpiece filled with straw”), na sequência da sua ‘Canção de Amor de J. Alfred Prufrock’, em que um mundo de homens sem personalidade e sem pujança se rendia ao niilismo, abandonava a vida interior e se refugiava no conforto da estética, da aparência e da mansidão ideológica. Eliot escreveu entre guerras mundiais, entre ameaças de comunismo e de nazismo e de aristocracias moribundas. Llosa escreve no tempo das redes sociais, entre ameaças de novos extremismos e de conflitos entre civilizações.

Trazer o contexto de Eliot para um texto que pretendia abordar a perspectiva de Llosa é evitar o saudosismo. Não, não era antigamente que era bom. Mas é nos tempos em que o homem tem medo do tédio, da história, da fé, da morte e do imperfeito que nos devemos preocupar. Para Llosa, a cultura é uma espécie de consciência que impede o voltar de costas à realidade, que hoje funciona como mero fenómeno de distracção e entretenimento. Partindo do pressuposto de que o homem tem uma tendência natural para se divertir, para ocupar o seu tempo, o que Llosa critica é a transformação desta tendência num bem supremo da civilização.

Esta cultura de entretenimento estabeleceu o critério do preço em detrimento do valor, do comercial em detrimento do simbólico. Transformou-nos em turistas perfeitos, potenciados pelas redes sociais. Entretemo-nos. Filmamos e fotografamos para partilhar, para que vejam que nós vimos. O tecto da Capela Sistina tem o valor de um parque de diversões porque o preço é semelhante. É entretenimento. E sorrimos para as fotografias, já não porque a fotografia é uma raridade, mas porque os outros nos vão ver nas fotografias. E o turista perfeito sorri. Está aparentemente feliz.

Enquanto esta civilização niilista, cínica, gerada na ressaca de um conflito mundial, se entretém, vai-se deparando também com novas realidades, com novas ameaças de conflitos. E vai lendo os tabloides, na esperança de que algo mais a entretenha. Um atentado, um suicídio, um escândalo de corrupção. Talvez Foucault tivesse razão quando dizia que as civilizações sempre foram movidas, umas vezes mais e outras menos, por uma pulsão de morte e de sangue. Talvez. Hoje, que somos nós as vítimas dessa pulsão, vinda de outros, estamos só a entreter-nos. A tirar auto-retratos enquanto as paredes da nossa vida e do nosso mundo vão criando fissuras. Sem saber o que fazer. Mas aparentemente felizes. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”, como no 'Poema em linha recta' de Fernando Pessoa. Julgo que é isto. Não, antigamente não era bom. Mas futuramente pode ser pior.

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publicado às 12:38

Tanto para tão pouco

por Nuno Gonçalo Poças, em 24.03.16

O problema dos consensos, em Durkheim, apontava a necessidade de crenças comuns por parte da sociedade ocidental, numa fase em que se acreditava que a religião já não seria capaz de as proporcionar. Os construtores do projecto federal europeu acreditaram, muito mais tarde, que essa crença comum seria o caminho de paz e de prosperidade que Maastricht prometia. A cidadania europeia daria corpo a essa crença comum. A verdade é que essa construção falhou desde sempre, na medida em que a cidadania europeia, enquanto conceito colectivo e mecanismo de construção de um povo uno, falhou. Os povos recusaram sempre alcançar uma crença comum maior do que a liberdade mínima de circulação de pessoas, bens e capitais. Recusou a Dinamarca, por referendo. Recusaram os britânicos, umas vezes mais, outras menos. De uma forma ou de outra, os eleitorados da Grécia, da Alemanha, da Hungria, de França, de Espanha também a vão recusando. A própria União Europeia esforçou-se por fomentar este cepticismo, nomeando Governos ilegítimos em Itália ou no Chipre. Falharam todos. O que finalmente uniu os europeus em torno de um projecto comum foi o terrorismo islâmico. O terrorismo que foi existindo na Europa ao longo do século XX não foi um terrorismo contra europeus. Foram vários tipos de terrorismo, fenómenos de análise individualizada, na Irlanda, em Espanha, em Itália. Este novo terrorismo, que é praticado contra um modo de vida, contra uma cultura, é que nos veio unir. Porque o medo, que é real, será sempre mais forte que quaisquer utopias. O problema agora é que parece não haver ninguém que nos socorra.

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publicado às 09:45






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