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Impressão de ano

por Regina da Cruz, em 31.12.13

Olharei para 2013 por cima do ombro - "Que queres de mim? Conheço-te?"

 

Não sei o que dizer deste ano, é uma grande mancha, uma nódoa de fronteira irregular.
Os picos de felicidade que vivi facilmente se dissolvem quando integrados no contexto geral. E foi, no geral, um ano terrível.
É impossível saborear uma vitória pessoal, o sucesso, quando à volta reina a confusão, a pobreza, a revolta silenciada, o desespero resignado, a ignorância, o embrutecimento. Quando ligamos a TV chovem disparates. Quando abrimos o jornal salta à vista propaganda e mentiras. Desinformação e superficialidade, um chorrilho de meias-verdades e clichés. Que nojo!

Olhamos para o mundo e há países a saírem-se tão bem e outros, tão mal. Por ignorância, por pura ignorância bruta.

Todos os dias que passaram vi ser-me roubada uma parte do meu salário, uma parte da minha liberdade, uma parte da minha energia, uma parte da minha ambição, uma parte dos meus sonhos. Que futuro? Que futuro, quando todos partem?! Para quem ando eu, afinal, a trabalhar? Dizem-me que o que me retiram da boca é para o estado social… Pergunto: que "social"? Que social?! Não há social nenhum aqui, há emigração em massa, há desagregação, há separação, há destruição. E velhice, muita. Fiquei também por eles, pelos velhos - que será deles se todos, os novos, partirmos? Portugal, esse lar à beira-mar plantado. É bem sabido que este país não é para novos, nem para ninguém que tenha sangue vivo na guelra! Mas também é verdade que é hostil para os velhos, pelo menos, para alguns velhos, os reformados, principalmente aqueles reformados de uma vida de trabalho "privado". Ficou claro ao longo deste ano que há velhos de primeira e velhos de quinta. Os de quinta, quem se importa com eles?

"Concentra-te no presente pois é tudo o que há." Repeti vezes sem conta o mantra sábio, em surdina, como auto-lavagem cerebral. Meditei. Não chegou. Caminhei. Não chegou. Vagueei, deambulei, abandonei-me. Não chegou. Corri. Corri ainda mais. Corri tanto que fugi! Fugi muito este ano que passou, não fiz outra coisa que não fosse fugir, para a frente, sempre para a frente, um dia de cada vez, na impossibilidade de serem dois. Rápido!

Tive saúde, é verdade, e agradeço. Afinal, aquela coisa de que me ria "a saudinha, para si e para os seus!" é a melhor coisa que me podem desejar - faz sentido e dou por mim a desejar "saúde!" aos que amo: digo-o com autenticidade, com solenidade, olhos-nos-olhos.

2013… o ano da confusão, da dissolução. Pela primeira vez, que me lembre, não soube o que pensar, fiquei baralhada várias vezes, a clareza lendária do meu raciocínio deu o tilt em várias situações. Na impossibilidade de raciocinar, vociferei:

"Está tudo louco!"
"Perdeu-se a vergonha na cara!" - que provavelmente nunca se teve…
"Perdeu-se a razão!"
"Perdeu-se a noção do ridículo!"

"Eu desisto."


E fugi novamente, desliguei, não quis saber. Não adianta, para quê saber? Saber é sofrer.

Tenho consciência que estamos a viver um período de transição e por isso é normal estarmos enterrados até ao pescoço nesta lama. Esta lama é "normal".

O meu desejo para os próximos anos é que se saia desta lama e se pise terreno fértil. O meu receio é que o país saia da lama para pisar o deserto. E com a quantidade de gente destrutiva, ignorante e egoísta que este país tem em lugares de poder algo me diz que após a lama virá a areia. Será necessário uma grande mudança de mentalidade dos governantes e dos cidadãos para que ideias novas possam florescer neste terreno agora lamacento. Que sejam deitadas à terra as sementes da mudança e que se protejam os rebentos novos das pragas e parasitas, desses predadores que vivem da estagnação, da confusão e da destruição. Que se regenere esta terra para que um dia possamos reaver aqueles que agora partem rumo a países amigos de ideias boas, países que os abraçam e lhes enchem os corações de esperança e os olhos, de futuro. Um dia esse país será Portugal. Tem de ser!

Vai-te embora 2013 e leva contigo os que te tornaram tão desprezível.



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publicado às 15:43

Estudo social de Portugal

por Regina da Cruz, em 19.10.13

Portugal, não tendo princípios, ou não tendo fé nos seus princípios, não pode propriamente ter costumes.

 

Fomos outrora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: e fizemos muitas revoluções para sair dela. Ficámos exactamente em condições idênticas. O caldo da portaria não acabou. Não é já como outrora uma multidão pitoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros, que o vai buscar alegremente, ao meio-dia, cantando o Bendito; é uma classe inteira que vive dele, de chapéu alto e paletó.


Este caldo é o Estado. Toda a Nação vive do Estado. Logo desde os primeiros exames no liceu, a mocidade vê nele o seu repouso e a garantia do seu futuro. A classe eclesiástica já não é recrutada pelo impulso de uma crença; é uma multidão desocupada que quer viver à custa do Estado. A vida militar não é uma carreira; é uma ociosidade organizada por conta do Estado. Os proprietários procuram viver à custa do Estado, vindo ser deputados a 2$500 réis por dia. A própria indústria faz-se proteccionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive também do Estado. A ciência depende do Estado. O Estado é a esperança das famílias pobres e das casas arruinadas. Ora como o Estado, pobre, paga pobremente, e ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a indústria ou para o comércio, esta situação perpetua-se de pais a filhos como uma fatalidade.


Resulta uma pobreza geral. Com o seu ordenado ninguém pode acumular, poucos se podem equilibrar. Daí o recurso perpétuo para a agiotagem; e a dívida, a letra protestada, como elementos regulares da vida. Por outro lado o comércio sofre desta pobreza da burocracia, e fica ele mesmo na alternativa de recorrer também ao Estado ou de cair no proletariado. A agricultura, sem recursos, sem progresso, não sabendo fazer valer a terra, arqueja à beira da pobreza e termina sempre recorrendo ao Estado.
Tudo é pobre: a preocupação de todos é o pão de cada dia.
Esta pobreza geral produz um aviltamento na dignidade.

 

Todos vivem na dependência: nunca temos por isso a atitude da nossa consciência, temos a atitude do nosso interesse.

 

in O primitivo prólogo das Farpas. – Estudo social de Portugal em 1871

Eça de Queiróz

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publicado às 12:48

Finalmente, uma Troika que nos enriquece!

por Regina da Cruz, em 15.10.13

Para variar.

 

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publicado às 22:26

Era muito pior

por Regina da Cruz, em 15.10.13

...se tivessem surgido incompreensões ao nível da cópula.

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publicado às 21:24

Do passado que não sabemos

por Regina da Cruz, em 12.10.13

Tenho mergulhado no passado recente português e é impressionante a quantidade de personalidades que tenho conhecido e das quais apenas muito leve e vagamente ouvi falar. É como se eu desconhecesse por completo os avós e bisavós do pensamento contemporâneo português. É um fosso abismal! Estou deveras impressionada com a minha ignorância - embora não devesse.

 

Como podemos compreender e pensar Portugal no presente e dar-lhe um rumo de futuro se tão pouco sabemos do passado, inclusive do passado recente. Quantas personalidades marcantes, quantas ideias, quanto pensamento vivo, quanta sabedoria portuguesa, quanta intuição sublime, foi atirada para o asilo do esquecimento!

Quanta ingratidão, quanta soberba, quanta miséria.

 

E não há uma alma que nos devolva o passado, que nos dê a conhecer o que de melhor e mais edificante foi construído ao longo dos séculos pelos nossos antepassados! Apresentem-me os meus avós, bisavós, tetravós! Quero conhecê-los e quero ouvi-los, quero saber o que pensaram e pensam ainda de nós, nós os que estamos perdidos, nós os que estamos desorientados nós que precisamos de um conselho e de uma direcção. Que é feitos dos "antigos"? Que é feito das suas ideias?! Ligamos a televisão, abrimos um jornal, passamos os olhos por uma revista e só vemos superficialidade descartável encenada por gente que veio ao mundo com o único propósito nefasto de nos distrair e confundir.

 

Resta-me a curiosidade individual e atomizada, sem método, aleatória, de buscar e aqui e acolá, ler esta passagem e aquela, sem guia, sem instrumentos, ao acaso, sem um fio condutor que não apenas aquele do meu parco entendimento filosófico...Ah, paciência, curiosidade e inteligência não me abandonem nunca , por favor, por que sois tudo o que me resta nesta existência orfã e faminta!

E sigo deambulando, solitária, pelo tempo histórico, colando os fragmentos do pensamento como quem cola pedaços de fotografias na tentativa de perceber a imagem total e ter uma ideia daquilo que poderá ter existido e que o tempo, na sua dinâmica inexorável, se encarregou, como é normal quando não há guardiões da memória, de apagar.

 

(publicado originalmente aqui)

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publicado às 15:13

Manifesto anti-Cavaco - 1995

por Regina da Cruz, em 11.10.13

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publicado às 22:06

Habilitações para ser ministro

por Regina da Cruz, em 11.10.13

Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado:

Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente, possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder... O poder não sai de uns certos grupos como uma pélcoa que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.


Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião e os dizeres de todos os outros que lá não estão - os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do País!

Os outros, os que não estão no poder, são, segundo sua própria opinião e os seus jornais - os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do País.


Mas, coisa notável - os cinco que estão no poder fazem tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se, conspiram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que puderem - os verdadeiros liberais, e os interesses do País!

Até que enfim caem os cinco do poder, e os outros, os verdadeiros liberais, entram triunfantemente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do País; entanto que os que caíram do poder se resignam, cheios de fel e de tédio - a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.

Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha sido por seu turno esbanjador da fazenda e ruína do País...

Não há nenhum que não tenha sido demitido, ou obrigado a pedir a demissão, pelas acusações mais graves e pelas votações mais hostis...

Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de dirigir as coisas públicas - pela imprensa, pela palavra dos oradores, pelas incriminações da opinião, pela afirmativa constitucional do poder moderador...


E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que continuarão dirigindo o País, neste caminho em que ele vai, feliz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, e num chouto tão triunfante!

Eça de Queiróz, As Farpas, 1871

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publicado às 21:07

Acesso à inovação terapêutica

por Regina da Cruz, em 09.10.13

Em Portugal os doentes, por questões economicistas, estão a ser privados de usufruirem de tratamentos inovadores. É tão simples como isto e é inacreditável ao que chegamos. Atingiu-se um ponto que eu jamais imaginei que pudesse ser possível atingir, como se tivéssemos andado estes anos todos a subir lentamente uma escada, degrau a degrau, e agora decidíssemos, cega e abruptamente, voltar atrás e deitar fora o trabalho e investimento de anos. É uma verdadeira regressão civilizacional!

 

Estamos a viver num tempo em que reina a arbitrariedade, a confusão, o descaramento. A inversão de valores, ou mesmo a sua perda, é total. Portugal está a afastar-se a passos larguíssimos dos padrões mínimos que permitem classificá-lo como civilizado. Curioso como as decisões erradas deste governo contribuíram para que este país se tornasse ingovernável. Sinto um país abandonado à sua sorte.

 

Para onde vai o dinheiro dos impostos?! Onde está a ser gasto o rio de dinheiro que todos os dias os portugueses enviam com sacrifício para os cofres do Estado? Que sorvedouro, que buraco negro é esse que suga e destrói os recursos que os portugueses saudáveis enviam para o estado na inocência de supor que quando um concidadão necessitar de tratamento, será tratado, sem olhar a folhas de excel?! Não foram os gastos com a saúde que trouxeram Portugal à bancarrota! Não foram os médicos que destruíram este país! Não foram, sobretudo, os doentes, que trouxeram o país à falência financeira e moral, não!

 

Parem, por favor, eu peço aos responsáveis políticos, secretários de estado, ministros,  administradores hospitalares e gente que pouco conhece de doenças (nem como tratá-las!) que por favor, parem com esta sacanice, parem de fazer pouco de quem não tem condições físicas para se defender. Já que vocês são tão fortes e poderosos, tão musculados com os fracos, metam-se com alguém do vosso tamanho, com a vossa força e com o vosso bom estado de saúde; metam-se, por exemplo, com os accionistas e ex-dirigentes do BPN, da SLN, com os que usufruem de reformas milionárias para as quais nunca descontaram; metam-se com aqueles que estão reformados do estado mas continuam a trabalhar; metam-se com os que acumulam regalias do estado, com os senhores das fundações e dos institutos que não sabemos bem o que fazem nem para que servem; metam-se com certos grupos de interesse que impedem a competitividade e encarecem a vida aos portugueses; metam-se com os juízes do tribunal constitucional! Metam-se, em última análise, com toda essa gente do aparelho do estado que está de boa saúde e que, para continuar a alimentar o seu estilo de vida não se importa que haja alguém a passar fome ou ameaçado de morte por uma doença, que tem tratamento, mas simplesmente não em Portugal.

 

Metam-se com este mundo e com o outro mas por favor, deixem os doentes em paz.

 

(Fiquem com esta notícia, que já tem quase 1 ano, mas continua actualíssima e é só a pontinha do iceberg... Desde o início do ano, como devem imaginar - ou não! - já muita água passou debaixo da ponte. Como vocês merecem, eu vou-vos pondo a par.)

 

ps.: pelos vistos, acabo de ser informada, o primeiro ministro esteve na tv a responder a umas perguntas... ele que venha aqui ao blog e responda às muitas perguntas que eu tenho vindo a fazer; olha, até pode começar por estas que eu fiz aqui em cima...

tá bem, tá...

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publicado às 23:09

Portugal de sempre

por Regina da Cruz, em 06.10.13

Encontrei este texto de Luísa Costa Gomes, publicado há mais de 20 anos, e acho graça como tão pouco parece ter mudado desde então. A parte que a autora dedicou à Língua é acertadíssima e profética, se a lermos à luz do (des)acordo ortográfico vigente. Gostei especialmente dessa parte e daquela em que se refere ao sistema político.

Aqui fica.

 

Luísa Costa Gomes sobre Portugal:

 

Um artigo enciclopédico que pode bem constituir um guia imprescindível para o visitante desse curioso, cómico e longínquo país. Tudo o que é preciso saber sobre a sua paisagem, geografia física, regime político, cultura, economia, gastronomia e anedotário.

 

Superfície: 90.082 metros quadrados; estima-se em dez contos por metro quadrado, o que está ao alcance de qualquer multinacional de porte médio. Portugal optou pela sóbria forma rectangular, rejeitando o bicudo barroco italiano, o quadrado do pastelão espanhol, a nódoa de territórios que alastram ao acaso sem rei nem roque. Sábio e prático a um tempo, e mesmo antes do tempo, Portugal escolheu, mais do que a forma rectangular simples, o rectângulo ao alto, permitindo contentar os que vivem no litoral — e constroem casas no interior, nunca muito longe — e os que vivem no interior, migrando para o mar, onde constroem casas. Sabe-se o resultado nefasto do rectângulo ao baixo, origem de insatisfação e muita desigualdade em colossos como o Não-Sei-Quantos (antiga União Soviética e mais antiga Rússia imperial) e os Estados Unidos da América. É verdade, alegarão, que também o Ghana e o Togo são rectângulos ao alto, mas aqueles têm uma nesga de mar que não dá sequer para Turismo, quanto mais para fazer História.

 

Capital: Lisboa. A cidade espaçosa e harmoniosa das literaturas do século passado atravancou-se de mostrengos que parecem desenhados por um bando de lunáticos megalómanos e coloridos por uma turma de crianças excessivamente normais. Predomina a arquitectura de arco e fresta, ombreando ostensiva com os escombros dos magníficos prédios que tiveram prémios. De longe, Lisboa é das cidades mais insinuantes do mundo, clara, ondeante, pousada no rio. Ao perto, um monte de ruínas ligadas por valas que são regularmente abertas e fechadas, ao ritmo do calendário eleitoral. Dir-se-ia que a parte mais séria da cidade é o subsolo, e que os governantes escavam, com irracional obstinação, à procura de tesouros, à procura de raízes.

 

Cenários Naturais: Quem for a Portugal à espera daquelas cenas refrigerantes de que Garrett falava nas Viagens, tem de ir pronto para trabalhar em abstracto. Não há colina que não apresente a sua fabriqueta malcheirosa, não há extensão em que não figure o aglomerado de prediozinhos castanhos de varandas anodizadas; naquelas vistas solitárias de outrora pôs-se um bairro de barracas, uma chaminé de fumo negro, um monte de sucata, um vazadouro de entulho onde branqueja a tabuleta "É proibido despejar entulho". Pelos campos, é a vivenda a protagonista, em todo o seu horror. Em vez de a esconderem em meio de discreto arvoredo, plantam a casa a meio metro da auto-estrada: e o viajante, a menos que vá de rosto escondido nas mãos e de cabeça apertada entre os joelhos, é forçoso que as veja. E mais à família, esparramada na varanda, debaixo do guarda-sol, depois do cozido, enquanto os meninos da casa, debruçados contra o aviso parental, contam os automóveis que vão na bicha. Dentro dos automóveis, as famílias discutem. Vêm de suas segundas casas, para as primeiras. A chegada, foi preciso limpar, desempoeirar, desentupir. A televisão estava húmida, não pegou. No dia seguinte, comeu-se demais ao almoço. Agora as crianças estão com sono. O calor enerva as famílias.

 

Clima: Já não é o que era. Curiosamente, os nativos continuam a imaginar que vivem num clima temperado marítimo, mesmo quando as temperaturas sobem para os quarenta graus em Julho. O conceito de estação do ano tornou-se obsoleto. O clima é, sobretudo, variável. Temos um dia de Inverno seguido de um dia de Verão, depois de um dia de Primavera que é um dia de Verão com um bocado de vento fresco. Num ano chove tudo, noutro não chove nada. Em Portugal, bate-se o dente de Norte a Sul durante os meses frios e fica-se perplexo e molemente indignado quando o termómetro passa dos quarenta; nada está preparado para lutar contra os elementos, ou sequer minorar os seus efeitos. E a pobreza, num clima variável, pode ser muito cruel.

 

Economia: Os analistas vêem nos Portugueses uma raça de pessimistas insaciáveis, sonhadores invertebrados, gente de fogachos que deixa tudo em meio. Mas um olhar sobre a imaginação dos Portugueses mostrará que, ao contrário, estamos em presença de um dos povos mais optimistas e mais facilmente silenciáveis do mundo; dir-se-ia, — e quem sou eu para presumir saber? — que o português ansiava pelo Universo, mas se contentava com um T zero a Santo António dos Cavaleiros. Hoje anseia por um T zero a Santo António dos Cavaleiros e contenta-se com ele. E, apesar de ser objectivamente um país pobre, bastou que o Pai da Pátria dissesse repetidamente aos eleitores que estavam ricos, para que eles, na sua candura e satisfação naturais, acreditassem. Até os torresmos ganharam outro paladar. Os Portugueses são pobres e não perdoam a ninguém. Abominam a sua pobreza, escondem-na, envergonham-se dela. É o concerto das nações que tem a culpa — e há-de pagá-las todas.

 

Sistema político: Aparentemente, é uma democracia. A oposição é da confiança do governo. Havia uns comunistas mas comeram-se uns aos outros. O povo em geral é da confiança do governo. Há um processo formal de eleições de vez em quando. A população é mansa e gosta sobretudo de ditadores magros, austeros e de modelo paternal forte. A ideia que o chefe deve veicular para convencer é a da sua eficiência. O Português preza-a acima de tudo, porque é um valor mítico que sabe não estar ao seu alcance.

 

Cultura: Dizem que houve, mas agora já não há.

 

História: É muito bonita. Os portugueses mantêm com ela uma relação ambivalente: desconhecem-na, por um lado, quase inteiramente — o que lhes permite uma mistificação que não é ingénua — e invocam-na para se desculparem dos descalabros dos séculos mais recentes. Paradoxalmente, sendo um dos povos de identidade mais forte e estabelecida da Europa, preocupam-se sobretudo com a questão metafísica da sua personalidade mítica.

 

Língua: Própria. A Língua Portuguesa veio do Latim, mas já foi há imenso tempo. Aos nativos, no entanto, parece não interessar absolutamente nada de onde é que ela veio, e, sobretudo, para onde é que ela vai. O português do ano dois mil — como hoje se prefigura — não terá formas complexas de qualidade alguma. A tendência simplificadora e redutiva que se afirma no vocabulário, na sintaxe e um pouco por todo o lado, fará desaparecer formas como, por exemplo, o saber-se-ia e o poder-se-ia, relegando o coitado do mesoclítico para o fim (saberia-se e poderia-se, se não mesmo saberiasse e poderiasse); a influência da colonização brasileira tenderá a tornar a pronúncia cada vez mais arbitrária e introduzirá estranhos termos arcaicos; dominarão formas de rufianismo linguístico, no pressuposto de que "desde que se entenda, está certo", tendendo a comunicação para o mais elementar dos grunhidos, apoiado pelo mais eloquente dos gestos. "Saberasme dezer por cades ir a Viana?" será, a curto prazo, uma expressão culta.

 

Gastronomia: A regra é simples: tudo o que é pesado, é português. Fritos, refogados bem puxados. Vinhos de cair para o lado. Um doce não é doce se não levar as vinte gemas da praxe. É tudo muito bom e tudo faz muito mal. Por via da sua Gastronomia, o verdadeiro dilema moral dos portugueses não é decidir-se entre o Bem e o Mal —para o português, o único valor moral que existe é o que lhe convém —, mas entre rebentar ou viver.

 

Anedota: Um homem morre e chega às portas do Inferno; em cada uma das entradas se afixaram as ementas de tormentos e o retrato do diabo responsável. O homem lê:"Guichet n° 1 — Inferno Alemão — Horário dos fogos: 9h-13h; 14h-18h. Gás da Companhia. Descanso semanal. Extras: roda de entortar, chicote, discursos políticos. Não se fazem devoluções." O homem espreita: só duas pessoas esperam junto do guichet.

Dirige-se à outra porta, onde se lê o menu do "Inferno Francês — Horário dos fogos: 9.30h-12.30h; 15h - l7.45h. Atendimento personalizado. O diabo-chefe deseja-lhe uma boa eternidade. Não franceses: é favor dirigirem-se ao guichet n° 1." O homem espreita: cinco pessoas esperam entrada naquele inferno.

O homem prossegue. Uma porta a que falta a maçaneta anuncia o "Inferno Português — Horário dos fogos: 7.30h-19.30h. Não fazemos intervalo para almoço. Fogos individuais, de grupo e colectivos. Patrulhas de hora a hora, chicote, censuras, culpabilização incluídos. Horrores nunca vistos. Última palavra em tecnologia da dor. Não se aceitam reclamações." Junto ao guichet aglomera-se uma multidão ululante, empunhando maços de documentos oficiais. Todos se empurram para entrar. Os mais velhos passam à frente, alegam dores nas costas, antiguidade. O homem relê o anúncio. Parece-lhe o inferno pior, o mais tenebroso, o mais ameaçador.

Chega-se a um pretendente que, na bicha mal-formada, grita para a frente o universal "Então essa merda não anda?". O nosso homem informa-o de que os outros infernos estão às moscas e são muito melhores, mais humanos. O alemão até faz descanso semanal. É então que o homem-da-bicha esclarece, apontando o guichet português que, às dez e meia, ainda não abriu: "Bem vê: aqui, o horário é mais terrível, mas, normalmente, não é cumprido; o mais das vezes não há gás para os fogos; os diabos jogam às cartas o tempo todo e deixam-nos descansados; havia umas chibatas e uns pingalins, mas desapareceram, diz-se que foi o superintendente que os vendeu aos alemães. E os horrores que eles anunciam são um dragão vegetariano a cair de fome e uma figura de cera do Marques Mendes que diz 'Portugueses!' com voz de falsete, quando se mete a moeda. Mas como nunca há trocos, mantém-se de olho semi-aberto e bico calado. E aquela da tecnologia da dor é um tipo magrinho que traz uns alfinetes, mas meteu baixa aí há três meses porque tem a mulher doente e não arranjaram substituto." E o neófito, convertido ao paradisíaco inferno português, integrou-se na bicha para pedir as minutas necessárias e tirar as cento e cinquenta e sete certidões, certificados, registos, cartões, bilhetes, cartas e fotos e poder, enfim, acolher-se à sombra daquele oásis de cândida ineficiência, fabricada com as mais altas intenções.

 

Ler 19, 1992, pp. 50-51.

 

 

Retirado do site LUSOMANIA, onde se encontram outros textos satíricos que vale a pena ler.

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publicado às 15:26

Não pactuarás com o Mal

por Regina da Cruz, em 05.10.13
Moral da história: há sempre lúcidos no meio da escuridão e que se recusam a pactuar com o que está errado.
(também aqui)


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publicado às 13:09

Repto*

por Regina da Cruz, em 05.10.13

Portugal está sob assistência financeira e tem regularmente uma equipa de consultores a visitarem-no com o objectivo de providenciar aconselhamento. O Fundo empresta dinheiro e como "bónus" temos acesso a uma equipa técnica que ensina a extrair o máximo valor de cada euro. Pelo caminho, há uns exames para ver se a malta está a perceber a matéria e a aplicá-la. O material de estudo, as sebentas, são uns relatórios e uns pareceres técnicos escritos de forma muito clara e objectiva onde se encontra "a papinha toda feita" - quem me dera, enquanto estudava, ter tido a vida tão facilitada como estes senhores governantes sem qualidade nenhuma que nos calharam na rifa democrática! Mas eles parecem simplesmente incapazes de aproveitar a benesse que os portugueses estão a pagar a peso de ouro. Faz lembrar aqueles meninos ricos que têm tudo, todas as explicações e todos os livros, todos os recursos e materiais e mesmo assim tiram notas fracas por que simplesmente não querem saber (ou são mesmo burros).

 

Hoje acordei com vontade de escrever no motor de busca do google as seguintes palavras: "Portugal healthcare budget expenditure", para ver o que aparecia. E apareceram algumas coisas interessantes logo nos lugares cimeiros e mais em baixo, na décima entrada, um pdf intitulado: "Portugal: Rethinking the State—Selected Expenditure Reform Options". Trata-se de um relatório do FMI, datado de Janeiro de 2013 e que enumera, de uma forma muito lógica, racional, bem articulada e claríssima como água, os diferentes sectores do estado que têm de ser reformados e que estão a puxar este país para baixo, atrasando-o desnecessariamente.

 

Eu, uma crítica acérrima do FMI (toda a instituição tresanda a bafio socialista!), não posso no entanto deixar de dar valor a um documento bem produzido, objectivo, organizado e num inglês escorreito. Aconselho vivamente a sua leitura.

 

Ainda só tinha chegado à página 13 e já estava rendida à escrita. Quem diria? De repente senti-me cativada pelo documento técnico como por um Dostoiévski! A explicação é simples: está lá tudo. Nessa mesma página lê-se no ponto 10, relativo à secção da Reforma de Despesa, o seguinte:

 

Public sector pay and employment policies need to emphasize competitiveness and providing value for money to the population.
A modern enabling state needs to be on par with the private sector in the way it operates—it cannot be seen as sheltering privileges for itself, either in the form of employment conditions or remuneration. Internationalexperience is not encouraging: on aggregate, public sector jobs pay too much.11 The reform of public sector pay and employment can boost economic growth by helping reduce private sector labor costs.12


Ou seja, o óbvio. Qual Constituição qual carapuça: é preciso fazer o que precisa ser feito, sem desculpas e JÁ!

 

Este governo está 3 anos atrasado para começar a reforma do estado.

Portanto, o meu repto, no sentido de dar uma ajudinha a esta cambada de PANHONHAS que nos estão a "governar" é que algum mecenas pegue neste belo relatório, o traduza para português pré(-acordo ortográfico), o imprima e distribua por Portugal de norte a sul e ilhas! Que não haja caixa do correio, limpa-párabrisas nem sala de espera isentos da presença deste texto oficial e produzido pelos fulanos que estão a financiar o país (em bom rigor, a financiar *o* sector público com os juros pagos por TODOS os portugueses).

Isto não é brincadeira nenhuma, chega de brincar às oposições e aos partidos. Chega!

Só assim, com a tomada de consciência por parte dos portugueses de quais os problemas e como resolvê-los, se conseguirá derrotar as forças que estão a impedir, a bloquear a prosperidade deste país.


*Se eu falasse português de "autárquicas" este post lançaria um "réptil" a algum mecenas.
Agora que esse episódio terminou e os autarcas simples estão tranquila e ignorantemente instalados nos seus poleiros, a vida segue como dantes.
É esse o problema.


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publicado às 09:18

Autárquicas: a minha breve análise

por Regina da Cruz, em 30.09.13

Num país endividado e sem soberania, cristalizado na mesma forma de fazer politiquice, chupado até ao tutano pelas mesmas sanguessugas de sempre, anémico, cadavérico, com uma administração central gordíssima e habitada por gente que só quer direitos, com um sistema eleitoral ineficiente, com uma constuição caduca e na qual as gerações mais novas não se revêm... 

 

 

     ...ACHAM MESMO QUE HOUVE ALGUM VENCEDOR?!

 

 

Nesta imensa farsa que é Portugal é impossível haver vencedores. Há apenas e só vencidos e cada vez em maior número.

A todos os políticos e aspirantes, wannabes da parangona, rapadores de tacho, eu digo: tenham decoro. É o mínimo.

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publicado às 17:17

Maior despesa igual a menor mortalidade

por Regina da Cruz, em 30.09.13

Cumprindo a promessa de escrever sobre a saúde, abro as notícias hoje e vejo uma notícia que me agrada sobremaneira não tanto pelo assunto per se, que é sempre trágico, mas por que constato que foi publicado um estudo que comprova aquilo que era até hoje uma observação empírica. Agrada-me o conceito de Medicina Baseada na Evidência. Aliás, por vezes considero que seria benéfico a própria política começar a basear-se na evidência - será um tópico a desenvolver futuramente.

 

Decorre neste momento em Amsterdão um dos Congressos mais importantes de Oncologia (para os curiosos, vejam aqui) e é sempre um momento alto dos investigadores e médicos pois as novidades e notícias são mais que muitas e hão-de alimentar as conversas entre os cientistas durante os próximos meses. São encontros pautados pela excelência.

 

Num dos painéis do Congresso foi apresentado o resultado de um estudo que relaciona a quantidade de recursos investidos na saúde com aquele que é o derradeiro índice de qualidade do sistema de saúde: a mortalidade. Quem trabalha em saúde habitua-se a pegar nos artigos, passar pela introdução e pelos métodos na diagonal e ir directo ao assunto: a discussão e conclusão. A pergunta que habita os espíritos é quase sempre a mesma: "Mas depois disto tudo, morre-se menos?"

 

Como a peça jornalística está sucinta e bem escrita limito-me a retirar aquela que me parece mais pertinente, que é a conclusão:

 

"quanto mais dinheiro se destina à saúde, menor é o número de mortes após o diagnóstico de um cancro e que esta relação é "mais evidente" no caso do cancro da mama. Os investigadores também observaram que, apesar de todas as iniciativas para harmonizar as políticas sanitárias públicas, existe uma "diferença significativa" entre o gasto sanitário e a incidência de cancro nos 27 estados da União Europeia, que é ainda mais clara entre os países europeus orientais e ocidentais."


Este é só mais um argumento para se defenderem políticas públicas de saúde pois, sabemos bem, quando a saúde se transforma num negócio puro e simples, há os que podem e os que não podem pagar os cuidados de saúde e sobretudo verifica-se da parte dos diferentes prestadores de serviços ( e aqui refiro-me aos privados) um fenómeno que é perverso quando o lucro é um objectivo: as poupanças a todo e qualquer custo. 

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publicado às 12:10

Setembro, chuva e música

por Regina da Cruz, em 29.09.13

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publicado às 08:45

Lembram-se?

por Regina da Cruz, em 22.09.13

"O ministro das Finanças fixou um dia para o regresso de Portugal aos mercados financeiros. De acordo com Vítor Gaspar, será a 23 de setembro de 2013, uma segunda-feira."

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publicado às 19:10

A democracia democratizou-se

por Regina da Cruz, em 22.09.13

 

Para todos aqueles que estão impressionados com o grau de boçalidade e amadorismo dos cartazes da miríade de candidatos às autarquias eu digo: bem-vindos ao Portugal real! 

Esta é a gente que faz a base que sustenta este país. Quantas vezes após ouvir os sketches do Gato Fedorento, eu abanava a cabeça num gesto lento e comprometido, apertando nos lábios um sorriso matreiro a querer escapar, dizendo: “A forma de falar do matarruano é igualzinha à de um tio meu…” Bem, na verdade, igualzinha à forma de falar de vários tios, padrinhos, pais e avós de muita gente que eu conheço. E até vos digo que houve muitos momentos em que nem achei tanta graça assim aos saloios que eram caricaturados pelo grupo de humoristas: é que a realidade rural, para quem cresceu com ela, é bem mais divertida, caricata e surreal: é inimitável! Mas tudo bem, para os tipos da cidade, muito urbanos e cosmopolitas, pouco acostumados a lidar com fauna autóctone, acredito que tenha funcionado como uma revelação hilariante. 


No entanto, creio que os consumidores de humor, citadinos, snob, yuppies e muito kosher, mantiveram na cabeça a ideia que aqueles personagens não passavam de uma ficção; que aqueles *bonecos* não passavam de uma caricatura exagerada de uma minoria diminuta e em vias de extinção. E eis senão quando chegamos à campanha para as autárquicas de 2013. De repente toda essa gente que alguns julgavam recôndita sem visibilidade surge estampada em cartazes, sem maquilhagem nem Photoshop, com olheiras, manchas, rosácea e cabelo desgrenhado,  a escrever como falam, vestidos com a roupa de domingo. Um espectáculo de descontracção tão cândido como absurdo. Desconcertante.

 

Poderão alguns perguntar o que é feito das agências de comunicação e que isto tudo é um espectáculo péssimo, meu deus, de onde saíram estas aves raras e todas estas mulheres? Agora as mulheres estão também na política local?! Deve ser aquela coisa da igualdade… agora tem que ser tudo igual, mesmo que seja intrinsecamente desigual. Fica sempre bem ter mulheres num cartaz, é como uma moda. Pelo menos uma! Cai bem… E muito independentes! O que está a dar é ser independente! (mesmo tendo-se um passado político, mesmo sabendo-se que as ideias são todas iguais às de outrora e que os métodos para aplicar essas ideias serão sempre os mesmos, mesmo que o dinheiro que paga os cartazes seja do mesmo sítio de onde sai todo o dinheiro para estas coisas…)

 

Sejamos francos: quem é realmente independente e assim se quer manter, não ambiciona exercer cargos políticos de qualquer espécie. Estar na política é estar comprometido.

 

Pessoalmente acho tudo isto delicioso e estou maravilhada. Gosto da naturalidade, da verdade, sem maquilhagem, sem spin doctors. A realidade é o que é: para quê dourar a pílula? No final, quando cai a máscara, quando se descasca o verniz, constatamos sempre a mesma mediocridade. Nestas eleições não há expectativas e não há surpresas. Ao menos sabemos ao que vamos. Digamos que será um voto por amor e não por interesse - os candidatos não têm interesse nenhum!

 

Finalmente, os proponentes da democracia têm o prazer de ver o sistema funcionar em todo o seu esplendor. Depois dos 15 minutos de fama para o povão, temos os quatro anos de mandato. Andou-se a fazer por isso… Teremos as câmaras e juntas ocupadas e “governadas” pelos espectadores do Big Brother e do Você na TV, os ávidos leitores da “Maria”, groupies de Tony Carreira. Gente para quem um filme Clássico é o Amo-te Teresa ou aquele do… como é que é? - aquele de porrada - o do Stálóne!

 

 

Meus caros amigos leitores, eventuais compatriotas: alegrai-vos! Para quem não sabe para onde vai qualquer destino serve e o fundo serve-nos na perfeição. Gosto quando se bate no fundo pois significa que em seguida só poderemos subir. Ou não. Tanto faz.

 

Enquanto houver dinheiro vamos ter de assistir a este triste espectáculo decadente e a muitos outros que ainda hão-de vir. É o que temos.

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publicado às 15:01

"Esforço começa a dar sinais" (Paulo Portas)

por Regina da Cruz, em 22.09.13
...de um segundo resgate. (Pedro Passos Coelho)

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publicado às 13:12

De ir às lágrimas!

por Regina da Cruz, em 15.09.13
Vão ao blog do Ricardo Campelo de Magalhães se quiserem espreitar um conjunto de "tesourinhos deprimentes" das Autárquicas 2013.
Ai mãe!

(Link do blog: http://campelodemagalhaes.wordpress.com/ )

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publicado às 19:29

Crónicas da Saúde: o Serviço Nacional de Saúde

por Regina da Cruz, em 14.09.13

Ao longo dos próximos tempos irei escrever sobre a saúde. É um tema apaixonante e que me é caro virtude da minha formação académica. Ultimamente tenho (temos) vindo a assistir a uma reestruturação do sistema de saúde português cujos resultados só daqui a alguns anos poderemos aferir com clareza. Pressionados pelos credores a saldar as dívidas contraídas ao longo de anos pelo estado português, todos os portugueses estão a ser chamados a pagar em barda e a qualquer custo, sendo que uns sentem com muito mais intensidade os efeitos desta urgência do cobrador do fraque!

Os impostos aumentaram de forma exponencial mas os serviços prestados pelo estado, para os quais supostamente pagamos todos estes impostos, estão a diminuir. O dinheiro dos portugueses está a ser usado para pagar dívidas e juros de dívidas. O que ficou muito claro desta pressão sobre Portugal é a sua tremenda falta de capacidade negocial e a sua falta de visão estratégica. Parece-me que mais uma vez o governo de Portugal traiu os seus cidadãos. Mas um país que vende a sua soberania por se mergulhar em dívida mais não pode fazer que sujeitar-se à lei do credor, à lei do mais forte.

Podemos e devemos perguntar se poderíamos ter feito as coisas de forma diferente no entanto sabemos que o Portugal moderno tem aversão a fazer o que é diferente e portanto suspeito que enveredaríamos por discussões demasiado teóricas e carregadas de "ses". Este governo de horizontes estreitos e "bom aluno", ou melhor, "pobrezinho mas orgulhoso" é o que temos e, manda o pragmatismo, que trabalhemos com o que temos. É esta a matéria-prima. Resta-me sugerir um plano de contingência, em género damage control. Até porque este governo não é mais que um prolongamento, uma emanação da sociedade portuguesa no seu geral a qual está muitíssimo bem representada por esse documento fossilizado que é a Constituição da República Portuguesa. Como não podemos mudar o povo (que até nem é o pior) e como pelos vistos não é possível tocar na sacrossanta Constituição, a qual suspeito que tenha sido escrita pela mão de Moisés, accionemos um plano de Conservação daquilo que funciona. À boa maneira conservadora, diria mesmo.

Falo do Serviço Nacional de Saúde. Vemos hoje o Ministério da Saúde não só a cortar no que deve e, de forma arrepiante, a cortar no que não deve. Esta é a triste sina deste país: oscilar vertiginosamente entre o oito e o oitenta. Adiar o que é difícil e mexer no que é fácil. Com a falta de dinheiro aflora a falta de discernimento na definição de prioridades. Continua-se a ter 230 deputados na AR, faltam medicamentos nos hospitais.

Prioridades.

Tratando-se da saúde eu sou levada, pelo que tenho assistido, a alertar de que os cortes estão a ir longe demais e a desfigurar o SNS; receio que se esteja a comprometer a qualidade da prestação de cuidados de saúde, o que me inquieta e aflige. Vejo situações a acontecer de que eu jamais suspeitaria quando vi Paulo Macedo nomear um secretário de estado que é médico hematologista. É que se existe um e um só serviço público que eu acho que deve ser mantido é o serviço nacional de saúde e por uma razão muito simples: é o único que funciona bem. Não destruamos algo que funciona e que presta um valiosíssimo serviço à sociedade. Não desprezemos uma instituição que é fruto do trabalho e dedicação ao longo dos anos de tantos médicos, enfermeiros e farmacêuticos que de forma dedicada construíram aquele que é hoje (ou pelo menos, o era antes da crise, certamente) um dos melhores serviços de saúde a nível mundial.

Um pequena pequena busca no google devolve inúmeros estudos em que se comprova o que acabei de dizer. Saliento o mega estudo realizado pela Organização Mundial de Saúde no ano 2000 e que posiciona o SNS português, por performance global, em décimo segundo lugar. Como aprecio o contraditório e por ter consciência que o estudo levado a cabo pela OMS foi deveras ambicioso, e por que os resultados de qualquer estudo de qualquer organização são sempre passíveis de crítica, referencio também o estudo do professor Robert Blendon publicado na revista Health Affairs (volume 20, número 3, ano 2001) no qual, ponderada a satisfação (parâmetro subjectivo) dos grupos de cidadãos das categorias "idosos" e "pobres", posiciona o SNS português em décimo sétimo; nada mau, diria eu, atendendo a que perguntaram a dois grupos de *portugueses* inclinados para a insatisfação (viés) (ver resposta/crítica a este estudo publicado por Murray et al nesta mesma revista).

Qualquer que seja o ângulo de que olhemos, os resultados são muito positivos, estaremos algures entre um décimo segundo e um décimo sétimo, uma grande vitória conseguida num curto espaço de tempo (40 anos aproximadamente). Por vezes encontro aquelas pessoas que por estarem cansadas das asneiras dos políticos (e são muitas!) acham que tudo o que é público é necessariamente algo a destruir. Confundem os políticos e a dimensão absurda do sector público português com a coisa pública em si, o que é um erro grosseiro. Por vezes chego a cruzar-me com defensores de um sistema de saúde totalmente privatizado e gerido por gestores e seguradoras. Confesso que tenho pouca paciência para cegueiras ideológicas de todo e qualquer tipo.

O facto de eu conhecer como funciona, por exemplo, o sistema de saúde norte americano ou pelo privilégio que tive em trabalhar a àrea da Nefrologia, onde tomei conhecimento dos estudos que comparam as taxas de mortalidade das clínicas de diálise privadas versus públicas nos EUA, com resultados alarmantes para as primeiras, fez-me tomar consciencia que na saúde há limites ao "negócio" que devem ser estabelecidos, especialmente na saúde; é que o ser humano não é um ser bom: deixem-no livre e à solta, a obedecer somente aos seus "deuses" e apetites e num instante verão na besta em que se transforma! É a lei do mais forte o que, no nosso tempo, equivale a dizer de quem tem e faz mais dinheiro. Ética?! O que é isso?! Tem alguma sorte Portugal, dada a sua tradição mariana, de manifestar ainda alguma fraternidade genuína, sobretudo nas gentes de outros tempos. É coisa para se extinguir a curto-prazo.

E por que falei da nefrologia, recordo-me de uma reflexão do doutor Pedro Ponce quando nos lembrava, no âmbito de uma reunião dedicada ao tema do cuidado a doentes frágeis, das diferenças fundamentais entre um utente e um doente. Dizia ele, e relato de memória, que um utente é uma pessoa que utiliza um serviço, que goza de relativa saúde, que tem uma opinião, que tem reivindicações, que sabe o que quer, que reclama, que paga taxas moderadoras, etc; já um doente é um ser um pouco diferente. Ou seja: quando o utente adoece a coisa muda de figura: já não há tantas certezas, há medo e há fragilidade. O utente quer melhores serviços o doente, esse, quer viver.

O drama das reestruturações da saúde passa por isto mesmo: as regras e leis são feitas por pessoas que se encontram num status muito diferente daquelas que vão utilizar os serviços de saúde. Receio que um dia olhemos para trás no tempo e suspiremos pelo Serviço Nacional de Saúde. Já estou a imaginar uma reunião de sobreviventes do cancro tratados pelo serviço nacional de saúde, quando havia serviço nacional de saúde...

É que não há mesmo dinheiro que pague a preservação da saúde e em última análise, a continuidade da vida. Eu estou disposta a pagar para que os meus concidadãos tenham acesso a um serviço universal de saúde, gerido da forma mais eficiente possível por profissionais de saúde devidamente auxiliados por gestores, e não o contrário, na defesa intransigente do superior interesse dos doentes. Estou disposta a pagar um SNS e a nunca o utilizar: será sinal de que não preciso.

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publicado às 08:37

Será que é desta?!

por Regina da Cruz, em 13.09.13
Ministro da Economia afirma que o Estado deve reduzir a estrutura de custos para aliviar o quadro fiscal dos portugueses
Perante os bons sinais da economia, António Pires de Lima diz que depois do esforço das empresas e do ajustamento que as famílias fizeram é agora a vez do Estado fazer a sua parte, ou seja reduzir a estrutura de custos para aliviar o quadro fiscal aos portugueses. Declarações de António Pires de Lima, ministro da Economia.
12-09-2013 - TVI - Diário da Manhã

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publicado às 14:10






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